Categorias
Sem categoria

Quando o mundo perde ornamentos, o futebol perde dribles

Por: Roberto Torrecilhas

Existe um incômodo silencioso atravessando a cultura contemporânea: a sensação de que o mundo tem ficando cada vez mais acinzentado e “liso”. Desapareceram os detalhes. Menos riscos, diferentes assinaturas e visões de mundo, contraste. Tudo muito padronizado. Na arquitetura, repetem-se formas globais; na arte, o gesto criativo oscila entre produto e performance; e, no futebol, cresce a impressão de um jogo cada vez mais eficiente, intenso e organizado, e ao mesmo tempo, em muitos contextos, mais previsível.

Este texto parte de uma hipótese que me parece cada vez mais evidente: o mesmo espírito cultural que empurra a sociedade para a padronização estética também pressiona o futebol a reduzir o improviso, a autoria e o desequilíbrio criativo.

Não tento apresentar uma nostalgia vazia ou um ataque simplista à tática, à ciência ou aos dados. O problema não é a evolução. O problema começa quando a busca por controle absoluto transforma a criação em risco proibido, e quando o “ornamento” deixa de ser identidade para virar “excesso”.

Antes de iniciarmos, observe estas imagens, o que elas te remetem?

O passado e o futuro, o que ganhamos e o que perdemos?

1. A morte do ornamento e a vitória da “Eficiência” (mas eficiente em qual ponto de vista?)

Parte do debate contemporâneo sobre arte e arquitetura gira em torno de um único sentido: o belo, o expressivo e o singular passaram a precisar justificar sua existência em termos de utilidade. O detalhe é suspeito, adorno é tratado como desperdício. A singularidade passa a ser lida como ineficiência.

Em um texto da Gazeta do Povo, o abandono dos ornamentos é tratado como um sintoma de empobrecimento cultural, argumentando que diferentes civilizações historicamente manifestaram identidade por meio de suas expressões ornamentais. A crítica central é forte: o desaparecimento do ornamento não seria apenas uma mudança estética, mas um sinal de um tipo de empobrecimento civilizacional.

Esse ponto é importante porque, quando o ornamento desaparece, o que se perde não é apenas algo superficial. O que se perde é a linguagem. O ornamento, entendido de forma séria, não é excesso. Está conectado com o contexto, cultura, origem e assinatura. Um detalhe que grita: “isso veio de algum lugar, foi produzido por alguém, carrega uma história”. E esse é o resultado de originalidade, que retrata a forte conexão do autor com a vida, traduzidos por sua extrema qualidade técnica.

O problema começa quando uma estética funcional deixa de ser escolha e vira dogma. E toda vez que um princípio vira dogma, ele para de organizar e começa a empobrecer. Deixa de ter conexão com a vida ao seu redor, perde a conexão com os seus integrantes e o resultado é algo que tem pouca ou nenhuma representação com a sua cultura.

Quando o detalhe deixa de ser linguagem e passa a ser tratado como ruído, a cultura começa a confundir simplificação com esvaziamento.

Trazendo alguns pensadores e discussões sobre o tema, apresento aqui pontos essenciais para esta discussão.

A arte tem se desconectado da humanidade? De um elemento de domínio do povo, passando a uma transição para o domínio de especialistas e classes específicas?

Este movimento te faz traçar alguma relação com a transformação com que o futebol vem passando? De representação cultural e de domínio público para algo muito complexo, representando “alguns e seus especialistas” e se distanciando da sua essência e origens?

Lembrando!!! Por aqui estamos abordando diferentes ideias, com equilibrio e boas discussões, para que todos cresçamos juntos!!!
Respeito todas as formas de arte e diferentes pensamentos.

2. O mundo liso: menos cor, menos contraste, menos surpresa

A padronização estética não atua apenas como tendência visual. Ela atua como regime perceptivo, moldando o olhar, reduzindo o seu impacto. Ela acostuma o sujeito a viver cercado por superfícies limpas, tons neutros, geometrias previsíveis e linguagens replicáveis. Vamos pensar os regimes estéticos, tudo passa por padrões pré estabelecidos: Vestimenta, pensar, agir, gosto musical, religião, comportamental. Será que todos concordam e se moldam como pensam e acreditam; ou são resultado de constantes cortes e repressão de um ambiente cada vez mais agressivo e padronizado?

Um artigo do ArchDaily Brasil, ao comentar uma pesquisa baseada em milhares de fotografias de objetos cotidianos, aponta uma tendência de predominância de tons mais neutros e formas mais regulares ao longo do tempo. A análise não é moralista, mas ela ajuda a enxergar algo importante: há uma convergência visual crescente em objetos e ambientes do cotidiano.

Isso não significa que o mundo ficou “objetivamente pior”. Mas significa, sim, que ele ficou mais homogêneo. E homogeneidade, quando excessiva, cobra um preço: o olhar perde estranhamento, a experiência perde textura e a cultura perde contraste.

Até mesmo em estudos populares sobre emoção e cor, aparece uma forte metáfora: reportagens da Veja e do Mega Curioso repercutiram pesquisas em que tons acinzentados aparecem associados a estados emocionais mais negativos ou a redução de contraste perceptivo. Não se trata aqui de transformar isso em causalidade simplista, mas a imagem é forte: um mundo mais cinza é também um mundo em que o contraste simbólico parece enfraquecido.

E o contraste é fundamental para qualquer forma de expressão.

3. O futebol como espelho da época

O futebol sempre foi mais do que um esporte. O futebol é um espaço de condensação cultural. É um lugar em que o corpo traduz aquilo que uma sociedade pensa, sente, reprime e celebra. E muitas das vezes um ponto de “desafogo” para uma sociedade que vive afundada em problemas dos mais diversos. tipos.

Um drible nunca foi apenas um gesto técnico. Um drible é uma micro-narrativa, o teatro do corpo. Um instante em que o jogador, por meio da sua relação com tempo, espaço, engano e coragem, produz algo que ultrapassa a mera utilidade e o resultado que gera para o espetáculo, além de mental sobre o adversário, atinge o emocional de milhares de pessoas que se veem representadas por aquele artista.

Por isso, quando o futebol começa a perder drible, perde-se mais do que “entretenimento”. Perde-se uma forma de linguagem, forma popular de autoria. Perde-se o modo de dizer “eu existo no jogo” sem depender apenas da obediência ao sistema robotizado e limitante.

O futebol contemporâneo vive um paradoxo fascinante: nunca tivemos tanta informação, tanta precisão, tanta capacidade de mapear o jogo. Tracking. GPS. Modelos de decisão. Mapas de calor. Métricas de pressão. Modelos probabilísticos. Tudo isso é valioso se bem utilizado, e que não venha a sobrepor os sentimentos, intuição e relações de quem vive e executa o jogo…

Mas, ao mesmo tempo, cresce a sensação de que muitos jogos se parecem. A organização aumenta. A singularidade diminui. Os padrões tomam conta do espetáculo. As assinaturas desaparecem.

É aqui que a analogia com o ornamento ganha sentido: o drible, o passe improvável, a pausa, a condução que quebra o script, a invenção sob pressão… tudo isso pode ser entendido como o ornamento do futebol.

