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Tópicos para reflexão sobre a identificação e desenvolvimento de talentos

“Um domingo sem futebol, transforma-se, para muita gente, num episódio burlesco, porque já não sabe viver sem a dialética tensional e criadora do desporto-rei” (SÉRGIO, 2008a, p. 138)

Na tentativa de detectar e desenvolver, com sucesso, jogadores que são mais passíveis de ser tornarem estrelas no futuro, isto é, meras esperanças a jogadores de elite, os clubes investem significantes quantias de dinheiro, sendo essa identificação realizada, por vezes, numa idade prematura como os 6-8 anos de idade (HELSEN et al., 2005). Esta situação decorre da ideia de que tal desenvolvimento pressupõe que os jogadores recebem treino especializado que, por seu turno, acelere o processo de desenvolvimento de talento (WILLIAMS e REILLY, 2000).

Desta forma, teoricamente, não seria de prever que os clubes mais ricos tivessem sempre os melhores jogadores, por exemplo, quando chegam à categoria de sub-19? Se um clube compra muitos jogadores, significa que os seus processos de observação e/ou desenvolvimento não são os mais corretos? Mas porque será, no caso da Europa, necessário ir buscar tantos jogadores a África e à América do Sul, havendo tantos jovens que praticam futebol no continente europeu?

Talento somente inato ou somente adquirido?

O termo “talentoso” é usualmente utilizado como sinônimo de “dotado”, verificando, portanto, um dom ou talento que se possui, não se aprende a ter, mas a verdade é que nunca se encontraram indicadores de predição seguros, que garantissem, antecipadamente, o desempenho excepcional na alta competição (ARAÚJO, 2004).

Como se explica o fato de muitos atletas excepcionais nunca terem manifestado sinais precoces de um talento incomum? E entre aqueles jovens que os tenham manifestado, porque é que muitos deles nunca chegaram a peritos, ou a atletas de alto nível? Por exemplo, o Professor João Barnabé referiu no 1º Seminário organizado pelo Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, que o ex-internacional português Luís Figo (127 internacionalizações e melhor jogador do mundo em 2001), surgiu no Sporting Clube de Portugal com 12/13 anos, com cerca de 1,30 metros, 30 quilogramas, não tendo sido referenciado por nenhum observador (acompanhava um amigo ao treino). O treinador nunca imaginou que o atleta poderia vir a atingir o nível que atingiu, enquanto, pelo contrário, afirmou ter tido esperança em outros jogadores que não atingiram o alto nível referindo que, possivelmente, tal não aconteceu devido a “outros fatores” intermédios dos quais o processo está dependente.

Processo de identificação e desenvolvimento e indicadores de talento

A identificação de talentos, no desporto, é um fenômeno que existe desde os anos 60′ e início dos anos 70′, que se acredita ter levado à obtenção de resultados estrondosos durante os Jogos Olímpicos de 1972, 1976 e 1980, por parte de países do “Bloco de Leste Europeu”, sendo que, por exemplo, 80% dos medalhistas búlgaros nos jogos de 1976 foram resultado de um processo de identificação de talentos (WOLSTENCROFT, 2002). Os mesmos autores afirmam que, esta aproximação tradicional acabava por ser uma “seleção natural de indivíduos já implicados num dado desporto”. Mas pode-se criticar estes processos? Se sim, numa análise mais objetiva, não foram conseguidos os objetivo finais, que se remetiam ao alcance de medalhas? Se não, deixamos de abrir espaço para outros atletas que simplesmente não dispõem das condições suficientes para praticar desporto, ou excluímos do processo atletas tidos com potencial, mas que simplesmente são maturalmente menos evoluídos? Será importante obter um equilíbrio entre o sim e o não?

Na perspectiva física

Os indicadores físicos de talento, relacionados com o desempenho, assentam em indicadores antropométricos, como por exemplo, a estatura, o peso, a composição corporal, o diâmetro ósseo, o perímetro dos membros, entre outros. As implicações da predição de futuros jogadores de elite, com base nestas medições podem ser irrealistas, nos grupos mais jovens, pois o desempenho poder ser diferenciadamente afetado pela taxa de crescimento físico e maturação dos jogadores (HELSEN et al., 2005; WILLIAMS e REILLY, 2000). Desta forma, modelos que assentem em medidas físicas e antropométricas apenas resultariam, se as medições das variáveis chave ocorressem assim que se soubesse que os valores relativos de medição entre indivíduos eram estáveis (WOLSTENCROFT, 2002).

