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Acabou a Copinha! E agora?

Por: Rafael Castellani

Encerrou-se em 25 de janeiro de 2026 mais uma Copa São Paulo de Futebol Junior, popularmente conhecida como “Copinha”, mencionada pela Federação Paulista de Futebol, sua idealizadora, como a “maior competição de base do planeta”, contando com 128 equipes e milhares de jogadores com idade inferior a 21 anos (nascidos até o ano de 2005).  

A primeira reflexão que cabe fazermos se refere à denominação dada a esta competição como “de base”. Base para que? Podemos supor que seja base para a profissionalização, mas melhor seria se fosse (como é em alguns casos) base para a formação esportiva; base para a formação humana e integral; base para a vida! Por outro lado, é possível supor também que é base para realização de um sonho ou para o início de um pesadelo.

Podemos ainda, sob uma perspectiva mais crítica, entender essa competição como a base de um grande balcão de negócios, no qual as “joias” de cada clube são “lapidadas” e vendidas a outros clubes, sobretudo do exterior. Neste contexto, as arquibancadas são tomadas por “olheiros” que observam os jogadores buscando sua “galinha dos ovos de ouro”, tal como acontece com mineradores que, pelo processo de peneiramento dos rios, descobrem a sua pepita ou então, tal qual as feiras/exposições/leilões de gado, nas quais pecuaristas avaliam bois para comercializá-los e obter lucro com essa transação.  

Ainda assim, é praticamente consenso que a Copinha se trata de uma competição de base voltada à profissionalização do atleta, não necessariamente do mesmo clube. Alguns clubes, inclusive, sequer possuem categoria profissional, tal qual a surpreendente equipe do Ibrachina, que obteve sua melhor classificação em sua breve história nesta edição. É, em alguns casos, principalmente para os atletas nascidos em 2005, a última chance de se profissionalizar e passar pelo difícil e perverso “funil” do futebol profissional que, para a dura realidade de muitos jovens e suas famílias, absorve apenas, conforme dados da Universidade do Futebol, menos de 5% daqueles jovens que buscam realizar o sonho de se tornar jogador profissional de futebol.

Em minha tese de doutorado (CASTELLANI, 2017), pude constatar que esse dado equivale, especificamente em um dos clubes investigados, a cerca de 8%. Euler Victor, um dos grandes estudiosos do nosso futebol de base, nos apresenta em pesquisa recente ainda não publicada, que cerca de 15% dos atletas que disputam a copinha acaba assinando contratos profissionais e permanecem ao menos 3 anos atuando profissionalmente, ainda que somente 5% destes tem a oportunidade de jogar em grandes equipes das quatro principais séries do futebol brasileiro.    

Ou seja, ainda que sobrevalorizemos esses dados, menos de 15 jovens, a cada 100 que disputam essa competição, tornam-se jogadores profissionais e realizam o sonho buscado desde a infância. Um sonho, vale destacar, que não é pessoal, mas sim familiar. Alguns deles, é verdade, já possuem seu contrato profissional antes mesmo de disputar uma partida profissionalmente, mas isso tem muito mais relação com a preservação de um “ativo” por parte do clube do que pelas qualidades esportivas já adquiridas e demonstradas pelo jovem atleta.

Esse funil é tão estreito e desafiador que, para grande parte destes jovens, poder disputar uma Copinha já é um sonho. São inúmeros os exemplos e relatos presenciados que expressam muita emoção, gratidão e felicidade com esse feito. Cada choro ao ouvir o hino brasileiro tocar antes do início da partida, ao conceder uma entrevista ou ao comemorar um gol é a mais pura expressão do significado social que o futebol tem para estes milhares de jovens.

Por outro lado, infelizmente, a avassaladora maioria destes jovens talentosos jogadores de futebol “fica pelo caminho” e não passa pelo funil que os levam ao futebol profissional. Para estes, a Copinha é, ao mesmo tempo, sonho e pesadelo. Sonho, pelos motivos supracitados. Pesadelo, por verem desmoronar a última oportunidade de se tornarem um jogador profissional. Entretanto, o que faz da não realização de um sonho um pesadelo não é, necessariamente, o fato de não obter um contrato profissional. Mas é a forma como é “descartado” e por se ver sem outra perspectiva de vida. Dediquei um dos capítulos da minha tese de doutorado, publicada em 2017 (CASTELLANI, 2017), para discorrer sobre esse assunto com mais qualidade, mas cabe aqui frisar que são comuns os sentimentos de impotência, frustração, desamparo, abandono, decepção e tristeza. Disse-me um jovem jogador que tive a oportunidade de entrevistar: “…não estar mais nos planos do clube é simplesmente, mais ou menos, que nem papel higiênico, você é descartado”.

