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Análise de vídeo: tipologias e diferenças

Por: Bruno Loureiro Batista

Olá a todos, após conversarmos sobre as bases de interpretação de dados juntamente ao contexto de jogo, hoje falaremos sobre a análise vídeo, suas características, utilizo e tipologias.

Estimasse que cerca de 50%-70% da capacidade cerebral seja dedicada ao processamento visual (Felleman and Van Essen; 1991) estes estudos demonstram a importância da carga cognitiva através da imagem vídeo como grande parte do processo de aprendizagem.

Um dos modos mais potentes que ajudam no processo de aprendizagem juntamente com a imagem é o chamado “codificação dual” que indica a junção de imagens com a linguagem verbal simultânea, aumenta consideravelmente as probabilidades na retenção da informação (Paivio,1971). Estes estudos nos ajudam a entender quão eficaz e potente o instrumento vídeo pode ser, principalmente com as novas gerações Z e Alpha.

Por mais que possamos tentar “ler” o andamento de uma partida através dos relatórios numéricos, a análise das imagens será sempre primordial para entendimento da partida. As imagens têm o poder de correlacionar um feedback abstrato com a realidade dos fatos, entender as tomadas de decisão baseada no contexto, conectar aspectos estruturais de tática coletiva e individual, além de criar maior conexão socioafetiva através de diálogo entre jogadores e staff técnico.

Quando utilizamos imagens, número e exercícios para correções e estratégias tático-técnicos, é importante salientar que “Se sabemos o PORQUE fazemos algo, melhoramos COMO o fazemos” 

Quando se pensa em análise vídeo (tática-técnica) temos diversas variáveis como análise de mercado (scouting), análise de adversários, análise da própria equipe e training análises. Juntamente com os relatórios numéricos podemos ter um quadro completo de informações seja para a Prá-partida, Momento Partida ou Post-Partida. A ideia deste artigo será aprofundar as tipologias de análise de acordo com suas características, objetivos e diferenças. Como no mundo do futebol a palavra “Depende” é uma das mais utilizadas, é muito importante termos o conhecimento da terminologia para ajudar a no discernimento das ações

Cada tipologia tem suas vantagens e desvantagens de acordo com o objetivo do staff técnico. De uma forma geral podemos dividir em quatro macro princípios de análises

– Análise Estratégica

– Análise Situacional

– Análise Conceitual 

– Análise Live (Ao Vivo)

ANÁLISE ESTRATEGICA:   

A tipologia mais difundida e utilizada é a análise Estratégica, que tem como principais características a observação das equipes adversarias. Dentre as considerações para a realização da análise estratégica estão a analise  de 3 a 5 jogos normalmente para; observação do sistema de jogo adversário; partidas jogadas dentro e fora de casa; contra um sistema de jogo adversário similar; comportamento da equipe com resultado vigente (favor, contra ou empate); característica do treinador adversário; Características em base a cada terço de jogo (15’ em 15’); substituições em relação ao resultado vigente; Comportamentos em base al ciclo de jogo (Posse, não posse, transições ofensivas e defensivas e bolas paradas).

O próximo passo é definir junto ao staff técnico a elaboração de material vídeo específico e/ou relatório escrito que possam traçar o perfil da equipe adversaria. 

Posteriormente, se realizará a apresentação aos jogadores do material analisado para aplicação de estratégias ofensivas e defensivas em que os jogadores possam reconhecer com maior facilidade o padrão coletivo e individual do oponente e como afrontá-los.

Esta tipologia de análise favorece um conhecimento geral dos padrões táticos-técnicos dos adversários em diversos momentos da partida dando um informações necessárias para um plano de jogo. Basear-se somente na análise estratégica pode levar a dificuldades caso a equipe oposta mude os comportamentos esperados podendo cria incertezas coletiva individuais sobre o plano de jogo treinado na preparação da partida. Importante sempre ter o equilíbrio na utilização da estratégia baseada no adversário, mas sem perder a sua identidade de jogo. 

ANÁLISE CONCEITUAL:

 A análise conceitual tem como caraterística o estudo da própria equipe, ela requer antes de tudo uma linguagem e definição para cada tipo de ação como por exemplo descrito no glossário CBF. https://drive.google.com/file/d/16jxs8YBWcsx2vHpI08RvmvXmU5eStgA1/view?usp=drive_link

Isto é fundamental para se começar a criar as análises a partir da sua identidade de jogo. Através dela desse-se criar uma base de dados das ações durante o tempo. Por o futebol ser um jogo situacional (estocástico) com número quase infinito de combinações, a definição das ações requer estudo específico levando em consideração certos aspectos do jogo como:  Zona do campo, número de jogadores envolvidos, tempo total da ação, número de jogadores a frente ou atras da linha da bola, no caso de bola parada agregar o desenvolvimento da ação na sua zona de conclusão. 

