Que fique bem claro: não sou contra demitir treinador de futebol. O politicamente correto que diz que todo técnico deve ter tempo de trabalho é fantasioso e contraproducente.
O mundo corporativo deixa claro e o futebol, mesmo com suas especificidades, deveria abraçar: demore para contratar e seja rápido para demitir! Se essa ordem não for respeitada e não houver critérios para a admissão, se não for feita uma pesquisa minuciosa prévia e a escolha for equivocada não faz sentido perder tempo e insistir com um trabalho que não tende a evoluir.
A convicção e o conhecimento de quem contrata é o mais importante. Esse recrutamento e seleção para trazer um treinador, que será o líder do processo, não pode ser feito de qualquer jeito, na base do ‘esse me agrada, esse não’, apenas por opiniões subjetivas. Porque é esse profissionalismo que vai ser fundamental para avaliar corretamente o trabalho que está sendo desenvolvido e se há margem de evolução ou não.
Há trabalhos que mesmo em sequência de derrotas merecem ser mantidos porque está sendo sedimentado algo para um sucesso futuro. Há outros, porém, que mesmo em momentos positivos estão no limítrofe tático e na gestão do ambiente e que a tendência é só cair.
Saber avaliar isso é para poucos. Conhecimento e sensibilidade que falta muitas vezes no futebol brasileiro.
Poderia enumerar aqui todas as demissões que já tivemos neste ano em clubes da Serie A, como Osório no Remo, Fernando Diniz no Vasco, Crespo no São Paulo, Tite no Cruzeiro e Filipe Luiz no Flamengo… invariavelmente em todas elas vemos o erro na expectativa da contratação e o erro na avaliação e no timing da demissão….
No futebol real — aquele que acontece em alta velocidade, sob pressão e com decisões em frações de segundo — não existe atleta “dividido”. O corpo não joga separado da mente; a técnica não aparece sem emoção; a tática não se sustenta sem energia, vínculo e clareza. Por isso, olhar o jogador a partir de um pensamento sistêmico e holístico é mais do que uma visão bonita, é uma exigência prática do alto rendimento. O atleta é um sistema vivo, influenciado por sono, rotina, relações, contexto familiar, ambiente do clube, estilo de liderança, calendário, viagens e expectativas externas. Tudo isso entra em campo — mesmo que ninguém sequer veja ou comente.
É justamente nessa perspectiva que a preparação cognitiva e emocional ganha relevância, não como um “módulo à parte”, mas como um componente integrado ao treino, capaz de potencializar o físico, sustentar a tomada de decisão e dar estabilidade ao comportamento em jogo. Quando um atleta regula melhor suas emoções, ele não melhora apenas seu bem-estar — ele melhora sua capacidade de executar movimentos com precisão sob estresse, manter o plano tático com lucidez e se recuperar mais rápido após erros, choques e frustrações. A ciência tem sido cada vez mais clara com resultados de pesquisas que afirmam que o desempenho é um fenômeno psicofisiológico, no qual atenção, percepção, controle inibitório, memória de trabalho e leitura de jogo dialogam com fadiga, excitação, confiança e medo em tempo real.
Na prática, estratégias como visualização/imaginário, rotinas preparatórias, mindfulness, treino de habilidades psicológicas e intervenções estruturadas ajudam a criar um estado interno mais estável para que o atleta acesse o que já treina no campo. Em vez de “controlar” emoções, o objetivo é desenvolver autorregulação funcional. Como? Percebendo sinais do próprio corpo, nomeando o que está acontecendo, ajustando respiração e foco, e voltando ao jogo com presença! Isso reduz os efeitos da ansiedade e da ruminação, melhora a comunicação com colegas e aumenta a consistência comportamental, exatamente o que define, em muitos momentos, o “nível” de um jogador.
A força dessa abordagem cresce quando ela é inserida dentro dos microciclos de treinamento, porque deixa de ser um recurso eventual e passa a fazer parte do cotidiano, com adaptações conforme carga física, densidade de jogos e contexto competitivo. Nesse formato, torna-se possível treinar foco, flexibilidade cognitiva e estratégias de enfrentamento emocional da mesma forma que se treina uma pressão coordenada ou um padrão ofensivo: com repetição, feedback e progressão. Evidências recentes sugerem, inclusive, que o treinamento combinado de resistência física e cognitiva (brain endurance training) pode gerar ganhos superiores ao treino físico isolado em variáveis relevantes ao futebol, como multitarefa, tomada de decisão e agilidade específica — competências que, no jogo moderno, valem tanto quanto metros percorridos.
Além disso, intervenções psicoeducativas relativamente curtas, bem desenhadas e consistentes — combinando visualização, mindfulness e elementos de coesão — mostram potencial para reduzir ansiedade e elevar motivação intrínseca e confiança, com efeitos observáveis em diferentes faixas etárias e níveis competitivos. Isso reforça uma mensagem importante para clubes e comissões técnicas, na medida que não é preciso “parar tudo” para treinar o mental. Quando a preparação cognitiva e emocional é tratada como parte do processo de desempenho, ela encaixa no calendário e vira um multiplicador silencioso do treino técnico-tático-físico.
