Categorias
Sem categoria

De "humanas" para "exatas"

Volto a escrever, semanalmente, após um “longo inverno”. Tempo, esse, que também envolveu a tensão pré-Copa do Mundo e todo o mês de duração do evento.

Alcançou, também, é verdade, algumas semanas de ressaca, uma vez que o bombardeio de emoções, provocado pela intensidade e qualidade dos jogos na competição, associadas à energia positiva das torcidas nos lotados estádios padrão FIFA, fez muita sombra ao combalido futebol brasileiro.

Que já estava nas cordas, lutando pra tentar ganhar por pontos, até que veio o nocaute perpetrado pela Alemanha e os 7 a 1 na semifinal fizeram o “país do futebol” beijar a lona.

Esse golpe contundente provocou, em todo o país, enorme reflexão.

Quais as razões que levaram, como gosta de afirmar a CBF, o “país pentacampeão mundial”, a essa derrocada histórica?

Neste fim de semana, li, em um artigo da cineasta Flávia Moraes, a frase que resume, a meu ver, toda a perplexidade da qual fomos acometidos:

“O futebol, senhores, migrou das ‘humanas’ para as ‘exatas’.”

A frase ficou ressonando em minha cabeça. Ainda mais porque, no texto, a cineasta relata que percebeu que, lá onde estava, nos EUA, o futebol, agora, chegou mesmo – e vai ficar pra jantar, tomar um bom vinho e comer a sobremesa.

Algumas ruas calmas durante os jogos da seleção nacional, bares lotados, gente concentrada no jogo, comemoração efusiva. E audiência na TV batendo recordes e superando outros esportes tradicionais do país. Pra não mencionar o presidente Obama deixando de lado umas “guerrinhas” para assistir aos jogos desde a Casa Branca.

Bem verdade que alguns dos indicadores do futebol nos EUA tem chamado a atenção há alguns anos como tendência de crescimento: numero de praticantes na base; média de público da MLS; audiência de TV; contratação de ícones globais; resultados em competições internacionais; investimentos em formação e capacitação de profissionais nas áreas técnicas e de gestão.

A grande diferença, entretanto, está nos fundamentos da governança corporativa da MLS e da US Soccer Association (a CBF deles), que fez com que o esporte se consolidasse no país, a partir de 1994 e que, sem dúvida, garantirá o êxito da expansão nos próximos anos.

Muito planejamento e capacidade de execução.

Que, aliás, também são ingredientes da receita do sucesso do futebol na Alemanha. País, este, que leva vantagem, em comparação aos EUA, por já ter larga tradição cultural de envolvimento com o esporte. Isso favorece a reação química.

Ou seja, não é por acaso que os dois países constroem cenários semelhantes para que o futebol alcance patamares de excelência.

Pensando bem, não havia melhor adversário para nos derrotar, na Copa do Mundo e em casa, do que a Alemanha.

Imaginem se fosse a Argentina ou outro país latino? Tudo seria alçado ao imponderável, ao sobrenatural, ao religioso e ao dramático. Tal qual uma mistura de tango ou milonga com o samba, diriam que foi um golpe do destino…

Uma obra do acaso. Não a falta de planejamento ou de gestão executiva.

Como sentencia, brilhantemente, Flávia Moraes:

“Resumindo, com os mercados do Primeiro Mundo ditando as regras e tendências, lamento arriscar que o Brasil terá alguma dificuldade para ganhar o Hexa. Pernas alegres, fenômenos marrentos e dungas viscerais já não funcionam como costumavam funcionar. O planejamento venceu o improviso, o trabalho de grupo goleou o ídolo e a vitória do preparo emocional sobre a passionalidade foi avassaladora. Aliás, tudo indica que a emoção à flor da pele que tanto nos representa e da qual tanto nos orgulhamos, só atrapalha na hora da decisão.”

Corremos um sério risco de, já na próxima Copa do Mundo, encontrar os EUA numa esquina e ser nocauteado. 

Categorias
Sem categoria

Responsabilidade

O futebol brasileiro percebeu que está em crise. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha em pleno Mineirão, pior revés da história da seleção canarinho, despejou mensagens que vão muito além dos 90 minutos ou da Copa de 2014. Tudo comunica, e isso inclui o que acontece em campo. Mas será que nós sabemos ouvir?

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reagiu à goleada sofrida na semifinal da Copa. Demitiu toda a comissão técnica, contratou Gilmar Rinaldi para ser coordenador de seleções e traçou o perfil do técnico ideal para conduzir o time: Dunga, que já havia comandado a equipe entre 2006 e 2010.

Apresentado na última terça-feira (22), Dunga disse em vários momentos que a missão atual é totalmente diferente do que ele precisou fazer na primeira passagem pela seleção. Naquela época, o time nacional vinha de uma campanha decepcionante na Copa de 2006 – eliminação para a França nas quartas de final –, trajetória que ficou muito marcada pelos problemas extracampo. Houve jogadores com problemas de peso e uma série de excessos na concentração em Weggis (Suíça) antes do embarque para a Alemanha.

A missão dada a Dunga em 2014 inclui renovação da seleção (ele havia montado o time com a média de idade mais alta da Copa em 2010), integração com a base e busca por um patamar internacional de desempenho. Mas que mensagem isso passa?

Dunga, como revelou a “ESPN”, teve envolvimento com a transferência do jogador Ederson na década passada. Gilmar Rinaldi e Taffarel, que será preparador de goleiros da nova seleção, também têm passado como empresários.

O histórico de Dunga ainda reserva outro ponto nevrálgico: o ex-volante estreou como treinador na seleção. O trabalho de 2006 a 2010, que incluiu títulos da Copa América (2007) e da Copa das Confederações (2009), foi o primeiro dele na função. A imagem que a torcida tem do técnico é a de um time eficiente e competitivo, mas pragmático e com um repertório pobre.