Esta tipologia de análise pode ser divida em “periculosidade” e “volume de jogo” que serão definidas seguindo as especificidades acima com intuito de separar CONCEITUALMENTE cada situação ocorrida durante uma partida.

Um exemplo pratico seria analisar as saídas de bola (3-4 clip vídeo) que apesar de não serem nunca iguais, partem do mesmo princípio e partir deste ponto entender COMO foi realizada partindo da tomada de decisão, ocupação e distância de relação da equipe em relação ao adversário e em base a identidade de jogo e estratégia adotada.

A principal diferença característica da análise conceitual está no fato que seu estudo é realizado independente do êxito final da ação, ou seja, um erro técnico-tático individual ou coletivo não é o fator determinante para que elas sejam analisadas e comparadas, elas podem ter origem técnica (domínio, passe, condução), tática (tomada de decisão , ocupação coletiva – individual ou perfilamento corporal). De forma prática não é porque a saída de jogo teve eficácia significa que foi bem feita ou vice e versa.

ANÁLISE SITUACIONAL: 

 A análise situacional tem como característica uma visão detalhada de uma determinada ação baseada na eficácia da mesma. Quando uma equipe leva um gol, através da tipologia situacional, se vai analisar o erro ou acerto que originou o seu êxito. 

Como uma fotografia específica, com a análise situacional é possível individualizar um comportamento coletivo ou setorial em qualquer circunstância da partida. Esta mensagem chega aos jogadores de uma forma muito direta pois os participantes na ação analisada se sentem particularmente envolvidos. 

A diferença entre a análise situacional e conceitual está no fato que a ação analisada é de uma forma especifica e detalhada naquele momento específico. Independente das fases do jogo ou de qual tipologia de “periculosidade” de uma determinada situação, o analista poderá ir “direto ao ponto” para tentar explicar a eficácia ou não da mesma. 

Um exemplo pratico e significativo pode ser que se uma equipe leva três gols de maneiras completamente diferentes entre si, (escanteio, transição e bloco baixo) se analisa separadamente cada situação partindo do êxito que foi ter levado o gol. 

A análise situacional apesar de ser mais direta a específica, permite um arquivo reduzido ao longo do tempo pois as situações de jogo a serem analisadas podem ser infinitas devido as circunstâncias se não levamos em consideração os princípios da identidade de jogo da equipe. Geralmente esta tipologia de analise se não realizada com a devida atenção, acarreta horas de discussão pois a cada fotograma podemos analisar o clip vídeo de modo diverso onde a palavra “SE” ganha importância como exemplo: “se ele tivesse aqui seria assim…”, ou “se o adversário tivesse feito isso, ele teria feito diferente…”, criando uma infinidade de possibilidades que podem não serem mais verificadas da mesma forma. 

Estas duas tipologias de analise se referem ao Pré e Post Partida e uma vez definidas as diferentes modalidades de análise, o analista de desempenho junto ao treinador e o staff técnico podem decidir de qual maneira utilizá-las. As tipologias de análises estão estreitamente interligadas sendo que o utilizo de uma não exclua o da outra. 

ANÁLISE LIVE:

A análise de desempenho live de uma partida provavelmente seja a mais complexa e tem como sua característica principal a combinação de leitura tática e gestão emocional. Durante o jogo o analista tem que ter a capacidade se abstrair emocionalmente da partida independente da sua importância (uma final de campeonato por exemplo), para poder focar nos padrões, compreender, analisar e sugerir soluções.

Nesta tipologia de análise, todas as outras modalidades (estratégica, conceitual e situacional) se convergem. O analista por se posicionar em um ponto privilegiado do estadio, atua como “segundo par de olhos” do treinador, e deve através de suas observações não descrever as ações mas sim confirmar, refutar ou ajustar as sensações do staff técnico que estão no banco de suplentes. 

Para que analise seja eficaz e tenha êxito positivo é determinante ter ao menos três pontos bem definidos.

  • – Visão sistêmica: Capacidade de observar além do raio de ação da bola, focando nos comportamentos coletivos e setoriais em zona mais distantes chamada zona de intervenção segundo Paco Seiru-lo (Peralta 2020).
  • Identificaçāo de Padrões: Isolar erros ou pontos fortes nas sequências de movimentos que possam ser corrigidos pela equipe ou explorados através de ajustes táticos imediatos e/ou substituições.  
  • Sensibilidade Comunicativa: Filtrar o volume de informação para entregar ao treinador apenas o que é relevante e pratico para o andamento da partida.

