O jogo de futebol é técnico, tático, físico e mental. Tudo junto e ao mesmo tempo. Um drible, por exemplo: tem o gesto técnico da finta, a tática para saber se é uma ação ou para frente ou para trás, a questão física do arranque para superar o adversário e a coragem emocional de realizar o drible. É assim o jogo todo. Individual e coletivamente.
E mesmo não podendo separar o jogo em fragmentos e entendendo que o todo é maior que a soma das partes, há áreas que se potencializadas melhoram todo o conjunto. É o que chamamos de área de alavanca.
Na seleção brasileira hoje o que pode fazer a diferença e catapultar todo o projeto de campo é a parte emocional. Há claramente uma falta de confiança no grupo de jogadores. Os recentes insucessos e até os desmandos fora de campo em um ciclo de quatro anos marcado por uma instabilidade política enorme da Confederação Brasileira de Futebol fizeram com o que o moral de todos baixasse muito.
Pressão sempre houve e sempre vai existir. E o atleta que chega em um nível tão alto como esse sabe lidar muito bem com as cobranças. Mas saber lidar com derrotas é diferente. Exige um trabalho diferente e mais elaborado. E é aí que o currículo extremamente vencedor do técnico Carlo Ancelotti pode ser decisivo e fazer a diferença.
Não temos a melhor geração de todos os tempos, mas temos excelentes jogadores. O plano tático pode ser aprimorado com o período de treinamentos pré-Copa. A questão física, principalmente de alguns jogadores vindos de lesão, pode ser restabelecida. A cereja do bolo precisa ser o resgate da confiança e da auto estima. Não que isso fará do Brasil o grande favorito na Copa. Mas vai ajudar a aumentar nossas chances.
Olá a todos, hoje falaremos sobre a análise de uma das questões mais importantes do futebol, ou seja, o ERRO, afinal como dizem: “se ninguém errasse, o jogo terminaria zero a zero!” Tentar analisar o erro pode ser algo extremamente objetivo e de fácil definição, mas a sua origem na maioria das vezes se torna algo subjetivo, não calculável, dependente do contexto, identidade e estratégia de jogo.
Escrever sobre erros no futebol exige entender que o erro é a unidade básica do jogo. Para a análise de desempenho e também para as plataformas de análise IA, o desafio é transformar o “lance de azar” em um dado classificável.
Na formação de um jogador, o erro é parte integrante inevitável do processo. No profissional, o erro pode acarretar perda não apenas de uma partida, mas de uma temporada, de um ciclo ou de uma inteira trajetória. A importância de conhecer o erro permite corrigi-lo e, ao reconhecê-lo, poder evitar que aconteça novamente (“Conhecer para Reconhecer”).
Na origem da palavra “errar” que vem do latim errāre significa “vagar”, “andar sem rumo” ou “desviar-se” do caminho. No futebol podemos fazer uma analogia que erro não significa apenas finalizar para fora do gol, mas a partir do êxito, mas ter a competência de reconhecer o porque da situação e como corrigir-lo. Ou seja o que fez ele “desviar-se” do seu objetivo.
Segundo o estudo sobre a análise sequencial, o gol raramente é fruto de um único erro isolado. Geralmente é o resultado de uma sequência de 3 a 5 microerros acumulados em um curto intervalo de tempo, geralmente menos de 20 segundos (Castellano; 2000).
Usaremos exemplo do gol sofrido pelo Brasil no amistoso contra a França.
No estudo os erros foram divididos em 3 tipologias de sequência
Erros “Gatilho” (Trigger): Parecem inofensivos, mas quebram o equilíbrio tático
(ex: Nāo reação a bola perdida / recomposiçāo).
2. Erros “Amplificadores”: Reações erradas dos companheiros que tentam compensar o erro inicial, agravando a situação.
(Romper a marcação fora do tempo / Nāo temporizar)
3. Erros “Terminais”: A falha técnica final.
(ex: Inferioridade numérica nos últimos 20 metros / Leitura de fechamento de linha de passe)
As raízes de um erro possuem tantas variáveis que não podem ser contabilizadas de forma objetiva. Dada a dificuldade de determinar as origens de um erro devido à individualidade e características de cada sujeito, existem indicadores que podem ajudar a avaliar o desfecho negativo de uma ação em uma partida?
Entender sobre as tipologias do erro, nos ajuda a reconhecê-los e corrigi-los. Para uma reflexão pratica, utilizaremos como referência uma situação de jogo de re-construção/saída de bola que não teve como êxito a progressão para o segundo terço do campo.
APROFUNDAMENTO
Refletindo sobre a questão, existem algumas possibilidades de avaliação de um erro, que podem ser:
Técnico
Tomada de Decisão (Escolha)
Ocupação de Espaço
Tática Individual
TÉCNICO (Execução)
Provavelmente, entre as quatro possibilidades, esta é a mais evidente e reconhecível. Para exemplificar vamos imaginar os possíveis erros do defensor que tenta um passe para um meio-campista que podem ser:
Transmissão que não chega do jogador A ao jogador B.
Transmissão que chega ao destino, mas em condições inadequadas (muito forte, muito fraca, alta, etc.).
Transmissão chega ao destino, em condições corretas, mas no ponto errado (no pé mais perto da pressão adversária que pode retardar ou facilitar a pressão não dando sequência a jogada.
Controle (domínio) que não permite a continuidade funcional da jogada.
Controle com perda da posse de bola.
TOMADA DE DECISÃO (ESCOLHA)
O erro de escolha, segundo a FIGC (Federazione Italiana Giuoco Calcio), seria um erro de tática individual visto que a execução técnica é a parte final do processo chamado de OODA (Observar, Orientar, Decidir e Agir). Exemplos na construção:
Não avaliação da condição numérica (superioridade/inferioridade), vantagem posicional ou qualitativa.
Desconhecimento do princípio tático.
Falta de vivência da situação específica.
OCUPAÇÃO DE ESPAÇO
Com base no contexto (bola, meta, adversário, companheiro), existe uma distância de relação entre os jogadores. As distâncias permitem a interação e a ocupação do espaço conforme a estratégia. Devido a dinamicidade do jogo, essas distâncias podem não ser respeitadas:
Pouca distância entre jogadores, facilitando a pressão ultra ofensiva adversária.
Distância excessiva, diminuindo as linhas de passe para o portador.
Ocupação que não permite o aproveitamento da superioridade numérica do goleiro.
TÁTICA INDIVIDUAL
Envolve a tomada de posição e marcação (fase defensiva) e o orientação do corpo e desmarcação (fase ofensiva). A orientação do corpo de quem recebe é determinante. Erros comuns:
Posicionamento “flat” (corpo plano/fechado).
Estar de costas, sem visualizar a bola ou o campo.
Calcanhares no chão, reduzindo a reatividade.
ADVERSÁRIO
– o erro não pode ser considerado apenas um demérito coletivo ou individual, mas temos que levar em consideração os oponentes, segundo ainda o estudo de chain analyse, o adversário é um construtor de contexto (castellano;2000) que muitas vezes podem forçar o erro de tomada de decisão diminuindo o tempo-espaço através de uma pressão organizada, que pode ser medidoatravés do chamado ppda- passes por ação defensiva.
VARIAVEL OCULTA
– Os eventos de uma partida não são lineares; não seguem uma causa-efeito estreita. O desgaste físico, a leitura de jogo e a inteligência emocional influenciam diretamente no contexto de cada ação.
