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Construção expressa de um time

Observo a reconstrução da equipe profissional da Chapecoense e tenho a percepção de quanto deve estar sendo difícil montar esse quebra-cabeça dentro do contexto atual do futebol brasileiro. Como então, conseguir montar uma equipe competitiva e engajada para a temporada que está por iniciar nos próximos dias?! Esta com certeza é uma tarefa difícil para todos e qualquer clube, imagina para um clube que passa por uma situação de tragédia pela qual a Chape passou recentemente?

Sabemos que a montagem de quase um novo elenco ainda é algo comum no futebol brasileiro, infelizmente, pois ainda lentamente os clubes começam a procurar por continuidade dos trabalhos atuais, uma vez que alguns já perceberam os benefícios na adoção desta estratégia.

Acredito particularmente que o clube como a Chape tem um grande desafio no momento, pois precisam realinhar internamente entre todos os envolvidos e definir a direção para orientar o futebol profissional a partir de agora. Isso pode passar até por uma revisão de metas e objetivos. Passa também por uma definição de qual perfil de profissionais melhor se encaixam nesse novo elenco profissional, desde a comissão técnica até os atletas envolvidos.

Porém, o principal ponto de convergência, talvez nem seja a seleção e captação adequada dos atletas, mas sim a capacidade de construir um time coeso e engajado verdadeiramente com o propósito da Chape. Para tal, o propósito coletivo precisará estar totalmente claro e internalizado por todos, pois o esforço em tempo reduzido para a construção deste espírito de equipe já será por si só um desafio ímpar para o momento.

Observando por este ponto de vista, vale a pena relembrarmos as principais diferenças entre grupos e times, fornecida por Maddux.

                                                           GRUPOS                                                                      TIMES
Indivíduos que trabalham independentemente Membros que são interdependentes
Membros focados em si, agendas e responsabilidades ocultas Metas comuns, propósito, missão e senso de unidade
Existem desconfiança e desentendimentos Ambiente aberto e de confiança, desentendimentos vistos como positivos e geram aprendizado
Comunicação é obscura Comunicação aberta e honesta
Conflito é evitado ou escalado Reconhecimento do valor dos conflitos, com estratégias de resolução de problemas colocadas em ação
Membros conformados Expressão livre entre os membros

Ao prestarmos atenção entre as percepções diferentes de um grupo e um time, já podemos ter a clareza de quanto trabalho será necessário desenvolver para que seja possível o desenvolvimento desta coesão, bem como para que evolua a capacidade de colaboração e entrosamento de todos os atletas do elenco para formar uma verdadeira equipe.

Concluindo, acrescento mais um valioso conceito de time (equipe), elaborada por Smith e Katzancah (1993): “Um determinado número de pessoas com habilidades complementares que estão comprometidos com um propósito comum, metas de desempenho e abordagens contabilizadas de forma mútua”.

Até a próxima e boa sorte à Chapecoense!

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Preguiça, “migué”, “tiriça”… será que é sempre só isso mesmo?

Amigos leitores, quem aqui, em algum momento de sua vida, não sentiu um certo desânimo, falta de vontade, preguiça (popularmente chamada de “migué” ou “tiriça” no meio futebolístico) para realizar algum tipo de atividade? Acredito que este seja um sentimento natural a todo ser humano. Este sentimento pode ser motivado por diversos fatores, porém, em grande parte, aflora em função da atividade a ser realizada. Dificilmente temos este sentimento em realizar atividades prazerosas a nós; ele vem atrelado à realização de atividades que não nos geram motivação, prazer. Como já dito, algo natural dada a condição.

O futebol deve ser algo prazeroso a quem pratica e a quem assiste. Em minha concepção, se isso não estiver ocorrendo, há algo de errado em algum ponto do sistema. O despertar do interesse pelo futebol nas crianças se deve ao prazer que ele proporciona, a alegria de correr atrás da bola, de marcar um gol, de driblar, defender um pênalti, de assistir uma partida do time de coração junto aos pais, ir ao estádio… Tudo isso fascina as crianças e, logo cedo, as impulsiona a sua prática no quintal de casa, driblando o cachorro, nas escolinhas e em outros espaços (ao longo dos anos essas práticas primárias do jogo vêm perdendo espaço para atrativos eletrônicos, mas este é outro assunto.).

Com o passar do tempo e o seu amadurecimento, as crianças começam a fomentar um sonho maior, desejam ser jogadores profissionais, jogar em estádios lotados, defender a camisa do clube de coração, da seleção, do time onde seu ídolo joga e, em busca da realização destes e outros sonhos, buscam ingressar nas categorias de base dos clubes. A esta altura, o cuidado com estes sonhos deve ser muito grande, principalmente por parte de pais e treinadores, que também possuem aspirações pessoais ligadas aos jovens jogadores.

Síndrome de Burnout é uma síndrome psicológica identificada e estudada primeiramente pelos psicólogos Herbert J. Freudenberger, Christina Maslach e Susan Jackson, entre as décadas de 70 e 80. Foi o termo adotado ao estado de fadiga e exaustão, ou perda de energia física e mental, despersonalização e reduzida realização profissional, fruto de aspirações exageradas a alcançar objetivos não realistas traçados pelo indivíduo ou pelos valores da sociedade, e também pelo envolvimento com pessoas dependentes, de algum modo, de sua ação profissional. Os estudos direcionados à presença do Burnout no contexto esportivo apontam que não é o grau de profissionalismo que determina sua presença, mas sim as circunstâncias esportivas e as fontes de estresse associadas à pratica esportiva a qual o sujeito está exposto, tais fontes e circunstâncias podem ser: o estilo do treinador, altas demandas competitivas, estratégias de enfrentamento, estilo de vida externo, monotonia do treinamento e escassez de reforços positivos. No intuito de melhor diagnosticar e mensurar a síndrome em atletas, pesquisadores desenvolveram o Athlete Burnout Questionnaire (ABQ), considerado o mais adequado para o contexto esportivo. Além da falta de motivação, queda de desempenho e exposição a lesões, uma das últimas consequências da síndrome é o abandono da prática esportiva.

