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Um dos legados de Senna

Hoje esta coluna traz de certa forma uma homenagem e um reconhecimento a um atleta que apesar de não ser do futebol, foi ídolo nacional: Ayrton Senna.

Seu legado é maravilho, tanto no aspecto profissional quanto no aspecto social.

Quero comentar sobre um estado de plenitude que o atleta pode alcançar e que Ayrton conseguiu atingir durante sua carreira. Podemos perceber isso claramente numa declaração sua após um treino de classificação para o Grande Prêmio de Mônaco em 1998. Após ter feito algumas voltas de classificação absurdamente rápidas, Ayrton Senna deu a seguinte declaração:

“Eu já estava na pole e continuava a andar cada vez mais rápido. Uma volta atrás da outra, cada vez mais rápido. Em certo momento eu estava na pole, então tirei meio segundo, e então um segundo, e eu continuava assim. De repente eu era dois segundos mais rápido que todos os outros, inclusive meu companheiro de equipe com o mesmo carro. E de repente percebi que não estava mais pilotando o carro conscientemente.

Eu estava pilotando meio que por instinto, mas eu estava numa dimensão diferente. Era como se estivesse em um túnel. Não apenas no túnel debaixo do hotel, mas o circuito inteiro era um túnel. Eu continuava pilotando, cada vez mais. Eu estava muito além do limite mas eu ainda conseguia encontrar algo a mais.”

Essa sensação ricamente relatada por Ayrton é um exemplo real do que podemos definir como um estado de Flow. Um de seus legados foi a sua capacidade de estar em Flow e como este estado lhe proporcionou sempre atuar em alta performance e obter resultados extraordinários no esporte.

No futebol, pode-se aprender com esse exemplo real do estado de Flow. Esclarecendo um pouco mais, este é um estado mental de operação em que a pessoa está totalmente imersa no que está fazendo, caracterizado por um sentimento de total envolvimento e sucesso no processo da atividade. Proposto pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, este conceito tem sido utilizado em uma grande variedade de campos, inclusive no esporte.

Mihaly afirmava que “você fica em um estado de êxtase de tal modo que sente que nem se quer existe mais.” Em suas pesquisas ele entrevistou diversas pessoas e percebeu que existem elementos comuns que indicam como atingir este estado de foco absoluto: envolvimento completo no que se faz, sentimento de êxtase, sensação de estar fora da realidade, clareza interna sobre o que e como fazer, sensação de serenidade e motivação.

O estado de fluxo pode ser reconhecido facilmente quanto estamos concentrados numa tarefa, que muitas vezes nem prestamos atenção no que acontece ao nosso redor. Ao atingir este estado o atleta apresenta uma performance que pode traduzir como a excelência de toda sua capacidade. Quando estamos em Flow a experiência que temos pode-se comparar com o que os orientais definem como “Nirvana”, tomamos decisões eficazes e eficientes, utilizando adequadamente todos os recursos que possuímos.

Para obter um bom estado de Flow é necessário o ajuste adequado entre a complexidade da atividade, a nossa capacidade e o valor que atribuímos ao nosso trabalho. Na prática o Flow pode ser identificado quando o atleta sente-se num estado de:

• Absorção pela tarefa/situação;
• Motivação intrínseca;
• Energia positiva;
• Felicidade;
• Sintonia entre corpo e mente;
• Ausência de noção de tempo;
• Conscientização e sucesso;
• Sentimento de recompensa.

Penso que o futebol é repleto de situações nas quais os atletas podem atuar de maneira tão concentrada a ponto de atingirem o estado de Flow, as situações são cada dia mais estressantes devido à pressão por bons resultados constantemente e por conquistas em todas as competições que os clubes disputam.

Esse legado da prática de sua atividade esportiva no máximo de sua capacidade e excelência serve de inspiração para os atletas de futebol busquem atingir seus estados de Flow e um bom Coach pode contribuir fortemente com a aplicação de um processo que promova o aprendizado e o desenvolvimento de novos estados de Flow por parte dos atletas profissionais.

Até a próxima e obrigado Ayrton Senna!