Por: Douglas Bazolli
Resumo
Este artigo propõe uma análise crítica sobre a posição do camisa 10 no futebol contemporâneo, argumentando que, apesar das transformações táticas, a essência do jogador criativo e protagonista permanece indispensável. Contesta-se a narrativa de que o futebol moderno teria naturalmente “eliminado” essa figura, sugerindo que a supervalorização do coletivo, muitas vezes impulsionada pelo medo de perder resultados, tem levado à subutilização e à neutralização de talentos individuais. Defende-se que o craque não deve ser obrigado a se adaptar a sistemas que o sufocam, mas que o jogo e os treinadores precisam encontrar mecanismos para proteger e potencializar o protagonismo do camisa 10. O coletivo, embora fundamental, deve servir como ferramenta para amplificar o talento, e não como um fim em si mesmo que o apaga. A discussão aborda a profundidade tática e metodológica necessária para resgatar o protagonismo do camisa 10, utilizando exemplos de treinadores e jogadores que ilustram essa tensão entre o individual e o coletivo.
Palavras-chave: camisa 10; protagonismo; futebol moderno; tática; talento; coletivo; metodologia.
1. Introdução: O Craque em Campo e o Medo de Perdê-lo
A figura do camisa 10 sempre foi o coração pulsante do futebol. Sinônimo de criatividade, imprevisibilidade e genialidade, o armador clássico era o maestro que ditava o ritmo, a pausa e a aceleração do jogo. No entanto, o futebol contemporâneo, com sua ênfase na intensidade, na compactação e na organização coletiva, parece ter relegado essa figura a um segundo plano, ou pior, a uma espécie de “luxo” tático que poucos se permitem. A narrativa corrente sugere que o camisa 10 teria sido “engolido” pela modernidade, obrigado a se transformar em um volante marcador ou em um ponta veloz para sobreviver.
Mas essa leitura, embora sedutora, é superficial e perigosa. Ela esconde uma verdade incômoda: o problema não é a obsolescência do camisa 10, mas a incapacidade de muitos sistemas e treinadores em protegê-lo e potencializá-lo. O medo de perder, a obsessão pelo controle e a busca incessante por resultados imediatos têm levado a uma supervalorização do coletivo que, paradoxalmente, neutraliza o que há de mais valioso no futebol: o talento individual capaz de romper padrões e decidir jogos.
Johan Cruyff, com sua sabedoria singular, já alertava: “Jogar futebol é simples, mas é difícil jogar simples”. Essa frase encapsula a essência do dilema. O futebol, em sua complexidade tática atual, exige inteligência e organização, mas a simplicidade genial do craque é o que o torna verdadeiramente imprevisível. O camisa 10 não precisa mudar sua essência para caber no sistema; o sistema é que precisa encontrar mecanismos para que ele brilhe sem perder seu protagonismo. O coletivo, sim, é fundamental, mas ele deve ser uma ferramenta para amplificar o talento, e não uma mordaça que o silencia.
Este artigo se propõe a defender, com veemência, que o camisa 10 não apenas ainda existe, mas é mais necessário do que nunca. O desafio é resgatar seu protagonismo, questionando as lógicas que o sufocam e propondo caminhos metodológicos para que o talento volte a ser o centro do espetáculo.
2. A Metamorfose do Protagonista: Do Clássico ao Contemporâneo
A evolução tática do futebol é um processo contínuo de adaptação. Jonathan Wilson, em sua obra seminal Inverting the Pyramid, demonstra como as posições e funções no campo se transformaram ao longo da história, mas a necessidade de um cérebro criativo no meio-campo nunca desapareceu por completo. O que mudou foi a forma como esse cérebro se manifesta e se integra ao jogo.
