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Tomar decisões: algo simples e complexo

Por que em situações semelhantes, alguns jogadores conseguem tomar decisões melhores e de forma mais rápida do que outros?

É notória a revolução causada pelos smartphones na vida das pessoas, a comunicação virtual ficou mais ágil e diversificada, é possível ter acesso a um número muito grande de informações em pouco tempo, e muitas outras possibilidades. Quero, entretanto, que se atentem à seguinte situação: quantas vezes você já viu uma pessoa (ou você mesmo) caminhando enquanto direciona seu olhar e atenção ao seu celular? Fazemos isso sem perdermos o caminho, trombar com outra pessoa ou um poste. Eu mesmo, no caminho de casa ao trabalho que faço a pé e em cerca de dez minutos, por diversas vezes vou lendo ou conversando com amigos no celular, sem me atentar ao trajeto. É uma tarefa complexa (manter-se no caminho certo, desviar do que obstrui passagem e, ainda, concentrar-se no que vê na tela do celular) que, de início, não se executa com tanta maestria, porém, após realizar tantas vezes e sempre com alguns elementos diferentes, nosso cérebro conduz nossas ações de forma cada vez mais eficaz. Somos capazes de usar o celular e percorrer o trajeto sem maiores problemas. Nosso cérebro é capaz de avaliar uma grande quantidade de informações e oferecer resposta a elas de forma praticamente instantânea.

Convido agora para que leiam os dois quadros abaixo:

                                                       abc       numeros

Provavelmente você leu o primeiro quadro como “A, B, C” e o segundo como “12, 13, 14”, porém se deu conta de que a letra “B” e o número “13” tem exatamente a mesma grafia? A grande maioria das pessoas não consegue notar isso, o que é natural, pois nosso cérebro traz uma resposta rápida aos problemas que somos expostos, a partir das informações que já possui e do ambiente em que nos encontramos. No primeiro quadro existe uma maioria de letras, enquanto, no segundo, de números. A nossa experiência de enxergar letras no contexto de letras, e números no contexto de números, nos conduz a ler os quadros desta forma. Este exemplo foi retirado do livro “Rápido e Devagar: duas formas de pensar” de Daniel Kahneman, que, a partir de anos de estudos, mostra a forma como nosso cérebro trabalha para tomar decisões.

Olhando para a capacidade de tomar boas decisões de alguns jogadores e refletindo a partir da nossa habilidade de identificar e responder a problemas, a partir do conhecimento adquirido por experiências prévias, podemos conceber que em uma partida de futebol os jogadores, prioritariamente, tomam as decisões baseados na leitura que conseguem fazer do ambiente no momento, consultando em seu cérebro todas as informações que possui armazenadas. Se ele não detém determinada informação, as chances de tomar uma decisão ruim, ou menos adequada, são extremamente consideráveis.

Os jogadores precisam, além de ser capazes de tomar boas decisões, responder motoramente de forma eficaz e, na maioria das vezes, fazer tudo isso em uma fração de segundos. Tomar a decisão e executá-la é simples, fazer isso de forma correta é complexo. Sabendo que os atletas precisam ter o máximo possível de informações armazenadas em seu cérebro e serem capazes de as executar de forma rápida e correta, não adianta cobrar determinadas ações deles nos jogos, se isso anteriormente não lhes foi oferecido nas sessões de treino. O atleta só vai ser capaz de responder de forma efetiva, para determinados momentos do jogo em que se encontra, se já tiver vivenciado alguma situação semelhante. Portanto, quanto mais se expor o atleta a situações que exijam identificar, discernir e executar de forma correta, ou seja, tomar e executar as boas decisões, maior será a quantidade de informações que ele terá armazenada para consultar.

Todos aqueles que acompanham o futebol e, principalmente, aqueles que trabalham diariamente com treinamento, já devem ter se deparado com situações bem discrepantes de tomada de decisão e execução dos jogadores, sejam eles de alta ou baixa capacidade técnica, tática, física ou psicológica (vertentes que são exigidas de forma indivisível em um jogo). Isso não é acaso, cada um responderá a uma determinada situação a partir da informação que detém. Caberá, então, à comissão identificar, dentro das ideias de jogo a que se propõem construir, que características os treinos deverão ter a fim de preparar seus jogadores para responder da forma mais correta possível a cada decisão que precisam tomar durante um jogo.