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Saúde Mental no Esporte: um jogo que começa dentro da cabeça do atleta

Por: Maurício Rech

Por muito tempo, acreditamos que o maior campo de batalha no futebol era o gramado. Hoje, a ciência mostra que a disputa mais silenciosa e decisiva acontece dentro da mente dos atletas — e é justamente aí que reside o futuro do alto rendimento.

Estudos recentes sobre saúde mental no esporte de elite apontam uma realidade preocupante: atletas de alto desempenho têm riscos iguais ou até maiores de desenvolver transtornos emocionais do que a população geral. Ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono e abuso de substâncias são alguns dos sintomas mais recorrentes. E a razão não é fraqueza. É sobrecarga!

A Neurociência ajuda a explicar esse fenômeno: o cérebro humano não foi projetado para viver sob estresse crônico e vigilância constante. Em contextos de pressão intensa — como jogos decisivos, exposição midiática ou cobranças internas e externas — o sistema nervoso ativa mecanismos de sobrevivência, como a liberação contínua de cortisol. O resultado? Queda de rendimento, falhas cognitivas, lesões por tensão muscular e, em muitos casos, colapsos emocionais invisíveis aos olhos do público.

O maior adversário de um atleta, muitas vezes, não é o outro time. É o não lidar com as próprias emoções.

Esse cenário desafia os gestores do futebol moderno a mudarem de paradigma. Já não basta cuidar apenas da força física, da tática ou da nutrição. É preciso entender que cuidar da saúde mental não é luxo — é estratégia de alto rendimento.

A Psicologia Positiva, aliada à Neurociência, oferece caminhos científicos e funcionais para promover esse cuidado. Modelos como o PERMA, por exemplo, mostram que o bem-estar de longo prazo depende de cinco elementos-chave: emoções agradáveis, engajamento, bons relacionamentos, sentido de propósito e conquista. E o mais interessante: tudo isso é treinável! O cérebro possui plasticidade — ou seja, pode se adaptar e crescer a partir de experiências estruturadas de regulação emocional, mindfulness, mental skills training e feedback positivo.

Imagine um clube onde atletas são preparados não apenas para o jogo especificamente, mas para lidar com frustração, crítica, falhas e transições de carreira de forma mais ampla. Onde líderes sabem escutar e oferecer suporte emocional. Onde o ambiente de treino é, ao mesmo tempo, exigente e acolhedor. Isso não é utopia — é o que clubes de elite no mundo inteiro já começaram a construir com base em ciência!

Além disso, a integração de ferramentas digitais e inteligência artificial no monitoramento emocional está ampliando a capacidade dos clubes de identificar sinais precoces de exaustão psicológica. Já existem tecnologias que avaliam humor, sono, estresse e engajamento em tempo real — mas elas só são úteis quando associadas a uma cultura de cuidado.

É chegada a hora de perguntar: “O que estamos fazendo para proteger e potencializar a mente dos atletas?” Porque treinar as dimensões mais biológicas do atleta sem levar em conta as dimensões neuronais, é como escalar um jogador machucado: ele pode até ter certo desempenho, mas certamente não renderá tudo o que pode dentro do seu potencial.

Investir em saúde mental não é tratar doenças. É cultivar longevidade, foco, equilíbrio e alta performance. É formar atletas mais humanos — e clubes mais inteligentes.

O futebol começa no cérebro. E quem aprender a treinar emoções com a mesma seriedade que treina finalizações, vai estar à frente. Não só no placar, mas naquilo que realmente importa: pessoas inteiras, capazes e prontas para vencer — dentro e fora de campo.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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A grandeza de um clube está nos seus valores

Imagem: Reprodução/Instagram @luisao4oficial

Como ex-capitão e alguém que dedicou tantos anos da sua vida ao Benfica, não posso esconder a minha preocupação diante da postura adotada pelo clube nas acusações de racismo feitas por Vini Jr. a um de nossos atletas. Para o meu espanto, a reação institucional foi de adesão imediata ao discurso do jogador acusado, sem que, aparentemente, houvesse qualquer interesse genuíno em apurar os acontecimentos após uma denúncia tão grave.


O uso da imagem de Eusébio, nossa maior lenda, como um escudo que supostamente blinda o clube de ser falível no combate ao racismo foi no mínimo doloroso, assim como as inúmeras tentativas de descredibilizar a vítima.


Doloroso porque o Benfica sempre foi maior do que qualquer circunstância, qualquer jogador, dirigente ou momento. Sempre se apresentou como uma instituição de valores, de dimensão humana e de responsabilidade histórica. Foi assim que eu aprendi e que vivi desde o momento em que cheguei à Luz, em 2003, quando o clube vivia uma de suas maiores crises desportivas.


Hoje, porém, vivemos um outro tipo de crise, muito pior, porque é moral, e que me gera questionamentos inevitáveis: do lado de quem estamos? E, mais importante ainda, do lado de quê estamos? O que defendemos nas nossas vidas? Queremos realmente enfrentar o problema de frente ou só desejamos convenientemente varrê-lo para debaixo do tapete?


Neste momento, é isso que está verdadeiramente em debate. Não se trata de rivalidades, de proteger A ou B. Trata-se de princípios. Racismo não é opinião. É uma chaga que precisa ser combatida com firmeza e responsabilidade, e talvez, como sociedade, o primeiro passo seja o mais difícil: olharmos no espelho e examinarmos nossas consciências.

É doloroso ver este gigante, por natureza e por história, sofrer nas mãos de quem aparentemente tenta apequená-lo moralmente. O Benfica que eu conheci e defendi dentro de campo sempre esteve do lado certo da história.
O tempo se encarregará de mostrar, com plena justiça, quem esteve de que lado das trincheiras. E eu espero, sinceramente, que estejamos à altura da grandeza que sempre nos definiu.

Parabéns ao Benfica que ontem completou 122 anos de uma das mais lindas histórias do desporto. Que a grandeza deste símbolo seja sempre medida não só por suas conquistas, mas também pelos valores que escolhe defender.

122 anos do Benfica

*Luisão é ex-atleta, com passagens Cruzeiro, Benfica (onde foi capitão, 2º atleta com mais partidas e com maior número de conquistas pelo clube, além de ter atuado defendendo a Seleção Brasileira. Também atuou como embaixador e gestor técnico do Benfica. Atualmente é comentarista esportivo da ESPN.