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Estudo de caso – Transição base–profissional no Brasil a partir do Campeonato Brasileiro de Aspirantes

Por: Nicolau Trevisani & Diogo Oliveira

Realizei, em conjunto com Diogo Oliveira, analista de desempenho da equipe Sub-20 do Ceará, um estudo com 48 atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes entre 2017 e 2021, representando dois clubes grandes do futebol brasileiro. O objetivo foi compreender como esse contexto competitivo atua como uma etapa intermediária no processo de transição entre a base e o futebol profissional.

Os dados revelaram que apenas 17 desses 48 atletas conseguiram, posteriormente, atuar em competições nacionais ou internacionais de alto nível — não foram consideradas competições regionais —, o que representa um aproveitamento de aproximadamente 35,4%. O número reforça algo que já se observa empiricamente no futebol brasileiro: o Campeonato de Aspirantes pode funcionar como um ambiente real de transição, mas o salto competitivo é restrito, seletivo e altamente exigente.

Ao analisar quais jogadores conseguiram atravessar essa fronteira, um padrão se repetiu. A maior parte dos atletas que se consolidaram no futebol profissional atua do meio-campo para trás. Isso não é casual. Essas posições exigem leitura de jogo, posicionamento, tomada de decisão e consistência — capacidades que tendem a se transferir com mais estabilidade da base para o profissional. Além disso, são funções que contribuem diretamente para o equilíbrio coletivo da equipe, o que costuma gerar maior confiança por parte das comissões técnicas e facilitar uma inserção progressiva no elenco principal.

É importante, no entanto, fazer uma distinção relevante dentro desse processo. Os jogadores ofensivos que não passaram pelo Campeonato Brasileiro de Aspirantes, ou que tiveram uma passagem muito curta por essa competição, costumam ser atletas que, ainda no período de formação, apresentaram um nível de destaque muito acima da média do clube e da categoria. São jogadores que conseguiram se impor de forma clara pelo talento individual, pela capacidade criativa e pelo impacto recorrente no jogo. Esse diferencial precoce faz com que, em muitos casos, o processo se antecipe: o talento excepcional acelera a transição e encurta etapas.

Por outro lado, os atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes são, em sua maioria, jogadores que não anteciparam as etapas do processo de transição. Permaneceram mais tempo no percurso formativo e chegaram a esse ambiente intermediário antes do acesso ao futebol profissional. Dentro desse grupo, observa-se que jogadores do meio-campo para trás tendem a encontrar maior facilidade para acumular minutos no nível profissional, enquanto atletas ofensivos enfrentam maiores dificuldades, sobretudo pela exigência de impacto imediato e pela menor margem de erro atribuída a essas funções.

Do ponto de vista neurocognitivo, esse cenário faz bastante sentido. A criatividade no futebol — entendida não como improviso aleatório, mas como a capacidade de perceber soluções relevantes em contextos complexos — depende diretamente de segurança. Quando o cérebro percebe ameaça constante, como medo do erro, cobrança excessiva ou instabilidade, estruturas ligadas à sobrevivência, como a amígdala, tendem a dominar o processamento. O resultado é uma percepção mais estreita, decisões mais conservadoras e menor acesso a soluções criativas.

Jogadores de meio-campo e defesa, por exercerem funções mais previsíveis e menos dependentes de ações de alto risco criativo, costumam atuar em um ambiente técnico-tático neurobiologicamente mais favorável. Isso permite que a chamada criatividade funcional apareça com mais frequência: a pequena pausa antes do passe, o ajuste corporal, a leitura antecipada do jogo. Não se trata apenas de uma questão tática, mas de como o cérebro consegue operar sob menor carga de ameaça na maior parte do tempo.

No setor ofensivo, o cenário costuma ser o oposto. A exigência por impacto imediato — especialmente gols — somada à concorrência elevada e à baixa tolerância ao erro faz com que mesmo atletas tecnicamente talentosos passem a decidir sob estresse constante. A necessidade permanente de serem criativos em contextos de alta pressão compromete a percepção e empobrece a tomada de decisão. Isso ajuda a explicar por que menos jogadores ofensivos conseguem acumular minutos no futebol profissional de seus clubes de origem, precisando muitas vezes sair para encontrar contextos mais favoráveis ao seu melhor desempenho.

