Há mais de duas décadas tenho me dedicado a estudar e intervir no futebol. Da iniciação científica ao doutorado, na Universidade do Futebol, na CBF Academy, no Progresso Futebol de Base, no Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia – (INCT – Futebol), no Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) e nas escolas de futebol onde atuei e atuo como coordenador metodológico, minha intervenção sempre se deu na perspectiva de tratar e respeitar crianças e atletas profissionais como seres humanos, sujeitos de necessidades, interesses e subjetividades. Em cada uma destas experiências, jamais renunciei a um olhar humanizado para o futebol e, para minha felicidade e inspiração política, venho compartilhando do propósito de transformar o futebol – e a sociedade – com muitos excelentes profissionais, dentre os quais três deles faço questão de citar nominalmente: João Batista Freire, João Paulo Medina e Lino Castellani Filho, meu pai. Obviamente, estes são somente três exemplos dentre tantos outros que poderia citar.
Ainda assim, terei que citar nominalmente outros quatro parceiros – Sebástian Vasquez, Tiago Corradine, Caio Rizek e Paulo André -, afinal, além da mais recente publicação de um texto escrito em parceria com o professor Sebástian, há outras três publicações destes três outros brilhantes profissionais que dialogam com essa temática e militam pela transformação do futebol
A começar pelo texto que escrevi com Sebástian Vásquez, intitulado “Sem conseguir ser criança, Flora não floresce”, a partir de um caso de destaque na mídia envolvendo uma criança de 12 anos que é disputada por dois clubes rivais, problematizamos que os desejos e necessidades do jogador são, costumeiramente, negligenciados ou ficam em segundo plano, fato que se torna ainda mais emblemático se o jogador em questão for uma criança. E questionamos: quando é que vamos devolver às crianças o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol? Precisamos, urgentemente, garantir um contexto propício para a evolução e fortalecimento dos nossos jogadores, crianças, jovens e adultos, inserindo-os em um “contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico” e não apenas mercadológico.
Em diálogo próximo ao nosso texto, o professor Tiago Corradine, que lidera junto a mim o grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol, publicou o artigo “O Florescer da Infância no Futebol: Um Chamado à Formação Integral”. Sua defesa passa também pela necessidade de investirmos na formação integral de atletas e cidadãos/ãs, “onde o desenvolvimento humano e social caminha lado a lado com o aprimoramento técnico”, potencializando o ser humano em sua totalidade. Como muito bem defende Tiago Corradine, “não podemos permitir que o futebol, que deveria ser um espaço de alegria e aprendizado, se torne palco de uma exploração precoce”.
Na mesma perspectiva, o artigo escrito por Caio Rizek, supervisor das categorias de base do SPFC, intitulado “Meninos Profissionais: Quando a infância vive em função do futebol”, traz para a reflexão o surgimento dos “meninos profissionais” e, de forma ainda mais delicada, do “menino arrimo de família”, e reforça a necessidade de atuarmos com responsabilidade institucional, sensibilidade e coragem para enfrentarmos essa triste e preocupante realidade. As crianças estão cada vez mais distantes da sua infância e cada vez mais próximas de uma rotina profissional. Neste contexto, as famílias passam a se adaptar à vida do filho/atleta e a criança acaba tendo de assumir uma responsabilidade e um “protagonismo que não condiz com sua maturidade emocional”, afinal o “menino passa a ser tratado como “projeto”, “investimento” ou “esperança”.
O quarto texto, escrito pelo ex-jogador e atualmente dirigente esportivo, Paulo André Benini, estabelece críticas à formação esportiva de jovens jogadores, afinal, esta tem dado papel protagônico à proteção das crianças/adolescentes como ativos e a uma disputa por talentos. Nas palavras do autor, “a lógica de proteção do investimento expõe quem realmente deveria ser protegido”, a criança.
João Paulo Medina, fundador da Universidade do Futebol e com quem tenho o prazer e honra de trabalhar há mais de uma década, tem explanado em suas mais recentes comunicações que boas ideias e posicionamentos como esses apresentados nestes textos exemplificados, apesar de expressivos e significativos, ainda estão posicionados em ilhas. São bons textos e “cases” que, apesar de cada vez mais numerosos, encontram-se dispersos pelo território brasileiro. Nesse sentido, é preciso construirmos pontes! Pontes capazes de unir e fortalecer pessoas e instituições empenhadas no propósito de, sob a premissa de uma visão sistêmica, integral e humanizada do futebol, transformar essa importante prática social e a nossa própria sociedade.
Paulo André, corroborando o que vem sendo defendido por Medina há anos, finaliza seu texto abordando justamente a necessidade de criarmos um plano integrado capaz de conectar profissionais e instituições. E a CBF, ao propor a realização de um grupo de trabalho dedicado a discutir as categorias de base, composto por clubes, federações, executivos, formadores e especialistas, é justamente, no meu entendimento, a maior responsável por construir essas pontes!
Rafael Castellani é licenciado e mestre em Educação Física (Unesp/RC e Unicamp, respectivamente) e Doutor em Psicologia do Esporte pela USP. É especialista em Pedagogia do Futebol, currículo e formação de atletas. Atua como coordenador pedagógico da Encontro Educa, consultor científico da MDF Sports, além de ser colunista e líder do Grupo Técnico Pedagógico da Universidade do Futebol. Linkedin: https://br.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani.
Este artigo propõe uma análise crítica sobre a posição do camisa 10 no futebol contemporâneo, argumentando que, apesar das transformações táticas, a essência do jogador criativo e protagonista permanece indispensável. Contesta-se a narrativa de que o futebol moderno teria naturalmente “eliminado” essa figura, sugerindo que a supervalorização do coletivo, muitas vezes impulsionada pelo medo de perder resultados, tem levado à subutilização e à neutralização de talentos individuais. Defende-se que o craque não deve ser obrigado a se adaptar a sistemas que o sufocam, mas que o jogo e os treinadores precisam encontrar mecanismos para proteger e potencializar o protagonismo do camisa 10. O coletivo, embora fundamental, deve servir como ferramenta para amplificar o talento, e não como um fim em si mesmo que o apaga. A discussão aborda a profundidade tática e metodológica necessária para resgatar o protagonismo do camisa 10, utilizando exemplos de treinadores e jogadores que ilustram essa tensão entre o individual e o coletivo.
Palavras-chave: camisa 10; protagonismo; futebol moderno; tática; talento; coletivo; metodologia.
1. Introdução: O Craque em Campo e o Medo de Perdê-lo
A figura do camisa 10 sempre foi o coração pulsante do futebol. Sinônimo de criatividade, imprevisibilidade e genialidade, o armador clássico era o maestro que ditava o ritmo, a pausa e a aceleração do jogo. No entanto, o futebol contemporâneo, com sua ênfase na intensidade, na compactação e na organização coletiva, parece ter relegado essa figura a um segundo plano, ou pior, a uma espécie de “luxo” tático que poucos se permitem. A narrativa corrente sugere que o camisa 10 teria sido “engolido” pela modernidade, obrigado a se transformar em um volante marcador ou em um ponta veloz para sobreviver.
Mas essa leitura, embora sedutora, é superficial e perigosa. Ela esconde uma verdade incômoda: o problema não é a obsolescência do camisa 10, mas a incapacidade de muitos sistemas e treinadores em protegê-lo e potencializá-lo. O medo de perder, a obsessão pelo controle e a busca incessante por resultados imediatos têm levado a uma supervalorização do coletivo que, paradoxalmente, neutraliza o que há de mais valioso no futebol: o talento individual capaz de romper padrões e decidir jogos.
Johan Cruyff, com sua sabedoria singular, já alertava: “Jogar futebol é simples, mas é difícil jogar simples”. Essa frase encapsula a essência do dilema. O futebol, em sua complexidade tática atual, exige inteligência e organização, mas a simplicidade genial do craque é o que o torna verdadeiramente imprevisível. O camisa 10 não precisa mudar sua essência para caber no sistema; o sistema é que precisa encontrar mecanismos para que ele brilhe sem perder seu protagonismo. O coletivo, sim, é fundamental, mas ele deve ser uma ferramenta para amplificar o talento, e não uma mordaça que o silencia.
Este artigo se propõe a defender, com veemência, que o camisa 10 não apenas ainda existe, mas é mais necessário do que nunca. O desafio é resgatar seu protagonismo, questionando as lógicas que o sufocam e propondo caminhos metodológicos para que o talento volte a ser o centro do espetáculo.
2. A Metamorfose do Protagonista: Do Clássico ao Contemporâneo
A evolução tática do futebol é um processo contínuo de adaptação. Jonathan Wilson, em sua obra seminal Inverting the Pyramid, demonstra como as posições e funções no campo se transformaram ao longo da história, mas a necessidade de um cérebro criativo no meio-campo nunca desapareceu por completo. O que mudou foi a forma como esse cérebro se manifesta e se integra ao jogo.