Por exemplo, uma diferença na idade relativa de 12 meses pode resultar em variações antropométricas significantes que verifica haver em jovens jogadores (2175) de 10 países da Europa uma sobre-representação de jogadores nascidos no primeiro quarto do ano de seleção (de janeiro a março) para todas as seleções nacionais jovens, dos sub-15 aos sub-18, e os autores concluíram que os jogadores com maior idade relativa (tendo em conta as diferenças em relação ao mês de nascimento), são, provavelmente, mais identificados como “talentosos”, devido às prováveis vantagens físicas que têm sobre os seus colegas relativamente mais “novos” (HELSEN et al., 2005). Estas diferenças foram menos notórias no futebol feminino, presumivelmente, devido ao fato de as mulheres maturarem mais cedo do que os rapazes, tornando as assimetrias nas distribuições das datas de nascimento das jogadoras menos aparentes.

No futebol, outros fatores como a tomada de decisão diminuem a significância das variáveis físicas que, apesar de fazerem parte da totalidade de uma realidade que se tenta compreender, é incapaz de distinguir as diferenças entre vencedores de uma final (WOLSTENCROFT, 2002), por exemplo, da Liga dos Campeões.

Na perspectiva fisiológica

Referindo-se a estudos que encontram superioridade fisiológica em relação ao aporte máximo de oxigênio (VO2máx), potência anaeróbia, força do tronco, volume cardíaco (absoluto e relativo), em jogadores de sucesso (11 a 17 anos), comparando com jogadores da mesma faixa etária de menor sucesso, Williams e Reilly (2000), referem que há possibilidade de que nesses estudos, parte da superioridade fisiológica dos jogadores de sucesso se tenha ficado a dever a uma passagem dos jogadores por uma abordagem mais sistematizada do treino, antes da introdução dos mesmos nas equipas jovens especializadas.

Vejamos agora um ponto de vista diferente, que o treinador José Mourinho dá, relativamente à velocidade, referindo-se a um famoso velocista português Francis Obikwelu (medalha de prata nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004), e ao jogador Deco:

“É muito rápido [Obikwelu] e não conheço nenhum jogador de futebol que o consiga igualar numa corrida de 100 metros. No entanto, numa partida de futebol, 11 contra 11, julgo que o Obikwelu seria o mais lento! (.) Se o colocássemos [Deco] numa corrida de 100 metros com os homens do atletismo ele faria uma figura ridícula. É descoordenado a correr, não tem velocidade terminal, muscularmente de certeza que está carregado de fibras de contração lenta e nada de fibras de contração rápidas. No entanto, num campo de futebol é um jogador dos mais rápidos que conheço, porque a velocidade pura não tem nada a ver com a velocidade no futebol. (.) Nesta forma de analisar a velocidade, um jogador lento do ponto de vista tradicional é, afinal, um jogador rápido numa perspectiva complexa, porque se vai deslocar numa altura em que os outros não esperam, num momento correto, num momento em que o companheiro com a bola precisa que ele se desloque” (LOURENÇO, 2010, p. 42).

Na perspectiva psicológica

Os investigadores ainda não identificaram um inventário psicológico que ajude a selecionar jogadores com maior ou menor potencial, sendo improvável que qualquer simples inventário tenha um completo poder preditivo, pois as habilidades psicológicas podem estar altamente propensas a modificação, por meio de treino especializado (WILLIAMS e REILLY, 2000). Verifica-se também que nos casos em que existem diferenças de maturação física entre jogadores, como resultado do efeito da idade relativa, estas podem coincidir com uma maior maturidade psicológica dos mais avançados, relativamente aos seus homólogos (HELSEN et al., 2005).