O Campeonato Brasileiro de Aspirantes, portanto, pode ter cumprido um papel importante como etapa intermediária de validação nos anos analisados. No entanto, o estudo reforça que o sucesso na transição para o alto nível não está ligado apenas ao talento bruto. Ele está fortemente associado à capacidade do jogador de ser taticamente confiável, consistente e funcional dentro da estrutura coletiva — características que dependem tanto da formação quanto do ambiente em que o atleta está inserido.

Para quem trabalha com formação, desempenho ou scouting, esse olhar é fundamental. Avaliar um atleta não é apenas identificar o que ele faz com a bola, mas compreender sob quais condições ele consegue perceber, decidir e sustentar boas escolhas ao longo do tempo. Criatividade não nasce do caos; ela emerge da segurança. E, na transição para o futebol profissional, oferecer contextos que favoreçam essa segurança pode ser o diferencial entre um talento que se perde e um jogador que consegue, de fato, se estabelecer no alto nível.

Até a próxima

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

Diogo Oliveira atua como profissional de Análise de Desempenho no futebol profissional, com foco na avaliação detalhada do rendimento individual e coletivo de atletas por meio da interpretação de dados técnicos, táticos, físicos e comportamentais.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/diogo-camelo-/?originalSubdomain=br

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Cuidar de Quem Cuida: A pressão invisível sobre treinadores e gestores no futebol de alto rendimento

Em tempos de alta competitividade, gestão globalizada e transmissões em tempo real, o futebol profissional se consolidou como uma atividade de grandes impactos emocionais, complexos e constante exposição neste universo. Dentro desse contexto, se fala cada vez mais sobre a saúde mental dos atletas, mas pouco se investiga ou se discute, com profundidade, os efeitos da pressão e do estresse sobre treinadores, diretores e comissões técnicas. No entanto, são com essas lideranças que, em uma escala hierárquica de cobranças, esses efeitos começam e se retroalimentam.

Estudos internacionais já apontam que treinadores de elite estão entre os grupos mais afetados por burnout, exaustão emocional e sintomas de ansiedade crônica. Uma pesquisa conduzida com técnicos da Premier League (Inglaterra) revelou que muitos deles apresentam respostas fisiológicas agudas durante os jogos, com alterações significativas na pressão arterial, liberação de cortisol e sintomas de fadiga mental, mesmo nos dias subsequentes à partida.

Na neurociência, compreende-se que o cérebro humano sob estresse prolongado entra em estado de alerta constante, o que prejudica funções essenciais como a tomada de decisão, a memória de trabalho e a empatia. O cérebro emocional (sistema límbico, especialmente a amígdala) assume o comando em detrimento do cérebro executivo (córtex pré-frontal), gerando um ciclo de reatividade, irritabilidade e rigidez cognitiva. No contexto futebolístico, isso pode se traduzir em discursos agressivos no vestiário, mudanças impulsivas de estratégia, ou dificuldades de liderança colaborativa.

É importante destacar que os estressores organizacionais no futebol não são distribuídos de forma linear. Existe um efeito cascata: o presidente do clube pressiona o diretor; este exige resultados do técnico; o técnico transfere a tensão para sua comissão e atletas. A cultura da performance implacável, aliada à mídia imediatista e à precariedade de suporte emocional, cria um ambiente de alto risco psicossocial, onde o desgaste mental se torna a regra, e não a exceção.

Por outro lado, alguns clubes de vanguarda já estão modificando esse paradigma com a implantação de programas estruturados de suporte psicológico para treinadores, comissão e liderança institucional.

No Liverpool FC, após a perda trágica de um membro da equipe, o clube passou a integrar um psicólogo no cotidiano do vestiário, reforçando uma cultura de escuta e acolhimento também para a comissão técnica e staff.

• No Burnley FC, da Inglaterra, um psiquiatra foi incorporado ao time médico como responsável pelo bem-estar dos atletas e também dos treinadores e coordenadores.