Rinus Michels, o pai do Futebol Total, já preconizava uma fluidez de posições onde todos atacavam e defendiam. Contudo, essa fluidez não significava a anulação do especialista, mas sim a sua integração em um sistema dinâmico. “O futebol total exige que todos ataquem e defendam, mas sempre com inteligência e ocupando os espaços certos”, uma máxima que sublinha a importância da funcionalidade individual dentro do coletivo. O camisa 10, nesse contexto, não é um jogador estático, mas um elemento móvel que cria superioridade numérica e espacial.
Pep Guardiola, herdeiro dessa filosofia, elevou a ocupação racional dos espaços a um dogma. Para ele, o talento sem um sistema é apenas talento; com um sistema, é uma força imparável. “Se você não tem a bola, precisa ocupar bem o espaço. Se tem a bola, precisa encontrar o homem livre”, ensina Guardiola, destacando que a organização coletiva serve para criar as condições ideais para que o jogador de qualidade receba a bola em vantagem e decida. O camisa 10, em sua visão, é o principal beneficiário dessa orquestração.
Arrigo Sacchi, com sua obsessão pela compactação e sincronização, também defendia um coletivo que funcionasse como uma orquestra. “Uma equipe é como uma orquestra. Se um músico toca desafinado, não importa o quão bom ele seja, a sinfonia não soa bem”, afirmava. Essa citação, muitas vezes usada para justificar a rigidez tática, pode ser reinterpretada: o camisa 10 é o solista que, quando bem integrado e afinado com o restante da orquestra, eleva a qualidade da sinfonia a um patamar superior. O problema não é o solista, mas a falta de ensaio para que ele brilhe em harmonia.
O camisa 10, portanto, não morreu. Ele se metamorfoseou. Deixou de ser um jogador fixo para se tornar um elemento relacional, que flutua, que se associa e que, acima de tudo, continua sendo o ponto de desequilíbrio em um jogo cada vez mais equilibrado.
3. O Coletivo como Ferramenta, Não como Mordaça: A Crítica à Neutralização do Talento
A busca incessante por um coletivo “perfeito” e a obsessão por defender resultados têm levado muitos clubes a uma lógica de neutralização do talento. O medo de perder, de ser exposto, de sofrer um contra-ataque, faz com que treinadores optem por sistemas mais seguros, mais compactos e, consequentemente, menos criativos. Nesse cenário, o camisa 10, o jogador que por natureza arrisca e desequilibra, é visto como um risco, e não como uma solução.
Jürgen Klopp, embora associado a um futebol de alta intensidade e pressão, também reconhece a necessidade de jogadores que quebrem linhas. Seu “Gegenpressing” exige que a recuperação da bola seja rápida para que a transição ofensiva, muitas vezes liderada por jogadores criativos, seja letal. A intensidade não anula o talento; ela o exige em um ritmo mais acelerado.
O problema reside quando o coletivo se torna uma mordaça, um fim em si mesmo, e não uma ferramenta para potencializar o individual. O craque é então obrigado a “se adaptar” a funções que não são suas, a correr mais do que criar, a marcar mais do que pensar o jogo. Essa adaptação forçada não é evolução; é diluição. O talento, que deveria ser o motor da equipe, torna-se um peso, um elemento a ser contido.
O futebol brasileiro, com sua rica história de camisas 10, sente particularmente essa tensão. Telê Santana, um dos maiores expoentes do futebol arte, sempre defendeu a liberdade criativa, mas com responsabilidade. “O futebol é arte e disciplina”, dizia Telê, sublinhando que a técnica e a ousadia precisam de um arcabouço tático para florescer, mas nunca para serem sufocadas. Sua filosofia era a de que o talento deveria ser o ponto de partida, e não um obstáculo a ser superado.
Vanderlei Luxemburgo, em sua trajetória, também sempre valorizou o jogador que pensa o jogo, o “cérebro” do meio-campo. Sua visão, muitas vezes pragmática, nunca abriu mão da importância de ter um jogador capaz de ditar o ritmo e a direção do ataque. Muricy Ramalho, conhecido por sua ênfase na compactação e na solidez defensiva, também sabia que, para vencer, era preciso ter jogadores que fizessem a diferença na frente. O equilíbrio, para ele, não significava a ausência de craques, mas a sua integração funcional.
4. A Responsabilidade do Treinador: Proteger e Potencializar o Craque
A chave para resgatar o protagonismo do camisa 10 reside na figura do treinador. É ele quem tem a responsabilidade de criar o ambiente tático e metodológico para que o craque não apenas sobreviva, mas brilhe. Isso implica em proteger o jogador criativo, construir mecanismos para que ele receba a bola em condições favoráveis e permitir que ele exerça sua essência de desequilibrar.
Abel Ferreira, um dos treinadores mais vitoriosos do futebol brasileiro recente, é um exemplo de como a organização e a rotina de treino podem potencializar jogadores entre linhas. Sua metodologia busca criar vantagens espaciais e temporais para que os jogadores de qualidade recebam a bola em zonas de decisão. “O jogo é dos jogadores, mas o treino é do treinador”, uma frase que resume a importância da preparação para que o talento se manifeste. O treinador não deve ser um limitador, mas um facilitador da genialidade.
Para que o camisa 10 seja protagonista, o treino precisa ser intencional. Isso significa:
• Jogos posicionais que obriguem a equipe a encontrar o jogador criativo entre linhas.
• Tarefas específicas que simulem situações de decisão para o camisa 10.
• Mecanismos de apoio que garantam que ele tenha opções de passe e cobertura.
• Liberdade tática para flutuar e buscar o espaço onde pode ser mais efetivo.
Sem essa metodologia, o camisa 10 se torna um talento isolado, recebendo poucas bolas em zonas úteis, e sua influência no jogo diminui drasticamente. O problema, portanto, não é o jogador, mas a falta de um plano para ele.
5. O Camisa 10 em Campo: Exemplos de Protagonismo e Subutilização
O futebol atual está repleto de exemplos que ilustram essa tensão entre o talento individual e a lógica coletiva.
No cenário mundial, Kevin De Bruyne é o protótipo do camisa 10 moderno que prospera em um sistema que o valoriza. No Manchester City de Guardiola, ele não é apenas um passador; é o motor da criação, o jogador que quebra linhas e decide. Sua capacidade de leitura e execução é amplificada por uma equipe que o protege e o alimenta. Luka Modrić, no Real Madrid, mesmo com a idade avançada, continua sendo um maestro que dita o ritmo, controla a posse e encontra passes improváveis, mostrando que a inteligência tática é atemporal quando há um ambiente que a sustenta. Bruno Fernandes, no Manchester United, e Bernardo Silva e Jamal Musiala, em seus respectivos clubes, também demonstram como a criatividade pode ser exercida com mobilidade, intensidade e capacidade de decisão.
No Brasil, a discussão é ainda mais latente. Ganso, no Fluminense, é um dos últimos remanescentes do camisa 10 clássico, um jogador que precisa da bola no pé, de tempo e de espaço para pensar o jogo. Quando a equipe de Fernando Diniz, por exemplo, consegue criar esse ambiente, Ganso se torna o maestro que organiza o ataque. Sua subutilização em outros contextos não se deu por falta de talento, mas por falta de um sistema que o protegesse.
Arrascaeta, no Flamengo, é outro exemplo de craque que, quando bem inserido, eleva o patamar da equipe. Sua capacidade de jogar entre linhas, de associar com poucos toques e de decidir em espaços curtos o torna um dos jogadores mais influentes do país. Gustavo Scarpa, Matheus Pereira e Raphael Veiga também representam essa nova safra de meias que combinam técnica, leitura e capacidade de finalização. Todos eles, porém, dependem de um coletivo que os entenda e os potencialize.
Rodrygo, no Real Madrid, e Claudinho, em sua trajetória, ilustram como a criatividade pode se manifestar em diferentes posições e com diferentes características. Rodrygo, com sua mobilidade e capacidade de drible, e Claudinho, com sua visão de jogo e passe, mostram que o talento não está restrito à camisa 10, mas à capacidade de desequilibrar em zonas cruciais do campo. O desafio é criar o ambiente para que esses jogadores não sejam apenas “bons”, mas “protagonistas”.
6. Discussão: O Talento Não Pode Ser Negociável
A tese central deste artigo é clara: o talento não pode ser negociável em nome de uma lógica coletiva que o sufoca. O futebol moderno, ao buscar o controle excessivo e a minimização de riscos, corre o risco de se tornar um espetáculo previsível e sem brilho. O camisa 10, o craque, é a antítese dessa previsibilidade.
A frase de Telê Santana, “O futebol é arte e disciplina”, ressoa como um lembrete de que a beleza do jogo reside na fusão entre a genialidade individual e a organização coletiva. Não se trata de escolher um em detrimento do outro, mas de encontrar o equilíbrio que permita a ambos prosperar.