Rinus Michels, o pai do Futebol Total, já preconizava uma fluidez de posições onde todos atacavam e defendiam. Contudo, essa fluidez não significava a anulação do especialista, mas sim a sua integração em um sistema dinâmico. “O futebol total exige que todos ataquem e defendam, mas sempre com inteligência e ocupando os espaços certos”, uma máxima que sublinha a importância da funcionalidade individual dentro do coletivo. O camisa 10, nesse contexto, não é um jogador estático, mas um elemento móvel que cria superioridade numérica e espacial.
Pep Guardiola, herdeiro dessa filosofia, elevou a ocupação racional dos espaços a um dogma. Para ele, o talento sem um sistema é apenas talento; com um sistema, é uma força imparável. “Se você não tem a bola, precisa ocupar bem o espaço. Se tem a bola, precisa encontrar o homem livre”, ensina Guardiola, destacando que a organização coletiva serve para criar as condições ideais para que o jogador de qualidade receba a bola em vantagem e decida. O camisa 10, em sua visão, é o principal beneficiário dessa orquestração.
Arrigo Sacchi, com sua obsessão pela compactação e sincronização, também defendia um coletivo que funcionasse como uma orquestra. “Uma equipe é como uma orquestra. Se um músico toca desafinado, não importa o quão bom ele seja, a sinfonia não soa bem”, afirmava. Essa citação, muitas vezes usada para justificar a rigidez tática, pode ser reinterpretada: o camisa 10 é o solista que, quando bem integrado e afinado com o restante da orquestra, eleva a qualidade da sinfonia a um patamar superior. O problema não é o solista, mas a falta de ensaio para que ele brilhe em harmonia.
O camisa 10, portanto, não morreu. Ele se metamorfoseou. Deixou de ser um jogador fixo para se tornar um elemento relacional, que flutua, que se associa e que, acima de tudo, continua sendo o ponto de desequilíbrio em um jogo cada vez mais equilibrado.
3. O Coletivo como Ferramenta, Não como Mordaça: A Crítica à Neutralização do Talento
A busca incessante por um coletivo “perfeito” e a obsessão por defender resultados têm levado muitos clubes a uma lógica de neutralização do talento. O medo de perder, de ser exposto, de sofrer um contra-ataque, faz com que treinadores optem por sistemas mais seguros, mais compactos e, consequentemente, menos criativos. Nesse cenário, o camisa 10, o jogador que por natureza arrisca e desequilibra, é visto como um risco, e não como uma solução.
Jürgen Klopp, embora associado a um futebol de alta intensidade e pressão, também reconhece a necessidade de jogadores que quebrem linhas. Seu “Gegenpressing” exige que a recuperação da bola seja rápida para que a transição ofensiva, muitas vezes liderada por jogadores criativos, seja letal. A intensidade não anula o talento; ela o exige em um ritmo mais acelerado.
O problema reside quando o coletivo se torna uma mordaça, um fim em si mesmo, e não uma ferramenta para potencializar o individual. O craque é então obrigado a “se adaptar” a funções que não são suas, a correr mais do que criar, a marcar mais do que pensar o jogo. Essa adaptação forçada não é evolução; é diluição. O talento, que deveria ser o motor da equipe, torna-se um peso, um elemento a ser contido.
O futebol brasileiro, com sua rica história de camisas 10, sente particularmente essa tensão. Telê Santana, um dos maiores expoentes do futebol arte, sempre defendeu a liberdade criativa, mas com responsabilidade. “O futebol é arte e disciplina”, dizia Telê, sublinhando que a técnica e a ousadia precisam de um arcabouço tático para florescer, mas nunca para serem sufocadas. Sua filosofia era a de que o talento deveria ser o ponto de partida, e não um obstáculo a ser superado.
Vanderlei Luxemburgo, em sua trajetória, também sempre valorizou o jogador que pensa o jogo, o “cérebro” do meio-campo. Sua visão, muitas vezes pragmática, nunca abriu mão da importância de ter um jogador capaz de ditar o ritmo e a direção do ataque. Muricy Ramalho, conhecido por sua ênfase na compactação e na solidez defensiva, também sabia que, para vencer, era preciso ter jogadores que fizessem a diferença na frente. O equilíbrio, para ele, não significava a ausência de craques, mas a sua integração funcional.