Como disse o analista de desempenho do Manchester City Carles Pranchat “Muita informação é desinformação”.

Bruno Loureiro Batista é Treinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/

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Estudo de caso – Transição base–profissional no Brasil a partir do Campeonato Brasileiro de Aspirantes

Por: Nicolau Trevisani & Diogo Oliveira

Realizei, em conjunto com Diogo Oliveira, analista de desempenho da equipe Sub-20 do Ceará, um estudo com 48 atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes entre 2017 e 2021, representando dois clubes grandes do futebol brasileiro. O objetivo foi compreender como esse contexto competitivo atua como uma etapa intermediária no processo de transição entre a base e o futebol profissional.

Os dados revelaram que apenas 17 desses 48 atletas conseguiram, posteriormente, atuar em competições nacionais ou internacionais de alto nível — não foram consideradas competições regionais —, o que representa um aproveitamento de aproximadamente 35,4%. O número reforça algo que já se observa empiricamente no futebol brasileiro: o Campeonato de Aspirantes pode funcionar como um ambiente real de transição, mas o salto competitivo é restrito, seletivo e altamente exigente.

Ao analisar quais jogadores conseguiram atravessar essa fronteira, um padrão se repetiu. A maior parte dos atletas que se consolidaram no futebol profissional atua do meio-campo para trás. Isso não é casual. Essas posições exigem leitura de jogo, posicionamento, tomada de decisão e consistência — capacidades que tendem a se transferir com mais estabilidade da base para o profissional. Além disso, são funções que contribuem diretamente para o equilíbrio coletivo da equipe, o que costuma gerar maior confiança por parte das comissões técnicas e facilitar uma inserção progressiva no elenco principal.

É importante, no entanto, fazer uma distinção relevante dentro desse processo. Os jogadores ofensivos que não passaram pelo Campeonato Brasileiro de Aspirantes, ou que tiveram uma passagem muito curta por essa competição, costumam ser atletas que, ainda no período de formação, apresentaram um nível de destaque muito acima da média do clube e da categoria. São jogadores que conseguiram se impor de forma clara pelo talento individual, pela capacidade criativa e pelo impacto recorrente no jogo. Esse diferencial precoce faz com que, em muitos casos, o processo se antecipe: o talento excepcional acelera a transição e encurta etapas.

Por outro lado, os atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes são, em sua maioria, jogadores que não anteciparam as etapas do processo de transição. Permaneceram mais tempo no percurso formativo e chegaram a esse ambiente intermediário antes do acesso ao futebol profissional. Dentro desse grupo, observa-se que jogadores do meio-campo para trás tendem a encontrar maior facilidade para acumular minutos no nível profissional, enquanto atletas ofensivos enfrentam maiores dificuldades, sobretudo pela exigência de impacto imediato e pela menor margem de erro atribuída a essas funções.

Do ponto de vista neurocognitivo, esse cenário faz bastante sentido. A criatividade no futebol — entendida não como improviso aleatório, mas como a capacidade de perceber soluções relevantes em contextos complexos — depende diretamente de segurança. Quando o cérebro percebe ameaça constante, como medo do erro, cobrança excessiva ou instabilidade, estruturas ligadas à sobrevivência, como a amígdala, tendem a dominar o processamento. O resultado é uma percepção mais estreita, decisões mais conservadoras e menor acesso a soluções criativas.

Jogadores de meio-campo e defesa, por exercerem funções mais previsíveis e menos dependentes de ações de alto risco criativo, costumam atuar em um ambiente técnico-tático neurobiologicamente mais favorável. Isso permite que a chamada criatividade funcional apareça com mais frequência: a pequena pausa antes do passe, o ajuste corporal, a leitura antecipada do jogo. Não se trata apenas de uma questão tática, mas de como o cérebro consegue operar sob menor carga de ameaça na maior parte do tempo.

No setor ofensivo, o cenário costuma ser o oposto. A exigência por impacto imediato — especialmente gols — somada à concorrência elevada e à baixa tolerância ao erro faz com que mesmo atletas tecnicamente talentosos passem a decidir sob estresse constante. A necessidade permanente de serem criativos em contextos de alta pressão compromete a percepção e empobrece a tomada de decisão. Isso ajuda a explicar por que menos jogadores ofensivos conseguem acumular minutos no futebol profissional de seus clubes de origem, precisando muitas vezes sair para encontrar contextos mais favoráveis ao seu melhor desempenho.