Num estudo sociológico efetuado com oito treinadores das seleções nacionais jovens da Dinamarca, Christensen (2009) examinou o modo como os mesmos identificavam o talento e verificou que as qualidades pessoais, relativas ao ver e conhecer o jogador como pessoa, eram vistas como significantes para um posterior desenvolvimento de talento (ex.: de um treinador: “Vi tantos talentos que eram realmente tão bons, mas que não tinham o mentalmente necessário ou apenas não o desejavam o suficiente (.). Tens que estar disposto a colocar outras coisas de parte para te tornares verdadeiramente bom, tens que ter alguma humildade, em geral, face ao jogo (.) olhar um pouco mais para a frente, que apenas para o próximo jogo”. Pertencia ao construto dos treinadores a ideia de que o talento ideal é possuidor de uma “personalidade autotélica” (CSIKSZENTMIHALYI in CHRISTENSEN, 2009), isto é, tem a habilidade de se concentrar e focar no desempenho imediato, “jogar seriamente” e ser treinado independentemente das “boas” ou “más” percepções das estratégias de ensino que os treinadores possuem. Apesar desta possível existência de uma “personalidade autotélica”, imagine-se a quantidade de diferentes personalidades presentes num típico clube profissional de topo e o potencial histórico-cultural que lhe está subjacente! Cada atleta tem as suas vivências, é único. Diz o professor Manuel Sérgio (2008a, p. 138), referindo-se ao “diálogo” existente num jogo de futebol, mas que pode ser transferida para o diálogo dentro de uma mesma equipa: “Um jogo de futebol, como qualidade relacional, diz-nos isto, precisamente: o outro existe e deve ser respeitado como outro!”.

Vejamos agora o que o jogador internacional português Deco relata, da sua visão da gestão psicológica que José Mourinho fazia do seu grupo de jogadores: “ele conseguia ter a percepção de como cada um funcionava e usava isso em prol do grupo.” (LOURENÇO, 2010, p. 146). O jogador refere-se também a um caso concreto, daquilo que pensa ter sido a gestão de Mourinho em relação ao jogador internacional português Maniche:

“Antes de um jogo importante (.) em que o Mourinho sabia que precisava dele, porque era um jogador fantástico (.) um ou dois jogos antes, no campeonato, Mourinho tirava-o da equipe e sentava-o no banco. O Maniche era um jogador muito explosivo e ficava ‘cego’ por ir para o banco, resmungava, dizia mal da vida e do treinador (.) Mourinho queria provocar o Maniche, e o fato é que conseguia sempre o efeito pretendido. O Maniche ficava ‘cego’ e depois, na altura de regressar, revoltado com a situação, ia sempre com a ideia de fazer o melhor jogo da sua vida.” (LOURENÇO, 2010, p. 145-146)

Inteligência de jogo e habilidade do jogador

Vejamos o ponto de vista do treinador José Mourinho, referente à diferença entre velocidade de corrida (ex.: 100 metros) e velocidade no futebol:

“A velocidade no futebol tem a ver com a análise da situação, de reação ao estímulo e capacidade de identificá-lo. No futebol o que é o estímulo? É a posição no campo, a posição da bola, é o que o adversário vai fazer, é a capacidade de antecipar a ação, é a percepção daquilo que o adversário vai fazer, é a capacidade de perceber que espaço é que o adversário vai ocupar para receber a bola sozinho (.) o homem é um todo complexo no seu contexto.” (LOURENÇO, 2010, p. 42)

Numa análise em que se investigue o grau de coordenação perceptivo-motor e se verifique como o mesmo faz emergir padrões de movimento refinados e eficazes, é notório, que o desempenho perito surge como consequência de anos de treino intenso e sistemático e que, com os anos, esse desempenho fica mais constante e eficiente, e menos centrado nos aspectos motores (mais “automático”) (ARAÚJO, 2004). Desta forma, talvez deva ser dada maior atenção às habilidades técnicas e táticas, quando da seleção de jogadores, em oposição à dependência excessiva nos indicadores físicos, como a altura, (HELSEN et al., 2005) pois é a capacidade do indivíduo detectar e usar a informação contextual para alcançar os seus objetivos, que torna a sua ação eficaz num dado contexto (ARAÚJO, 2004).