Apesar da condição biopsicossocial do ser humano, eles são considerados variáveis que fogem estrutura lógica do futebol. O erro, para fins da análise, é definido exclusivamente por indicadores espaciais, temporais e relacionais, ou seja, que sejam mensuráveis, garantindo que a unidade de medida seja o comportamento dentro do contexto e não a condição do indivíduo que podem ser diferentes entre si. Afinal se uma equipe toma um gol pois está “cansada” ou porque faltou “concentração”, provavelmente tais estados já se traduziram em métricas objetivas de queda de performance. Apesar de reconhecer a importância da variável oculta, ao focar no dado, a análise ganha precisão ao tratar o erro como evento principal; fato é que o jogador certo estava no lugar errado, no tempo errado.
“Conhecer para Reconhecer e Reconhecer para Corrigir”
Bruno Loureiro BatistaéTreinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/
A rua segue viva pulsando nos cantos do Brasil, nos campinhos de terra, nas traves improvisadas, no gol feito de chinelo. Dizer que ela deixou de existir talvez seja mais confortável do que admitir que paramos de oportunizar: nós paramos de olhar para ela.
Trabalho no INSTITUTO FUTEBOL DE RUA e tenho a oportunidade de visitar diferentes e inúmeras cidades do nosso país, e em todas elas encontramos o mesmo cenário. As brincadeiras continuam acontecendo, “o ambiente da rua”, o jogo continua sendo criado. A bola continua rolando mesmo sem uniforme, sem estrutura e, muitas vezes, sem adulto por perto.
A rua ainda ensina. Ensina a decidir; Ensina a lidar com o diferente; Ensina a negociar regras; Ensina a perder, ganhar e continuar jogando. dentre outros aprendizados.
Foi nesse ambiente que muitos dos grandes jogadores da nossa história foram formados. Não apenas tecnicamente, mas na sua essência como jogadores criativos, imprevisíveis e humanos. Mas, enquanto a rua resiste, o futebol parece ter seguido outro caminho.
Hoje, apenas uma parcela menor dos jovens inicia sua relação com o jogo nesses espaços. A maioria está nas escolinhas, nos projetos, nos ambientes formais. Isso não é, por si só, um problema. O problema está no afastamento simbólico que construímos, estrutural e metodológico. Criamos uma bolha.
Uma bolha onde o acesso depende de condições financeiras. Onde o deslocamento até o treino já é um filtro. Onde o uniforme, a mensalidade e a estrutura se tornam portas de entrada onde brincar não é considerado, muito menos praticado ou estimulado.
E, dentro dessa bolha, passamos a olhar pouco. Olha-se para o resultado imediato. Para o tamanho. Para a força. Para quem está pronto agora.
Seleciona-se cedo. Descarta-se rápido.
Enquanto isso, fora desse sistema, milhões de meninos seguem interagindo, brincando e se desenvolvendo sem oportunidades. Aproximadamente 99% de uma geração inteira que o futebol simplesmente não enxerga, meninos que vivem o jogo todos os dias, mas que dificilmente terão a oportunidade de vestir a camisa de um grande clube.
Quantos deles poderiam? Qual o melhor momento para oportunizar? Que momento o DEPARTAMENTO CAPTAÇÃO E PROSPECÇÃO poderia ser efetivo? Essa é uma pergunta que o futebol precisa ter coragem de fazer.
E, ao mesmo tempo, algo curioso vem acontecendo.
Enquanto nós, aqui dentro do País, passamos a buscar referências fora importando modelos, metodologias e formas de organizar o jogo, grupos internacionais têm feito o caminho inverso.
O City Football Group e a Red Bull, entre outros, têm investido no futebol brasileiro e em mercados semelhantes. Não apenas para implementar suas estruturas, mas para acessar algo que ainda é abundante por aqui: a rua, a ginga, o modo brasileiro de jogar futebol.
E esse modo, historicamente, nasce onde? Na rua.
Existe, então, uma contradição evidente. O mundo olha para o Brasil em busca daquilo que sempre nos caracterizou: a criatividade, a improvisação, a relação espontânea com o jogo, a ginga, a alegria e a ousadia.
E nós, por vezes, deixamos de valorizar exatamente isso.
Não se trata de negar a evolução do futebol, nem de rejeitar o conhecimento que vem de fora. O jogo mudou, e é fundamental acompanhar esse movimento. Mas evoluir não pode significar esquecer a própria identidade. O risco não está em aprender com o mundo e deixar de compartilhar o que somos, ele está em deixar de reconhecer o que o mundo vem aprender conosco.
A rua não é romantismo, ela é um ambiente de aprendizagem complexo, rico e profundamente formador, onde há riscos, mas o equilíbrio destas competências existentes na rua é potente. Um espaço onde o jogo se apresenta em sua forma mais livre, rica em diversidade e, por isso mesmo, mais desafiadora. Ignorá-la não é apenas perder uma referência cultural.
É, possivelmente, deixar de enxergar “potenciais”. Deixar de compreender processos. Deixar de formar melhor. Talvez a rua não tenha acabado, talvez o que esteja acabando seja a nossa capacidade de olhar para ela com atenção, respeito e intenção, estudando uma forma de torná-la possível aos esquecidos pelo futebol da bolha.
E se isso for verdade, a pergunta que fica não é apenas sobre quantos jogadores estamos formando… mas sobre quantos estamos deixando de formar sem nem perceber.
E isso hoje é o meu propósito, é pelos 99,999% que a bolha não oportuniza.
Inspirações e Referências
Alcides Scaglia Danilo Augusto Ribeiro João Batista Freire Wilton Carlos de Santana
Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152
O futebol contemporâneo constitui um fenómeno social, cultural e económico de grande relevância em diversas sociedades europeias. Os clubes de futebol assumem frequentemente um papel central na identidade coletiva das comunidades onde se inserem, funcionando como símbolos de pertença, representação territorial e memória histórica. Para muitos adeptos, o clube local não representa apenas uma organização desportiva, mas uma instituição com significado emocional e cultural profundo que transita de geração em geração.
Diversos clubes com presença histórica em campeonatos profissionais enfrentaram dificuldades financeiras graves que culminaram em processos de insolvência, dissolução administrativa ou desaparecimento jurídico. A crescente profissionalização do futebol, associada à intensificação das exigências económicas da competição, contribuiu para aumentar os riscos de instabilidade financeira em várias organizações desportivas. Quando um clube desaparece, a comunidade de adeptos enfrenta uma perda que ultrapassa o plano competitivo. A extinção de uma instituição com décadas de história representa frequentemente uma rutura simbólica com o passado. Como reação a estas perdas, surgem frequentemente iniciativas destinadas a preservar a herança desportiva e identitária do clube original, sendo que uma dessas respostas consiste na criação de um novo clube, habitualmente designado por “clube fénix”.
O conceito de clube fénix refere-se a uma organização fundada após o colapso de um clube anterior, procurando recuperar a sua identidade histórica, os seus símbolos e a ligação com os adeptos. Tal processo implica um percurso complexo de reconstrução institucional, marcado por desafios económicos, sociais, desportivos e organizacionais. O presente artigo analisa os principais desafios enfrentados pelos clubes fénix no contexto do futebol europeu, recorrendo igualmente a alguns exemplos concretos que ilustram diferentes trajetórias de reconstrução institucional.
Contexto de Colapso Institucional
A falência dos clubes de futebol resulta frequentemente de processos prolongados de fragilidade económica e de modelos de gestão insustentáveis. O aumento das despesas associadas à atividade profissional, especialmente em salários de jogadores, infraestruturas e encargos operacionais, tem colocado diversas organizações perante pressões financeiras significativas. Em muitos casos, a tentativa de alcançar sucesso desportivo imediato conduz a investimentos que ultrapassam a capacidade financeira real dos clubes. A dependência de investidores externos, a acumulação de dívidas fiscais e a falta de mecanismos de controlo financeiro contribuem para agravar situações de desequilíbrio orçamental. Quando as dificuldades atingem níveis críticos, os clubes podem entrar em processos de insolvência que culminam na perda da personalidade jurídica ou na dissolução administrativa.
