Modelo desenvolvimentista da carreira esportiva (adaptado de Wylleman & Lavalle
Tenho refletido a respeito sobre a importância das transições entre as fases da carreira esportiva e sobre o quanto de influência os pais e responsáveis pelos atletas podem interferir em situações do cotidiano de uma carreira.
Relembrando uma das fases da carreira, a fase de desenvolvimento representa uma opção do atleta amador por uma determinada modalidade esportiva, com isso, os jovens passam a participar de competições regulares e o nível de comprometimento passa a ser crescente, o que demanda maior organização da rotina do atleta.
É nessa fase que o papel dos pais pode ser um diferencial, tanto para o bem do atleta, quanto para o mal, mesmo de maneira involuntária, pois estes passam a exercer uma influência que pode levar o atleta ao baixo desempenho na prática esportiva, devido a cobranças excessivas ou a orientações equivocadas que vão na direção contrária do que os membros de uma comissão técnica estão programando.
Entrando ainda mais nessa questão, podemos observar o modelo desenvolvimentista de Wylleman e Lavalle (2004), já comentado por mim em outra coluna, que faz uma integração da vida esportiva com a vida não esportiva do atleta, conforme a figura abaixo.
Modelo desenvolvimentista da carreira esportiva (adaptado de Wylleman & Lavalle, 2004)
A percepção integrada da carreira esportiva e não esportiva contribui para que os pais possam compreender melhor a vida de um atleta com um todo e a importância de considerar outras demandas que vão além da vida esportiva. A partir desta compreensão, todos podem se tornar mais conscientes que cada transição entre as fases é um processo que resulta numa mudança de percepção do atleta sobre si mesmo e o mundo, o que passa a requerer uma mudança de comportamento e nos relacionamentos pessoais do atleta. Por esse ponto de vista, vou compartilhar as características de duas transições que impactam a fase de desenvolvimento.
Transição da iniciação para o desenvolvimento – momento no qual o atleta passa por adaptações no estilo de vida, devido ao aumento da carga de treinamentos. A influência do treinador aumenta, bem como a convivência mais intensa com os colegas de equipe.
Transição do desenvolvimento para a excelência – etapa de total dedicação, especialização do treinamento e muitas vezes oportunidade de profissionalização. Nesta transição, a orientação dos treinadores e demais profissionais do meio esportivo é fundamental para que o atleta possa lidar positivamente com esse momento.
Após este esclarecimento sobre essas transições, fica mais claro que os pais vão deixando de protagonizar o contexto esportivo do atleta, fazendo com que os profissionais envolvidos passem a ter um papel mais expressivo junto ao atleta e influenciando positivamente para os caminhos da alta performance.
Para finalizar, como podemos facilitar para que os pais possam compreender esse cenário, sem que fiquem com a sensação de falta de prestígio junto ao atleta?! Acredito que um alinhamento, entre os pais, atletas e comissão técnica, dos objetivos do atleta e das metas de curto e longo prazo estabelecidas, pode ser fundamental no papel da definição de responsabilidades e com isso fazer com que os pais possam assumir apenas o papel que lhe cabem, muito valioso nesse processo, sem que despercebidamente entrem em outras esferas do desenvolvimento da carreira de seus filhos enquanto atletas!
Ainda em fase de desenvolvimento no Brasil, o futebol americano é uma verdadeira febre nos Estados Unidos. Desde os anos 90, quando ultrapassou o “baseball”, o “football”, como é conhecido nos EUA, se tornou o esporte mais popular do país.
A National Football League (NFL) é a maior liga de futebol americano do mundo. Organizada em duas conferências (Americana- AFC e Nacional-NFC) a NFL é a maior liga de esportes na América do Norte e uma das maiores do mundo.
Os campeões de cada Conferência disputam a finalíssima chamada de Super Bowl e decide o campeão da temporada.
O Super Bowl disputado desde 1967, após a união das duas principais ligas do país (NFC e AFC), é o maior evento desportivo e a maior audiência televisiva do país, assistido anualmente por milhões de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo. Em 2016, a transmissão da partida entre New England Patriots e Seattle Seahawks, teve a maior audiência de televisão registrada nos Estados Unidos, com cerca de 114 milhões de telespectadores. No mundo, o Super Bowl só perde em audiência para a final da UEFA Champions League.
Além disso, O Super Bowl possui a publicidade mais cara da televisão americana. Para se ter uma ideia, em 2016, a CBS vendeu 30 segundos de propaganda por cinco milhões de dólares (cerca de 17 milhões de reais). O valor se torna ainda mais significativo quando se observa que na sua primeira edição, em 1967, o anúncio custava 268 mil dólares, valor que não pagaria 2 segundos em 2016.
No próximo domingo ocorrerá a 51ª edição do Super Bowl em partida disputada entre o New England Patriots, Campeão da Conferência Americana (AFC) e o Atlanta Falcons, Campeão da Conferência Nacional (NFC). O jogo será disputado em Houston e o já tradicional show do intervalo ficará a cargo de Lady Gaga. Enfim, um mega evento que monopolizará toda a mídia norte americana e trará retorno financeiro astronômico às equipes, emissoras e patrocinadores.
O Super Bowl (e os formatos das ligas americanas) é um exemplo colossal para o futebol brasileiro. Além de sermos um país de dimensões continentais como os EUA, o povo brasileiro é tão apaixonado pelo futebol, quanto o americano pelo “football”. Seria incrível uma grande final do campeonato brasileiro em estádio previamente definido, ou ao menos uma Supercopa do Brasil entre os campeões do Brasileirão e da Copa do Brasil abrindo ou fechando a temporada.
O esporte se tornou um grande negócio e no Brasil explora-se muito pouco o mega potencial das marcas dos clubes e da paixão pelo futebol. E, ainda, sobre o Super Bowl, domingo será uma baita oportunidade para conhecer o esporte e, ainda, curtir o show da Lady Gaga e ver o Tom Brady (principal jogador dos Patriots e marido da Gisele Bündchen) em ação.
Na última quarta-feira (25/01), encerrou a maior e mais tradicional competição do futebol de base do nosso país, com o Corinthians sagrando-se campeão. O antagonismo, a diversidade e a visibilidade que a Copa São Paulo proporciona aos jogadores, equipes e integrantes das comissões técnicas, move uma miscelânea de oportunidades distintas para todos. Sem sombra de dúvidas, cada vez mais, a Copa São Paulo é uma grande vitrine.
