Categorias
Sem categoria

Sobre Naming Rights

Existe uma mística curiosa em torno da ideia do “naming rights” no Brasil. Por alguma razão, clubes tendem a acreditar que a venda dos direitos do nome de um estádio pode ser a plataforma principal de financiamento na obra. Não é. Nunca foi. Jamais será.

O conceito básico do “naming rights” é simples: um clube é popular e frequentemente aparece em diversos veículos midiáticos; como o clube manda seus jogos em um estádio, seu estádio também acaba aparecendo em muitos veículos; como uma empresa não pode normalmente comprar o nome de um clube, ela compra o nome do estádio, sendo que toda vez que o estádio aparecer na mídia, será o nome da empresa que estará sendo mencionado. Dessa forma, a empresa compra, na verdade, o direito de ter seu nome citado por incontáveis vezes em um determinado período de tempo.

Com estádios novos e mais modernos, porém, uma empresa pode acabar inserindo outros direitos na parceria, que vão além da simples troca de nomes. Ela normalmente vira dona de um dos principais camarotes do estádio, ganha uma quantidade razoável de ingressos para distribuir por jogo e pode usar as instalações do estádio para fins corporativos diversos, de simples reuniões a grandes convenções.

Tudo isso é muito bacana do ponto de vista mercadológico, uma vez que a parceria concilia interesses mútuos a partir do uso de uma boa quantidade de criatividade e inteligência. O problema é que para tudo isso dar certo, a coisa mais básica do processo tem que acontecer: os veículos midiáticos (e consequentemente o público que acompanha o esporte) precisam falar o nome da empresa.

Às vezes, isso fica um pouco complicado quando uma empresa compra os direitos sobre o nome de um estádio já existente, uma vez que é preciso um trabalho árduo para convencer as pessoas e as mídias a chamarem o estádio pelo novo nome. Para evitar isso, empresas tendem a buscar batizar estádios novos, que dessa forma não possuem outro nome qualquer.

Outras vezes, porém, alguns canais de mídia simplesmente se recusam a falar o nome da empresa, e chamam dão ao estádio um nome genérico. Isso acontece principalmente quando um determinado canal possui uma audiência dominante e pode se dar ao luxo de adotar essa postura sem se preocupar muito com eventuais retaliações dos donos do estádio. E esse, para o azar dos estádios, é o caso do mercado brasileiro, onde a Globo se dá ao luxo de cortar todas as asas possíveis da Red Bull, por exemplo.

Não existe uma explicação óbvia para imaginar que o “naming rights” é a salvação dos estádios brasileiros. Não existe sequer uma razão óbvia para acreditar que algum dos estádios novos do Brasil vai conseguir fechar um contrato de “naming rights” alto por um longo período de tempo.

Estudos sérios dão conta que empresas que pagam pelos “naming rights” dificilmente conseguem aumentar sua receita em um nível próximo ao investido na aquisição do nome. Isso nos EUA. No Brasil, em que ninguém vai falar o nome, imagine. Dos dez clubes mais ricos da Europa, só dois venderam o nome dos seus estádios. Na Copa do Mundo, a Fifa ignora o nome e manda tirar qualquer placa do estádio que não seja dos seus próprios patrocinadores.

Nesse cenário, não tem por que acreditar que o “naming rights” vai vingar no país. Tampouco que um estádio que usa ele como principal fonte de financiamento vai conseguir sair do papel.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

Categorias
Sem categoria

Quem são os stakeholders do futebol?

Saber quem se interessa pelos seus negócios e é afetado, direta ou indiretamente, pelas ações relativas à atividade econômica de um empreendimento é um dos passos fundamentais para o implemento de um posicionamento estratégico voltado para o mercado.

Os stakeholders são compreendidos pelos clientes, empregados (ou colaboradores), fornecedores, comunidade, investidores e outros de natureza análoga. São todos os agentes que de alguma maneira influenciam ou são influenciados pelas decisões de uma organização.

E a dúvida é: os clubes de futebol sabem quem são seu stakeholders? Quais são os clubes que possuem uma cultura alinhada e voltada para fora? Quais são os clubes que colocam na balança todas as hipóteses que acarretarão em melhorias para a sociedade em detrimento de uma tomada de decisão em nível gerencial?

Os negócios são compreendidos pelo relacionamento entre esses diversos grupos. O ambiente corporativo tem entendido muito bem tal premissa e aplicado na prática uma visão de fora para dentro, procurando adotar melhores práticas em benefício do todo, por um alinhamento bem estreito com os conceitos de responsabilidade social corporativa.

No caso dos clubes de futebol, os clientes são a gama de torcedores que consomem os produtos oferecidos pelo clube, seja em espécie (compra de ingressos, produtos licenciados e outros) ou mesmo o simples fato de acompanhar noticiários sobre o dia-a-dia da equipe e seus ídolos. Alimentar a paixão dessas pessoas não deixa de ser um papel importante dos clubes em um ambiente social.

Daí discorremos para os colaboradores, que são diretamente afetados por decisões e rumos de qualquer organização, valorizando-se neste quesito o componente da ética nos negócios e o cumprimento de pressupostos legais.

Os fornecedores, que fazem parte de uma cadeia grande de consumo e precisam receber em dia, como um exemplo bem simples daquilo que poderíamos tratar como elemento-chave neste relacionamento – o ciclo vicioso de inadimplência tem reflexo indireto em vários níveis sociais e econômicos de pessoas e empresas.

Investidores, que estão traduzidos no futebol pelos patrocinadores e demais parceiros comerciais, podem ter sua imagem arranhada ou glorificada em detrimento de conquistas e/ou derrotas de um clube, sendo ela alcançada dentro ou fora do campo de jogo.

Ignorar todos esses agentes ou boa parte deles pode ser um primeiro passo para a falência nos negócios. Trabalhar sob uma plataforma voltada para fora, sem aquele olhar míope de cuidar somente de seus problemas, tem se mostrado a melhor solução para as organizações e perfeitamente passível de aplicação no ambiente de negócios do futebol.

O desafio é: quem são os stakeholders de seu clube? Enumere, defina e aponte o canal de relacionamento entre o seu clube e eles para perceber até que ponto a organização está sendo um bom agente social.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

São Paulo: sobre planejamento e troca de técnicos

Nas últimas semanas a discussão sobre a equipe do São Paulo foi intensa, muitos se perguntam o que teria acontecido com o clube mais planejador do país. A resposta mais simples que vi e que não deixa de ter sua verdade é que quando os resultados aparecem, o planejamento é bom, quando não, ainda que seja o mesmo, tudo foi por água abaixo, o planejamento não existiu.

O foco só no resultado absoluto de dois ou três jogos, ou mesmo de uma temporada única, não serve para avaliar um planejamento. Para aqueles que não concordam, basta olharmos os técnicos do Arsenal e do Manchester, as equipes não ganham todos os anos, e em alguns inclusive sofrem fortes decepções, inesperadas desclassificações em fases preliminares da copa dos campeões.