Não como excesso inútil. Mas como o elemento que dá identidade ao sistema. E principalmente, o valor inestimável destes gestos artísticos e expressivos para o espetáculo como um todo.

4. Como a mecanização acontece: calendário, mercado, dados e medo

Chamar o futebol atual de “mecanizado” não significa negar sua evolução. O jogo ficou mais intenso, atlético. Se otimizou e deu sentido a muitas coisas no jogo coletivo. Mais sofisticado em muitos aspectos. O problema aparece quando a busca por controle total reduz a margem de autoria, e principalmente, a sensibilidade e repertório dos atletas para solucionarem os problemas que o jogo lhes apresenta.

E essa mecanização não é apenas tática. Ela é estrutural, ambiental e limitante ao ponto de vista psicológico.

4.1 Calendário e falta de tempo

E nem tudo isso é algo produzido apenas pela evolução tecnológica e moderna. Mas sim a crescente de jogos, valores astronômicos, cobranças desproporcionais e a cultura imediatista que vem tomando conta do esporte. Com pouco tempo para treinar, modelos mais replicáveis e comportamentos mais automatizáveis ganham prioridade. O treinador passa a privilegiar aquilo que consegue estabilizar rápido. O espaço para exploração, improviso e repertório tende a diminuir.

Veja o treinador Enderson Moreira falando sobre estes aspectos:

Algumas falas interessantes sobre este mesmo tema:

4.2 Mercado “plug and play”

O mercado valoriza cada vez mais perfis que encaixam rápido. O jogador funcional, obediente e adaptável tem enorme valor. Isso não é ruim em si. O problema é quando o sistema passa a premiar apenas isso, e começa a desconfiar de perfis mais autorais, mais caóticos, mais criativos.

4.3 Dados mal utilizados

O dado, quando bem utilizado, amplia percepção. O grande problema é quando vira manual de “não errar”, ele deixa de apoiar a criação e passa a censurá-la. Se toda métrica premia apenas retenção e baixo erro, o comportamento ótimo vira o passe lateral eterno.

4.4 O medo como cultura

O erro exposto em rede social virou julgamento moral. O atleta percebe isso rapidamente, e o sistema aprende a se proteger. Quando o ambiente pune o risco, o risco desaparece. E quando o risco desaparece, a criatividade vira exceção.

O futebol mecanizado não nasce apenas da tática. Ele nasce do medo coletivo de errar em público.

João Paulo Sampaio, gerente de base do Palmeiras abordando este tema, e o quanto se torna prejudicial ao ponto de vista de formação e desenvolvimento dos talentos:

5. O “jogo correto” e a estética corporativa do futebol moderno

Em muitos contextos, o futebol contemporâneo começa a se parecer com uma estética corporativa: decisões seguras, movimentos treinados, comportamentos previsíveis, baixa exposição, mínima variância.

A lógica é simples: se “funciona”, então serve. Se reduz risco, então é melhor. Se protege o emprego, então é preferível. Se evita crítica, então se consolida.

Só que o futebol nunca foi apenas um exercício de redução de erro. O futebol sempre foi, também, um espaço de produção de desequilíbrio. E desequilíbrio é o coração do jogo.

O drible, o passe que quebra linha, a pausa inesperada, a finta corporal, a recepção orientada fora do padrão, tudo isso não é perfumaria. Mas sim, é capacidade de deslocar a lógica do adversário.

Em outras palavras: o “ornamento” do futebol não é apenas beleza. É vantagem competitiva, confiança…

6. Resgatar a arte sem abandonar a competitividade

A resposta não é voltar ao caos, rejeitar ciência ou demonizar os dados. O caminho maduro é outro: usar processo e método para proteger a criação humana — e não para substituí-la.

6.1 Estrutura que protege o risco

Criatividade não nasce no vazio. Criatividade nasce com cobertura. Se a equipe possui mecanismos claros de compensação, o jogador arrisca com menos medo. A estrutura não é inimiga do drible. A estrutura é o guarda-corpo que o permite arriscar.

6.2 Treinar princípios, não coreografias

Princípios geram variação e coreografias geram cópia. Quanto mais o treino vira script, mais o jogo vira execução, e em um ambiente (in-vitro), tendo que acreditar piamente que aquele roteiro trabalhado seja reproduzido quase de forma impecável no jogo para as coisas acontecerem… Quanto mais o treino ensina intenção, relação e leitura, proporcionando recursos e repertório aos atletas, mais o jogo preserva a autoria.

6.3 Métricas que valorizem coragem

Se toda métrica premia apenas acerto, a coragem some. É possível medir criação de vantagem: rupturas, progressões, passes que quebram linha, conduções que arrastam bloco, ações que aumentam a probabilidade de finalização.

6.4 Cultura interna: erro criativo não é crime

O ambiente define o jogador. Quando o clube transforma o erro em humilhação, o atleta escolhe o seguro. É preciso diferenciar erro por displicência de erro por tentativa responsável.

6.5 Identidade como diferencial competitivo

O estilo universal pode ser eficiente. Mas identidade é imprevisível. E imprevisibilidade, no futebol, é uma vantagem competitiva com valor inestimável.

Clique aqui para assistir: https://www.youtube.com/watch?v=RfIvpCgIUU0

7. O desafio da nova geração de treinadores

O treinador moderno precisa lidar com uma tensão sofisticada: organizar sem esterilizar; estruturar sem engessar; medir sem reduzir; analisar sem retirar o poder de decisão do jogador.

O dado mostra muito. Como, onde, em quais formas… Muitas vezes, mostra até “com que frequência”. Mas a criação acontece no “como”. E o “como” ainda pertence ao corpo, à coragem, ao repertório, à sensibilidade e à relação humana.

O treinador do futuro não será o que mais controla. Será o que melhor constrói contextos para que a inteligência coletiva e a autoria individual coexistam.

Em um mundo cada vez mais liso, o futebol pode seguir sendo um dos últimos lugares de resistência do ser humano. Mas só será se deixarmos de punir o artista.

Leituras recomendadas:

https://coachesminds.com/o-tecnico-2-0-os-treinadores-do-futuro/: Quando o mundo perde ornamentos, o futebol perde dribleshttps://coachesminds.com/o-tecnico-2-0-parte-2/: Quando o mundo perde ornamentos, o futebol perde dribles


8. Conclusão: o futebol ainda pode ser arte

O futebol é um espelho da época. Se a sociedade se organiza para ser mais eficiente, mais mensurável e menos ambígua, o jogo também tende a caminhar para o controle.

O maior problema começa quando o controle vira censura. Onde a vida perde contraste, a identidade perde seus detalhe e essência. Quando o futebol perde o drible e as características individuais que torna cada ser único e reconhecido pelo o que ele é.

O desafio da nossa geração é bastante complexo: construir equipes organizadas sem matar a expressão; usar tecnologia como suporte, sem ficar refém dos painéis; entender que o dado mostra muito, mas não são apenas referências sozinho; compreender que o futebol continua sendo um sistema complexo, de relações e sentimentos em que o coletivo organiza o cenário, mas o detalhe humano ainda decide a resposta.