4. A Responsabilidade do Treinador: Proteger e Potencializar o Craque
A chave para resgatar o protagonismo do camisa 10 reside na figura do treinador. É ele quem tem a responsabilidade de criar o ambiente tático e metodológico para que o craque não apenas sobreviva, mas brilhe. Isso implica em proteger o jogador criativo, construir mecanismos para que ele receba a bola em condições favoráveis e permitir que ele exerça sua essência de desequilibrar.
Abel Ferreira, um dos treinadores mais vitoriosos do futebol brasileiro recente, é um exemplo de como a organização e a rotina de treino podem potencializar jogadores entre linhas. Sua metodologia busca criar vantagens espaciais e temporais para que os jogadores de qualidade recebam a bola em zonas de decisão. “O jogo é dos jogadores, mas o treino é do treinador”, uma frase que resume a importância da preparação para que o talento se manifeste. O treinador não deve ser um limitador, mas um facilitador da genialidade.
Para que o camisa 10 seja protagonista, o treino precisa ser intencional. Isso significa:
• Jogos posicionais que obriguem a equipe a encontrar o jogador criativo entre linhas.
• Tarefas específicas que simulem situações de decisão para o camisa 10.
• Mecanismos de apoio que garantam que ele tenha opções de passe e cobertura.
• Liberdade tática para flutuar e buscar o espaço onde pode ser mais efetivo.
Sem essa metodologia, o camisa 10 se torna um talento isolado, recebendo poucas bolas em zonas úteis, e sua influência no jogo diminui drasticamente. O problema, portanto, não é o jogador, mas a falta de um plano para ele.
5. O Camisa 10 em Campo: Exemplos de Protagonismo e Subutilização
O futebol atual está repleto de exemplos que ilustram essa tensão entre o talento individual e a lógica coletiva.
No cenário mundial, Kevin De Bruyne é o protótipo do camisa 10 moderno que prospera em um sistema que o valoriza. No Manchester City de Guardiola, ele não é apenas um passador; é o motor da criação, o jogador que quebra linhas e decide. Sua capacidade de leitura e execução é amplificada por uma equipe que o protege e o alimenta. Luka Modrić, no Real Madrid, mesmo com a idade avançada, continua sendo um maestro que dita o ritmo, controla a posse e encontra passes improváveis, mostrando que a inteligência tática é atemporal quando há um ambiente que a sustenta. Bruno Fernandes, no Manchester United, e Bernardo Silva e Jamal Musiala, em seus respectivos clubes, também demonstram como a criatividade pode ser exercida com mobilidade, intensidade e capacidade de decisão.
No Brasil, a discussão é ainda mais latente. Ganso, no Fluminense, é um dos últimos remanescentes do camisa 10 clássico, um jogador que precisa da bola no pé, de tempo e de espaço para pensar o jogo. Quando a equipe de Fernando Diniz, por exemplo, consegue criar esse ambiente, Ganso se torna o maestro que organiza o ataque. Sua subutilização em outros contextos não se deu por falta de talento, mas por falta de um sistema que o protegesse.
Arrascaeta, no Flamengo, é outro exemplo de craque que, quando bem inserido, eleva o patamar da equipe. Sua capacidade de jogar entre linhas, de associar com poucos toques e de decidir em espaços curtos o torna um dos jogadores mais influentes do país. Gustavo Scarpa, Matheus Pereira e Raphael Veiga também representam essa nova safra de meias que combinam técnica, leitura e capacidade de finalização. Todos eles, porém, dependem de um coletivo que os entenda e os potencialize.