O desaparecimento de um clube provoca frequentemente uma reação mobilizadora por parte dos adeptos e das comunidades locais. A criação de um clube fénix surge como tentativa de preservar a continuidade simbólica da instituição desaparecida, ainda que juridicamente se trate de uma nova entidade completamente distinta.
Sustentabilidade Económica e Reconstrução Financeira
A sustentabilidade financeira constitui um dos maiores desafios enfrentados por clubes fénix, sendo que inicia a sua atividade sem grande parte dos recursos materiais e financeiros que sustentavam o clube anterior. Infraestruturas, contratos comerciais e património podem ter sido alienados ou perdidos durante o processo de insolvência. A participação nas divisões inferiores do sistema competitivo implica receitas muito reduzidas ou muitas vezes inexistentes. Os direitos televisivos tornam-se inexistentes, existe uma menor visibilidade mediática e reduzida capacidade de atração comercial que por sua vez limitam as fontes de financiamento disponíveis. Perante esta realidade, muitos clubes adotam modelos de financiamento baseados numa forte participação dos sócios e adeptos do anterior clube insolvente. Através de campanhas de adesão associativa, iniciativas comunitárias e parcerias com pequenas empresas locais e de anteriores sócios/adeptos, que se tornam elementos fundamentais para assegurar a sustentabilidade financeira inicial.
A experiência do colapso institucional anterior tende a influenciar profundamente a cultura organizacional destes clubes. A prudência financeira e o equilíbrio e rigor orçamental passam a assumir prioridade estratégica. A construção de um modelo económico sustentável baseia-se frequentemente em princípios de transparência, responsabilidade financeira e controlo rigoroso das despesas. A componente social desempenha um papel determinante na consolidação de um clube fénix, dado que a ligação emocional entre clube e adeptos constitui frequentemente o principal motor do processo de reconstrução institucional. Os adeptos não são apenas consumidores de um espetáculo desportivo, pois representam uma comunidade de pertença que se identifica com
os valores, símbolos e história do clube. O desaparecimento de uma instituição desportiva provoca, por isso, um impacto significativo na identidade coletiva de muitas comunidades.
O clube fénix surge como um projeto de reconstrução social que procura preservar essa identidade. A participação ativa dos adeptos no processo fundacional contribui para reforçar a legitimidade do novo clube. Em diversos casos europeus, os adeptos desempenharam um papel central na criação ou recuperação destas organizações. Um exemplo particularmente relevante pode ser observado em Inglaterra com a fundação do AFC Wimbledon. Após a transferência do antigo Wimbledon FC para a cidade de Milton Keynes em 2002, um grupo de adeptos decidiu criar um clube que preservasse a identidade histórica da instituição original. O projeto iniciou-se nos escalões inferiores do futebol inglês e, ao longo dos anos, conseguiu alcançar as divisões profissionais, tornando-se um dos exemplos mais emblemáticos de reconstrução baseada na mobilização dos adeptos.
Desafios Desportivos e Progressão Competitiva
A dimensão desportiva representa uma das faces mais visíveis da reconstrução de um clube fénix., sendo que a maioria destas organizações inicia a sua atividade nas divisões inferiores dos campeonatos nacionais, independentemente do historial competitivo do clube anterior. Implica um percurso de progressão gradual, que pode prolongar-se durante vários anos ou mesmo décadas. A construção de equipas competitivas com recursos financeiros extremamente limitados exige uma estratégia desportiva muito bem estruturada.
A aposta na formação de jogadores jovens constitui uma das abordagens mais frequentes, com vista à valorização de atletas locais que por sua vez permite reduzir custos e reforçar simultaneamente a ligação entre a equipa e a comunidade. A estabilidade técnica desempenha igualmente um papel importante, a continuidade das equipas técnicas facilita a consolidação de modelos de jogo e de processos de desenvolvimento desportivo.
Um exemplo relevante de reconstrução desportiva ocorreu em Itália com o caso da Fiorentina, que após a falência do clube histórico em 2002, foi criada uma entidade denominada inicialmente Florentia Viola, posteriormente renomeada como ACF Fiorentina. O novo clube iniciou a sua atividade nas divisões inferiores do futebol italiano e conseguiu regressar rapidamente aos escalões profissionais, recuperando a presença na Serie A e reafirmando o seu papel no futebol italiano. Na Escócia, o Rangers FC, o histórico clube de Glasgow, enfrentou em 2012 um processo de liquidação após graves problemas financeiros e fiscais. Uma nova entidade empresarial adquiriu os ativos desportivos do clube e permitiu a continuidade da atividade competitiva. O Rangers foi reintegrado no sistema competitivo escocês nos escalões inferiores e iniciou um processo de recuperação progressiva, regressando posteriormente à principal divisão do futebol escocês. O caso do Parma Calcio 1913 constitui também um exemplo significativo de reconstrução desportiva. Após a falência do histórico Parma FC em 2015, um novo clube foi criado e iniciou atividade na Serie D, o quarto escalão do futebol italiano. Através de uma estratégia de crescimento gradual e de forte mobilização dos adeptos, o clube conseguiu regressar às divisões profissionais em poucos anos.
A criação de um clube fénix oferece também uma oportunidade para reformular os modelos de governação institucional, pois muitos dos clubes que entraram em colapso apresentavam fragilidades significativas em termos de gestão administrativa e controlo financeiro. A nova organização pode adotar estruturas de governação mais transparentes e participativas. Estatutos claros, mecanismos de fiscalização financeira e participação ativa dos sócios contribuem para reforçar a legitimidade institucional.
A profissionalização gradual da gestão torna-se igualmente necessária à medida que o clube cresce, adicionando funções relacionadas com administração financeira, marketing, comunicação e planeamento desportivo exigem competências técnicas especializadas. O acesso extremamente limitado a infraestruturas adequadas constitui um dos principais desafios. Muitos clubes fénix não dispõem inicialmente de estádio próprio ou centros de treino permanentes. A utilização de instalações municipais ou a partilha de infraestruturas com outras entidades desportivas representa uma solução comum nas fases iniciais, que por sua vez atrasam o desenvolvimento desportivo dos clubes.
O Caso do União da Madeira e o Surgimento do União da Bola Futebol Clube
O contexto português oferece também exemplos relevantes de processos de reconstrução institucional associados ao desaparecimento de clubes históricos. Um caso particularmente significativo ocorreu na Região Autónoma da Madeira com o declínio do histórico Clube de Futebol União da Madeira. Fundado em 1913, o União da Madeira construiu ao longo de várias décadas uma presença relevante no futebol português, incluindo participações na Primeira Liga. O clube desempenhou um papel importante na vida desportiva da cidade do Funchal e na formação de gerações de adeptos. As dificuldades financeiras acumuladas ao longo dos anos conduziram gradualmente a uma situação de declínio institucional que acabou por resultar na interrupção da atividade competitiva. A perda de capacidade organizativa e os problemas económicos impediram a continuidade do projeto desportivo nos moldes anteriormente existentes.
