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O limiar desequilibrante e zonas de pressão no futebol

Em momentos de construção do jogo ofensivo e de transição ofensiva, muitas equipes no futebol mundial tornam-se especialistas em retirar a bola da zona de pressão.

Retirar a bola da zona de pressão pode ser especialmente útil para equipes que preferem a manutenção da posse da bola ao jogo de progressão.

Também pode ser especialmente útil para equipes que preferem encontrar corredores vazios pelo campo antes de se projetarem em direção do gol.

Independente porém das referências orientadoras principais que organizam coletivamente uma equipe, saber retirar a bola da zona de pressão pode ser um conteúdo a se desenvolver, com times e jogadores, muito importante, prático e eficiente – mesmo quando jogadores e equipes preferirem, dentro de seu Modelo, passes em progressão e busca aguda pela gol de ataque.

Claro, mesmo para uma sequência ofensiva que inicia no campo de defesa e com quatro passes chega até a grande área adversária (terminando em finalização ao gol), é necessário que os tais passes evitem, sempre que possível, colocar a bola em disputa ou dentro de setores de pressão espaço-temporal que sofram ação direta do adversário.

Saber controlar a bola coletivamente para retirá-la vantajosamente e de modo eficiente da zona de pressão, é parte de uma habilidade que envolve excelente percepção do ambiente, excelente leitura de jogo, excelentes tomadas de decisão, excelentes ações com bola e conjuntamente muita mobilidade por parte da equipe, afim de oferecer o maior número possível de apoios a portador da bola.

O FC Barcelona de Josep Guardiola talvez seja o melhor exemplo recente da maestria de se controlar a bola retirando-a várias vezes da zona de pressão, até encontrar situações claras de vantagem numérica para desfecho das jogadas.

O Bayer de Munique, também de Guardiola, vai no mesmo caminho – o que evidencia o fato de que isso é algo ensinável (e aprendível), que pode ser treinado e desenvolvido, ainda que os jogadores tenham inicialmente referências diferentes e automatismos também diferentes.

E para ensinar/treinar/desenvolver jogadores e equipes a retirarem a bola da zona de pressão com excelência, talvez seja necessário conhecer (ainda que intuitivamente) o conceito de “momento desequilibrante” (que também chamo de “limiar desequilibrante”) – (leia mais sobre o assunto no livro: “Desvendando o Jogo de Futebol: estrutura – modelos – inteligência – complexidade” de Rodrigo Azevedo Leitão [no prelo]).

A auto-organização coletiva dos jogadores dentro do campo de jogo é dinâmica e “instantaneamente circunstancial”.

O condicionamento para que todas as ações e ocupações de espaço se estabeleçam adequadamente é sistemicamente orientado por atratores e/ou por referências organizacionais do próprio sistema.

Se o objetivo é retirar a bola da zona de pressão e tal comportamento for condicionado, é de se esperar então que circunstancialmente os jogadores distribuam-se em campo para favorecer esse objetivo.

 

 

 

Ocorre que em situações de extremos e eficientes sistemas de pressing e pressão a urgência nas ações dos jogadores, com e sem bola por parte da equipe que a possui, é permanente, até que ela (a bola) não esteja sofrendo ações diretas e turbulentas por parte do adversário.

Existe um momento que precede aquele em que a jogada fica totalmente limpa e circunstancialmente vantajosa para a equipe que tenta retirar a bola da zona de pressão.

Quando esse momento é aproveitado temporalmente e a ação com bola dentro dele é realizada com extrema perícia, a bola não só sai da tumultuada zona de pressão, como estará em posição vantajosa para que uma boa sequência ofensiva seja iniciada.

Ele é um momento típico em todas as situações em que a bola entra em pressão, e se caracteriza não só pelo fato de que a bola possa sair dela!

A bola pode sair da pressão com passes de segurança e em seguida permitir ação direta do adversário sobre ela (momento desequilibrante não aproveitado).

A bola pode sair da zona de pressão em passes mais “fáceis” e não entrar em posição efetivamente vantajosa para a equipe que a possui (momento desequilibrante não aproveitado).

Então, o momento mencionado, o limiar desequilibrante, caracteriza-se por ser o instante em que a ação com a bola (o passe comumente, mas também o drible e/ou a condução da bola) é definitiva; ou para que a bola saia vantajosamente da pressão, desequilibrando circunstancialmente o sistema de marcação do adversário, ou para que ela (a bola) seja perdida para o adversário em uma condição extremamente vantajosa para ele (o adversário) – deixando totalmente desequilibrada a equipe que tinha a posse da bola.

Por isso é que trata-se de um momento desequilibrante; ou para a equipe que permite que a bola saia da zona de pressão, ou para equipe que perdeu a posse da bola tentando tirar a bola da região turbulenta.