Foto: Marcos Ribolli/ Fonte: Globo Esporte
Muitas equipes entraram na competição com objetivos distintos, mas sempre com o foco de procurar ir o mais longe possível, aspirando posições mais avançadas, onde a visibilidade geral aumenta. Evidentemente, quando uma competição abrange diferentes níveis, tanto de objetivos, qualidade de jogadores, estrutura, divisão jogada e competições a disputar durante o ano, há possibilidade de surgir distintos níveis de jogos e resultados. Ao mesmo tempo também, surpresas agradáveis pelo pico de motivação que essa competição representa. E todo ano várias surpresas acontecem. Essa também é uma das facetas da Copa São Paulo.
Além desses vários perfis, que podem estar relacionados na construção dos objetivos da equipe para a competição, e por vezes modificados a cada ano, devido às particularidades exclusivas, nessa edição, um dos aspectos mais relevantes foi o entorno. Estádios cheios, incentivos extras, imaginário coletivo, enfim, intervenções do público modificando o comportamento anímico do jogo em grande escala, fortalecendo algumas equipes. Esses fatores, ao lado do pouco tempo de descanso entre os jogos, mudam prognósticos e tornam a Copinha muito mais atraente e imprevisível que outras competições de formação pelo Brasil.
Foto: Thiago Batista/ Fonte: Esporte Jundiaí
Além disso, a quantidade de equipes participantes apontou significativamente diferenças culturais de jogo, seja ela intencional ou não consciente, demarcada pela preferência de um conjunto de ideias de jogo, por vezes como catalisador positivo ou negativo devido aos conhecimentos específicos da relação treinador-jogador e da qualidade dos jogadores.
Nas mais variadas ideias de jogo vistas, não se prendendo apenas a estrutura que atua como um suporte numérico-geométrico, e partindo para relações dinâmicas-funcionais, que podem ser consideradas como a coerência da estrutura com o entendimento do espaço-tempo, movimentos e interações dos jogadores nos momentos do jogo, percebeu-se uma melhora dos conceitos defensivos, algumas dificuldades dos outros momentos do jogo e na fluidez complexa do jogo. No geral, melhoras consideráveis vêm ocorrendo ao nível de organização de jogo nas equipes de base, e a Copa São Paulo foi um bom indicativo.
Corinthians
A equipe manteve a estrutura base em quase toda competição, tendo ideias eficazes, flexíveis, preparadas para todos os momentos do jogo, com predomínio na estruturação de pressão e no pós-recuperação. E dentro dessa relação foi muito mais eficaz que seus adversários.
Uma característica muito particular da equipe foi à agressividade, sobretudo sem bola, criando zonas de pressão altas-médias e retomando a bola com muita eficácia. A partir daí, também era muito agressiva, aproveitando as vantagens das recuperações da bola, buscando ataque rápido, com aproximações verticais para a definição das jogadas. Estruturou-se com o vértice do triângulo dos médios à frente e dois extremos com o pé oposto, agressivos todo tempo e, quando estavam no 1×1 com vantagens ou situações de enfrentamento em inferioridade, buscavam sempre a verticalidade com desequilíbrio ou não. Nas bolas paradas, usou variantes em jogadas curtas e longas, em faltas e escanteios, obtendo sucesso e fazendo gols.
Chapecoense
Devido ao que aconteceu com a equipe Profissional, e por ser a primeira competição depois do episódio, virou a sensação, tendo a torcida de todos. A equipe se superou muito durante a competição e apresentou traços da cultura Oestina de Santa Catarina.
Sua estruturação base modificou bastante durante a competição, sendo extremamente reativa aos adversários, realizando planejamentos espelhados. Com a preocupação voltada mais para fechar o espaço individual dos jogadores adversários, do que propriamente o coletivo, não se via uma equipe compacta em poucos metros do campo. Mesmo assim, mostrou-se eficaz no que estava disposta a fazer, com ideias muito claras: uma marcação individual por setor em alguns jogos e marcação individual campo todo em outros, especialmente contra o São Paulo. Como os ajustes defensivos desestruturavam os momentos ofensivos, apostou no ataque rápido individual para atacar, acarretando pouca densidade ofensiva e muito dependente de vantagem pessoal nos confrontos individuais. Quando teve a posse de bola maior que o oponente, e necessitava buscar o resultado que estava adverso, usou poucos recursos de interação ofensiva, explorando o jogo de bolas paralelas no fundo e cruzamentos. Também a equipe teve dificuldade de compactação com posse de bola, pois o bloco não andava junto. Por não serem eficazes na compactação ofensiva, sofreram contra-ataques perigosos, já que estavam habituados a jogar em bloco baixo e ataque rápido como recurso principal.
Foto: Miguel Pessoa/ Fonte: Futura Press
Paulista
A equipe do Paulista, primeiramente, teve méritos, pois saiu de uma chave complicada. Fez uma campanha marcada pela gloria e euforia, contrastando com a decepção do jogador que jogou de maneira irregular. As irregularidades ou alterações de documento no futebol diminuíram, mas ainda acontecem, infelizmente. Utilizou-se positivamente do seu estádio Jayme Cintra, que virou um verdadeiro caldeirão, numa atmosfera favorável. Com isso a equipe foi ganhando confiança.
Apresentou a melhor defesa da Copinha, com uma organização defensiva individual por setor em bloco médio-baixo. Partia de um 4-4-2 e variava para 4-5-1 conforme as interações ofensivas do oponente. Apostava na qualidade individual de alguns jogadores nas suas transições ofensivas. A equipe, quando estava em processo defensivo, colocava seus 11 jogadores atrás da linha da bola. Em muitos instantes, principalmente no segundo tempo, a compactação se tornava uma aglomeração espacial. Dentro do seu propósito, se tornava eficiente. Mostrou uma boa estruturação de segundas e terceiras bolas no corredor central onde iniciava boa parte de seus contra ataques que geravam perigos para os adversários.
Batatais
Com seu goleiro Gerson se tornando xodó e sua equipe sensação, o Batatais foi inesperadamente avançando na disputa. Gerson foi reverenciado por defender penalidades e classificar sua equipe.
A equipe, em termos de jogo, não fazia questão de ter a posse de bola para seus domínios. Se organizava em uma marcação individual e tinha suas variações de subida e descida de bloco. Muitas vezes uma audácia, que muitos não esperavam. Ofensivamente se caracterizou pelos ataques rápidos, com jogadas individuais. Num apanhado geral, uma equipe com espírito de entrega, vontade e motivação. A sua maneira de jogar era dar o máximo animicamente para fazer história, ir cada vez mais longe. E chegaram a final, presenteados pela eliminação do Paulista.