Na perspectiva sociológica

Williams e Reilly (2000) referem que, por exemplo, famílias financeiramente estáveis tendem a fornecer maior suporte financeiro e maior mobilidade e flexibilidade de transporte, aos seus filhos ou familiares. De fato Côté (1999) referiu que o apoio dos pais e uma atitude positiva face ao envolvimento da criança no desporto parecem ser muito importantes durante todo o período de crescimento.

Outros atores sociais do contexto do crescimento dos talentos são os professores e os treinadores. Christensen (2009) desafiou a assunção, usualmente aceite, que a identificação de talentos por parte dos treinadores é um processo racional ou objetivo, enquanto Williams e Reilly (2000) afirmam verificar-se que os clubes profissionais assentam na avaliação subjetiva dos observadores e/ou treinadores, suportada por uma espécie de “lista de compras” de critérios chave como [abreviaturas do Inglês] TABS (Técnica, Atitude, Equilíbrio, Velocidade), SUPS (Velocidade, Compreensão, Personalidade, Habilidade) e TIPS (Talento, Inteligência, Personalidade, Velocidade).

Christensen (2009) perguntou a um dos treinadores do seu já referido estudo, o que normalmente tem escrito no final dos jogos, ao que o mesmo respondeu que “normalmente, apenas nomes e nada sobre qualidades”. Os detalhes e as qualidades permaneceram um sentimento (feeling) e uma experiência perceptiva na qual ele baseou o julgamento do jogador. Em particular, os treinadores utilizaram frases como “eu consigo ver” e “eu vi”, quando descreviam a forma como selecionavam jogadores talentosos. Para estes treinadores, o talento é algo que parece bem. Um treinador afirmou que “é essencial que tenhas algumas fotos (mentais) que de alguma forma evoquem uma resposta; algo que te lembre do que o Michael Laudrup fazia quando tinha 16 anos quando o vi a jogar pela primeira vez. Algo que viste antes e que foi bom. A isso é o que eu chamo ter uma visão”.

Reflexão

Pode-se dizer que muitos dos estudos que existem não são adequados do futebol e bastará verificar essa situação nos exemplos de José Mourinho, que no entender de Sérgio (2008a, p. 140) implantou uma grande mudança de paradigma no treino desportivo através da “operacionalização do todo”, tendo entrado “no futebol altamente competitivo como uma rajada impetuosa de metodologias inovadoras”.

Os treinadores das seleções dinamarquesas do estudo de Christensen (2009) referiram que para além das qualidades pessoais e das competências de jogo, a inteligência de jogo é uma variável a considerar, mas não pode ser medida isoladamente ao jogar o jogo e está relacionada com as escolhas inteligentes em contexto de jogo formal ou reduzido. Verificamos que estes contextos são incertos, mas não os poderemos apelidar cientificamente de “acasos” só porque a ciência tem dificuldades em isolar as suas variáveis, pois a verdade é que é neles que os desempenhos dos jogadores ocorrem, da mesma forma que não poderemos apelidar de “acaso” ao mundo em que vivemos e também ele é complexo e caótico. Morin (1999, p. 85-87) considera que “uma grande conquista da inteligência seria de poder enfim se desembaraçar da ilusão de predizer o destino humano (.). O futuro chama-se incerteza”.

De fato, Williams e Hodges (2005) referem que é mais fácil avaliar a efetividade dos programas de condicionamento da aptidão física, alterações nas capacidades aeróbia e anaeróbia e características antropométricas como a composição corporal e o peso, do que intervenções ao nível comportamental. “Acasos” são as “determinações econômicas, sociológicas, e outras no curso da história” que se encontraram imersas numa crença de um futuro repetitivo e progressivo e numa “relação instável e incerta com os acidentes e riscos inumeráveis que fazem bifurcar ou desviar o seu curso” (MORIN, 1999, p. 85). Mas a verdade é que acontecimentos como, por exemplo, a catástrofe econômica de 1929, apelidada de “Black Tuesday” ou “Wall Street Crash”, apareceram sem pedir licença!

