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Futebol amador e a Lei de Incentivo ao Esporte: aspectos jusdesportivos

Em Minas Gerais, nos meses de dezembro e janeiro, enquanto a bola não rola com Atlético, Cruzeiro e América, entra em campo a Copa Itatiaia que reúne equipes amadoras de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Na região, o futebol amador, celeiro de craques, atrai a atenção desportiva neste início de temporada há mais de 50 anos.

Sob o ponto de vista técnico, a atividade esportiva pode ser profissional ou não-profissional (amadora). Segundo a Lei Pelé o desporto profissional é caracterizado pela remuneração pactuada em contrato de trabalho entre o atleta e a entidade desportiva. Por outro lado, a atividade não-profissional é identificada pela liberdade de prática e pela inexistência de contrato de trabalho, sendo permitido o recebimento de incentivos materiais e de patrocínio.

Assim, somente poderão disputar a Copa Itatiaia equipes que não possuam atletas com vínculo empregatício. Doutro giro, são permitidos incentivos como ajudas de custo e prêmios.

Importante destacar que a Copa Itatiaia é realizada pela Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) "De Peito Aberto", por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte, em parceria com a Vivo e Rádio Itatiaia.

As Oscips recebem esse título do Ministério da Justiça de forma a viabilizar parcerias e convênios com o governo e órgãos públicos, ou seja, “De Peito Aberto” é uma Organização Não Governamental que, ao comprovar uma série de requisitos como transparência administrativa, recebeu o título de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público

Já a Lei de Incentivo ao Esporte (Lei 11.438/2006) permite que empresas e pessoas físicas invistam parte do valor que pagariam a título de Imposto de Renda em projetos esportivos aprovados pelo Ministério do Esporte, ou seja, para receber apoios financeiros, o projeto da Copa Itatiaia foi previamente aprovado por um órgão governamental.

Tais apontamentos mostram que a tradicionalíssima Copa Itatiaia, que se encontra em sua fase final, além de ser sucesso de público e qualidade técnica, ainda conta com o apoio de grandes empresas como a Vivo e a Rádio Itatiaia e com a aprovação de órgãos governamentais como o Ministério dos Esportes.

Portanto, a Copa Itatiaia é um grande exemplo de envolvimento social com atividade desportiva não-profissional viabilizada por meio da Lei de Incentivo ao Esporte.
 

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O atleta pensando no futuro

Sempre que iniciamos uma temporada no futebol, muitos atletas têm a oportunidade de viver um momento de reflexões e avaliações sobre o que se deseja para um futuro próximo. Uma boa estratégia para avançar na direção que se deseja são usar a abusar do poder das metas e vou compartilhar com vocês alguns pontos valiosos sobre esse assunto na coluna de hoje.

James Allen disse: “Você se tornará tão pequeno quanto seu desejo de controlar; tão grande quanto sua aspiração dominante”. Sabemos que uma das maiores descobertas da humanidade é que as pessoas possuem a possibilidade de tornarem-se aquilo em que pensam a maior parte do tempo. Se pesquisarmos o comportamento de muitos atletas profissionais de alto desempenho poderemos perceber que eles possuem em comum um pensamento no futuro, para onde desejam ir e o que podem fazer para aumentar as chances de chegar lá. Assim, podemos compreender quer orientação para o futuro é de grande importância na vida dos atletas que buscam seus melhores resultados na carreira esportiva.

Existem dois pontos citados por Brian Tracy, em seu livro Metas, que podem auxiliar um atleta que deseja estar orientado para o futuro.

•Recusar-se a comprometer seu sonho

Ao se praticar a idealização e orientação para o futuro o atleta geralmente não compromete seus grandes sonhos de carreira e consegue manter-se mais alinhado com o que deseja. Assim, passa a não aceitar metas muito pequenas e fáceis de atingir, ele sonha alto e passa a se projetar mentalmente para frente. Para imaginar como seria isso, sugere-se ao atleta responder às seguintes perguntas sobre a sua carreira daqui num período de cinco anos:

1.Como seria ela?
2.O que você estaria fazendo?
3.Onde estaria?
4.Em qual clube ou país estaria jogando?
5.Que nova habilidade teria desenvolvido?

•Fazer

A diferença básica entre as pessoas que realizam muito e as que realizam pouco é a “orientação para a ação”. Os grandes destaques esportivos que geralmente alcançam grandes resultados são intensamente voltados para a ação, estão constantemente em movimento e colocam muitas ideias valiosas em prática. Os atletas podem refletir sobre a capacitação de se orientar para a ação respondendo as perguntas abaixo, imaginando que alcançou o mais algo grau de desenvolvimento profissional possível para ele.