O Bodø/Glimt, da Noruega, implantou desde 2017 um modelo de treinamento mental coletivo, comandado por um ex-oficial da força aérea norueguesa, oferecendo suporte emocional e estratégico à equipe técnica em momentos de crise.

Esses exemplos revelam uma tendência que vai além da empatia, tratando de estratégias de proteção ao ser-humano e à performance.

Treinadores mais regulados emocionalmente demonstram melhor equilíbrio na tomada de decisão, maior clareza comunicacional e maior tolerância ao erro. Além disso, têm maior capacidade de influência positiva sobre atletas e comissão, atuando como verdadeiros reguladores emocionais do grupo.

Do ponto de vista da psicologia positiva e da neurociência, é possível aplicar princípios concretos para esse cuidado: treinamentos de mindfulness, educação emocional, capacitação em inteligência emocional, ancoragem em propósito, gestão do sono e criação de ambientes psicologicamente seguros. A plasticidade neural garante que essas práticas, repetidas com consistência, aumentem o repertório de regulação emocional, a resiliência e a saúde mental sustentada.

Para clubes e instituições que desejam liderar não apenas em títulos, mas em longevidade, é urgente reconhecer: cuidar da saúde mental de quem comanda também é cuidar do desempenho coletivo. Afinal, é o treinador quem prepara o campo emocional para que o jogo aconteça. E, para isso, ele também precisa de estrutura, suporte e compreensão.

O futuro do futebol de alto rendimento será daqueles que entenderem que a pressão não se elimina, mas se regula. E que até o mais experiente dos técnicos também é, antes de tudo, um ser humano.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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Metodologia, Tempo e Vida

Uma reflexão, como aquelas de sono interrompido, por inquietações pedagógicas, onde o pensamento não para. Às vezes, é nesse intervalo entre o descanso e o despertar que algumas perguntas insistem em aparecer.

O que sustenta, de verdade, aquilo que chamamos de metodologia quando o tempo passa?

Costumamos tratar metodologia como algo novo, organizado, limpo, quase perfeito. Como uma bola recém-tirada da caixa. Mas será que ela se sustenta por ser nova ou por já ter atravessado o tempo? Será que aquilo que ainda não foi colocado em jogo consegue, de fato, sustentá-lo?

Talvez a melhor representação de uma metodologia não seja um manual, um plano fechado ou um conjunto de regras. Para mim, metodologia é uma árvore. Um ser vivo. Algo que carrega o peso do tempo, que cria raízes profundas, que sustenta um tronco firme e que se permite ramificar em diferentes direções. Uma árvore cresce, mas não cresce negando aquilo que já foi. Ela cresce porque permanece.

Quando um jogador chega ao elenco profissional, ele se depara com algo que, muitas vezes, não viveu plenamente durante sua formação: a diversidade. Diversidade de idades, de histórias, de experiências e de tempos de vida. No processo formativo tradicional, ele quase sempre compartilhou o campo com meninos da mesma idade, do mesmo ano, do mesmo recorte. Um ambiente controlado, organizado, previsível.

Mas o futebol profissional não é assim. A vida não é assim.

Pelé jogou uma Copa do Mundo sendo um menino, compartilhando o mesmo ambiente com senhores. Homens com família, com dores, com histórias longas. E ele ali, um garoto. A pergunta que se impõe não é apenas onde Pelé se formou tecnicamente, mas onde ele aprendeu a conviver com essa diversidade.

Na rua.

Na rua não existe categoria. Existe jogo. O mais velho ensina sem perceber, o mais novo aprende observando, e todos precisam se adaptar. A rua não separa por idade; ela organiza por respeito, leitura de jogo e sobrevivência. Antes de preparar para o alto rendimento, a rua prepara para o convívio. Para a escuta. Para o tempo do outro.

Talvez o maior equívoco dos nossos processos de formação seja confundir desenvolvimento com novidade. E esquecer que, no futebol e na vida, o que sustenta não é o que brilha, mas o que permanece.

Metodologias vivas, como árvores, não têm pressa de parecer modernas. Elas se preocupam em ser verdadeiras.

E talvez seja isso que a rua sempre soube fazer melhor.

