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Física do Futebol

Futebol e Física são inseparáveis. Futebol é movimento, mas não um movimento qualquer, desordenado, sem leis. Cada jogador é um criador num cenário com leis predeterminadas. Cada ação do jogador tem sua intenção, que é, em parte, moldada pelas leis (regras) do futebol e pelas leis da natureza. Mas assim como é impossível prever o quadro de um pintor a partir de sua aquarela, a ação de um jogador é, em princípio, também impossível de prever, mesmo com o conhecimento de todas as leis da natureza.

Muitos dizem que é isso o que torna o futebol tão apaixonante, e que talvez o futebol brasileiro seja o que mais se aproxima dessa criatividade em campo. Obviamente este livro não tem a mínima intenção de arranhar esse encanto, mesmo porque seria uma tarefa em vão.

Entender a Física do futebol provavelmente não vai fazer ninguém jogar melhor, mas com certeza vai ajudar a compreender um pouco mais esse jogo fascinante. E para quem quer compreender as leis do movimento, estudar a Física do futebol é a maneira mais descontraída de fazê-lo. Este é o objetivo desta obra: mostrar para os boleiros e curiosos da Física, a Física que há no futebol.

O livro não só ensina Física, mas também as próprias regras do futebol e tudo o que nele acontece relacionado à Mecânica. Os conceitos de Mecânica são descritos de forma a cobrir todo o conteúdo normalmente abrangido no currículo de Física do primeiro ano do ensino médio.

A presente obra foi escrita de maneira a descrever em mais detalhes o porquê de certas coisas na Mecânica. Fórmulas matemáticas são utilizadas, mas sempre procuramos mostrar a motivação que existe por detrás delas. Acreditamos que o livro possa ser utilizado de maneira quase autodidata, pela forma como foi desenvolvido.

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1981

Um grupo de amigos, muitos jogando juntos desde meninos, que conquistou os títulos mais importantes da história do clube mais popular do país pentacampeão mundial merece um livro.

A história começa com um pacto de vitórias, como um “marco zero” para tantas taças, horas depois de uma derrota doída para o arquirrival em decisão por pênaltis. Um pacto também para proteger o jogador que perdera a cobrança decisiva. Acordo selado na mesa de um bar, dando de ombros para as críticas de quem mede a dor e a seriedade do outro pelo local onde se está.

E o que dizer do perfeito conjunto de virtudes, e até defeitos, que criaram uma química única, unindo gerações oriundas das divisões de base – na mais perfeita tradução da frase “craque a gente faz em casa” – e reforços pontuais, mas que preencheram lacunas como peças de um quebra-cabeça?

Time de talento admirável e de técnicos que souberam organizar a revolução tática de uma equipe que fazia tudo tão naturalmente que a excelência técnica não permitia que o apoio constante dos laterais, como os alas de um futuro não tão distante, chamasse a atenção. Ou o meio-campo congestionado de talentos que rodavam a bola e a negavam aos adversários deixando à frente apenas um atacante que se mexia por todo o campo, abrindo espaços e as defesas adversárias.

Tudo isso, treinando em campos de terra, por conta de reformas no gramado da Gávea, ralando braços, pernas e muitos dos melhores pés que já passaram pelo clube. A estrutura era o salário em dia e as premiações criadas por uma diretoria de vanguarda para a época que estimulava o time a vencer e lotar o “seu” estádio. Um combustível a mais para quem já era movido a gols e vitórias, impulsionado por uma massa de apaixonados que ganhou milhares de membros, exatamente pelos feitos desses heróis.

Grupo de figuras aguerridas e carismáticas que cultivam a admiração até de quem não ama as mesmas cores. Ou dos próprios adversários. E que, quando se juntam, mesmo com quilos a mais e cabelos e fôlegos a menos, ainda dão espetáculos em partidas de exibição. O amor pelo futebol bem jogado resiste ao tempo e une craques e o público. Mesmo trinta anos depois do auge.

Heróis sim. Mas humanos, sem ilusões de conto de fadas. Com falhas, sentindo os reveses com raiva, fogo e paixão de torcedor. Mas seguindo em frente para continuar vencendo e encantando. Para alimentar o mito, o esquadrão de talento incontestável apimenta as lembranças com todas as principais conquistas envolvendo polêmicas até hoje debatidas. Seja o tricampeonato em dois anos, a expulsão do craque adversário, o jogo que não acabou, o soco no zagueiro violento, o torcedor esfriando a reação do oponente, a final que quase não foi disputada por conta de um imbróglio com passagens aéreas ou o toque da mão “invisível” que salvou gol certo.