1.Quais ideias inovadoras em seu campo de atuação teriam concretizado daqui a cinco anos?
2.O que deveria ter feito diariamente para manter o foco na ação de tarefas para desenvolver competências e aptidões de que se precisa para ser um dos profissionais de mais alto desempenho na sua área esportiva?

Com essas reflexões o atleta estará mentalmente estimulado para conseguir responder a seguinte e importante pergunta: Como posso alcançar as aptidões, habilidades e competências necessárias para ser uma referência no alto de desempenho nos próximos anos e com isso conseguir materializar os resultados desejados?

Acho muito valiosa a reflexão acima sugerida neste momento do ano, porém cabe lembrar que ela também poderá ser feita em qualquer momento da carreira, desde que o atleta passe a ter intenso desejo de ter uma carreira acima da média no seu campo de atuação.

Até a próxima.
 

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O que é ser um bom gestor de esporte?

Vejo e leio, em inúmeras ocasiões, a classificação de comentaristas, de especialistas ou da opinião pública de um modo geral de que “Fulano, Presidente do Clube Tal, é um grande gestor. Um exemplo!!!”. Aí vem a indagação do título: o que é, de fato, ser um bom gestor de um clube de futebol?

Muitas das vezes a referida classificação é proveniente de uma imagem induzida por um grande feito, como a conquista de um título ou o acesso do clube a uma divisão superior de competições nacionais. Mas será que esta lógica está correta? É tão somente um resultado pontual que permite a classificação dos dirigentes como “um bom gestor”?

Ora, para uma classificação simples, o bom gestor, no meu modo de entender, é aquele que tem a capacidade de administrar uma organização a partir dos recursos gerados pela própria organização ao longo do exercício ou de um determinado período de tempo, sem gerar endividamento que afete a sustentabilidade da mesma para o futuro.

O que ocorre, em muitas situações, é que os clubes são alavancados momentaneamente com recursos do próprio dirigente ou de um núcleo de diretores mais abastados. Não vou nem entrar no mérito sobre os interesses deste tipo de aporte, que são infindáveis. O fato é que esses recursos não são provenientes, portanto, de uma gestão qualificada no clube mas sim em outro ramo de atividade que não o do futebol. Ou seja, um eventual salto em uma temporada pode não ser sustentável pois o dinheiro que foi injetado no clube de forma pontual não é fruto de um trabalho construído ao longo do tempo, mas sim de uma atividade empresarial alheia.

Na nossa história recente existem vários dirigentes com conquista de Campeonato Brasileiro, Copa Libertadores, Copa do Brasil, Campeonatos Estaduais ou acessos heroicos que, poucos anos mais tarde, mostraram a face perversa da falta de estruturação do clube e hoje são tidos como símbolos de “mal administradores”. Os “analistas do jogo de domingo” erraram feio!!!

Para não errarmos mais nestas análises, é fundamental avaliar as conquistas pontuais de forma mais holística. Perguntas simples como:

§ A que preço?

§ Com quais atletas?

§ Como gerou novos recursos?

§ Os recursos do clube pagam estes gastos?

§ Quais são os investimentos para o futuro?

§ Que tipo de parceria foi realizada com agentes / empresas / governos?

§ O que ficará após a conquista?

Se a mídia, a opinião pública e os especialistas sonham, como dizem a todos os ventos, ver um futebol brasileiro mais forte, é preciso melhorar em muito este tipo de análise. Não se é possível falar em futuro e nem pensar em planejamento, estratégias, projetos etc. quando reforça-se apenas ações pontuais. Os elogios e as críticas em relação a gestão e aos gestores do esporte que lideram os clubes de futebol precisam ser melhor estruturados para o bem do futebol!

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Rotatividade

O fim da farra que a Unimed promovia no Fluminense é o exemplo mais escancarado de algo que permeará toda a temporada 2015 do futebol brasileiro: a realidade financeira do esporte mais popular do país precisou mudar. Afundados em dívidas não equacionadas, os principais clubes nacionais tiveram de repensar suas despesas e reduzir o patamar que haviam estabelecido em anos anteriores. Isso criará uma natural fuga de talentos e estabelecerá um novo desafio para os profissionais de comunicação. Com mais rotatividade, o papel do ídolo terá de mudar.

No Fluminense, o aporte que a Unimed fornecia permitia que jogadores recebessem salários muito superiores às receitas do clube. Fred tinha vencimentos em torno de R$ 900 mil mensais, por exemplo, e Darío Conca chegava a R$ 750 mil a cada 30 dias.