É isso, então: retrospecto complicado, que suscita dúvidas éticas, fracasso em Copa e responsabilidade por um time que está longe do que o torcedor almeja. Esse é o pacote que a CBF comprou quando optou por Dunga. Ele pode até ser a melhor opção, mas é certamente uma das mais complicadas no âmbito da comunicação – sobretudo porque não é uma figura simpática.

Por tudo isso, o Dunga dos primeiros dias de seleção tem sido eficiente em um aspecto que é relevante para a CBF: as atenções se voltaram a ele. O técnico é um escudo para a entidade, assim como era o antecessor Luiz Felipe Scolari. Outros profissionais teriam um poder menor de atrair holofotes.

A discussão sobre o perfil de Dunga criou discussões suficientes para desviar o foco da verdadeira necessidade do futebol brasileiro. A CBF não precisava estruturar uma nova comissão técnica ou contratar um novo técnico, mas pensar em uma nova ordem para o esporte nacional.

Entidade esportiva que mais recebe recursos privados no Brasil, a CBF subsidia a terceira e a quarta divisão do Campeonato Brasileiro. Além disso, oferece benesses aos participantes das duas primeiras esferas da competição nacional e cuida do cotidiano da seleção. E o que ela faz realmente pelo futebol?

E fazer pelo futebol não é necessariamente adotar um modelo como o da Alemanha. A CBF não precisa dominar a formação de atletas, que hoje é controlada totalmente pelos clubes, mas pode estabelecer parâmetros em uma série de áreas. Falta boa vontade e sobra jogo político.

Esse é o diapasão, por exemplo, das discussões sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. O governo federal quer aprovar o projeto até setembro deste ano, e talvez isso seja feito por meio de medida provisória. Um dos impeditivos, contudo, é a lista de contrapartidas para os clubes.

O projeto de lei que está no Congresso propõe o financiamento da dívida dos clubes, atualmente estimadas em R$ 4 bilhões, por um prazo de 25 anos. Questões como punições a clubes inadimplentes e que atrasam salários, contrapartida dos clubes e fatores de correção da dívida ainda seguem em debate.

Na sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff recebeu presentes de alguns dos principais clubes do futebol brasileiro. A conversa serviu para discutir essas contrapartidas, para desespero de alguns dirigentes. Maurício Assumpção, presidente do Botafogo, disse que a equipe não tem mais como conviver com receitas bloqueadas e ameaçou deixar o Campeonato Brasileiro se não receber ajuda.

A avaliação do próprio governo federal é que muitos clubes não conseguirão terminar o ano se o projeto de refinanciamento não for aprovado. O próprio Botafogo é o grande do Brasil que mais aumentou gastos com futebol em 2013.

E o que tudo isso tem a ver com a escolha de Dunga? Mais uma vez, a chance de mudar o futebol está aí. Podemos pensar apenas no problema pontual, que pode ser o técnico ou a incapacidade dos clubes para conviver com suas dívidas. Se o governo federal não for firme e não exigir contrapartidas contundentes, porém, vai ser apenas outro paliativo. O futebol brasileiro não pode mais viver de paliativos.

Passou da hora de o futebol brasileiro ter um projeto global, que inclua atletas, clubes, federações e CBF. Passou da hora de o esporte ser enxergado como o negócio bilionário que é. Há um potencial gigantesco, e o Brasil pode ser o maior mercado consumidor de futebol do planeta – nenhuma nação com população maior tem relação tão umbilical com a modalidade. Mas se os gestores não zelarem pelo produto e não souberem passar as mensagens corretas, os torcedores seguirão adormecidos. Nenhuma goleada vai mudar isso sozinha. 

Categorias
Sem categoria

O microciclo na Periodização de Jogo

O ambiente de jogo é condição fundamental para quem opta por uma metodologia de treinamento sistêmica. Sendo assim, a partir de diferentes partes que representem o todo (jogo), tenta-se estimular as quatro dimensões que compõem a modalidade aproximando-se do cenário competitivo.

Nesta semana, será apresentado um vídeo com alguns jogos realizados ao longo de um microciclo.

Antes de visualizá-lo, porém, aconselha-se a leitura prévia das cinco atividades filmadas para que seja feita uma reflexão quanto à Lógica do Jogo de cada uma elas, além dos comportamentos que se pretende treinar de acordo com as situações-problema que cada jogo irá apresentar.



Segue, abaixo, o vídeo:

Aguardo críticas, comentários e sugestões.

 

Categorias
Sem categoria

Caso André Santos e a demissão do atleta de futebol

Na semana que passou a imprensa noticiou a demissão do lateral esquerdo André Santos, pelo Flamengo, após ser agredido por torcedores.

O contrato de trabalho do atleta é um contrato especial regulado pela Lei Pelé devendo-se aplicar a CLT somente de forma subsidiária.

No que tange à sua duração, o contrato do atleta profissional tem o prazo determinado de três meses a cinco anos, podendo, entretanto, ser rescindido unilateralmente antes do seu término.

Outrossim, neste caso, o clube deverá arcar com a cláusula compensatória desportiva cujo o valor será livremente pactuado entre as partes, observando-se, como limite máximo, 400 (quatrocentas) vezes o valor do salário mensal no momento da rescisão e, como limite mínimo, o valor total de salários mensais a que teria direito o atleta até o término do referido contrato.

A intenção do legislador foi a de proteger o cumprimento do contrato e desestimular a demissão por partes das entidades de prática desportiva.

No caso em comento, havendo a demissão do André Santos, dependendo do que foi pactuado, o Flamengo arcaria com, pelo menos, todos os salários do atleta até o fim do contrato.

Esta situação ainda teria a peculiaridade da demissão se dar no momento em que o clube carioca está na lanterna do campeonato brasileiro e logo após o jogador ter sido agredido por torcedores rubro negros.

Ou seja, além de todo o prejuízo financeiro a demissão do atleta passaria a sensação de que o Flamengo estaria referendando a atitude violenta da torcida e poderia acabar por deflagrar outros movimentos semelhantes.

Acertadamente, de certo aconselhada pelo seu competentíssimo corpo de advogados, a diretoria do Flamengo manteve intacto o contrato do lateral André Santos. Ganhou o futebol e ganhou a paz nos estádios. 