O problema não é o camisa 10 se adaptar demais, e sim o jogo criar condições para ele aparecer. Muitos clubes priorizam controle e defesa de resultado, e acabam sufocando o craque. O treinador precisa proteger o protagonista e criar mecanismos para que ele participe mais. O talento precisa estar em campo e não ser substituído por uma lógica excessivamente coletiva.
7. Considerações Finais: O Futuro do Futebol Precisa de Protagonistas
O camisa 10 não desapareceu. Ele foi silenciado por um futebol que, em sua busca por controle e segurança, esqueceu-se de que a essência do jogo reside na imprevisibilidade e na genialidade. A reinvenção necessária não é do craque, mas do próprio sistema que o cerca.
A responsabilidade recai sobre os treinadores e os clubes. É preciso coragem para proteger o talento, inteligência para criar mecanismos que o potencializem e sabedoria para entender que o coletivo é uma ferramenta para amplificar o individual, e não para neutralizá-lo. O futebol precisa de protagonistas, de jogadores que ousem, que criem e que decidam. O camisa 10, em sua essência, é a personificação dessa necessidade.
O futuro do futebol não está em um jogo sem craques, mas em um jogo que saiba valorizá-los, protegê-los e colocá-los no centro do espetáculo. O talento precisa estar em campo, e é dever de todos os envolvidos no esporte garantir que ele tenha o protagonismo que merece.
Referências
• Cruyff, J. (1997). My Turn: The Autobiography. Pan Books.
• Wilson, J. (2008). Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics. Orion.
• Michels, R. (1971). Teambuilding and Tactical Principles in Modern Football. (Referência conceitual baseada em sua filosofia).
• Guardiola, P. (Entrevistas e conferências sobre jogo de posição e ocupação de espaços).
• Sacchi, A. (Entrevistas e obras sobre organização coletiva, compactação e sincronização).
• Klopp, J. (Entrevistas e coletivas sobre pressão, intensidade e organização coletiva).
• Telê Santana. (Depoimentos e entrevistas sobre técnica, liberdade com responsabilidade e jogo ofensivo).
• Luxemburgo, V. (Entrevistas e análises sobre leitura de jogo e protagonismo do meio-campo).
• Muricy Ramalho. (Entrevistas e análises sobre equilíbrio tático e funcionalidade coletiva).
• Ferreira, A. (Entrevistas e coletivas sobre metodologia de treino e mecanismos ofensivos).
• González-Víllora, S., et al. (2015). Review of the tactical evaluation tools for youth players, assessing the tactics in team sports: football. SpringerPlus, 4, 663.
• Dom, et al. (2023). Evolution of Tactics in Football. Journal of Human Kinetics, 88, 207–216.
• Placar. (2025). É o fim do camisa 10 clássico? (Artigo de revista). • ge.globo. (2025). Dez camisas 10 para ficar de olho no Brasileirão 2025. (Artigo online).
• History of Soccer. (2023). The History of the Attacking Midfielder (The No.10). (Artigo online).
Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/
Nosso futebol está ‘espanholizado’. O Barcelona e o Real Madrid da Espanha são os nossos Flamengo e Palmeiras.
Tivemos intrusos recentes como o Botafogo em 2024 e o Atlético-MG em 2021, mas, em suma, são flamenguistas e palmeirenses que todo ano ficam com a expectativa real de ganharem títulos importantes. E nesta quase metade de temporada vejo mais uma vez equilíbrio entre os dois.
A tentação de colocar o Flamengo como favorito é grande, ainda mais porque escrevo esse texto logo após a goleada da equipe carioca de 4 a 0 em cima do Atlético-MG. E é inegável que o elenco flamenguista é mais estelar e mais robusto do que o palmeirense e isso atenua a efervescência nos bastidores evidenciada pela troca abrupta de Filipe Luiz por Léo Jardim.
Mas o pragmatismo de Abel Ferreira não deve jamais ser descartado. Essa estabilidade de quase seis anos no comando influenciam muito nos momentos decisivos. E até o 2025 sem títulos, perdendo Libertadores e Brasileirão para o próprio Flamengo, trazem lições e aprendizados importantes para serem aplicados em 2026.
Como dizia Alex Ferguson, nos áureos tempos de Manchester United, ‘o ano sem títulos me aproxima dos títulos no ano seguinte’.
De um lado a beleza do jogo do Flamengo. Do outro a eficiência do Palmeiras. Vem disputa boa por aí. Repito: não coloco os cariocas na frente, não. Mesmo com as diferenças evidentes no jeito de jogar, vejo muito equilíbrio.
A lamentar que não teremos nenhum intruso neste ano. Não vejo outro clube com chance de incomodar os dois favoritos. Vai seguir a ‘espanholização’…
Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br
Em diferentes textos aqui na Universidade do Futebol, já abordamos a importância do estado de flow como um dos elementos que ajudam a compreender o desempenho em campo. Esse estado, associado a níveis elevados de concentração, clareza e envolvimento com a tarefa, não surge de forma aleatória — ele é influenciado por múltiplos fatores, entre eles a forma como o atleta percebe, interpreta e reage às demandas do jogo. Nesse contexto, ampliar o olhar sobre o papel da terapia no futebol se torna relevante, não apenas sob um viés clínico, mas também como parte de um processo mais amplo de desenvolvimento e potencialização de desempenho individual e consequentemente coletivo.
Ainda é comum que o acompanhamento psicológico seja associado principalmente ao tratamento de dificuldades, como ansiedade, insegurança ou momentos de queda de rendimento. Esse papel é importante e, em muitos casos, necessário. No entanto, limitar a terapia a essa função reduz sua contribuição dentro do ambiente esportivo. O trabalho psicológico também pode atuar de forma contínua, ajudando o atleta a lidar melhor com as exigências do jogo, a sustentar níveis de atenção e a responder de maneira mais consistente em situações de pressão.
Na prática, esse impacto pode aparecer de diferentes formas, sempre considerando as particularidades de cada indivíduo. Alguns atletas podem se beneficiar de um trabalho voltado à relação com o erro, conseguindo se reorganizar mais rapidamente durante a partida. Outros podem desenvolver maior clareza na tomada de decisão, especialmente em contextos de alta exigência. Há também aqueles que buscam maior estabilidade ao longo de uma competição. Esses exemplos não são regras, mas possibilidades — e reforçam a ideia de que não existe um único caminho, mas sim a necessidade de compreender o atleta em sua individualidade.
Esse cuidado se estende também às diferentes etapas da trajetória esportiva, sem que isso represente uma divisão rígida ou universal. Em momentos iniciais, por exemplo, é importante que pais e responsáveis compreendam que o desenvolvimento do atleta vai além do aspecto técnico, incluindo dimensões emocionais e cognitivas que influenciam diretamente sua relação com o jogo. Ao longo da carreira, as demandas se transformam, e a forma como cada atleta responde a elas também varia. Por isso, mais do que definir em que momento a terapia deve estar presente, talvez seja mais produtivo entendê-la como um recurso disponível ao longo de todo o processo, ajustado às necessidades de cada indivíduo.
A literatura ajuda a sustentar essa relação entre mente e desempenho. Em “Flow: A Psicologia do Alto Desempenho”, Mihaly Csikszentmihalyi destaca como determinados estados mentais favorecem a execução em ambientes desafiadores. Já em “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”, Daniel Kahneman demonstra como, sob pressão, nossas decisões tendem a seguir caminhos mais automáticos e sujeitos a vieses. No futebol, essas ideias ajudam a compreender que o desempenho não depende apenas do que o atleta sabe fazer, mas da sua capacidade de acessar esse repertório em situações reais de jogo.
Dentro desse contexto, a formação que busquei ao longo da minha trajetória — partindo da análise de jogo e do scouting, e avançando para um aprofundamento na psicologia — permite construir um olhar mais sistêmico sobre o atleta. Essa integração entre o entendimento do jogo e dos processos mentais amplia a capacidade de identificar tanto lacunas quanto potencialidades, contribuindo para uma leitura mais completa do desempenho. Um olhar que pode agregar tanto na avaliação do jogador, enquanto scout, quanto na compreensão mais ampla do atleta dentro do processo de desenvolvimento.
A abordagem sistêmica, na minha visão e convicção, se prova cada vez mais necessária para atender às demandas complexas do futebol e do esporte de alto rendimento nos dias atuais, nas diferentes funções que impactam no jogo.
Nicolau Trevisani Frotaatua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/
Por: Rafael Castellani & Sebastián Acevedo Vásquez
Não é raro nos depararmos com notícias que envolvem disputa entre dois ou mais clubes de futebol por um atleta. Para além das questões de objetivação e coisificação do atleta que marca esse tipo de situação, o que baliza esse processo e merece destaque é que frequentemente os desejos e necessidades do próprio jogador são negligenciados ou ficam em segundo plano.
Se entre atletas profissionais, adultos, esse processo já merece nossa atenção e crítica, imaginem quando o centro da disputa é uma criança!