Em resumo, a preparação cognitiva e emocional, integrada aos microciclos, é uma ferramenta de alta performance porque atua no sistema inteiro, melhora presença, regula estresse, protege relações e sustenta decisões sob pressão. Ela não substitui o treino, ela completa a rotina de treinamentos! E, no futebol, um atleta inteiro não joga apenas melhor, ele aprende mais, recupera-se melhor e constrói uma carreira mais estável.
*Maurício Rech éMestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas. Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca
Existe um incômodo silencioso atravessando a cultura contemporânea: a sensação de que o mundo tem ficando cada vez mais acinzentado e “liso”. Desapareceram os detalhes. Menos riscos, diferentes assinaturas e visões de mundo, contraste. Tudo muito padronizado. Na arquitetura, repetem-se formas globais; na arte, o gesto criativo oscila entre produto e performance; e, no futebol, cresce a impressão de um jogo cada vez mais eficiente, intenso e organizado, e ao mesmo tempo, em muitos contextos, mais previsível.
Este texto parte de uma hipótese que me parece cada vez mais evidente: o mesmo espírito cultural que empurra a sociedade para a padronização estética também pressiona o futebol a reduzir o improviso, a autoria e o desequilíbrio criativo.
Não tento apresentar uma nostalgia vazia ou um ataque simplista à tática, à ciência ou aos dados. O problema não é a evolução. O problema começa quando a busca por controle absoluto transforma a criação em risco proibido, e quando o “ornamento” deixa de ser identidade para virar “excesso”.
Antes de iniciarmos, observe estas imagens, o que elas te remetem?
O passado e o futuro, o que ganhamos e o que perdemos?
1. A morte do ornamento e a vitória da “Eficiência” (mas eficiente em qual ponto de vista?)
Parte do debate contemporâneo sobre arte e arquitetura gira em torno de um único sentido: o belo, o expressivo e o singular passaram a precisar justificar sua existência em termos de utilidade. O detalhe é suspeito, adorno é tratado como desperdício. A singularidade passa a ser lida como ineficiência.
Em um texto da Gazeta do Povo, o abandono dos ornamentos é tratado como um sintoma de empobrecimento cultural, argumentando que diferentes civilizações historicamente manifestaram identidade por meio de suas expressões ornamentais. A crítica central é forte: o desaparecimento do ornamento não seria apenas uma mudança estética, mas um sinal de um tipo de empobrecimento civilizacional.
Esse ponto é importante porque, quando o ornamento desaparece, o que se perde não é apenas algo superficial. O que se perde é a linguagem. O ornamento, entendido de forma séria, não é excesso. Está conectado com o contexto, cultura, origem e assinatura. Um detalhe que grita: “isso veio de algum lugar, foi produzido por alguém, carrega uma história”. E esse é o resultado de originalidade, que retrata a forte conexão do autor com a vida, traduzidos por sua extrema qualidade técnica.
O problema começa quando uma estética funcional deixa de ser escolha e vira dogma. E toda vez que um princípio vira dogma, ele para de organizar e começa a empobrecer. Deixa de ter conexão com a vida ao seu redor, perde a conexão com os seus integrantes e o resultado é algo que tem pouca ou nenhuma representação com a sua cultura.
Quando o detalhe deixa de ser linguagem e passa a ser tratado como ruído, a cultura começa a confundir simplificação com esvaziamento.
Trazendo alguns pensadores e discussões sobre o tema, apresento aqui pontos essenciais para esta discussão.
A arte tem se desconectado da humanidade? De um elemento de domínio do povo, passando a uma transição para o domínio de especialistas e classes específicas?
Este movimento te faz traçar alguma relação com a transformação com que o futebol vem passando? De representação cultural e de domínio público para algo muito complexo, representando “alguns e seus especialistas” e se distanciando da sua essência e origens?
Lembrando!!! Por aqui estamos abordando diferentes ideias, com equilibrio e boas discussões, para que todos cresçamos juntos!!! Respeito todas as formas de arte e diferentes pensamentos.
2. O mundo liso: menos cor, menos contraste, menos surpresa
A padronização estética não atua apenas como tendência visual. Ela atua como regime perceptivo, moldando o olhar, reduzindo o seu impacto. Ela acostuma o sujeito a viver cercado por superfícies limpas, tons neutros, geometrias previsíveis e linguagens replicáveis. Vamos pensar os regimes estéticos, tudo passa por padrões pré estabelecidos: Vestimenta, pensar, agir, gosto musical, religião, comportamental. Será que todos concordam e se moldam como pensam e acreditam; ou são resultado de constantes cortes e repressão de um ambiente cada vez mais agressivo e padronizado?
Um artigo do ArchDaily Brasil, ao comentar uma pesquisa baseada em milhares de fotografias de objetos cotidianos, aponta uma tendência de predominância de tons mais neutros e formas mais regulares ao longo do tempo. A análise não é moralista, mas ela ajuda a enxergar algo importante: há uma convergência visual crescente em objetos e ambientes do cotidiano.
Isso não significa que o mundo ficou “objetivamente pior”. Mas significa, sim, que ele ficou mais homogêneo. E homogeneidade, quando excessiva, cobra um preço: o olhar perde estranhamento, a experiência perde textura e a cultura perde contraste.