Não há melhor forma de oferecer a estes inúmeros jovens outra perspectiva de vida do que lhes oferecendo, além de um ambiente acolhedor, respeitoso e um tratamento humanizado, uma educação de qualidade. É preciso investir na educação destes jovens! E investir na educação não é conferir se estão matriculados em alguma escola e se a frequentam; é garantir que tenham as melhores condições possíveis para obter uma educação formal de qualidade. Educação de qualidade não deve ser plano B para jogadores que não se profissionalizam. Deve ser plano A! Sim, afinal, a educação formal é fundamental tanto para os que não se profissionalizam no futebol, como também para os que alcançam esse objetivo. E se em grande parte de uma partida os jogadores passam tomando decisões que sejam capazes de resolver os problemas do jogo, alguém tem dúvidas também de que um jogador inteligente tem maiores condições de obter sucesso jogando futebol?   

Taça da Copinha 2025 — Foto: Marcos Ribolli

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Dados técnicos-táticos parte II: volume e periculosidade

Por: Bruno Loureiro

Olá a todos! Hoje daremos continuidade ao tema sobre análise e interpretação de dados com uma abordagem mais aprofundada com intuito de gerar informações que possam ser de maior utilidade dentro de uma equipe. 

Sabemos da dificuldade de transformar dados e relatórios numéricos em informações relevantes devido a origem estocástica e o contexto do futebol (como explicado no artigo anterior).

Apesar desta dificuldade existem alguns padrões que podem nos ajudar a adaptar e interpretar dados quantitativos e qualitativos.

Devemos lembrar sempre que os dados estão sempre interligados entre si. Sabendo como dar significado a eles, podemos não apenas descrever, mas analisar os comportamentos coletivos e individuais.

Uma vez estudado o contexto, quais são os outros fundamentos para aprofundar nossa interpretação dos dados? 

Para realizar as análises quantitativa e qualitativa (coletiva e individuais) existem cinco palavras-chave; “O que”, “Onde”, “Quando”, “Quem” e “Como”.

Para exemplificar o utilizo das palavras-chave citadas na análise vídeo, podemos representar uma ação da seguinte forma:

  1. O QUE – Número de passes da equipe
  2. COMO – Tipologia de passe
  3. ONDE – Zona de campo?
  4. QUEM – Qual ou Quais jogadores?
  5. QUANDO – Com ou sem pressão adversaria?

O estudo destes dados não explica exatamente o porquê de alguma ação acontece, se anula ou se repete durante uma partida, mas segundo sua interpretação, podem dar informações sobre o andamento de uma equipe durante uma ou mais jogos.

Uma vez definidos os fundamentos e contexto do jogo, podemos dividir a análise em dois macros princípios; VOLUMEe PERICOLOSIDADE.

Esta divisão nos ajuda a entender melhor o que uma equipe tem como sua base de performance técnica.

VOLUME

Se entende por volume de jogo todas as ações que demonstram a capacidade de uma equipe de manter a Posse de bola, gerando o aumento de modo QUANTITATIVO as ações, indicando a dominância do jogo.

Como indicadores podemos ter a percentual da posse de bola, número de passes realizados, número de passes de passes certos, tipologia de passes entre outros. Ainda dentro a posse de bola, podemos ter uma correlação com a zona de campo, como por exemplo o chamado FIELD TILT. Esta métrica se baseia na quantidade de posse de bola da equipe nos últimos trinta metros de campo. Um exemplo pratico seria que se uma equipe tem 60% de posse de bola na partida, e no 100% de sua posse, 40% foi no último terço do campo como o indica o Field Tilt, significa que a equipe analisada teve um volume de posse de bola ofensivo muito alto independente da periculosidade criada. Este tipo de interpretação nos ajuda a entender a maior probabilidade e sensação de criar situações de perigo ao adversário, mas não garantem que um dos eventos mais raros (o gol) seja realizado.