Se o mundo está ficando uniforme, o futebol ainda pode ser um dos últimos lugares de resistência dos seres vivos.

E talvez seja exatamente por isso que ainda valha tanto a pena defender o “ornamento” no jogo: não como excesso, mas como linguagem, identidade e com a assinatura de seus artistas.

Resumo do artigo em vídeo:

Por Roberto Torrecilhas | Beyond The Lines

*Artigo originalmente publicado e cedido pelo autor, através do site: https://coachesminds.com/

Roberto Torrecilhas é analista de desempenho da equipe princial da S.E. Palmeiras, possui Licença PRO de Treinadores da CBF, e é professor em várias escolas como Univerisdade do Futebol, CBF Academy e Connmembol
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/roberto-torrecilhas-1a0272103/?locale=pt_BR

Categorias
Sem categoria

Dimensão Emocional e Princípios da Periodização Tática: integração e proposta prática

Por: Nicolau Trevisani

Dentre os diversos modelos de treinamento existentes no futebol contemporâneo, talvez o mais conhecido e debatido seja o da Periodização Tática, concebida em Portugal pelo professor Vítor Frade. Trata-se de uma forma de organizar o treino a partir do princípio da especificidade: treina se o que se pretende jogar. Essa especificidade não é apenas estrutural ou posicional, mas essencialmente comportamental.

Seus princípios metodológicos — especificidade, propensão, progressão de complexidade e alternância horizontal — estruturam o microciclo de modo que o modelo de jogo seja experienciado diariamente sob diferentes níveis de exigência. A propensão aumenta a probabilidade de determinados comportamentos emergirem no treino. A progressão de complexidade eleva as exigências relacionais, perceptivas e decisórias ao longo da semana. A alternância horizontal regula a carga sem romper a identidade do jogar. Não se alternam conteúdos desconectados, mas níveis distintos de exigência do mesmo jogo.

Para aprofundar essa discussão, é fundamental compreender o que entendemos por jogo. Na perspectiva desenvolvida por Alcides Scaglia, o jogo é um sistema complexo de relações, imprevisibilidades e problemas emergentes. Ele não se resume à execução de padrões, mas consiste na interação constante entre adversários, companheiros, espaço, tempo e regras. O jogo produz tensão, cooperação, conflito e necessidade permanente de decisão em ambiente imprevisível.

Se partimos dessa concepção, torna-se claro que o modelo de jogo deve funcionar como um norte orientador, e não como um fim em si mesmo (assim como já pude aprofundar em outro texto publicado aqui, algum tempo atrás. No meu entendimento, o objetivo do treino não é simplesmente reproduzir um modelo idealizado, mas formar uma equipe capaz de jogar melhor — isto é, preparada para lidar com as diferentes demandas e imprevisibilidades da partida. A lógica maior do jogo permanece simples e incontornável: fazer mais gols que o adversário.

Nesse sentido, esta reflexão não busca se apropriar integralmente da Periodização Tática nem reproduzi-la como método fechado. Pelo contrário, dialoga com seus princípios metodológicos — reconhecendo sua relevância estrutural — para, a partir deles, propor uma ampliação do olhar. Trata-se de reconhecer o valor de uma matriz organizadora consistente e, simultaneamente, explorar como a dimensão emocional pode ser tratada não como algo paralelo, mas como componente intrínseco ao próprio jogar.

Quando o modelo passa a ser tratado como um fim fechado, corre-se o risco de reduzir a adaptabilidade coletiva. O modelo organiza referências, mas o jogo exige regulação contínua. É nesse ponto que a dimensão emocional deixa de ser algo externo ao campo e passa a ser compreendida como parte integrante do comportamento coletivo.

Ansiedade coletiva, confiança estrutural, agressividade regulada, resiliência após o erro, estabilidade sob pressão — tudo isso é comportamento. E comportamento se treina no contexto do jogo. Quando o treino respeita essa natureza relacional, ele cria um ambiente fértil para que os atletas desenvolvam não apenas coordenação tática, mas também estabilidade emocional integrada ao jogar.

O estado de Flow — entendido como um estado de engajamento pleno, clareza perceptiva e sensação de controle sob desafio equilibrado — não é objetivo direto do treino. Ele é consequência. Surge quando modelo, competência, desafio, segurança emocional e interações pedagógicas se alinham. E emerge também da qualidade dos feedbacks da comissão técnica: das palavras-chave utilizadas, do clima emocional criado no treino e da coerência entre exigência e suporte.

Treinar melhor, portanto, não é apenas organizar movimentos. É preparar a equipe para sustentar comportamentos eficazes sob pressão, instabilidade e desafio — mantendo o modelo como norte, mas colocando a lógica do jogo acima de qualquer idealização. A seguir, apresento uma aplicação prática de microciclo com jogo no domingo e foco da semana em organização ofensiva e transição defensiva. Trata-se de um exemplo que pode — e deve — ser ajustado de acordo com cada contexto competitivo, tanto nos conteúdos táticos quanto nos componentes emocionais a serem desenvolvidos.

O conhecimento da dimensão psicológica e emocional mostra-se um diferencial nesse processo, pois permite compreender que tipo de emoção cada exercício ou cada fase da semana tende a exigir, como essas emoções emergem no treino e de que forma podem ser moduladas em prol do desempenho coletivo.

Por fim, ressalto — inclusive pela minha formação em Psicologia e pela atuação ao longo de anos como analista de desempenho e scout em diferentes contextos — que esta proposta não invalida intervenções psicológicas em grupo ou atendimentos individuais. Pelo contrário, reconhece que tais intervenções podem desempenhar papel fundamental tanto na performance quanto na saúde emocional de cada indivíduo que compõe a equipe e o ambiente do clube.

Proposta de Microciclo Integrado


Domingo – Jogo
• Competição oficial.

Segunda-feira – Recuperação / Folga
• Atletas que atuaram: folga
• Não relacionados: trabalho regenerativo + técnico leve

Carga
Volume: baixo
Intensidade: baixo
Densidade: baixo

Objetivo emocional:
• Descompressão
• Regulação pós-competição

Palavras-chave:
“Recuperar”, “Respirar”, “Reorganizar”

🟢 Terça-feira (D-5) – Reativação de Princípios

Exercício principal:
7×7+ 2 coringas externos em meio campo, com metas laterais e finalização rápida após progressão.

Descrição:
• Jogo reduzido com estímulo à circulação ofensiva e reação imediata à perda.