Recentemente, nos deparamos com mais uma notícia, publicada no globoesporte.com, sobre o jovem Lucas Flora, que recentemente foi alvo de disputa entre Palmeiras e Corinthians. Flora, como tem sido chamado pela imprensa, é um garoto de 12 anos que ganhou destaque nacional pelo grande talento e habilidade demonstrados jogando futsal pelo clube alvinegro, sobretudo pela divulgação das suas jogadas nas redes sociais, nas quais já possui mais de 400.000 seguidores.
Este é o mesmo menino que, há poucos meses, foi noticiado em parte da imprensa como o instrumento de vingança entre Palmeiras e Corinthians. Em coluna do Portal R7, o colunista Cosme Rímoli afirmou que o Palmeiras, em retaliação ao fato da diretoria do Corinthians tentar, por três vezes, a contratação do coordenador técnico da base do Palmeiras, responsável pela revelação de grandes talentos, dentre eles o Estevão e o Endrick, iria “contratar” o promissor jogador, à época, uma criança de 11 anos de idade, oferecendo à sua família uma alta quantia em dinheiro, mais do que o dobro do valor oferecido pelo Corinthians.
A palavra “contratar” está propositalmente entre aspas, afinal, tanto a FIFA, quando a Lei Geral do Esporte, proíbem que crianças menores de 14 anos assinem contrato de formação ou profissional com clubes de futebol. Assim sendo, acordos celebrados com jovens menores de 14 anos não possuem validade desportiva. Tratando-se, à época, de uma criança de 11 anos, podemos destacar ainda a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção sobre os Direitos da Criança, que garantem os direitos integrais da criança, dentre eles, que o esporte seja uma ferramenta de desenvolvimento, e não um mecanismo de exploração precoce.
Nestes casos, podemos evocar, por exemplo, o artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual garante a prática do futebol como lazer, priorizando o brincar; ou o artigo 32 da Convenção sobre os Direitos da Criança, que versa sobre a proteção contra a exploração econômica do menor. Ou então, se trazermos para análise o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a nova Lei Geral do Esporte, de 2023, está claro que qualquer contrato de trabalho só pode ser celebrado a partir dos 16 anos de idade e, no caso do futebol, o contrato de formação a partir dos 14 anos.
Para além das questões contratuais e normativas, o que nos interessa neste texto é saber quando é que vão devolver à criança o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol.
Quando somos crianças, só pensamos em jogar bola e nos divertir. Entretanto, tal comportamento toma outra proporção e complexidade quando só a criança pensa que o futebol é somente um jogo de bola e o entorno vê nela oportunidades para melhoria financeira do clube, de ascensão social da família, para obter rendimentos com a representação do atleta e contratos com patrocinadores; assim, transformam essa criança em um “mini adulto”, fazendo-a assumir responsabilidades e lidar com pressões que não cabem na vida de uma criança que deveria, de fato, estar brincando de futebol, descalça na rua (em seu sentido amplo, conforme defendido por João Batista Freire), com as amizades próprias de uma criança de 12 anos.
Todos nós já fomos crianças e sabemos que se isso não for uma expressão de trabalho infantil, “bate na trave”; tudo com a ciência dos clubes e daqueles que se dizem interessados em gerenciar a carreira da criança.
E se o menino desistisse de jogar bola pela pressão a qual está sendo submetido? Será livre dessas responsabilidades assumidas ou terá que responder a um “dono”? Toda e qualquer criança deveria ter seus direitos garantidos, inclusive o direito de não querer voltar a jogar bola. O tamanho do contrato não pode ser maior do que o direito da criança em vivenciar sua infância e brincar em todas as etapas da sua vida.
Parafraseando uma música da banda Natiruts, “deixem o menino jogar!” É preciso tratarmos as crianças como crianças. Isso significa garantirmos sua segurança (física e emocional), o acolhimento de suas necessidades e interesses, reconhecendo-a em seu contexto, individualidade e integralidade.
Flora não é uma joia, ou seja, não é um produto ou mercadoria valiosa que precisa ser lapidada, como frequentemente é noticiado pela mídia e dirigentes. Flora é um broto; uma criança que precisa ser regada para florescer e se desenvolver. Ser regada a respeito, acolhimento, amor, diversão, prazer…
Quando falamos em diversidade de plantas de uma determinada região, estamos falando da flora de uma área. A flora de cada habitat é bastante peculiar e, ao mesmo tempo, distinta e está diretamente relacionada com fatores como temperatura, radiação luminosa, regime de chuva e solo. No Brasil, a flora é bastante rica, principalmente pela diversidade de ecossistemas existentes.
A Flora sempre se desenvolve no seu tempo, no seu ciclo; cada espécie é uma criança com sonhos e para que exista florescimento, precisamos garantir um contexto propício para a sua evolução e fortalecimento, como esperamos que seja o futuro de Lucas Flora e de toda e qualquer criança. Um contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico e menos mercadológico.
Rafael Moreno Castellanni é Coordenador Metodológico da Time Forte, responsável pelas unidades licenciadas do São Paulo Futebol Clube. Doutor em Psicologia do Esporte pela USP, mestre pela Unicamp e graduado em Educação Física pela UNESP, atua nas áreas de pedagogia do futebol, formação de treinadores e psicologia do esporte, com experiência acadêmica e consultiva no futebol e na educação. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/rafael-moreno-castellani/
Sebastián Acevedo Vásquez é Fundador e Presidente da Gondwana – Associação Cultural e Esportiva (OSC). Também é Diretor de Ecossistemas e Cultura de Inovação da SportsCoLab. Atua em projetos de inovação, educação social esportiva e desenvolvimento sustentável por meio do esporte, com experiência em empreendedorismo, direitos humanos e impacto social no futebol. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/homoludens3/
A formação de atletas no futebol deve ser compreendida como um processo de longo prazo, orientado pela aprendizagem e pelo desenvolvimento progressivo de capacidades técnicas, táticas, cognitivas e comportamentais. Neste contexto, a competição formal não deve ocupar papel central nas etapas iniciais, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Defende-se, neste artigo, que o treino deve ser o eixo principal da metodologia formativa, enquanto o jogo* deve existir de forma complementar, preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.
*Quando nos referimos ao “jogo”, tratamos especificamente de partidas com caráter competitivo formal, valendo 3 pontos, que tendem a antecipar demandas por resultado e podem interferir negativamente no processo formativo.
Essa orientação encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem, desenvolvimento de talentos no futebol e uso pedagógico de jogos reduzidos.
Argumenta-se que, nessa fase, o principal objetivo da formação é ampliar repertórios e consolidar aprendizagens, e não antecipar exigências competitivas incompatíveis com o estágio de desenvolvimento do atleta.
Palavras-chave: futebol de base; treino; formação esportiva; maturação; jogos reduzidos.
1. Introdução
A formação de atletas no futebol exige decisões metodológicas coerentes com os estágios de desenvolvimento biológico, motor e cognitivo. Em muitos contextos, observa-se a antecipação da competição formal como elemento central do processo, como se o jogo oficial fosse, por si só, capaz de produzir desenvolvimento. Essa lógica, contudo, tende a deslocar o foco da aprendizagem para o resultado.
A literatura clássica sobre prática deliberada indica que a excelência esportiva não decorre apenas da exposição à prática, mas da qualidade da prática realizada. Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993) demonstraram que o desempenho de alto nível está associado a atividades estruturadas, repetidas e orientadas à correção de erros. No futebol de base, isso significa que o treino precisa ocupar posição central na formação, pois é nele que o atleta pode experimentar, repetir, corrigir e consolidar fundamentos.
Neste artigo, sustenta-se que o treino deve prevalecer sobre a competição formal até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa etapa, o jogo deve existir como recurso metodológico, mas em formato amistoso e não competitivo, de modo a preservar o caráter pedagógico do processo.
2. Treino, maturação e desenvolvimento de longo prazo
A prioridade do treino nas categorias iniciais encontra respaldo na literatura sobre crescimento e maturação no esporte jovem. Malina, Bouchard e Bar-Or destacam que crianças e adolescentes atravessam processos heterogêneos de desenvolvimento, com diferenças relevantes entre idade cronológica, maturação biológica e capacidades funcionais. Isso implica que a imposição precoce de exigências competitivas padronizadas pode produzir efeitos negativos, especialmente quando o atleta ainda está consolidando sua base motora e cognitiva.
No futebol de formação, essa compreensão é essencial. O treino permite ajustar as demandas ao estágio de cada atleta, respeitando ritmos individuais e oferecendo maior controle pedagógico. Já a competição formal tende a ampliar a pressão por desempenho, reduzir o espaço para o erro e privilegiar o resultado imediato.
Sarmento et al., em revisão sobre desenvolvimento de talentos no futebol, reforçam que a formação eficiente depende de ambientes estruturados, com foco em aprendizagem progressiva e desenvolvimento de longo prazo. Essa perspectiva é particularmente relevante para sustentar a ideia de que, até o segundo semestre do Sub-14, o objetivo principal não deve ser competir, mas formar.