Existem algumas características que podem alterar significativamente os dados do volume de jogo, dentre os mais importantes estão a qualidade técnica da equipe, a escolha estratégica do adversário e o resultado vigente da partida. Estes fatores mesmo se muitas vezes correlatos, são extremamente importantes para o conhecimento do contexto.

PERICULOSIDADE

A periculosidade tem como objetivo identificar a criação de jogadas que podem levar ao gol dando a real QUALIDADE da posse de bola. Os índices partem do número de finalizações, finalizações no gol, chances reais de gol, XG, XGOT entre outros.

Segundo o livro “The numbers of the game” (Chris Anderson e David Sally) nos big-5 campeonatos da Europa temos a média de que a cada gol marcado, são necessários 9-10 finalizações, ou seja cerca de 10% dos chutes totais ao gol. Se forem analisados as chances clara de gol, são necessários em média de 2,5 a 3 de chances criadas, ou seja a media de eficácia das grandes chances estão entre 33%-40% em base ao campeonato.

Mas o que estes dados significam e como posso me basear neles para a minha equipe?

Segundo dados de empresa de analises de dados como Opta, Statsbomb, Wyscout entre outros, a media  mundial (inclusive brasileira) esta dentro os 30%-40% de eficácia em big chances criadas, isto significa que quando devemos interpretar o numero de gols de uma partida, primeiramente devemos observar se o numero de chances criadas e percentual estão dentro da media mundial, ou seja, em uma partida singular, podemos perder a partida mesmo criando 6 big chances e não realizando nenhum gol (abaixo da media de conversão). Mas provavelmente, se minha equipe tende a criar 6 big chances como média no andamento das partidas, será muito provável que eu entre na média e farei al menos um gol ou dois na partida, com picos de 3 se estiver em um ótimo momento.

Este tipo de abordagem aos dados já nos ajuda a começar a dar real significado ao que realizamos em campo para depois poder aprofundar em entender o porquê em um determinado momento a equipe pode estar acima ou abaixo da performance esperada. Para auxílio das possíveis causas podemos analisar todos os dados de XG e XGOT coletivo e individuais para interpretar a qualidade da finalização criada pela equipe e/ou do jogador em questão.

Para exemplificar de modo simples, analisando o relatório técnico da Champions League, o Barcelona foi a equipe que melhor aproveitou as chances criadas em base ao XG realizando 40 gols em um Xg coletivo de 30.5, ou seja realizou 9.5 gols a mais do que esperado segundo o dado.

O mesmo acontece a nível individual, o jogador Raphinha realizou 13 gols com Xg de 4.9, isto significa que sua capacidade de finalização foi muito além do esperado, tendo o segundo colocado o atacante Lautaro Martinez com 9 gols em um Xg de 4.5 ou seja o dobro.

Segue link para consulta: https://drive.google.com/file/d/1tw3FLGvIjQtYJqty0GvuUazyVPTMB_0h/view?usp=drive_link.

Tendo o conhecimento dos dados e conseguindo contextualizar com a sua realidade, podemos dar significado real do que acontece em uma partida para uma visão holística dos dados.

Este tipo de abordagem nos permite refletir com maior profundidade e de modo mais objetivo o trabalho que vem sendo desenvolvido pela comissão técnica tendo em vista que a questão tática-técnica (tomada de decisão e execução técnica) dependerá sempre do jogador.

No próximo artigos entraremos na análise vídeo e suas tipologias.

Infrográfico

Até a próxima

Bruno Loureiro Batista                                                                                                      Treinador Licença UEFA - A                                                                                                              Analista desempenho                                                                                                    Juventus F.C
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Requisito de Solvência: o primeiro teste do Fair Play Financeiro em 2026

Por: David Figueiredo*

O Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (Fair Play Financeiro) da CBF – Confederação Brasileira de Futebol inaugura uma nova lógica de controle no futebol brasileiro.

Não se trata de boas práticas recomendáveis, mas de sistema normativo com efeitos diretos e sancionatórios, que impactam a governança, a gestão financeira e a capacidade competitiva dos Clubes.

Nas próximas semanas, compartilharei breves observações sobre os requisitos do Fair Play Financeiro.

A escolha por iniciar pelo Requisito de Solvência é objetiva: é o primeiro a produzir efeitos práticos imediatos a partir de janeiro de 2026 e funciona como ponto de partida do modelo regulatório.

Seu conceito é simples: o Clube não pode possuir pagamentos em atraso, considerados como qualquer valor não quitado nos termos contratuais ou legais.