Até mesmo em estudos populares sobre emoção e cor, aparece uma forte metáfora: reportagens da Veja e do Mega Curioso repercutiram pesquisas em que tons acinzentados aparecem associados a estados emocionais mais negativos ou a redução de contraste perceptivo. Não se trata aqui de transformar isso em causalidade simplista, mas a imagem é forte: um mundo mais cinza é também um mundo em que o contraste simbólico parece enfraquecido.
E o contraste é fundamental para qualquer forma de expressão.
3. O futebol como espelho da época
O futebol sempre foi mais do que um esporte. O futebol é um espaço de condensação cultural. É um lugar em que o corpo traduz aquilo que uma sociedade pensa, sente, reprime e celebra. E muitas das vezes um ponto de “desafogo” para uma sociedade que vive afundada em problemas dos mais diversos. tipos.
Um drible nunca foi apenas um gesto técnico. Um drible é uma micro-narrativa, o teatro do corpo. Um instante em que o jogador, por meio da sua relação com tempo, espaço, engano e coragem, produz algo que ultrapassa a mera utilidade e o resultado que gera para o espetáculo, além de mental sobre o adversário, atinge o emocional de milhares de pessoas que se veem representadas por aquele artista.
Por isso, quando o futebol começa a perder drible, perde-se mais do que “entretenimento”. Perde-se uma forma de linguagem, forma popular de autoria. Perde-se o modo de dizer “eu existo no jogo” sem depender apenas da obediência ao sistema robotizado e limitante.
O futebol contemporâneo vive um paradoxo fascinante: nunca tivemos tanta informação, tanta precisão, tanta capacidade de mapear o jogo. Tracking. GPS. Modelos de decisão. Mapas de calor. Métricas de pressão. Modelos probabilísticos. Tudo isso é valioso se bem utilizado, e que não venha a sobrepor os sentimentos, intuição e relações de quem vive e executa o jogo…
Mas, ao mesmo tempo, cresce a sensação de que muitos jogos se parecem. A organização aumenta. A singularidade diminui. Os padrões tomam conta do espetáculo. As assinaturas desaparecem.
É aqui que a analogia com o ornamento ganha sentido: o drible, o passe improvável, a pausa, a condução que quebra o script, a invenção sob pressão… tudo isso pode ser entendido como o ornamento do futebol.
Não como excesso inútil. Mas como o elemento que dá identidade ao sistema. E principalmente, o valor inestimável destes gestos artísticos e expressivos para o espetáculo como um todo.
4. Como a mecanização acontece: calendário, mercado, dados e medo
Chamar o futebol atual de “mecanizado” não significa negar sua evolução. O jogo ficou mais intenso, atlético. Se otimizou e deu sentido a muitas coisas no jogo coletivo. Mais sofisticado em muitos aspectos. O problema aparece quando a busca por controle total reduz a margem de autoria, e principalmente, a sensibilidade e repertório dos atletas para solucionarem os problemas que o jogo lhes apresenta.
E essa mecanização não é apenas tática. Ela é estrutural, ambiental e limitante ao ponto de vista psicológico.
4.1 Calendário e falta de tempo
E nem tudo isso é algo produzido apenas pela evolução tecnológica e moderna. Mas sim a crescente de jogos, valores astronômicos, cobranças desproporcionais e a cultura imediatista que vem tomando conta do esporte. Com pouco tempo para treinar, modelos mais replicáveis e comportamentos mais automatizáveis ganham prioridade. O treinador passa a privilegiar aquilo que consegue estabilizar rápido. O espaço para exploração, improviso e repertório tende a diminuir.
Veja o treinador Enderson Moreira falando sobre estes aspectos:
Algumas falas interessantes sobre este mesmo tema:
4.2 Mercado “plug and play”
O mercado valoriza cada vez mais perfis que encaixam rápido. O jogador funcional, obediente e adaptável tem enorme valor. Isso não é ruim em si. O problema é quando o sistema passa a premiar apenas isso, e começa a desconfiar de perfis mais autorais, mais caóticos, mais criativos.
4.3 Dados mal utilizados
O dado, quando bem utilizado, amplia percepção. O grande problema é quando vira manual de “não errar”, ele deixa de apoiar a criação e passa a censurá-la. Se toda métrica premia apenas retenção e baixo erro, o comportamento ótimo vira o passe lateral eterno.
4.4 O medo como cultura
O erro exposto em rede social virou julgamento moral. O atleta percebe isso rapidamente, e o sistema aprende a se proteger. Quando o ambiente pune o risco, o risco desaparece. E quando o risco desaparece, a criatividade vira exceção.
O futebol mecanizado não nasce apenas da tática. Ele nasce do medo coletivo de errar em público.
João Paulo Sampaio, gerente de base do Palmeiras abordando este tema, e o quanto se torna prejudicial ao ponto de vista de formação e desenvolvimento dos talentos:
5. O “jogo correto” e a estética corporativa do futebol moderno
Em muitos contextos, o futebol contemporâneo começa a se parecer com uma estética corporativa: decisões seguras, movimentos treinados, comportamentos previsíveis, baixa exposição, mínima variância.
A lógica é simples: se “funciona”, então serve. Se reduz risco, então é melhor. Se protege o emprego, então é preferível. Se evita crítica, então se consolida.