Categorias
Sem categoria

Ressignificando os fatos no esporte

Após a retomada do campeonato brasileiro, já percebemos técnicos sobre enorme pressão e atletas com o rendimento abaixo de sua média normal de desempenho. Muitas vezes após um determinado período sem jogar e dependendo da colocação da equipe no campeonato o atleta retorna as atividades em uma partida oficial suportando um grande peso da necessidade de reverter um quadro de baixo desempenho que se materializou. Caso a equipe consiga resultados positivos, tudo melhora e o reflexo no ambiente de trabalho é imediato, mas e quando as vitórias não acontecem?

Nestas situações todas as cobranças sobre os maus resultados e eventuais falhas na atuação da equipe colocam ainda mais pressão e aprisionem mentalmente os atletas nos resultados ruins recentes. Então o que fazer?

Uma boa alternativa para apoiar na recuperação dos atletas é utilizar a Ressignificação com os atletas, eles passarão a compreender que toda e qualquer experiência boa ou ruim não tem qualquer significado. Ela apenas é o que é em si! Nós é que atribuímos a ela o significado conforme nossas crenças, valores, preocupações, gostos e desgostos.

Ressignificar é mudar a maneira pela qual a pessoa percebe um evento que aconteceu e assim, mudar o seu significado. Quando o significado sobre o fato muda, respostas e comportamento também mudarão! A ressignificação oferece flexibilidade de pensamento e permite que o atleta veja os eventos sob um ponto de vista diferente.

Mas é muito importante ressaltar que o coach que irá conduzir uma ressignificação tenha um ótimo Rapport com o atleta, pois caso contrário o atleta poderá acreditar que todo o processo é uma simples conversa da boca para fora e sua ressignificação do evento será falha. A essência da boa ressignificação é que funcione para o atleta, quando funciona a mudança fisiológica é visível, na medida que ele avalia a experiência de uma nova maneira.

Então, para as equipes que ainda não engrenaram na retomada do Brasileirão fica a dica para apoiar os atletas neste momento.

Até a próxima! 

Categorias
Sem categoria

Lições ao jogo brasileiro

Quem tem o hábito de ler minhas colunas no Universidade do Futebol talvez se sinta enfadado ao ler o atual texto. É que há tempos venho abordando alguns assuntos que têm muito a ver com o tema desta crônica e com o momento atual das necessidades do futebol brasileiro.

O ambiente esportivo mundial, e principalmente o brasileiro, está atônito diante da trágica derrota para os alemães. Não é tão simples entender já que somos – ou éramos? – o país do futebol. Apesar de achar que uma derrota não pode ser causa de grande comoção, aproveito a oportunidade para continuar falando de alguns problemas que afligem o futebol brasileiro há décadas. Eu diria que já estamos vivenciando com bastante maturidade a primeira fase das nossas necessidades: discutindo o fato; levantando hipóteses em cima das possibilidades de soluções. Enfim, estamos vivenciando a experiência de um amplo debate, aleatoriamente, mas não deixa de ser um grande debate.

Um expressivo erro que não podemos cometer é estacionarmos nesta fase. Contrataremos um novo treinador e acharemos que novos rumos serão tomados com a chegada de mais um “salvador da pátria”. Estaremos sim, perpetuando uma fórmula perniciosa e ineficaz de soluções para os resultados de campo.

Aí reside, talvez, o grande “x” da questão: há anos, temos procurado soluções para os resultados e não para a qualidade do nosso jogo. A segunda preocupação nos remeteria à interferência em várias áreas que necessitam de cuidados especiais. Isto geraria muito trabalho e algum tempo para que os resultados aparecessem. Historicamente tem se comprovado que nós brasileiros não queremos esperar por respostas tão demoradas!

No entanto, o que não tivemos pressa em destruir, são aproximadamente trinta anos de um processo depreciativo do nosso jogo, não podemos ter pressa para reconstruir. Será preciso, a partir de uma ampla reflexão, um plano de ação multidisciplinar nas mesmas dimensões. Tudo deverá passar por:

1 – Adequar a gestão esportiva brasileira – nos âmbitos das leis que regulamentam a prática do nosso esporte, nos clubes, nas Federações, na CBF e em outras instituições afins;

2 – Regulamentar a profissão de treinador – o que passa pelo primeiro item;

3 – Qualificar e regulamentar a capacitação dos nossos treinadores – idem;

4 – Ainda como consequência do primeiro item, mas quase que como um item distinto, viabilizar o calendário de competições nacionais;

5 – Dentre muitos outros pontos, que acabam sendo consequências, principalmente, do primeiro item: a gestão esportiva.

Se assim é, será preciso orientar essa discussão em foros competentes e que tragam soluções. Os órgãos de competência institucionalizada devem “dar a cara” à frente desses foros. Ao contrário do que costumamos assistir, será importante a participação de todos os segmentos envolvidos na engrenagem do futebol: dirigentes de clubes, treinadores, atletas, mídia especializada, dirigentes de federações, instituições governamentais, representantes da sociedade, dentre outros. Se assim não for, correremos o risco de ficarem pontos mal resolvidos, ou com conclusões distorcidas.

A CBF, como entidade mantenedora da ordem e competência futebolística brasileira, terá oportunidade ímpar nas mãos, qual seja, capitanear o grande projeto de reestruturação do futebol brasileiro.

Não precisamos criar uma colcha de retalhos pegando pedaços de verdades que servem a outros países e que vindo para a nossa realidade não resolverão nossos problemas. A simples exposição da realidade vivida pelos segmentos do futebol brasileiro será capaz de subsidiar uma importante “carta de intenções” para a resolução dos nossos problemas. A partir daí, a vontade política deverá arregaçar as mangas dos segmentos responsáveis e mãos a obra. Temos muitos profissionais de alto nível, em vários setores do esporte das multidões, que estão diluídos num ambiente mal gerido. É preciso saber explorar o potencial latente destas competências.