Isso abrange obrigações perante outros Clubes, atletas, comissão técnica, funcionários, prestadores de serviços e autoridades públicas, incluindo tributos e encargos sociais.

As obrigações (dívidas) assumidas a partir de 01/01/2026 já estão integralmente sujeitas às regras do Fair Play Financeiro, sem qualquer carência (para aquelas vencidas até 31/12/2025, há regime de transição que se encerra em 30/11/2026).

O impacto, portanto, é próximo e concreto.

A inadimplência deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a ser um problema regulatório, sobretudo quando cruza o calendário oficial de verificação.

Com efeito, nas respectivas datas de verificação, o Clube deve declarar que não possui débitos vencidos, por meio de documento assinado pela Alta Direção e submetido à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), órgão regulador vinculado à CBF:

📅 Calendário regulatório

31/03 (débitos até 28/02)

31/07 (débitos até 30/06)

30/11 (débitos até 31/10)

Veja a seguir o infográfico que resume bem esse cenário:

IMPORTANTE REFORÇAR: O silêncio ou informações imprecisas agravam o risco regulatório.

Havendo inadimplência, a ANRESF, caso seja provocada, intimará o Clube para comprovar a quitação ou apresentar defesa no prazo regulamentar. Essa defesa não é automática nem ampla. Só é admitida quando houver litígio formal (Poder Judiciário, centro arbitral ou órgão jurisdicional do futebol), sustentado por evidência substancial e sem decisão que imponha pagamento imediato.

Esse desenho normativo do deixa claro que a responsabilidade do Clube é objetiva. O cumprimento do requisito sob análise independe da apuração de dolo ou culpa. Com o mero descumprimento, a infração se caracteriza, ainda que a origem do atraso seja atribuída a terceiros, falhas operacionais ou dificuldades financeiras conjunturais.

E as sanções são severas: advertência pública, multa, bloqueio de registro de atletas, retenção de receitas, dedução de pontos, exclusão de competições e, em casos graves, não concessão ou cassação da licença para disputar torneios organizados no âmbito da CBF e rebaixamento.

Ainda há previsão de responsabilização pessoal. Dirigentes, administradores, empregados, conselheiros e controladores (pessoas naturais) que, por ação ou omissão, contribuírem para a infração podem ser punidos individualmente. As sanções vão de advertência e multa até suspensão, inelegibilidade para cargos de direção e, nos casos mais graves, banimento do futebol.

Em suma, o Fair Play Financeiro deixa uma mensagem clara: 2026 não é o começo do debate, é o começo da cobrança.

Quem trata o Requisito de Solvência, base operacional do Fair Play Financeiro, como um tema “para depois” corre o risco de descobri-lo, em breve, como um problema esportivo, institucional — e pessoal.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/figueiredodavid/

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A braçadeira como ferramenta de gestão: a revolução alemã na função do capitão

Por: Lucas Alecrim

Liderança é mais do que ocupar um cargo. Segundo o dicionário Aurélio, trata-se da capacidade de liderar, comandar e exercer influência baseada no prestígio pessoal. Um conceito presente em diferentes esferas da sociedade — famílias, empresas, indústrias — sempre que existe um grupo que precisa de direção, tomada de decisão e responsabilidade.

No futebol, esse fenômeno se manifesta de forma clara. Líderes surgem dentro e fora dos gramados: na gestão de elencos, na organização do dia a dia e, sobretudo, na figura do capitão, aquele que representa o coletivo nos momentos de pressão.

É justamente nesse ponto que este texto se apoia. Ao longo dos anos, algo sempre me chamou a atenção no futebol alemão: a forma como a liderança é construída, transmitida e preservada ao longo das gerações. Um verdadeiro processo de passagem de bastão entre capitães da seleção alemã — a tradicional Die Mannschaft.

Esse processo me lembra um pouco as aulas que eu tinha na faculdade sobre estrutura empresarial e seus conceitos, por exemplo a cultura organizacional.

A cultura organizacional que é um conjunto de valores, crenças, normas, práticas, símbolos e comportamentos que definem como uma organização funciona e como as pessoas dentro dela se relacionam. É, em essência, a “personalidade” de uma empresa, clube, instituição ou equipe.