Pode ser também verdade que, como foi referido na análise deste processo de identificação de talentos, que a categorização de algumas crianças como não tendo talento inato está a discriminá-las e que é injusta e desnecessária, impedindo jovens de seguirem um objetivo (ARAÚJO, 2004). Pode também ser verdade que dois jovens tenham condições idênticas para desenvolver o seu potencial e que um alcance a elite e o outro não. Mas o que é verdade é que em toda a sociedade acontece atualmente uma seleção natural. Não quero com isto dizer que é o correto, mas é o que acontece!

Se o que se tiver em conta for o crescimento ao nível de maturação dos atletas, será válida a afirmação de que se está a excluir os mais fracos? Mas um teste universitário não é também uma seleção dos aparentemente melhores? E a procura de emprego em que se faz a escolha, por vezes apenas de um candidato entre centenas, por meio do recurso a algumas entrevistas e/ou testes psicotécnicos, entre outros? A identificação e desenvolvimento de talentos, atualmente não é mais do que um espelho da nossa sociedade, da nossa cultura, do contexto “hipercientificado e hipermercantilizado” que também “está presente no desporto hodierno” (SÉRGIO, 2008b, p. 148).

O que acontece com a seleção de talentos é a pretensão de abonar os mais aptos com uma oportunidade de trabalho numa área que desejam. Não seria a tentativa de homogeneização um reprodutor de desigualdades na sociedade atual, ou será a homogeneização a desigualdade em si? Se o objetivo é marcar gols, dar espetáculo e ganhar medalhas, como é obter as melhores notas na escola e os melhores testes psicotécnicos na tentativa de ser selecionado para um emprego, que não se critiquem e que se mantenham os processos de identificação e desenvolvimento de talentos. Se o objetivo é educar através do desporto, eduquem na escola a “unidade complexa da natureza humana [o seu humano é em simultâneo físico, biológico, cultural, social, histórico] que está completamente desintegrada do ensino” (MORIN, 1999, p. 17)! Não descriminem nos empregos! Não falem em homogeneização e igualdade de oportunidades!

Os treinadores e observadores são os elementos que realizam a identificação de talentos na prática, são eles que guiam os seus projetos, nos quais investem milhares e milhões de euros, sendo obrigados pela sociedade a ter retorno imediato, tendo assim, o tempo reduzido para obter o seu retorno. São eles que jogam o seu prestígio no momento de mostrar “os seus jogadores”, sendo também eles os desacreditados e criticados socialmente se “os seus jogadores” não tiverem desempenhos ao mais alto nível.

De qualquer forma, como é possível que um treinador do estudo de Christensen (2009) tenha descoberto quem seria o homem do jogo em 4/5 minutos, após um jogador ter efetuado dois toques na bola, o que efetivamente aconteceu, tendo esse jogador sido considerado o homem do jogo? É a praxis! Este conhecimento é, antes de mais, autêntico! Aprende-se e desenvolve-se como resultado de uma lógica proveniente da sua esfera de ação, dentro da esfera maior que é o mundo. Os peritos sentem o jogo, sentem o que vai acontecer (CHRISTENSEN, 2009).

Assim sendo e apesar de no futebol as qualidades “certas” e “erradas” não serem identificadas por meio de alguns fatores únicos, mas sim de um conjunto de características multifacetadas (CHRISTENSEN, 2009), é necessário criar canais de diálogo entre a ciência e a prática, ou a ciência arrisca-se a funcionar num circuito fechado, para o qual os treinadores se podem tornar indiferentes.

A base é o humano e identifico-me nas palavras do grande mestre Manuel Sérgio (2008b) “O desporto por que me bato é um desporto de ideias, de extensa e sólida cultura humanista (.) em direcção a um mundo de Liberdade, de Verdade e de Justiça!”.

Bibliografia

ARAÚJO, D. A insustentável relação entre talentos e peritos: talento epigenético e desempenho emergente. Treino Desportivo, especial 6(Novembro), p. 46-58, 2004

CHRISTENSEN, M. “Na Eye for Talent”: Talent Identification and the “Pratical Sense” of Top-Level Soccer Coaches. Sociology of Sport Journal, v. 26, p. 365-382, 2009

CÔTÉ, J. The Influence of the Family in the Development of Talent in Sport. The Sport Psychologist, v. 13, p. 395-417, 1999

HELSEN, W. F.; WINCKEL, J. V.; WILLIAMS, M. A. The relative age effect in youth soccer across Europe. Journal of Sport Science, v. 23, n. 6, p. 629-636, 2005.