O Flamengo de Raul, Leandro, Marinho, Mozer, Júnior, Andrade, Tita, Adílio, Zico, Lico, Nunes, Carpegiani (jogador e técnico), mas também Cantareli, Rondinelli, Manguito, Toninho, Júlio César, Figueiredo, Vítor, Nei Dias, Carlos Alberto, Reinaldo, Peu, Chiquinho, Baroninho, Anselmo e tantos outros foi tudo isso.

Recheou a sala de troféus da Gávea com quatro estaduais (1978, 79, 79 “especial” e 81), três brasileiros (1980, 82 e 83), uma Taça Libertadores e um Intercontinental. Fora o pentacampeonato da Taça Guanabara e outros torneio no Brasil e no exterior. Uma catarse de sangue, lágrimas e fibra. Em seis anos intensos, inspirados, transpirados, épicos, campeões. Essencialmente rubro-negros.

Mas também verde-amarelos. Se o Flamengo ganhou tudo, fazendo o Rio de Janeiro ser o maior do mundo, o estilo e a escola de jogo ajudaram a forjar uma das maiores seleções de todos os tempos e campos. Um Brasil que não ganhou a Copa de 1982, mas conquistou o mundo com Zico, Júnior e Leandro como absolutos titulares de Telê Santana. Uma senhora Seleção também montada no mesmo 4-2-3-1 campeoníssimo na Gávea. Grupo que chegou a ter Raul, Adílio, Tita e até o reserva Vítor entre os convocados de Telê. Que deveria ter tido Andrade entre os chamados. Que poderia, quem sabe, ter sido ainda mais se tivesse sido mais rubro-negro.

A proposta – ou pretensão – desta obra é celebrar os trinta anos das principais conquistas internacionais do Fla, fazendo um vaivém na linha do tempo, como Zico – craque, artilheiro, camisa dez, capitão, líder e ídolo maior daquela equipe – na área adversária à espera da chance para o arremate letal. Para entender como o esquadrão chegou ao topo do planeta bola, contar os “causos” de história tão rica e refletir sobre o seu legado para o esporte.

Afinal, um certo time espanhol (ou catalão) que encanta o mundo em 2011 apresenta nítidas semelhanças em estilo e proposta de jogo com o verdadeiro escrete vermelho e preto de três décadas atrás. Uma equipe que merece reverência e continua sendo referência. A única brasileira que, ao lado do Santos de Pelé em 1961-62, unificou todos os títulos possíveis à época. Com o Brasileiro de 1982 em maio daquele ano, o Flamengo se tornava o último campeão de sua cidade, estado, país, continente e planeta.

Nas sábias palavras de Leovegildo Júnior, “um time de exceção”. Que merece mais que um livro. Faz jus à eternidade.

Esta é a apresentação de “1981 – Como um craque idolatrado, um time fantástico e uma torcida inigualável fizeram o Flamengo ganhar tantos títulos e conquistar o mundo em um só ano“, livro de André Rocha em parceria com Mauro Beting.

A obra narra a saga do time comandado por Zico desde 1975, com a montagem da equipe multicampeã, desde os doídos reveses até a fase das principais conquistas. O “centro temporal” do livro é o segundo semestre de 1981, mas a história vai até 2011, passando pelos títulos nacionais de 1980, 1982, 1983, 1987, 1992 e 2009. Por quê? Você vai entender.

Assim como vai saber o que pensam alguns dos protagonistas do esquadrão inesquecível – Zico, Júnior, Andrade, Adílio, Carpegiani, Raul, Júlio César “Uri Geller”, Rondinelli e Manguito – e também adversários: Roberto Dinamite, Abel Braga, Emerson Leão, Darío Pereyra e Palhinha. E verá por que Mano Menezes considera aquele Flamengo o melhor time que viu jogar. As polêmicas não foram esquecidas. Ouvimos José Roberto Wright sobre o Flamengo x Atlético-MG de Goiânia pela Libertadores.

Obviamente, as análises táticas com ilustrações pontuam o livro. Assistimos a 51 jogos: 42 na íntegra e nove compactos.