Não quero cometer os mesmos erros dos muito bem intencionados escritores e oradores que estão apontando vários problemas e meias soluções para cada um deles. A abordagem é complexa e, às vezes, para debelar uma causa deveremos ir em várias direções. Defendo uma abordagem ampla, onde de A a Z todos os setores do esporte dos nossos corações sejam contemplados na empreitada do desenvolvimento que almejamos.

O futebol brasileiro clama por uma atenção há vários anos. É preciso fazer algo. Volto a dizer, não vejo o 7×1 como causa dos problemas, mas pode ser um ponto a partir do qual virão várias soluções.

Se tivermos o cuidado de observar com olhos criteriosos, veremos que de várias formas já existem movimentos brasileiros se desenvolvendo em favor da modernização do jogo e da gestão do nosso futebol. São correntes independentes e ou isoladas que pregam ou desenvolvem linhas de trabalhos bastante competentes e modernas. Alguns treinadores, principalmente da base, categorias de base de alguns clubes, projetos de cursos e pós-graduações espalhados pelo país, setores do jornalismo especializado, dentre outros segmentos, já pensam, propagam ou promovem trabalhos interessantes para o futebol. É preciso que esta frente de atuação alcance o grande círculo do futebol brasileiro para provocar as mudanças necessárias. No universo da complexidade sistêmica o mundo se reinventará sistemicamente se houver mudança de hábitos seguida de alterações na mentalidade. Toda causa cria novos efeitos que vão se confrontando ao longo da linha do tempo. Da mesma forma que se deteriorou, o futebol brasileiro veio criando antídotos a estas mazelas, que infelizmente não tiveram forças para debelá-las a tempo e a hora. Com olhares criteriosos perceberemos as “soluções caseiras” necessárias e interessantes para os nossos problemas futebolísticos.

O site Universidade do Futebol há alguns anos é parte deste “mutirão” de intenções nacionais que aponta para a competente modernização do futebol brasileiro. Trata-se de um grande foro virtual de debate dos problemas e soluções nacionais para o futebol. Se os organismos competentes brasileiros tiverem a inteligência e perspicácia de tê-lo como orientador dos seus passos, não tenho dúvidas, caminharemos rapidamente na trilha das soluções de muitas das nossas dificuldades.

O futebol brasileiro vai se reerguer. É preciso, no entanto, que encaremos a evolução sem a arrogância tupiniquim que tem nos afligido nos últimos anos: somos os melhores, pois temos os melhores jogadores do
mundo. Ou, quando necessário os nossos jogadores resolverão. É importante aceitarmos que o melhor jogador do mundo, chancela mundial atribuída ao jogador brasileiro, não joga mais o melhor jogo do mundo. A nossa escola do jogo se perdeu, talvez como consequência dos efeitos de muitos anos da tal arrogância tupiniquim. Não somos mais o país do futebol, mas eu acredito que ainda somos o país do jogador de futebol. Já ouvi isto antes!

Até a próxima resenha. 

Categorias
Sem categoria

A estruturação das competições

Com o término da Copa, o foco dos debates e comentários agora volta a ser a estruturação do futebol brasileiro, que é bradada por muitos no sentido de posicionar o Brasil como a maior potência do esporte mundial. Um dos focos desta estruturação passa pelas competições, que se coloca como base para que o país possa ter um melhor produto vendável para um “público sedento por consumo”.

É inegável a necessidade de se debater e de transformar em algumas medidas o calendário do futebol brasileiro. Mas, seguindo o tom dos meus últimos textos, precisamos ter cautela. Vejo muitas propostas que parecem fazer muito sentido em termos esportivos, mas não levam em conta o aspecto financeiro em relação à autossustentabilidade das competições no médio-longo prazo.

Quer-se uma transformação do dia para a noite, subsidiada pelo governo ou a CBF – aliás, é comum da nossa cultura esperar que alguém, alheio ou não ao processo, pague a conta, sem determinar efetivamente quanto, como e por que deve pagar!!! E este é o ponto: não se pode querer uma ruptura total já em 2015 com recursos alheios.

Para o crescimento das competições e a ampliação da participação de mais clubes com um calendário mais consistente e duradouro do que os atuais 3-4 meses, é preciso “fazer crescer o bolo financeiro” aos poucos, em um plano que compreenda a realidade da maioria dos clubes pequenos e que leve em conta um desenvolvimento orgânico. Ilustro esta breve retórica com dois exemplos: um do momento atual e outro com a narrativa de um fato histórico.

Primeiro, a saber, conforme divulgado no site www.srgoool.com.br, na primeira rodada da Série D do Campeonato Brasileiro deste ano, que ocorreu no último final de semana, das 16 equipes que jogaram em casa, nada menos do que 11 “pagaram para jogar”. Isso mesmo, 11 equipes, fazendo um cruzamento da renda líquida sobre o número de “pagantes”, tiveram que pagar para cada torcedor ir ver o jogo. A Cabofriense-RJ, por exemplo, “pagou” o equivalente a R$ 53,22 para cada um dos seus 134 torcedores irem ao estádio ver o jogo diante do Guarani de Palhoça-SC. Essa premissa, obviamente, não se restringirá à primeira rodada. A tendência é que se repita ao longo dos próximos 5 meses de competição. Ou seja, não temos mercado consumidor, por enquanto, para sustentar mais do que as 60 equipes das Séries A, B e C (sabendo que algumas destas equipes igualmente são deficitárias).

O segundo caso é um que remonta o ano de 1995, quando eu acompanhava futebol apenas como torcedor. Naquele ano, assisti todos os jogos em casa do Joinville-SC na Série C do Campeonato Brasileiro. O JEC foi derrotado nas quartas-de-final pelo XV de Piracicaba (em jogos de ida e volta), equipe que lançou naquela época o famoso “Carrossel Caipira” com o técnico Oswaldo Alvarez e se sagraria campeão Brasileiro da Série C na final contra o Volta Redonda, 4 jogos mais tarde.