Agora, num contexto em que há jogadores com muitos sonhos e aspirações, pais e treinadores com grandes expectativas e ambições a respeito do desempenho destes jogadores, estão desenhando um propício cenário ao desencadeamento desta síndrome em atletas. Isso não quer dizer que, repentinamente, estes irão abandonar a prática esportiva, esse processo ocorre de forma mais lenta e muitas vezes silenciosa. Mas é claro, isso não é uma regra, nem todos virão a desenvolver, mas todos estão sujeitos se não bem conduzidos e orientados quanto aos aspectos psicossociais do jogo e de tudo o que o cerca.

Reflitamos sobre a seguinte situação, após uma temporada exaustiva, repleta de concentrações, sessões de treino e jogos, o que grande parte dos atletas vão fazer em seu período de férias? Participar das famosas “peladas” de final de ano, jogos sem cunho competitivo e muitas vezes de apelo a causas sociais, quando o placar do jogo é o menos importante e os jogadores buscam o prazer em “bater uma bola”. É fácil constatar que o futebol continua a ser efetiva fonte de prazer a estes atletas e que eles não deixam de encontrar motivação para sua prática, mesmo após concretizarem muitos dos sonhos de criança. Sendo assim, por quais motivos observamos estes jogadores apresentarem desleixo, displicência, desmotivação, os famosos “migué ou tiriça” em treinos e jogos ao longo da temporada? Por que jogadores de notória capacidade passam a apresentar um desempenho aquém do que poderiam alcançar? Será que só o caráter competitivo é o desencadeador destes comportamentos? Por que Adriano “Imperador” desistiu do futebol tão cedo? Por que aos 42 anos Zé Roberto continua atuando? Por que jogadores como Zidane e Pirlo, já com idades avançadas, 34 e 35, disputaram finais de Copa do Mundo e Champions League, enquanto jogadores como Ronaldo e Ronaldinho já não figuram mais no protagonismo da disputa de grandes títulos?

O prazer, a motivação, a inspiração, a alegria, são fatores intrínsecos ao jogo, cada apaixonado pelo futebol, ao tentar voltar a mais remota lembrança de contato com o jogo, trará a memória tais sentimentos. A desmotivação, falta de alegria, de prazer pela prática, são fatores que se desencadeiam ao longo do processo, muito em função de fatores estressantes identificados no Burnout.

Finalizo esta coluna com a seguinte questão: Se a alegria, o prazer, o lúdico, são elementos motivadores que podem facilitar o bom desempenho e estão no cerne da prática do futebol, por que então não os levar em consideração, estimular e utilizar como aliados no planejamento e aplicação dos treinos?

Bons treinos! Que nossa ação seja mais motivadora e condutora de realização de sonhos, do que desestimulante e condutora da deserção do jogo. Até a próxima.

REFERÊNCIAS

PIRES, D. A.; BRANDÃO, M. R. F.; SILVA, C. B. Validação do questionário de burnout para atletas. Revista da EDUCAÇÃO FÍSICA/UEM, Maringá – PR, v. 17, n. 1, 2006. http://eduem.uem.br/ojs/index.php/RevEducFis/article/view/3353 

VERARDI, Carlos Eduardo Lopes. Burnout e estratégias de enfrentamento em jogadores de futebol profissionais e amadores.. 2008. 115 f. Tese (Doutorado em Medicina Interna; Medicina e Ciências Correlatas) – Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, São José do Rio Preto, 2008. http://bdtd.famerp.br/handle/tede/83

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Duas torcidas: Minas dá o exemplo

A crescente violência nos estádios de futebol tem levado os organizadores de eventos esportivos a realizarem os clássicos regionais com a presença de apenas uma das torcidas.

Conforme destacou Márcio de Souza Peixoto, “lamentavelmente, em que pese todo seu caráter lúdico e moral, o fenômeno da violência associada ao desporto sempre existiu. O esporte é uma forma de luta ritualizada especial, produto da vida cultural humana”. (PEIXOTO, 2011).

A relação entre violência e esporte é complexa, com maior visibilidade no futebol por causa do tamanho e importância deste esporte como um dos principais fenômenos sociocultural do século XX, e do alargamento da projeção do futebol-show como um dos principais produtos da indústria cultural.

Apesar de toda a complexidade do fenômeno da violência nos estádios de futebol, na tentativa de minorar o lastimável quadro em jogos de futebol, passou-se a sugerir a realização de jogos com torcida única como forma preventiva diante dos latentes riscos de segurança e ordem pública.

Além de não combater a violência, a torcida única demonstra despreparo, como bem ressaltou Marcos Lopes, da Tribuna do Norte: “o atestado de falência da segurança pública de um estado, é o atestado da perda de espaço dos bons, a vitória dos maus, a consolidação da violência e – insisto – a prova definitiva da incompetência do estado em garantir a segurança do bom torcedor”.

Contra a corrente, Atlético e Cruzeiro anunciaram que farão o primeiro clássico do ano, válido pela Primeira Liga com o Mineirão divido.

Sem dúvidas, a melhor notícia do início do ano. Uma vitória do futebol e do torcedor que merece fazer a festa na arquibancada e/ou assistir a festa pela TV, de casa.

Na prática, a torcida única não se mostrou eficaz para combater a violência, razão pela qual, o exemplo de Atlético e Cruzeiro deve se irradiar por todo o país.

O futebol agradece!

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Organização de jogo e suas alternativas

No decorrer dos anos, diversos paradigmas foram criados e quebrados, e transformações vêm acontecendo especialmente no Brasil. Transformações, se idealizadas corretamente, sem perda do DNA genuíno, proporcionam câmbios evolutivos relevantes. E esse é um período oportuno de crescimento e discussão da nomenclatura organização de jogo.

Organização de jogo, que alguns anos atrás era um estranho nome, um “fantasma europeu”, atualmente passou a ter uma conotação de grande relevância. Construtos teóricos, práticos e discursos de treinadores e gestores reforçam essa tese diariamente. É só pesquisar ou conversar com profissionais da área para notar diversas ideias explícitas, debatidas e especialmente ratificadas pelas numerosas alternativas organizacionais.

O termo organização pode ser tradicionalmente identificado como a coordenação planejada das atividades, tendo em vista uma quantidade de pessoas com o propósito ou objetivo comum, nítido, através da divisão do trabalho, autoridade e responsabilidade (SCHEIN, 1982). Também como um sistema criado ordenadamente para atender objetivos individuais ou coletivos e, com base nesses objetivos, modelar suas estruturas, estratégias, tecnologias, pessoas e processos (ETZIONI, 1973).