Inspirações e referências:

João Batista Freire, Wilton Carlos de Santana, Danilo Augusto Ribeiro

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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Entre Sonhos e Pressões: quando o futebol de base deixa de ser infância

Ao longo dos textos anteriores, procurei compartilhar um olhar sobre a supervisão no futebol que ultrapassa a logística e a operação de jogos. Falei de afeto, vínculos, presença e da importância das relações humanas na formação de jovens atletas. Neste terceiro artigo, avanço para um tema sensível, complexo e absolutamente necessário: os limites entre formação esportiva, exploração do trabalho infantil e projeções emocionais dos adultos sobre as crianças.

Tratar desse assunto exige cuidado, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com o desenvolvimento integral do ser humano, princípio que deve orientar qualquer projeto sério de futebol de base.

Quando o Sonho Vira Trabalho: A Exploração da Criança Atleta

O futebol é, para muitas crianças, brincadeira, prazer e expressão. No entanto, em determinados contextos, ele passa a assumir contornos de obrigação, cobrança excessiva e expectativa financeira precoce. É nesse ponto que surge um alerta importante: quando o futebol deixa de ser espaço formativo e passa a ser exploração do trabalho infantil.

Treinos exaustivos, agendas lotadas, viagens constantes, pressão por resultados imediatos e responsabilidades incompatíveis com a idade são sinais que precisam ser observados com atenção. A criança deixa de brincar, de errar, de experimentar e passa a “performar”.

Cito dois casos reais, obviamente modificando os nomes verdadeiros.

Didi tinha 9 anos de idade, quando passou a se queixar de dores que o impediam de jogar. Exames médicos constataram fratura em um osso do pé, causada por estresse. Como pode uma criança de 9 anos sofrer uma fratura por estresse?

Em trabalho investigativo, conversando com diversas pessoas, descobri que o pai levava o menino para jogar vários jogos aos finais de semana. Ele jogava por diversas equipes, em diversos locais. O próprio pai, talvez sem perceber a dimensão do que estava fazendo, me confessou que “era correria”, viajava tantos quilômetros nos finais de semana para o filho jogar. Como ele se destacava nos jogos, vários times o chamavam para jogar.

Não perguntei ao pai, mas desconfio de que recebia dinheiro dos times para levar o seu filho.

O menino tem talento, está no processo de desenvolvimento e formação desportiva. Não se sabe se será atleta profissional. Tem “projeção” de que sim. Torço para o pai não atrapalhar muito.

Dedé tinha 13 anos, quando o pai pediu uma reunião com o coordenador técnico, para questionar a minutagem de participação em jogos pelo clube. Queria que o filho jogasse mais tempo, como titular. Na ocasião, apresentou um plano de carreira para o filho que, sinceramente, era surreal. Infelizmente não posso mostrar aqui, mas acreditem, o plano feito pelo pai estipulava os seguintes objetivos:

  • Ser referência em sua geração, ativo importante para o clube;
  • Ser lembrado como atleta mais veloz, objetivo e intenso da geração 20XX;
  • Gerar valor, para que o desenvolvimento seja justo, economicamente viável;
  • Ser referência em seu colégio e ambiente regional.
  • Cronograma diário: Escola das 7:10 às 13:00; Janta das 22:45 às 23:30. Durante as tardes, treinos em outros times e em academia com personal trainer.
  • Responsabilidade da família: acompanhamento de planilha de custo e investimento.

O menino não tinha tempo para ser criança!

O pai trabalhava em uma instituição financeira, exercendo cargo de alta direção. Talvez enxergasse o filho como um “ativo”, um investimento que traria rendimentos financeiros.

Como não foi totalmente atendido, pediu a liberação e o levou para outro clube. Consta do registro na CBF que passou uma temporada no “clube 2”, ficou uma temporada sem clube e no ano passado se transferiu para o “clube 3”. Não sei dizer se o plano do pai foi revisitado.

Esses exemplos ajudam a ilustrar como, muitas vezes, o discurso do “sonho” mascara uma realidade de sobrecarga emocional e física. O sonho é legítimo. A exploração, não.