Perante esta realidade, surgiu em 2022 um novo projeto destinado a preservar o espírito e a identidade associada ao universo unionista. Foi então fundado o União da Bola Futebol Clube, inspirado na herança histórica do União da Madeira. O novo clube iniciou a sua atividade nas competições organizadas pela Associação de Futebol da Madeira, começando nos escalões inferiores do futebol regional. O percurso competitivo inicial demonstrou uma evolução gradual. Na época desportiva de 2024/25, o clube alcançou a subida da Primeira Divisão Regional para a Divisão de Honra da Associação de Futebol da Madeira, escalão em que atualmente compete.
O caso do União da Bola Futebol Clube evidencia vários dos desafios característicos dos clubes fénix, sendo que a reconstrução institucional exige dedicação da estrutura existente, rigor e sacrifício, mobilização de adeptos, criação de estruturas organizativas estáveis e consolidação de um projeto desportivo capaz de crescer progressivamente no contexto competitivo regional. A preservação da memória histórica do União da Madeira continua a desempenhar um papel relevante na identidade simbólica do novo clube. A ligação emocional dos adeptos à história unionista contribui para sustentar o projeto e reforçar o sentimento de continuidade entre passado e presente.
Conclusão
Os clubes fénix representam um fenómeno significativo no panorama do futebol contemporâneo, poisa sua emergência evidencia simultaneamente as fragilidades estruturais de algumas organizações desportivas e a capacidade de mobilização das comunidades que procuram preservar as suas instituições simbólicas.
A reconstrução de um clube após um processo de colapso envolve desafios complexos que abrangem múltiplas dimensões da vida organizacional, desde a sustentabilidade económica, a reconstrução da ligação social com os adeptos, o desenvolvimento de estruturas de governação transparentes e a consolidação da competitividade desportiva constituem elementos fundamentais deste processo. Vários clubes demonstram que trajetórias de renascimento institucional são possíveis quando existe uma base social mobilizada e uma estratégia de desenvolvimento sustentável. O exemplo do União da Bola Futebol Clube na Madeira evidencia igualmente a presença deste fenómeno no contexto português, ilustrando o esforço de reconstrução associado à herança do União da Madeira.
O percurso de um clube fénix raramente é imediato ou linear. A reconstrução exige tempo, estabilidade organizacional, dedicação, empenho, muito rigor e forte envolvimento comunitário. A persistência das direções, estruturas, dos adeptos e a capacidade de desenvolvimento institucional podem transformar um episódio de
colapso numa oportunidade de renovação estrutural, permitindo que o clube renasça e recupere gradualmente o seu lugar no panorama desportivo.
André Encarnação atua como Diretor Desportivo do União da Bola Futebol Clube. Também já atuou como professor, treinador e coordenador de futebol, além ser um pesquisador ativo nos temas de turismo esportivo e sustentabilidade. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/randreencarnacao/
É comumente difundida a ideia de que administrar uma Organização é algo composto de planejamento, organização, direção e controle. Dos quatro conceitos mencionados, o planejamento é o principal, o mais importante, o que deve nortear todos os outros.
Planejar consiste em estabelecer objetivos de curto, médio e longo prazo, assim como os meios de obtê-los. Sucede que, no Brasil, o conceito de planejamento não é devidamente valorizado.
Há razões históricas para isso, pois a colonização portuguesa foi baseada na extração de minerais preciosos, os mancebos vinham para cá para conseguir riqueza e voltar à metrópole portuguesa. Uma visão, claramente, de curto prazo, quando o planejamento deve contemplar o longo prazo.
Portanto, organizações brasileiras, em geral, têm falhas no planejamento… e não seria diferente no futebol.
No futebol, o planejamento significa organizar toda a temporada antes dela começar, considerando vários fatores, tais como montagem do elenco, definição do treinador e da comissão técnica, calendário de competições, controle financeiro. desenvolvimento das categorias de base, estratégia de contratações e vendas de jogadores.
Clubes que planejam bem evitam decisões impulsivas, como demitir técnicos a cada derrota ou contratar jogadores apenas pela pressão da torcida. Clubes que planejam mal ficam presos ao imediatismo, ao empirismo, ao paternalismo.
A troca de treinadores é um dos aspectos marcantes do mau planejamento, trocar de técnico muitas vezes prejudica a implantação de uma filosofia de jogo.
Decisões emocionais são tomadas com base em pressão da torcida, da imprensa ou de resultados imediatos, o que também denota mau planejamento.
Mais um indício de mau planejamento são os dirigentes amadores, que não tem formação em Gestão e que não são oficialmente remunerados.
E mau planejamento também é detectado em clubes que têm dívidas exorbitantes, não há orçamento, ou este é mau concebido ou não cumprido. Um problema recorrente, em termos de planejamento, não diz respeito a um clube específico, mas sim ao conjunto de clubes: o calendário imperfeito, irracional, anacrônico, do futebol brasileiro.
Este escriba é especialista no assunto.
Há exemplos de clubes que melhoraram seu desempenho a partir do planejamento.
O Flamengo, de 2013 em diante, a partir do planejamento, resgatou dívidas colossais, aumentou receitas e ganhou muitos títulos.
O Palmeiras, a partir de um presidente que emprestou dinheiro para pagar dívidas e de uma patrocinadora poderosa, que ditaram caminhos, conseguiu se reerguer.
O Athletico Paranaense é frequentemente citado como exemplo de gestão moderna, com forte planejamento de infraestrutura e formação de jogadores, apesar dos altos e baixos dos últimos anos.
Uma mudança recente no futebol brasileiro foi a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que permite clubes se tornarem empresas, como Botafogo, Cruzeiro, Bahia. A ideia é trazer investimento privado e gestão profissional, facilitando o planejamento de longo prazo.
Em relação ao planejamento da forma de jogar do time, isto envolve modelo de jogo definido, perfil de contratações compatível com o treinador, integração entre base e profissional, uso de análise de dados e scouting.
Portanto, em termos de planejamento, o futebol brasileiro se equilibra entre a modernidade europeia e os métodos arcaicos históricos nativos.
(Texto Escrito com a Ajuda do Chatgpt)
*Maurício Rech éMestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas. Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca
Velocidade está além dos quilômetros por hora. Assim como os rápidos carros de Formula 1 necessitam de uma mente que os dá a vida, com os atletas do mais alto rendimento não é diferente, possuem corpos que são verdadeiras máquinas, mas que não vivem só de seu físico, também necessitam de um habilidoso piloto!
Entre Bellingham, Wirtz, Estêvão e a próxima geração que joga alguns frames à frente do jogo
Quando a gente fala que o futebol está mais rápido, não é só o GPS que está dizendo isso. Não é só o sprint, o HMLD ou o número de metros em alta intensidade.
O que realmente mudou é a velocidade da decisão. O tempo entre ver, interpretar e agir ficou menor. Quem demora um frame a mais, perde o espaço. Quem lê tarde, chega atrasado.
A neurociência ajuda a colocar nome naquilo que, no campo, a gente já sente há muito tempo: o jogo é jogado na cabeça antes de ser jogado com o pé.
1. O cérebro joga antes da bola chegar
Um jogador de alto nível não “reage” à jogada. Ele se posiciona como se já soubesse o que vem depois. A neurociência chama isso de controle feedforward: o cérebro antecipa o que vai acontecer e prepara o corpo antes do estímulo final.
Pensa no Jude Bellingham entrando na área pelo corredor central, atacando o espaço entre zagueiro e lateral, chegando sempre um meio passo antes do marcador. Não é só físico. É leitura + antecipação + decisão.
As valências de Bellingnham, o jogador que vem revolucionando a profissão “volante”no futebol mundial:
Quando ele começa a correr, a bola ainda nem saiu do pé do companheiro. Mas o cérebro já “montou o cenário”: quem pode receber, quem pode errar, quem está desajustado. A decisão que a gente vê como “intuição” é, na verdade, processamento antecipado de informação.