Internacional
Uma das equipes, se não a que mais valorizou a posse de bola. Tentou gerar um jogo posicional, com uma boa dinâmica, estruturada em saída de três. Mas quando enfrentou adversários mais fortes, com uma estruturação do espaço defensivo mais organizado, sentiu dificuldade pela falta de domínio, ganho de espaços e movimentos específicos.
Usou o goleiro com grande frequência, tanto em cobertura defensiva quanto em apoio para posse. Essa é uma tendência das equipes Tops e o jogo atual pede que, em primeiro momento de saídas, se use o goleiro. Entretanto, se ficar um jogo muito para trás, estéril, horizontal, se perde as maiores vantagens: aquelas encontradas em passes verticais, sobre as costas da linha que pressiona. Em alguns momentos isso aconteceu com o time do Internacional. No cruzamento contra o Corinthians, a equipe não conseguiu impor seu jogo posicional, e ficou claro que contra uma equipe do mesmo nível técnico, necessitava de outras dinâmicas posicionais para ir mais longe. Mas foi uma equipe interessante de ver jogar.
Esse processo construído para ganhar, é que distingue uma equipe da outra. E nessa competição constituída por 130 equipes, o que se percebeu foram preceitos anárquicos, resultado exacerbado, aspectos formativos seguindo manuais do clube e gestão do frenetismo do resultado aliado com boa dinâmica.
Independentemente da categoria, o futebol antes de tudo, é jogado com ideias, e está em constante formação. Se os jogadores forem preparados para jogar na ambivalência de não perderem a ambição de ganhar, procurando ativamente o resultado, mas sem perder a ideia, a tranquilidade e o seu equilíbrio mental, posicional e funcional, a fluidez geral, o jogo e a formação ficam atrativos.
O grande equilíbrio de tudo isso, é encontrar o processo ideal, em que o jogador não seja feito apenas para um modelo de jogo ou não seja um andante anárquico ou robótico dentro do jogo. Que seja desenvolvido através da potencialização, evolução e interação de suas capacidades, num processo adaptável, mutável e rico de probabilidades. A Copa São Paulo é um grande teste final ou inicial para fomentar isso. Aos poucos estamos evoluindo. Esperemos a próxima Copa São Paulo.
Abraços a todos e até a próxima quarta!
Observação – O treinador Willian Batista de Almeida da categoria Sub 17 do Sport Clube Atibaia ajudou na análise das equipes.
Como é comum ocorrer a cada temporada, vemos muitas notícias e especulações sobre qual será o fornecedor de material esportivo dos clubes. Trata-se de um ciclo, onde marcas vem e vão, com projetos de sucesso e também de grandes fracassos.
O mapa de material esportivo no futebol brasileiro em 2017 mostra uma grande diversidade. São 26 marcas distribuídas entre os 60 clubes que disputarão as Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro. Estão nessa lista as grandes marcas globais, bem como marcas tradicionais brasileiras e também novas marcas que começaram a construir a sua história recentemente.
Quem lidera esse ranking no total das três divisões é a Topper. A empresa brasileira, adquirida pelo empresário Carlos Wizard Martins em 2015, patrocina 9 clubes, sendo 2 da Série A. A marca soube se aproveitar de oportunidades no mercado, como no caso de clubes que até então eram patrocinados pela canadense Dryworld, que não conseguiu cumprir os seus contratos e deixou o país pela porta dos fundos após chegar cercada de holofotes.
A inglesa Umbro vem logo na sequência com 8 clubes, sendo a marca líder da Série A, com o total de 7. A empresa também passou por mudanças recentes. Após ser comprada pela Nike em 2007 por US$ 580 milhões, amargou anos de insucesso e, em 2012, foi negociada com a Iconix Brand Group por US$ 225 milhões, menos da metade do valor pago pela Nike.
Adidas, Nike e Under Armour, as TOP 3 da atualidade, também tem presença garantida. A Adidas está em 6 clubes, sendo 5 da Série A. A Nike patrocina 2 clubes, sendo 1 da Série A. E a Under Armour, que chegou ao Brasil em 2015, patrocina 1 clube da Série A.
Quando olhamos para a Série C, com clubes de médio porte e menos tradição nacional, notamos uma grande pulverização entre as marcas. São 14 marcas para 20 clubes. O Grupo SB, proprietária das marcas Super Bolla, Numer e Rinat, lidera com o total de 6 clubes.
Um novo modelo de negócio que começa a chamar a atenção no mercado é a criação da marca própria dos clubes. Entre as 3 divisões, já vemos essa tendência aplicada em 4 times, nomeadamente Paysandu, Juventude, Fortaleza e Joinville. Mas, afinal, o que esse modelo traz de diferente em relação ao tradicional patrocínio de material esportivo?
Para responder a essa pergunta, vale antes uma breve descrição sobre o formato de negociação tradicional das marcas com os clubes grandes, médios e pequenos.
Clubes grandes: contempla o patrocínio em dinheiro feito pela marca ao clube, a entrega do “enxoval” (uniformes de jogo, treino e viagem para uso dos jogadores, comissão técnica e staff) sem custo ao clube e o percentual de royalties de produtos vendidos no varejo. Pelo fato do total de royalties ser um valor variável que depende do sucesso de vendas, não é possível precisar quanto cada clube efetivamente recebe. Sabemos que Flamengo, Corinthians e São Paulo são os clubes que mais geram receita, entre R$ 25 a 35 milhões ao ano.
Clubes médios: contempla a entrega do enxoval sem custo ao clube e a participação do lucro obtido com a venda de produtos, em modelo similar de royalties praticado com os grandes. Não há investimento em patrocínio.
Clubes pequenos: o clube compra o enxoval pelo preço de custo e negocia um percentual de royalties com a venda de produtos. Não há investimento em patrocínio e o clube não recebe o enxoval sem custo.
Esclarecido como funciona a negociação tradicional entre as marcas e os clubes, agora podemos entender o modelo proposto de marca própria. A característica principal desse formato parte do princípio que o clube tenha controle sobre toda a operação, visando gerar maiores receitas com uma completa aproximação de seus torcedores, tornando a decisão sobre o nome, design e linha de produtos mais democrática. Os questionamentos sobre a qualidade de material e o potencial de distribuição é algo a ser estudado com atenção, pois o parceiro responsável pela fabricação e negociação deve ser escolhido seguindo critérios que atendam as necessidades e o tamanho do clube.