O São Paulo demitiu Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro com o clube, com a justificativa das eliminações nas Libertadores de que disputou. Neste ano, Ricardo Gomes pagou pela eliminação na semifinal frente ao Internacional, que seria mais tarde campeão do torneio.

Enfim, se compararmos os últimos 5 anos das equipes mencionadas, acredito que possamos dar mais clareza a discussão.

O amigo poderia questionar minha crítica ao planejamento observando que o São Paulo mesmo com as trocas efetuadas, mantém um cenário de destaque, porém, o que gostaria de discutir, sem ficar na especulação de onde poderia ter chegado se tivesse mantido um determinado treinador, é justamente o perfil da relação clube-treinador no Brasil.

Existem temporadas que são de transição, para um elenco que vem de um período em alto nível competitivo é inevitável que se faça essa transição com a reformulação do elenco. Será que os técnicos brasileiros não conseguem fazer isso, ou os projetos não duram mais do que três anos porque é o prazo máximo no Brasil?

Sabemos que existe uma saturação entre o relacionamento técnico-atleta, porém a renovação pode ser feita paulatinamente, como o próprio São Paulo foi fazendo na era Muricy, ora mantinha a defesa, ora o meio ou o ataque, mas aos poucos havia uma renovação natural no elenco. O Corinthians vem na mesma perspectiva, basta ver que a escalação da equipe na serie B 2007 em relação à atual. Mudou, porém, paulatinamente, e na cabeça do torcedor e da imprensa é um time com a espinha dorsal mantida.

No Brasil, felizmente, alguns clubes já vem alongando a vida do técnico independente de resultados específicos de alguns jogos ou uma temporada, o Adilson Batista, hoje no Corinthians, ilustra isso com sua passagem longa (para os padrões brasileiros) no Cruzeiro.

A questão é perceber que a renovação de elenco não precisa passar necessariamente pela troca de técnico. Uma eliminação numa fase semifinal ou mesmo na final de uma Libertadores deve ser considerada como um resultado de fracasso? Chegar sempre nas fases decisivas de uma dessas competições é fracasso? Mesmo a oscilação que resulta numa eliminação precoce pode ser entendida se estiver alinhada com uma política de renovação mais forte no plantel, uma política de reconstrução do plantel.
Basta observamos que o quadro de resultados do São Paulo é muito similar ao do Arsenal e do Manchester, talvez o erro possa estar na obsessão que o título da Libertadores trás aos dirigentes brasileiros, que acaba por avaliar um trabalho como insuficiente com base na falta do título do torneio intercontinental.

Que nossos dirigentes, que já vem percebendo aos poucos a importância da manutenção de elencos e treinadores, comecem a perceber melhor o papel de suas equipes nos cenários nacionais e internacionais para e, a partir disso, avaliarem os cursos e percursos do planejamento da equipe.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Conteúdo Udof>Grupos de Estudos>Publif

Equívocos nos critérios de elaboração da competição nas primeiras categorias promovidas pelas federações de futebol

O futebol é o esporte de maior tradição no país, isso demanda um número cada vez maior de participantes nas idades mais baixas possíveis. A literatura preconiza a iniciação específica do futebol a partir dos 12-13 anos (Barbanti, Weineck, Freire, Filgueira, etc.). Na realidade isso não acontece, uma vez que tanto as instituições quanto às federações têm promovido o início do treinamento especializado em função da competição em idades muito precocemente (9-10-11 anos). Nota-se ainda que, no caso do treinamento, estes têm se iniciado em várias modalidades 1-2 anos antes da participação em competições federadas (7-8 anos). Como demonstra o quadro, de acordo com as Federações de Futebol.

Nesta faixa de idade a literatura tem sua fundamentação teórica baseada em uma formação básica geral (poliesportiva) voltada para um trabalho multilateral com objetivos de desenvolver as habilidades motoras básicas. Ao contrário, as crianças têm se especializado através da prática de uma única modalidade acompanhada da participação em competição regular organizada pelas federações estaduais.

A competição faz parte do processo de formação esportiva inicial, porém precisam ser adequadas ao desenvolvimento bio-psico-social da criança, principalmente quanto à forma, objetivos e periodicidade.

Algumas federações têm realizado competições em idades muito baixas e precoces das recomendadas pela literatura. Têm objetivos em “resultados imediatos” seguindo interesses de técnicos e clubes que valorizam o rendimento, estabelecendo um sistema de competição formal, regular e altamente competitivo. Além disso, os calendários dessas competições são longos (8-10 meses) com duração similar as categorias maiores. Em média, o número de jogos varia entre 20-30 partidas por ano nessas categorias.

Muitos estudos realizados nesta área têm tido propósitos em volta de discussões a cerca da especialização precoce e, principalmente em seus aspectos negativos.

Passado esse período, os profissionais da área devem passar a propor novas formas de competição e torneios, como, por exemplo, é o caso dos “festivais” e “ligas”, proporcionando um número maior de participantes e filiados (renovação futura e massificação do futebol).

Neste contexto, estão o papel das federações e os clubes/entidades como fomentadores do processo competitivo e por consequência nas situações de treinamento específico com crianças menores.

Frente ao exposto, pretende-se uma estratégia para um melhor planejamento no sistema de competição regular nas categorias menores. Este programa deve ser adotado pelas federações que sejam mais adequadas as exigências e interesses dos jovens atletas.

Bibliografia:

Arena SS. Análise da Iniciação esportiva no município de São Paulo. São Paulo; 2000. [Dissertação de Mestrado – Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo].
*Fabrício Moreira é coordenador do grupo PUBLIF e autor do livro Futebol: Uma visão da iniciação esportiva, 2004.

*Fabrício Moreira é coordenador do grupo PUBLIF e autor do livro Futebol: Uma visão da iniciação esportiva, 2004.

Categorias
Sem categoria

O treinamento técnico: da técnica ao jogador ou do jogador à técnica?

 Até pouco tempo atrás, quando participava de fóruns de discussão para debater sobre as novas perspectivas da preparação do futebolista, da base ao alto nível competitivo, uma das “barreiras” iniciais para se avançar em discussões, digamos, mais adiantadas, tratava da dimensão física do desempenho do jogador de futebol.

Para os possuidores de raízes mais profundas em um paradigma sustentado pelo conhecimento da preparação desportiva emergente na década de 1960, as propostas atuais, pautadas no desenvolvimento integral e total do jogador de futebol (a partir de meios e métodos integrais e complexos), sempre trouxeram à tona uma desconfiança sobre sua competência e efetividade para o desenvolvimento de capacidades físicas tidas como importantes para o bem jogar futebol.

Tal desconfiança ganhou força especialmente pela distorção feita por alguns treinadores e por alguns pesquisadores das Ciências do Desporto, sobre aquilo que o treinador português José Mourinho e seu inseparável adjunto Rui Faria vinham e vêm fazendo em grandes equipes da Europa.