Só que o futebol nunca foi apenas um exercício de redução de erro. O futebol sempre foi, também, um espaço de produção de desequilíbrio. E desequilíbrio é o coração do jogo.
O drible, o passe que quebra linha, a pausa inesperada, a finta corporal, a recepção orientada fora do padrão, tudo isso não é perfumaria. Mas sim, é capacidade de deslocar a lógica do adversário.
Em outras palavras: o “ornamento” do futebol não é apenas beleza. É vantagem competitiva, confiança…
6. Resgatar a arte sem abandonar a competitividade
A resposta não é voltar ao caos, rejeitar ciência ou demonizar os dados. O caminho maduro é outro: usar processo e método para proteger a criação humana — e não para substituí-la.
6.1 Estrutura que protege o risco
Criatividade não nasce no vazio. Criatividade nasce com cobertura. Se a equipe possui mecanismos claros de compensação, o jogador arrisca com menos medo. A estrutura não é inimiga do drible. A estrutura é o guarda-corpo que o permite arriscar.
6.2 Treinar princípios, não coreografias
Princípios geram variação e coreografias geram cópia. Quanto mais o treino vira script, mais o jogo vira execução, e em um ambiente (in-vitro), tendo que acreditar piamente que aquele roteiro trabalhado seja reproduzido quase de forma impecável no jogo para as coisas acontecerem… Quanto mais o treino ensina intenção, relação e leitura, proporcionando recursos e repertório aos atletas, mais o jogo preserva a autoria.
6.3 Métricas que valorizem coragem
Se toda métrica premia apenas acerto, a coragem some. É possível medir criação de vantagem: rupturas, progressões, passes que quebram linha, conduções que arrastam bloco, ações que aumentam a probabilidade de finalização.
6.4 Cultura interna: erro criativo não é crime
O ambiente define o jogador. Quando o clube transforma o erro em humilhação, o atleta escolhe o seguro. É preciso diferenciar erro por displicência de erro por tentativa responsável.
6.5 Identidade como diferencial competitivo
O estilo universal pode ser eficiente. Mas identidade é imprevisível. E imprevisibilidade, no futebol, é uma vantagem competitiva com valor inestimável.
O treinador moderno precisa lidar com uma tensão sofisticada: organizar sem esterilizar; estruturar sem engessar; medir sem reduzir; analisar sem retirar o poder de decisão do jogador.
O dado mostra muito. Como, onde, em quais formas… Muitas vezes, mostra até “com que frequência”. Mas a criação acontece no “como”. E o “como” ainda pertence ao corpo, à coragem, ao repertório, à sensibilidade e à relação humana.
O treinador do futuro não será o que mais controla. Será o que melhor constrói contextos para que a inteligência coletiva e a autoria individual coexistam.
Em um mundo cada vez mais liso, o futebol pode seguir sendo um dos últimos lugares de resistência do ser humano. Mas só será se deixarmos de punir o artista.
O futebol é um espelho da época. Se a sociedade se organiza para ser mais eficiente, mais mensurável e menos ambígua, o jogo também tende a caminhar para o controle.
O maior problema começa quando o controle vira censura. Onde a vida perde contraste, a identidade perde seus detalhe e essência. Quando o futebol perde o drible e as características individuais que torna cada ser único e reconhecido pelo o que ele é.
O desafio da nossa geração é bastante complexo: construir equipes organizadas sem matar a expressão; usar tecnologia como suporte, sem ficar refém dos painéis; entender que o dado mostra muito, mas não são apenas referências sozinho; compreender que o futebol continua sendo um sistema complexo, de relações e sentimentos em que o coletivo organiza o cenário, mas o detalhe humano ainda decide a resposta.
Se o mundo está ficando uniforme, o futebol ainda pode ser um dos últimos lugares de resistência dos seres vivos.
E talvez seja exatamente por isso que ainda valha tanto a pena defender o “ornamento” no jogo: não como excesso, mas como linguagem, identidade e com a assinatura de seus artistas.
Roberto Torrecilhasé analista de desempenho da equipe princial da S.E. Palmeiras, possui Licença PRO de Treinadores da CBF, e é professor em várias escolas como Univerisdade do Futebol, CBF Academy e Connmembol Linkedin: https://www.linkedin.com/in/roberto-torrecilhas-1a0272103/?locale=pt_BR
Dentre os diversos modelos de treinamento existentes no futebol contemporâneo, talvez o mais conhecido e debatido seja o da Periodização Tática, concebida em Portugal pelo professor Vítor Frade. Trata-se de uma forma de organizar o treino a partir do princípio da especificidade: treina se o que se pretende jogar. Essa especificidade não é apenas estrutural ou posicional, mas essencialmente comportamental.
Seus princípios metodológicos — especificidade, propensão, progressão de complexidade e alternância horizontal — estruturam o microciclo de modo que o modelo de jogo seja experienciado diariamente sob diferentes níveis de exigência. A propensão aumenta a probabilidade de determinados comportamentos emergirem no treino. A progressão de complexidade eleva as exigências relacionais, perceptivas e decisórias ao longo da semana. A alternância horizontal regula a carga sem romper a identidade do jogar. Não se alternam conteúdos desconectados, mas níveis distintos de exigência do mesmo jogo.