O caso de maior destaque até o momento é o Paysandu, clube tradicional de Belém do Pará. A marca Lobo, escolhida como nome por ser o apelido do clube junto à torcida, foi criada no final de 2015 e teve um primeiro ano de bastante sucesso. A torcida apoiou a iniciativa e os resultados financeiros foram surpreendentes. Antes de criar o seu projeto de marca própria, o clube faturava em torno de R$ 300 mil por ano com royalties de material esportivo. Com a marca Lobo, o clube faturou mais de R$ 6 milhões em 2016, 20 vezes mais do que recebia anteriormente.
Outro projeto que merece atenção foi desenvolvido pelo Fortaleza com a sua marca Leão 1918, criada em setembro de 2016. A autonomia sobre todos os processos possibilitou a criação de conceitos únicos e inovadores. Um exemplo muito interessante foi a criação da camisa Cordel, exclusiva para a disputa da Copa do Nordeste 2017, que presta homenagem à cultura nordestina da literatura de cordel que é uma espécie de poema popular impresso em folhetos e que ficam expostos para a venda pendurados em cordas.
O caminho natural é que clubes de maior expressão nacional também passem a avaliar a criação de suas marcas próprias. O potencial é muito grande, não somente para gerar aumento de faturamento, como também criar uma maior conexão do torcedor com o seu time de coração. O sucesso está em envolver a torcida, pois é ela quem se emociona, apoia o time e consome a experiência esportiva.
A edição 1129 da revista “Exame”, lançada em janeiro de 2017, tem uma reportagem sobre aplicação de teorias de gestão e conceitos científicos para resolução de dilemas existenciais. O texto cita uma pesquisa feita por Angela Lee Duckworth, que tem ocupado frequentemente um lugar entre os mais vendidos dos Estados Unidos. O trabalho dela, chamado de “Garra”, acompanhou grupos de crianças e adultos durante quase uma década para tentar identificar características comuns aos mais bem-sucedidos. A principal conclusão: “Esforço é mais relevante do que talento”.
Na edição anterior, a mesma revista “Exame” fala sobre processos seletivos em multinacionais. Em 2014, a fabricante de papel e celulose Suzano recebeu 6 mil inscrições em seu processo de trainee. Ainda assim, preencheu apenas 26 de 30 vagas.
Em 2015, 1,3 milhão de jovens se inscreveram em 94 processos seletivos de 53 companhias. Nesse grupo, apenas 0,3% atendiam aos requisitos básicos estipulados pelas empresas para seus programas de trainee.
É extremamente difícil cobrar de um jovem atributos que definam a vida ou a carreira. Afinal, existe um processo de maturação em curso, que depende de uma série de fatores externos e pode tomar direções absolutamente contrárias. Empresas já entenderam isso – e começaram a adaptar suas seleções a essa realidade.
O esporte ainda entende mal a necessidade de maturação. Jogadores de futebol são observados, avaliados e rotulados desde cedo – e é extremamente difícil que consigam construir ao longo da carreira uma imagem que contradiga isso.
Por isso, uma das características mais importantes para atletas é a autossuficiência. São muitos os garotos que reúnem qualidades ou talentos necessários para o sucesso no esporte, mas poucos entendem como usar isso a serviço das necessidades profissionais e como tirar disso uma imagem vencedora.
O início de Gabriel Jesus no Manchester City tem suscitado exatamente essa reflexão. O jogador revelado pelo Palmeiras tem apenas 19 anos, mas precisou de uma partida inteira e dez minutos de outra para chamar atenção e ganhar espaço na equipe dirigida pelo espanhol Pep Guardiola.
Jesus não tem o maior repertório entre os jovens brasileiros revelados recentemente, mas não houve, desde Neymar, outro representante nacional que tenha brilhado tão rapidamente no Velho Continente. No caso dele, a ascensão ligeira tem a ver com o aproveitamento dos atributos – o atacante entende o que pode oferecer e como tirar disso um melhor pacote para oferecer às equipes que ele defende.
Foi assim no Palmeiras. Jesus não é o melhor jogador que o clube já formou, mas é um dos mais eficientes. Soube reunir as coisas que faz bem e soube como o time poderia aproveitar melhor isso.
A eficiência no clube levou Jesus à seleção. O atacante foi um dos símbolos da nova gestão – a equipe nacional colocou o técnico Tite no lugar de Dunga, e a mudança repercutiu no desempenho. Com o jogador do Palmeiras como camisa 9, o time emplacou seis vitórias em seis partidas.
Jesus chamou atenção especialmente na estreia: assumiu a camisa 9 de uma seleção que vinha em crise de credibilidade e se sentiu confortável no posto de protagonista de uma geração abalada pelo fatídico 7 a 1.
Há vários fatores a serem enaltecidos no desempenho de Jesus. Nenhum, contudo, é mais evidente ou mais forte do que a personalidade. Existe uma tranquilidade que chama atenção no comportamento do jogador: não há deslumbramento ou afetação, e isso é o que dá mais segurança sobre o futuro.
É até natural que um garoto que chega ao futebol profissional e que consegue espaço em um time de expressão tenha sensação de dever cumprido. Essa condição significa que o jogador passou por funis que barram uma parcela gigantesca de meninos que sonham com o estrelato ou com a vida no esporte. A questão é: como manter a motivação depois de ter atingido um ponto altíssimo na carreira ou na projeção de vida?
A ideia aqui não é falar de Gabriel Jesus como um jogador consolidado ou como um astro inevitável. Há uma série de fatores no meio do caminho, e todos eles podem influenciar sobremaneira a sequência da história do atacante. No entanto, os primeiros passos do camisa 33 do Manchester City já oferecem boas lições de comunicação:
– Gabriel Jesus é seguro, e essa é uma característica de quem domina o ambiente em que está inserido;
– Ele sabe aproveitar bem suas potencialidades e sabe como fazer delas um ativo importante para o contexto;
– Ele simplifica o comportamento e as decisões em campo;
– Ele não se contentou com as marcas ou com os patamares que atingiu nos primeiros meses como profissional.
Agora tente jogar essas características para qualquer carreira ou qualquer ambiente. O que Gabriel Jesus comunica e o que transmite para o grande público é o perfil ideal de um profissional batalhador, assertivo e eficiente. Toda empresa gostaria de ter em seu quadro uma pessoa assim.
O que falta a muitos profissionais (e não apenas no esporte) é entendimento de contexto. Para outros jogadores, o fenômeno Gabriel Jesus pode ser visto como uma mistura de sorte, oportunidade e talento. Os que pensarem assim, porém, vão seguir tendo em seu futuro uma margem de erro grande demais.