Pois bem, o regulamento da Série C de 1995, que contou com 107 equipes (sendo que praticante 80% das equipes jogou menos de 8 jogos e o campeão disputou 16 partidas) previa o acesso de 2 equipes para a Série B de 1996. Acontece que, ao se definir o regulamento e as equipes para disputarem a Série B de 1996, houve várias desistências, abrindo vaga para o 3º, 4º, 5º e 6º colocados da Série C, que acabou por incluir o Joinville-SC na Série B de 1996 (além de ABC, Atlético Goianiense e Gama). Isso mesmo: 4 equipes simplesmente desistiram de participar da Série B por razões econômicas!!! Série B!!!

O que isso quer dizer? Passados aproximadamente 10 anos desde 1996, a Série B se tornou um produto bom em meados da década de 2000. Hoje, quase 20 anos depois, é um produto consistente para equipes de médio-grande porte. A Série C, desde que foi implantado um novo formato de disputa em 2009 (com 20 clubes), vem ganhando espaço na mídia e está em um bom processo de crescimento. Esse processo de desenvolvimento até a sua efetiva consolidação tende a levar mais 5 ou 10 anos.

É isso que precisamos compreender ao propor inovações no calendário e no formato das competições: que nem todos os clubes terão condições de jogar em um sistema profissional (a constatação é dura, mas é real) e o desenvolvimento levará, naturalmente, bons anos para se consolidar – será preciso analisar todas as etapas para não haver atropelos e tampouco rupturas que desviem o foco.

E é lógico: com boa gestão, somado à qualidade do projeto, a tendência é que a curva de crescimento se acelere. O que não existe é o alcance de um “patamar ótimo” do dia para a noite. Não existe mágica… nem no futebol, nem em nenhum outro tipo de negócio no mundo!!! 

Categorias
Sem categoria

Dunga paz e amor

Ele não foi tão mal na Seleção como amam detestá-lo os muitos críticos. Também não foi tão bem como adoram defendê-lo seus poucos defensores tão empedernidos quanto ele em campo e no banco.

Ele é mais do mesmo. Como é o vice que será presidente Marco Polo. Como é o presidente que será vice Marin. Dois que apreciam o estilo e conservador de Dunga. Pátria de chuteiras e de coturnos. Guarda pretoriana canarinho. Escola militar de organização pétrea. Disciplina além da conta. Liberdade vigiada. Vigilância privada. Segurança máxima. Fervor a ferro e fogo.

Não gosto do estilo. Mas respeito o homem e o profissional. Não seria o meu treinador. Prefiro Tite. A bola desta vez. Muito mais que o Dunga que já virou em campo um jogo mais pesado da Copa de 1990 para a de 1994. Mas que não me parece o treinador pronto para o que precisamos. Ele pode resgatar algo que o grupo de Felipão havia resgatado até ser rasgado no Minerazen. Ele sabe botar mais Brasil na camisa.

Mas o mais importante é colocar mais futebol brasileiro nas chuteiras. Não acho que é o cara certo.

Não me parece o treinador ideal. E mesmo o meu “ideal” ainda está longe do necessário.

Até por falta de muitas coisas que o treinador da Seleção não pode resolver. E nem sabe como fazer.

Ao menos começou bem o papo de Dunga no comando da Seleção. Mandou bem na humildade do primeiro pronunciamento ao dizer que ele errou no trato com a imprensa, que ele focou muito no desempenho em campo e que, agora, será mais, digamos, aberto a diálogo. Ou não tão fechado num casulo, num feudo.

Foi bem. E espero que a imprensa também dê um crédito a ele a esse respeito. Até por que a imprensa não ganha jogo. Mas pode perdê-lo. Um ambiente ruim como foi criado de lado a lado não ajuda o Brasil. Dar-se bem com a imprensa não importa tanto, como bem soube a Itália de 1982, campeã do mundo em greve com toda a stampa italiana.

Dunga pareceu sereno, tranquilo, na escala Dunga de humor, que vai de Dilma a doutor Enéas.

Não se aprofundou em nada, também por que não foram levantadas bolas nessa direção a ele. Mas deixou claro que não fará milagres. Não venderá sonhos. Irá aprimorar o coletivo. Disse que aprendeu algumas coisas com a Copa (sobretudo com a Alemanha). Falou muito da “inteligência calcis” (apertando o SAP do português para o italiano), ops, inteligência futebolística. Algo que ele conversou muito com o amigo “Enrico” (Arrigo) Sacchi.

Elogiou bastante o trabalho sem bola dos alemães, a marcação mais recuada atrás da pelota de muitas equipes na Copa, o comprometimento do artilheiro Muller na marcação, e o comprometimento do goleador Klose em prol do coletivo, não para quebrar o recorde individual de Copas.

Embora tenha dito que a “única” equipe que atuou ofensivamente com três na frente foi o Chile – que não foi, era um 3-4-1-2, no mais das vezes. A Alemanha que tanto ele gostou jogou, sim, no 4-3-3, embora com o meia Ozil como o homem pela esquerda e, por vezes, Muller pela direita (quando Klose assumiu o comando de ataque).

Dunga enfatizou a questão coletiva – ótimo -, não gosta tanto de malabarismos com a bola – faz parte -, mas, de fato, não falou – e a ele não foi perguntado – como fará com o time.

De bom, mesmo, é que não vai adotar o estilo terra arrasada. Vai aproveitar o que houve de bom em 2014. E vai trabalhar também a curto e médio prazo. Não adianta escalar agora o time para o pontapé inicial na Rússia, em 2018. É tempo de fazer uma transição segura e gradual.

Dunga também cutucou a questão do equilíbrio emocional da Seleção. Veladamente, mas tocou no assunto que pode e deve ser melhor tratado. Mas não com defesas de teses definitivas.

Enfim, mais do mesmo de Dunga e de entrevistas coletivas.

Ao trabalho, meus velhos.