O fato é que, após muitas e muitas mesas redondas, muitos e muitos debates, muitas avaliações fisiológicas, muitos jogadores formados e muitas vitórias, tanto a comunidade científica, quanto as grandes equipes do futebol mundial, se deram conta, de que a grande dúvida sobre aquilo que propõem as novas reflexões para a preparação do jogador, em busca da excelência, (com relação a sua capacidade de “condicionar fisicamente” o futebolista) estava sanada.

Porém, os caminhos para a sustentação de um novo paradigma, devem, para o bem comum, ser submetidos a uma diversidade de olhares e questões, para testar e atestar, suas possibilidades de contribuição para resolver problemas emergentes (e outros nem tanto).

Então, após quase findado o debate sobre a dimensão física, ganhou evidência aquele que diz respeito a dimensão técnica da preparação do jogador de futebol.

Pois é.

Hoje, nos mesmos fóruns, em que o debate sempre girou em torno de questões, digamos “físicas”, ganham, cada vez mais espaço, discussões que colocam à prova, a capacidade de meios e métodos de treinamento orientados pela complexidade, de promover o bom e melhor desenvolvimento da dimensão técnica daqueles que jogam.

Ora, ainda que seja saudável a discussão a respeito do tema, eu pergunto: de que “dimensão técnica”, se está a falar?

Daquela que é orientada por um “estereótipo” de gesto “perfeito”, em que se estabelece biomecanicamente o que é bom e o que não é, e se tenta “imitar” ou copiar? Ou daquela que é a expressão da autonomia e criatividade do indivíduo, para resolver problemas do jogo quando ele está ou não de posse da bola?

Se estivermos falando da primeira, em que a partir de uma “técnica perfeita” é construído o movimento do jogador, não gastemos tempo com argumentos; não os temos.

A técnica perfeita, ainda que alguns de meus amigos acadêmicos esbravejem, não é um desenho acabado, cheio de detalhes e verdades! Não é algo para ser copiado.

A técnica perfeita é aquela que se expressa circunstancialmente, de acordo com o problema, resolvendo-o.

Ela é individual, não é única para todos. Ela é aberta, não é fechada. Ela se manifesta, não é remotamente controlada. Ela não é gesto por gesto, é ação com significado.

Então se estivermos falando da segunda, não sei como pode ser mais óbvio, que a solução para o desenvolvimento de “habilidades técnicas” de um jogador em jogo, seja sua requisição, manifestação e expressão, no próprio jogo.

A “habilidade técnica”, que se expressa no jogo, melhora e se desenvolve perfeitamente quando se treina de maneira integrada e complexa.

Então, que tal esquecermos, de uma vez por todas, a padronização de gestos. Vamos investir em autonomia, em criatividade, enfim, em liberdade!

Para terminar hoje, trago em seguida, um trecho de um texto, que para os desavisados, pode parecer não ter nada a ver com futebol. Mas se tem a ver com a vida, tem a ver com o futebol, então de tão belo e didático, mesmo para os desavisados, digo que vale muito a leitura.

É o trecho de um texto do professor João Batista Freire, publicado por ele em seu blog.

Transportá-lo ao ensino e aperfeiçoamento no futebol? Esse é um dos exercícios…

“Para mim, o que decide os destinos de um povo, é a educação, para o bem ou para o mal, e em todas as circunstâncias em que ela pode acontecer. Uma pessoa se educa sozinha, por exemplo, quando uma criança brinca desacompanhada, se educa em família, se educa no quartel, na igreja, na escola, em contato com a natureza, vendo televisão, assistindo filmes, etc. Creio que os principais veículos de educação são a família, os meios de comunicação e a escola. A escola é a que reúne o sistema mais formal de educação. E para que nos educamos tanto? É porque a maior parte do que precisamos saber para viver não nasce com a gente, é preciso ser aprendido. De modo que podemos dizer que nos educamos para a vida. Ou seja, não aprendemos História ou Geografia para saber História ou Geografia apenas, mas para ampliar nossas chances na vida. Em princípio, saber viver poderia significar, por exemplo, eliminar animais, árvores e pessoas; muita gente faz isso. Acontece que os humanos são animais fisicamente frágeis; precisam do outro e da natureza para se manter. Portanto, não vale tudo, não vale eliminar o outro, não vale eliminar a natureza. Ser solidário é uma condição de vida. Ser caridoso, ser social, são requisitos básicos para viver. Tudo isso remete para a ideia de que a educação deve ser focada no princípio de aprender a viver, mas a viver eticamente”.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Conteúdo Udof>Entrevistas|Sem categoria

José Teixeira, ex-treinador

São mais de cinco décadas dedicadas ao futebol. Praticamente uma vida, da qual o professor José de Souza Teixeira se orgulha imensamente. Não apenas pelo fato de ter sido um dos pioneiros da inserção da preparação física dentro da modalidade ou por ter participado ativamente de momentos importantes de clubes e seleções no Brasil e no exterior. Mas exatamente porque o experiente profissional não para de viver.

“Sempre fui muito exigente comigo. Procuro desenvolver novos planos, estudar, dar palestras, etc. Dou muito valor à base científica e às pesquisas”, revelou o senhor que tem uma jovialidade impressionante aos 75 anos e diversos causos para contar. Muitos deles estão publicados em “A história de um tabu que durou 22 anos”, livro de 2005 e que retrata os momentos mais adversos do clube paulistano que comemorou seu centenário nesta semana.

Pelo Corinthians, professor Teixeira atuou nas mais diversas frentes. Foi treinador de equipes de base e também do departamento de futebol profissional, seja como interino, ou efetivado – com o apoio irrestrito de Vicente Matheus. No momento em que viu o time do Parque São Jorge romper o hiato sem títulos, entretanto, ele era o preparador físico da comissão técnica comandada por Oswaldo Brandão, uma de suas grandes referências.

Além do saudoso treinador que brilhou também no arquirrival Palmeiras, Teixeira carrega as lembranças e as bases de outros companheiros, como Vicente Feola, Flávio Costa, Zezé e Aymoré Moreira, e Filpo Nuñez. Foi um rival mais “moderno”, entretanto, quem mais causou dificuldades em um momento de duelo estratégico de jogo – marca que sempre acompanhou o professor Teixeira. Trata-se de Vanderlei Luxemburgo.

“Ele tinha o costume de ficar esperando uma substituição do outro time para rebater na sequência, trocando de jogador, também. Perfil diferente do Telê Santana, por exemplo, outro vencedor, mas que preferia valorizar a sua formação em detrimento da do adversário”, comparou.

Remanescente de uma época romântica do futebol, Teixeira pode ser considerado um vanguardista. A busca pela análise constante e pelo amparo técnico-científico sempre permeou suas atividades, seja em campo, na preparação física e no treinamento desportivo, ou fora dele, ministrando aulas, prestando consultorias e desenvolvendo novos projetos.