Em início de temporada, eventualmente convivemos com situações onde os atletas se lesionam logo nos primeiros períodos de disputas das competições oficiais, sejam pela preparação aquém do que seria necessário ou pela maratona inicial de jogos que algumas equipes acabam passando. Todo clube está sujeito a ter este tipo de problema, com lesões indesejadas e nessas ocasiões, como se pode ampliar a capacidade de recuperação dos atletas nessa situação?
Já comentei algum tempo atrás sobre o tema, mas no momento é muito pertinente voltar à reflexão sobre como auxiliar de forma eficaz o processo de recuperação do atleta lesionado.
Várias técnicas trazem valor para o atleta num momento desses durante o processo de reabilitação, dentre elas acredito que algumas podem ser destacadas, tais como o estabelecimento de metas, o relaxamento e a visualização. Então, vamos abordar brevemente um pouco mais sobre elas aqui.
Estabelecimento de metas
Pode se realizar um trabalho para promover o estabelecimento de metas congruentes com a realidade, com os valores e desejos do atleta, bem como com validade sistêmica na vida pessoal e profissional do atleta. Podem ser estabelecidas metas para retorno a prática esportiva, criando pontos de avaliação e também estágios de avanço menores do que a meta final, promovendo o avanço gradual em direção ao objetivo traçado e com o aumento da confiança e da capacidade de realização de tarefas por parte do atleta. Valor agregado para o atleta: aumento considerável da autoestima do atleta durante o processo de recuperação.
Relaxamento
A utilização das técnicas de relaxamento, que frequentemente acompanham os quadros de lesões e sua recuperação, agregam valor para o atleta no alívio da dor e do estresse. Um exemplo prático que podemos compartilhar trata-se de um programa de dois minutos proposto por Lindemann (1984), conforme abaixo:
Inicialmente o atleta adota uma posição cômoda em um lugar tranquilo e agradável;
Fecha os olhos;
Desenvolve uma atitude positiva para o exercício;
Concentra-se no seu próprio ritmo de respiração;
A inspiração precisa acontecer naturalmente;
Após a inspiração o atleta começa imediatamente uma expiração profunda;
Após a expiração, o atleta faz um pequeno intervalo (sem forçar);
A relação entre o tempo de inspiração e expiração deve ser aproximadamente de três para cinco, respectivamente;
O atleta pode manter o exercício por dois minutos;
O atleta abre os olhos e aplica uma fórmula positiva de autoafirmação, com por exemplo: “Estou me sentindo muito tranquilo e pronto para o trabalho”.
Visualização
As técnicas de visualização podem ser divididas em quatro grupos:
Imagem de recuperação ou afirmação, na qual pode-se imaginar uma meta de reabilitação sendo atingida ou ainda imaginar um atleta conseguindo atingir todos os objetivos traçados;
Imagem de cicatrização, neste caso é preciso uma imagem que represente a capacidade efetiva do corpo de se curar como por exemplo a recuperação de um atleta com uma fratura, que passa a imaginar o fluxo sanguíneo chegando até a área lesionada e produzindo a cicatrização.
Imagem de tratamento, quando o atleta toma conhecimento dos mecanismos que ocorrem durante o tratamento e o atleta pode imaginar esses efeitos positivos acontecendo naquele momento da fisioterapia.
Imagem de performance, face a incapacidade momentânea de praticar o esporte naquele momento, o atleta pode visualizar imagens que simulem a performance específica, isso pode auxiliá-lo no treinamento de situações presentes em treino e competição e também ajuda a manter a confiança.
Então, esperamos que nenhum atleta se lesione e que os clubes possam ter cada dia mais profissionais competentes na preparação física, fisiologia, fisioterapia e nutrição dos atletas, mas pelo menos agora sabemos que caso ocorram quadros de lesão, nem tudo está perdido e pode-se colaborar e muito, mentalmente, com a recuperação deste atleta.
Perceber com propriedade o que realmente é a Periodização Tática na sua profundidade, não é tarefa fácil como parece. Antes de qualquer coisa, essa metodologia precisa de investigação, dedicação e entendimento do núcleo duro do processo, o morfociclo padrão. Isso implica na compreensão relacional dos princípios metodológicos, no dinamismo interativo entre a ideia de jogo, processo, operacionalização e suas propriedades emergentes e na transferência qualitativa com outras áreas da ciência que dão suporte e vigor especial. Compreendendo essa questão, fica mais límpida a perspectiva sistêmica, cujo cerne reside na complexidade. E o mistério tem a ver com isso, com dinâmicas, isto é, está nas inter-intenções e inter-decisões, nas interações, nas conexões, nos (re)ajustamentos e nos padrões de organização.1
Sua expansão nessa década, por diversos meios, tem gerado adeptos, críticos, diferentes perfis e formas de enxergar, estudar e pesquisar. Mas como em qualquer área de conhecimento, muitas precipitações podem ocorrer, até um entendimento maior e concreto surgir. E desvios conceituais vêm sendo vistos ao longo dos anos, muitos desconexos do fio condutor que é alma do processo e está em constante desenvolvimento. Panoramicamente, o que se enxerga, são algumas pessoas tentando transmitir, na essência, o conteúdo “sem fim” da metodologia e outras vagando em superficialismos e predicados soltos. Nesse caso, acende uma classe de miscelânea conceitual, que foge da raiz, mas ratifica inicialmente uma curiosidade, ocasionando a frente um nível de aprofundamento maior, estagnação ou desistência de sua clareza. Algo normal quando algum fenômeno vira febril e atraente.
Imagem Criada
É próprio da percepção humana desenvolvida ou desmedrada que ideias vão se tornando mais ou menos fidedignas. Nota-se, com o crescimento da Periodização Tática, que a grande diferença entre os “curiosos”, “modistas”, “investigadores céticos”, ”radicais extremistas”, “tecnocratas” e os “buscadores sinceros”, reside na visão da sensibilidade criativa, aberta, transformadora e dinâmica com que Vitor Frade, diariamente, geria suas aulas da Universidade do Porto, nas suas conversas e nos seus textos e apontamentos atualmente.
Essa diferença do perfil dos buscadores, o entendimento da complexidade (complexidade não é dificuldade), não é algo inacessível, de outro planeta, como muitos pensam, mas como tudo na vida, necessita de esforço profundo. Quando este não for profundo, sincero e aberto o suficiente, fica mais difícil entender que a Periodização Tática não é uma lógica estacionada, mas uma lógica com sentido. A teia de conexões dessa metodologia é uma extensão da teia da vida, do organismo humano, da inteireza do jogo, das relações humanas, das relações da produção de um jogar em todos os seus níveis e dos princípios balizadores (Alternância Horizontal, Progressão Complexa e Propensões) que firmam o núcleo duro do processo (Morfociclo).