2. Varredura visual: ver antes para decidir melhor
A ciência fala em visual search. No campo, a gente chama de: preparar o corpo e a cabeça antes da bola chegar.
Observa o Florian Wirtz jogando: antes de receber, a cabeça gira o tempo todo. Ele olha por cima do ombro, varre o ambiente, identifica quem está livre, quem ameaça, qual espaço está abrindo. Quando a bola chega, ele já tem o “mapa” feito. Por isso, parece ter mais tempo.
Exemplo em vídeo — Wirtz escaneando o contexto e encontrando soluções sob pressão:
A neurociência mostra que jogadores de elite usam estratégias de busca visual mais eficientes: olham para menos lugares, mas olham para os lugares certos, no momento certo. O resultado é simples: menos ruído, mais informação útil.
3. Estêvão e a nova geração: driblar é decidir
Se a gente vem para a nova geração e olha para o Estêvão, por exemplo, não é só o drible que chama atenção. É quando ele dribla. Ele não tenta o 1×1 o tempo todo — ele escolhe o momento em que o defensor está mal equilibrado, em que a cobertura está longe, ou em que o campo “abre” para a aceleração.
A arte de driblar: Apresentada por Estevão:
A neurociência fala em percepção–ação acoplada: o jogador não pensa primeiro e executa depois; ele percebe e age como parte de um mesmo fluxo. Nos melhores lances de Estêvão, Bellingham ou Wirtz, o que impressiona não é só o gesto técnico, mas a qualidade da leitura que vem antes do gesto.
4. Pensar menos durante a ação, pensar mais antes
Jogador lento, muitas vezes, não é lento de perna. É lento de decisão. Ele precisa “pensar durante”, e isso custa tempo.
Jogadores de elite fazem o contrário: pensam antes. A ciência chama isso de chunking — o cérebro agrupa padrões parecidos, guarda “pacotes” de soluções e acessa isso quase como um atalho.
Quanto mais rica a experiência (jogos, vídeo, treino bem planejado), mais esses padrões ficam disponíveis. É por isso que alguns jogadores parecem “resolver jogadas de olhos fechados”. Eles já viram aquela situação muitas vezes, de muitos ângulos, em muitos contextos.
5. Emoção, calma e decisão em contextos de caos
Neurociência e psicologia do esporte convergem em um ponto: não existe tomada de decisão sem emoção. Jogador que não lida bem com o contexto emocional:
lê pior a pressão;
força jogadas que não existem;
se desorganiza quando o jogo fica “pesado”;
perde a capacidade de manter o plano tático.
Já o jogador que aprende a regular a própria emoção consegue manter uma coisa que, no alto nível, vale ouro: tempo interno. O jogo pode estar acelerado por fora, mas por dentro ele continua vendo tudo em câmera lenta.
6. O que tudo isso muda no treino?
Não adianta falar de decisão em alta velocidade e treinar em baixa complexidade. Se o treino não desafia a percepção, a atenção e a leitura, o jogador não constrói os “atalhos” mentais que precisa no jogo.
Pesquisas com treino baseado em vídeo mostram que expor jogadores a situações específicas, com pausa, repetição, perguntas e feedback, melhora o tempo de resposta e a qualidade da decisão em cenários reais de jogo. Revisões mais recentes apontam que a tomada de decisão vem sendo estudada justamente a partir dessa integração entre capacidades perceptivo–cognitivas e comportamentos tático–técnicos em contextos representativos.
Em termos práticos, isso significa:
usar vídeo não só para “mostrar erro”, mas para treinar leitura;
criar jogos condicionados que exigem varredura visual e mudanças rápidas de solução;
variar ritmo, espaço e número de jogadores para mudar a densidade de informação;
conectar sempre o estímulo (o que o jogador vê) ao princípio tático que você quer reforçar.
7. O jogo é velocidade. A vantagem é leitura. A diferença é decisão.
Quando a gente olha para Bellingham, Wirtz, Estêvão e tantos outros, não está vendo só “talento”. Está vendo cérebro treinado em contexto.
O futebol moderno é, cada vez mais, uma disputa de quem enxerga primeiro e melhor. Quem consegue transformar informação em ação sem perder o plano de jogo.
A neurociência não vem para engessar o campo. Vem para reforçar algo simples: se queremos jogadores que decidam melhor, precisamos oferecer treinos, feedbacks e ambientes que alimentem o cérebro deles com as referências certas.
O jogo corre cada vez mais rápido. Mas quem realmente domina é quem consegue, por dentro, desacelerar — e escolher com clareza o que vai fazer no próximo toque.
Aos interessados em aprofundamento no assunto, o vídeo abaixo vai dar caminhos importantes e com certeza, deixar ainda mais dúvidas e desejo na busca pelo aprofundamento neste incrível tema que é a neurociência!
Roberto Torrecilhasé analista de desempenho da equipe princial da S.E. Palmeiras, possui Licença PRO de Treinadores da CBF, e é professor em várias escolas como Univerisdade do Futebol, CBF Academy e Connmembol LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/roberto-torrecilhas-1a0272103/?locale=pt_BR
Grande parte das discussões sobre metodologia de treino no futebol costuma partir da visão de treinadores, pesquisadores ou modelos teóricos de treinamento. Entretanto, uma pergunta relativamente simples raramente aparece com a mesma frequência: o que os próprios jogadores consideram um bom treino?
Com o objetivo de explorar essa perspectiva, foi realizada uma pequena investigação qualitativa com 51 atletas de futebol, homens e mulheres, com diferentes trajetórias dentro do esporte. Entre os participantes há atletas profissionais de diferentes níveis competitivos, ex-atletas e jogadores em formação, incluindo atletas com experiência internacional e passagens por seleções nacionais.
Como critério metodológico, foram considerados apenas participantes a partir de 15 anos de idade, garantindo que todos possuíssem pelo menos experiência em categorias de base estruturadas ou trajetória competitiva formal no esporte.
A pergunta central foi direta: “O que é um bom treino para você? Quais elementos precisam estar presentes para que um treino seja considerado bom?”
A partir das respostas coletadas, foi possível identificar padrões recorrentes na percepção dos atletas. Esses padrões foram organizados como pilares do treino, ou seja, elementos que apareceram de forma consistente nas respostas dos jogadores e jogadoras.
Mais do que substituir princípios metodológicos ou modelos teóricos de treinamento, esses pilares ajudam a lembrar algo fundamental: o treino existe para o jogador. Entender o que gera sentido para quem vive o jogo diariamente pode ser uma das formas mais eficazes de aumentar o engajamento da equipe, fortalecer vínculos dentro do grupo e tornar o processo de treino mais significativo na prática.
Pilares identificados pelos atletas
Competitividade — 70,6% A competitividade foi o elemento mais citado pelos atletas. Para muitos jogadores, um bom treino precisa ter desafio real, disputa e estímulo competitivo, aproximando o ambiente de treino das emoções presentes na partida.
Relação direta com o jogo — 36,7% Outro ponto recorrente foi a importância de que os exercícios se aproximem da realidade do jogo. Muitos atletas destacaram que treinamentos mais conectados com situações reais de partida tornam o treino mais significativo e facilitam a transferência para o jogo.
Intensidade e ritmo — 30,6% Diversos jogadores apontaram que um bom treino é aquele que mantém ritmo elevado e poucas pausas, permitindo maior envolvimento físico e mental durante as atividades.