LOURENÇO, L. Mourinho – A Descoberta Guiada. Lisboa: Prime Books, 2010. 174 p.

MORIN, E. Os sete saberes para a educação do futuro. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, 130 p.

SÉRGIO, M. Futbolsofía: Filosofar a través del fútbol. In: Sérgio, M. (Ed). Textos Insólitos. Lisboa: Instituto Piaget, 2008a. P. 119-132

SÉRGIO, M. O desporto por que me bato. In: Sérgio, M. (Ed). Textos Insólitos. Lisboa: Instituto Piaget, 2008b. P. 143-151

WILLIAMS, A. M.; HODGES, N. J. Practice, instruction and skill acquisition in soccer: Challenging tradition. Journal of Sports Sciences, London, v. 23, n. 6, p. 637-50, 2005

WILLIAMS, A. M.; REILLY, T. Talent Identification and development in soccer. Journal of Sports Sciences, v. 18, p. 657-667, 2000

WOLSTENCROFT, E., ed. Talent Identification and Development: An Academic Review (A report for Sportscotland by the University of Edinburgh). Edinburgh: Sportscotland, 2002. Disponível em: http://www.sportscotland.org.uk/ChannelNavigation/Resources/TopicNavigation
/Publications/Talent+identification+and+development+programme.htm. Acesso em: 16 ago. 2010

* Licenciado em Ciências do Desporto e Mestre em Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa; Trabalha com futebol de formação, tendo estado nas épocas 2008/2009 e 2009/2010 na Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica; em Julho de 2009 estagiou na Escola de Futebol Étoile Lusitana (Dakar, Senegal), clube vencedor da Milk Cup 2010 (escalão de sub-17)

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Coisas que não pedi ao Papai Noel

Olá amigos,

Nesta época entendo que você já deva estar cansado de mensagens bonitas e pedidos para o próximo ano. Mas gostaria de fazer algo diferente, uma lista de não pedidos, se bem que… um não pedido não deixa de ser um pedido, mas vamos em frente. Embora o natal tenha sido na semana passada e espero que todos tenham aproveitado, vou encaminhar minha lista de não pedidos para 2011 para o Papai Noel.

Prezado Senhor Noel, não quero nada disso que está na lista a seguir, conto com sua compreensão, sei que as vezes sua boa alma o força a atender alguns pedidos, mas neste ano eu gostaria de não contar com sua interferência, grato.

Segue a lista:

Não quero jogadores contratados em janeiro que saiam do time antes do início do brasileiro.
Não quero ver meu time ser surpreendido por equipes mais fracas, por pura falta de desconhecimento ou informações.
Não quero que jogadores se transfiram da minha equipe por menos do valor de rescisão que consta no contrato, e que esse jogador não fique insatisfeito e entre na justiça do trabalho pelo direito de ir e vir, mesmo que sob contrato.
Não quero que as contas do meu clube fechem no vermelho.
Não quero reclamar do calendário.
Não quero reclamar de mala branca.
Não quero reclamar de arbitragem e erros de interpretação.
Não quero duvidar do profissionalismo de meus atletas.
Não quero demitir técnico porque não soube contratar.

Enfim

Não quero ser surpreendido por falta de um centro de informações avançado e gestão profissional do esporte.

É… se analisarmos bem… essas são coisas que não devemos pedir para o Papai Noel, afinal não podemos misturar a história do Gênio da Lâmpada com o Bom Velhinho, que dá um exemplo de gestão, logística, recursos humanos para qualquer dirigente de clube. Basta imaginarmos sua competência para entregar e atender aos pedidos e sonhos de tantas crianças mundo a fora. Não é uma operação fácil não.

Pensando bem, acho que vou precisar da interferência dele.

Ah… se em 2011 o Bom Velhinho fosse dirigente do meu clube…

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br