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A pessoa certa para um lugar incerto

Na Cimeira (1) Européia de Estocolmo (já lá vão oito anos!), concluiu-se pela necessidade de estabelecer, na União Européia (UE), rigorosos padrões de competência, que respondam aos prementes desafios da Sociedade da Informação. É que, assinalou-se também naquela Cimeira, a UE registra crescente consciência de uma economia dolorosamente fruste (2), por escassez de competência, que se manifesta na aversão e temor pela inovação. Os países com mais favoráveis indicadores, neste campo da inovação, são a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca. Portugal ocupa, na Europa, o 17º lugar – uma baixa “performance” e que decorre, entre muitos outros motivos, de um ensino centrado na memorização e na repetição.

No século XVIII, um corregedor de Viseu dizia para o sábio Linck, em digressão pelo nosso País: “Portugal é pequenino, mas é um torrão de açúcar”. No entanto, porque a inovação supõe estudo e trabalho, não nos podemos contentar unicamente com o que é doce, com o que é blandífluo(3) ao paladar. Assim como “assistimos a uma mudança socioeconômica radical, materializada na formação da nova Sociedade da Informação cujo cerne é uma economia baseada no conhecimento”, assim também o futebol há de fundamentar a sua prática num conhecimento atualizado.

Não sei se alguns treinadores se consideravam profundamente lisonjeados quando alguns atrevidos chamavam ao futebol uma “ciência oculta”. É que, na realidade, ele era mesmo uma “ciência oculta” para os que tentavam praticá-lo, quer como atletas, quer como treinadores. Perguntas há que ninguém no futebol fazia. Como esta: o desporto tem, predominantemente, a ver com as ciências da natureza, ou as com as ciências lógico-formais, ou com as ciências humanas?

E porque a questão não se levantava a metodologia, usada nos treinos, estava profundamente errada. Comecei então a lecionar nas minhas aulas e a escrever nos meus livros que o desporto, só à luz das ciências humanas, poder-se-ia estudar e entender.

Não fazia sentido que, no desporto, o atleta fosse um singelo títere, nas mãos do treinador onipotente que o pretendia transformar numa simples máquina. E dizia (e escrevia) mesmo: o desporto não é uma “atividade física”, mas uma “atividade humana”. E tornava mais explícita a minha prosa, acrescentando: e também não há “educação física”, mas “educação de pessoas em movimento intencional”.

Com isso, discordava abertamente do chamado “treino analítico”, que separava o treino físico do treino técnico e tático e psicológico. E aconselhava os alunos à criação de exercícios onde a complexidade humana estivesse presente. Tudo isso se passou, há trinta anos!

No livro de Luís Lourenço e Fernando Ilharco, Liderança: as lições de Mourinho (p. 88) dá-se a conhecer o que eu ensinava (há trinta anos, repete-se) aos meus alunos:

–     A unidade prática-teoria
 
–     A complexidade presente em todos os momentos da prática desportiva;
 
–     O desporto como movimento em busca permanente da superação e como subsistema de uma ciência humana;
 
–     A denúncia de uma preparação física desinserida da globalidade do treino;
 
–     O diálogo aprofundado e constante entre o desporto e as outras ciências humanas;
 
–     A expressão hegeliana “a verdade é o todo”;
 
–     A necessidade de uma “revolução” nos currículos dos cursos de treinadores e das licenciaturas em desporto;
 
–     O respeito pela pluralidade dos modos de conhecimento, devendo respeitar-se e estudar-se o saber de treinadores de grande prática e de sucesso inquestionável.

E repisava, para os alunos, o seguinte: o fato da vossa licenciatura em Desporto não vos garante que podereis ser um dia treinadores de mais sucesso do que alguns treinadores, sem habilitações universitárias. Quando assim lhes falava, eu recordava-me do que tinha aprendido com José Maria Pedroto, Mário Wilson, Telê Santana, e outros que, não possuindo licenciatura em Desporto, eram autênticos “profissionais do êxito”. E por quê? Porque dotados de coragem, de perspicácia, de capacidade de liderança, qualidades indispensáveis à alta competição.

Não basta estudar para ser a pessoa certa para um lugar incerto (o lugar de treinador de futebol): precisas são outras “virtudes” que não se aprendem nos bancos da Universidade.

Eu tenho autoridade para escrever o que escrevi, porque me considero um universitário que muito aprendeu com alguns homens do futebol.

(1 ) Cimeira – reunião de cúpula
(2 ) Fruste – ordinário, de qualidade inferior
(3) Blandífluo – que corre branda e suavemente


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Cam
pus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br