Imagem Criada
Claro que para encontrar esse “esforço profundo”, ninguém precisa passar dias e noites como carrapato ao lado do Prof. Vitor Frade ou se teletransportar quanticamente para Porto. A correta busca por seus referenciais e outros, advindo de pessoas que continuam modelando, dinamizando e propagando o profundo conhecimento, também ajuda no entendimento desta metodologia. Então, a Periodização Tática não é uma questão ideológica radicalista restringida apenas para pessoas que fazem parte de uma facção fundamentalista, como muitos pensam. Ela é um incentivo a propagação do conhecimento adequado, a criatividade individual, balizados por princípios particulares, que levam em consideração um contexto-prático por convicções concepto-metodológicas-operacionais e um contexto-ambiente por visualizações culturais. Nessa intra-relação e inter-relação mora o pote de ouro.
E o mais sensível de tudo isso, é saber como propor transformações, sem romper a ideia de equilíbrio-desequilíbrio, sem desvirtuar e deixar incoerente sua essência transgressora. Algo que demanda muita sensibilidade e, sem dúvida, gera dilemas contextuais, operacionais e fundamentais.
E é deste hiato entre o modo como o treinador pretende que a sua equipe jogue e o modo como ela vai jogar regularmente, que emerge a pertinência da questão de COMO TREINAR UMA IDEIA DE JOGO.2 E a Periodização Tática atenua isso, pois estabelece ligação permanente entre os dois lados da equação: a ideia e a operacionalização.2 Assim, ela se serve de uma lógica processual ou um padrão matricial (Morfociclo), com o propósito fundamental de permitir a aquisição de um jogar específico, uma concepção de jogo, respeitando os princípios metodológicos.
Na Periodização Tática, as equipes não estão em forma, mas têm forma. Assume uma forma dinâmica (especificidade) plural, com várias formas (especificidades) que são vivenciadas regularmente obedecendo os princípios metodológicos distintos do tradicional.3 Daí o Morfociclo, um ciclo com conteúdo concreto a cada jogar, preenchido com forma nos diferentes dias, com a devida alternância de desempenho entre as sessões de treino.3 O entendimento do que é o Morfociclo, o porquê de ter um padrão, é uma condição fundamental para que se consiga mergulhar a fundo num enquadramento conceitual e metodológico que rompe claramente com o convecional.2
Imagem retirada dos textos do Prof. Frade
Com quase 50 anos de inquietudes do Prof. Vitor Frade, essa forma de viver o treinamento está em constante enriquecimento, pois tem uma legitimidade e um alicerce teórico singular, vigoroso, significativo e peculiar. Logo, a Periodização Tática é algo que se crê ou não se crê. Ou está com ela ou é contrário a ela. Não se pode dizer: sim, creio nela, mas…então deixa de ser Periodização Tática”4. Mas ela não é algo mecânico-linear, é puramente um mecanismo não linear ou um organismo dinâmico de construção que quer que cada equipe chegue ao seu futebol, ao futebol de cada um. Apenas é preciso respeitar ideias evitando incongruência processual-operacional-contextual.
Então, carece do “esforço profundo” para não ser confundida com uma coleção de fatos, conceitos desconexos, exercícios soltos ou outros aspectos. Ela quer fugir disso, de chavões como: “periodizar taticamente meu modelo”, “um microciclo que respeita força, resistência e velocidade”, “contração assim, assada”, “o físico não existe”, “os jogadores não trabalham fisicamente”, “espaços pequenos, médios e grandes”, “jogos reduzidos”, “exercícios com bola”, exercícios analíticos”, “utilização de exercícios mais simples ou mais sofisticados”, “exercícios sem bola”, “excessos de regras nos exercícios” e “desenvolvimento dos grandes princípios o tempo todo”. Evidente que algumas dessas possibilidades acima estão presentes no dia-dia, mas não de forma genérica e especulativa.
Longe do que se pensa, esta metodologia de treinamento não está acorrentada na cidade de Porto-Portugal. Também não está escondida nos muros reservados do Centro de Treinamento do Olival, na Escola de Formação Dragon Force, nem na Universidade do Porto. Ela nasceu aí, mas está viva, em movimento, onde tiver organismo vivo, seja no futebol, esportes coletivos e outros esportes, ela pode ser aplicada com sua estrutura particular tornando um contexto peculiar. Logo, para ela viver realmente, não se pode negligenciar que sua essência matriz tem uma origem e uma direção que levam a diferentes destinos ímpares. Ela, além de ser uma grande questão de convicção, não existe em lugar algum sem contexto. Por isso, a Periodização Tática é uma ideia para operacionalizar uma ideia, não sendo uma ciência do abstrato, in vitro, mas antes uma ciência in vivo.5
Abraços a todos e até a próxima quarta!
1 – FRADE, VITOR. Notas das aulas de metodologia II – Futebol. Porto: FADE-UP, 2010.
2 – AMIEIRO, NUNO. Os exercícios de treino aos Olhos do Enquadramento Conceptual e Metodológico da Periodização Táctica. Textos Professor Vitor Frade, 2017.
3 – MACIEL, JORGE. À volta e às voltas com a noção de Modelo de Jogo…Complexo e em Complexidade. Curso UEFA A: Tese Final, 2016.
4 – FARIA, RUI. Prefácio do livro Periodización Táctica vs Periodización Táctica. Vítor Frade Aclara de Xavier Tamatrit. (1ra Edición). Madrid: MB, 2013.
5 – MACIEL, JORGE. Periodização Tática: o “patinho feio” que se tornou num “cisne negro”. Texto do Instituto Águia, 2016.
A partir de hoje daremos início a um percurso muito importante com diversos artigos sobre um assunto que se escuta bastante, mas ainda pouco discutido, que é a Identidade de jogo. Nele teremos um grande espaço para troca de ideias, questionamentos e reflexões sobre um tema que devemos explorar com maior profundidade.
Existem muitas metodologias de treinamento (integrado; periodização tática; clássico, etc) que nos ajudam a melhorar e definir nosso modelo de jogo. Este nos dá uma ideia da forma de jogar, mas que pode estar suscetível a mudanças durante uma partida.