Objetivo tático:
• Reativar princípios de organização ofensiva: Gerar linha de passe, circulação de bola
• Reação pós perda e pós ganho de bola

Objetivo emocional:
• Reconstrução da confiança coletiva
• Coragem para jogar e aparecer para o jogo
• Comunicação ativa
• Reengajamento competitivo

Carga:
Volume: médio
Intensidade: média
Densidade: média
Palavras-chave:
“Comunica”, “Reage”, “Confia”, “Juntos”

🔵 Quarta-feira (D-4) – Comportamentos ofensivos da própria equipe

Exercício principal:
10×10 (+goleiros) em 3⁄4 de campo
Manipulação de placares, numero de jogadores expulsos por um período, erros de arbitragem… (0x1, 1×0, empate com tempo reduzido). Manipulação de situações impostas pelo jogo

Regras:
Gol = 2
Gol após recuperação em até 5 segundos = +1


Descrição:
Jogo próximo ao jogo formal, buscando estimular princípios de jogo da nossa ideia de jogo ( Terceiro, homem, ataque as costas do oponente, mapear espaço, diferentes alturas de passe…)

Objetivo tático:
• Organização ofensiva sob pressão real, com conceitos da ideia de jogo
• Transição defensiva agressiva
Objetivo emocional:
• Treinar resiliência
• Coragem para jogar
• Regular ansiedade coletiva
• Sustentar comportamento após erro
• Agressividade coordenada

Carga
Volume: médio
Intensidade: alta
Densidade: alta

Palavras-chave:
“Sem pânico”, “Reage já”, “Continua”, “Pressiona juntos”

  • Dependendo do jogo, é possível colocar componentes estratégicos da próxima partida neste dia, e voltar-se menos para apenas comportamentos da própria equipe

🟢 Quinta-feira (D-3) – Consolidação Estratégica (Saída + Construção
Direcionada)- Pode variar dentro de cada jogo


Exercício principal:
11×11 campo reduzido de um gol a meia lua oposta
Início sempre em saída de bola
Simulação do padrão de pressão do adversário

Descrição:
Trabalho direcionado para a estratégia do próximo jogo, enfatizando construção organizada.

Objetivo tático:
• Estruturar saída
• Construção sob padrão específico
• Ajuste estratégico

Objetivo emocional:
• Segurança estrutural
• Coragem para jogar
• Confiança no plano
• Controle emocional pré-competitivo

Carga
Volume: alto
Intensidade: média
Densidade: média

Palavras-chave:
“Estrutura”, “Paciência ativa”, “Confia no plano”, “Organiza”

🟡 Sexta-feira (D-2) – Velocidade e acabamento rápido

Exercício principal:
8×8 em campo médio
Ataques com tempo limitado para finalizar (8 segundos)

Descrição:
Transições rápidas com foco em verticalidade e reação defensiva imediata.

Objetivo tático:
• Velocidade na organização ofensiva- conclusão das jogadas
• Compactação defensiva pós-perda

Objetivo emocional:
• Agressividade controlada;
• Ambição para fazer gol
• Coragem decisional
• Intensidade competitiva

Carga
Volume: médio
Intensidade: alta
Densidade: média
Palavras-chave:
“Rápido”, “Ataca”, “Recupera”, “Coragem”

🟤 Sábado (D-1) Bola Parada

Bola parada ofensiva
Trabalho específico de ataque à bola.

Descrição:
Baixa carga geral, foco em ativação e confiança coletiva.

Objetivo tático:
• Ajustes finos
• Organização final
• Coordenação de bola parada

Objetivo emocional:
• Agressividade no ataque à bola
• Confiança final
• Estabilidade emocional

Carga
Volume: baixo
Intensidade: Baixa
Densidade: baixa

Palavras-chave:
“Ataca a bola”, “Decide”, “Confiança”, “Prontos”

Concentração e foco na atividade são estimuladas o tempo inteiro em qualquer atividade.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

Categorias
Sem categoria

Desenvolvimento no futebol, a arte de conectar dribles, jogo e pessoas.

Por: Thiago Filla de Almeida

Desenvolver no futebol é ampliar a capacidade de conexão com a bola, com o jogo, com o outro e com a vida de quem joga.

Futebol, assim como a VIDA é um jogo de CONEXÔES. Essa ideia ficou ainda mais clara para mim em uma conversa com meu filho sobre a escola e o modo de superar o desafio das avalições. Ele é goleiro, Sub- 14, e gosta muito do que faz. Raramente comento algo sobre partidas ou treinos; deixo que ele fique à vontade e me procure quando quiser dialogar sobre o tema.

Falei a ele:

“Para ir bem em uma disciplina na escola ou nas avaliações, você precisa criar vantagem numérica. Chame o estudo para jogar ao seu lado. Traga a atenção nas aulas para te ajudar nas avaliações. É diferente de ficar apenas você contra o conteúdo, contra a prova, contra o tempo, enfim.”

Conectando com a nossa área, somos professores ou agentes socializadores preparados para interagir com essas teorias e para trazer vantagens numéricas de recursos, de opiniões sobre os nossos afazeres?

O cenário e o contexto do futebol atual nos mostram pouca capacidade dessas relações. A repetição, as replicações e a dificuldade de criar conexões enfraquecem o ambiente de formação. Desde as relações dentro de uma comissão técnica até as conexões entre os próprios jogadores, vemos um jogo diferente, que sequer podemos comparar com outros tempos e não avaliar se é bom ou ruim, pois entraríamos em uma outra discussão.

Talvez desenvolver seja exatamente isso: ampliar conexões e sustentar
relações que potencializam o jogo. No campo ou na vida, criar vantagem numérica é chamar o outro para jogar junto, é aproximar. Quando reduzimos as relações, empobrecemos os vínculos e o jogo também se empobrece nas diversas situações.

No fim, não se trata de ações isoladas, mas de redes que se constroem e se conectam em múltiplas possibilidades. O futebol, em todos os seus níveis, é sobretudo educacional. Desenvolver no futebol não é formar jogadores mais fortes, mais rápidos ou mais técnicos, mas pessoas mais conectadas ao jogo, ao outro e a si mesmas, porque o jogo que realmente importa é o das relações.

Inspirações e Referências:
João Batista Freire
Wilton Carlos de Santana
Danilo Augusto Ribeiro

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

Categorias
Sem categoria

As proezas de Abel Ferreira

Por: Marcel Capretz

O título do Paulistão 2026 encerra o maior jejum de Abel Ferreira no Palmeiras. Na cultura brasileira, onde impera o famigerado “o segundo é o primeiro dos últimos” , urgia um caneco após os vices da Libertadores, do Brasileiro e do próprio Paulista de 2025.

O português é agora o treinador com mais títulos na história do clube: onze! E faz parte receber críticas, é do jogo. Mas falta o devido reconhecimento a Abel. Por parte até de uma boa parcela dos palmeirenses.

Memória curta é outro elemento presente no futebol brasileiro. A vitória de ontem não garante o respaldo de hoje. Porém deve-se olhar o todo. São quase cinco anos e meio do mesmo treinador no mesmo clube. E sempre chegando entre os primeiros. Mais difícil do que chegar no topo é se manter nele.

E o Palmeiras de Abel tem conseguido isso. É claro que o 2025 palmeirense foi marcado por algumas imperícias. Várias do próprio português. Abandonar publicamente o Brasileirão antes da hora, não ter uma estratégia eficaz para a grande final da Libertadores, o tempo além do normal para achar um time e um jeito de jogar, foram algumas delas. A própria milionária contratação de Paulinho junto ao Atlético-MG entra na conta porque ele praticamente não jogou.