Rodrygo, no Real Madrid, e Claudinho, em sua trajetória, ilustram como a criatividade pode se manifestar em diferentes posições e com diferentes características. Rodrygo, com sua mobilidade e capacidade de drible, e Claudinho, com sua visão de jogo e passe, mostram que o talento não está restrito à camisa 10, mas à capacidade de desequilibrar em zonas cruciais do campo. O desafio é criar o ambiente para que esses jogadores não sejam apenas “bons”, mas “protagonistas”.
6. Discussão: O Talento Não Pode Ser Negociável
A tese central deste artigo é clara: o talento não pode ser negociável em nome de uma lógica coletiva que o sufoca. O futebol moderno, ao buscar o controle excessivo e a minimização de riscos, corre o risco de se tornar um espetáculo previsível e sem brilho. O camisa 10, o craque, é a antítese dessa previsibilidade.
A frase de Telê Santana, “O futebol é arte e disciplina”, ressoa como um lembrete de que a beleza do jogo reside na fusão entre a genialidade individual e a organização coletiva. Não se trata de escolher um em detrimento do outro, mas de encontrar o equilíbrio que permita a ambos prosperar.
O problema não é o camisa 10 se adaptar demais, e sim o jogo criar condições para ele aparecer. Muitos clubes priorizam controle e defesa de resultado, e acabam sufocando o craque. O treinador precisa proteger o protagonista e criar mecanismos para que ele participe mais. O talento precisa estar em campo e não ser substituído por uma lógica excessivamente coletiva.
7. Considerações Finais: O Futuro do Futebol Precisa de Protagonistas
O camisa 10 não desapareceu. Ele foi silenciado por um futebol que, em sua busca por controle e segurança, esqueceu-se de que a essência do jogo reside na imprevisibilidade e na genialidade. A reinvenção necessária não é do craque, mas do próprio sistema que o cerca.
A responsabilidade recai sobre os treinadores e os clubes. É preciso coragem para proteger o talento, inteligência para criar mecanismos que o potencializem e sabedoria para entender que o coletivo é uma ferramenta para amplificar o individual, e não para neutralizá-lo. O futebol precisa de protagonistas, de jogadores que ousem, que criem e que decidam. O camisa 10, em sua essência, é a personificação dessa necessidade.
O futuro do futebol não está em um jogo sem craques, mas em um jogo que saiba valorizá-los, protegê-los e colocá-los no centro do espetáculo. O talento precisa estar em campo, e é dever de todos os envolvidos no esporte garantir que ele tenha o protagonismo que merece.
Referências
• Cruyff, J. (1997). My Turn: The Autobiography. Pan Books.
• Wilson, J. (2008). Inverting the Pyramid: The History of Football Tactics. Orion.
• Michels, R. (1971). Teambuilding and Tactical Principles in Modern Football. (Referência conceitual baseada em sua filosofia).
• Guardiola, P. (Entrevistas e conferências sobre jogo de posição e ocupação de espaços).
• Sacchi, A. (Entrevistas e obras sobre organização coletiva, compactação e sincronização).
• Klopp, J. (Entrevistas e coletivas sobre pressão, intensidade e organização coletiva).
• Telê Santana. (Depoimentos e entrevistas sobre técnica, liberdade com responsabilidade e jogo ofensivo).
• Luxemburgo, V. (Entrevistas e análises sobre leitura de jogo e protagonismo do meio-campo).
• Muricy Ramalho. (Entrevistas e análises sobre equilíbrio tático e funcionalidade coletiva).
• Ferreira, A. (Entrevistas e coletivas sobre metodologia de treino e mecanismos ofensivos).
• González-Víllora, S., et al. (2015). Review of the tactical evaluation tools for youth players, assessing the tactics in team sports: football. SpringerPlus, 4, 663.
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• Placar. (2025). É o fim do camisa 10 clássico? (Artigo de revista). • ge.globo. (2025). Dez camisas 10 para ficar de olho no Brasileirão 2025. (Artigo online).
• History of Soccer. (2023). The History of the Attacking Midfielder (The No.10). (Artigo online).

Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (sub 15 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
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