Categorias
Colunas

O nome das coisas

A Fifa anunciou na última sexta-feira (27), após congresso realizado na Índia, que havia decidido reconhecer como mundiais as Copas Intercontinentais disputadas entre 1960 e 2004, período em que os embates entre campeões da América do Sul e da Europa foram feitos sem chancela da entidade. Até então, apenas o torneio de 2000 e as edições disputadas de 2005 em diante eram consideradas. E o que isso muda? A resposta passa diretamente por muitos conceitos de comunicação.

Pergunte ao torcedor de Santos, Flamengo, Grêmio ou São Paulo, times que haviam sido campeões mundiais no período que a Fifa ainda não tinha reconhecido, se eles deixaram para celebrar apenas agora. Pergunte se isso mudou o valor ou o sentimento que envolveu essas conquistas.

A resposta é que o reconhecimento da Fifa nunca foi imprescindível. A chancela da entidade tem seu peso, é claro, mas não muda a história. O nome das coisas é apenas o nome, e isso é somente um elemento em um contexto de um título. Reduzir a festa ao “é Mundial” ou “não é Mundial” é reduzir também o valor da taça.

É por isso que é tão questionável o comportamento do Palmeiras sobre a Taça Rio de 1951. A competição foi relevante, contou com grandes clubes, e chamar o torneio de Mundial é uma demanda que apenas diminui o valor do certame.

O Brasil já acompanhou um episódio semelhante quando a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) resolveu reconhecer como Brasileiros o Roberto Gomes Pedrosa e a Taça Brasil. Houve uma canetada para mudar o status e o nome de duas competições que foram nacionais, como se equipará-las ao Brasileiro fosse fundamental para o valor delas. De certa forma, é uma linha de comunicação que diminui os próprios eventos.

Se você depende de chamar um objeto de cadeira para que as pessoas se sentem, existe uma falha em diversos níveis de comunicação não verbal sobre o artefato. A teoria lacaniana de comunicação diz que a cadeira só existe a partir do momento em que alguém se refere a ela como cadeira. Essa construção, contudo, não depende apenas do nome. É uma soma de elementos que se aglutinam e moldam um perfil palatável.

Comunicação é feita de sutilezas e não depende apenas de nomes, ainda que nomes sejam elementos que ajudem a dar identidade.

 

A queda do Corinthians

Não foi apenas a vantagem do Corinthians que derreteu no Campeonato Brasileiro; foi o próprio Corinthians. Líder do certame nacional, o time paulista fez campanha histórica no primeiro turno e abriu vantagem que parecia intransponível. Depois, perdeu rendimento e ressuscitou o Palmeiras, a despeito de o time alviverde também ter questões a resolver – basta lembrar que a diretoria mudou o comando técnico há menos de um mês, quando demitiu Cuca e efetivou Alberto Valentim.

A história do Campeonato Brasileiro pode ser a de times que conseguiram chegar ao título apesar das temporadas acidentadas – casos de Palmeiras e Santos. Mas se o ano não acabar com título do Corinthians, vai ser contado sempre sobre a decadência vertiginosa (pela proporção e pela velocidade) do time paulista.

No momento, o que parece acontecer é um enorme cenário de problema de comunicação entre diretoria, comissão técnica, jogadores e torcedores do Corinthians. Há uma carga evidente de desmobilização, de falta de confiança e de pressa.

O Corinthians tem muitas questões a resolver até o clássico contra o Palmeiras, agendado para a próxima rodada. Muitas dessas perguntas têm a ver com comunicação: como fazer para que um grupo recupere o elã e retome a confiança em tão pouco tempo? Como preparar a mentalidade desses jogadores para uma necessidade que o time não teve neste ano, que é a de vencer sempre?

Independentemente do resultado final, as últimas rodadas do Campeonato Brasileiro serão marcadas por estratégias e pelo discurso. Vai ser curioso ver a abordagem que cada equipe terá.