Outros jogadores já foram submetidos à mudança de realidade. Diego Cavalieri chegou a pedir R$ 520 mil para renovar com o time carioca, não acertou e foi ao mercado. Para fechar com outra equipe, teve de reduzir drasticamente o patamar.

Em entrevista ao “UOL Esporte”, Gilmar Veloz, empresário do técnico Tite, disse que ele receberá menos do Corinthians em 2015 do que em 2013, ano em que deixou o time alvinegro. A justificativa para isso, segundo ele, é uma adaptação à nova realidade do mercado.

O Corinthians tem previsão de mais de R$ 40 milhões de déficit no próximo ano (para balanços, a temporada do clube vai até junho). O prejuízo é um fator comum a quase todas as projeções de contas de times nacionais (o São Paulo era uma exceção, mas fez uma suplementação de orçamento e já admite fechar a temporada com até R$ 60 milhões no vermelho).

Dívidas de grandes clubes brasileiros passam com folga a casa dos R$ 700 milhões. Em muitos casos, são quase oito vezes o faturamento anual. Além disso, estão mal equacionadas (têm perfil de curto prazo, com parcelas altas, e nem sempre são submetidas a baixas taxas de juros).

O futebol brasileiro ainda tem outras práticas nefastas, como empréstimos informais e receitas adiantadas. Clubes costumam recorrer a dirigentes ou conselheiros para pagar contas – o presidente Paulo Nobre já despejou mais de R$ 150 milhões no Palmeiras – ou pegar dinheiro referente a temporadas futuras. Isso compromete sobremaneira a capacidade de gestão no curto prazo.

Durante alguns anos, contudo, isso foi jogado a segundo plano. Empolgados com o incremento de receitas de mídia obtido após o término do Clube dos 13 e otimistas com o aumento dos patrocínios de camisa, clubes começaram a gastar mais. O faturamento do futebol nacional subiu muito, mas as despesas cresceram na mesma proporção.

A redução do investimento da Unimed no Fluminense jogou uma série de jogadores no mercado. Muitos deles começaram negociações buscando salários próximos do que o time carioca praticava. Todos ficaram frustrados.

Mais do que necessária, essa mudança de patamar do futebol brasileiro é benéfica. No entanto, é fundamental entender que haverá consequências. Os times locais, que durante alguns anos brigaram com equipes europeias ou com outros centros, terão de encarar nos próximos anos uma rotatividade maior.

Em dezembro, a revista “Forbes” publicou estudo baseado no mercado norte-americano. Por lá, 50% dos funcionários estão infelizes em seus empregos e 70% não estão sequer engajados com objetivos das empresas.

No futebol, comprometimento e entrega emocional são duas das principais cobranças feitas para os jogadores. Como um pequeno grupo ganha muito mais do que a média da população, a ótica distorcida é que eles “trabalham pouco” e “não podem reclamar”.

E por que as duas coisas têm relação com a redução do patamar salarial no futebol brasileiro? A lógica é que jogadores serão igualmente cobrados, mas receberão menos. Muitos deixarão de ter o nível de entrega exigido no futebol, e isso vai acelerar a debandada.

Nos últimos anos, o Brasil teve retornos como Ronaldo, Robinho, Luis Fabiano, Valdivia, Kaká, Juninho Pernambucano, Conca e Diego Tardelli, por exemplo. Com eles e novas estrelas, casos de Neymar, Barcos e D’Alessandro, a comunicação dos clubes teve em quem se apoiar.

Ainda é cedo para saber o tamanho da redução de investimento dos clubes brasileiros nos próximos anos. Até por isso, é impossível mensurar a debandada que o país vai vivenciar. No entanto, é fundamental que os clubes locais comecem a se preparar para um cenário de menos ídolo e mais rotatividade.

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Eusébio da Silva Ferreira: um desportista e um Homem

Nasceu em Lourenço Marques (hoje, Maputo) e faleceu, em Lisboa, no dia 5 de Janeiro de 2014, o Eusébio da Silva Ferreira, ainda com 71 anos de idade, visto que só atingiria os 72, no próximo dia 25 do mês em curso. O mundo inteiro conhecia-o por Eusébio tão-só, ou pelo Pantera Negra, e fazia dele um dos mais notáveis jogadores de futebol de todos os tempos. Para o Manuel José, antigo jogador do Benfica e atual treinador de indiscutível qualidade, na RTP1, no dia do passamento do Eusébio: “Ele foi o maior jogador da história do futebol português”.