 

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

Categorias
Sem categoria

Carta Aberta à presidente Dilma

Começo esta carta externando meu respeito a Vossa Excelência, presidenta de meu país, e à sua história de vida. Diferentemente do que possa aparentar estas linhas, estarei votando na senhora nas eleições de outubro próximo, repetindo gesto realizado em 2010.

Não! Não estou satisfeito com todas as decisões tomadas pelo seu governo, mas tenho clareza de ser o PT – partido ao qual sou filiado desde 1988 -, no atual contexto político brasileiro, aquele capaz de continuar desenvolvendo esforços para minimizar as desigualdades sociais que nos assolam desde sempre…

Poderia aqui continuar seguindo nessa direção, detalhando pari passu os inúmeros equívocos cometidos pelo governo presidido pela senhora, mas não é isso que me proponho fazer aqui e sim me deter em apenas uma das políticas sociais que, a meu juízo, deve ser merecedora de sua especial atenção em seu próximo mandato.

Refiro-me à Política Esportiva.

Faço isso no entendimento de não podermos deixar passar a oportunidade da recente Copa do Mundo de Futebol – e o insucesso de nosso selecionado -, de enfrentarmos de frente as mazelas que afetam essa política setorial não de hoje e nem tampouco a partir de 2003 com a chegada de Lula à presidência do país. Quem as atribui ao governo petista ou age de má fé ou é ignorante da história da política esportiva brasileira.

Também não me limitarei ao futebol, mesmo sabendo ser ele para nós muito mais do que uma questão de vida ou morte… Fato é presidenta, que nesses últimos 12 anos se perdeu rica oportunidade de desenvolvimento de política esportiva que fizesse jus ao nome.Até que o início em 2003 foi alvissareiro…

O Plano Pluri Anual de Governo (2004/07) explicitava equilíbrio orçamentário entre os Programas, reservando lugar de relevo aos projetos sociais esportivos. O documento aprovado pelo Conselho Nacional de Esporte em 2005, autodenominado Política Nacional de Esporte, trazia em seu bojo avanços significativos no entendimento do papel do poder público em relação ao Esporte. As duas primeiras Conferências Nacionais de Esporte, respectivamente intituladas Esporte, Lazer e Desenvolvimento Humano (2004) e Construindo o Sistema Nacional de Esporte e Lazer (2006), davam mostras que o verdadeiramente “novo” estava sendo gestado…

Mas tudo não passou de ilusão… O documento da Política Nacional de Esporte, em sua essência, não chegou a sair do papel. Até hoje frequenta a página virtual do Ministério do Esporte, como que avivando nossa lembrança do que ela poderia ter sido…

O Conselho Nacional de Esporte expressou sua subserviência ao se submeter, docilmente, ao lugar de tabelião das decisões ministeriais, carimbando-as quando solicitado.

As Conferências derramaram um balde de água fria na esperança daqueles que acreditaram que de suas deliberações sairiam o norte da política esportiva. Não só as viram ignoradas como também presenciaram sua terceira versão (2010) ir no sentido contrário a tudo o que até então havia sido motivo de construção coletiva, explicitando o total comprometimento do governo com os anseios do setor conservador do campo esportivo… Plano Decenal do Esporte e Lazer: 10 pontos em 10 anos para projetar o Brasil entre os 10 mais, seu tema central, quase único, refletiu acima de tudo a infeliz coincidência de interesses dos defensores da visão liberal de “cidade empresarial” – para os quais os megaeventos (não só) esportivos eram e são um prato cheio – e os interesses da carcomida “elite esportiva”…

Diante desses fatos, Senhora Presidenta, sugiro a extinção do Ministério do Esporte.

Saiba de antemão que não vai ser fácil fazê-lo, porque contra essa medida se juntarão as forças conservadoras (não só) do campo esportivo brasileiro, nele – assim como também em outras esferas de nossa vida pública – hegemônicas. Sim! Também no interior de nosso Partido encontrará resistência…

Não! Não defendo tal medida por conta do acontecido na recente Copa Fifa aqui realizada. Apenas peço, em contrapartida, que não se deixe enganar pela forma festiva e entusiasmada pela qual ela foi recebida e tratada pelos que aqui estiveram, pois esse crédito precisa ser atribuído a quem de direito, nosso povo.

Defendo sua extinção pelo conjunto da obra…

Vou mais além… Defendo a extinção do Ministério do Esporte por vê-lo como desnecessário em um cenário político que vê no Esporte, não a prática social reconhecida como direito social na letra – infelizmente ignorada – de nossa Carta Constitucional, mas sim como produto/mercadoria altamente rentável, com forte impacto em nosso PIB em razão da força de sua cadeia produtiva.

E não só isso, mas também pela ciência de que seu forte apelo popular é permissionário de ações governamentais centradas no conceito de cidades empresariais, acima já mencionado, articulador dos megaeventos como a Copa do Mundo que acabamos de presenciar e com o qual, com as olimpíadas de verão em futuro próximo, continuaremos a nos deparar, abrindo brechas para fazer de nosso aparato legal de ordenamento da vida nas cidades, tal qual o Estatuto da Cidade se caracteriza, exceção à regra.

Nesse sentido, proponho que a senhora desloque tal política para o, digamos… Ministério dos “Grandes Negócios”. Tenho esperança que assim procedendo, as entidades de administração e prática esportivas deixarão, pelo menos, de ser aquilo em certo momento chamado de “feudos esportivos” voltados à “pequena” política. Já a esperança de que o interesse público prevaleça sobre o privado, dentro da lógica enunciada, não a tenho…

Em relação aos Programas Orçamentários de natureza social, materializados nos comumentemente chamados projetos sociais esportivos, sugiro que os coloque sob a responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Sim, porque penso que se faz necessário acrescentar à cesta do Programa Bolsa Família produtos que venha alimentar a formação humana dos brasileiros, ampliando e qualificando o conceito de inclusão social hoje presente. Afinal os Titãs já cantavam “que a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”…

Nesse particular, estava propenso a sugerir que os recursos do Ministério do Esporte alocados nos seus projetos sociais esportivos fossem canalizados para o de sua “nova casa”, mas ao me lembrar do volume orçamentário a eles destinados ao longo desses anos, entendi por bem me calar por tão irrisórios, insignificantes e desrespeitosos que foram e são.