Aprendizado e tomada de decisão — 30,6% Outro elemento bastante citado foi a presença de atividades que estimulem o raciocínio e a tomada de decisão. Os atletas valorizam exercícios que os coloquem diante de problemas de jogo e os obriguem a pensar e reagir rapidamente.
Participação ativa — 26,5% A sensação de estar constantemente envolvido no treino, participando das ações e tocando na bola com frequência, também apareceu como um fator importante para que o treino seja considerado produtivo.
Clareza na comunicação do treinador — 26,5% Por fim, muitos atletas ressaltaram a importância de explicações claras e objetivos bem definidos dentro do treino. Quando os jogadores compreendem o propósito das atividades, tendem a se envolver mais com o processo.
Algumas tendências observadas nas respostas
Embora esses pilares apareçam de maneira bastante transversal entre atletas em formação e atletas profissionais, algumas tendências interessantes foram observadas nas respostas.
Entre atletas com experiência profissional, apareceu com maior frequência uma preocupação relacionada à clareza estratégica do treinamento, especialmente na conexão entre os exercícios realizados e o modelo de jogo do treinador ou o plano de jogo da equipe.
Para esses jogadores, um bom treino tende a ser aquele em que as atividades fazem sentido dentro da organização coletiva da equipe, permitindo compreender como aquilo que está sendo treinado será aplicado na partida.
Já entre atletas em formação, embora esses aspectos também apareçam, observou-se maior ênfase em elementos ligados ao processo de aprendizagem individual, como evolução técnica, repetição de ações, participação nas atividades e compreensão das tarefas propostas.
Esse resultado não deve ser interpretado como oposição entre os grupos, mas possivelmente como reflexo das diferentes fases de desenvolvimento do atleta. À medida que o jogador acumula experiência competitiva, sua percepção sobre o treino tende a incorporar cada vez mais dimensões estratégicas e coletivas do jogo.
Síntese dos pilares identificados
Competitividade — 70,6% Relação com o jogo — 36,7% Intensidade — 30,6% Aprendizado / tomada de decisão — 30,6% Participação ativa — 26,5% Clareza do treinador — 26,5%
Considerações finais
Os resultados sugerem que compreender o ponto de vista dos atletas pode ser uma ferramenta extremamente valiosa para o desenho de processos de treino mais eficazes.
Isso não significa abandonar modelos metodológicos ou princípios teóricos de treinamento. Pelo contrário: significa reconhecer que tão importante quanto qualquer princípio metodológico é compreender o que gera sentido para quem está dentro do campo.
Quando o treino consegue alinhar lógica metodológica, desafio competitivo e significado prático para o jogador, cria-se um ambiente mais favorável para o desenvolvimento técnico, tático e humano dentro do futebol. Em última análise, o treino existe para o jogador. E escutar quem vive o jogo diariamente pode ser um dos caminhos mais poderosos para tornar o processo de treino mais engajador, mais significativo e potencialmente mais eficaz.
Nicolau Trevisani Frotaatua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional.. Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/
Que fique bem claro: não sou contra demitir treinador de futebol. O politicamente correto que diz que todo técnico deve ter tempo de trabalho é fantasioso e contraproducente.
O mundo corporativo deixa claro e o futebol, mesmo com suas especificidades, deveria abraçar: demore para contratar e seja rápido para demitir! Se essa ordem não for respeitada e não houver critérios para a admissão, se não for feita uma pesquisa minuciosa prévia e a escolha for equivocada não faz sentido perder tempo e insistir com um trabalho que não tende a evoluir.
A convicção e o conhecimento de quem contrata é o mais importante. Esse recrutamento e seleção para trazer um treinador, que será o líder do processo, não pode ser feito de qualquer jeito, na base do ‘esse me agrada, esse não’, apenas por opiniões subjetivas. Porque é esse profissionalismo que vai ser fundamental para avaliar corretamente o trabalho que está sendo desenvolvido e se há margem de evolução ou não.
Há trabalhos que mesmo em sequência de derrotas merecem ser mantidos porque está sendo sedimentado algo para um sucesso futuro. Há outros, porém, que mesmo em momentos positivos estão no limítrofe tático e na gestão do ambiente e que a tendência é só cair.
Saber avaliar isso é para poucos. Conhecimento e sensibilidade que falta muitas vezes no futebol brasileiro.
Poderia enumerar aqui todas as demissões que já tivemos neste ano em clubes da Serie A, como Osório no Remo, Fernando Diniz no Vasco, Crespo no São Paulo, Tite no Cruzeiro e Filipe Luiz no Flamengo… invariavelmente em todas elas vemos o erro na expectativa da contratação e o erro na avaliação e no timing da demissão….
No futebol real — aquele que acontece em alta velocidade, sob pressão e com decisões em frações de segundo — não existe atleta “dividido”. O corpo não joga separado da mente; a técnica não aparece sem emoção; a tática não se sustenta sem energia, vínculo e clareza. Por isso, olhar o jogador a partir de um pensamento sistêmico e holístico é mais do que uma visão bonita, é uma exigência prática do alto rendimento. O atleta é um sistema vivo, influenciado por sono, rotina, relações, contexto familiar, ambiente do clube, estilo de liderança, calendário, viagens e expectativas externas. Tudo isso entra em campo — mesmo que ninguém sequer veja ou comente.
É justamente nessa perspectiva que a preparação cognitiva e emocional ganha relevância, não como um “módulo à parte”, mas como um componente integrado ao treino, capaz de potencializar o físico, sustentar a tomada de decisão e dar estabilidade ao comportamento em jogo. Quando um atleta regula melhor suas emoções, ele não melhora apenas seu bem-estar — ele melhora sua capacidade de executar movimentos com precisão sob estresse, manter o plano tático com lucidez e se recuperar mais rápido após erros, choques e frustrações. A ciência tem sido cada vez mais clara com resultados de pesquisas que afirmam que o desempenho é um fenômeno psicofisiológico, no qual atenção, percepção, controle inibitório, memória de trabalho e leitura de jogo dialogam com fadiga, excitação, confiança e medo em tempo real.
Na prática, estratégias como visualização/imaginário, rotinas preparatórias, mindfulness, treino de habilidades psicológicas e intervenções estruturadas ajudam a criar um estado interno mais estável para que o atleta acesse o que já treina no campo. Em vez de “controlar” emoções, o objetivo é desenvolver autorregulação funcional. Como? Percebendo sinais do próprio corpo, nomeando o que está acontecendo, ajustando respiração e foco, e voltando ao jogo com presença! Isso reduz os efeitos da ansiedade e da ruminação, melhora a comunicação com colegas e aumenta a consistência comportamental, exatamente o que define, em muitos momentos, o “nível” de um jogador.
A força dessa abordagem cresce quando ela é inserida dentro dos microciclos de treinamento, porque deixa de ser um recurso eventual e passa a fazer parte do cotidiano, com adaptações conforme carga física, densidade de jogos e contexto competitivo. Nesse formato, torna-se possível treinar foco, flexibilidade cognitiva e estratégias de enfrentamento emocional da mesma forma que se treina uma pressão coordenada ou um padrão ofensivo: com repetição, feedback e progressão. Evidências recentes sugerem, inclusive, que o treinamento combinado de resistência física e cognitiva (brain endurance training) pode gerar ganhos superiores ao treino físico isolado em variáveis relevantes ao futebol, como multitarefa, tomada de decisão e agilidade específica — competências que, no jogo moderno, valem tanto quanto metros percorridos.