Ela molda a forma como decisões são tomadas, como conflitos são resolvidos, como metas são perseguidas e como as pessoas percebem seu papel dentro do grupo. Não é algo formal ou escrito apenas em manuais; muitas vezes é tácito, aprendido no dia a dia e transmitido por tradição, exemplo e convivência.

No nosso contexto alemão, não se trata aqui de listar títulos ou comparar desempenhos individuais. O foco está no processo, na continuidade e no perfil de liderança que a Alemanha historicamente cultiva.

Na minha concepção, quatro nomes simbolizam bem essa linha do tempo: Franz Beckenbauer, Lothar Matthäus, Philipp Lahm e Joshua Kimmich.

Claro, houve diversos outros nomes que tiveram essa responsabilidade e eram tão habilidosos tecnicamente (ou melhores) que os nomes listados acima. Entretanto, não acho que tivessem características semelhantes.

Tudo começa com Franz Beckenbauer, o eterno Der Kaiser. Um líder absoluto dentro e fora de campo, que redefiniu a posição de líbero e passou a simbolizar inteligência tática, elegância e autoridade silenciosa. Em 1970, jogou uma semifinal de Copa do Mundo com a clavícula quebrada. Em 1974, liderou a Alemanha ao título diante do lendário “Carrossel Holandês”. Beckenbauer não apenas jogava futebol — ele ditava comportamentos.

Poucos anos depois, surge Lothar Matthäus, um jogador de características distintas, mas com a mesma essência de liderança. Atuando no meio-campo, combinava força física, leitura de jogo e capacidade de organização. Curiosamente — e simbolicamente — Matthäus foi treinado por Beckenbauer na Copa do Mundo de 1990, vencida pela Alemanha. Ali, mais do que orientações táticas, houve transmissão de mentalidade.

Com a aposentadoria de Matthäus, o futebol alemão apresentou outro capitão, não de forma imediata, com perfil semelhante: Philipp Lahm. Versátil, disciplinado e extremamente inteligente, Lahm foi o líder técnico e emocional da seleção campeã do mundo em 2014. Não era o mais midiático, mas talvez fosse o mais confiável. Representava, em campo, a ideia de coletividade acima do individual.

Após aquele título, a braçadeira passou por nomes importantes, como Bastian Schweinsteiger, até chegar, também de forma não imediata, ao atual símbolo dessa continuidade: Joshua Kimmich.

Capitão da seleção sob o comando de Julian Nagelsmann, Kimmich reúne características que se repetem nesse processo histórico: intensidade, disciplina, leitura tática, inconformismo competitivo e exemplo diário. Um líder que conduz pelo comportamento.

Nas palavras do próprio treinador:
“Ele é um exemplo para todo o grupo. Sempre dá tudo de si, quer treinar o tempo todo e estabelece padrões.”

Os números ajudam a ilustrar, mas não explicam sozinhos o impacto desses atletas:

  • Beckenbauer: 856 jogos
  • Matthäus: 930 jogos
  • Lahm: 764 jogos
  • Kimmich: mais de 700 jogos em alto nível

Mais importante do que estatísticas é entender o perfil. A Federação Alemã de Futebol (DFB) nunca pareceu escolher seus capitães apenas por talento técnico. O que pesa, historicamente, é a capacidade de inspirar, assumir responsabilidades e proteger o coletivo.

A liderança alemã, dentro e fora do futebol, costuma se basear em disciplina, responsabilidade compartilhada e visão de longo prazo. Não há espaço para improviso constante. O sucesso é visto como consequência de organização, planejamento e trabalho contínuo.

Esse tipo de líder inspira porque age com coerência. Assume erros, protege o grupo nos momentos difíceis e entende que liderar não é mandar, mas servir ao processo.

Talvez o aspecto mais inspirador seja o compromisso com o legado. Liderar, nesse contexto, não é apenas vencer hoje, mas preparar o amanhã. Construir estruturas, formar pessoas e garantir que o nível se mantenha alto mesmo após a troca de gerações.

No futebol alemão, a braçadeira muda de braço — mas a liderança permanece.

Um grande abraço e um excelente 2026.
Lucas Alecrim

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DADOS TÉCNICO-TÁTICOS: SERVE COMO ANALISAMOS? PARTE I

Por: Bruno Loureiro

Olá a todos! É com grande prazer que depois de alguns anos, voltarei junto a Universidade do Futebol a publicar novos artigos sobre o mundo do futebol em todas as esferas. Desejo à todos um ótimo 2026 com muita saúde e muito futebol! Vamos Lá!