O Campeonato Brasileiro de Aspirantes, portanto, pode ter cumprido um papel importante como etapa intermediária de validação nos anos analisados. No entanto, o estudo reforça que o sucesso na transição para o alto nível não está ligado apenas ao talento bruto. Ele está fortemente associado à capacidade do jogador de ser taticamente confiável, consistente e funcional dentro da estrutura coletiva — características que dependem tanto da formação quanto do ambiente em que o atleta está inserido.

Para quem trabalha com formação, desempenho ou scouting, esse olhar é fundamental. Avaliar um atleta não é apenas identificar o que ele faz com a bola, mas compreender sob quais condições ele consegue perceber, decidir e sustentar boas escolhas ao longo do tempo. Criatividade não nasce do caos; ela emerge da segurança. E, na transição para o futebol profissional, oferecer contextos que favoreçam essa segurança pode ser o diferencial entre um talento que se perde e um jogador que consegue, de fato, se estabelecer no alto nível.

Até a próxima

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

Diogo Oliveira atua como profissional de Análise de Desempenho no futebol profissional, com foco na avaliação detalhada do rendimento individual e coletivo de atletas por meio da interpretação de dados técnicos, táticos, físicos e comportamentais.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/diogo-camelo-/?originalSubdomain=br

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Cuidar de Quem Cuida: A pressão invisível sobre treinadores e gestores no futebol de alto rendimento

Em tempos de alta competitividade, gestão globalizada e transmissões em tempo real, o futebol profissional se consolidou como uma atividade de grandes impactos emocionais, complexos e constante exposição neste universo. Dentro desse contexto, se fala cada vez mais sobre a saúde mental dos atletas, mas pouco se investiga ou se discute, com profundidade, os efeitos da pressão e do estresse sobre treinadores, diretores e comissões técnicas. No entanto, são com essas lideranças que, em uma escala hierárquica de cobranças, esses efeitos começam e se retroalimentam.

Estudos internacionais já apontam que treinadores de elite estão entre os grupos mais afetados por burnout, exaustão emocional e sintomas de ansiedade crônica. Uma pesquisa conduzida com técnicos da Premier League (Inglaterra) revelou que muitos deles apresentam respostas fisiológicas agudas durante os jogos, com alterações significativas na pressão arterial, liberação de cortisol e sintomas de fadiga mental, mesmo nos dias subsequentes à partida.

Na neurociência, compreende-se que o cérebro humano sob estresse prolongado entra em estado de alerta constante, o que prejudica funções essenciais como a tomada de decisão, a memória de trabalho e a empatia. O cérebro emocional (sistema límbico, especialmente a amígdala) assume o comando em detrimento do cérebro executivo (córtex pré-frontal), gerando um ciclo de reatividade, irritabilidade e rigidez cognitiva. No contexto futebolístico, isso pode se traduzir em discursos agressivos no vestiário, mudanças impulsivas de estratégia, ou dificuldades de liderança colaborativa.

É importante destacar que os estressores organizacionais no futebol não são distribuídos de forma linear. Existe um efeito cascata: o presidente do clube pressiona o diretor; este exige resultados do técnico; o técnico transfere a tensão para sua comissão e atletas. A cultura da performance implacável, aliada à mídia imediatista e à precariedade de suporte emocional, cria um ambiente de alto risco psicossocial, onde o desgaste mental se torna a regra, e não a exceção.

Por outro lado, alguns clubes de vanguarda já estão modificando esse paradigma com a implantação de programas estruturados de suporte psicológico para treinadores, comissão e liderança institucional.

No Liverpool FC, após a perda trágica de um membro da equipe, o clube passou a integrar um psicólogo no cotidiano do vestiário, reforçando uma cultura de escuta e acolhimento também para a comissão técnica e staff.

• No Burnley FC, da Inglaterra, um psiquiatra foi incorporado ao time médico como responsável pelo bem-estar dos atletas e também dos treinadores e coordenadores.

O Bodø/Glimt, da Noruega, implantou desde 2017 um modelo de treinamento mental coletivo, comandado por um ex-oficial da força aérea norueguesa, oferecendo suporte emocional e estratégico à equipe técnica em momentos de crise.

Esses exemplos revelam uma tendência que vai além da empatia, tratando de estratégias de proteção ao ser-humano e à performance.

Treinadores mais regulados emocionalmente demonstram melhor equilíbrio na tomada de decisão, maior clareza comunicacional e maior tolerância ao erro. Além disso, têm maior capacidade de influência positiva sobre atletas e comissão, atuando como verdadeiros reguladores emocionais do grupo.