Em um confronto sabemos que existem infinitas variáveis, mas o quanto elas influenciam no seu modelo de jogo?!
Exemplos:
Adversário – resultado vigente – tempo do jogo – jogadores disponíveis – jogo em casa ou fora – posição na tabela – disposição tática (1-4-3-3, 1-3-5-2,4-4-2…)
Diante destas variáveis, a maioria das equipes mesmo havendo um modelo de jogo preciso, altera sua proposta durante uma partida, como adotar uma postura mais ofensiva ou defensiva de acordo com o resultado vigente (substituindo um zagueiro por um atacante, como exemplo).
Mas quando se tem uma identidade clara de jogo, esta passa a condicionar as variáveis e não o contrário. Isso muda completamente o modo de ver, pensar e planejar seus treinamentos e consequentemente os jogos em busca de um resultado eficaz.
OK, agora quais equipes e treinadores têm uma Identidade de jogo bem definida?! Podemos dividir em dois blocos, que são as únicas duas fases do futebol – posse ou não posse da bola. Todas as outras “fases” (transições ofensivas e defensivas, bola parada, etc) são definidas por estas duas e podem ser diferentes de acordo com seu modo de entender o futebol. Dentro destas duas fases podemos destacar algumas equipes ou treinadores que servem de exemplo para nosso estudo.
Entre os que optam pela posse de bola, como principal característica, estão as seleções da Espanha, bicampeã europeia em 2008 e 2012 e campeã do mundo em 2010, e da Alemanha, campeã do mundo em 2014. Como equipe temos o Barcelona com os conceitos do Futebol Total, de Rinus Michels, mostrando sua identidade por pelo menos uma década. Já como treinador, temos o mais famoso que é o Pep Guardiola, atualmente no Manchester City, ou até mesmo Roberto Dezerbi, ex Foggia e Palermo, que obteve ótimos resultados na terceira divisão italiana interpretando os mesmos conceitos das equipes acima com jogadores considerados de menor qualidade.
Já “do outro lado” temos treinadores que preferem trabalhar com a cobertura dos espaços, como José Mourinho, campeão com o Inter e Chelsea, Diego Simeone, do Atlético de Madrid, campeão espanhol 2014, ou o Leicester, de Claudio Ranieri, campeão do último campenato inglês.
O primeiro passo que se deve fazer é escolher em qual modo você gostaria de jogar não se tornando refém das variáveis citadas acima mas sim o contrário. Que elas sejam todas em função da sua identidade, como exemplo o mais classico deles, a escolha do sistema de jogo. Nao é a escolha da disposição tática que o faz mais ofensivo (1-4-3-3 / 1-3-4-3) ou mais defensivo (1-4-4-2 / 1-3-5-2) mas sim como se é interpretado. Todas as mudanças dinâmicas que ocorrem devem ter como princípio a manutenção do equilíbrio e identidade da equipe.
Nos próximos artigos vamos começar a refletir sobre como preparar todo o planejamento de treinamentos e as características que serão necessárias a partir de uma identidade denifinida de jogo.
Espero que esse primeiro artigo possa ter servido para criar reflexões, questionamentos, dúvidas e perguntas para todos, e estou ansioso para o confronto de ideias e discussões a respeito
As receitas de marketing dos clubes crescem exponencialmente a cada ano. Novos contratos bilionários de direitos de TV são assinados, patrocínios vultuosos batem recordes, estádios com ingressos esgotados durante toda a temporada são comemorados nas principais ligas, produtos licenciados dos grandes clubes fazem sucesso pelos quatro cantos do mundo. Sem contar os valores obtidos com as transferências de jogadores que não entram na conta de receitas oriundas de marketing. Esses fatores dão a falsa ilusão que o futebol é hoje um produto economicamente saudável, mas a realidade ainda é bem diferente.
Ao mesmo tempo que o dinheiro que entra é cada vez maior, as exigências para manter os grandes craques no clube também aumentam. Ao contrário de uma empresa tradicional em qualquer setor, as instituições esportivas são movidas por um lado passional muito forte, onde a pressão da torcida, para que seu clube ganhe títulos, faz com que os seus gestores, por muitas vezes, cometam verdadeiras loucuras para contratar e manter um elenco recheado de estrelas. Historicamente, o importante para o torcedor é que o seu time vença em campo.
Segundo o estudo “Club Licensing Benchmark Report” referente à temporada 2015 publicado pela UEFA, a receita dos clubes europeus alcançou as maiores cifras da história, com o total de € 16,9 bilhões, sendo € 7,3 bilhões com os direitos de TV, € 5,6 bilhões com patrocínios e € 2,6 bilhões com a venda de ingressos.
Esses números crescerão muito nas próximas publicações da UEFA. Prova disso é que, somente a Premier League, a liga mais rica da Europa, passou a ter uma receita sobre a venda de direitos de TV de € 15,6 bilhões por 3 temporadas, entre 2016 e 2019, com média de € 5,2 bilhões por ano.
No meio de tanta riqueza, também vemos dívidas assustadoras. Clubes tradicionais como Manchester United, Benfica e Internazionale de Milão possuem dívidas que ultrapassam a casa de R$ 1 bilhão. E estamos falando de clubes com história e marcas muito relevantes que conseguirão inverter essa lógica se fizerem um trabalho austero de contenção de despesas. Imagine então clubes de médio porte como o Queens Park Rangers, que possui dívida superior a R$ 900 milhões sem que possa vislumbrar receitas compatíveis a isso.
No texto publicado há duas semanas sobre a expansão do futebol chinês, mencionei alguns casos de contratações confirmadas ou sondagens a grandes estrelas do futebol mundial, sendo esse o fator principal para o aumento da inflação no mercado (https://universidadedofutebol.com.br/o-exercito-chines/). Na semana passada, o governo chinês sinalizou que pensa em instituir um controle de gastos para evitar um colapso nos próximos anos.
No Brasil, a dívida dos clubes também é imensa. O Botafogo do Rio lidera esse ranking com dívida total superior a R$ 700 milhões, somadas aqui as dívidas bancárias, tributárias e operacionais. Os maiores clubes do Brasil possuem dívidas acima de R$ 100 milhões.
No meio desse bolo, há casos que merecem destaque por mostrarem que é possível conquistar o equilíbrio entre uma estrutura competitiva e um resultado financeiro positivo.
A Bundesliga e, consequentemente, os clubes alemães, seguem uma cartilha de manter as suas contas em dia, muito em virtude dos clubes serem empresas de capital aberto que devem gerar dividendos aos seus acionistas.