Fonte: Blog Olho Tático

Sobre os autores

André Rocha é jornalista e administrador do blog “Olho Tático”.

Mauro Beting também é jornalista esportivo.

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Contos da Colina: 11 ídolos do Vasco e sua imensa torcida bem feliz

Três destacados escritores vascaínos e a editora Oficina Raquel se juntaram para um projeto apaixonante: o livro Contos da colina – 11 ídolos do Vasco e sua imensa torcida bem feliz. São doze contos, onze dos quais contando uma estória em torno de um craque vascaíno, e um cujo protagonista será a torcida cruz-maltina.

Todos os textos são ficcionais, promovendo o encontro entre a literatura e o futebol, ou entre a criação literária e a paixão pelo Vasco da Gama. O prefácio é assinado por Sérgio Cabral. Os craques ficcionados são: Ademir Menezes, Alfredo Segundo, Barbosa, Bellini, Danilo, Edmundo, Eli, Ipojucan, Juninho, Roberto e Sabará, além da torcida.

Produto oficial do Club de Regatas Vasco da Gama

Sobre os Autores

Os contistas são inveterados torcedores do Gigante da Colina.

Nei Lopes é compositor, escritor e estudioso da cultura afro-brasileira, tendo vastíssima produção literária e artística; em novembro de 2005, recebeu do governo brasileiro a Ordem do Mérito Cultural, no grau de comendador, e foi premiado como Homem de Ideias, pelo suplemento Ideias, do Jornal do Brasil, em 2009.

Mauricio Murad, além de romancista, é professor da Universo e lecionou durante vários anos na UERJ; é um dos mais destacados pesquisadores brasileiros na área da sociologia do esporte, na qual milita com livros e artigos acadêmicos de grande relevância.

Luis Maffei é professor de literatura portuguesa da UFF, ensaísta e tem quatro livros de poesia publicados – um deles, 38 círculos, é todo centrado na campanha do Vasco na série B de 2009.

Fonte: Livrosdefutebol.com
 

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Anos 90: Um Campeão Chamado Cruzeiro

Grandes acontecimentos viram livro, filme ou ambos. No caso da década de 1990 do Cruzeiro, por ora, é objeto de livro. Em janeiro de 2010, Anderson Olivieri Mendes iniciou as pesquisas. Pretendia criar, para o torcedor cruzeirense, algo que o fizesse reviver o período mais vitorioso da história do Clube. O resultado está aí: “Anos 90: Um campeão chamado Cruzeiro“.

Separada em três grandes capítulos – Conquistas, Ídolos e Histórias -, a obra permeou pelos fatos mais brilhantes e importantes da década de ouro do Cruzeiro. Do início, 1990, ao fim, 1999, tudo está devidamente registrado, com informações sempre amparadas por protagonistas da época.

Todas as conquistas oficiais, 17 no total, foram revividas. E, para alegria do torcedor-leitor, quem gasta a palavra nesse capítulo são os ídolos. São eles próprios que contam, com riqueza de detalhes, os desafios e bastidores dos títulos. Para narrar a Copa do Brasil 1996 e a Libertadores da América 1997, por exemplo, Ricardinho e Elivélton, respectivamente, foram os escolhidos para o depoimento.

Em seguida, o capítulo “Ídolos” presenteia o torcedor com histórias emocionantes sobre alguns dos mais importantes nomes do Clube na década. Douglas, Adilson Batista, Ademir, Dida, Nonato, Marcelo Ramos, Roberto Gaúcho, Ricardinho, Palhinha e Wilson Gottardo são os homenageados. Em entrevistas exclusivas, eles contaram detalhes do início da carreira, das dificuldades da infância, da chegada ao Cruzeiro e do alcance da condição de ídolo.

Oito histórias fantásticas dão o tom final ao livro. O surgimento de Ronaldo está contado no texto “Fenomenal”. A invasão de cruzeirenses ao estádio, na final do Mineiro de 1997, está em “O Mineirão é nosso”. É claro que a provocação ao rival não poderia ficar de fora. Em “O Galo virou galinha”, Paulinho Maclaren conta os motivos que o levaram a comemorar o gol contra o Atlético-MG imitando uma galinha.