António Simões, seu companheiro de equipa e seu amigo, corroborou a ideia do Manuel José, salientando também que ele era simultaneamente vedeta, ídolo e… operário, pois que havia jogos em que ele, exímio atacante, se sacrificava, batalhando, no primeiro terço do campo, como qualquer defesa. Di Stéfano, presidente honorário do Real Madrid, ao saber da morte do Eusébio, opinou, emocionado e convicto: “Foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos”. De referir que o Eusébio emitia igual juízo do Di Stéfano: “Para mim, o Di Stéfano foi o maior jogador de futebol de todos os tempos”.

E o Eusébio vira jogar o Garrincha, o Pelé, o Maradona, o Cruyff, o Messi, o Cristiano Ronaldo e outras figuras relevantes da prática do futebol. Coluna, telefonicamente, pois que vive no Maputo, disse à televisão portuguesa, de voz embargada pela emoção: “Estou triste! Muito triste!Ele era meu filho! Ele era meu filho!”. Seguiu-se um silêncio estático e sentiu-se que o Coluna, o grande capitão da equipa benfiquista do Eusébio – sentiu-se que o Coluna chorava.

Para o dr. António Oliveira, jogador-artista e “portista” dos quatro costados: “os restos mortais do Eusébio deveriam repousar no panteão nacional. João Malheiro, o seu biógrafo oficial e amigo dileto, não escondeu, transbordante de ventura: “O Eusébio não morreu. Ganhou a eternidade”.

“In illo tempore”, a ausência de desenvolvimento económico e a extrema desigualdade entre as classes sociais; o facto de a União Nacional, o partido único, ser um cadáver insepulto e a Igreja do Cardeal Cerejeira (seu “amigo do peito”), depois de a Pacem in terris e de o Concílio Vaticano II, ter desaparecido de cena; o nascimento e o renascimento dos movimentos de libertação, nas colónias africanas – enfim, o salazarismo tornara-se praticamente inócuo e Portugal vergava-se ao peso de um crescente descrédito internacional. Pois nessa lusitana década de sessenta, governada por uma gerontacracia política que nem o próprio marcelismo conseguiu susbstituir ou erradicar, o Benfica é campeão europeu, o Sporting conquista a Taça dos Vencedores das Taças e a seleção nacional é a terceira entre as melhores seleções do mundo. E o Eusébio, um executante de suma mestria, ficou “per omnia saecula saeculorum” ao lado dos melhores da história do futebol.

Eu, que nasci no dia 20 de Abril de 1933, vi jogar várias vezes o Senhor Eusébio da Silva Ferreira que muito fazia sofrer o adepto do Belenenses, que eu sou. Aliás, se me é aqui permitida uma nótula de caráter pessoal, o Peyroteo foi também um rematador inspirado e, por isso, quero trazê-lo ao proscénio, para acrescentar que muito me doíam os golos que ele então fez aos “azuis”. Peyroteo e Eusébio – tinham lugar seguro, na seleção nacional que o Cristiano Ronaldo encima. Mas, adiante! Todos somos tempo. Daí, que a morte seja uma das coisas mais naturais da vida. A nossa imortalidade provém do legado que deixamos às gerações vindouras.

O Fernando Peres (ex-Belenenses e ex-Sporting), meu querido amigo, assinalou, na Sport TV: “O Eusébio é imortal, principalmente pelo exemplo que nos deixou”. Fisicamente, todos morremos. É, pelo espírito, pela corporização daqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente, que nos imortalizamos. Relembro também Nelson Mandela…

Frequentemente exaltado pelos seus colegas e adversários – todos distinguem nele a sua humildade, ou seja, um homem que, embora um superdotado, timbrou em cumprir o seu dever, um mestre que foi permanentemente discípulo, um profissional sui generis que nunca desertou de fazer da prática desportiva um espaço onde se é melhor, não só pelos desempenhos físicos, mas também pelas qualidades verdadeiramente humanas.

O Desporto precisa de praticantes, como o Eusébio da, Silva Ferreira. O filósofo grego, Aristóteles, disse que “não oferecer ao humano mais do que o humano é atraiçoá-lo”. Queria ele dizer na sua que o programa do humanismo deve ser o da passagem do humano a mais humano. Viver, verdadeiramente viver, é ser capaz de transcender-me. Pelo trabalho, pela generosidade, pela honestidade de processos. Uma palavra de gratidão ao atual presidente do Sport Lisboa e Benfica, que sempre viu e distinguiu o Eusébio, como futebolista inigualável, mas também de um aliciante humanismo. Dante, numa das suas obras, confessou ser cidadão do mundo, na mesma medida em que os peixes são cidadãos do mar.