Para aprofundar essa discussão, é fundamental compreender o que entendemos por jogo. Na perspectiva desenvolvida por Alcides Scaglia, o jogo é um sistema complexo de relações, imprevisibilidades e problemas emergentes. Ele não se resume à execução de padrões, mas consiste na interação constante entre adversários, companheiros, espaço, tempo e regras. O jogo produz tensão, cooperação, conflito e necessidade permanente de decisão em ambiente imprevisível.
Se partimos dessa concepção, torna-se claro que o modelo de jogo deve funcionar como um norte orientador, e não como um fim em si mesmo (assim como já pude aprofundar em outro texto publicado aqui, algum tempo atrás. No meu entendimento, o objetivo do treino não é simplesmente reproduzir um modelo idealizado, mas formar uma equipe capaz de jogar melhor — isto é, preparada para lidar com as diferentes demandas e imprevisibilidades da partida. A lógica maior do jogo permanece simples e incontornável: fazer mais gols que o adversário.
Nesse sentido, esta reflexão não busca se apropriar integralmente da Periodização Tática nem reproduzi-la como método fechado. Pelo contrário, dialoga com seus princípios metodológicos — reconhecendo sua relevância estrutural — para, a partir deles, propor uma ampliação do olhar. Trata-se de reconhecer o valor de uma matriz organizadora consistente e, simultaneamente, explorar como a dimensão emocional pode ser tratada não como algo paralelo, mas como componente intrínseco ao próprio jogar.
Quando o modelo passa a ser tratado como um fim fechado, corre-se o risco de reduzir a adaptabilidade coletiva. O modelo organiza referências, mas o jogo exige regulação contínua. É nesse ponto que a dimensão emocional deixa de ser algo externo ao campo e passa a ser compreendida como parte integrante do comportamento coletivo.
Ansiedade coletiva, confiança estrutural, agressividade regulada, resiliência após o erro, estabilidade sob pressão — tudo isso é comportamento. E comportamento se treina no contexto do jogo. Quando o treino respeita essa natureza relacional, ele cria um ambiente fértil para que os atletas desenvolvam não apenas coordenação tática, mas também estabilidade emocional integrada ao jogar.
O estado de Flow — entendido como um estado de engajamento pleno, clareza perceptiva e sensação de controle sob desafio equilibrado — não é objetivo direto do treino. Ele é consequência. Surge quando modelo, competência, desafio, segurança emocional e interações pedagógicas se alinham. E emerge também da qualidade dos feedbacks da comissão técnica: das palavras-chave utilizadas, do clima emocional criado no treino e da coerência entre exigência e suporte.
Treinar melhor, portanto, não é apenas organizar movimentos. É preparar a equipe para sustentar comportamentos eficazes sob pressão, instabilidade e desafio — mantendo o modelo como norte, mas colocando a lógica do jogo acima de qualquer idealização. A seguir, apresento uma aplicação prática de microciclo com jogo no domingo e foco da semana em organização ofensiva e transição defensiva. Trata-se de um exemplo que pode — e deve — ser ajustado de acordo com cada contexto competitivo, tanto nos conteúdos táticos quanto nos componentes emocionais a serem desenvolvidos.
O conhecimento da dimensão psicológica e emocional mostra-se um diferencial nesse processo, pois permite compreender que tipo de emoção cada exercício ou cada fase da semana tende a exigir, como essas emoções emergem no treino e de que forma podem ser moduladas em prol do desempenho coletivo.
Por fim, ressalto — inclusive pela minha formação em Psicologia e pela atuação ao longo de anos como analista de desempenho e scout em diferentes contextos — que esta proposta não invalida intervenções psicológicas em grupo ou atendimentos individuais. Pelo contrário, reconhece que tais intervenções podem desempenhar papel fundamental tanto na performance quanto na saúde emocional de cada indivíduo que compõe a equipe e o ambiente do clube.
Proposta de Microciclo Integrado
Domingo – Jogo • Competição oficial.
⚪ Segunda-feira – Recuperação / Folga • Atletas que atuaram: folga • Não relacionados: trabalho regenerativo + técnico leve
Carga Volume: baixo Intensidade: baixo Densidade: baixo
Exercício principal: 7×7+ 2 coringas externos em meio campo, com metas laterais e finalização rápida após progressão.
Descrição: • Jogo reduzido com estímulo à circulação ofensiva e reação imediata à perda.