“Uma Raposa no Cruzeiro”, “O gol do Guerreiro”, “Vira-vira da década”, “Santiago se rende à Bestia Negra” e “Geovanni, o predestinado” completam esse capítulo, que, sem dúvida, revelará ao torcedor cruzeirense que a década de 1990 é brilhante não só pelos títulos vencidos e ídolos consagrados.

“Anos 90: Um campeão chamado Cruzeiro” é a oportunidade dos que viram reviverem; dos que não viram, conhecerem. É arte mais uma vez contribuindo para a perpetuação da rica história do Cruzeiro.

Sobre o Autor

Anderson Olivieri Mendes, 27 anos, é cruzeirense por herança paterna. Nascido em Brasília, optou pelo Maior de Minas quando, aos cinco anos, foi presenteado pelo pai com uma camisa azul estrelada. É um alucinado pela história da década de 1990 do Cruzeiro. Tanto que resolveu transformar essa paixão em livro. Escolheu a advocacia como profissão, mas futebol e Cruzeiro, não necessariamente nessa ordem, são assuntos sempre presentes. É o mentor e editor do blog “Cruzeiro nos Anos 90” (www.cruzeironosanos90.blog.br).

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Nunca Houve Um Homem Como Heleno (2a edição)

Foram 39 anos de vida, 305 jogos como profissional e 251 gols. Heleno de Freitas era um turbilhão dentro dos campos – o grande ídolo do Botafogo na era pré-Garrincha, tendo jogado também pelo Fluminense, Vasco da Gama, Boca Juniors e pela Seleção Brasileira. Fora do gramado era um sedutor irresistível. De um amigo tricolor do Clube dos Cafajestes ganhou o apelido Gilda, que remetia à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de Charles Vidor: linda, glamourosa e temperamental. Atributos que se encaixavam perfeitamente em Heleno.

O jogador teve uma vida intensa. Ídolo nos gramados e frequentador da alta sociedade carioca, era boêmio, perfeccionista, impulsivo e viciado em lança-perfume e éter. No fim da vida, sofrendo de sífilis e consumido pela doença, foi internado em um hospital psiquiátrico em Barbacena, Minas Gerais. Morreu, em 1959, em um sanatório, considerado louco. Nunca houve um homem como Heleno é a fascinante história de um craque-problema do futebol nacional.

Sobre o Autor

Marcos Eduardo Neves é jornalista e trabalhou nas redações do Jornal do Brasil e do Jornal dos Sports. É autor das biografias de Renato Gaúcho e Roberto Medina, entre outros livros. Prepara-se para pesquisar a biografia do jornalista Mario Filho, que a LivrosdeFutebol.Com pretende lançar em 2014.

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ISO para eventos

Ao acessar a reportagem, por indicação do colega André de Paula (com quem realizo algumas pesquisas na área de responsabilidade social para o esporte), me deparei com algumas reflexões feitas já em outras colunas, passíveis de relacionar com a forma com a qual o futebol se posiciona perante a opinião pública de uma maneira geral.

Trata-se da proposta de norma ISO para eventos, a ser efetivada pela ABNT a partir de junho deste ano. E as perguntas que sempre fazemos são: como o futebol vai olhar para a nova (vindoura) proposta? Vai esperar todos os outros setores fazer para, depois de alguma pressão, realizar em seus estádios? Vai esperar o mundo adotar para depois (de alguns 10 a 20 anos) implementar no Brasil?

Lembrando que a antecipação à mudança tende a ser mais barata no longo prazo. Lembrando também que os pioneiros são sempre reconhecidos e, além de dar um contributo à sociedade, o primeiro clube que conseguir implementar e ser certificado poderá obter conquistas intangíveis, como maior apreço de seu torcedor, da mídia e até de empresas patrocinadoras, que hão de procurar atrelar sua imagem a um clube que transmita de fato uma imagem positiva.

Pela representatividade do futebol no Brasil, um dos grandes legados sociais e ambientais dos inúmeros jogos realizados todas as semanas em nosso território pode ser a sustentabilidade destes eventos.

Está aí uma ótima oportunidade para o segmento ampliar seu desenvolvimento!