O supervisor, nesse cenário, precisa estar atento aos sinais: queda de rendimento escolar, ansiedade excessiva, medo de errar, lesões recorrentes, irritabilidade. São indicadores de que algo deixou de estar equilibrado.

A Frustração do Pai Projetada no Filho

Outro ponto recorrente, e igualmente delicado, é a projeção das frustrações pessoais dos pais sobre os filhos atletas. Muitos desses pais não tiveram oportunidade no futebol ou não alcançaram o sucesso desejado. O que não foi vivido por eles passa a ser exigido do filho.

Essa projeção assume diferentes formas: cobranças constantes, comparações, pressão por desempenho, controle excessivo da rotina e até interferência (ou tentativa de) no trabalho da comissão técnica.

Cito alguns exemplos, novamente, substituindo os nomes verdadeiros.

Huguinho tinha o pai obcecado por números, minutagem e comparações. Pediu reunião com o coordenador técnico para contestar a não titularidade do filho nos jogos, pois teria dados estatísticos demonstrado que ele seria melhor do que o atleta escolhido pela comissão técnica.

O menino era muito inteligente, falava inglês, espanhol e alemão fluentemente. Estava aprendendo outras línguas. Gostava de filmes clássicos e de séries como tramas complexas. Era claro que gostava de conversar com adultos e não com os colegas de time. Certa vez, conversando com ele no saguão de um hotel, me disse que não gostava dos hábitos dos colegas, pois ouviam música ruim, não liam livros, não gostavam de história, economia, nem de política.

Mas o pai foi goleiro amador, deseja que o filho seja goleiro profissional.


Zezinho aparentava claramente não estava feliz com a vida que levava. Alojamento, rotina de treinos e jogos. Mas o pai insistia para que o menino continuasse no clube, pois achava que seria jogador de futebol.

Luizinho era filho de um ex-jogador de futebol profissional, que jogou na Europa e na seleção brasileira e atuava como “personal”, treinador particular e gestor da carreira do filho. Era comum o menino retornar ao clube, após a folga do final de semana, com dores musculares. No período em que deveria descansar, “treinava” com o pai.

Nesses casos, o futebol deixa de ser espaço de descoberta e passa a ser palco de compensações emocionais. A criança joga para atender expectativas externas, não para se desenvolver, aprender ou se divertir.

Os Impactos Emocionais no Atleta

A criança submetida a esse tipo de pressão tende a desenvolver comportamentos que merecem atenção: ansiedade, agressividade, medo de errar, dificuldade de lidar com frustrações e, em alguns casos, perda do prazer pelo jogo.

O erro, elemento central do aprendizado, passa a ser vivido como ameaça. O jogo vira prova. O campo, um tribunal. E o futebol, que poderia ser ferramenta de formação humana, se transforma em fonte de sofrimento.

É importante lembrar: nem toda cobrança é sinal de cuidado, assim como nem toda presença é sinônimo de apoio saudável.

O Papel do Supervisor como Guardião do Processo Formativo

Diante desse cenário, o supervisor assume um papel fundamental: o de guardião do processo formativo. É ele quem faz a mediação entre clube, família e atleta. Quem chama para a conversa, estabelece limites, orienta e, quando necessário, protege.

Proteger o atleta não significa afastá-lo da responsabilidade ou do compromisso. Significa garantir que o desenvolvimento aconteça no tempo certo, respeitando a infância, a adolescência e os aspectos emocionais envolvidos.

O supervisor precisa ter coragem para sustentar diálogos difíceis, para dizer “não” quando o ambiente começa a adoecer, e para lembrar a todos que o futebol de base não é um fim em si mesmo, mas um meio de formação.

Formar Atletas ou Formar Pessoas?

Essa talvez seja a pergunta central que atravessa este artigo e toda a série. O futebol de base precisa decidir, diariamente, se está apenas produzindo atletas ou se está contribuindo para a formação de pessoas equilibradas, críticas e emocionalmente saudáveis.

Quando o processo é bem conduzido, o resultado aparece no campo e fora dele. Quando não é, o custo humano costuma ser alto.