Objetivo tático: • Reativar princípios de organização ofensiva: Gerar linha de passe, circulação de bola • Reação pós perda e pós ganho de bola
Objetivo emocional: • Reconstrução da confiança coletiva • Coragem para jogar e aparecer para o jogo • Comunicação ativa • Reengajamento competitivo
Carga: Volume: médio Intensidade: média Densidade: média Palavras-chave: “Comunica”, “Reage”, “Confia”, “Juntos”
🔵 Quarta-feira (D-4) – Comportamentosofensivos da própria equipe
Exercício principal: 10×10 (+goleiros) em 3⁄4 de campo Manipulação de placares, numero de jogadores expulsos por um período, erros de arbitragem… (0x1, 1×0, empate com tempo reduzido). Manipulação de situações impostas pelo jogo
Regras: Gol = 2 Gol após recuperação em até 5 segundos = +1
Descrição: Jogo próximo ao jogo formal, buscando estimular princípios de jogo da nossa ideia de jogo ( Terceiro, homem, ataque as costas do oponente, mapear espaço, diferentes alturas de passe…)
Objetivo tático: • Organização ofensiva sob pressão real, com conceitos da ideia de jogo • Transição defensiva agressiva Objetivo emocional: • Treinar resiliência • Coragem para jogar • Regular ansiedade coletiva • Sustentar comportamento após erro • Agressividade coordenada
Carga Volume: médio Intensidade: alta Densidade: alta
Dependendo do jogo, é possível colocar componentes estratégicos da próxima partida neste dia, e voltar-se menos para apenas comportamentos da própria equipe
🟢 Quinta-feira (D-3) – ConsolidaçãoEstratégica (Saída + Construção Direcionada)- Pode variar dentro de cada jogo
Exercício principal: 11×11 campo reduzido de um gol a meia lua oposta Início sempre em saída de bola Simulação do padrão de pressão do adversário
Descrição: Trabalho direcionado para a estratégia do próximo jogo, enfatizando construção organizada.
Objetivo tático: • Estruturar saída • Construção sob padrão específico • Ajuste estratégico
Objetivo emocional: • Segurança estrutural • Coragem para jogar • Confiança no plano • Controle emocional pré-competitivo
Carga Volume: alto Intensidade: média Densidade: média
Palavras-chave: “Estrutura”, “Paciência ativa”, “Confia no plano”, “Organiza”
🟡 Sexta-feira (D-2) – Velocidade e acabamento rápido
Exercício principal: 8×8 em campo médio Ataques com tempo limitado para finalizar (8 segundos)
Descrição: Transições rápidas com foco em verticalidade e reação defensiva imediata.
Objetivo tático: • Velocidade na organização ofensiva- conclusão das jogadas • Compactação defensiva pós-perda
Objetivo emocional: • Agressividade controlada; • Ambição para fazer gol • Coragem decisional • Intensidade competitiva
Carga Volume: médio Intensidade: alta Densidade: média Palavras-chave: “Rápido”, “Ataca”, “Recupera”, “Coragem”
🟤 Sábado (D-1) Bola Parada
Bola parada ofensiva Trabalho específico de ataque à bola.
Descrição: Baixa carga geral, foco em ativação e confiança coletiva.
Objetivo tático: • Ajustes finos • Organização final • Coordenação de bola parada
Objetivo emocional: • Agressividade no ataque à bola • Confiança final • Estabilidade emocional
Carga Volume: baixo Intensidade: Baixa Densidade: baixa
Palavras-chave: “Ataca a bola”, “Decide”, “Confiança”, “Prontos”
Concentração e foco na atividade são estimuladas o tempo inteiro em qualquer atividade.
Nicolau Trevisani Frotaatua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/
Desenvolver no futebol é ampliar a capacidade de conexão com a bola, com o jogo, com o outro e com a vida de quem joga.
Futebol, assim como a VIDA é um jogo de CONEXÔES. Essa ideia ficou ainda mais clara para mim em uma conversa com meu filho sobre a escola e o modo de superar o desafio das avalições. Ele é goleiro, Sub- 14, e gosta muito do que faz. Raramente comento algo sobre partidas ou treinos; deixo que ele fique à vontade e me procure quando quiser dialogar sobre o tema.
Falei a ele:
“Para ir bem em uma disciplina na escola ou nas avaliações, você precisa criar vantagem numérica. Chame o estudo para jogar ao seu lado. Traga a atenção nas aulas para te ajudar nas avaliações. É diferente de ficar apenas você contra o conteúdo, contra a prova, contra o tempo, enfim.”
Conectando com a nossa área, somos professores ou agentes socializadores preparados para interagir com essas teorias e para trazer vantagens numéricas de recursos, de opiniões sobre os nossos afazeres?
O cenário e o contexto do futebol atual nos mostram pouca capacidade dessas relações. A repetição, as replicações e a dificuldade de criar conexões enfraquecem o ambiente de formação. Desde as relações dentro de uma comissão técnica até as conexões entre os próprios jogadores, vemos um jogo diferente, que sequer podemos comparar com outros tempos e não avaliar se é bom ou ruim, pois entraríamos em uma outra discussão.
Talvez desenvolver seja exatamente isso: ampliar conexões e sustentar relações que potencializam o jogo. No campo ou na vida, criar vantagem numérica é chamar o outro para jogar junto, é aproximar. Quando reduzimos as relações, empobrecemos os vínculos e o jogo também se empobrece nas diversas situações.
No fim, não se trata de ações isoladas, mas de redes que se constroem e se conectam em múltiplas possibilidades. O futebol, em todos os seus níveis, é sobretudo educacional. Desenvolver no futebol não é formar jogadores mais fortes, mais rápidos ou mais técnicos, mas pessoas mais conectadas ao jogo, ao outro e a si mesmas, porque o jogo que realmente importa é o das relações.
Inspirações e Referências: João Batista Freire Wilton Carlos de Santana Danilo Augusto Ribeiro
Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152
O título do Paulistão 2026 encerra o maior jejum de Abel Ferreira no Palmeiras. Na cultura brasileira, onde impera o famigerado “o segundo é o primeiro dos últimos”, urgia um caneco após os vices da Libertadores, do Brasileiro e do próprio Paulista de 2025.