Cidadão do mundo, ou seja, de olímpica força de ânimo, de aliciante bondade, de inteligente tolerância. Eusébio da Silva Ferreira – desportista porque foi Homem, Homem porque foi desportista! Gaspar Ramos, inesquecível dirigente do futebol benfiquista, afirmou que o Eusébio divide em dois a História do Benfica: antes e depois de Eusébio.

No meu modesto entender, também a História do Futebol Português. Porque foi um atleta de inigualável valia? Sem dúvida! Mas também porque cumpriu exemplarmente todos os deveres inerentes à condição humana, tomada esta no seu sentido criador. Que descanse em paz!

E, para terminar, não escondo que estou ao lado dos que defendem que os restos mortais de Eusébio deveriam repousar no panteão nacional, em Lisboa. Pois não é verdade que o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo? Sobrepairante a todos os juízos, ergue-se a voz de Pelé: “Lamento a morte de meu irmão Eusébio”. De facto, Pelé e Eusébio eram da mesma família – a dos génios!
 

*Manuel Sérgio é antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

 

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Mundial de Clubes precisa ser repensado

Desde 2005, de forma ininterrupta, a Fifa organiza o Mundial de Clubes reunindo os campeões continentais. Com exceção dos anos de 2005, 2006 e 2012, quando, respectivamente, São Paulo, Internacional e Corinthians levantaram a taca, a competição tem sido um verdadeiro passeio para os clubes europeus. Além disso, a competição tem sido marcada por partidas com nível técnico baixissimo.

Por essas razões, a competição que poderia ser a verdadeira cereja no bolo das competições entre clubes acabou se tornando um torneio pouco atrativo e sem grande apelo na Europa.

O fato é que os clubes europeus participam da competição por obrigação e tem como sua principal disputa a Champions League. Vale dizer que qualquer torneio europeu de pré-temporada traz partidas mais atrativas que o Mundial de clubes.

Vêm-se algumas sugestões para trazer melhoras para a competição, como, por exemplo, realizá-la com 24 clubes a cada quatro anos, como na Copa do Mundo. Entretanto, com calendários apertados, deve-se buscar uma fórmula que não exija muitas datas.

Atualmente, a competição conta com sete clubes (os campeões da Uefa, Conmebol, Concacaf, OFC, AFC, CAF e do país sede) e os clubes da América do Sul e da Europa iniciam a competição na fase semifinal.

A competição se tornaria mais atrativa com o aumento do número de equipes de maior índice técnico.

Para tanto, seria razoável aumentar o número de participantes de sete para 12, com a inclusão do atual campeão, dos vice-campeões da Conmebol (Libertadores) e da Uefa (Champions) e dos campeões das Ligas Nacionais dos dois primeiros países no ranking da Fifa.

Essas equipes seriam divididas em quatro grupos de três clubes, com os campeões se enfrentando nas semifinais.

Os cabeça de chave seriam os campeões da Libertadores e da Champions, além do anfitrião e do último campeão.

Com essa fórmula, teríamos grandiosos confrontos entre grandes equipes européias e sul-americanas antes da final e poderíamos ter, por exemplo, uma semifinal com Milan e Barcelona e outra com Boca e Manchester, por exemplo.

Uma melhor atratividade da competição conflitaria com os interesses da Uefa que tem, atualmente, a competição interclubes mais valiosa do Mundo, a Champions League.

Doutro giro, seria incrível a Fifa organizar uma competição mundial de clubes que atraísse, de fato, a gana dos clubes europeus e, com ela, grandes redes de TV e grandes patrocinadores.

Além disso, da forma morna como a competição é disputada, dificilmente o Mundial de Clubes da FIFA consiga se manter por muitos anos, a não ser que clubes de outras ligas ascendentes como a MLS (EUA), Super League (Índia), CSL (China) ou Q-League (Catar) consigam transformar os altíssimos investimentos em grandes equipes e passem a enfrentar as equipes sul-americanas e, principalmente, as européias de igual para igual.

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Fortalecer a chegada ao profissional é fundamental

Após fecharmos o ano de 2014 falando sobre a importância das divisões de base para o futebol brasileiro e também sobre como a compreensão das fases de uma carreira torna-se relevante para o sucesso esportivo e financeiro dos clubes, quero começar 2015 complementando esta reflexão e tocando num ponto igualmente relevante quando falamos da base que é o preparo para a transição ao nível profissional de futebol.

Cabe então relembrarmos quais são essas transições, uma vez que isso pode nos servir como inspiração para novas análises e ideias que possam tratar cada vez melhor da principal transição de uma carreira esportiva, que é a transição para o nível profissional.

As transições de uma carreira esportiva podem ser compreendidas como um acontecimento ou processo que resulta em uma “mudança na percepção sobre si mesmo e o mundo e necessita uma mudança correspondente no comportamento e nos relacionamentos pessoais”.

