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A Fisiologia do Exercício começa a compreender a complexidade do jogo de futebol: os primeiros passos

Já faz algum tempo que um grupo de especialistas do mundo da bola vem chamando atenção para os equívocos, e, também, novas possibilidades sobre a preparação desportiva do jogador de futebol. O grupo não é muito extenso, mas tem espanhóis, portugueses, franceses, italianos, brasileiros, e por aí vai.

Isso quer dizer que, de uma forma ou de outra, mais próximos ou distantes de algumas realidades, é possível encontrar alguns focos de pesquisa e tentativas, que buscam esclarecer e dar alternativas sobre os caminhos a serem seguidos para se alcançar a excelência na preparação desportiva do jogador.

Por mais que se diga que o futebol é complexo (e é!) e por mais que várias áreas de trabalho procurem se estabelecer para dar subsídios à melhor performance de jogo, é inegável que todas elas tentam de alguma forma associar ao desempenho final, mais a sua atuação do que a das demais.

Em outras palavras, em nome de um discurso pautado na complexidade, explicações bem distantes dela dão conta de pontuar sucessos e fracassos, vitórias e derrotas.

É a disciplinaridade disfarçada de multidisciplinaridade, que acredita ser interdisciplinar e está a quilômetros de distância da transdisciplinaridade.

Enfim, discurso e prática não combinam.

Uma das tendências mundiais na preparação do futebolista está na construção de treinos transdisciplinares. Nessa tendência, a preparação total do jogo se dá pelo jogo (e para o jogar!).

Por mais que isso não seja novidade em alguns “fóruns” ainda tem atormentado a vida de muitos preparadores físicos e departamentos de fisiologia de clubes de futebol.

Mas mesmo causando tormento é inegável (aí especialmente na Europa) que treinadores e cientistas que estudam o futebol têm grande interesse e desvendar os meandros da construção de treinos como fractais do jogo.  E isso não é apenas uma questão de ganhar tempo e otimizar os estímulos de treino; como muitos dizem (já que nessa perspectiva o treino “físico-técnico-tático-psicológico” ocorre de forma concomitante).

O treinamento pelo jogo e para o jogar, como fractal de um processo de desenvolvimento da performance, garante que todo sistema fisiológico, bioquímico, cognitivo, etc. e tal do ser humano aprenda a reagir de maneira mais eficaz àquela situação que é a sua de trabalho, de competição: o jogo.

Está então mais no convencimento aos preparadores físicos do que aos treinadores a maior dificuldade para que se consigam mudanças e melhores resultados, enfim, evolução. Por isso, ainda bem que a fisiologia do esporte tem se dedicado, mesmo que ainda em passos curtos e lentos, cada vez mais a compreender os efeitos de um treino construído numa perspectiva transdisciplinar. Pesquisas mais recentes têm mostrado a preocupação em entender algo que, há mais tempo, estudiosos das teorias da complexidade vêm chamando a atenção.

Felizmente, que enquanto volumosas “frentes” da Preparação Física e da Fisiologia do Exercício (que é diferente de Fisiologia do Esporte e de Fisiologia do Jogo) teimam ainda em descer suas raízes em solos profundos dos paradigmas do passado (de olhos fechados para o presente), outras em menor quantidade, mas da mesma chamada Preparação Física e Fisiologia do Exercício, ainda sem entender completamente o problema da complexidade no jogo, têm se esforçado para trilhar novos caminhos.

Realmente, felizmente que autores como, por exemplo, Impellizzeri et al (2006), Jonas; Drust (2007), Rampinini et al (2007), Dellal (2008), Coutts et al (2009) que não são aqueles das teorias da complexidade, mas talvez sejam aqueles mais lidos pelas “frentes” em questão, têm apontado uma luz no fim do túnel, e de certo somarão forças aos menos lidos (menos lidos pelas “frentes” em questão!) Júlio Garganta, João Freire, João Paulo Medina, Jorge Castelo, Manuel Sérgio, Edgar Morin dentre tantos outros.

Então um dia talvez isso seja só mais um novo paradigma ultrapassado (transdisciplinaridade, complexidade, jogo, etc.); afinal a “verdade, na verdade” é só uma linha que por mais que se avance está sempre ao horizonte.

Trabalhos referentes a Fisiologia do Exercício ou do Esporte mencionados no texto:

COUTTS A. RAMPININI E. MARCORA, CASTAGNA, C. IMPELLIZZERI, FM. Heart rate and blood lactate correlates of perceived exertion during small-sided soccer games. Journal of Science and Medicine in Sport, 12(1): 79-84, 2009

DELLAL, A. CHAMARI, K.  PINTUS, A. GIRARD, O. COTTE, T; KELLER, D. Heart Rate Responses During Small-Sided Games and Short Intermittent Running Training in Elite Soccer Players: A Comparative Study.  Journal of Strength & Conditioning Research. 2(5):1449-1457, 2008.

IMPELLIZZERI FM. MARCORA, SM. CASTAGNA, C. REILLY, T. SASSI, A. IAIA, FM. RAMPININI, E. Generic vs Specific Aerobic Training in Soccer. International Journal Sports Medicine, 27: 483-492, 2006.

JONES, S. DRUST, B.: Physiological and technical demands of 4 v 4 and 8 v 8 games in elite youth soccer players . Kinesiology 39(2):150-156, 2007

RAMPININI E;  IMPELLIZZERI FM;  CASTAGNA C;  ABT G;  CHAMARI  K;  SASSI A; MARCORA SM. Factors influencing physiological responses to small-sided soccer games.E – Journal of Sports Sciences, 25(6): 659-666, 2007.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br