O português é agora o treinador com mais títulos na história do clube: onze! E faz parte receber críticas, é do jogo. Mas falta o devido reconhecimento a Abel. Por parte até de uma boa parcela dos palmeirenses.
Memória curta é outro elemento presente no futebol brasileiro. A vitória de ontem não garante o respaldo de hoje. Porém deve-se olhar o todo. São quase cinco anos e meio do mesmo treinador no mesmo clube. E sempre chegando entre os primeiros. Mais difícil do que chegar no topo é se manter nele.
E o Palmeiras de Abel tem conseguido isso. É claro que o 2025 palmeirense foi marcado por algumas imperícias. Várias do próprio português. Abandonar publicamente o Brasileirão antes da hora, não ter uma estratégia eficaz para a grande final da Libertadores, o tempo além do normal para achar um time e um jeito de jogar, foram algumas delas. A própria milionária contratação de Paulinho junto ao Atlético-MG entra na conta porque ele praticamente não jogou.
Expectativa e realidade não caminharam juntos nesse caso e isso afetou sim a temporada do clube. E que fique claro: não me agrada o comportamento bélico de Abel Ferreira nas coletivas de imprensa.
Entretanto até nisso vejo uma intencionalidade clara para vencer. O confronto sempre alimentou bons personagens e grandes conquistas do futebol mundial. As fúrias públicas propositais de Muricy Ramalho, Felipão, Luxemburgo, Zagallo e do próprio português José Mourinho alimentavam esse fogo interno e externo para vencer.
Sei que Abel Ferreira vai ter sossego curto. Após a próxima sequência ruim (que vai acontecer, com certeza) vão voltar a falar que ele perdeu o grupo, que não consegue extrair mais nada de ninguém no clube, que a forma de jogar não evolui, que o discurso já ficou batido e etc. Eu prefiro olhar para os onze troféus que ele ganhou. São essas conquistas que dizem quem ele de fato é.
foto: Léo Barrilari
Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br
A final do Campeonato Paulista 2026 expõe dois projetos diferentes, porém eficientes e consolidados: a eficácia e grandeza do Palmeiras e o organizado e inteligente Novorizontino. Cada um com uma realidade diferente, em função do tamanho, história e capacidade de arrecadação, porém bem sucedidos dentro do escopo a que se propõe. Corinthians e São Paulo, que fizeram as semifinais, poderiam ter chegado na grande decisão, mas aí o modelo profissional não ficaria tão evidente já que ambos os clubes sofrem um verdadeiro caos administrativo e financeiro.
A cultura nociva do futebol brasileiro apontou o 2025 do Palmeiras como ruim. Particularmente, não consigo considerar ruim chegar a final da Libertadores e ser vice-campeão Brasileiro. Voltemos aos dois outros grandes da capital paulista: é possível de maneira cristalina imaginar Corinthians e São Paulo na final da Libertadores em um futuro próximo? A última final corintiana foi em 2012 e a última tricolor foi em 2006…pelos lados palmeirense é possível imaginar outra final da América em um, dois, três anos…isso porque tem trabalho. Tem projeto. Tem consistência.
Analisando o Novorizontino a lógica é a mesma. O clube foi literalmente refundado e calcado desde o recomeço em gestão profissional, austeridade e pé no chão. Um passo de cada vez. É muito concreto imaginar a equipe de Novo Horizonte na Serie A do Brasileiro, já que tem batido na trave nos últimos anos. É um cenário completamente diferente, por exemplo, do último adversário de menor tamanho que o Palmeiras enfrentou em uma final de Estadual, em 2023, que foi o Água Santa. Alí foi um trabalho pontual que funcionou, mas que dava claros sinais que não se sustentaria. O mapa do futebol não para de mudar e mais importante do que um suposto peso da camisa, baseado em uma história que fica cada vez mais para trás, o que vale hoje é profissionalismo, conhecimento para tomar boas decisões, responsabilidade financeira e governança. Por mais finais como essa entre Palmeiras x Novorizontino para que o amadorismo fique cada vez mais escanteado.
Foto: Fabio Menotti/Palmeiras/by Canon
Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br
Por muito tempo, acreditamos que o maior campo de batalha no futebol era o gramado. Hoje, a ciência mostra que a disputa mais silenciosa e decisiva acontece dentro da mente dos atletas — e é justamente aí que reside o futuro do alto rendimento.
Estudos recentes sobre saúde mental no esporte de elite apontam uma realidade preocupante: atletas de alto desempenho têm riscos iguais ou até maiores de desenvolver transtornos emocionais do que a população geral. Ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono e abuso de substâncias são alguns dos sintomas mais recorrentes. E a razão não é fraqueza. É sobrecarga!
A Neurociência ajuda a explicar esse fenômeno: o cérebro humano não foi projetado para viver sob estresse crônico e vigilância constante. Em contextos de pressão intensa — como jogos decisivos, exposição midiática ou cobranças internas e externas — o sistema nervoso ativa mecanismos de sobrevivência, como a liberação contínua de cortisol. O resultado? Queda de rendimento, falhas cognitivas, lesões por tensão muscular e, em muitos casos, colapsos emocionais invisíveis aos olhos do público.