3. O papel do jogo na metodologia formativa
A defesa do treino como eixo principal não significa a exclusão do jogo. Pelo contrário: o jogo deve permanecer presente na metodologia, mas com função pedagógica bem definida. Até o segundo semestre do Sub-14, o jogo deve ocorrer preferencialmente em amistosos e jogos-treino, sem caráter competitivo formal.
Essa distinção é importante porque permite preservar a vivência coletiva, a cooperação, a leitura de jogo e a tomada de decisão, sem submeter o atleta às pressões simbólicas e emocionais da competição oficial. Nesse sentido, o jogo funciona como extensão do treino, e não como substituto da formação.
As revisões sobre small-sided games ajudam a sustentar essa lógica. Moran, Guilherme, Folgado, Miranda e Esgaio mostram que formatos reduzidos de jogo podem estimular comportamentos técnicos e táticos relevantes, mantendo intensidade e tomada de decisão em ambiente controlado. Assim, o jogo continua existindo, mas dentro de uma lógica metodológica que prioriza o aprendizado.
4. Competição precoce e seus limites
A competição precoce pode comprometer a qualidade da formação porque tende a induzir escolhas pedagógicas voltadas ao curto prazo. Quando o foco se desloca para vencer, o processo de aprendizagem perde espaço para a avaliação do resultado. Isso é particularmente problemático em categorias iniciais, nas quais o atleta ainda necessita de amplo repertório de experiências e de tempo para consolidar fundamentos.
Ford, Yates e Williams (2010) demonstram que treinadores de base podem estruturar atividades competitivas dentro do próprio treino, sem necessidade de antecipar o jogo oficial. Essa constatação reforça um princípio importante: a competitividade pode ser construída metodologicamente, sem que a competição formal assuma protagonismo precoce.
Assim, a formação até o segundo semestre do Sub-14 deve privilegiar:
treino estruturado e progressivo;
jogos-treino e amistosos como recurso complementar;
ausência de competição formal como eixo central;
foco em aprendizagem, e não em resultado.
5. Discussão
A tese central deste artigo é que, na formação de base, o treino deve ser mais importante do que a competição, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Isso não significa negar a importância do jogo, mas reconhecer que, nessa etapa, o jogo deve estar subordinado aos objetivos formativos.
A literatura aqui mobilizada converge para essa direção. Ericsson et al. (1993) sustentam a importância da prática deliberada. Malina, Bouchard e Bar-Or evidenciam que o desenvolvimento jovem é marcado por ritmos distintos de maturação. Sarmento et al. reforçam a necessidade de processos de longo prazo no futebol. Moran et al. demonstram que jogos reduzidos podem ser utilizados como recurso pedagógico sem necessidade de competição formal. Ford et al. mostram que a competitividade pode ser construída no treino.
Desse modo, a formação esportiva mais consistente não é aquela que antecipa a competição, mas aquela que organiza a aprendizagem com base em progressão, controle e intencionalidade pedagógica. O treino, mesmo quando ainda não é perfeito, oferece mais condições de desenvolvimento do que o jogo precoce porque permite corrigir, repetir e aprofundar.
6. Conclusão
A formação de atletas no futebol deve priorizar o treino como eixo central do processo, especialmente até o segundo semestre da categoria Sub-14. Nessa fase, o atleta ainda está em processo de consolidação motora, técnica e cognitiva, o que torna inadequada a centralidade da competição formal.
O jogo deve permanecer presente na metodologia, mas em caráter amistoso e não competitivo, como ferramenta complementar ao treino. Essa orientação é compatível com a literatura sobre maturação, desenvolvimento de talentos e prática deliberada, e sustenta uma visão mais responsável e consistente da formação esportiva.
Em síntese, mesmo um treino imperfeito pode oferecer mais valor formativo do que a competição precoce. O que define sua relevância não é a ausência de erro, mas a presença de um processo pedagógico intencional, progressivo e coerente com a fase de desenvolvimento do atleta.
Referências
Bompa, T., & Buzzichelli, C. (2019). Periodização: teoria e metodologia do treinamento. Phorte.
Côté, J., Baker, J., & Abernethy, B. (2007). Practice and play in the development of sport expertise. In G. Tenenbaum & R. C. Eklund (Eds.), Handbook of Sport Psychology (3rd ed.). Wiley.
Ericsson, K. A., Krampe, R. T., & Tesch-Römer, C. (1993). The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychological Review, 100(3), 363–406.
Ford, P. R., Yates, I., & Williams, A. M. (2010). An analysis of practice activities and instructional behaviours used by youth soccer coaches during practice. Journal of Sports Sciences, 28(5), 483–495.
Malina, R. M., Bouchard, C., & Bar-Or, O. Growth, Maturation, and Physical Activity.
Moran, J., Guilherme, J., Folgado, H., Miranda, R., & Esgaio, R. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]
Sarmento, H., et al. [referência a ser normalizada em ABNT conforme o artigo específico]
Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/
Ao longo desta série, tenho procurado refletir sobre o futebol de base para além do campo. Falei de afeto, vínculos, ausências, exploração e projeções emocionais. Neste quarto artigo, avanço para um fenômeno cada vez mais presente no cotidiano dos clubes: o surgimento dos “meninos profissionais” e, de forma ainda mais delicada, do menino arrimo de família.
Trata-se de uma realidade complexa, que exige sensibilidade, responsabilidade institucional e coragem para ser enfrentada.
A Rotina de um “Menino Profissional”
Entre os meses de março e dezembro, o calendário das competições de base é intenso. Jogos aos finais de semana, treinos diários, deslocamentos longos, horários rígidos e cobrança constante por desempenho.
Na prática, esses meninos vivem uma rotina que pouco dialoga com a infância, mas muito próxima a de atletas adultos. O futebol passa a organizar toda a vida: horários, descanso, alimentação, escola e convivência social. O tempo livre desaparece. O lazer se reduz. A infância vai sendo encurtada.
A convivência familiar também sofre. A família passa a viver em função do futebol: leva e busca em treinos, acompanha jogos, viaja aos finais de semana e reorganiza sua própria vida a partir da agenda do clube. O atleta deixa de se adaptar à família, é a família que passa a se adaptar ao atleta. E, sem perceber, todos entram nesse mesmo ritmo.
Quando a Família Vive em Função do Filho Atleta
Esse movimento, apesar de bem-intencionado, tem efeitos colaterais importantes. A criança passa a ocupar um lugar central na dinâmica familiar, muitas vezes assumindo um protagonismo que não condiz com sua maturidade emocional.
O futebol vira prioridade absoluta. A escola perde espaço. O convívio social fora do clube diminui. O menino passa a ser tratado como “projeto”, “investimento” ou “esperança”. Como visto no 3º artigo desta série, “ativo” de um projeto familiar/financeiro. E isso pesa.
O supervisor, atento, percebe alguns sinais: cansaço extremo, dificuldade de concentração, irritabilidade, resistência às rotinas escolares e conflitos de autoridade dentro de casa.
Quando o Menino se Torna Arrimo de Família
Em muitos casos, esse processo começa muito cedo. Hoje, meninos a partir dos 9 anos de idade já recebem “ajuda de custo”. O que, no discurso formal, é apresentado como apoio para transporte e alimentação, na prática, em diversas realidades, torna-se a principal, ou única, fonte de renda da família.
Esse é um ponto sensível e pouco discutido: há famílias que passam a depender financeiramente do rendimento esportivo de uma criança. O futebol deixa de ser apenas um sonho e passa a ser necessidade.
Há casos em que a família se muda de outra cidade, ou até mesmo de outro estado, para ficar próxima ao clube. Em algumas situações, passam a morar em casas “emprestadas” por empresários. Em outras, o valor recebido pelo menino como ajuda de custo é utilizado para pagar aluguel, contas básicas e despesas familiares.
Nesse contexto, a criança assume, ainda que inconscientemente, um papel de responsabilidade adulta. O peso emocional é enorme. O erro deixa de ser apenas esportivo e passa a ser percebido como ameaça à estabilidade da família.
Em alguns casos, esse processo se intensifica ainda mais, transformando o atleta em arrimo da família, alguém de quem se espera sucesso, retorno financeiro e ascensão social.
Cito algumas situações reais, obviamente modificando os nomes verdadeiros.
Lembro-me do atleta Didi, que vivia com a avó. Dentro de casa, era ele quem “mandava”. A figura adulta se invertia: a avó orbitava em torno das vontades do menino, que já se percebia com poder e responsabilidade além da idade, já que era responsável pelo sustento e pelo futuro da família. Não à toa, com 15 anos, podendo morar no alojamento do clube, ele preferiu continuar morando com a avó.