Do ponto de vista da psicologia positiva e da neurociência, é possível aplicar princípios concretos para esse cuidado: treinamentos de mindfulness, educação emocional, capacitação em inteligência emocional, ancoragem em propósito, gestão do sono e criação de ambientes psicologicamente seguros. A plasticidade neural garante que essas práticas, repetidas com consistência, aumentem o repertório de regulação emocional, a resiliência e a saúde mental sustentada.

Para clubes e instituições que desejam liderar não apenas em títulos, mas em longevidade, é urgente reconhecer: cuidar da saúde mental de quem comanda também é cuidar do desempenho coletivo. Afinal, é o treinador quem prepara o campo emocional para que o jogo aconteça. E, para isso, ele também precisa de estrutura, suporte e compreensão.

O futuro do futebol de alto rendimento será daqueles que entenderem que a pressão não se elimina, mas se regula. E que até o mais experiente dos técnicos também é, antes de tudo, um ser humano.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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Metodologia, Tempo e Vida

Uma reflexão, como aquelas de sono interrompido, por inquietações pedagógicas, onde o pensamento não para. Às vezes, é nesse intervalo entre o descanso e o despertar que algumas perguntas insistem em aparecer.

O que sustenta, de verdade, aquilo que chamamos de metodologia quando o tempo passa?

Costumamos tratar metodologia como algo novo, organizado, limpo, quase perfeito. Como uma bola recém-tirada da caixa. Mas será que ela se sustenta por ser nova ou por já ter atravessado o tempo? Será que aquilo que ainda não foi colocado em jogo consegue, de fato, sustentá-lo?

Talvez a melhor representação de uma metodologia não seja um manual, um plano fechado ou um conjunto de regras. Para mim, metodologia é uma árvore. Um ser vivo. Algo que carrega o peso do tempo, que cria raízes profundas, que sustenta um tronco firme e que se permite ramificar em diferentes direções. Uma árvore cresce, mas não cresce negando aquilo que já foi. Ela cresce porque permanece.

Quando um jogador chega ao elenco profissional, ele se depara com algo que, muitas vezes, não viveu plenamente durante sua formação: a diversidade. Diversidade de idades, de histórias, de experiências e de tempos de vida. No processo formativo tradicional, ele quase sempre compartilhou o campo com meninos da mesma idade, do mesmo ano, do mesmo recorte. Um ambiente controlado, organizado, previsível.

Mas o futebol profissional não é assim. A vida não é assim.

Pelé jogou uma Copa do Mundo sendo um menino, compartilhando o mesmo ambiente com senhores. Homens com família, com dores, com histórias longas. E ele ali, um garoto. A pergunta que se impõe não é apenas onde Pelé se formou tecnicamente, mas onde ele aprendeu a conviver com essa diversidade.

Na rua.

Na rua não existe categoria. Existe jogo. O mais velho ensina sem perceber, o mais novo aprende observando, e todos precisam se adaptar. A rua não separa por idade; ela organiza por respeito, leitura de jogo e sobrevivência. Antes de preparar para o alto rendimento, a rua prepara para o convívio. Para a escuta. Para o tempo do outro.

Talvez o maior equívoco dos nossos processos de formação seja confundir desenvolvimento com novidade. E esquecer que, no futebol e na vida, o que sustenta não é o que brilha, mas o que permanece.

Metodologias vivas, como árvores, não têm pressa de parecer modernas. Elas se preocupam em ser verdadeiras.

E talvez seja isso que a rua sempre soube fazer melhor.

Inspirações e referências:

João Batista Freire, Wilton Carlos de Santana, Danilo Augusto Ribeiro

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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Entre Sonhos e Pressões: quando o futebol de base deixa de ser infância

Ao longo dos textos anteriores, procurei compartilhar um olhar sobre a supervisão no futebol que ultrapassa a logística e a operação de jogos. Falei de afeto, vínculos, presença e da importância das relações humanas na formação de jovens atletas. Neste terceiro artigo, avanço para um tema sensível, complexo e absolutamente necessário: os limites entre formação esportiva, exploração do trabalho infantil e projeções emocionais dos adultos sobre as crianças.

Tratar desse assunto exige cuidado, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com o desenvolvimento integral do ser humano, princípio que deve orientar qualquer projeto sério de futebol de base.