Resta falar do chamado Esporte Educacional, aquele presente nas instituições de educação brasileiras. Desculpe-me a obviedade do que aqui defendo, mas entendo que deva caber a elas, institui&ccedil
;ões de educação básica e superior, estabelecerem políticas definidoras de como o Esporte – seja na ótica do conhecimento, na de rendimento/performance ou na perspectiva de fruição no tempo livre de trabalho -, deva compartilhar de seus objetivos institucionais. Com esse proceder, minimizaríamos o risco de ver a presença do Esporte nessas instituições submetida aos objetivos da instituição esportiva e não aos delas, configurativo do quadro exaustivamente denunciado do Esporte Na Escola e não do almejado Esporte Da Escola.

Ao me despedir, sei que a Senhora ficaria satisfeita se os problemas que terá que continuar a enfrentar se limitassem ao terreno aqui enunciado. Sei da envergadura dos desafios que enfrenta e continuará enfrentando na condição de presidenta do Brasil. Peço apenas que não descure destes aqui relatado.

Respeitosamente,

Lino Castellani Filho

Brasileiro

Categorias
Sem categoria

Curso intensivo de comunicação

O Brasil pagou caro por isso, mas recebeu neste ano a maior aula de comunicação da história do esporte nacional. Até o epílogo, período entre quarta-feira (16) e o último domingo (20), a Copa do Mundo descarregou no país uma série de lições que merecem ser deslindadas e que podem alicerçar mudanças paradigmáticas em âmbito nacional. Desde que sejam levadas a sério, é claro.

A primeira lição vem do próprio evento. A Copa do Mundo é feita para as marcas que a financiam. É uma festa popular, mas o foco essencial não é esse. Transmissões, estádios, entornos e eventos são projetados para satisfazer as marcas que se associam à competição. Conceitos como zona de restrição, área para ações de ativação, identidade visual, camarotes e setores corporativos estão no cerne do que a competição se transformou nos últimos 40 anos.

Quer entender o tamanho disso? Compare com as duas rodadas do Campeonato Brasileiro que foram realizadas depois da Copa do Mundo. Estádios que receberam partidas das duas competições serviram como exemplos do quanto é possível fazer muito com ações que parecem simples.

De quarta a domingo, ouvi ou li de pelo menos seis pessoas que “os estádios eram muito mais bonitos na Copa”, quando tinham identidade visual padronizada e envelopamento simples desenvolvido pela Fifa. Essa é apenas a parte mais perceptível, mas já escancara a diferença de tratamento das marcas.

Na Copa, patrocinadores tinham uma série de direitos exclusivos nos ambientes de jogos. O pacote de apoio ao evento não é baseado apenas em placas e inserções nas transmissões dos jogos, mas na experiência de quem vai ao estádio. E no Campeonato Brasileiro, quais são as marcas parceiras?

Outra lição de comunicação dada pela Copa é a isonomia. O tal “padrão Fifa” dos estádios tem uma razão de ser que influencia o jogo: gramados e ambientes similares criam um conceito de ambiente do evento. Basta olhar para saber que é um jogo de Mundial. Além disso, parâmetros como dimensões do campo e corte da grama servem para balizar um pouco o nível do jogo.

Aqui cabem parênteses: no início da década de 1990, a Premier League estabeleceu dimensões específicas para os gramados. A medida teve como principal foco o nível do jogo – a ideia foi criar campos mais estreitos e acelerar o toque de bola. O impacto disso no ritmo das partidas foi tão imediato quanto evidente.

Ainda sobre a Copa, o público que visitou o Brasil também deu lições de comunicação. A mais gritante é que consumidores apaixonados não precisam de uma experiência perfeita, mas de uma experiência marcante. Dê ao público algo inesquecível.

Essa noção foi clara em qualquer conversa com turistas ou profissionais de serviços. O Brasil não estava preparado para a Copa e não fez um evento tecnicamente perfeito, mas compensou com duas coisas: recepção calorosa e histórias marcantes. As festas, os ambientes, a troca de experiências… Todo mundo que participou terá algo para lembrar durante muito tempo.

Outra história ilustrativa: conheci em Cuiabá (MT) um turista japonês que veio ao Brasil apenas para ver a primeira fase da Copa. Perguntei se havia passado por alguma situação embaraçosa ou constrangedora no país, e ele relatou o seguinte: “Não tinha onde dormir em Recife e resolvi passar a noite no aeroporto. Quando acordei, alguém tinha levado minha mala com tudo que eu tinha. Fiquei sem documentos, ingressos, dinheiro ou roupas. Só consegui sobreviver no país porque um funcionário do aeroporto falava um pouco de japonês e me deu comida e R$ 20. Nos dias seguintes, muita gente me ajudou”. Em seguida, perguntei quantas Copas ele já havia presenciado e qual tinha sido a melhor. “Estive nos últimos quatro Mundiais, e este é o melhor. Eu amo este lugar”, respondeu o japonês sem roupas, documentos ou dinheiro.

Mas as maiores lições de comunicação que a Copa de 2014 ofereceu vieram de lugares improváveis: as seleções. Houve tantos exemplos que o torneio pode ser considerado como um curso intensivo.

– Miguel Herrera, técnico do México: é impossível que você tenha acompanhado a Copa sem notar o carisma do treinador. Ele assumiu a seleção em situação delicada no hexagonal final das Eliminatórias da Concacaf. O México correu risco de perder vaga para o Panamá, mas conseguiu classificação ao Mundial após vencer uma repescagem contra a Nova Zelândia e se tornou personagem. Com “selfies” em redes sociais, declarações divertidas e reações exacerbadas na beira do campo, o comandante Herrera simbolizou tudo isso.