Caminhos Possíveis

Combater a exploração e as projeções emocionais passa por educação, diálogo e clareza de papéis. Passa por clubes com valores bem definidos, supervisores preparados, comissões técnicas alinhadas e famílias orientadas.

O futebol de base pode e deve ser um espaço de sonho. Mas um sonho que respeite a infância, preserve a dignidade e prepare o jovem não apenas para jogar, mas para viver.

Caio Rizek é Supervisor de Futebol de Base do São Paulo FC, atuando na organização e integração dos processos esportivos e institucionais das categorias de formação. É advogado e bacharel/licenciado em Educação Física, com formação executiva em gestão e liderança (MBA USP/Esalq). Possui experiência na supervisão operacional do departamento de futebol, relacionamento com comissão técnica, atletas e famílias, além de atuação em rotinas estratégicas do ambiente de base.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/caiorizek/

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Fair Play Financeiro além dos números: governança e transparência no centro do jogo

Dando sequência à série em que venho ilustrando os requisitos do Fair Play Financeiro da CBF, hoje o recorte é propositalmente diferente. Não se trata de um requisito financeiro ou contábil, mas de um pilar estrutural de governança e transparência, que sustenta todo o modelo regulatório.

Com efeito, o Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) não se limita a exigir solvência, controle de custos ou limites de endividamento, isto é, requisitos econômico-financeiros. Ele também impõe, de forma expressa, requisitos de governança e transparência, obrigando os Clubes a manter e comunicar formalmente à ANRESF (órgão regulador) informações verificáveis, que devem ser atualizadas em até 30 dias sempre que houver qualquer alteração relevante, sobre sua (i) estrutura de controle societário e sobre o chamado (ii) Pessoal-Chave da Administração.

Em relação à composição do seu controle societário, o Clube deve informar inclusive participações dos controladores em outros Clubes, no Brasil ou no exterior.

Já o conceito de “Pessoal-Chave” não é restrito ao organograma formal. Para fins regulatórios, considera-se como integrante toda pessoa que detenha autoridade e responsabilidade pelo planejamento, direção e controle das atividades do Clube, direta ou indiretamente. Diretores executivos ou não, conselheiros e gestores com poder decisório estratégico entram nesse radar. O critério não é o cargo — é o poder real de decisão.

Na prática, isso resolve (ou expõe) situações muito concretas. Por exemplo:

  • o conselheiro que não é diretor, mas influencia contratações relevantes;
  • o controlador que participa de outro Clube no exterior;
  • o gestor que atua “nos bastidores”, mas decide orçamento, elenco ou fornecedores.

Ou seja, não importa apenas o cargo formal. Importa quem decide. A lógica do Regulamento é direta: não há sustentabilidade financeira possível quando não está claro quem manda, quem influencia e quem responde.

Infográfico: Requisito de governança e transparência

Esse nível de transparência também é essencial para algo cada vez mais sensível neste ambiente regulatório: a identificação de Partes Relacionadas. Sem clareza sobre quem controla e quem decide, torna-se impossível mapear conflitos de interesse, transações intragrupo, favorecimentos indevidos ou operações que distorçam a concorrência esportiva e financeira.

Por isso, essas informações não têm natureza meramente cadastral. Elas integram o sistema de monitoramento regulatório e já possuem um marco temporal definido: os Clubes devem apresentá-las até 30 de abril de 2026.

O ponto mais sensível está nas consequências. O Regulamento é expresso ao afirmar que omissão, atraso ou falsidade na prestação dessas informações configuram reprovação regulatória, sujeitando o Clube a sanções que podem ir de advertência pública e multa até retenção de receitas, restrições de registro de atletas, dedução de pontos, exclusão de competições e, nos casos mais graves, rebaixamento ou cassação da licença para competir.

A mensagem é inequívoca: governança deixou de ser discurso institucional ou boa prática recomendável. Tornou-se condição regulatória de permanência no sistema competitivo. Transparência não é mais opcional — é requisito.

O Fair Play Financeiro sinaliza uma mudança clara de maturidade regulatória: clubes que não organizarem sua governança e sua transparência dificilmente conseguirão sustentar qualquer outro requisito do sistema.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
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