“Se não ganhar, entretanto, nada tem valor. Mas se você fizer tudo perfeito dentro de estudos e análises, a chance de obter a vitória é bem maior. Por isso que os jogadores entendem. Pois você os trata como seres humanos, como pessoas capazes de entender uma informação e pensar na resolução dos problemas. O grupo de trabalho se faz por intermédio da união”, completou, nesta entrevista realizada à Universidade do Futebol.

Entre outros temas, Teixeira, que está prestes a lançar mais uma obra (“50 anos por dentro do futebol”, narrando de maneira didática todas as suas experiências profissionais), falou sobre sua passagem pelo Oriente Médio, como o empirismo ainda molda as relações no esporte e por que o título Sul-Americano Sub-20, conquistado com a seleção brasileira, foi tão marcante.

Universidade do Futebol No Corinthians, após algumas experiências como treinador interino, o senhor assumiu a equipe em 1978, substituindo Armando Renganeschi. Poderia relembrar um pouco sobre esse período?

José Teixeira  Quando eu saí do São Paulo – fiquei no Morumbi de 1958 a 1964 -, recebi o convite do Corinthians para ser preparador físico da equipe principal e técnico dos juniores. Estudei a razão pela qual não se conquistavam títulos naquele período e cheguei à conclusão: o time perdia para si mesmo, e não para os adversários.

Porque ao final de cada competição que não era vencida, a diretoria dispensava boa parte da comissão técnica e do grupo profissional de jogadores, reiniciando o trabalho inteiro no ano seguinte.

O argumento da cúpula era que não havia tempo para se esperar, e um título era necessário urgentemente. Sempre que jogávamos por outras cidades e estados, contratávamos os jogadores rivais que se destacavam contra nós.

Em 1977, dentro de um projeto com o Oswaldo Brandão, mantendo o mesmo grupo, disputamos o Brasileiro e o Paulista. Após perdermos o primeiro [naquele tempo, o campeonato nacional era disputado antes do estadual], o Edu foi devolvido para o Santos, o Rubens Nicola, para o Rio de Janeiro, o Givanildo, para o Santa Cruz, e o Darci, que era júnior, foi emprestado para o América, de Rio Preto. Resumindo: ficamos com 16 jogadores de linha e três goleiros para disputar o Paulista.

Garantimos que iríamos continuar com aquele elenco, e criamos uma forma de jogar e de dar combate por intermédio da luta pela posse de bola, tudo estudado de maneira detalhada. Quando chegou no fim do ano, o Brandão estava com problemas familiares – o filho dele, Márcio Eduardo, estava muito adoentado. Assim que ele saiu, com a morte do filho e o desgaste natural do campeonato, os outros membros da comissão técnica também deixaram o clube. Eu fiz o mesmo, e entreguei o cargo.

Na casa do Brandão, uns dias depois, ele não aceitou minha saída e me deu a responsabilidade de ficar e manter o trabalho. Acabei não aceitando, permaneci apenas com a equipe de juniores, e o Armando Renganeschi ficou comandando o principal. Após uma derrota, porém, ele não suportou a pressão e foi embora.

O presidente Vicente Matheus, então, me contatou. Eu era treinador das seleções brasileiras de base, da seleção paulista de novos, assessor do SESI e professor do curso de treinadores da USP, da PUC, de Campinas, e da Faculdade Santo André. Com a liberação de todos, em concordância, assumi o Corinthians em 1978.


 Professor Teixeira ao lado de Brandão: parceiro de Corinthians foi responsável por algumas histórias expostas no livro ao lado
 

 

Universidade do Futebol E como foi essa experiência no comando da equipe principal do Corinthians, após ter encerrado um jejum de títulos que perdurava mais de duas décadas?

José Teixeira  Como eu tinha uma vivência dentro do clube e eventualmente assumia de maneira interina a função, eu não tive grandes problemas quando fui efetivado. Havia me preparado para esse momento, na verdade. Minha ideia, quando parei de jogar no antigo São Bento, local onde hoje funciona o São Caetano, por volta de 25 anos de idade, era me tornar treinador.

Bem antes disso, quando termina a Copa de 1958, e o Brasil se sagra campeão do mundo, o Feola e o Paulo Amaral decidem reproduzir o mesmo modelo de comissão técnica no São Paulo. Eles convidaram algumas pessoas, como o Olten Ayres de Abreu, o Nelson Menoni e o Mario Miranda Rosa. Nenhum deles aceitou, e quando receberam o pedido para indicar alguém que quisesse trabalhar naquele novo projeto, meu nome acabou sendo apresentado por todos.

Em dezembro, o seu Manoel Raymundo me fez o convite: ser preparador físico do time profissional, e técnico do aspirante. Aceitei e no dia 20 de agosto de 2010 completei 52 anos ligados ao futebol.

Universidade do Futebol – Quais eram as principais referências do senhor na época?

José Teixeira  Tive muita sorte na vida. No início de São Paulo, trabalhei com um time cuja base era formada por: Poy, De Sordi e Mauro; Dino, Vitor e Riberto; Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro. Dava treino para essas feras, eu com 23 anos, e alguns com mais de 30.

Queria pesquisar, mas não havia uma literatura consolidada. Fui o primeiro preparador físico do clube e não tinha referências bibliográficas ou outras pessoas da área para trocar ideias. Achei em um livro, de Alberto Langlade, do Uruguai, que fazia a seguinte questão: “como você se auto-avalia?”. E eu me reprovei.

Passei a detectar minhas deficiências. Primeiro: não sabia falar em público, e fui fazer um curso de oratória. Depois disso, outro de relações públicas, psicologia, de massagista, de árbitro, estudos específicos que me dessem condições de pelo menos entender melhor o meio.

Sempre fui muito exigente comigo. Procuro desenvolver novos planos, estudar, dar palestras, etc. Dou muito valor à base científica e às pesquisas.

Realizei um curso de biomecânica só para treinar goleiros. Tenho um levantamento que aponta que de 10% a 15% dos gols em todos os campeonatos do mundo saem de rebatidas dos goleiros. Procurei orientação para entender a razão pela qual isso ocorre.

Controlo atualmente os Campeonatos Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Alemão, Português, Argentino, Paulista, Brasileiro Séries A e B e Copa do Mundo.

O coração do mundo no futebol em organização está na Europa. O top de exigência técnica, psicológica e tática de uma equipe está na Copa. Se você tiver esses parâmetros máximos, qualquer torneio disputado abaixo disso tem de ficar naquele limiar.

Para se ganhar um título, uma equipe tem de ter em média 70% de aproveitamento na competição. Então, não importa o nível e o local: é necessário atingir uma porcentagem próxima dessa para obtenção de triunfo.