– Van Persie: o capitão da Holanda não fez uma Copa acima de qualquer crítica, mas mostrou o quanto a inovação pode abastecer a comunicação. Logo no primeiro jogo, completou de cabeça um passe do lateral Blind e marcou o primeiro gol da seleção laranja no Mundial (abrindo caminho para uma vitória por 5 a 1 sobre a Espanha, de virada). O lance acrobático (ele se jogou na direção da bola e ainda encobriu o goleiro Casillas) criou uma reação em redes sociais. Fãs publicaram imagens em que apareciam deitados no chão, numa pose que foi batizada de “persieing”. A finalização foi tão inusitada que virou uma marca.

– Grécia e Suíça: uma das maiores dificuldades de comunicação é lutar contra conceitos estabelecidos. Nos estádios, em redes sociais e até em parte da mídia, Grécia e Suíça eram times “com defesas sólidas e ataques pouco eficientes”, estereótipos moldados por seleções da década passada (a Grécia campeã europeia de 2004 e a Suíça que não levou gols na Copa de 2006). E aí, não bastou a ambas a adoção de um modelo mais ofensivo; foi preciso reafirmar isso em entrevistas, por exemplo. Foi comum ver jogadores e membros de comissões técnicas das duas seleções dizendo que não eram mais os times que estavam na memória dos brasileiros.

– Sul-Americanos: a Copa serviu para mostrar que não há continente tão emocionalmente ligado ao evento quanto a América do Sul. As torcidas sul-americanas foram episódios no evento – independentemente da sede, foram responsáveis por dar vida e um colorido diferente. O Mundial teve festas enormes em outras edições (2006, por exemplo), mas eram apenas festas. Os sul-americanos mostraram um envolvimento incrível. Essa é a relação que qualquer marca deseja ter.

São apenas bons exemplos do quanto a Copa de 2014 ensinou sobre comunicação. Os dois maiores casos, contudo, foram a campeã Alemanha e o Brasil, país-sede do evento.

A Alemanha ensinou demais sobre projeto e organização. O tí
tulo conquistado em 2014 é reflexo de uma reestruturação que o país começou a fazer no fim da década de 1990 e que envolveu todas as esferas do futebol nacional (clubes, campeonatos, centros de formação e a própria seleção). Foram três semifinais consecutivas em Mundiais (2002, 2006 e 2010) antes de erguer a taça no Brasil. Sequência de trabalho, evolução gradual e noção de longo prazo.

No entanto, a maior lição que a Alemanha ofereceu sobre comunicação foi dada fora de campo. A seleção europeia decidiu se concentrar em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, e construiu um espaço para isso. O aparato teve a condição ideal para unir trabalho reservado e interação com o público.

E por que a interação foi tão relevante? Porque é um projeto enorme que a Alemanha desenvolve há anos, e o futebol é apenas uma parte. O mote da Copa de 2006 foi “vamos fazer amigos”, e o país trabalha há tempos a ideia de que tem estrutura, mas também conta com um povo capaz de receber bem e ser alegre.

É lógico que o perfil dos jogadores conta e que manifestações como Neuer e Schweinsteiger cantando o hino do Bahia não foram combinadas, mas essa descontração fora do ambiente de trabalho é algo que tem tudo a ver com o projeto do país. A Alemanha tem se esforçado para construir uma imagem de país receptivo, e nada melhor do que deixar essa marca num país conhecido mundialmente exatamente por esse traço.

E aí chegamos ao Brasil. O time da casa deu algumas lições de comunicação durante a Copa, e é importante que isso seja pontuado:

– Nem todo mundo sabe lidar com pressão: O ambiente jogou enorme responsabilidade nas costas dos jogadores. A comissão técnica não fez grande esforço para amenizar isso. As reações exageradas, como choro no hino nacional, em comemorações de gol e até em disputas de pênaltis, têm relação direta com isso. O que está em discussão aqui não é o choro ou o quanto isso pode ser prejudicial, mas o que isso revela. Havia uma pressão enorme sobre os atletas, e nem todo mundo consegue lidar com isso sem exteriorizar.

– Valorize todas as peças: Em uma equipe, o protagonista deve ser preparado para resolver. Tratá-lo como salvador e única esperança diminui o potencial de ação de outras peças, e o que o Brasil fez com Neymar depois que o camisa 10 sofreu fratura em uma vértebra é um exemplo perfeito de como não lidar com um talento dominante.

– Entenda o contexto: O Brasil decidiu atacar a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo porque é um time grande, jogava em casa e teria apoio da torcida para fazer uma blitz inicial no duelo. Perdeu por 7 a 1 e viu a importância de se colocar em um contexto. Opções não são simplesmente boas ou ruins, mas adequadas ou inadequadas. Nesse caso, por exemplo, o técnico Luiz Felipe Scolari ignorou tudo que havia acontecido nos jogos anteriores da equipe germânica no Mundial.

– Saiba que tipo de mensagem você quer transmitir: Afinal, o que o Brasil queria “vender” na Copa? É claro que o objetivo do país era o título, mas de que modo? Qual era a aposta para isso? Nenhuma dessas perguntas foi bem respondida durante o Mundial. A Alemanha tinha um projeto pronto (de jogo e de comportamento). O Brasil não passou sequer perto disso.

– Derrotas contundentes merecem reações contundentes: Não finja que erros não aconteceram. É possível absolver pessoas, mas é impossível esconder do público todas as falhas de um projeto. E se as falhas forem muito gritantes, como aconteceu com a seleção na Copa de 2014, reaja de forma enfática. Dê ao público uma nova razão para acreditar. E aí a seleção brasileira terminou ainda pior o Mundial: independentemente do próximo técnico ou do futuro imediato da equipe nacional, o fato é que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) reagiu mal e de forma pouco enfática à maior derrota da história da equipe nacional.

Há vários outros exemplos e várias outras lições de comunicação na Copa de 2014. Foi um mês de aprendizado intensivo para quem acompanhou o desenrolar do evento. Tudo isso ficou ainda mais claro com o retorno do Campeonato Brasileiro, dos estádios vazios e das crises de significados. Afinal, que história o nosso futebol conta?