Outro caso marcante foi o do atleta Dedé, que aos 13 anos não queria ir à escola. Estava cansado dos treinos, dizia não ter energia. A mãe permitia que faltasse, justificando o desgaste físico. Em determinado momento, ela mesma verbalizou: “Eu tento falar com ele, mas ele não me obedece.”
Esses casos demonstram um deslocamento perigoso de papéis, no qual a autoridade parental se fragiliza e o futebol passa a justificar tudo, inclusive a negligência involuntária de etapas fundamentais da formação.
Neste contexto, o futebol legitima a quebra de limites e enfraquece a função educativa da família. O menino deixa de ser orientado e passa a ser tolerado.
Os Riscos Invisíveis Desse Processo
Quando o menino assume, ainda que simbolicamente, o papel de adulto, algo se perde. A infância deixa de ser vivida plenamente. A escola se torna secundária. A frustração passa a ser mais difícil de elaborar. O erro não é tolerado. O cansaço é naturalizado.
Esses meninos aprendem cedo a performar e carregar responsabilidades que não deveriam ser suas, mas nem sempre aprendem a lidar com limites, frustrações e hierarquias. Desenvolvem comportamentos de controle, ansiedade, agressividade ou resistência à autoridade, o que pode gerar conflitos futuros, dentro e fora do campo.
Como visto no 2º artigo desta série, um menino com 13 anos “mandava” no condomínio onde morava.
O futebol de base, quando não bem cuidado, corre o risco de formar atletas tecnicamente preparados, mas emocionalmente sobrecarregados: atletas precoces e adultos frágeis emocionalmente.
O Papel do Supervisor Diante dessa Realidade
Nesse cenário, o supervisor precisa assumir um papel ainda mais atento e ético.
É ele quem observa o excesso, percebe o desgaste e, muitas vezes, é o primeiro a identificar que algo saiu do equilíbrio.
Lhe cabe escutar a família, observar a rotina e identificar quando o processo deixou de ser saudável; provocar reflexões, chamar a família para o diálogo, reforçar a importância da escola, do descanso e da convivência familiar saudável. Cabe também lembrar que nenhuma carreira esportiva se sustenta sem base emocional e educacional sólida, quando construída sobre o sacrifício da infância.
O supervisor não está ali para romper sonhos, mas para protegê-los. Para garantir que o processo não sacrifique a infância em nome de uma promessa futura. Proteger o atleta, nesses casos, é proteger também a família, ajudando-a a compreender que o futebol não pode ser o único projeto de vida possível.
Futebol de Base: Ritmo, Limite e Humanidade
O futebol de base precisa ser intenso, competitivo e formativo para atletas preparados, mas não pode ser desumano. Crianças não são adultos em miniatura. São pessoas em desenvolvimento, que precisam de tempo, cuidado e orientação.
O futebol não pode transformar crianças em profissionais precoces, nem famílias em dependentes de uma promessa incerta. Meninos não podem carregar o peso de sustentar lares. Precisam de tempo, orientação e cuidado para crescer.
Formar atletas exige método. Formar pessoas exige sensibilidade.
Formar atletas é importante. Formar pessoas é indispensável.
O desafio está justamente em equilibrar esses dois mundos.
Seguimos refletindo.
Caio Rizek é Supervisor de Futebol de Base do São Paulo FC, atuando na organização e integração dos processos esportivos e institucionais das categorias de formação. É advogado e bacharel/licenciado em Educação Física, com formação executiva em gestão e liderança (MBA USP/Esalq). Possui experiência na supervisão operacional do departamento de futebol, relacionamento com comissão técnica, atletas e famílias, além de atuação em rotinas estratégicas do ambiente de base. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/caiorizek/
A gestão de clubes de futebol amador constitui um domínio particularmente exigente no contexto desportivo atual e à escala global, marcado por limitações estruturais, escassez de recursos financeiros e humanos e dependência de dinâmicas comunitárias. Neste enquadramento, o conceito de “contabilidade criativa” assume uma relevância acrescida, podendo ser reinterpretado como um conjunto de práticas estratégicas e inovadoras orientadas para a maximização de recursos e para a sustentabilidade organizacional, sem comprometer os princípios éticos e legais. O presente artigo propõe uma análise aprofundada deste conceito aplicado ao futebol amador, articulando uma abordagem teórica, evidenciando os seus limites e potencialidades na gestão quotidiana dos clubes.
1. Introdução
O futebol amador desempenha um papel central no desenvolvimento social, cultural e desportivo das comunidades locais, constituindo frequentemente o primeiro espaço de socialização desportiva de crianças e jovens, bem como um elemento identitário das regiões onde se insere. Em Portugal, esta realidade assume particular expressão, com centenas de clubes a operarem em contextos marcados pela forte proximidade comunitária e reduzida capacidade financeira, humana e estrutural.
Apesar da sua relevância social, a gestão dos clubes amadores é frequentemente caracterizada por uma estrutura organizacional pouco formal, dependente da “boa vontade” e do voluntariado das suas direções/staff/sócios e adeptos dos clubes de futebol, com reduzido acesso a competências técnicas especializadas, nomeadamente nas áreas da gestão e da contabilidade. Este cenário cria um ambiente onde a sobrevivência do clube amador depende, em grande medida, da capacidade dos seus dirigentes de encontrar soluções criativas que permitam fazer face a constrangimentos financeiros constantes ao longo das épocas desportivas.
É neste contexto que se insere a noção de contabilidade criativa, que em termos tradicionais, o conceito esteja associado a práticas de manipulação contabilística, a sua reinterpretação no âmbito do futebol amador permite enquadrá-lo como um conjunto de estratégias legítimas de gestão inovadora de recursos. Importa analisar de que forma a criatividade contabilísticas dos gestores desportivos no futebol amador pode ser mobilizada de forma ética e eficaz, contribuindo para a sustentabilidade e desenvolvimento dos clubes.
2. Reinterpretação da contabilidade criativa no contexto amador
A contabilidade criativa tem sido amplamente debatida, sendo frequentemente associada a práticas que exploram lacunas normativas para apresentar uma imagem financeira mais favorável de uma organização desportiva. Contudo, esta visão negativa não esgota o potencial do conceito, especialmente quando transposto para contextos de pequena escala, como é o caso dos clubes de futebol amador à escala global.
A contabilidade criativa pode ser entendida como a capacidade de reorganizar, adaptar e maximizar recursos existentes, respeitando os enquadramentos legais e fiscais. Trata-se, portanto, da necessidade da criatividade aplicada à gestão financeira, que não visa ocultar informação, mas sim potenciar a eficiência organizacional dos clubes de futebol amador. Os acordos com empresas locais para fornecimento de serviços e equipamentos em troca de visibilidade publicitária está, na prática, a utilizar uma forma de contabilidade criativa assente em permutas diretas. Da mesma forma, a utilização de instalações municipais mediante protocolos de cooperação permite reduzir custos operacionais, traduzindo-se numa gestão mais eficiente dos recursos disponíveis.
Esta reinterpretação exige, contudo, uma mudança de paradigma: a criatividade contabilística deve ser encarada como uma competência estratégica e não como um mecanismo de evasão ou manipulação. A sua aplicação deve ser sustentada por princípios de transparência, responsabilidade e rigor.
3. Estrutura financeira dos clubes de futebol amador
A análise da estrutura financeira dos clubes de futebol amadores revela um padrão comum de fragilidade e dependência externa, sendo que as receitas são, em grande medida, limitadas e voláteis e frequentemente insuficientes para cobrir os custos operacionais dos clubes ao longo das épocas desportivas.
Entre as principais fontes de receita, destacam-se as quotas dos sócios, que, embora importantes, tendem a ser reduzidas e irregulares, muito pelo contexto local, pela diversificação da oferta e pela instabilidade financeira global. A base associativa de muitos clubes é envelhecida, o que limita a capacidade de crescimento desta fonte de financiamento.
Os apoios das autarquias locais representam outra fonte relevante, muitas vezes determinante para a sobrevivência dos clubes. Estes apoios estão sujeitos a constrangimentos orçamentais e a alterações políticas, o que introduz um elevado grau de incerteza e implica capacidade de adaptação por parte dos gestores desportivos. Os patrocínios de empresas locais, por sua vez, dependem da dinâmica económica da região, sendo frequentemente modestos a nível financeiro, e mais elevados a nível de serviços/equipamentos.
A nível de despesas fixas e variáveis, os clubes enfrentam encargos significativos, nomeadamente com inscrições em competições, organizações de jogos, policiamento, arbitragem, deslocações para a competição, manutenção de infraestruturas, custos com staff e planteis, aquisição de equipamentos desportivos, arrendamento de espaço e equipamento e licenças para serviços administrativos para um bom funcionamento. Mesmo em contextos amadores, a exigência competitiva implica custos que não podem ser negligenciados, a par dos acima referidos, existem custos fixos mensais com os recursos humanos na componente desportiva, nomeadamente com planteis, técnicos, staff.