Tive a oportunidade de trabalhar com Feola, Flávio Costa, Zezé Moreira, Aymoré Moreira, Oswaldo Brandão, Filpo Nuñez, Renganeschi, Lula, e via o que eles tinham de bom. Procurei assimilar o máximo de positivo de cada um, mas o mais completo e que mais me inspirou foi o Zezé, pelo valor aos detalhes.

Universidade do Futebol – O senhor acredita que ainda hoje o empirismo molda as relações dentro do futebol, com as questões técnico-científicas ficando em um plano inferior?

José Teixeira  Essas questões não são relegadas às vezes – elas são sempre deixadas de lado. Justamente porque as pessoas que estão no comando de clubes e federações não se preocupam com esses detalhes. E essa ausência de preocupação é porque não se conhece ou não se dá valor à importância da ciência.

Cada época tem uma exigência e uma necessidade e você tem de estar preparado para estas necessidades.


 Em 2006, Teixeira comandou a seleção paulista de futebol feminino na Copa da Paz, disputada na Coreia

 

Universidade do Futebol – Atualmente, quais as principais “necessidades” que o senhor apontaria dentro de um clube de futebol?

José Teixeira  Primeiro, um planejamento. Ninguém faz um levantamento quando chega ao clube para detectar as razões pelas quais ele vai mal. Assim como, do outro lado, não se faz uma análise detalhada para saber o porquê se conquistou o título. As vitórias encobrem as deficiências. E as derrotas encobrem as virtudes.

Se não se definem parâmetros ao término de uma temporada, no outro ano o trabalho terá de ser começado do zero. A mescla é sempre importante e necessária, inclusive na formação de um grupo de atletas.

Universidade do Futebol – E a ineficácia nesse tipo de planejamento estratégico se deve a quê? Falta de recursos financeiros, profissionais capacitados?

José Teixeira  Por falta de um interesse dos treinadores, também, de se aperfeiçoarem. Fui fundador da Associação Brasileira de Treinadores de Futebol, em 1975, passando por diversas funções administrativas. Estamos na edição de número 37 do Curso Internacional para Treinadores de Futebol, já. E todo treinador que passou por lá não volta para ouvir – apenas está presente se for convidado para falar.

São raríssimos os que participam de mais de uma edição para assistir aos outros companheiros de profissão.

Sobre o comando administrativo, infelizmente faltam gestores qualificados. Quem geralmente fica como diretor de um clube é aquele abnegado que tem dinheiro, sem ser remunerado. Na empresa na qual ele trabalha, há uma filosofia racional, com previsão orçamentária. E no ambiente futebolístico, a emoção acaba falando mais alto.

Doutor Paulo Machado de Carvalho costumava dizer que os nossos clubes, infelizmente, realizavam planejamento “em cima do joelho”, na base da conversa e da troca de favores. E não é assim que deveria ser.


Preparador físico da seleção brasileira, Teixeira participou da Copa América de 1968; ao seu lado, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação, com Salim Athalla, diretor jurídico da FPF, ao fundo 

 

Universidade do Futebol – O senhor já contou algumas histórias sobre o Vicente Matheus, presidente do Corinthians de então, colocando-o como um dos melhores dirigentes com os quais trabalhou. Como era a relação entre vocês?

José Teixeira  Pelo Corinthians, somando todos os períodos, trabalhei 12 anos. Estive com Wadi Helu, Miguel Martinez, Waldemar Pires, Matheus e com o Alberto Dualib. Meu conceito é que sou empregado do clube, e não do presidente.

De todos estes, cada um tinha sua virtude. Sobre o Matheus, ele era rico, espanhol, turrão e presidente do Corinthians. Era homem de uma palavra só, antes de tudo. Quando ele me convidou, na casa dele, para assumir o comando técnico do time principal, pedi um prazo de três meses para reformular o grupo. E ele avisou: “nem um dia a menos; mas também nem um dia a mais”.

Minha ideia era atuar com o Sócrates, que tinha sido contratado, um pouco mais centralizado, vindo de trás, com dois pontas abertos, para mexer com a estrutura de equipe que acompanhava o Corinthians há alguns anos. Trouxe também o Biro-Biro, o Peter, o Taborda, o Wilsinho, o Djalma, e coloquei alguns garotos no time titular – Mauro, Solito, Wágner Basílio, etc.

Nesses primeiros três meses, a torcida queria me matar, pois o time não andava bem. Quando perdemos para Palmeiras por 2 a 0 no Morumbi, com mais de 98 mil pessoas, e ampla maioria da nossa torcida, fui vaiado, com os corintianos pedindo minha saída.

No dia seguinte, o Matheus anunciou uma entrevista coletiva e avisou: “como nós demos um prazo para o ‘ténico’ (sic), não mudo o comando enquanto o prazo não vencer. O Corinthians muda de presidente, mas não muda de ‘ténico’ (sic)”.

Prestigiado, comecei a implementar algumas mudanças, e a equipe evoluiu. Esse era o Matheus, um dos dirigentes administrativos mais inteligentes que eu conheci.

Universidade do Futebol – Por boa parte da torcida e da imprensa, o senhor era visto como muito teórico e estrategista. Como foi lidar com isso? Atualmente, treinadores com esse tipo de perfil ainda sofrem com esse mesmo tipo de rótulo?

José Teixeira  Infelizmente, pouquíssimas pessoas se preocupam com estratégias táticas. Eu falei que tive uma auto-avaliação e sempre procurei me aperfeiçoar. Na época em que não havia uma comunicação tão avançada, lia muito referências sobre Napoleão, Alexandre, o Grande, Aníbal, e passei a compreender algumas lições sobre planejamento.

Eles traziam informações sobre pontos fortes e fracos do inimigo de guerra a fim de abastecer seus exércitos. No futebol, o princípio de vitória e derrota é o mesmo. Para vencer um jogo, é necessário entender a postura e as ações do seu adversário de maneira antecipada.

Na minha vida, eu só tive um treinador no qual eu precisava prestar atenção o tempo todo para não perder a partida: Vanderlei Luxemburgo. Ele tinha o costume de ficar esperando uma substituição do outro time para rebater na sequência, trocando de jogador, também. Perfil diferente do Telê Santana, por exemplo, outro vencedor, mas que preferia valorizar a sua formação em detrimento da do adversário.

É necessário conhecer os adversários, mas não apenas a formação do último jogo, e sim o tipo de personalidade do treinador e dos jogadores. Amparar-se na ciência para fazer pesquisa e usar na prática.

Se não ganhar, entretanto, nada tem valor. Mas se você fizer tudo perfeito dentro de estudos e análises, a chance de obter a vitória é bem maior. Por isso que os jogadores entendem. Pois você os trata como seres humanos, como pessoas capazes de entender uma informação e pensar na resolução dos problemas. O grupo de trabalho se faz por intermédio da união.

Universidade do Futebol – De maneira geral, qual a análise do senhor sobre a formação do atleta brasileiro, desde as categorias de base, chegando ao profissional?