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

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Brincar na infância e o futebol

1 – A importância do brincar

Brincar é um comportamento inútil e ancestral na vida do homem, e por isso, muito importante no desenvolvimento humano. Todos os animais que têm uma infância prolongada (como é o caso da vida humana) têm necessidade de investir muito tempo de jogo livre durante a infância, ou seja, como uma ferramenta de aprendizagem e adaptação em situações inesperadas e imprevisíveis de natureza motora, social e emocional. Por isso torna-se fundamental que as crianças possam vivenciar atividades motoras de exploração (espontâneas) que promovam o jogo simbólico (faz de conta), o jogo social (relação com amigos) e o jogo de atividade física (corrida, fuga, perseguição, luta etc.). O contato com a natureza e a capacidade de confronto com o risco é uma competência fundamental na estruturação de uma cultura lúdica infantil.

2 – Para que serve a brincadeira

A investigação científica tem vindo a demonstrar que o comportamento lúdico durante os primeiros anos de vida tem muitas vantagens no desenvolvimento humano: na estrututação do cérebro e respectivos mecanismos neurais; na evolução da linguagem e literacia, na capacidade de adaptação física e motora; na estruturação cognitiva e resolução de problemas; nos processos de sociabilização e finalmente na construção da imagem de si próprio, capacidade criativa e controle emocional.

Brincar é adaptar-se a situações imprivisíveis, através de ações diversas na utilização do corpo em espaços físicos e na relação com os outros. Brincar em casa, na escola, na rua, etc. é um investimento garantido de saúde física e mental na vida adulta.

3 – O que mudou na vida das crianças?

As condições de vida social das crianças mudaram de forma radical nas últimas décadas. A falta de espaços livres na cidade, o desaparecimento da rua como local de jogo, a super proteção dos pais, a diminuição da margem de risco e a falta de tempo livre nas agendas de vida cotidiana das crianças, o controle desesperado, por vezes patológico, das suas energias em atividades estruturadas (formatadas), têm vindo a criar um progressivo sedentarismo e um analfabetismo motor nas culturas de infância nas sociedades modernas. Uma criança que não brinque de forma regular e sem constrangimentos em espaços, amigos e materiais não é uma criança saudável.

As crianças continuam a brincar como sempre o fizeram ao longo da história da humanidade. Hoje brincam é de maneira diferente. As novas tecnologias e os cenários de espaços virtuais são muito sedutores para atividades centralizadas na paisagem do uso visual e manual. No entanto as necessidades de adaptação biológica e social continuam as mesmas na vida do homem.

As crianças e jovens dos nossos dias estão sujeitos a estilos de vida muito diferentes do passado, nomeadamente na capacidade de construção adequada de reportórios lúdicos e motores, devido a uma diminuição progressiva de indepedência de mobilidade corporal e um aumento progressivo de constrangimentos sociais.

4 – O significado da prática do futebol na infância

O comportamento lúdico tem uma dimensão ancestral independente da cultura ou da situação geográfica. O brincar vive-se, experimenta-se e dificilmente se explica. A magia do jogo percorre todas as idades com situações e significados diferentes. Os pais brincam com os filhos e as crianças brincam entre si através de processos de transmissão de geração em geração.

A vida do homem explica-se pela criança que foi e pela qualidade e oportunidades de jogo que viveu. A procura do desconhecido e da imprevisibilidade é um risco que vale a pena jogar seja no plano físico, simbólico ou social. A prática do futebol na infâcia é uma realidade social e cultural. As crianças gostam do jogar futebol (na escola, no clube, em casa, etc.) porque faz parte integrante do seu contexto cultural. Através de prática espontânea ou organizada, as crianças vão aprendendo a dominar habilidades motoras fundamentais com bola, a desenvolverem a sua capacidade perceptiva e tomada de decisões adequadas e a percepcionarem dinâmicas coletivas que são fundamentais para o aperfeiçoamento de um reportório motor adequado ao sucesso desta prática desportiva.

Este saber motor fundamental no futebol infantil requer cuidados especiais das instituições desportivas e dos treinadores que recebem as crianças. O comportamento dos pais é também muito importante nesta triangulação de sucesso (ver Fig.1).

Qual o modelo, a estratégia e os objetivos da formação desportiva de crianças e jovens no futebol? Qual a compatibilidade com as tarefas escolares? Que qualidade de intervenção pedagógica, técnica e científica tem de ser assegurada por quem organiza e atua no processo de ensino e aprendizagem do futebol nos clubes desportivos ou organizações similares?