Os períodos de transição que ocorrem na carreira geram a necessidade do atleta se adaptar às novas exigências do esporte. Essas transições são relativamente previsíveis e compõem uma evolução considerada progressiva dentro de cada modalidade.

Apenas relembrando, estas são as transições de uma carreira esportiva:

•Transição da fase de iniciação para desenvolvimento
•Transição da fase de desenvolvimento para excelência
•Transição da fase de excelência para aposentadoria
•Transição da fase de aposentadoria para outra atividade profissional

Para nossa reflexão, vou compartilhar a descrição de apenas uma das transições: a transição da fase de desenvolvimento para excelência. Esta transição exige uma total dedicação, especialização do treinamento e muitas vezes se caracteriza pela oportunidade de uma profissionalização do atleta. Nesta etapa a orientação do treinador e de todos os demais profissionais do esporte, tais como médicos psicólogos e diretores, é crucial para o atleta lidar positivamente com esta transição.

Particularmente acredito ser aqui, na devida orientação e apoio profissional estruturado, o principal ponto de atenção na ocasião da transição de um atleta de futebol amador para o nível profissional e por isso este se sugere como objeto de estudo e análise sobre adoção das melhores ações para facilitar ao máximo essa transição e adaptação.

Com isso, espera-se que os clubes possam aproveitar ao máximo os atletas que formem em suas divisões de base, podendo com isso enfim colher ótimos frutos tanto de desempenho esportivo quanto de desempenho financeiro de suas respectivas instituições.

Espero sinceramente que o tema seja ainda mais explorado 2015 e com isso possamos ter um ano de muitas novidades positivas para todos os clubes brasileiros.

Até a próxima!
 

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Qual é o caminho da mudança?

A alteração do projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal dos Clubes pela chamada “Bancada da Bola” nos últimos instantes da votação, apesar de toda a pressão midiática e do bom trabalho feito pelo Bom Senso FC, reforça um conceito que venho destacando nos meus últimos textos aqui na Universidade do Futebol: o processo de mudança não virá pela força do meio político, que é, sabidamente, amplamente viciado.

Partimos da premissa óbvia de que sequer o poder público tem respeitado as diretrizes da Lei de Responsabilidade para o uso do dinheiro público, mudando a regra pouco antes de ver que não irá poder cumpri-la, por que é que achamos que seria diferente com o futebol ou com o esporte?

O mais engraçado (para não dizer trágico) é que quem estuda um pouquinho de história verá que este cenário é apenas uma reprise de tantos outros “causos” envolvendo esporte, expectativas de mudanças radicais e o poder público no meio. E pior, historicamente, as relações com o esporte são evidenciadas e literalmente usadas em períodos eleitoreiros. Definitivamente, não funciona!

As entidades esportivas e o mercado precisam rever a forma de ser relacionar com o poder público urgentemente para que o processo possa ser tanto benéfico para a indústria do esporte quanto para a sociedade. Da forma que está, não tem sido positivo nem saudável para nenhuma das partes.

Com relação as contrapartidas, reforço: a solução passa por um processo de inversão de valores do que temos atualmente. Precisamos de um mecanismo de estímulos para quem faz direito, uma vez que a punição por vias legais não funciona. Só assim poderemos de fato beneficiar aqueles que agem de forma austera e dentro das prerrogativas de controle financeiro em detrimento daqueles que insistem em gastar mais do que arrecadam.

O caminho da mudança? Estimular boas práticas ao invés de punir. Tão simples quanto isso…

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A TV e as coisas que o futebol brasileiro precisa discutir

Quando era presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil sempre foi conhecido pelo estilo verborrágico. Esse traço de personalidade ficou ainda mais evidente depois de dezembro de 2014, quando ele deixou o cargo. No entanto, entre exageros e polêmicas, o ex-dirigente fez em entrevista ao canal fechado “Fox Sports” uma reflexão que o futebol brasileiro precisa urgentemente repetir.

“Se o Flamengo se acertar, acabou o futebol brasileiro”, disse Kalil. Depois, instigado por um comentarista sobre o Corinthians, o ex-mandatário do Atlético-MG adicionou o clube alvinegro: “Flamengo e Corinthians. A competitividade no país depende de eles cometerem erros. Nós recebemos R$ 40 milhões a menos do que o Flamengo da TV. Para brigar, precisamos fazer tudo certo e torcer para eles fazerem besteira. Eles precisam contratar um Pato por ano”.