Perante este cenário, torna-se evidente a necessidade de uma gestão financeira rigorosa e, simultaneamente, criativa, capaz de equilibrar receitas e despesas de forma sustentável.
Tabela 1 – Comparação entre clubes profissionais e amadores
A comparação apresentada na Tabela 1 permite compreender que, embora a contabilidade criativa exista em ambos os contextos, a sua natureza difere substancialmente. Nos clubes profissionais, está frequentemente associada a engenharia financeira complexa, enquanto nos clubes amadores assume uma dimensão mais operacional e pragmática.
4. Estratégias de contabilidade criativa na prática
Uma das principais formas de contabilidade criativa nos clubes amadores reside na valorização do capital social, nomeadamente através do voluntariado da sua massa adepta. Dirigentes, gestores desportivos e colaboradores desempenham frequentemente funções sem remuneração, contribuindo de forma decisiva para a redução de custos.
Um clube que mobiliza ex-atletas para desempenharem funções técnicas ou administrativas está a transformar capital humano em valor económico indireto. Esta prática, embora comum, exige uma gestão cuidadosa, de modo a evitar sobrecarga e garantir a continuidade do compromisso dos voluntários ao longo das diferentes épocas desportivas. São inúmeros os casos em que o esforço e dedicação não reconhecidos pela direção dos clubes, o que leva à desistência destes recursos humanos dedicados ao funcionamento do clube amador.
As parcerias com entidades locais constituem uma ferramenta fundamental de gestão criativa, podendo assumir diversas formas, desde acordos de patrocínio até permutas de serviços. Estabelecer parcerias locais entre o clube e as entidades privadas locais com intuito de auferir de serviços – por exemplo refeições aos atletas em dias de jogo, equipamentos de treino e jogos, merchandising, transportes – em troca de publicidade nas instalações do clube, nos dias de jogo e nas redes sociais. Esta solução permite reduzir custos e, simultaneamente, reforçar a ligação à comunidade. A colaboração entre clubes e escolas, que pode permitir a utilização de instalações desportivas em horários específicos, reduzindo a necessidade de investimento em infraestruturas próprias.
A contabilidade criativa, no contexto do futebol amador, deve ser entendida como um processo de adaptação estratégica, orientado para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos. Esta abordagem implica uma mudança de paradigma, onde a gestão financeira deixa de ser meramente contabilística e passa a assumir uma dimensão estratégica e inovadora.
A criatividade manifesta-se na capacidade de:
i. Reconfigurar recursos existentes;
ii. Identificar oportunidades de colaboração;
iii. Desenvolver soluções alternativas de financiamento;
iv. Reduzir custos sem comprometer a qualidade.
A organização de eventos constitui uma estratégia frequentemente utilizada para gerar receitas adicionais nas épocas desportivas. A realização e/ou participação nos torneios infantis e campanhas de angariação de fundos são exemplos de iniciativas que, para além do retorno financeiro, contribuem para o reforço do espírito comunitário e ligação com o seu clube de futebol. Organizar torneios de futebol infantis que envolvam equipas locais e visitantes pode gerar receitas através de inscrições, venda de alimentos e bebidas, merchandising e patrocínios associados ao evento. Esta abordagem, embora exigente em termos organizacionais, pode ter um impacto significativo na sustentabilidade financeira do clube de futebol amador.
A contabilidade criativa não dispensa o rigor, pelo contrário, exige um planeamento financeiro estruturado, baseado em orçamentos realistas e na monitorização contínua das contas. A capacidade de antecipar despesas, identificar oportunidades de poupança e ajustar estratégias em função da evolução financeira constitui um elemento central da gestão eficaz. Neste contexto, a criatividade manifesta-se na forma como os recursos são alocados e otimizados, e não na manipulação de dados.
Tabela 2 – Estrutura típica de receitas dos clubes de futebol amador
A análise da Tabela 2 permite concluir que os clubes amadores de futebol apresentam uma forte dependência de financiamento externo, particularmente de entidades públicas. Esta realidade reforça a necessidade de diversificação de receitas e de implementação de estratégias inovadoras, enquadráveis na lógica da contabilidade criativa.
Os clubes conseguem reduzir a dependência de subsídios através da dinamização de eventos ou da criação de redes de parceiros locais, tendem a apresentar maior resiliência financeira. Um aspecto relevante no futebol amador, a par da dedicação das direções e estruturas amadores, é o elevado impacto do voluntariado, que constitui um dos pilares estruturais do funcionamento dos clubes amadores. Contudo, a sua sustentabilidade depende da motivação e do reconhecimento dos indivíduos envolvidos.
Tabela 3 – Estratégias de contabilidade criativa e impacto financeiro
A Tabela 3 evidencia que a contabilidade criativa não se limita à redução de custos, mas inclui de igual forma estratégias que permitem gerar receitas e de otimização fiscal. Importa sublinhar que estas práticas são legítimas quando enquadradas no respeito pelas normas legais e contabilísticas aplicáveis em cada país/região.
Apesar das vantagens associadas à contabilidade criativa, é fundamental reconhecer os seus limites legais e financeiros. A adoção de práticas que ultrapassem o enquadramento legal ou que comprometam a transparência financeira pode ter consequências graves, incluindo sanções legais e perda de credibilidade. A tentativa de ocultar dívidas, atrasar pagamentos ou apresentar contas distorcidas constitui um risco real, especialmente em contextos de pressão financeira. No entanto, estas práticas não só são ilegais como comprometem a sustentabilidade do clube de futebol a longo prazo. A gestão criativa deve ser orientada por princípios éticos claros, incluindo a prestação de contas aos sócios, através de relatórios de contas e o cumprimento das obrigações fiscais e a transparência na gestão de recursos. A implementação de mecanismos de controlo interno e a imperativa colaboração com profissionais de contabilidade certificados ajudam a mitigar riscos.
A eficácia da contabilidade criativa depende, em larga medida, da qualidade da liderança de dirigentes com visão estratégica, capacidade de inovação e sensibilidade ética, sendo essenciais para implementar soluções sustentáveis nos clubes. No futebol amador, a existência de uma gestão rigorosa e séria, torna-se mais complexa do que no futebol profissional e carece de conhecimento/formação por parte dos dirigentes. Direções com experiência no futebol profissional, acabam por gerir os clubes amadores de forma mais transparente, séria e servindo de exemplo para outros clubes amadores. Um bom exemplo são os clubes fénix – Rangers, Fiorentina, Wimbledon, União da Bola – clubes que renasceram, crescem de forma sustentada e fruto é uma gestão contabilística exemplar.
A profissionalização parcial da gestão profissional no futebol, através da formação dos dirigentes ou da colaboração com especialistas, pode representar um investimento estratégico a longo prazo. Mesmo em contextos amadores, a adoção de práticas de gestão modernas contribui para a credibilidade e eficiência do clube. A liderança deve também promover uma cultura organizacional baseada na transparência, na responsabilidade e na participação, envolvendo sócios/adeptos, atletas e comunidade local nas decisões estratégicas.
Conclusão
A gestão de clubes de futebol amador revela-se um domínio particularmente complexo, exigindo uma articulação constante entre recursos escassos – humanos, financeiros e estruturais – exigências competitivas e responsabilidades sociais. Neste artigo procurou-se demonstrar que a contabilidade criativa, quando reinterpretada à luz de uma abordagem ética e estratégica, pode constituir um instrumento fundamental para a sustentabilidade destas organizações.
Importa sublinhar que a fragilidade estrutural dos clubes amadores de futebol não decorre exclusivamente da limitação de recursos financeiros, mas também da ausência de modelos de gestão profissionais e da dependência excessiva de fontes externas de financiamento, nomeadamente de entidades públicas. Esta realidade obriga os dirigentes a desenvolverem soluções adaptativas, muitas vezes baseadas na criatividade e na capacidade de mobilização de recursos não convencionais. Neste sentido, a contabilidade criativa emerge não como um mecanismo de distorção da realidade financeira, mas como uma competência estratégica orientada para a sobrevivência organizacional, de forma ética e legal, sempre devidamente acompanhada por um profissional de contabilidade certificado.
A análise desenvolvida permite concluir que as práticas de contabilidade criativa mais eficazes são aquelas que assentam na valorização do capital social, na construção de redes de parceiros e na diversificação de fontes de receita. O voluntariado, as permutas e os acordos institucionais assumem, assim, um papel central, permitindo reduzir custos e potenciar sinergias locais.
A criatividade no futebol amador não está isenta de riscos, sendo que a ausência de mecanismos de controlo e de competências técnicas adequadas poderá conduzir a práticas menos transparentes ou mesmo ilegais, comprometendo a credibilidade e a sustentabilidade a longo prazo dos clubes, das competições e das associações/federações de futebol. Torna-se, portanto, essencial estabelecer um equilíbrio entre inovação e rigor, garantindo que todas as práticas de gestão respeitam os enquadramentos legais e os princípios éticos fundamentais.