Quando o Sonho Vira Trabalho: A Exploração da Criança Atleta

O futebol é, para muitas crianças, brincadeira, prazer e expressão. No entanto, em determinados contextos, ele passa a assumir contornos de obrigação, cobrança excessiva e expectativa financeira precoce. É nesse ponto que surge um alerta importante: quando o futebol deixa de ser espaço formativo e passa a ser exploração do trabalho infantil.

Treinos exaustivos, agendas lotadas, viagens constantes, pressão por resultados imediatos e responsabilidades incompatíveis com a idade são sinais que precisam ser observados com atenção. A criança deixa de brincar, de errar, de experimentar e passa a “performar”.

Cito dois casos reais, obviamente modificando os nomes verdadeiros.

Didi tinha 9 anos de idade, quando passou a se queixar de dores que o impediam de jogar. Exames médicos constataram fratura em um osso do pé, causada por estresse. Como pode uma criança de 9 anos sofrer uma fratura por estresse?

Em trabalho investigativo, conversando com diversas pessoas, descobri que o pai levava o menino para jogar vários jogos aos finais de semana. Ele jogava por diversas equipes, em diversos locais. O próprio pai, talvez sem perceber a dimensão do que estava fazendo, me confessou que “era correria”, viajava tantos quilômetros nos finais de semana para o filho jogar. Como ele se destacava nos jogos, vários times o chamavam para jogar.

Não perguntei ao pai, mas desconfio de que recebia dinheiro dos times para levar o seu filho.

O menino tem talento, está no processo de desenvolvimento e formação desportiva. Não se sabe se será atleta profissional. Tem “projeção” de que sim. Torço para o pai não atrapalhar muito.

Dedé tinha 13 anos, quando o pai pediu uma reunião com o coordenador técnico, para questionar a minutagem de participação em jogos pelo clube. Queria que o filho jogasse mais tempo, como titular. Na ocasião, apresentou um plano de carreira para o filho que, sinceramente, era surreal. Infelizmente não posso mostrar aqui, mas acreditem, o plano feito pelo pai estipulava os seguintes objetivos:

  • Ser referência em sua geração, ativo importante para o clube;
  • Ser lembrado como atleta mais veloz, objetivo e intenso da geração 20XX;
  • Gerar valor, para que o desenvolvimento seja justo, economicamente viável;
  • Ser referência em seu colégio e ambiente regional.
  • Cronograma diário: Escola das 7:10 às 13:00; Janta das 22:45 às 23:30. Durante as tardes, treinos em outros times e em academia com personal trainer.
  • Responsabilidade da família: acompanhamento de planilha de custo e investimento.

O menino não tinha tempo para ser criança!

O pai trabalhava em uma instituição financeira, exercendo cargo de alta direção. Talvez enxergasse o filho como um “ativo”, um investimento que traria rendimentos financeiros.

Como não foi totalmente atendido, pediu a liberação e o levou para outro clube. Consta do registro na CBF que passou uma temporada no “clube 2”, ficou uma temporada sem clube e no ano passado se transferiu para o “clube 3”. Não sei dizer se o plano do pai foi revisitado.

Esses exemplos ajudam a ilustrar como, muitas vezes, o discurso do “sonho” mascara uma realidade de sobrecarga emocional e física. O sonho é legítimo. A exploração, não.

O supervisor, nesse cenário, precisa estar atento aos sinais: queda de rendimento escolar, ansiedade excessiva, medo de errar, lesões recorrentes, irritabilidade. São indicadores de que algo deixou de estar equilibrado.

A Frustração do Pai Projetada no Filho

Outro ponto recorrente, e igualmente delicado, é a projeção das frustrações pessoais dos pais sobre os filhos atletas. Muitos desses pais não tiveram oportunidade no futebol ou não alcançaram o sucesso desejado. O que não foi vivido por eles passa a ser exigido do filho.

Essa projeção assume diferentes formas: cobranças constantes, comparações, pressão por desempenho, controle excessivo da rotina e até interferência (ou tentativa de) no trabalho da comissão técnica.

Cito alguns exemplos, novamente, substituindo os nomes verdadeiros.

Huguinho tinha o pai obcecado por números, minutagem e comparações. Pediu reunião com o coordenador técnico para contestar a não titularidade do filho nos jogos, pois teria dados estatísticos demonstrado que ele seria melhor do que o atleta escolhido pela comissão técnica.

O menino era muito inteligente, falava inglês, espanhol e alemão fluentemente. Estava aprendendo outras línguas. Gostava de filmes clássicos e de séries como tramas complexas. Era claro que gostava de conversar com adultos e não com os colegas de time. Certa vez, conversando com ele no saguão de um hotel, me disse que não gostava dos hábitos dos colegas, pois ouviam música ruim, não liam livros, não gostavam de história, economia, nem de política.