Expectativa e realidade não caminharam juntos nesse caso e isso afetou sim a temporada do clube. E que fique claro: não me agrada o comportamento bélico de Abel Ferreira nas coletivas de imprensa.

Entretanto até nisso vejo uma intencionalidade clara para vencer. O confronto sempre alimentou bons personagens e grandes conquistas do futebol mundial. As fúrias públicas propositais de Muricy Ramalho, Felipão, Luxemburgo, Zagallo  e do próprio português José Mourinho alimentavam esse fogo interno e externo para vencer.

Sei que Abel Ferreira vai ter sossego curto. Após a próxima sequência ruim (que vai acontecer, com certeza) vão voltar a falar que ele perdeu o grupo, que não consegue extrair mais nada de ninguém no clube, que a forma de jogar não evolui, que o discurso já ficou batido e etc. Eu prefiro olhar para os onze troféus que ele ganhou. São essas conquistas que dizem quem ele de fato é.

foto: Léo Barrilari

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br

Categorias
Sem categoria

Final do Paulistão 2026 com projetos

Por: Marcel Capretz

A final do Campeonato Paulista 2026 expõe dois projetos diferentes, porém eficientes e consolidados: a eficácia e grandeza do Palmeiras e o organizado e inteligente Novorizontino. Cada um com uma realidade diferente, em função do tamanho, história e capacidade de arrecadação, porém bem sucedidos dentro do escopo a que se propõe. Corinthians e São Paulo, que fizeram as semifinais, poderiam ter chegado na grande decisão, mas aí o modelo profissional não ficaria tão evidente já que ambos os clubes sofrem um verdadeiro caos administrativo e financeiro.

A cultura nociva do futebol brasileiro apontou o 2025 do Palmeiras como ruim. Particularmente, não consigo considerar ruim chegar a final da Libertadores e ser vice-campeão Brasileiro. Voltemos aos dois outros grandes da capital paulista: é possível de maneira cristalina imaginar Corinthians e São Paulo na final da Libertadores em um futuro próximo? A última final corintiana foi em 2012 e a última tricolor foi em 2006…pelos lados palmeirense é possível imaginar outra final da América em um, dois, três anos…isso porque tem trabalho. Tem projeto. Tem consistência.

Analisando o Novorizontino a lógica é a mesma. O clube foi literalmente refundado e calcado desde o recomeço em gestão profissional, austeridade e pé no chão. Um passo de cada vez. É muito concreto imaginar a equipe de Novo Horizonte na Serie A do Brasileiro, já que tem batido na trave nos últimos anos. É um cenário completamente diferente, por exemplo, do último adversário de menor tamanho que o Palmeiras enfrentou em uma final de Estadual, em 2023, que foi o Água Santa. Alí foi um trabalho pontual que funcionou, mas que dava claros sinais que não se sustentaria. O mapa do futebol não para de mudar e mais importante do que um suposto peso da camisa, baseado em uma história que fica cada vez mais para trás, o que vale hoje é profissionalismo, conhecimento para tomar boas decisões, responsabilidade financeira e governança. Por mais finais como essa entre Palmeiras x Novorizontino para que o amadorismo fique cada vez mais escanteado.

Foto: Fabio Menotti/Palmeiras/by Canon

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br

Categorias
Sem categoria

Saúde Mental no Esporte: um jogo que começa dentro da cabeça do atleta

Por: Maurício Rech

Por muito tempo, acreditamos que o maior campo de batalha no futebol era o gramado. Hoje, a ciência mostra que a disputa mais silenciosa e decisiva acontece dentro da mente dos atletas — e é justamente aí que reside o futuro do alto rendimento.

Estudos recentes sobre saúde mental no esporte de elite apontam uma realidade preocupante: atletas de alto desempenho têm riscos iguais ou até maiores de desenvolver transtornos emocionais do que a população geral. Ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono e abuso de substâncias são alguns dos sintomas mais recorrentes. E a razão não é fraqueza. É sobrecarga!

A Neurociência ajuda a explicar esse fenômeno: o cérebro humano não foi projetado para viver sob estresse crônico e vigilância constante. Em contextos de pressão intensa — como jogos decisivos, exposição midiática ou cobranças internas e externas — o sistema nervoso ativa mecanismos de sobrevivência, como a liberação contínua de cortisol. O resultado? Queda de rendimento, falhas cognitivas, lesões por tensão muscular e, em muitos casos, colapsos emocionais invisíveis aos olhos do público.

O maior adversário de um atleta, muitas vezes, não é o outro time. É o não lidar com as próprias emoções.

Esse cenário desafia os gestores do futebol moderno a mudarem de paradigma. Já não basta cuidar apenas da força física, da tática ou da nutrição. É preciso entender que cuidar da saúde mental não é luxo — é estratégia de alto rendimento.

A Psicologia Positiva, aliada à Neurociência, oferece caminhos científicos e funcionais para promover esse cuidado. Modelos como o PERMA, por exemplo, mostram que o bem-estar de longo prazo depende de cinco elementos-chave: emoções agradáveis, engajamento, bons relacionamentos, sentido de propósito e conquista. E o mais interessante: tudo isso é treinável! O cérebro possui plasticidade — ou seja, pode se adaptar e crescer a partir de experiências estruturadas de regulação emocional, mindfulness, mental skills training e feedback positivo.

Imagine um clube onde atletas são preparados não apenas para o jogo especificamente, mas para lidar com frustração, crítica, falhas e transições de carreira de forma mais ampla. Onde líderes sabem escutar e oferecer suporte emocional. Onde o ambiente de treino é, ao mesmo tempo, exigente e acolhedor. Isso não é utopia — é o que clubes de elite no mundo inteiro já começaram a construir com base em ciência!

Além disso, a integração de ferramentas digitais e inteligência artificial no monitoramento emocional está ampliando a capacidade dos clubes de identificar sinais precoces de exaustão psicológica. Já existem tecnologias que avaliam humor, sono, estresse e engajamento em tempo real — mas elas só são úteis quando associadas a uma cultura de cuidado.

É chegada a hora de perguntar: “O que estamos fazendo para proteger e potencializar a mente dos atletas?” Porque treinar as dimensões mais biológicas do atleta sem levar em conta as dimensões neuronais, é como escalar um jogador machucado: ele pode até ter certo desempenho, mas certamente não renderá tudo o que pode dentro do seu potencial.

Investir em saúde mental não é tratar doenças. É cultivar longevidade, foco, equilíbrio e alta performance. É formar atletas mais humanos — e clubes mais inteligentes.

O futebol começa no cérebro. E quem aprender a treinar emoções com a mesma seriedade que treina finalizações, vai estar à frente. Não só no placar, mas naquilo que realmente importa: pessoas inteiras, capazes e prontas para vencer — dentro e fora de campo.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

Categorias
Sem categoria

A grandeza de um clube está nos seus valores

Imagem: Reprodução/Instagram @luisao4oficial

Como ex-capitão e alguém que dedicou tantos anos da sua vida ao Benfica, não posso esconder a minha preocupação diante da postura adotada pelo clube nas acusações de racismo feitas por Vini Jr. a um de nossos atletas. Para o meu espanto, a reação institucional foi de adesão imediata ao discurso do jogador acusado, sem que, aparentemente, houvesse qualquer interesse genuíno em apurar os acontecimentos após uma denúncia tão grave.