A liderança de um clube de futebol amador assume uma importância decisiva, dado que os dirigentes com visão estratégica, capacidade de planeamento e sensibilidade ética são determinantes para a implementação eficaz de práticas de contabilidade criativa. A formação contínua e a abertura à profissionalização parcial da gestão surgem como fatores críticos para reforçar a capacidade organizacional dos clubes.
Importa reconhecer o papel das políticas públicas e das entidades reguladoras na criação de um ambiente mais favorável à sustentabilidade do futebol amador. O desenvolvimento de programas de apoio estruturados, a simplificação de processos administrativos e o incentivo à formação em gestão desportiva podem contribuir significativamente para a melhoria das práticas organizacionais.
A contabilidade criativa no futebol amador, quando entendida como uma prática legítima de inovação na gestão, constitui uma ferramenta indispensável para os clubes, pois a sua eficácia depende, contudo, da capacidade de integrar criatividade, responsabilidade e rigor, num equilíbrio que assegure não apenas a sobrevivência, mas também o desenvolvimento sustentável destas organizações.
Gerir um clube de futebol amador não é apenas um ato de amor/dedicação ao clube e um exercício de administração financeira, mas um processo contínuo de adaptação, liderança e compromisso com a comunidade. É neste equilíbrio entre paixão e racionalidade que reside o verdadeiro desafio — e também a principal oportunidade — da gestão no futebol amador contemporâneo.
Ricardo André Encarnaçãoé Diretor Desportivo do União da Bola Futebol Clube. Possui formação em Turismo, com mestrado na área e doutorando pela Universidad de Málaga, além de especializações em gestão desportiva e direção técnica no futebol. Atua na gestão esportiva e organizacional de clubes, com experiência em projetos ligados ao futebol e ao turismo. LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/randreencarnacao/
Uma reflexão sobre governança, estrutura e responsabilidade institucional no esporte.
Durante muitos anos, o futebol brasileiro se acostumou a olhar para o lugar errado.
Quando os resultados não vêm, a análise quase sempre recai sobre treinador, elenco, esquema tático ou desempenho dentro de campo. Mas, para quem vive os bastidores, a realidade é outra: na maioria das vezes, o problema não começa no campo. Começa muito antes. Começa na forma como o clube é estruturado e gerido.
Escrevo essa reflexão também como forma de me apresentar e de iniciar minha contribuição junto à Universidade do Futebol, instituição que sempre acompanhei e onde busquei conhecimento ao longo da minha trajetória no esporte.
Sou profissional com mais de duas décadas de atuação no esporte e no terceiro setor, com formação na área contábil e tributária, e experiência na estruturação de processos, governança e gestão institucional.
Venho de uma família simples, do interior de Minas Gerais, onde aprendi, ainda em casa, valores que carrego até hoje: responsabilidade, honestidade, acolhimento e respeito ao próximo. Meus pais não tiveram acesso à formação acadêmica, mas foram meus maiores mentores. Foi com eles que aprendi que fazer o certo não depende de cargo ou visibilidade, mas da forma como enxergamos o mundo e dos princípios que escolhemos sustentar.
Minha trajetória profissional também não começou no futebol profissional. Começou no trabalho de base, na observação atenta e no compromisso com o que precisava ser feito.
Ao longo do caminho, atuei em instituições que me permitiram compreender o esporte a partir de sua estrutura fiscal, contábil, tributária, financeira e institucional. No Minas Tênis Clube, participei da construção de áreas fundamentais, como processos tributários, convênios, licitações e a estruturação do departamento ligado à Lei de Incentivo ao Esporte.
Mais tarde, no Cruzeiro, vivi diferentes fases de um grande clube: momentos de conquista, reconhecimento e excelência, mas também momentos de crise profunda, perda de credibilidade e fragilidade institucional.
Foi vivendo esses extremos que entendi algo que hoje considero central:
O futebol brasileiro sofre menos por falta de talento e mais por ausência de estrutura.
Temos talento de sobra. Temos atletas brilhantes, torcidas apaixonadas, força cultural e enorme capacidade de mobilização social. O que muitas vezes falta é base para sustentar tudo isso de forma responsável e duradoura.
Ainda convivemos com problemas que se repetem em diferentes níveis do futebol brasileiro:
• ausência de governança formal
• concentração de decisões
• falta de processos claros
• fragilidade de controles
• baixa maturidade institucional
• conflitos de interesse
• desorganização financeira e documental
• pouca cultura de transparência
Em muitos casos, o clube cresce esportivamente antes de estar preparado para sustentar esse crescimento administrativamente. E, quando isso acontece, o preço chega, quase sempre alto demais.
O futebol é apaixonante, mas paixão não substitui gestão.
Durante muito tempo, o ambiente esportivo naturalizou estruturas frágeis, informalidade e decisões personalistas. Esse modelo pode até sobreviver por algum tempo, especialmente quando há resultado esportivo ou aporte financeiro. Mas dificilmente constrói longevidade.
Sem governança, o clube depende de pessoas.
Com governança, o clube constrói instituição.
Essa talvez seja uma das discussões mais urgentes do esporte brasileiro.
Quando falamos em governança, não estamos falando de burocracia. Estamos falando de clareza, responsabilidade, transparência, controle, planejamento e capacidade de tomar decisões com base em critérios, e não apenas sob pressão.
Ao longo da minha trajetória, também tive a oportunidade de atuar em espaços institucionais do esporte, incluindo a prestação de contas no Ministério do Esporte, participação em grupos técnicos do terceiro setor e atuação como relatora em comitê desportivo ligado à lei de incentivo estadual em Minas Gerais.
Essas experiências ampliaram ainda mais a minha convicção de que o esporte brasileiro não precisa apenas de investimento.
Precisa de maturidade institucional.
Investimento sem estrutura pode gerar crescimento.
Mas não garante sustentabilidade.
Por isso, tenho defendido cada vez mais uma mudança de mentalidade.
Gestão não é acessório.
Gestão é condição de continuidade.
É o que permite que o clube sobreviva às mudanças, às crises, às trocas de liderança e aos ciclos esportivos.
Mais do que formar atletas, o futebol precisa formar instituições.
Antes de atrair recursos, precisa aprender a organizar recursos.
Precisa desenvolver capacidade de prevenir, planejar e construir legado e não ter que reagir a crises.
Essa discussão se torna ainda mais relevante quando olhamos para o papel do esporte na sociedade.
Um clube não é apenas um time.
Ele pode ser uma plataforma de desenvolvimento humano, formação cidadã, pertencimento e impacto social real. Mas, para cumprir esse papel com responsabilidade, precisa ser sustentado por gestão.
Não há impacto consistente sem estrutura, nem confiança sem transparência e somente com governança uma organização terá futuro sustentável
Talvez o grande desafio do futebol brasileiro hoje seja esse:
Parar de olhar apenas para o campo e começar a olhar para aquilo que sustenta o jogo.
Deis Chavesé executiva do futebol e atual CEO do Nova Venécia SAF, com mais de 20 anos de experiência na área. Foi diretora de projetos do Cruzeiro EC por 13 anos, liderando iniciativas estratégicas e captação de recursos. É formada em Ciências Contábeis, com especializações em Direito Tributário e gestão do futebol, além de atuar como professora e palestrante na área esportiva. LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/deis-chaves-projetos/
O jogo de futebol é técnico, tático, físico e mental. Tudo junto e ao mesmo tempo. Um drible, por exemplo: tem o gesto técnico da finta, a tática para saber se é uma ação ou para frente ou para trás, a questão física do arranque para superar o adversário e a coragem emocional de realizar o drible. É assim o jogo todo. Individual e coletivamente.
E mesmo não podendo separar o jogo em fragmentos e entendendo que o todo é maior que a soma das partes, há áreas que se potencializadas melhoram todo o conjunto. É o que chamamos de área de alavanca.
Na seleção brasileira hoje o que pode fazer a diferença e catapultar todo o projeto de campo é a parte emocional. Há claramente uma falta de confiança no grupo de jogadores. Os recentes insucessos e até os desmandos fora de campo em um ciclo de quatro anos marcado por uma instabilidade política enorme da Confederação Brasileira de Futebol fizeram com o que o moral de todos baixasse muito.
Pressão sempre houve e sempre vai existir. E o atleta que chega em um nível tão alto como esse sabe lidar muito bem com as cobranças. Mas saber lidar com derrotas é diferente. Exige um trabalho diferente e mais elaborado. E é aí que o currículo extremamente vencedor do técnico Carlo Ancelotti pode ser decisivo e fazer a diferença.
Não temos a melhor geração de todos os tempos, mas temos excelentes jogadores. O plano tático pode ser aprimorado com o período de treinamentos pré-Copa. A questão física, principalmente de alguns jogadores vindos de lesão, pode ser restabelecida. A cereja do bolo precisa ser o resgate da confiança e da auto estima. Não que isso fará do Brasil o grande favorito na Copa. Mas vai ajudar a aumentar nossas chances.