José Teixeira  O futebol está mais veloz, com os campos mais reduzidos. Tempos atrás, a análise passava pelo tamanho do jogador e as aptidões técnicas e físicas, sem fazer o uso da ciência para definir o tipo de personalidade de cada um.

Hoje, entretanto, temos esse embasamento, mas continuamos treinando os jogadores para um tipo de futebol que não existe mais. A preparação deve ser diferente, utilizando-se de todos os recursos técnico-científicos. Ainda pecamos nisso.

Universidade do Futebol – O senhor comentou sobre sua preparação dentro da psicologia. Como observou a inserção de um profissional específico dessa área no ambiente do futebol ao longo dos anos?

José Teixeira  O trabalho físico é essencial para preparar um jogador. O técnico, também, assim como o tático, de acordo com os interesses coletivos. E o psicológico deve ser trabalhado, mas ainda há uma aversão preconceituosa no futebol.

Psicólogo é confundido muitas vezes com psiquiatra, e o atleta fica confuso por falta de orientação. Especialmente nas categorias de base, a ação desse profissional em longo prazo é muito relevante. A maioria dos garotos vem de famílias pobres, sem estruturação.


Em 2001, quando o São Paulo foi campeão do Torneio Rio-SP (estreia de Kaká), Teixeira atuava como superintendente do clube no qual iniciou a carreira como preparador físico 

 

Universidade do Futebol – Atualmente, o senhor acredita que os clubes têm uma visão ligada aos aspectos sócio-culturais, pensando na formação do indivíduo antes de tudo?

José Teixeira  No geral, não. Para assinar o primeiro contrato profissional, você tem de possuir no mínimo 16 anos e apresentar uma declaração de vigência escolar. Infelizmente, essa declaração é às vezes falsa, pois os clubes querem aquele talento futuramente e não há possibilidade de conciliar as aulas, os treinos, os jogos e as viagens. Na Europa, há uma inversão: o homem, pronto, é moldado como atleta profissional.

Se nós temos o grande capital, que é a técnica individual do menino brasileiro, por que não começamos desde cedo a prepará-lo como cidadão?

O regresso precoce de muitos atletas do nosso país que vão viver uma experiência no exterior, por exemplo, está relacionado a essa má formação. Problemas simples são criados, como saudades da família, dificuldade de costume à comida local, etc., e a sequência da carreira é prejudicada.

Já levei muitos jogadores para o exterior e presenciei diversos desses empecilhos. O jogador começa a criar casos com os próprios companheiros de time, prejudicando o ambiente. Isso é reflexo de má formação e preparação.

Universidade do Futebol – O senhor acumula passagens por diversos clubes internacionais, como Millionários, da Colômbia, Al Nasr, da Arábia Saudita, Al Shabab, dos Emirados Árabes, Universitário, do Peru, e Tokyo Gaz, do Japão. Como foi a experiência sócio-cultural de viver em outros países e quais as principais diferenças em termos de metodologia de trabalho encontrada no Brasil o senhor poderia apontar?

José Teixeira  Todos os clubes do exterior para os quais fui contratado encontravam-se em situação problemática. No Millionários, montamos um plano e investimos em estrutura. Havia muitas dívidas, decidimos comprar um carro importado e fazer uma espécie de rifa para arrecadar um dinheiro extra. Com a verba, finalizamos a construção de um campo de treinamento. No Universitário, do Peru, outro exemplo, também não havia nada. O mesmo problema infraestrutural.

O Al Shabab, que não conquistara títulos e sequer cedia jogadores para a seleção, passou a ser referência. Com os jogadores trabalhados em nossa base, desenvolvemos um projeto muito interessante e acabamos tendo oito atletas convocados para a equipe que era então comandada pelo Carlos Alberto Parreira.


 Meados da década de 1980, nos Emirados Árabes: grupo de brasileiros antes de amistoso; destaque também para presenças de Parreira, Joel Santana, Marcos Falopa e José Roberto Portela

 

Universidade do Futebol – O senhor teve também uma passagem pelo Santos…

José Teixeira  Apresentei um documento com sugestões para o presidente do Santos da época. O item número 1 era o fechamento do estádio Vila Belmiro por seis meses para efetuar uma elevação do gramado em um metro, pelo preço de R$ 1mi. A análise era bem feita, assim como a argumentação.

Fui falar com o Narcício Vernisi – o saudoso Homem do Tempo, da rádio -, e com o profissional que fazia na base aérea de Santos a previsão para o litoral. Ele me informou que chovia de 50% a 60% dos dias do ano na região. Fui também até a prefeitura de Santos, falar com o departamento de engenharia, e concluí que o alagamento do campo da Vila Belmiro era reflexo da construção histórica daquele terreno. O lençol freático na Baixada Santista é muito alto, e não era possível realizar a drenagem da maneira mais eficiente.

Não sei se ajudei ou não, mas no ano seguinte a essa parada, o Santos foi campeão com o Luxemburgo. Acredito, porém, que a reforma no centro de treinamento iniciado, o alojamento para a base, a sala de musculação modernizada e o novo departamento médico tenham sido benéficos para a instituição. E é isso que me deixa feliz.

Universidade do Futebol – Qual a análise do senhor sobre a evolução dos esquemas táticos ao longo do tempo?

José Teixeira  Todo esquema tática vive em função de um único valor intrínseco: a qualidade do jogador. Você vive em função do valor individual, mas eu, Teixeira, nunca dei uma linha para que o atleta se limitasse. Sempre procurei estimular a criatividade particular de cada um dentro de uma zona de atuação específica.

Hoje o goleiro precisa jogar com os pés. Antigamente, não era tão necessário. Há mais de 20 anos, procurei colocar esse jogador na linha, durante alguns treinamentos, para que ele desenvolvesse essas novas habilidades.

Se você tolher a liberdade do jogador, ele “morre”. O espírito de criatividade é necessário, e isso não pode ser afunilado.

Universidade do Futebol – Atualmente, o que é necessário para ser um bom treinador: formação acadêmica, ter a experiência anterior como atleta profissional ou ser um bom gestor?

José Teixeira  Tudo. Se você passou por todas essas vivências, o desenvolvimento da função se torna mais fácil. Agora, a maioria dos treinadores não passa pelo crivo da formação acadêmica. Eles acreditam muito no conhecimento empírico, assimilado ao longo da carreira, como observadores.

Filpo Nuñez, por exemplo, que veio do Boxe, era um estrategista espetacular. Revolucionou o futebol em relação à saída de jogo e à cobrança de laterais e lances de bola parada. Nunca vi um treinador trabalhar esse quesito com tanta propriedade. Tive a sorte de trabalhar com ele e aprender muito.

Universidade do Futebol – Poderia também comentar um pouco sobre os outros treinadores com os quais o senhor atuou e que lhe serviram de base?

José Teixeira  O Aymoré Moreira era sensacional para organizar defesa. Era difícil ver os times dele sofrendo muitos gols. A base era ter sempre, no mínimo, dois jogadores a mais do que o adversário quando era atacado. E quando atacava, tentar estabelecer o mesmo número.