Em 2014, o Flamengo foi o time brasileiro que mais faturou com venda de direitos de mídia (R$ 110,9 milhões). O Corinthians, segundo do ranking, amealhou R$ 102,5 milhões, quase R$ 30 milhões a mais do que o Palmeiras, que ficou em terceiro. O Atlético-MG, campeão da Copa do Brasil, recebeu R$ 71,3 milhões (todos esses valores desconsideram antecipação de verba).

A diferença de valores de mídia é reflexo do modelo de negociação. Clubes conversam individualmente com interessados, e esse formato privilegia os que têm maior potencial de resultados (audiência e audiência em mercados estratégicos). A questão é: isso é bom para o futebol?

A venda de direitos de mídia representa mais de um terço do faturamento dos principais clubes do futebol brasileiro. Para alguns, chega a 50% da receita total da temporada. Esse cenário tem sido exacerbado nos últimos anos, com a diminuição de empresas dispostas a patrocinar uniformes.

A TV já tem enorme importância no planejamento anual dos clubes. Com menos opções de patrocínio de uniforme, essa relevância tem ficado ainda maior. E se existe uma diferença tão grande em algo com esse status, o caminho do desequilíbrio parece irreversível no longo prazo.

É lógico que o Brasil tem fatores que ajudam a mudar um pouco o cenário – clubes que recebem menos e têm categorias de base mais prolíficas, por exemplo –, mas essas são as exceções. A tendência é que exista um domínio.

Desde 2010, segundo um relatório chamado “TV Sports Markets”, o valor global de direitos de mídia no esporte teve um incremento de 34% (chegou a US$ 36,8 bilhões). A liderança de faturamento é dos Estados Unidos, onde a receita de mídia subiu US$ 4,6 bilhões nos últimos quatro anos.

O mesmo estudo prevê novo incremento de 21% nas receitas de mídia até 2017. Uma das explicações é que há novas mídias ganhando importância, e que isso pode atrair mais faturamento.

Em médio e longo prazo, portanto, a comercialização de direitos de mídia no esporte só tende a ganhar relevância. E o futebol brasileiro, se mantiver o modelo atual de venda, pode criar um cenário em que a competitividade seja simplesmente impossível.

O futebol brasileiro precisa urgentemente discutir a venda de mídia. Não apenas pela questão da competitividade, mas por algo que o próprio “TV Sports Markets” salienta: há novas receitas possíveis, e os atuais contratos nacionais cedem à TV Globo os direitos de todas as mídias “existentes ou vindouras”.

Em poucos anos, por exemplo, a venda de conteúdo on demand pode virar uma receita significativa para o esporte. O futebol brasileiro não se preocupa com isso.

Atualmente, a competitividade é uma das principais bandeiras de venda do Campeonato Brasileiro. “É o único campeonato do mundo em que 12 times começam a temporada pensando em título”, é o que os dirigentes costumam dizer. Se mantiver o modelo, contudo, o país estará jogando contra o que tem de melhor.

O futebol brasileiro precisa discutir a venda de mídia. Precisa fazer isso de forma ampla, livre de clubismos e outros ismos. Precisa fazer isso com participação de diferentes segmentos, com dados estatísticos e noções de estratégia. Mas será que esse trabalho todo interessa a alguém?
 

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A relação numérica, a mudança de regras e a lógica do jogo – parte II

Caros leitores,

Continuando o tema proposto na última coluna, nesta semana discutiremos como a criação de regras e consequente mudança na Lógica do Jogo pode provocar alterações nos resultados apresentados pelas equipes em Jogos (leia-se treinos) com diferentes relações numéricas de inferioridade/superioridade.

Para relembrar, em síntese, o artigo apresentado na publicação anterior mostrou que:

• Equipes em inferioridade correm mais;
• O nível de habilidade dos jogadores influencia a ocupação racional do espaço de jogo da equipe com menos jogadores;
• O índice de estiramento das equipes em inferioridade numérica diminui;
• A equipe em superioridade se distancia da própria meta;
• A equipe em inferioridade se aproxima da própria meta;
• A modificação na distância das linhas de força defesa-ataque e ataque-defesa.

Vale lembrar que a equipe em inferioridade, apesar de apresentar maior aproveitamento de finalizações, venceu somente quando jogou com os 5 jogadores de linha. Nos outros dois jogos (com 4 e 3 jogadores), empatou ou perdeu.

Numa análise subjetiva, muitos dos comportamentos comprovados estatística e cientificamente são esperados quando uma equipe passa a defender em inferioridade. Porém, e se alterarmos as regras do jogo? E se inserirmos restrições de toques na bola, pressão de tempo para finalizar, ultrapassagem de setores para pontuar ao invés de mini-gols, ou então, quaisquer outras regras que direcionem os comportamentos de jogo pretendidos? Será que os mesmos padrões serão apresentados ou as modificações na Lógica do Jogo (logo, na forma de vencê-lo) induzirão a(s) equipe(s) para respostas individuais e coletivas diferentes das apresentadas acima?