O uso da imagem de Eusébio, nossa maior lenda, como um escudo que supostamente blinda o clube de ser falível no combate ao racismo foi no mínimo doloroso, assim como as inúmeras tentativas de descredibilizar a vítima.


Doloroso porque o Benfica sempre foi maior do que qualquer circunstância, qualquer jogador, dirigente ou momento. Sempre se apresentou como uma instituição de valores, de dimensão humana e de responsabilidade histórica. Foi assim que eu aprendi e que vivi desde o momento em que cheguei à Luz, em 2003, quando o clube vivia uma de suas maiores crises desportivas.


Hoje, porém, vivemos um outro tipo de crise, muito pior, porque é moral, e que me gera questionamentos inevitáveis: do lado de quem estamos? E, mais importante ainda, do lado de quê estamos? O que defendemos nas nossas vidas? Queremos realmente enfrentar o problema de frente ou só desejamos convenientemente varrê-lo para debaixo do tapete?


Neste momento, é isso que está verdadeiramente em debate. Não se trata de rivalidades, de proteger A ou B. Trata-se de princípios. Racismo não é opinião. É uma chaga que precisa ser combatida com firmeza e responsabilidade, e talvez, como sociedade, o primeiro passo seja o mais difícil: olharmos no espelho e examinarmos nossas consciências.

É doloroso ver este gigante, por natureza e por história, sofrer nas mãos de quem aparentemente tenta apequená-lo moralmente. O Benfica que eu conheci e defendi dentro de campo sempre esteve do lado certo da história.
O tempo se encarregará de mostrar, com plena justiça, quem esteve de que lado das trincheiras. E eu espero, sinceramente, que estejamos à altura da grandeza que sempre nos definiu.

Parabéns ao Benfica que ontem completou 122 anos de uma das mais lindas histórias do desporto. Que a grandeza deste símbolo seja sempre medida não só por suas conquistas, mas também pelos valores que escolhe defender.

122 anos do Benfica

*Luisão é ex-atleta, com passagens Cruzeiro, Benfica (onde foi capitão, 2º atleta com mais partidas e com maior número de conquistas pelo clube, além de ter atuado defendendo a Seleção Brasileira. Também atuou como embaixador e gestor técnico do Benfica. Atualmente é comentarista esportivo da ESPN.

Categorias
Sem categoria

Tirando os racistas da toca

Imagem: Reprodução/Instagram @realmadrid

Gosto do jeito como Vinícius Jr. comemora seus gols. Provocativo ele cutuca os racistas em suas tocas. Cutucados, eles mostram as garras, destilam seus venenos e então podemos identificá-los com mais facilidade.

O futebol tem sido, historicamente, um reduto acolhedor de fascistas em suas mais diversas versões. No estádio repleto, entre boas e más pessoas, encontramos os misóginos, os machistas, os homofóbicos, os xenófobos, os racistas e outros. Ofendidos pelas manifestações de Vini Jr. após seus gols, os fascistas não o xingam de idiota, estúpido, grosseiro etc., mas de preto, de macaco. Para os racistas chamar alguém de preto é um xingamento.

Vinícius não é santo. Várias atitudes suas irritam. Recentemente xingou publicamente, durante um jogo, o técnico de sua equipe. Tremenda falta de educação. Mas ele é, também, virtuoso, craque de bola e corajoso. Consegue desfilar enorme habilidade para jogar futebol carregando o peso de torcidas inteiras praticando o mais refinado racismo contra ele. E vai fundo, vai ao juiz, que geralmente fica perdido sem saber exatamente o que fazer, vai ao seu clube, vai às autoridades maiores do futebol, move processos. Não dá sossego aos fascistas.

O último episódio de espetáculo racista foi dado durante a partida entre Benfica e Real Madrid, no Estádio da Luz em Lisboa. Depois de um tremendo golaço Vini Jr. comemorou provocando a torcida que já o provocava há algum tempo. Reagiram com o esperado racismo. Além disso, um dos jogadores do Benfica, Prestianni, tampou a boca com a camisa do clube e xingou o brasileiro de macaco. Vinícius parou o jogo, chamou o juiz, fez um escarcéu. O árbitro interrompeu a partida, mas cedeu, e ela prosseguiu. Nesse meio tempo o técnico do Benfica, Sr. José Mourinho, foi ao brasileiro e sugeriu que ele fosse bem-comportado, que comemorasse como Pelé, Eusébio e outros. Se ele se comportasse bem, não seria incomodado pelos racistas. Embora, é claro, os racistas continuassem a existir, livres para praticar seu racismo à vontade. Enganou-se o Sr. Mourinho. Os escravizados brasileiros eram castigados mesmo quando se comportavam exemplarmente. Sabe por que os outros jogadores negros de clubes europeus não são xingados pelos racistas Sr. Mourinho? Porque não cutucam os racistas para tirá-los de suas tocas. Mas os racistas continuam sendo racistas do mesmo modo, continuam desprezando quem não tem a pele branca. Racismo silencioso é pior que racismo explícito Sr. Mourinho. E sabe o que são aqueles que justificam atitudes racistas? Racistas.

O jogo entre Benfica e Real Madrid prosseguiu, mas não deveria ter prosseguido. Inflamada pelo acontecimento, boa parte da torcida portuguesa passou a xingar, a ser racista, todas as vezes que Vinícius Jr. pegava na bola. Certa vez José Mourinho disse que o futebol tem muitos poetas mas eles não ganham jogos. Sabe aquele gol fantástico do Vini Jr. que derrotou o Benfica? Pois ele valeu por um poema completo.

*João Batista Freire é educador, pesquisador e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), livre-docente em Pedagogia do Movimento e atua como consultor do Instituto Esporte Educação (IEE), além de ser consultor educacional da Universidade do Futebol. É referência na área de Educação Física escolar, jogo e pedagogia do esporte, com diversas e renomadas publicações sobre ludicidade, prática corporal e pedagogia do futebol.
Mais informações: https://cev.org.br/qq/joao-freire/

Categorias
Sem categoria

Análise de vídeo: tipologias e diferenças

Por: Bruno Loureiro Batista

Olá a todos, após conversarmos sobre as bases de interpretação de dados juntamente ao contexto de jogo, hoje falaremos sobre a análise vídeo, suas características, utilizo e tipologias.

Estimasse que cerca de 50%-70% da capacidade cerebral seja dedicada ao processamento visual (Felleman and Van Essen; 1991) estes estudos demonstram a importância da carga cognitiva através da imagem vídeo como grande parte do processo de aprendizagem.

Um dos modos mais potentes que ajudam no processo de aprendizagem juntamente com a imagem é o chamado “codificação dual” que indica a junção de imagens com a linguagem verbal simultânea, aumenta consideravelmente as probabilidades na retenção da informação (Paivio,1971). Estes estudos nos ajudam a entender quão eficaz e potente o instrumento vídeo pode ser, principalmente com as novas gerações Z e Alpha.