A Análise de Desempenho no decorrer dos últimos vinte anos se tornou peça fundamental em grandes equipes para conseguir cada vez mais informações para desvendar detalhes que possam fazer a diferença entre a vitória e a derrota de uma partida.

Devido aos avanços da tecnologia, o acesso a informação de dados, imagens e relatórios tem sido imensa, tendo como necessidade, o desenvolvimento da capacidade de interpretação e escolha de dados para análise com intuito de obter o conhecimento necessário para a equipe em um determinado objetivo.

Segundo estudos (Frank & Miller, 1986) um treinador experiente de futebol consegue recordar ao máximo 41% dos eventos significativos de uma partida, este dado demonstra a importância de uma análise acurada de dados e imagens com uma visão holística sobre os fatos.

No futebol a possibilidade de ações podem ser de magnitude quase infinitas o que torna sua análise muito complexa e de difícil interpretação. O futebol pode ser definido como um esporte estocástico, ou seja, um sistema matemático que calcula a aleatoriedade das ações para tentar determinar uma probabilística onde algumas ações podem ter maior chance de acontecer ao invés de outras em base ao contexto de jogo. Para simplificar conceito, os cálculos matemáticos dizem que um jogador terá maior probabilidade de realizar um gol batendo um pênalti ao invés do pontapé inicial.

Em um esporte onde estímulos iguais podem ter respostas diferentes e pequenas variações geram grande diferenças, como podemos interpretar os dados tático – técnico (tático vem antes pois a técnica é o último estagio da tomada de decisão que é de natureza tática individual)?

Sabemos que dados numéricos carecem de um princípio fundamental; O CONTEXTO de jogo!

Mas o que seria contexto de jogo e existe um modo de defini-los?

Ter de modo claro o significado do contexto de jogo nos ajuda na definição dos comportamentos individuais, de grupo e coletivo. O contexto de jogo pode ser divido em 5 pontos principais.

  1. Bola
  2. Adversário
  3. Companheiro
  4. Gol
  5. Espaço

Através destes pontos podemos entender melhor os comportamentos das equipes nas duas fases (Posse e não posse) e dentro o ciclo de jogo (Transição ofensiva, defensiva e bolas paradas).

Exemplo prático pode ser que se uma equipe tem uma marcação zonal, a bola é quem comanda os comportamentos da linha defensiva, esta tipologia de marcação requer um grande trabalho de sincronia da linha defensiva, tentando ocupar muito bem os espaços para evitar linhas de passe que atravessem dentro a ultima linha defensiva. O Treinador Sarri atualmente na Lazio é um ótimo exemplo para estudos sobre o tema.

Já se uma equipe tem marcação homem a homem, o adversário será quem comanda estes comportamentos. Esta tipologia requer uma disposição física muito intensa com grande agressividade e capacidade de leitura de antecipação. O treinador Gasperini atualmente na Roma (ex Atalanta) é um ótimo exemplo para estudos sobre o tema.

Desta forma, os dados estatísticos em fase defensiva podem ser interpretados de maneira mais aprofundada. Equipes que jogam com marcação homem a homem, tendem a ter maior número de “tackles” enquanto na marcação zonal há maior interceptação nas linhas de passe. Este tipo de conhecimento do contexto de jogo da maior significado ao dados interpretados.

Com o avanços das tecnologias (I.A.) cada vez mais os relatórios estão se aproximando ou tentando se aproximar do contexto de jogo, ajudando a ter com maior clareza o entendimento do andamento de uma partida ou de uma temporada inteira.

Um exemplo pratico seria o número total de finalizações (quantitativo) e qual o XG (expect goals) destas finalizações (qualitativo).

Temos como derivado destes dados outros que tentam ainda mais nos ajudar a aproximar ao contexto como XGOT (Expect Goals on Target) que vá em base ao local, potência e trajetória da finalização. Um exemplo seria que uma finalização de fora da área com XG 0.03 (pré finalização) mas com XGOT 0.40 (post finalização) significaria alta probabilidade de realização de um gol se cruzarmos as duas métricas indicando alta qualidade na finalização realizada.