O maior adversário de um atleta, muitas vezes, não é o outro time. É o não lidar com as próprias emoções.
Esse cenário desafia os gestores do futebol moderno a mudarem de paradigma. Já não basta cuidar apenas da força física, da tática ou da nutrição. É preciso entender que cuidar da saúde mental não é luxo — é estratégia de alto rendimento.
A Psicologia Positiva, aliada à Neurociência, oferece caminhos científicos e funcionais para promover esse cuidado. Modelos como o PERMA, por exemplo, mostram que o bem-estar de longo prazo depende de cinco elementos-chave: emoções agradáveis, engajamento, bons relacionamentos, sentido de propósito e conquista. E o mais interessante: tudo isso é treinável! O cérebro possui plasticidade — ou seja, pode se adaptar e crescer a partir de experiências estruturadas de regulação emocional, mindfulness, mental skills training e feedback positivo.
Imagine um clube onde atletas são preparados não apenas para o jogo especificamente, mas para lidar com frustração, crítica, falhas e transições de carreira de forma mais ampla. Onde líderes sabem escutar e oferecer suporte emocional. Onde o ambiente de treino é, ao mesmo tempo, exigente e acolhedor. Isso não é utopia — é o que clubes de elite no mundo inteiro já começaram a construir com base em ciência!
Além disso, a integração de ferramentas digitais e inteligência artificial no monitoramento emocional está ampliando a capacidade dos clubes de identificar sinais precoces de exaustão psicológica. Já existem tecnologias que avaliam humor, sono, estresse e engajamento em tempo real — mas elas só são úteis quando associadas a uma cultura de cuidado.
É chegada a hora de perguntar: “O que estamos fazendo para proteger e potencializar a mente dos atletas?” Porque treinar as dimensões mais biológicas do atleta sem levar em conta as dimensões neuronais, é como escalar um jogador machucado: ele pode até ter certo desempenho, mas certamente não renderá tudo o que pode dentro do seu potencial.
Investir em saúde mental não é tratar doenças. É cultivar longevidade, foco, equilíbrio e alta performance. É formar atletas mais humanos — e clubes mais inteligentes.
O futebol começa no cérebro. E quem aprender a treinar emoções com a mesma seriedade que treina finalizações, vai estar à frente. Não só no placar, mas naquilo que realmente importa: pessoas inteiras, capazes e prontas para vencer — dentro e fora de campo.
*Maurício Rech éMestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas. Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca
Como ex-capitão e alguém que dedicou tantos anos da sua vida ao Benfica, não posso esconder a minha preocupação diante da postura adotada pelo clube nas acusações de racismo feitas por Vini Jr. a um de nossos atletas. Para o meu espanto, a reação institucional foi de adesão imediata ao discurso do jogador acusado, sem que, aparentemente, houvesse qualquer interesse genuíno em apurar os acontecimentos após uma denúncia tão grave.
O uso da imagem de Eusébio, nossa maior lenda, como um escudo que supostamente blinda o clube de ser falível no combate ao racismo foi no mínimo doloroso, assim como as inúmeras tentativas de descredibilizar a vítima.
Doloroso porque o Benfica sempre foi maior do que qualquer circunstância, qualquer jogador, dirigente ou momento. Sempre se apresentou como uma instituição de valores, de dimensão humana e de responsabilidade histórica. Foi assim que eu aprendi e que vivi desde o momento em que cheguei à Luz, em 2003, quando o clube vivia uma de suas maiores crises desportivas.
Hoje, porém, vivemos um outro tipo de crise, muito pior, porque é moral, e que me gera questionamentos inevitáveis: do lado de quem estamos? E, mais importante ainda, do lado de quê estamos? O que defendemos nas nossas vidas? Queremos realmente enfrentar o problema de frente ou só desejamos convenientemente varrê-lo para debaixo do tapete?
Neste momento, é isso que está verdadeiramente em debate. Não se trata de rivalidades, de proteger A ou B. Trata-se de princípios. Racismo não é opinião. É uma chaga que precisa ser combatida com firmeza e responsabilidade, e talvez, como sociedade, o primeiro passo seja o mais difícil: olharmos no espelho e examinarmos nossas consciências.
É doloroso ver este gigante, por natureza e por história, sofrer nas mãos de quem aparentemente tenta apequená-lo moralmente. O Benfica que eu conheci e defendi dentro de campo sempre esteve do lado certo da história. O tempo se encarregará de mostrar, com plena justiça, quem esteve de que lado das trincheiras. E eu espero, sinceramente, que estejamos à altura da grandeza que sempre nos definiu.
Parabéns ao Benfica que ontem completou 122 anos de uma das mais lindas histórias do desporto. Que a grandeza deste símbolo seja sempre medida não só por suas conquistas, mas também pelos valores que escolhe defender.
122 anos do Benfica
*Luisãoé ex-atleta, com passagens Cruzeiro, Benfica (onde foi capitão, 2º atleta com mais partidas e com maior número de conquistas pelo clube, além de ter atuado defendendo a Seleção Brasileira. Também atuou como embaixador e gestor técnico do Benfica. Atualmente é comentarista esportivo da ESPN.