Além disso, intervenções psicoeducativas relativamente curtas, bem desenhadas e consistentes — combinando visualização, mindfulness e elementos de coesão — mostram potencial para reduzir ansiedade e elevar motivação intrínseca e confiança, com efeitos observáveis em diferentes faixas etárias e níveis competitivos. Isso reforça uma mensagem importante para clubes e comissões técnicas, na medida que não é preciso “parar tudo” para treinar o mental. Quando a preparação cognitiva e emocional é tratada como parte do processo de desempenho, ela encaixa no calendário e vira um multiplicador silencioso do treino técnico-tático-físico.
Em resumo, a preparação cognitiva e emocional, integrada aos microciclos, é uma ferramenta de alta performance porque atua no sistema inteiro, melhora presença, regula estresse, protege relações e sustenta decisões sob pressão. Ela não substitui o treino, ela completa a rotina de treinamentos! E, no futebol, um atleta inteiro não joga apenas melhor, ele aprende mais, recupera-se melhor e constrói uma carreira mais estável.
*Maurício Rech éMestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas. Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca
Existe um incômodo silencioso atravessando a cultura contemporânea: a sensação de que o mundo tem ficando cada vez mais acinzentado e “liso”. Desapareceram os detalhes. Menos riscos, diferentes assinaturas e visões de mundo, contraste. Tudo muito padronizado. Na arquitetura, repetem-se formas globais; na arte, o gesto criativo oscila entre produto e performance; e, no futebol, cresce a impressão de um jogo cada vez mais eficiente, intenso e organizado, e ao mesmo tempo, em muitos contextos, mais previsível.
Este texto parte de uma hipótese que me parece cada vez mais evidente: o mesmo espírito cultural que empurra a sociedade para a padronização estética também pressiona o futebol a reduzir o improviso, a autoria e o desequilíbrio criativo.
Não tento apresentar uma nostalgia vazia ou um ataque simplista à tática, à ciência ou aos dados. O problema não é a evolução. O problema começa quando a busca por controle absoluto transforma a criação em risco proibido, e quando o “ornamento” deixa de ser identidade para virar “excesso”.
Antes de iniciarmos, observe estas imagens, o que elas te remetem?
O passado e o futuro, o que ganhamos e o que perdemos?
1. A morte do ornamento e a vitória da “Eficiência” (mas eficiente em qual ponto de vista?)
Parte do debate contemporâneo sobre arte e arquitetura gira em torno de um único sentido: o belo, o expressivo e o singular passaram a precisar justificar sua existência em termos de utilidade. O detalhe é suspeito, adorno é tratado como desperdício. A singularidade passa a ser lida como ineficiência.
Em um texto da Gazeta do Povo, o abandono dos ornamentos é tratado como um sintoma de empobrecimento cultural, argumentando que diferentes civilizações historicamente manifestaram identidade por meio de suas expressões ornamentais. A crítica central é forte: o desaparecimento do ornamento não seria apenas uma mudança estética, mas um sinal de um tipo de empobrecimento civilizacional.
Esse ponto é importante porque, quando o ornamento desaparece, o que se perde não é apenas algo superficial. O que se perde é a linguagem. O ornamento, entendido de forma séria, não é excesso. Está conectado com o contexto, cultura, origem e assinatura. Um detalhe que grita: “isso veio de algum lugar, foi produzido por alguém, carrega uma história”. E esse é o resultado de originalidade, que retrata a forte conexão do autor com a vida, traduzidos por sua extrema qualidade técnica.
O problema começa quando uma estética funcional deixa de ser escolha e vira dogma. E toda vez que um princípio vira dogma, ele para de organizar e começa a empobrecer. Deixa de ter conexão com a vida ao seu redor, perde a conexão com os seus integrantes e o resultado é algo que tem pouca ou nenhuma representação com a sua cultura.
Quando o detalhe deixa de ser linguagem e passa a ser tratado como ruído, a cultura começa a confundir simplificação com esvaziamento.
Trazendo alguns pensadores e discussões sobre o tema, apresento aqui pontos essenciais para esta discussão.
A arte tem se desconectado da humanidade? De um elemento de domínio do povo, passando a uma transição para o domínio de especialistas e classes específicas?
Este movimento te faz traçar alguma relação com a transformação com que o futebol vem passando? De representação cultural e de domínio público para algo muito complexo, representando “alguns e seus especialistas” e se distanciando da sua essência e origens?
Lembrando!!! Por aqui estamos abordando diferentes ideias, com equilibrio e boas discussões, para que todos cresçamos juntos!!! Respeito todas as formas de arte e diferentes pensamentos.
2. O mundo liso: menos cor, menos contraste, menos surpresa
A padronização estética não atua apenas como tendência visual. Ela atua como regime perceptivo, moldando o olhar, reduzindo o seu impacto. Ela acostuma o sujeito a viver cercado por superfícies limpas, tons neutros, geometrias previsíveis e linguagens replicáveis. Vamos pensar os regimes estéticos, tudo passa por padrões pré estabelecidos: Vestimenta, pensar, agir, gosto musical, religião, comportamental. Será que todos concordam e se moldam como pensam e acreditam; ou são resultado de constantes cortes e repressão de um ambiente cada vez mais agressivo e padronizado?
Um artigo do ArchDaily Brasil, ao comentar uma pesquisa baseada em milhares de fotografias de objetos cotidianos, aponta uma tendência de predominância de tons mais neutros e formas mais regulares ao longo do tempo. A análise não é moralista, mas ela ajuda a enxergar algo importante: há uma convergência visual crescente em objetos e ambientes do cotidiano.
Isso não significa que o mundo ficou “objetivamente pior”. Mas significa, sim, que ele ficou mais homogêneo. E homogeneidade, quando excessiva, cobra um preço: o olhar perde estranhamento, a experiência perde textura e a cultura perde contraste.
Até mesmo em estudos populares sobre emoção e cor, aparece uma forte metáfora: reportagens da Veja e do Mega Curioso repercutiram pesquisas em que tons acinzentados aparecem associados a estados emocionais mais negativos ou a redução de contraste perceptivo. Não se trata aqui de transformar isso em causalidade simplista, mas a imagem é forte: um mundo mais cinza é também um mundo em que o contraste simbólico parece enfraquecido.
E o contraste é fundamental para qualquer forma de expressão.
3. O futebol como espelho da época
O futebol sempre foi mais do que um esporte. O futebol é um espaço de condensação cultural. É um lugar em que o corpo traduz aquilo que uma sociedade pensa, sente, reprime e celebra. E muitas das vezes um ponto de “desafogo” para uma sociedade que vive afundada em problemas dos mais diversos. tipos.
Um drible nunca foi apenas um gesto técnico. Um drible é uma micro-narrativa, o teatro do corpo. Um instante em que o jogador, por meio da sua relação com tempo, espaço, engano e coragem, produz algo que ultrapassa a mera utilidade e o resultado que gera para o espetáculo, além de mental sobre o adversário, atinge o emocional de milhares de pessoas que se veem representadas por aquele artista.
Por isso, quando o futebol começa a perder drible, perde-se mais do que “entretenimento”. Perde-se uma forma de linguagem, forma popular de autoria. Perde-se o modo de dizer “eu existo no jogo” sem depender apenas da obediência ao sistema robotizado e limitante.
O futebol contemporâneo vive um paradoxo fascinante: nunca tivemos tanta informação, tanta precisão, tanta capacidade de mapear o jogo. Tracking. GPS. Modelos de decisão. Mapas de calor. Métricas de pressão. Modelos probabilísticos. Tudo isso é valioso se bem utilizado, e que não venha a sobrepor os sentimentos, intuição e relações de quem vive e executa o jogo…
Mas, ao mesmo tempo, cresce a sensação de que muitos jogos se parecem. A organização aumenta. A singularidade diminui. Os padrões tomam conta do espetáculo. As assinaturas desaparecem.