Podemos ir mais além com as análises com o número de assistências (quantitativo) e saber seu XT (X treath) que identifica por exemplo quanto de periculosidade a escolha do passe naquele determinado momento poderá ter. Exemplo prático pode ser uma transição 3vs2 em que um determinado momento, o jogador em posse tem duas escolhas de passe, e em base ao XT a probabilidade de finalização com alto XG de um jogador será mais alta que o outro em base ao seu XT.

Estes são apenas pequenos exemplos da complexidade e estudo que temos que obter para conseguir decifrar momentos cruciais na análise de equipes e jogadores. Estes exemplos mostram que nenhum dado sozinho pode exemplificar um resultado de uma partida, o evento mais importante do jogo O GOL é também um dos mais raros sendo cerca de 0,05 das ações totais que ocorrem no jogo.

Um dos erros mais comuns que vemos é que se realizam análises dos dados partindo de um dos seus elementos mais raros (GOL) ou seja, o resultado final da partida pode influenciar diretamente na leitura e interpretação dos dados. Claramente o gol durante a partida pode mudar os comportamentos de ambas as equipes mas ter conhecimento do contexto nos ajuda a interpretar melhor as métricas atrás dos 0,05 % mais importantes do futebol.

No próximo artigo falaremos sobre as diferenças entre dados de Volume e Periculosidade com exemplos práticos de leitura e interpretação.

Para melhor entendimento segue um INFOGRAFIA dos assuntos tratados.

INFOGRAFIA

Até a próxima,     

Bruno Loureiro Batista
Treinador Licença UEFA
Analista desempenho
Juventus F.C

  

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Entre observar e decidir: a importância do método

Por: Nicolau Trevisani

Ao longo da minha trajetória no futebol, atuei em diferentes funções e contextos: análise de desempenho em categorias de base (São Paulo FC), futebol profissional no Brasil como analista de desempenho e scout (São Paulo FC) e, atualmente, como scout internacional na América do Sul (. FC Dallas -MLS). Essas experiências não aconteceram de forma isolada. Pelo contrário, acabaram se conectando em algo que considero central hoje: a forma como observo o jogo e organizo critérios para apoiar a tomada de decisão.

O trabalho no ambiente formativo me ensinou a olhar para o desenvolvimento ao longo do tempo, respeitando maturidade, contexto e processo. Já no futebol profissional, a pressão por resultado imediato trouxe outra camada importante: a necessidade de transformar informação em clareza rápida para a comissão técnica. No scouting, especialmente em um contexto internacional, esse olhar precisou se ampliar ainda mais — compreender o jogador não apenas pelo que ele faz, mas pelo ambiente em que faz, pelo nível de exigência competitiva e pela adaptação necessária a novas realidades.

Foi a partir dessa circulação entre áreas que uma pergunta passou a guiar meu trabalho: o que diferencia uma boa observação de uma observação que realmente ajuda a decidir melhor? No futebol, vemos muitos dados, vídeos e relatórios. Mas nem sempre isso reduz ruído. Muitas vezes, apenas adiciona camadas de complexidade a decisões que já são difíceis.

Na prática, passei a valorizar menos o evento isolado e mais a frequência com que o jogador consegue decidir bem em diferentes contextos. Observar como ele se posiciona antes de receber, como reage ao erro, como sustenta a leitura sob pressão ou em vantagem no placar. Esses detalhes dizem mais sobre adaptabilidade e consistência do que um lance bem-sucedido destacado em vídeo.

Esse olhar também muda a forma de projetar. Não existe jogador bom ou ruim fora de contexto. Existe adequação — entre perfil, ambiente, modelo de jogo e tempo de maturação. Ignorar essa relação costuma gerar erros caros, seja no desenvolvimento, na contratação ou na expectativa criada em torno de um atleta.

Por isso, hoje entendo trajetória profissional não apenas como um conjunto de experiências, mas como a construção de um método. Um método que conecta observação, interpretação e decisão. Que respeita o lado humano do jogo sem perder rigor técnico. E que busca ajudar clubes e profissionais a enxergar melhor o que está diante deles — reduzindo ruído e aumentando consistência em um ambiente onde decidir bem, mais do que acertar sempre, é o verdadeiro diferencial.

Ter um método capaz de organizar, solidificar e dar sentido às informações só foi possível graças à formação acadêmica, mas, sobretudo, às diferentes experiências vividas ao longo do caminho. O jogo e o jogador estão ali para todos verem. Observar com método, porém, é o que realmente qualifica a informação — e faz diferença na prática profissional.