Com uma linha investigativa e reflexiva, Morgan (1996) acredita que uma organização deve ser concebida como um sistema vivo, que existe em um ambiente de interdependência-independência, com percepção satisfatória das suas várias necessidades, perspectivada dentro de uma ideia de que é possível planejar seu funcionamento como uma rede capaz de construir significados coletivo-comunicativos. Essa ideia remete ao entendimento da organização como fluxo e transformação, possivelmente o mais próximo da representação atual da cena organizacional, focalizada para as interações, para os círculos, para contradição e a crise.

Mesmo assim, como em qualquer área de conhecimento, existem várias tendências e todas são válidas. A vida organizacional clarificada por metáforas demonstra um pouco disso:

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Essas “metáforas organizacionais” automaticamente influenciam o entendimento de “organização de jogo” no futebol. Pensando numa definição simples, clara e aberta às várias tendências, “organização de jogo pode ser entendida como uma relação ou fragmentação de ideias específicas, construídas por interação intencional, recusa intencional ou pela individualidade de um dos componentes do jogo (estrutura, elementos e funcionalidade) distinguidas por nível de entendimento e pertinência, considerando intervenientes gerais e um contexto emergente-adaptativo que busca superar o adversário”.

E as equipes de futebol atuam como sistemas cujos constituintes se organizam com uma lógica particular, em função de ideias, num contexto de oposição e cooperação. No sentido em que as suas partes estão ligadas de certo modo e sob alguma norma, pode-se dizer que são sistemas caracterizados pela sua forma particular de organização. (GARGANTA, 1997)

O jogo de futebol é isso: um confronto de organizações singulares que precisam de uma ordem devidamente abalizada. E essa condição permite diversas formas de se organizar, já que não há nada que impeça a diversidade de expressão conceitual e operacional. Conceber as organizações como “formas Específicas de uma forma específica geral” que é o jogo de futebol, cria códigos intrínsecos de desempenho. Assim, cada organização possui sua identidade, demarcada por ideias, processos mais ou menos elaborados, sendo que o fim é sua eficácia qualitativo-quantitativa, ou seja, a vitória. E muitas vitórias são conquistadas por organizações variadas dentro de perspectivas distintas, seja no futebol formativo ou no futebol profissional. Abaixo algumas possibilidades, de muitas encontradas, dentre as alternativas organizacionais:

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Organização Mecânica Numérica e Reatividade Estratégica: procura focar mais na estrutura numérica de jogo. Cria padrões de movimentos rígidos, fechando um pouco a relação interativa do jogo, com exagerada ordem estática. Isola em demasia as tarefas dos jogadores. Também pode mirar exclusivamente na reação dos movimentos do adversário, fazendo a equipe apenas jogar espelhada durante o jogo inteiro, abusando da dimensão estratégica. Sua racionalidade mais formatada faz com que a equipe não se adapte as constantes mudanças que o jogo delineia. É perspicaz na manutenção de uma regularidade, mas pode não sobreviver continuamente ao longo do processo pela rigidez informacional.

Organização Natural dos Jogadores: o jogo possui relações naturais gerais e relações essenciais à interação natural dos jogadores que são capitais. Mas dar demasiada importância, ou deixar exclusivamente para isso, retirando alguns aspectos organizacionais do jogo, pode fazer do jogo um efeito cascata, de um estado caótico desordenado.  Também essa organização está mais baseada no que os jogadores fazem individualmente, dando liberdade excessiva, imprevisibilidade, pouco nível organizacional e escassez informacional. Pela aleatoriedade, dependendo do adversário, pode conseguir fazer prevalecer o estado caótico da estrutura com a combinação do estado caótico do jogo, assim virando um “estado de jogo desordenado cobiçado”.

Organização da Sobrevalorização de um ou dois Momentos do Jogo: os cinco momentos do jogo (ataque-pós-perda-defesa-pós-recuperação-bolas-paradas) estão dentro dos elementos do jogo. Essa organização procura controlar um ou dois desses momentos do jogo, com “eficácia funcional estabelecida”. Trabalha em grande parcela as relações dos jogadores nas ações exclusivas, com preponderância ao momento ou os “momentos fortes” escolhidos para confrontar o jogo. Também pode ter uma forte dominância estratégica. Sua riqueza ou pobreza organizacional e informacional fica suscetível à sistematização e variabilidade da construção processual. Contudo pode ser tonificante, se bem operacionalizada ao longo do ano, devido ao desgaste menor que pode proporcionar.

Organização Conceitual com Excesso Informativo: como o nome já diz, o excesso de informação conceitual, dependendo do grupo de jogadores, e da cultura, pode sobrepor a capacidade de recepção e absorção dos jogadores. Essa informação pode ser passada de diversas formas, mas se passada de forma “copiosa”, com excessos de regras de ação e regras de treino, pode dificultar alguns grupos que não possuem ativação prévia. Esse excesso gera curtos-circuitos internos cognitivos que fazem o conteúdo conceitual ir além das possibilidades dos jogadores. Também pode fazer o jogador apenas jogar pelo conceito, se distanciando dos outros intervenientes da organização do jogo. Porém, se bem equilibrada, pode ser um meio rico para organizar uma equipe.

Organização Interativa: nesse estilo de organização, as várias possibilidades acima podem ser transferidas em uma só, se juntando com outras ideias, e criando uma coordenação interativa de intenções, formando uma rede de interações com demandas interpretativas do jogar que se pretende para enfrentar o jogo. Considera os processos organizacionais relativos às estruturas de jogo, às relações naturais dos jogadores, inter-relações dos momentos do jogo, dimensões do jogo específicas, conjunturas/interações de movimentos, conceitos/princípios, possíveis posturas do adversário e estratégias zonais-coletivas. Se bem operacionalizada pode gerar variações internas que proporcionam uma fluidez de jogo. Aqui entra a ideia de Maturana (2002), a Autopoiese (Autoprodução), entendida como “dinâmica construtiva-interativa de seres-vivos auto-organizados e auto-organizáveis buscando condições e fluidez de equilíbrio-desiquilíbrio-equilíbrio. Ela também precisa ser construída corretamente devido as hierarquias envolta da ideia. Se conter excessos informativos, desconexões, dificuldades de controle ou exacerbação de conteúdos, pode entrar no mesmo panorama da organização conceitual.