É aqui que a analogia com o ornamento ganha sentido: o drible, o passe improvável, a pausa, a condução que quebra o script, a invenção sob pressão… tudo isso pode ser entendido como o ornamento do futebol.
Não como excesso inútil. Mas como o elemento que dá identidade ao sistema. E principalmente, o valor inestimável destes gestos artísticos e expressivos para o espetáculo como um todo.
4. Como a mecanização acontece: calendário, mercado, dados e medo
Chamar o futebol atual de “mecanizado” não significa negar sua evolução. O jogo ficou mais intenso, atlético. Se otimizou e deu sentido a muitas coisas no jogo coletivo. Mais sofisticado em muitos aspectos. O problema aparece quando a busca por controle total reduz a margem de autoria, e principalmente, a sensibilidade e repertório dos atletas para solucionarem os problemas que o jogo lhes apresenta.
E essa mecanização não é apenas tática. Ela é estrutural, ambiental e limitante ao ponto de vista psicológico.
4.1 Calendário e falta de tempo
E nem tudo isso é algo produzido apenas pela evolução tecnológica e moderna. Mas sim a crescente de jogos, valores astronômicos, cobranças desproporcionais e a cultura imediatista que vem tomando conta do esporte. Com pouco tempo para treinar, modelos mais replicáveis e comportamentos mais automatizáveis ganham prioridade. O treinador passa a privilegiar aquilo que consegue estabilizar rápido. O espaço para exploração, improviso e repertório tende a diminuir.
Veja o treinador Enderson Moreira falando sobre estes aspectos:
Algumas falas interessantes sobre este mesmo tema:
4.2 Mercado “plug and play”
O mercado valoriza cada vez mais perfis que encaixam rápido. O jogador funcional, obediente e adaptável tem enorme valor. Isso não é ruim em si. O problema é quando o sistema passa a premiar apenas isso, e começa a desconfiar de perfis mais autorais, mais caóticos, mais criativos.
4.3 Dados mal utilizados
O dado, quando bem utilizado, amplia percepção. O grande problema é quando vira manual de “não errar”, ele deixa de apoiar a criação e passa a censurá-la. Se toda métrica premia apenas retenção e baixo erro, o comportamento ótimo vira o passe lateral eterno.
4.4 O medo como cultura
O erro exposto em rede social virou julgamento moral. O atleta percebe isso rapidamente, e o sistema aprende a se proteger. Quando o ambiente pune o risco, o risco desaparece. E quando o risco desaparece, a criatividade vira exceção.
O futebol mecanizado não nasce apenas da tática. Ele nasce do medo coletivo de errar em público.
João Paulo Sampaio, gerente de base do Palmeiras abordando este tema, e o quanto se torna prejudicial ao ponto de vista de formação e desenvolvimento dos talentos:
5. O “jogo correto” e a estética corporativa do futebol moderno
Em muitos contextos, o futebol contemporâneo começa a se parecer com uma estética corporativa: decisões seguras, movimentos treinados, comportamentos previsíveis, baixa exposição, mínima variância.
A lógica é simples: se “funciona”, então serve. Se reduz risco, então é melhor. Se protege o emprego, então é preferível. Se evita crítica, então se consolida.
Só que o futebol nunca foi apenas um exercício de redução de erro. O futebol sempre foi, também, um espaço de produção de desequilíbrio. E desequilíbrio é o coração do jogo.
O drible, o passe que quebra linha, a pausa inesperada, a finta corporal, a recepção orientada fora do padrão, tudo isso não é perfumaria. Mas sim, é capacidade de deslocar a lógica do adversário.
Em outras palavras: o “ornamento” do futebol não é apenas beleza. É vantagem competitiva, confiança…
6. Resgatar a arte sem abandonar a competitividade
A resposta não é voltar ao caos, rejeitar ciência ou demonizar os dados. O caminho maduro é outro: usar processo e método para proteger a criação humana — e não para substituí-la.
6.1 Estrutura que protege o risco
Criatividade não nasce no vazio. Criatividade nasce com cobertura. Se a equipe possui mecanismos claros de compensação, o jogador arrisca com menos medo. A estrutura não é inimiga do drible. A estrutura é o guarda-corpo que o permite arriscar.
6.2 Treinar princípios, não coreografias
Princípios geram variação e coreografias geram cópia. Quanto mais o treino vira script, mais o jogo vira execução, e em um ambiente (in-vitro), tendo que acreditar piamente que aquele roteiro trabalhado seja reproduzido quase de forma impecável no jogo para as coisas acontecerem… Quanto mais o treino ensina intenção, relação e leitura, proporcionando recursos e repertório aos atletas, mais o jogo preserva a autoria.
6.3 Métricas que valorizem coragem
Se toda métrica premia apenas acerto, a coragem some. É possível medir criação de vantagem: rupturas, progressões, passes que quebram linha, conduções que arrastam bloco, ações que aumentam a probabilidade de finalização.
6.4 Cultura interna: erro criativo não é crime
O ambiente define o jogador. Quando o clube transforma o erro em humilhação, o atleta escolhe o seguro. É preciso diferenciar erro por displicência de erro por tentativa responsável.
6.5 Identidade como diferencial competitivo
O estilo universal pode ser eficiente. Mas identidade é imprevisível. E imprevisibilidade, no futebol, é uma vantagem competitiva com valor inestimável.
O treinador moderno precisa lidar com uma tensão sofisticada: organizar sem esterilizar; estruturar sem engessar; medir sem reduzir; analisar sem retirar o poder de decisão do jogador.
O dado mostra muito. Como, onde, em quais formas… Muitas vezes, mostra até “com que frequência”. Mas a criação acontece no “como”. E o “como” ainda pertence ao corpo, à coragem, ao repertório, à sensibilidade e à relação humana.
O treinador do futuro não será o que mais controla. Será o que melhor constrói contextos para que a inteligência coletiva e a autoria individual coexistam.
Em um mundo cada vez mais liso, o futebol pode seguir sendo um dos últimos lugares de resistência do ser humano. Mas só será se deixarmos de punir o artista.
O futebol é um espelho da época. Se a sociedade se organiza para ser mais eficiente, mais mensurável e menos ambígua, o jogo também tende a caminhar para o controle.
O maior problema começa quando o controle vira censura. Onde a vida perde contraste, a identidade perde seus detalhe e essência. Quando o futebol perde o drible e as características individuais que torna cada ser único e reconhecido pelo o que ele é.
O desafio da nossa geração é bastante complexo: construir equipes organizadas sem matar a expressão; usar tecnologia como suporte, sem ficar refém dos painéis; entender que o dado mostra muito, mas não são apenas referências sozinho; compreender que o futebol continua sendo um sistema complexo, de relações e sentimentos em que o coletivo organiza o cenário, mas o detalhe humano ainda decide a resposta.
Se o mundo está ficando uniforme, o futebol ainda pode ser um dos últimos lugares de resistência dos seres vivos.
E talvez seja exatamente por isso que ainda valha tanto a pena defender o “ornamento” no jogo: não como excesso, mas como linguagem, identidade e com a assinatura de seus artistas.
Roberto Torrecilhasé analista de desempenho da equipe princial da S.E. Palmeiras, possui Licença PRO de Treinadores da CBF, e é professor em várias escolas como Univerisdade do Futebol, CBF Academy e Connmembol Linkedin: https://www.linkedin.com/in/roberto-torrecilhas-1a0272103/?locale=pt_BR