No Brasil, até poucos anos atrás, o Flamengo liderava o ranking de dívida com valor superior a R$ 600 milhões e vem reduzindo esses valores de forma gradual com base na capacidade do clube em gerar receita com a sua marca.
Medidas adotadas como o Fair Play Financeiro da UEFA e até mesmo o Profut no Brasil são modelos que podem transformar as finanças dos clubes em algo mais sustentável.
No caso da UEFA, os clubes que participam das competições europeias, têm que provar que não tem dívidas novas em atraso com outros clubes. A partir de 2013, os clubes passaram a respeitar a gestão equilibrada de “break-even”, ou seja, não podem gastar mais do que ganham, criando um controle para que as dívidas existentes não aumentem.
Já o Profut é uma lei sancionada em 2015 para ajudar os clubes brasileiros a quitar suas dívidas tributárias com a União. Em contrapartida, os clubes são obrigados a seguir regras como gastar o máximo de 80% de suas receitas com o futebol profissional, não atrasar salários, não antecipar verbas e restringir mandatos dos presidentes.
Apesar da necessidade de ter atenção e cuidado para que medidas desse caráter não se percam, é nítida a preocupação para que o futebol consiga ser minimamente sustentável. O marketing possui as ferramentas em mãos para gerar receita suficiente para atender um modelo justo e atrativo.
Ainda é cedo para fazer qualquer análise técnica sobre a movimentação dos times brasileiros na última janela de transferências, mas já é possível dizer que a contratação de Felipe Melo assegurou ao Palmeiras o título de reforço mais polêmico do futebol nacional em 2017. O volante de 33 anos disputou apenas uma partida com a camisa alviverde – foi titular em amistoso contra a Chapecoense –, mas já enfileirou polêmicas: bateu boca em redes sociais, criticou um dirigente do Flamengo e se disse disposto a “dar tapa na cara de uruguaios” na Copa Libertadores, por exemplo. Considerando o pacote que o meio-campista oferece, há uma série de motivos para discutir a estratégia do clube paulista. Existe, no entanto, um ranço inaceitável. E nessa lógica, #SomostodosFelipeMelo.
Desde que começou a negociar com times do Brasil, Felipe Melo foi retratado como “o jogador que deu um pisão em Robben, da Holanda, e foi expulso na partida em que o Brasil foi eliminado da Copa de 2010”. É raso como todo rótulo – por mais recorrente que seja, essa é só uma faceta. Além disso, o episódio aconteceu há mais de seis anos. Pessoas mudam crenças, hábitos e traços de personalidade em períodos bem mais curtos, dependendo da disposição ou de influências externas. Somos seres em constante mutação, e um retrato de minutos registrados seis anos atrás tem pouco a dizer.
Felipe Melo não tem uma larga coleção de jogadas desleais ou de expulsões em momentos decisivos. Ao contrário: o volante construiu sólida carreira no futebol europeu e sempre foi considerado um atleta confiável por comissões técnicas de algumas das principais equipes do planeta. Não há diagnósticos conhecidos sobre problemas de personalidade ou comportamento.
O que sobra é o rótulo. E a partir do rótulo, Felipe Melo é incitado ou provocado. E a partir de suas reações, o rótulo é reforçado. É um ciclo que baseia muito dos processos de comunicação – e não apenas no esporte. Em quantos momentos na vida você foi cobrado ou avaliado a partir de um comportamento que as pessoas esperavam, baseado apenas em ações pregressas?
A proposta do texto também não é fingir que o passado não existe. Currículo serve exatamente para isso: mostrar como alguém se comporta em diferentes momentos e como evolui ao encontrar situações similares. Felipe Melo tem manchas, sim. Mas quem não tem?
Essa questão permeou uma das principais respostas de Felipe Melo em sua primeira entrevista coletiva no Palmeiras. O jogador foi questionado sobre o comportamento viril, a dedicação e a reação à catimba dos rivais. Deve ter pensado, com base no estofo adquirido em toda a carreira, que torcedores e jornalistas esperam dele uma personalidade combativa. Respondeu que está pronto para “dar tapa na cara de uruguaios”.
Ninguém aqui defende a agressão e tampouco considera inteligente o comportamento de quem pensa, antes mesmo do início de uma competição, que vai encontrar uma guerra em vez de um simples jogo de futebol. A reação de Felipe Melo, contudo, não foi tão desmedida quanto algumas pessoas tentaram rotular. Foi apenas o que esperavam dele.
Também foi assim a discussão com Antonio Tabet, vice-presidente de comunicação do Flamengo. O cartola ironizou em redes sociais o acerto de Felipe Melo com o Palmeiras – o jogador é torcedor rubro-negro, mas encontrou na equipe paulista uma proposta profissional mais vantajosa.
Melo respondeu. Reafirmou a paixão pelo Flamengo, mas precisou explicar que é profissional e tem direito de trabalhar onde quiser – e não necessariamente no lugar que ama. Criticou “um diretor do Flamengo”, e Tabet partiu para a tréplica.
“O senhor Felipe Melo, antes de ir embora do Brasil, foi acusado de esfaquear um cara aqui no Rio de Janeiro. Não sei como terminou essa história, mas podem procurar aí no Google”, disse Tabet em entrevista à “Rádio Globo” do Rio de Janeiro.
O primeiro ponto: se ele foi acusado, não é necessariamente culpado; apenas a Justiça pode dar um veredicto, e o sistema brasileiro é estruturado a partir da presunção de inocência. O segundo: mesmo que tivesse sido condenado, o que isso tem a ver com a discussão? Tabet jogou no ar uma história relacionada ao passado como estratégia para desmerecer Felipe Melo. Agiu como se não entendesse que pessoas cometem erros e que devem ser julgadas por eles, mas não podem carregar consigo eternamente a pecha.
Tabet foi cafajeste ao falar de Felipe Melo como se o jogador fosse culpado. Foi ainda mais cruel por ter se eximido da acusação (apelou ao “podem procurar no Google”). Tentou debelar a credibilidade do interlocutor como se isso o ajudasse na discussão (um ataque ao argumentador e não ao argumento).
Novamente, coloque-se na pele de Felipe Melo: em quantas situações você foi julgado por pessoas alheias ao acaso ou teve de lidar com feridas abertas além do tempo?
Felipe Melo pode ter vários defeitos, mas é apenas isso: um jogador e uma pessoa falível. Tem de ser avaliado por essas atitudes, mas não pode ser eternamente rotulado por elas. O contexto serve para isso, afinal: para entendermos que somos seres em progresso.