5 – As fases de aprendizagem no futebol infantil

A formação das crinças e jovens no futebol deverá seguir um modelo desenvolvimentista, isto é, centrado nas características de cada criança. As primeiras etapas são caracterizadas por uma abordagem exploratória, de jogo livre ou semi-estruturado de modo a assegurar a assimilação inteligente de estruturas motoras simples (habilidades motoras básicas) e descoberta das dinâmicas percepticas e sociais mais simples (fase de estimulação motora). Depois deverão ser experienciadas sequências mais complexas de jogo através de habilidades motoras de transição, de modo a dotar as crianças de um afinamento do seu reportório motor no futebol e a formação de uma cultura mais consistente de compreensão do jogo (fase de aprendizagem motora).

A terceira fase centra-se na consolidação de esquematizações motoras já aprendidas, através da prática do jogo, acompanhando o desenvolvimento da criança em todas as suas dimensões (motora, cognitiva, social e emocional). Nesta fase é muito importante aperfeiçoar elementos fundamentais e estruturantes da formação motora (ajustamento postural, lateralidade, equilíbrio, coordenação motora, percepção espacial e temporal, esforço físico e relação sóciomotora). É uma fase crucial de sedimentar comportamentos motores consolidados (fase de prática motora).

Quando for possível, pode, então, iniciar-se um período de afinamento das habilidades motoras específicas (técnicas consistentes) e elementos táticos de jogo (capacidade decisional) tendo em vista o aparecimento de um rendimento adequado ao sucesso desportivo (fase de especialização motora). Cada treinador terá uma observação sistemática e periódica das suas crianças, optando pelo desenvolvimento das fases adequadas de especialização motora (ver Fig.2)

 

 

6 – O Comportamento Parental

Existem seguramente muitos agentes de sociabilização influentes no processo de formação desportiva de crianças e jovens. É um processo complexo. No entanto, o comportamento dos pais tem uma importância decisiva no acompanhamento da formação desportiva dos seus filhos. Existem por vezes comportamentos inapropriados dos pais que interferem na estabilidade formativa das crianças e muitas vezes no trabalho quotidiano dos técnicos de futebol. Esta situação merece um destaque especial no estudo de caracterização de diversas posturas e comportamentos parentais.

Do nosso ponto de vista deverá ser dada uma maior atenção na formação dos pais quanto aos objetivos da formação do futebol na infância. Como pode ser visto na Fig.3, exi
stem diversos perfis de comportamento parental (de pais desinteressados a pais fanáticos), que implicam estratégias de abordagem sobre esclarecimentos fundamentais do trabalho desenvolvido na formação no futebol infantil/juvenil. Caberá às instituições responsáveis definir as melhores formas de esclarecimento e formação sobre o futebol infantil, assegurando os direitos fundamentais das crianças sobre a prática desportiva.

 

7 – Conclusão

O artº 31 da Declaração Internacional dos Direitos da Criança (ONU) identifica o direito da criança ao jogo, ao tempo livre e à prática do desporto. Este direito fundamental da criança, quando equacionado na aprendizagem e prática do futebol, implica algumas considerações adicionais.

Deste modo, crianças deveriam ter o direito a:

1 – Expressar a sua individualidade;
2 – Serem tratadas como crianças /jovens;
3 – Participar independentemente do seu nível de habilidade;
4 – Jogar ou competir com os seus opositores em função de valores éticos fundamentais (Fair-Play);
5 – Decidir no qual ou quais desportos deseja participar;
6 – Participar na organização de programas desportivos (ser actor);
7 – Parar a atividade quando entender;
8 – Saber que o fracasso no desporto não é o fracasso da vida;
9 – Ter um treinador que seja competente nos planos pedagógico, técnico e científico;
10 – Condições de treino e competição adaptados à sua condição;
11- Exame e tratamento médico competente;
12 – Facilidades de espaços e equipamentos;
13 – Correto acompanhamento parental.

No caso do futebol infantil, necessitamos melhorar a formação de especialistas, adotar melhores estratégias de ensino-aprendizagem, produzir mais investigação e material técnico e pedagógico, definir modelos mais robustos de gestão e organização, apoiar a formação dos dirigentes, pais e outros agentes ligados à modalidade e melhorar a coerência entre tempo livre, escolar e desportivo na vida diária das criançs e jovens.

*Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana – Universidade Técnica de Lisboa