Então o que é uma boa organização de jogo? Precisa de rigidez excessiva? Precisa de liberdade excessiva? Mecanizada? Reativa? Formatada? Apenas conceitual? Alguma alternativa que nem está entre as citadas acima? Analisando friamente, organizar o jogo tem um pouco de tudo que foi levantado, então nenhuma perspectiva deve ser pré-julgada ou levada como ópio, apenas norteada com maior identificação.

A questão é criar uma identidade organizacional. Mas como? Somente com reflexões, debates e percepções contextuais. Simplesmente, criar algo próprio, de acordo com a realidade, experiência e conhecimento. Muitas questões no futebol dão certas desacompanhadas, outras conectadas, outras nem estão nas linhas acima, geradas pela sensibilidade individual e imprevisibilidade que cada jogo e cada contexto tem. Por isso, não se pode enxergar apenas uma “Organização da organização”, pois cada novo contexto, cada realidade exige, às vezes, aspectos organizacionais por vezes negligenciados num contexto passado. Não esqueçamos que dentro da cada perspectiva há muita riqueza de conteúdo e reflexões positivas e negativas.

Enfim, o interessante de tudo isso, é ver cada vez mais o crescimento da ideia interativa, que também possui suas diferenciações e alternativas, e que de certa forma, retrata um pouco mais a organização singular de cada equipe, o confronto entre as equipes e a auto-organização provocada.

Abraços a todos e até a próxima quarta!

 
 
Referências
ETZIONI, Amitai. Organizações complexas. São Paulo: Atlas, 1973.
GARGANTA, J. M. Modelação tática do jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto, 1997.
MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
MORGAN, G. Imagens da Organização. São Paulo: São Paulo: Atlas ,1996.
SCHEIN, H. Edgar. Psicologia Organizacional. Rio de Janeiro: Prentice-Hall do Brasil, 1982.

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Quando o torcedor define a estratégia

O exemplo da vez é o marfinense Didier Drogba, 38, que virou sonho do Corinthians. Mas poderia ser o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, 34, pretendido pelo Coritiba. Como acontece em praticamente todas as janelas de transferências do futebol brasileiro, pululam exemplos em 2017 de clubes que perseguem grifes. São negociações conduzidas quase sempre a partir do marketing, independentes da necessidade ou das ideias do departamento de futebol.

A lógica ganhou corpo depois de 2008, quando o mesmo Corinthians contratou Ronaldo. Naquele dezembro, recém-egresso da Série B do Campeonato Brasileiro, o time paulista conseguiu seduzir um dos maiores nomes da história do futebol nacional. O camisa 9 atraiu parceiros comerciais, turbinou a arrecadação em diferentes segmentos (patrocínio de camisa, bilheteria e venda de direitos de mídia, por exemplo) e ainda deu retorno em campo. Foi protagonista nos títulos do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil no primeiro semestre de 2009.

Investir em grife não era novidade no futebol brasileiro, mas a lógica ganhou força com Ronaldo. Foram muitas as tentativas posteriores – algumas com sucesso, outras menos produtivas –, e praticamente todos os negócios têm em comum a falta de uma abordagem sistêmica. Quando o Fluminense fechou com Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, o departamento técnico não foi consultado. Não havia um extenso plano de comunicação e tampouco uma linha de produtos específica para o astro. Todas as ações relacionadas a ele foram desenvolvidas posteriormente, atreladas ao desempenho – o que justifica, nesse caso, uma gigantesca parte da inércia da equipe.

Por isso chama atenção o caminho adotado pelo Corinthians no negócio com Drogba. O estafe do jogador de excelente passagem pelo Chelsea foi procurado por um emissário ligado ao time paulista após ideia do ex-volante Vampeta. Os brasileiros descobriram que o negócio era viável, mas o presidente Roberto de Andrade era reticente.

Aí apareceu o torcedor. Quando a possibilidade foi aventada e a negociação foi divulgada pelo site UOL Esporte, os corintianos se animaram e “invadiram” as redes sociais de Drogba. Houve toda sorte de pedidos para que o jogador fechasse com o time brasileiro. E de repente, o negócio que suscitava discussões até no próprio clube virou uma possibilidade concreta.

A convicção do Corinthians sobre Drogba tem relação com a reação do público. Em casos assim, é comum que clube ou empresários usem a divulgação como balão de ensaio ou como teste de popularidade. Se houver receptividade, a conversa avança.

A divulgação de possibilidades assim também funciona como teste de mercado. O Corinthians já encontrou parceiros para bancar Drogba, mas o custo da operação é apenas uma das partes do negócio. Testar o mercado, nesse caso, é entender quanto é possível faturar com um jogador desse perfil.

É por isso que o jogador é o último a saber. A negociação acontece antes, como uma medição de popularidade e de viabilidade. Se tudo cumprir o roteiro, o clube passa a ter algo bem mais consistente para oferecer. Sobretudo se os valores já forem adequados às pretensões do atleta.

A falta de convicção na estratégia, contudo, não é o único ponto comum a todas as apostas citadas no texto. Também existe uma clara estruturação da comunicação em torno de uma figura.

Nesse sentido, o futebol brasileiro ainda não conseguiu encontrar um caminho diferente do que é feito por modalidades individuais ou por ligas em que o talento de um atleta faz mais diferença para o contexto.

A NBA (liga profissional de basquete dos Estados Unidos) é um exemplo de competição que fomenta o uso do talento individual na comunicação. O torneio vetou durante anos o uso de marcação por zona, por exemplo: a ideia era espaçar a quadra e garantir demonstrações de talento como enterradas ou infiltrações geniais.

A marcação individual já deixou de ser um tabu, mas a NBA ainda tem resquícios de outrora e segue construindo planos de comunicação em torno de “franchise players” (ou “jogadores franquia”, em tradução livre). Ainda que não seja um Michael Jordan, vários times baseiam seu plano de comunicação em uma figura dominante ou heroica.

Contar uma história a partir de um bom protagonista é muito mais simples. Um bom protagonista gera empatia e desperta curiosidade sobre sua jornada, e a partir disso o desafio é apenas criar uma narrativa que não seja truncada.