Zezé Moreira valorizava muito os detalhes e foi muito importante para mim. Já o Oswaldo Brandão era aquele estilo “paizão”. Ele “matava e morria” pelo jogador fora de campo. Foi sempre muito justo. Não aceitava erros, pois queria preservar o ser humano e o profissional.

O Flávio Costa era muito inteligente. Fazia conotações com táticas militares em suas preleções e contava muitas histórias, prendendo a atenção do grupo. E o Feola também adotava aquele comportamento paternalista, já que o São Paulo da época era praticamente uma seleção. Respeito a todos pelo passado brilhante e aprendi muito.


Na disputa da Copa América de 1979, Teixeira foi auxiliar técnico de Cláudio Coutinho 

 

Universidade do Futebol – Em uma entrevista, o senhor coloca o Campeonato Sul-Americano Sub-19, disputado no Chile, em 1974, como um dos grandes momentos de sua carreira. O que houve de especial naquele momento?

José Teixeira  O Brasil nunca havia vencido o Sul-Americano juvenil. E aqui em São Paulo montávamos seleção de novos – atletas que necessitavam de uma experiência antes de ingressar na equipe principal, para viajar pelo exterior. A Federação era quem realizava isso, e eu era o treinador.

Estudei o regulamento, as datas, procurei algumas informações dos adversários, e comecei a levantar os atletas do Estado que tinham condições de ser convocados para representar o país nesse torneio. No São Paulo, inclusive, avisei ao Muricy [Ramalho] que ele não seria chamado, por conta da série de cartões recebidos e atos indisciplinados que ele apresentava. Ele mudou o comportamento daquele momento em diante e esteve na lista final.

Oscar, que era reserva da Ponte Preta, e Ruben, zagueiro do Nacional, que disputava a segunda divisão, compuseram a zaga. Bessa, do Guarani, era o goleiro, com Mauro, na lateral direita, e Ricardo, na esquerda, ambos do Guarani, também. No meio, Muricy, Eudes, da Portuguesa, Zé Mário, do Noroeste, Mauro, do São Paulo, Maizena, da Portuguesa, e Marco Antônio ou Pita na ponta esquerda.

Para a semifinal, contra a Argentina, treinada pelo Menotti, muito exaltada pela imprensa, senti que meu time estava assustado. Gosto que o jogador brasileiro cante. Quando ele reproduz musicalmente algo, está exteriorizando algo de positivo. E na véspera pairava um silêncio, denotando uma contração geral. Fiquei preocupado.

A preleção foi realizada não no auditório, mas no meu quarto do hotel. Queria mais contato físico, todos sentados no chão, lado a lado, para que o contato emocional fosse mais perceptível. É uma estratégia de relacionamento.

Quando encerrei o discurso, abri para perguntas, e ninguém se pronunciou. Fique na porta do quarto e disse: “infelizmente não iremos ganhar o jogo hoje”. Impactou, e ninguém se mexeu. Repeti a mesma frase, e o Ricardo, lateral, rebateu: “por que não iremos ganhar?”. E eu afirmei que eles estavam com medo, pois do dia anterior para cá eles haviam parado de cantar durante nossos encontros.

Desafiei o grupo a cantar “Fio, maravilha”, que era a música que compunha o ambiente, e todos baixaram a cabeça. Depois de alguns minutos, em meio ao silêncio, começaram a batucar e a cantar baixinho, até que houve a libertação e um grito geral. Quando isso ocorreu, mudei o tom: “agora tenho a certeza de que vocês vencerão a Argentina”. Até arrepia ao lembrar.

Chegamos ao estádio Nacional, de Santiago, trocados, batucando e gritando, e vencemos por 2 a 0. Na coletiva após o jogo, ao ser questionado sobre o desempenho, falei que foi um acidente a vitória – pegaríamos ainda o Uruguai, no confronto adiante.

O Menotti agradeceu as palavras e afirmou: “hoje, mesmo que a Argentina atuasse com 22 jogadores em campo, perderia para o Brasil”. O golpe psicológico ajudou. Não havia garantia de triunfo com essa ação. Se não tivéssemos feito, entretanto, certamente não venceríamos o rival.
 

Confira a campanha completa do título do Brasil na competição

 


Equipe base do Brasil, na disputa do Campeonato Sul-Americano de 1974, no Chile: Teixeira no comando, e o “rebelde” Muricy, no alto, à esquerda 

 

Universidade do Futebol – O senhor teve a opo

Categorias
Sem categoria

O futebol como Ciência ou o fenômeno Sporting

Na edição do jornal “A Bola”, do último dia 27 de Fevereiro, o jornalista e escritor Vítor Serpa levantava a interrogação seguinte: “Que ciência pode afinal vir explicar o último jogo europeu do Sporting?”. E continua: “Uma equipa aparentemente esfrangalhada, sem vestígios de autoestima, acossada por cães de fila sedentos de protagonismo (…), ressurge das cinzas, como fénix e explode numa festa de energia e de luminosidade exibicional, carregando com três festejados golos o peso de incredulidade inglesa”. Mas voltemos à questão que é a matriz deste oportuníssimo artigo: qual a ciência que pode explicar a exibição do Sporting, em Lisboa, diante do Everton?

Venho dizendo, há mais de trinta anos, que o desporto só como ciência social e humana se poderá entender e que portanto analisar a prática desportiva não se confunde com o determinismo e com as certezas do treino e da ciência, positivistas e tradicionais. No desporto (como no mais), o simples é aparência, o fundo do real é complexo. Com efeito, da termodinâmica à teoria da informação, da microfísica à biofísica, da informação à ciência das redes – a complexidade é o grande signo da nossa cultura e… a denúncia do logro que é o simples, a ordem, a lei, a certeza! Só a desordem, o acaso, o singular são processos genésicos, isto é, organizações nascituras.

Por isso, o treino há-de percepcionar-se como o uno em si mesmo múltiplo. Treinar não é só concretizar o que vem nos livros de técnica e táctica dos jogos desportivos (o simples), mas descobrir a dialéctica entre as chamadas “leis do treino” e a complexidade que é cada um dos jogadores que as interpretam. As leis surgem com uma exactidão deslumbrante. Ora, tudo o que é muito exacto não é humano e está errado.

O Vítor Serpa, um homem culto (eu tenho razões, para dizer do director deste jornal, isto e muito mais), percebeu, facilmente, que o problema dos “leões” não se resume a “um”, porque são “muitos” os problemas e é porque são “muitos” e em rede que o fenômeno Sporting é também desordem, caos, incerteza. Como escreve Lyotard, a ciência pós-moderna (actual, portanto) não passa do anti-modelo de uma ciência estável. Os “torcedores” (quem torce retorce e distorce), diante da desordem em que o futebol se manifesta e porque a desordem os confunde, descambam em atitudes demasiado emocionais, normalmente ao ritmo da mentira veemente, dos “slogans”, do oportunismo do instante de certas pessoas, com lugar de relevo na Comunicação Social.