Por mais que possamos tentar “ler” o andamento de uma partida através dos relatórios numéricos, a análise das imagens será sempre primordial para entendimento da partida. As imagens têm o poder de correlacionar um feedback abstrato com a realidade dos fatos, entender as tomadas de decisão baseada no contexto, conectar aspectos estruturais de tática coletiva e individual, além de criar maior conexão socioafetiva através de diálogo entre jogadores e staff técnico.

Quando utilizamos imagens, número e exercícios para correções e estratégias tático-técnicos, é importante salientar que “Se sabemos o PORQUE fazemos algo, melhoramos COMO o fazemos” 

Quando se pensa em análise vídeo (tática-técnica) temos diversas variáveis como análise de mercado (scouting), análise de adversários, análise da própria equipe e training análises. Juntamente com os relatórios numéricos podemos ter um quadro completo de informações seja para a Prá-partida, Momento Partida ou Post-Partida. A ideia deste artigo será aprofundar as tipologias de análise de acordo com suas características, objetivos e diferenças. Como no mundo do futebol a palavra “Depende” é uma das mais utilizadas, é muito importante termos o conhecimento da terminologia para ajudar a no discernimento das ações

Cada tipologia tem suas vantagens e desvantagens de acordo com o objetivo do staff técnico. De uma forma geral podemos dividir em quatro macro princípios de análises

– Análise Estratégica

– Análise Situacional

– Análise Conceitual 

– Análise Live (Ao Vivo)

ANÁLISE ESTRATEGICA:   

A tipologia mais difundida e utilizada é a análise Estratégica, que tem como principais características a observação das equipes adversarias. Dentre as considerações para a realização da análise estratégica estão a analise  de 3 a 5 jogos normalmente para; observação do sistema de jogo adversário; partidas jogadas dentro e fora de casa; contra um sistema de jogo adversário similar; comportamento da equipe com resultado vigente (favor, contra ou empate); característica do treinador adversário; Características em base a cada terço de jogo (15’ em 15’); substituições em relação ao resultado vigente; Comportamentos em base al ciclo de jogo (Posse, não posse, transições ofensivas e defensivas e bolas paradas).

O próximo passo é definir junto ao staff técnico a elaboração de material vídeo específico e/ou relatório escrito que possam traçar o perfil da equipe adversaria. 

Posteriormente, se realizará a apresentação aos jogadores do material analisado para aplicação de estratégias ofensivas e defensivas em que os jogadores possam reconhecer com maior facilidade o padrão coletivo e individual do oponente e como afrontá-los.

Esta tipologia de análise favorece um conhecimento geral dos padrões táticos-técnicos dos adversários em diversos momentos da partida dando um informações necessárias para um plano de jogo. Basear-se somente na análise estratégica pode levar a dificuldades caso a equipe oposta mude os comportamentos esperados podendo cria incertezas coletiva individuais sobre o plano de jogo treinado na preparação da partida. Importante sempre ter o equilíbrio na utilização da estratégia baseada no adversário, mas sem perder a sua identidade de jogo. 

ANÁLISE CONCEITUAL:

 A análise conceitual tem como caraterística o estudo da própria equipe, ela requer antes de tudo uma linguagem e definição para cada tipo de ação como por exemplo descrito no glossário CBF. https://drive.google.com/file/d/16jxs8YBWcsx2vHpI08RvmvXmU5eStgA1/view?usp=drive_link

Isto é fundamental para se começar a criar as análises a partir da sua identidade de jogo. Através dela desse-se criar uma base de dados das ações durante o tempo. Por o futebol ser um jogo situacional (estocástico) com número quase infinito de combinações, a definição das ações requer estudo específico levando em consideração certos aspectos do jogo como:  Zona do campo, número de jogadores envolvidos, tempo total da ação, número de jogadores a frente ou atras da linha da bola, no caso de bola parada agregar o desenvolvimento da ação na sua zona de conclusão. 

Esta tipologia de análise pode ser divida em “periculosidade” e “volume de jogo” que serão definidas seguindo as especificidades acima com intuito de separar CONCEITUALMENTE cada situação ocorrida durante uma partida.

Um exemplo pratico seria analisar as saídas de bola (3-4 clip vídeo) que apesar de não serem nunca iguais, partem do mesmo princípio e partir deste ponto entender COMO foi realizada partindo da tomada de decisão, ocupação e distância de relação da equipe em relação ao adversário e em base a identidade de jogo e estratégia adotada.

A principal diferença característica da análise conceitual está no fato que seu estudo é realizado independente do êxito final da ação, ou seja, um erro técnico-tático individual ou coletivo não é o fator determinante para que elas sejam analisadas e comparadas, elas podem ter origem técnica (domínio, passe, condução), tática (tomada de decisão , ocupação coletiva – individual ou perfilamento corporal). De forma prática não é porque a saída de jogo teve eficácia significa que foi bem feita ou vice e versa.

ANÁLISE SITUACIONAL: 

 A análise situacional tem como característica uma visão detalhada de uma determinada ação baseada na eficácia da mesma. Quando uma equipe leva um gol, através da tipologia situacional, se vai analisar o erro ou acerto que originou o seu êxito. 

Como uma fotografia específica, com a análise situacional é possível individualizar um comportamento coletivo ou setorial em qualquer circunstância da partida. Esta mensagem chega aos jogadores de uma forma muito direta pois os participantes na ação analisada se sentem particularmente envolvidos. 

A diferença entre a análise situacional e conceitual está no fato que a ação analisada é de uma forma especifica e detalhada naquele momento específico. Independente das fases do jogo ou de qual tipologia de “periculosidade” de uma determinada situação, o analista poderá ir “direto ao ponto” para tentar explicar a eficácia ou não da mesma. 

Um exemplo pratico e significativo pode ser que se uma equipe leva três gols de maneiras completamente diferentes entre si, (escanteio, transição e bloco baixo) se analisa separadamente cada situação partindo do êxito que foi ter levado o gol. 

A análise situacional apesar de ser mais direta a específica, permite um arquivo reduzido ao longo do tempo pois as situações de jogo a serem analisadas podem ser infinitas devido as circunstâncias se não levamos em consideração os princípios da identidade de jogo da equipe. Geralmente esta tipologia de analise se não realizada com a devida atenção, acarreta horas de discussão pois a cada fotograma podemos analisar o clip vídeo de modo diverso onde a palavra “SE” ganha importância como exemplo: “se ele tivesse aqui seria assim…”, ou “se o adversário tivesse feito isso, ele teria feito diferente…”, criando uma infinidade de possibilidades que podem não serem mais verificadas da mesma forma. 

Estas duas tipologias de analise se referem ao Pré e Post Partida e uma vez definidas as diferentes modalidades de análise, o analista de desempenho junto ao treinador e o staff técnico podem decidir de qual maneira utilizá-las. As tipologias de análises estão estreitamente interligadas sendo que o utilizo de uma não exclua o da outra. 

