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Princípio Metodológico das Propensões, segundo a Periodização Tática

O princípio das propensões, aliás é um termo do Popper que eu uso, significa que o contexto está mais propenso a X do que a Y, porque normalmente as pessoas dizem, “eu quero que faça isto ou faça aquilo”. Não! Eu quero que ele faça em função de um contexto determinado. Portanto eu tenho que parir é o contexto, não os comportamentos e isso é uma confusão do caraças das pessoas. Tenho que articular em função de como eu jogo, defendo de determinada maneira para poder atacar de determinada maneira, portanto eu estou preocupado com a transição defensiva, com a ofensiva. Portanto eu tenho que criar condições para que isso se organize de modo mais preferencial, para que haja uma familiaridade com uma determinada lógica. Portanto o Princípio das Propensões é isso, é o contexto acontecimental[1].

A comissão técnica deve estar atenta não somente à qualidade da sua ideia de jogo, mas também ao modo como ela é operacionalizada nos treinamentos ao longo da semana. Por isso, nem sempre o motivo de maus resultados está na ideia de jogo do treinador, mas na operacionalização da mesma[1].
Nesse sentido, a Periodização Tática está estruturada em determinados princípios metodológicos[2], que interagem, dão lógica e um sentido ao processo de treino, possibilitando que a equipe se desenvolva em todas as dimensões do desempenho com qualidade.
O princípio metodológico das propensões está relacionado à modelação dos contextos de exercitação, com o objetivo de criar contextos relativos ao jogar[3]que se pretende, que possibilitem o aparecimento do que se quer treinar com elevada frequência.
A ideia de propensão tem a ver com o fato de proporcionar que o contexto de exercitação seja mais propício ou provável à ocorrência de determinado acontecimento, neste caso, ao aparecimento de interações condizentes com a ideia de jogo do treinador.
Se um treinador quer aprimorar alguns aspectos da organização defensiva, como por exemplo, a coordenação e a dinâmica de pressão e coberturas da primeira e da segunda linha defensiva; o fecho do centro e a defesa do passe entre linhas, por uma razão lógica deverá criar exercícios que levem aos jogadores a estarem defendendo (da maneira pretendida) durante boa parte do tempo, tendo sempre em conta o padrão de solicitações que unidade de treino preconizada pelo Morfociclo Padrão requer.
https://vimeo.com/182921041
 

Claramente vemos que neste exercício de Diego Simeone, devido à manipulação do contexto, ou seja, as regras impostas, o espaço de jogo, a duração do exercício, o número de jogadores, o período de recuperação/exercitação e até as próprias intervenções do treinador são algumas das variáveis que permitem direcionar o contexto para o que lhe interessa, no caso os propósitos defensivos elencados no parágrafo anterior.

Nesta situação, pelo fato de existir uma linha que divide o espaço de jogo, não permitindo que quem defende “invada” o campo da equipe com posse, propicia que quem defende faça inúmeros movimentos de pressão, cobertura, fecho do centro e do espaço entre linha. Tudo isso com a ajuda de corredores demarcados, que auxiliam os jogadores a ocupar o melhor espaço durante o exercício.

Ainda que o foco esteja, neste caso específico, voltado para a organização defensiva, isso não significa que os propósitos ofensivos não sejam contemplados, pelo contrário. Deve-se atacar em função da maneira pretendida, e, inclusive, neste caso específico, os dois jogadores mais adiantados devem apresentar boa mobilidade, abrir linhas de passe e ter um bom perfilamento corporal na hora de receber o passe, pois só podem dar 1 toque na bola.

Quando treinei a equipe Sub-20 do Joinville, uma das preocupações era de que a equipe sempre estivesse bem compactada quando estivesse defendendo, principalmente em situações de marcação em bloco médio e baixo.


 
O vídeo acima se trata de um contexto criado em treino, que levasse os jogadores a estarem permanentemente próximos e compactos quando estivessem sem a posse da bola, de maneira natural, sem que a comissão técnica precisasse, obrigatoriamente, ficar intervindo neste sentido.
O espaço de jogo foi dividido em seis faixas e, só seria válido roubar a bola se a equipe estivesse ocupando duas faixas em profundidade (exceto quando a pressão fosse feita no campo do adversário – bloco alto, onde se poderia ocupar todas as faixas do campo ofensivo). Ainda, existem três corredores que ajudam na orientação espacial dos jogadores, tanto para atacar, como para defender.
Isto é, em função da manipulação do espaço e de uma simples regra, de maneira natural, os jogadores foram levados a estar sempre próximos um dos outros para defender, facilitando o pressing, os encurtamentos e a aquisição da ideia de jogo.
No vídeo abaixo, podemos ver a transferência dos conceitos treinados[1]no exercício anterior em competição: estar permanentemente compactado em bloco médio/baixo.

 
Portanto, o princípio das propensões tem a ver com a contextualização dos propósitos que se querem alvo de repetição sistemática, sendo que o que se pretende é que as preocupações de momento do treinador apareçam regularmente em treino, em vez de outras quaisquer – a todos os níveis. Não se trata de quantificar ações, mas de criar contextos de exercitação ricos, que levem à uma determinada dominância de interações relativas à ideia de jogo do treinador, fazendo com que os jogadores assimilem, incorporem e somatizem estes propósitos.
Conforme coloca Tamarit[1], para garantir que em cada dia do Morfociclo aconteça efetivamente o que queremos que aconteça – a todos os níveis, é fundamental que se produza uma redução sem empobrecimento, ou seja, uma redução sem perda do padrão identificador – a ideia de jogo, que será qualitativa e quantitativa ao mesmo tempo, garantindo que a aquisição pretendida aconteça da melhor forma possível.
Vale a pena destacar que o princípio metodológico das propensões não tem como finalidade propiciar a vivência exacerbada somenteda ideia de jogo do treinador nas suas diferentes escalas (macro princípios, meso princípios e micro princípios), mas também promover com elevada frequência o aparecimento de um determinado tipo de contração muscular (predominante), da matriz metabólica implicada, determinadas dinâmicas de desempenho e recuperação, da intensidade máxima relativa a vivenciar, e um conjunto de outras coisas, segundo o dia do Morfociclo.
 
 
[1]TAMARIT, Xavier.Periodización Táctica vs Periodización Táctica. Editorial MBF. Espanha, 2013.
[1]Ainda que o foco central da comissão técnica, para este dia em particular, fosse o aprimoramento de elementos defensivos, a equipe com a posse da bola deveria jogar igualmente em função dos propósitos da nossa ideia de jogo, como por exemplo, quando o adversário estivesse defendendo num bloco mais baixo, circular a bola para tentar abrir espaços no rival; Se o adversário estivesse com a linha mais alta, pressionando em bloco alto, tentar explorar o espaço deixado nas costas no menor tempo possível, sem perda de qualidade nas ações.
[1]TAVARES, José Fernando Ferreirinha. Entrevista. In TAMARIT, Xavier. Periodización Táctica vs Periodización Táctica. Editorial MBF. Espanha, 2013.
[2]Princípio Metodológico das Propensões, Progressão Complexa e Alternância Horizontal em especificidade.
[3]Jogar:O jogaré o tipo de futebol que uma equipe produz. São regularidades que identificam uma equipe. Escrevo em itálico para diferenciar um jogarde um “Jogo Geral”.
[1]FRADE, Vítor Manuel da Costa. Entrevista. In. TAMARIT, Xavier.Periodización Táctica vs Periodización Táctica. Editorial MBF. Espanha, 2013.