Isso quer dizer também, que recuperar a bola no limiar desequilibrante pode oferecer mais vantagens organizacionais do que em outro momento. Da mesma maneira retirar a bola da zona de pressão no momento desequilibrante pode, e trará circunstancialmente maiores vantagens organizacionais.

Mas como identificar o “limiar desequilibrante”? E o identificando, como treinar “o” e “no” “limiar desequilibrante”?

Bom, aí deixemos para outra coluna… Por enquanto, o desafio é olhar para as zonas de pressão com esses óculos, o que será que vamos enxergar?

Até a próxima…
 

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Planejar o treinamento e o jogo no futebol: uma análise a partir da abordagem sistêmica

O futebol como um fenômeno cultural de imensa repercussão nos diferentes âmbitos sociais sensibiliza uma gama de apreciações referentes a um dos seus subsistemas, o jogo. Neste sentido, a percepção das propriedades de interações do jogo enquanto conjuntos ou totalidades viabilizam a organização e sistematização dos conhecimentos inerentes ao ambiente (GARGANTA, GRÉHAIGNE, 1999).

Dentre a diversidade de análises atribuídas ao jogo, a superficialidade dos comentários, prende-se aos acontecimentos “fragmentados” de todo o processo. Em muitas conversas nas ruas, bate papos nos bares e nas redes sociais, o resultado do jogo é quase sempre atribuído aos “acontecimentos” (o juiz não assinalou aquele pênalti, o atacante errou aquele gol dentro da área, o técnico não soube escalar a equipe, o goleiro tomou aquele gol…). Nesta perspectiva, apreciações referentes aos “acontecimentos” do campeonato brasileiro de futebol 2014, no qual instituíram o rebaixamento de algumas equipes da “elite” do futebol nacional evidenciaram a desvinculação das partes com a totalidade do processo.

As análises pertinentes à queda ou permanência na primeira divisão do futebol brasileiro voltaram-se exclusivamente a erros e acertos instituídos na última rodada da competição, creditando o sucesso ou insucesso das equipes aos tribunais. O resultado dentro de campo mostrou-se condicionado a normas externas ao campo de jogo, sendo que o subsistema, futebol, sofreu influência de valores instituídos por uma unidade maior, no caso o sistema esportivo. Nesta interatividade sistêmica, o resultado de uma partida não pode ser explicado somente por acontecimentos inerentes ao referido jogo, mas a partir de todo um processo, no qual enfatizamos: o planejamento, o treinamento e o jogo.

Compreendendo o futebol além do conhecimento conferido pelo senso comum, a análise do processo na perspectiva sistêmica propicia o estabelecimento de conjunções entre o planejamento, o treinamento e o jogo, conferindo um circuito que constantemente toma novas formas através das relações de desordem, ordem e organização (MORIN, 2002).

O planejamento concebe uma ideia inicial, permeando a atuação do treinador e configurando um propósito de ordem ao processo. A visualização do plano através do treinamento problematiza a proposta inicial a partir das relações estabelecidas e proporciona ao treinador a busca por novas estratégias para potencializar o desempenho competitivo. Neste sentido, a atuação competitiva contextualizada a partir do plano e do treino visa o controle do maior número de variáveis possíveis, mas a imprevisibilidade do jogo instituirá desordem ao sistema, sendo que a interação entre os elementos ativos, estruturais e normativos do jogo irá gerar informações que estabelecerão nova proposta organizacional.

Portanto, compreender o jogo como um sistema complexo, que configura-se a partir da sistematização entre o planejamento e o treinamento, amplia o entendimento das relações do todo e entre as partes. O planejamento a partir do modelo sistêmico institui propriedades pertencentes ao todo, mas que surgem através das relações organizacionais das partes (CAPRA, 1996). As interações não lineares entre unidades menores institui a organização de padrões de comportamentos, que as equipes de futebol desenvolverão durante toda a temporada (DAVIDS, ARAÚJO, SHUTTLEWORTH, 2005). Neste sentido, a compreensão do processo na perspectiva sistêmica não condicionará o sucesso da atuação competitiva, mas instituirá tendências aos “acontecimentos” estabelecidos no jogo.


*Mestrando no Programa de pós-Graduação em Educação Física, Membro do Laboratório de Pedagogia do Esporte – Universidade Federal de Santa Catarina

BIBLIOGRAFIA

CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Cultrix, São Paulo, 1996.

DAVIDS, K.; ARAÚJO, D.; SHUTTLEWORTH, R. Applications of dynamical systems theory to football. Science and football V. London, 2005.

GARGANTA, J.; GRÉHAIGNE, J. F. Abordagem sistêmica do jogo de futebol: moda ou necessidade. Revista Movimento, n. 10, Porto Alegre, 1999.

MORIN, E. O método I: a natureza da natureza. Sulina, Porto Alegre, 2002.