Mas o pai foi goleiro amador, deseja que o filho seja goleiro profissional.


Zezinho aparentava claramente não estava feliz com a vida que levava. Alojamento, rotina de treinos e jogos. Mas o pai insistia para que o menino continuasse no clube, pois achava que seria jogador de futebol.

Luizinho era filho de um ex-jogador de futebol profissional, que jogou na Europa e na seleção brasileira e atuava como “personal”, treinador particular e gestor da carreira do filho. Era comum o menino retornar ao clube, após a folga do final de semana, com dores musculares. No período em que deveria descansar, “treinava” com o pai.

Nesses casos, o futebol deixa de ser espaço de descoberta e passa a ser palco de compensações emocionais. A criança joga para atender expectativas externas, não para se desenvolver, aprender ou se divertir.

Os Impactos Emocionais no Atleta

A criança submetida a esse tipo de pressão tende a desenvolver comportamentos que merecem atenção: ansiedade, agressividade, medo de errar, dificuldade de lidar com frustrações e, em alguns casos, perda do prazer pelo jogo.

O erro, elemento central do aprendizado, passa a ser vivido como ameaça. O jogo vira prova. O campo, um tribunal. E o futebol, que poderia ser ferramenta de formação humana, se transforma em fonte de sofrimento.

É importante lembrar: nem toda cobrança é sinal de cuidado, assim como nem toda presença é sinônimo de apoio saudável.

O Papel do Supervisor como Guardião do Processo Formativo

Diante desse cenário, o supervisor assume um papel fundamental: o de guardião do processo formativo. É ele quem faz a mediação entre clube, família e atleta. Quem chama para a conversa, estabelece limites, orienta e, quando necessário, protege.

Proteger o atleta não significa afastá-lo da responsabilidade ou do compromisso. Significa garantir que o desenvolvimento aconteça no tempo certo, respeitando a infância, a adolescência e os aspectos emocionais envolvidos.

O supervisor precisa ter coragem para sustentar diálogos difíceis, para dizer “não” quando o ambiente começa a adoecer, e para lembrar a todos que o futebol de base não é um fim em si mesmo, mas um meio de formação.

Formar Atletas ou Formar Pessoas?

Essa talvez seja a pergunta central que atravessa este artigo e toda a série. O futebol de base precisa decidir, diariamente, se está apenas produzindo atletas ou se está contribuindo para a formação de pessoas equilibradas, críticas e emocionalmente saudáveis.

Quando o processo é bem conduzido, o resultado aparece no campo e fora dele. Quando não é, o custo humano costuma ser alto.

Caminhos Possíveis

Combater a exploração e as projeções emocionais passa por educação, diálogo e clareza de papéis. Passa por clubes com valores bem definidos, supervisores preparados, comissões técnicas alinhadas e famílias orientadas.

O futebol de base pode e deve ser um espaço de sonho. Mas um sonho que respeite a infância, preserve a dignidade e prepare o jovem não apenas para jogar, mas para viver.

Caio Rizek é Supervisor de Futebol de Base do São Paulo FC, atuando na organização e integração dos processos esportivos e institucionais das categorias de formação. É advogado e bacharel/licenciado em Educação Física, com formação executiva em gestão e liderança (MBA USP/Esalq). Possui experiência na supervisão operacional do departamento de futebol, relacionamento com comissão técnica, atletas e famílias, além de atuação em rotinas estratégicas do ambiente de base.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/caiorizek/

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Fair Play Financeiro além dos números: governança e transparência no centro do jogo

Dando sequência à série em que venho ilustrando os requisitos do Fair Play Financeiro da CBF, hoje o recorte é propositalmente diferente. Não se trata de um requisito financeiro ou contábil, mas de um pilar estrutural de governança e transparência, que sustenta todo o modelo regulatório.

Com efeito, o Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) não se limita a exigir solvência, controle de custos ou limites de endividamento, isto é, requisitos econômico-financeiros. Ele também impõe, de forma expressa, requisitos de governança e transparência, obrigando os Clubes a manter e comunicar formalmente à ANRESF (órgão regulador) informações verificáveis, que devem ser atualizadas em até 30 dias sempre que houver qualquer alteração relevante, sobre sua (i) estrutura de controle societário e sobre o chamado (ii) Pessoal-Chave da Administração.

Em relação à composição do seu controle societário, o Clube deve informar inclusive participações dos controladores em outros Clubes, no Brasil ou no exterior.