No entanto, a dúvida que alguns times brasileiros levantam é se é tão impossível assim encontrar um caminho que não dependa apenas de protagonistas. Há muitos meios para contar uma boa história, e nem sempre é tão difícil fugir da aposta em uma figura redentora.

O segredo nesse caso é o desenvolvimento de uma identidade. Comunicar qualquer coisa com âmbito institucional ou foco mais amplo depende de você saber quais características deseja mostrar e como pretende apresentar isso ao público.

O futebol brasileiro segue à caça de jogadores que funcionem como astros e que façam o time gravitar em torno de sua imagem. Enquanto não definirem que imagem é essa, contudo, as equipes locais continuarão com uma margem de erro bem acima do aceitável. O torcedor pode até ser um bom parâmetro, mas não um parâmetro superior à convicção.

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O futebol na maior economia do mundo

Ao falarmos sobre cases de sucesso no mundo do marketing esportivo que englobe todas as partes envolvidas, nomeadamente fãs, marcas, atletas, times, ligas, eventos e mídia, obrigatoriamente falamos do esporte norte-americano e do enorme sucesso de ligas como a NBA, a NFL, a MLB e a NHL. Não se trata apenas de um jogo de basquete, futebol americano, beisebol ou hóquei, mas sim de verdadeiros espetáculos que exploram, na máxima conotação da palavra, tudo o que possa ser extraído.

Esse fenômeno não ocorreu historicamente com o futebol na mesma intensidade. Muito por conta da cultura esportiva do país, acostumada a ter sempre um vencedor e jogos com placares elevados. O futebol, nesse aspecto, pode sofrer resistência e ser considerado um jogo tedioso, onde é possível passar 90 minutos sem que o momento máximo, o gol, simplesmente não aconteça.

Algumas tentativas de popularização do esporte foram feitas ao longo dos tempos. A primeira mais notável, sem dúvida, ocorreu durante a década de 70, quando houve a criação da NASL (North America Soccer League) e a chegada de uma constelação de grandes craques consagrados, muitos em final de carreira, que desembarcaram para desbravar esse terreno fértil. Verdadeiras celebridades como Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Carlos Alberto Torres e Eusébio emprestaram a sua magia em troca de cifras que muitos ainda não tinham conquistado ao longo de suas brilhantes carreiras.  Não podemos dizer que foi um fracasso, pois a repercussão foi gigantesca. Porém, não perdurou e a NASL foi extinta em 1984.

Após mais de uma década sem uma liga profissional, a Major League Soccer foi criada em 1996, como forma de cumprir a promessa feita à FIFA durante a escolha do país como sede da Copa do Mundo de 94. Durante essas últimas duas décadas, tivemos momentos de maior euforia e outros onde imaginou-se que o futebol voltaria ao amadorismo da década de 80. Algumas mudanças de regras foram testadas dentro de campo com o objetivo de agradar ao público acostumado com os esportes mais populares do país, mas não foram suficientes para trazer uma massa de fãs compatível com as expectativas. Logo, foram deixadas de lado e as regras adotadas fora de campo é que começaram a surtir efeito.

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O modelo de negócio da MLS merece ser avaliado com atenção. Para os americanos, estamos falando de negócio e, nesse aspecto, eles são imbatíveis. Ao contrário do que foi apresentado no texto da semana passada sobre a China, a MLS preza por um controle bastante rigoroso sobre os gastos. Os investimentos crescem conforme as receitas aumentam, há um total equilíbrio nessa equação.

O grande motivo para que esse controle ocorra é o fato dos clubes, ou melhor dizendo, das franquias, serem sócias da liga, não meramente participantes. Diferente do que acontece no Brasil e também nas grandes ligas europeias, os clubes não são associações sem fins lucrativos ou caprichos de grandes bilionários. São empresas e, como empresas no maior país capitalista do mundo, são geridas para garantir lucro aos seus investidores.

Outra diferença existente em comparação com o Brasil e as ligas europeias é que lá não existe divisões de acesso. As franquias participam do campeonato sem o risco de rebaixamento, fazendo parte de um grupo fechado, como ocorre com as grandes ligas americanas em outros esportes. Em 2016, foram 20 times participantes e o plano de expansão prevê um total de 28 times até 2020.

Para possibilitar o máximo equilíbrio técnico entre as equipes, a MLS realiza o draft para a seleção de novos atletas a cada nova temporada. As equipes com pior desempenho possuem as melhores opções de escolha. Por ano, cada franquia pode gastar US$ 3,66 milhões, valores modestos se compararmos com o que acontece mundo afora. Além disso, cada equipe pode contratar até 3 jogadores chamados “Designated Player”, patamar que se enquadram as grandes estrelas do futebol mundial que ganham o valor máximo de US$ 457.500 por mês. São esses jogadores designados que ajudam a divulgar a liga, tanto para o aumento do interesse do público interno, como também para que o mundo enxergue o potencial do futebol nesse mercado.

Essa regra de jogador designado surgiu há dez anos atrás com a chegada do inglês David Beckham ao Los Angeles Galaxy e a liga optou por aumentar o limite para três jogadores ao obter resultados satisfatórios em seu planejamento. De lá para cá, outras grandes estrelas chegaram aos EUA, como Thierry Henry, Pirlo, Drogba, David Villa, Steven Gerrard e o brasileiro Kaká.

O sucesso tem acontecido de forma gradual. Hoje a MLS conta com grandes marcas patrocinadoras. Empresas do porte de Adidas, AT&T, Audi, Coca- Cola, EA Sports, Heineken, Etihad e Johnson & Johnson fazem parte dessa lista. As audiências crescem ano a ano, com os jogos transmitidos pela FOX, ESPN e Univision, além de transmissão internacional para 140 países. Hoje alcança mais de 30 milhões de seguidores em sua audiência televisiva, com crescimento acima de 25% ao ano, atingindo o público mais desejado pelos anunciantes, com idade entre 18 e 34 anos. A presença de torcedores no estádio também está em evolução, sendo hoje a 7º liga do mundo com maior média de público, acima de 21.500 torcedores por jogo.

É notável o avanço técnico do futebol norte-americano, comprovado pelo fortalecimento da seleção nacional que conquistou respeito nas últimas duas décadas após a realização da Copa do Mundo de 94, em seu território. Se ainda não faz parte do primeiro grupo de elite de seleções globais, também não podemos dizer que trata-se de um mero figurante nas competições que participa.

