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A Copa pede passagem

Véspera de Copa do Mundo e o clima começa a esquentar em torno da expectativa do maior evento esportivo da principal modalidade do planeta. E a sensação que fica no ar tem relação com um sentimento coletivo que mistura um “poxa, poderíamos ter aproveitado melhor esse clima agradável de receber o mundo no Brasil” com “será que não fomos duros demais com a Copa?” ou até aqueles que devem estar pensando: “conseguimos melar um pouquinho a festa”.

Apesar das gírias e contraposições, esta percepção passa pela compreensão de três enfoques que não poderiam deixar de ser citados em razão de todo o contexto que foi criado em torno da Copa do Mundo:

1) Da política: de fato, a discussão que se aflorou nos últimos 18 meses sobre a responsabilidade dos gastos públicos é um dos primeiros indícios do fortalecimento da nossa democracia. Há um longuíssimo caminho para percorrer neste sentido, ainda. Existem inúmeras barreiras culturais e sociais que precisam ser derrubadas para fortalecer a política enquanto instituição respeitável. Apesar de tudo o que ocorreu em relação aos gastos com os estádios (sendo seguidos por comentários tanto de “rebeldes sem causa” como de outros que apresentam bons argumento, com alguma razão e ponderações bem estruturadas), fica a primeira semente para debatermos com melhor consciência tudo o que se trata de gestão de recursos públicos, que é o grande mal que assola o desenvolvimento do Brasil. Mesmo com as suspeitas, a Copa pode ter contribuído para que este assunto não saia mais da pauta de todos os grandes noticiários e veículos de imprensa do país.

2) Da gestão: por ora encabeçado pelo Poder Público (as Sedes e o respectivo amparo Municipal e Estadual, somado aos subsídios federais), os donos de estádios (públicos e/ou privados), o Comitê Organizador Local e, naturalmente, a própria FIFA. A sensação de que poderíamos ter administrado melhor as expectativas de cada stakeholder e as respectivas entregas para a população. Apesar da visão minimalista de alguns críticos sobre um processo tão complexo, fica o aprendizado de que a gestão do esporte no Brasil ainda precisa melhorar muito para se ter a clara compreensão do “fenômeno” que são os grandes eventos. Somado a isto, o nosso desejo por um futebol melhor no Brasil ainda não virá de forma consistente no 2º semestre de 2014, como sonhávamos em 2007 quando o Brasil foi escolhido sede da Copa. Mas seguirá também seu caminho (lento mas) evolutivo até o final desta década, tendo agora parâmetros sobre o que é uma entrega com qualidade para torcedores, patrocinadores e mídia.

3) Da Copa: que, apesar de depender das duas primeiras, na sua essência, não tem nada a ver com isso. É verdade!!! Esse clima “bacana” de Mundial, em que jogadores alemães dançam com índios, craques da Holanda visitam o Cristo e mergulham no mar de Ipanema e estrelas inglesas visitam a Rocinha são a cara do evento. Os pequenos gestos e símbolos de um megaevento, tal e qual víamos de longe e na madrugada direto da Coréia/Japão em 2002, ou nas Copas subsequentes na Alemanha e na África do Sul, cada qual com características únicas e marcantes, formam um conjunto verdadeiramente diferente de tudo aquilo que estamos acostumados a falar, imaginar e vivenciar. É o evento em que os astros milionários se mostram mais “humanos” aos olhos do senso comum. É a relação de sonhos divididos entre seleções poderosíssimas com outras de menor expressão, encontrando o ponto comum que as tornam únicas simplesmente pelo fato de celebrarem um acontecimento ímpar com o mundo.

Todos os inúmeros mitos e valores intangíveis da Copa do Mundo que foram sinteticamente descritos no item três foram acobertados pelos dois primeiros, infelizmente. A expectativa gostosa de viver uma Copa do Mundo se aproximando meses antes foi minimizada por todos estes fatos já enormemente narrados por inúmeros veículos de comunicação (sensacionalistas ou não), embora ainda existam muitos temas que não foram totalmente esgotados da agenda evolutiva que o Brasil necessita.

Apesar de tudo, como estamos em um país democrático e, portanto, deve respeitar também os mais de 70% da população que tem o futebol como sua modalidade preferida, que nos reservemos o direito de aproveitar aquele que, talvez, será o único mundial de futebol que vivenciaremos de fato em nosso país – digo isso tendo em vista a minha geração.

A efervescência da Copa não é feita apenas pelos 22 jogadores que entram em campo, mas também, por todo o clima positivo que é gerado em seu favor. E vale lembrar que este é um ano importantíssimo para as mudanças do país – elas ocorrerão no dia 03 de outubro, independente do Brasil ser hexacampeão ou não!!!