Para alimentar a discussão serão criados, hipoteticamente, alguns cenários que, subjetivamente, podem ter repostas distintas das evidenciadas anteriormente. É válido mencionar que, bem como no artigo (Silva et al., 2014) a comprovação científica enriqueceria a discussão.

Imaginemos um Jogo de 10 + GR vs 8 + GR, disputado em um campo com dimensões de 66,5x68m com algumas divisões espaciais no campo de ataque. As regras para a equipe em superioridade seriam as seguintes:

• Limite de 2 toques na bola até a intermediária ofensiva;
• Após cada passe, obrigatória a mudança de setor ofensivo. Se não mudar recebe uma punição. 3 punições equivalem a 1 ponto ao adversário;
• Perder a posse no campo de ataque e não recuperá-la em até 5 segundos = 1 ponto ao adversário (pontuação só vale se o local em que se encontra a bola após 5 segundos for pelo menos na mesma linha da recuperação da posse).
• Invasão da linha de fundo ou linha da grande área = 1 ponto
• Gol = 5 pontos

Já as regras para a equipe em inferioridade seriam:

• Limite de 3 toques
• Finalização que o goleiro não realize uma defesa completa = 1 ponto
• Gol = 5 pontos
• Gol de fora da área = 15 pontos

Para tentar ganhar esta atividade, a equipe em superioridade vai precisar de muita mobilidade ofensiva (para não dar pontos ao adversário) e movimentações em profundidade (para pontuar com progressões). Além disso, terá também que buscar o gol e “tirar” o contra ataque oponente, pois o adversário conseguir manter a posse de bola em progressão vale ponto e gol de fora da área valerá muito ao adversário.

Em contrapartida, parece que a melhor forma da equipe em inferioridade jogar esse jogo seja abaixar o bloco, orientar-se mais para impedir progressão do que para recuperar a posse e aproveitar espaços de média/longa distância para arriscar finalizações e tentar “matar o jogo”.

Aparentemente, este jogo será mais intenso para a equipe em superioridade. A obrigação de acelerar o jogo com mobilidade e transições defensivas agressivas na tentativa de aproximar da vitória será toda dela.

Seguindo com mais um exemplo, imaginemos outro jogo, desta vez de 8 + GR vs 7 + GR em dimensões de 50x68m. A equipe em inferioridade ataca 2 mini-gols dispostos na faixa central da linha do meio-campo, além de corredores para passagens nas duas faixas laterais. Abaixo, as regras para a equipe em superioridade:

• Limite de 2 toques na bola. Livre somente para os extremos da estrutura 1-4-3-1
• Gol = 2 pontos
• Jogada de fundo com os extremos, seguida de gol = 5 pontos.

Para a equipe em inferioridade teriam as seguintes regras:

• Limite de 3 toques na bola
• Circular a bola de uma faixa a outra desde que haja progressão vertical do ponto inicial ao ponto final = 1 ponto
• Passagem com a bola dominada na faixa lateral = 1 ponto
• Gol caixote = 1 pontos
• Passagem na faixa lateral e gol caixote só podem ser feitos após pelo menos 3 trocas de passes.

A equipe em superioridade deve jogar em largura com os extremos na tentativa de fazer gols com maior número de pontos. Já a equipe com menor número, tem mais chance de ganhar se for eficiente na abertura do campo, circulação da posse e jogo apoiado. Com estas combinações de regras, apesar da inferioridade numérica, parece que não haverá redução no índice de estiramento da equipe em inferioridade (tanto para manter a linha esticada para marcar os extremos como para construir as ações ofensivas fazendo campo grande a atacar).

Conhecer as necessidades globais da equipe é imprescindível para o planejamento das sessões de treinamento. De acordo com os elementos que ela precisa evoluir, a comissão tem diversas possibilidades à disposição para construir as atividades. Alterar dimensões, número de jogadores e criar regras de constrangimento ou indução são algumas alternativas que facilitam o aumento da densidade de ações que se pretende para que a equipe adquira comportamentos de jogo.

Em todos os casos, pensar na Lógica do Jogo criado e estimular os praticantes a atingi-la será fundamental.

Obrigado pela sua companhia ao longo de 2014!

Parafraseando um amigo: que a felicidade ao longo de 2015 seja uma constante em nossas vidas!

Que venham novos desafios, novos treinos e novos jogos…

Nos vemos em 2015.

Grande abraço!