Não causará espanto se a MLS tornar-se uma liga tão forte como as principais europeias, bem como ver a seleção americana chegar ao topo nas próximas décadas. Nada disso será fruto do acaso.

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Mais um empréstimo, menos uma chance

No começo de toda temporada, observo a quantidade de atletas que chegam e saem dos seus clubes de origem. Me pergunto, por qual motivo estes vêm e vão sem conseguir materializar seus objetivos em temporadas bem-sucedidas, em termos de desempenho esportivo?

Às vezes imagino que o atleta nesta situação, não se dá conta que a cada ida e vinda, sem os resultados esperados, as chances de emplacar na carreira ficam cada vez menores, visto a oferta de novos atletas que se apresentam no mercado todos os anos. Penso particularmente que a falta do estabelecimento de metas para cada situação de empréstimo, pode ser uma das razões para que os atletas entrem e saiam dos clubes sem êxito.

Já abordei anteriormente sobre o tema metas, justamente por ser este, realmente, um ponto fundamental para a carreira de todo atleta de futebol. Acreditando nisso, vou compartilhar com vocês um item importante para que se tenham metas e objetivos na carreira. Este item é seu plano de ação!

Quando um atleta parte para um novo desafio, vindo de sucessivos empréstimos, traçar um plano de ação pode ser mais valioso do que ele imagina. Traçar bons planos de ação e metas para a carreira é fator fundamental de sucesso.

Por que é importante traçar um plano de ação?

Planejar, além de economizar tempo e consequentemente dinheiro, cria nortes para a execução das ações que levarão o atleta na direção dos objetivos traçados. Além disso, o planejamento prévio das ações, traz benefícios adicionais como:

  • Força o atleta a organizar seu pensamento e esclarecer os pontos que precisam ser enfrentados para alcançar o sucesso;
  • Um bom plano de ação, discutido e reavaliado, permite identificar falhas ou erros que podem ser evitados antes da execução.

A partir das metas definidas, na ocasião de um empréstimo, o atleta precisa planejar as ações que ele acredita conscientemente, que o levarão ao sucesso. Aí sim, ele aumentará suas chances de sucesso na temporada e com isso, finalmente, poderá se estabelecer na carreira dentro de futebol.

Para concluir a reflexão, vou citar as dicas para cada atleta traçar um bom plano de ação, conforme mencionado no livro Metas, de Brian Tracy.

  1. Faça uma lista de todas as coisas que lhe ocorrerem, que terá de fazer para ser bem-sucedido no novo empréstimo.
  2. Organize a lista por prioridades: qual a ação mais importante? Qual a 2ª mais importante? E assim por diante.
  3. Organize sua lista por sequência: qual a primeira ação a ser realizada, para que as demais possam ser executadas?
  4. Defina claramente quanto tempo será necessário para medir os impactos das ações realizadas, nos seus objetivos traçados.
  5. Consulte, gerencie e reveja periodicamente seu plano de ação.

Cabe a todo atleta lembrar que a busca e a conquista de uma meta são uma questão de escolha! Traçar um plano ajuda, mas não resolve o problema do baixo desempenho, o que realmente pode resolver essa questão é o seu empenho, engajamento e dedicação no caminho a seguir.

Até a próxima.

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O que esperar de 2017

O ano de 2016 ficou para trás. Um ano que ficará marcado para o resto de nossas vidas como o ano em que os deuses do Olimpo desembarcaram no Brasil, conheceram nossa batucada e se deleitaram com os maiores Jogos Olímpicos de todos os tempos na cidade maravilhosa.

Mostramos ao mundo que a organização impecável fica pequena diante da alegria, da hospitalidade e do gingado que só o brasileiro tem.

Sentimos orgulho!!! Nunca foi tão bom ser brasileiro!!!!

No final de 2016, nos Tribunais, o embate entre Riascos e o Cruzeiro teve dois novos capítulos. Primeiro, o atleta conseguiu uma liminar em um Habeas Corpus para atuar em outra equipe, logo em seguida, o clube conseguiu a revogação da liminar e Riascos continua no Cruzeiro.

No apagar das luzes de 2016, a maior tragédia da história do futebol nos assolou e devastou os nossos corações. A Chapecoense (nosso xodó) teve, praticamente, todo seu elenco dizimado em um acidente aéreo logo no momento em que voava para fazer a partida mais importante da história do clube, a final da Copa Sul-Americana.

Como bem destacou o advogado e membro da Academia Nacional de Direito Desportivo, Maurício Correa da Veiga em sua já tradicional retrospectiva do direito desportivo (http://www.conjur.com.br/2016-dez-31/retrospectiva-2016-direito-desportivo-passa-periodo-ebulicao):

“Por outro lado, a tragédia fez desabrochar o que há de melhor no ser humano: a solidariedade e a compaixão. A grandeza do povo colombiano, em especial o time e os torcedores do Atlético Nacional de Medellín, irradiou pelo planeta um sentimento que parecia estar ausente nas pessoas”.

Ainda, no finalzinho de 2016, a comissão de juristas, responsável pela atualização da Lei Geral do Desporto (conhecida como Lei Pelé) apresentou o relatório ao Congresso Nacional.

Segundo o relator Wladimyr Camargos, em entrevista à Agência Senado, a filosofia de seu relatório será “recuperar o espírito da Constituição de 1988, rompendo com a intervenção estatal presente nas legislações posteriores”.

A comunidade jusdesportiva aguarda com muita expectativa as mudanças que agora dependerão da aprovação nas duas casas do Congresso (Câmara e Senado).

As mudanças já começaram com a instauração do Tribunal Único Antidopagem que, em cerimônia realizada em dezembro, na sede do Ministério do Esporte, em Brasília, empossou os nove integrantes da corte. Fernanda Bini, Luísa Parente, Marcel de Souza, Luciano Hostins, Guilherme da Silva, Gustavo Delbin, Humberto de Moura, Tatiana Nunes e Eduardo de Rose foram os escolhidos pela Comissão Nacional de Atletas (CNA), confederações esportivas e Ministério do Esporte. Os nomes foram aprovados na 35ª reunião do Conselho Nacional do Esporte (CNE).

