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Cuidar de Quem Cuida: A pressão invisível sobre treinadores e gestores no futebol de alto rendimento

Em tempos de alta competitividade, gestão globalizada e transmissões em tempo real, o futebol profissional se consolidou como uma atividade de grandes impactos emocionais, complexos e constante exposição neste universo. Dentro desse contexto, se fala cada vez mais sobre a saúde mental dos atletas, mas pouco se investiga ou se discute, com profundidade, os efeitos da pressão e do estresse sobre treinadores, diretores e comissões técnicas. No entanto, são com essas lideranças que, em uma escala hierárquica de cobranças, esses efeitos começam e se retroalimentam.

Estudos internacionais já apontam que treinadores de elite estão entre os grupos mais afetados por burnout, exaustão emocional e sintomas de ansiedade crônica. Uma pesquisa conduzida com técnicos da Premier League (Inglaterra) revelou que muitos deles apresentam respostas fisiológicas agudas durante os jogos, com alterações significativas na pressão arterial, liberação de cortisol e sintomas de fadiga mental, mesmo nos dias subsequentes à partida.

Na neurociência, compreende-se que o cérebro humano sob estresse prolongado entra em estado de alerta constante, o que prejudica funções essenciais como a tomada de decisão, a memória de trabalho e a empatia. O cérebro emocional (sistema límbico, especialmente a amígdala) assume o comando em detrimento do cérebro executivo (córtex pré-frontal), gerando um ciclo de reatividade, irritabilidade e rigidez cognitiva. No contexto futebolístico, isso pode se traduzir em discursos agressivos no vestiário, mudanças impulsivas de estratégia, ou dificuldades de liderança colaborativa.

É importante destacar que os estressores organizacionais no futebol não são distribuídos de forma linear. Existe um efeito cascata: o presidente do clube pressiona o diretor; este exige resultados do técnico; o técnico transfere a tensão para sua comissão e atletas. A cultura da performance implacável, aliada à mídia imediatista e à precariedade de suporte emocional, cria um ambiente de alto risco psicossocial, onde o desgaste mental se torna a regra, e não a exceção.

Por outro lado, alguns clubes de vanguarda já estão modificando esse paradigma com a implantação de programas estruturados de suporte psicológico para treinadores, comissão e liderança institucional.

No Liverpool FC, após a perda trágica de um membro da equipe, o clube passou a integrar um psicólogo no cotidiano do vestiário, reforçando uma cultura de escuta e acolhimento também para a comissão técnica e staff.

• No Burnley FC, da Inglaterra, um psiquiatra foi incorporado ao time médico como responsável pelo bem-estar dos atletas e também dos treinadores e coordenadores.

O Bodø/Glimt, da Noruega, implantou desde 2017 um modelo de treinamento mental coletivo, comandado por um ex-oficial da força aérea norueguesa, oferecendo suporte emocional e estratégico à equipe técnica em momentos de crise.

Esses exemplos revelam uma tendência que vai além da empatia, tratando de estratégias de proteção ao ser-humano e à performance.

Treinadores mais regulados emocionalmente demonstram melhor equilíbrio na tomada de decisão, maior clareza comunicacional e maior tolerância ao erro. Além disso, têm maior capacidade de influência positiva sobre atletas e comissão, atuando como verdadeiros reguladores emocionais do grupo.

Do ponto de vista da psicologia positiva e da neurociência, é possível aplicar princípios concretos para esse cuidado: treinamentos de mindfulness, educação emocional, capacitação em inteligência emocional, ancoragem em propósito, gestão do sono e criação de ambientes psicologicamente seguros. A plasticidade neural garante que essas práticas, repetidas com consistência, aumentem o repertório de regulação emocional, a resiliência e a saúde mental sustentada.

Para clubes e instituições que desejam liderar não apenas em títulos, mas em longevidade, é urgente reconhecer: cuidar da saúde mental de quem comanda também é cuidar do desempenho coletivo. Afinal, é o treinador quem prepara o campo emocional para que o jogo aconteça. E, para isso, ele também precisa de estrutura, suporte e compreensão.

O futuro do futebol de alto rendimento será daqueles que entenderem que a pressão não se elimina, mas se regula. E que até o mais experiente dos técnicos também é, antes de tudo, um ser humano.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
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