O Marx tinha razão: “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”. Os treinadores sabem também que o futebol é desordem, no meio de toda a ordem inicial. Dutante um jogo, há por vezes a sensação que está por descobrir a ciência que o explica. Só que eles não desconhecem, como Aragon, que “a experiência nunca é transmissível; apenas o dogmatismo o é”. E dogmáticos só o podem ser alguns tontos cuja audiência está na razão directa da precariedade social, da perda de senso e de frustrações recalcadas. Por isso, as “massas associativas” os escutam, com tamanho deleite. O abrigo no irracional não exige muito esforço: basta não pensar!

Estou certo que, com José Eduardo Bettencourt, atual presidente do Sporting Clube de Portugal, pode desenhar-se, com nitidez, um novo Sporting e, portanto, com homens novos, capazes de aceitar, decifrar e dominar o incerto, ou seja, capazes de descobrir na desordem a necessidade de uma ordem nova.


 

Os cientistas de superior perfil, os mais notáveis dirigentes nunca o foram por obra exclusiva da razão, mas pela aventura da imaginação. Diria o mesmo dos treinadores mais conhecidos, como o sportinguista Mário Moniz Pereira, grande entre os grandes treinadores de atletismo que eu conheci.

Creio que foi o Francisco Varela a escrever que, antes da nossa consciência, está a inconsciência da nossa consciência. Que o mesmo é dizer, neste caso: antes da organização, está o sportinguismo; antes da causalidade, que se explica, está a “caosalidade”, que se compreende e donde brota a estrutura do sagrado e do numinoso. É verdade: nem tudo se explica. Só a morte é racionalidade total. Mas tudo se pode compreender, quando se tem o sentido do que se faz.

Qual o sentido último do Sporting Clube de Portugal? Que o digam os sportinguistas! E os “pseudocientíficos analistas da coisa da bola” não tentem explicar tudo. Porque não o podem fazer. Os golos, sim, esses é que explicam e justificam… tudo!


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br

Categorias
Sem categoria

Arena sustentável do Corinthians

O previsível desfecho de ter o Estádio do Corinthians como sede da Copa em 2014 se concretizou nesta semana. A cronologia é interessante: eleições atribuladas no Clube dos 13; Andrés Sanchez como chefe de delegação da Seleção Brasileira na Copa da África; Geróme Valcke, secretário geral da FIFA, a afirmar ainda na África que o Morumbi estava fora em definitivo; as inúmeras conjecturas de espaços e ideias mirabolantes para uma arena em São Paulo até… chegar no tão sonhado Estádio do Timão.

Destarte as negociações de bastidores – que, aliás, são normais e não precisam ser vistas apenas como algo negativo. O lobby político faz parte de qualquer negócio e não poderia ser diferente no futebol, com ressalvas apenas para aqueles casos em que são utilizados artifícios antiéticos, ilegais, práticas de suborno e tantos outros mecanismos de corrupção.

Falando especificamente sobre o projeto do estádio, que ainda apresenta muitas indefinições, começo destacando o comentarista da ESPN, Paulo Vinícius Coelho (PVC), que pontuou muito bem na noite de segunda (30-ago, no programa Linha de Passe) e também em seu blog ao abordar a área em Itaquera, que foi doada ao Corinthians pelo então governo em 1978. Passados 32 anos, finalmente ocorre esse desfecho e, pelas palavras do próprio PVC, será que podemos acreditar no projeto agora?

O questionamento tem reflexo direto na falta de um plano. Deveríamos imaginar que o planejamento urbano, as instalações e a operacionalização da arena de forma sustentável está próxima da perfeição, tendo todo esse tempo para pensar, analisar, promover estudos de impacto social e ambiental, fazer benchmarking etc.

O problema que nossa cultura latina tem dificuldades enormes em projetar algo com tamanha antecedência e é por isso que, há menos de 4 anos da Copa, ainda não sabemos onde será o jogo de abertura da mesma.

Outro ponto que preocupa tem reflexo também na cultura das pessoas, em particular no Brasil e a relação com o futebol. A taxa de ocupação nos jogos do Corinthians no Estádio do Pacaembu neste Campeonato Brasileiro beira a casa dos 63% (é a melhor entre os 20 clubes da Série A). A média de público chega a 24.200 pessoas (2ª melhor), em um Estádio com capacidade para 37.950 espectadores – no ano passado o Corinthians recebeu em média 20.213 fiéis torcedores, comportamento este que se repetiu nos últimos anos, só superado pelo ano vitorioso de 2005, com média na casa dos 27 mil, mas que caiu vertiginosamente em temporadas de performance esportiva ruim, segundo estatísticas apresentadas no site da CBF.

A dúvida é: será que o torcedor brasileiro tem sensibilidade e irá a um estádio de futebol a partir do momento que possui uma arena de jogos moderna, confortável e segura? Os clubes possuem um plano de marketing que desvincule os resultados esportivos da percepção direta do consumidor e interesse pelo espetáculo, como plataforma de lazer?

Temos que lembrar que o custo de manutenção de uma praça esportiva, de acordo com especialistas, chega a 10% ao ano do valor investido no espaço. Estamos falando de cerca de R$ 35 mi por ano a partir da construção do Estádio, ou seja, aproximadamente 20% do faturamento do clube, utilizando números atuais.

Por isso, vejo como insana a ideia de fazer um espaço fixo para 65 mil pessoas e, em contrapartida, me parece plausível a ideia de 45 mil lugares (ou 48.800, com tem sido noticiado) pelos números apresentados acima.

O exemplo do Estádio Olímpico de Londres é fantástico: durante os Jogos Olímpicos serão 80.000 lugares, que prontamente se transformarão em uma arena para 25 mil pessoas logo após o evento, sendo que parte da arquibancada utilizada será redirecionada a outras praças esportivas, multiplicando o legado e fazendo chegar o esporte à população.

Para pensar em alternativas para rentabilização dos espaços, de maneira sustentada, eu não tenho dúvidas que o Corinthians possui e poderá contratar os melhores profissionais. A questão é o tempo atrelado ao projeto urbano e arquitetônico, que deve estar diretamente ligado e em constante relacionamento com a inteligência de marketing desde a sua concepção.
Mas o que nos deixa mais tranquilos, citando Oliver Seitz em sua coluna semanal aqui na Universidade do Futebol, é que, a priori, apesar do financiamento público, o investimento é totalmente privado – e isso é um grande alento.

Por fim, parabenizo o Corinthians pelos seus 100 anos de glórias e pela conquista da tão sonhada arena. Que o espaço traga boas energias, muitas alegrias à imensa torcida do clube e, principalmente, excelentes ações de marketing, com um modelo sustentável de gestão profissional e rentável no uso e exploração comercial de instalações esportivas.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br