Após a posse, os nove membros se reuniram na sede do ministério para definir o nome do presidente do tribunal. O escolhido, por meio de votação, foi Luciano Hostins. Os membros do tribunal têm mandato de três anos, com possibilidade de recondução por outros três anos.

Com a nomeação dos integrantes do tribunal e a realização da primeira reunião, a expectativa é de que, nos próximos dias, a Agência Mundial Antidopagem (Wada, na sigla em inglês) declare o Brasil em conformidade com seu código mundial, levantando a suspensão anunciada no mês passado, durante encontro do Conselho de Fundação da entidade, em Glasgow (Escócia).

Os nomes indicados para sua composição deram o conforto ao desporto brasileiro de que o combate à dopagem será feroz, justo e efetivo.

Depois de muitos anos, é o primeiro ano que começa sem a expectativa de um grande evento esportivo. Passaram a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

Se em 2016, a Seleção Brasileira recuperou a autoestima, 2017 é o ano para reafirmar a condição de favorita ao título mundial em 2018.

Na Copa Libertadores da América, Palmeiras, Atlético, Flamengo, Santos, Botafogo, Grêmio e Chapecoense tem tudo para quebrar o jejum de títulos brasileiros. Aliás, com o abismo orçamentário entre os clubes brasileiros e o resto do continente, deveríamos ter uma larga supremacia.

No âmbito internacional o ano já começou com duas novidades: a Conmebol declarou guerra à manipulação de resultados com a contratação de empresa especializada e a FIFA tornou a Copa do Mundo ainda mais global com o aumento do número de participantes de 32 a 48, a partir do Mundial de 2026.

Ainda estamos nas primeiras páginas de 2017, que escrevamos capítulos memoráveis.

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Novo desafio em busca de constantes desafios

Prezados Leitores,

Aceitei esse convite para escrever na Universidade do Futebol, primeiramente, como um grande desafio individual em que posso expressar minha forma singular e particular de enxergar as múltiplas faces do futebol. E também com a grande motivação de tentar provocar inquietudes variadas, positivas e negativas em todos vocês.

Semanalmente dividirei linhas nesse veículo informativo com pessoas de grande coeficiente profissional, que expressaram ao longo dos anos seus ideais, e externam atualmente sua forma de pensar. Será, sem dúvida, uma grande responsabilidade. Este veículo informativo vem crescendo ao longo dos anos, ganhando novos traços e ajudando muitas pessoas a entenderem o futebol como um fenômeno complexo, sistêmico, diverso, construído, estudado, analisado e científico.

Penso que escrever uma coluna é como um processo de treinamento/jogo. Necessitamos de conhecimentos gerais, conteúdos planejados, conjunturas, análise e dados. Mas, acima de tudo, precisamos de ideias específicas e mutáveis, sem contradição, todas balizadas por inquietude constante, curiosidade diária, críticas, convicção e emoção, transmitida pelo que se sente e se pensa. Um sentimento real de jogo, em que a ponta da caneta e os dedos no teclado estampam a verdadeira extensão do que acontece na gestão da complexidade do treinamento/jogo.

Venho ao longo de doze anos atuando como treinador, auxiliar, preparador físico e coordenador, tanto no futebol quanto no futsal (muito mais no futebol), estudando, vendo jogos e, principalmente, permutando informações com colegas da área esportiva em geral. Assim, fui desenvolvendo uma forma de enxergar, acreditar, operacionalizar e intervir. Nenhuma fórmula mágica, pois ela não existe. Somente uma configuração peculiar de identificar um fenômeno que gera diariamente inquietudes, emoções e possibilidades reflexivas constantes.

Transmitir isso para os jogadores através de ideias é um dos nossos grandes desafios como treinadores. E comunicar isso para os leitores, fazendo com que entendam e possam interagir, também será de agora em diante. Evidente que essas ideias não devem ser tomadas como um padrão, mas que estimulem debates e interações, abrindo assim, novos horizontes nessa troca de princípios. Todos nós possuímos conhecimentos de uma forma geral, mas todo dia podemos dar saltos para novos aprendizados, fortalecendo nossa visão, sem perder o que temos de melhor.

Quando lideramos um processo, temos a capacidade de fazer com que os jogadores nos sigam. Isso não podemos negociar na nossa profissão. É quase como a brincadeira siga ao mestre. Porém aqui, nesse espaço, essa não é minha intenção. Muito menos penso em criar a C.O.A (Comunidade Obscura Anônima) e o A.F.C (Alquimismo Futebol Clube). Também não pretendo ser bairrista ao ponto de defender um único ideal de olhos tapados. Vejo muitos endeusarem mestres, ou venderem ideias soltas como suprassumo. Agem como fanáticos de carteirinha, ficando longe da essência que os criadores idealizam. Dessa forma se distanciam do principal, que é a troca de ideias e o crescimento de todos. Simplesmente expressarei ideias que podem ser aproveitadas ou descartadas, distintas ou complementares, como todas. E estarei, sempre, aberto a contestações, opiniões e ajudas. Assim, crescemos todos.

Entendendo isso, iremos semanalmente, ressaltar fontes de aprendizado e utilizar dessas experiências/vivências, argumentos e conteúdos teóricos/práticos para explorar as seguintes temáticas:

– Organização de jogo/Análise de jogo/Exercícios de treinamento: todas as possibilidades internas conjunturais sinérgicas e também identificações quantitativas e qualitativas desses temas que são cruciais para a construção do jogar.

– Periodização Tática: temas relativos a essa metodologia para especialmente desmistificar alguns equívocos conceituais e processuais criados nos últimos anos.

– Aspectos gerais do treinamento: assuntos que abordam outras metodologias de treinamento, princípios do treinamento desportivo, diferentes visões de treinamento físico, SSG, aprendizagem motora, iniciação esportiva, relação funcional-estrutural com outros esportes e outros aspectos inerentes ao treinamento.

– Temas transversais: ideias que abarcam desde temas de momentos mais voltados ao extracampo, até gestão, psicologia, liderança e neurociência, entre outros.

Semanalmente esses temas serão desenvolvidos para não saturar uma temática única e previsível. Também para abrir maiores possibilidades dos leitores, dentro de suas áreas de atuação, realizarem reflexões constantes na temática semanal de interesse, ou até mesmo em todas as temáticas.