ANÁLISE LIVE:

A análise de desempenho live de uma partida provavelmente seja a mais complexa e tem como sua característica principal a combinação de leitura tática e gestão emocional. Durante o jogo o analista tem que ter a capacidade se abstrair emocionalmente da partida independente da sua importância (uma final de campeonato por exemplo), para poder focar nos padrões, compreender, analisar e sugerir soluções.

Nesta tipologia de análise, todas as outras modalidades (estratégica, conceitual e situacional) se convergem. O analista por se posicionar em um ponto privilegiado do estadio, atua como “segundo par de olhos” do treinador, e deve através de suas observações não descrever as ações mas sim confirmar, refutar ou ajustar as sensações do staff técnico que estão no banco de suplentes. 

Para que analise seja eficaz e tenha êxito positivo é determinante ter ao menos três pontos bem definidos.

  • – Visão sistêmica: Capacidade de observar além do raio de ação da bola, focando nos comportamentos coletivos e setoriais em zona mais distantes chamada zona de intervenção segundo Paco Seiru-lo (Peralta 2020).
  • Identificaçāo de Padrões: Isolar erros ou pontos fortes nas sequências de movimentos que possam ser corrigidos pela equipe ou explorados através de ajustes táticos imediatos e/ou substituições.  
  • Sensibilidade Comunicativa: Filtrar o volume de informação para entregar ao treinador apenas o que é relevante e pratico para o andamento da partida.

Como disse o analista de desempenho do Manchester City Carles Pranchat “Muita informação é desinformação”.

Bruno Loureiro Batista é Treinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/

Categorias
Sem categoria

Estudo de caso – Transição base–profissional no Brasil a partir do Campeonato Brasileiro de Aspirantes

Por: Nicolau Trevisani & Diogo Oliveira

Realizei, em conjunto com Diogo Oliveira, analista de desempenho da equipe Sub-20 do Ceará, um estudo com 48 atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes entre 2017 e 2021, representando dois clubes grandes do futebol brasileiro. O objetivo foi compreender como esse contexto competitivo atua como uma etapa intermediária no processo de transição entre a base e o futebol profissional.

Os dados revelaram que apenas 17 desses 48 atletas conseguiram, posteriormente, atuar em competições nacionais ou internacionais de alto nível — não foram consideradas competições regionais —, o que representa um aproveitamento de aproximadamente 35,4%. O número reforça algo que já se observa empiricamente no futebol brasileiro: o Campeonato de Aspirantes pode funcionar como um ambiente real de transição, mas o salto competitivo é restrito, seletivo e altamente exigente.

Ao analisar quais jogadores conseguiram atravessar essa fronteira, um padrão se repetiu. A maior parte dos atletas que se consolidaram no futebol profissional atua do meio-campo para trás. Isso não é casual. Essas posições exigem leitura de jogo, posicionamento, tomada de decisão e consistência — capacidades que tendem a se transferir com mais estabilidade da base para o profissional. Além disso, são funções que contribuem diretamente para o equilíbrio coletivo da equipe, o que costuma gerar maior confiança por parte das comissões técnicas e facilitar uma inserção progressiva no elenco principal.

É importante, no entanto, fazer uma distinção relevante dentro desse processo. Os jogadores ofensivos que não passaram pelo Campeonato Brasileiro de Aspirantes, ou que tiveram uma passagem muito curta por essa competição, costumam ser atletas que, ainda no período de formação, apresentaram um nível de destaque muito acima da média do clube e da categoria. São jogadores que conseguiram se impor de forma clara pelo talento individual, pela capacidade criativa e pelo impacto recorrente no jogo. Esse diferencial precoce faz com que, em muitos casos, o processo se antecipe: o talento excepcional acelera a transição e encurta etapas.

Por outro lado, os atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes são, em sua maioria, jogadores que não anteciparam as etapas do processo de transição. Permaneceram mais tempo no percurso formativo e chegaram a esse ambiente intermediário antes do acesso ao futebol profissional. Dentro desse grupo, observa-se que jogadores do meio-campo para trás tendem a encontrar maior facilidade para acumular minutos no nível profissional, enquanto atletas ofensivos enfrentam maiores dificuldades, sobretudo pela exigência de impacto imediato e pela menor margem de erro atribuída a essas funções.

Do ponto de vista neurocognitivo, esse cenário faz bastante sentido. A criatividade no futebol — entendida não como improviso aleatório, mas como a capacidade de perceber soluções relevantes em contextos complexos — depende diretamente de segurança. Quando o cérebro percebe ameaça constante, como medo do erro, cobrança excessiva ou instabilidade, estruturas ligadas à sobrevivência, como a amígdala, tendem a dominar o processamento. O resultado é uma percepção mais estreita, decisões mais conservadoras e menor acesso a soluções criativas.

Jogadores de meio-campo e defesa, por exercerem funções mais previsíveis e menos dependentes de ações de alto risco criativo, costumam atuar em um ambiente técnico-tático neurobiologicamente mais favorável. Isso permite que a chamada criatividade funcional apareça com mais frequência: a pequena pausa antes do passe, o ajuste corporal, a leitura antecipada do jogo. Não se trata apenas de uma questão tática, mas de como o cérebro consegue operar sob menor carga de ameaça na maior parte do tempo.

No setor ofensivo, o cenário costuma ser o oposto. A exigência por impacto imediato — especialmente gols — somada à concorrência elevada e à baixa tolerância ao erro faz com que mesmo atletas tecnicamente talentosos passem a decidir sob estresse constante. A necessidade permanente de serem criativos em contextos de alta pressão compromete a percepção e empobrece a tomada de decisão. Isso ajuda a explicar por que menos jogadores ofensivos conseguem acumular minutos no futebol profissional de seus clubes de origem, precisando muitas vezes sair para encontrar contextos mais favoráveis ao seu melhor desempenho.

O Campeonato Brasileiro de Aspirantes, portanto, pode ter cumprido um papel importante como etapa intermediária de validação nos anos analisados. No entanto, o estudo reforça que o sucesso na transição para o alto nível não está ligado apenas ao talento bruto. Ele está fortemente associado à capacidade do jogador de ser taticamente confiável, consistente e funcional dentro da estrutura coletiva — características que dependem tanto da formação quanto do ambiente em que o atleta está inserido.

Para quem trabalha com formação, desempenho ou scouting, esse olhar é fundamental. Avaliar um atleta não é apenas identificar o que ele faz com a bola, mas compreender sob quais condições ele consegue perceber, decidir e sustentar boas escolhas ao longo do tempo. Criatividade não nasce do caos; ela emerge da segurança. E, na transição para o futebol profissional, oferecer contextos que favoreçam essa segurança pode ser o diferencial entre um talento que se perde e um jogador que consegue, de fato, se estabelecer no alto nível.

Até a próxima

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

Diogo Oliveira atua como profissional de Análise de Desempenho no futebol profissional, com foco na avaliação detalhada do rendimento individual e coletivo de atletas por meio da interpretação de dados técnicos, táticos, físicos e comportamentais.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/diogo-camelo-/?originalSubdomain=br