Por isso, inquietudes e críticas serão bem-vindas. Serão importantes para vocês como leitores, e mais ainda para quem escreve, pois contribuirá, e muito, para o crescimento substancial das colunas. Importante salientar que é na troca de experiências que encontramos a essência do futebol, do conhecimento e de tudo; a por vezes negligenciada “interação evolutiva”.

Então até a próxima quarta!

Forte abraço a todos.

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O exército chinês

O mapa do futebol mundial poderá passar por grandes transformações nos próximos anos. Inevitavelmente, a discussão sobre a qualidade do futebol ainda fica restrita aos sul-americanos, com os seus grandes talentos individuais, e aos europeus ocidentais, com os seus organizados e bem-sucedidos campeonatos.

O que temos visto nesses últimos anos é o crescimento exponencial em mercados com pouca tradição que ainda não conseguimos afirmar se realmente irão prosperar ou se tornarão mais uma promessa não concretizada. Temos exemplos históricos de países que tentaram criar ligas promissoras e multimilionárias, mas que não conseguiram avançar. Citando de forma rápida, vimos a expansão da J-League no Japão durante a década de 90, porém sem conquistar o sucesso global esperado. Também tivemos casos isolados no Oriente Médio, com a contratação de grandes jogadores e treinadores por verdadeiras fortunas, porém sem uma efetiva organização coletiva. E os EUA, na década de 70, quando lendas como Pelé, Eusébio, Muller, Beckenbauer e Cruyff tentaram popularizar o esporte por lá.

O texto de hoje e da próxima semana tratarão do futebol atual nas duas maiores potências econômicas do mundo: China e Estados Unidos. Será que esses países conseguirão fincar suas bandeiras no mundo do futebol, com o mesmo nível de excelência organizacional que vemos em países como Inglaterra, Espanha e Alemanha? O que sabemos é que são dois modelos bem distintos um do outro e que valem a pena ser analisados.

Começaremos com a China…

TsuChu
Crédito: Arquivo Pessoal

Em meados da década de 90, a China começou a importar jogadores para a sua liga local, porém de uma maneira bastante modesta. Jogadores desconhecidos foram desbravar esse novo mercado com a esperança de conquistar a sua independência financeira. Nessa época, alguns brasileiros se aventuraram por lá em troca de contratos anuais em torno de US$ 100 mil. Como base comparativa, esse valor é o que o argentino Carlos Tevez receberá por dia em sua conta pelo contrato assinado em dezembro com Shangai Greenland Shenhua. Para atuar no clube por duas temporadas, receberá o estratosférico valor de US$ 240 milhões, tornando-se o maior salário do futebol mundial, à frente dos dois maiores astros do planeta, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Esse recorde parece que terá prazo curto para ser quebrado, pois a cada dia especula-se uma nova investida. Nas últimas semanas, notícias sobre propostas a estrelas do futebol mundial movimentaram o mercado. Um clube chinês teria feito uma proposta de € 300 milhões ao Real Madrid por Cristiano Ronaldo, com o pagamento de salário de € 100 milhões por ano ao jogador. Lionel Messi também teve seu nome citado como pretendido pelo clube Hebei Fortune para receber valores similares aos oferecidos a Cristiano Ronaldo. Também há sondagens para jogadores como Robert Lewandowski, Alexis Sanchez, Pepe, Arda Turan e Edinson Cavani que se equiparam aos valores hoje pagos a Tevez. Sem contar outros nomes que também já estavam na China ou chegaram agora com salários maiores aos pagos pelo mercado europeu, como os brasileiros Oscar, Hulk, Ramires e Alex Teixeira, o argentino Lavezzi, o belga Witsel e o italiano Graziano Pelle.

Esse potencial de investimento só é possível graças a dois fatores fundamentais: (1) o apoio do governo chinês, liderado pelo presidente Xi Jinping, que sonha em transformar o país em uma potência do futebol mundial até 2050; (2) e o investimento de empresas chinesas gigantescas, muitas delas diretamente ligadas ao Estado, que possibilitam a contratação de grandes estrelas, a construção da infraestrutura necessária e a criação de programas para a formação de jogadores e promoção do futebol pelo país.

Há um dilema bastante interessante e que merece total cuidado nessa empreitada chinesa. Hoje há um limite para a contratação de no máximo 5 jogadores estrangeiros por equipe, sendo que 4 podem atuar como titulares em cada jogo. Dessa forma, a Super Liga Chinesa quer garantir que, a presença de grandes estrelas do futebol mundial, possibilitem o desenvolvimento técnico dos jogadores chineses e estimule o interesse dos jovens que sonhem um dia ser um desses ídolos. Essa limitação impacta na qualidade técnica dos jogos nesse primeiro momento, portanto o modelo precisa ser entendido por todos como algo que conquistará resultados concretos a médio prazo. Mesmo assim, os resultados parecem satisfatórios. A média de público do campeonato chinês já é a 6ª do mundo, com média acima de 22 mil pessoas por jogo, à frente do Campeonato Brasileiro. A tendência é que esses números cresçam bastante nos próximos anos com a chegada de novas estrelas e com a construção de estádios modernos.

A política adotada pelo governo é tão agressiva que o futebol passou a ser parte do currículo escolar obrigatório. Em 5 anos, pretende-se alcançar 8 milhões de crianças que pratiquem futebol regularmente, contra 50 mil que praticavam em 2015. O modelo a ser seguido tem como base o que foi adotado pelo país para tornar-se uma potência nos esportes olímpicos. Em 1988, o país conquistou 4 medalhas de ouro e, em 2008, sediaram os Jogos em Pequim e conquistaram 100 medalhas, sendo 51 de ouro, desbancando os Estados Unidos da liderança.

O sonho chinês pode sim tornar-se realidade. O país possui a maior população do mundo capaz de fabricar bons jogadores e conquistar fãs, tem um poder de investimento elevado e apoio incondicional do governo local. Para que não se torne um pesadelo, é preciso muito cuidado com a inflação gerada na contratação de jogadores, pois se hoje as propostas já assustam o mercado, não temos ainda parâmetros para saber onde estará esse perigoso limite.

O texto da próxima semana falará sobre o plano de expansão do futebol nos EUA e da Major League Soccer.