Já o conceito de “Pessoal-Chave” não é restrito ao organograma formal. Para fins regulatórios, considera-se como integrante toda pessoa que detenha autoridade e responsabilidade pelo planejamento, direção e controle das atividades do Clube, direta ou indiretamente. Diretores executivos ou não, conselheiros e gestores com poder decisório estratégico entram nesse radar. O critério não é o cargo — é o poder real de decisão.

Na prática, isso resolve (ou expõe) situações muito concretas. Por exemplo:

  • o conselheiro que não é diretor, mas influencia contratações relevantes;
  • o controlador que participa de outro Clube no exterior;
  • o gestor que atua “nos bastidores”, mas decide orçamento, elenco ou fornecedores.

Ou seja, não importa apenas o cargo formal. Importa quem decide. A lógica do Regulamento é direta: não há sustentabilidade financeira possível quando não está claro quem manda, quem influencia e quem responde.

Infográfico: Requisito de governança e transparência

Esse nível de transparência também é essencial para algo cada vez mais sensível neste ambiente regulatório: a identificação de Partes Relacionadas. Sem clareza sobre quem controla e quem decide, torna-se impossível mapear conflitos de interesse, transações intragrupo, favorecimentos indevidos ou operações que distorçam a concorrência esportiva e financeira.

Por isso, essas informações não têm natureza meramente cadastral. Elas integram o sistema de monitoramento regulatório e já possuem um marco temporal definido: os Clubes devem apresentá-las até 30 de abril de 2026.

O ponto mais sensível está nas consequências. O Regulamento é expresso ao afirmar que omissão, atraso ou falsidade na prestação dessas informações configuram reprovação regulatória, sujeitando o Clube a sanções que podem ir de advertência pública e multa até retenção de receitas, restrições de registro de atletas, dedução de pontos, exclusão de competições e, nos casos mais graves, rebaixamento ou cassação da licença para competir.

A mensagem é inequívoca: governança deixou de ser discurso institucional ou boa prática recomendável. Tornou-se condição regulatória de permanência no sistema competitivo. Transparência não é mais opcional — é requisito.

O Fair Play Financeiro sinaliza uma mudança clara de maturidade regulatória: clubes que não organizarem sua governança e sua transparência dificilmente conseguirão sustentar qualquer outro requisito do sistema.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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Acabou a Copinha! E agora?

Por: Rafael Castellani

Encerrou-se em 25 de janeiro de 2026 mais uma Copa São Paulo de Futebol Junior, popularmente conhecida como “Copinha”, mencionada pela Federação Paulista de Futebol, sua idealizadora, como a “maior competição de base do planeta”, contando com 128 equipes e milhares de jogadores com idade inferior a 21 anos (nascidos até o ano de 2005).  

A primeira reflexão que cabe fazermos se refere à denominação dada a esta competição como “de base”. Base para que? Podemos supor que seja base para a profissionalização, mas melhor seria se fosse (como é em alguns casos) base para a formação esportiva; base para a formação humana e integral; base para a vida! Por outro lado, é possível supor também que é base para realização de um sonho ou para o início de um pesadelo.

Podemos ainda, sob uma perspectiva mais crítica, entender essa competição como a base de um grande balcão de negócios, no qual as “joias” de cada clube são “lapidadas” e vendidas a outros clubes, sobretudo do exterior. Neste contexto, as arquibancadas são tomadas por “olheiros” que observam os jogadores buscando sua “galinha dos ovos de ouro”, tal como acontece com mineradores que, pelo processo de peneiramento dos rios, descobrem a sua pepita ou então, tal qual as feiras/exposições/leilões de gado, nas quais pecuaristas avaliam bois para comercializá-los e obter lucro com essa transação.  

Ainda assim, é praticamente consenso que a Copinha se trata de uma competição de base voltada à profissionalização do atleta, não necessariamente do mesmo clube. Alguns clubes, inclusive, sequer possuem categoria profissional, tal qual a surpreendente equipe do Ibrachina, que obteve sua melhor classificação em sua breve história nesta edição. É, em alguns casos, principalmente para os atletas nascidos em 2005, a última chance de se profissionalizar e passar pelo difícil e perverso “funil” do futebol profissional que, para a dura realidade de muitos jovens e suas famílias, absorve apenas, conforme dados da Universidade do Futebol, menos de 5% daqueles jovens que buscam realizar o sonho de se tornar jogador profissional de futebol.

Em minha tese de doutorado (CASTELLANI, 2017), pude constatar que esse dado equivale, especificamente em um dos clubes investigados, a cerca de 8%. Euler Victor, um dos grandes estudiosos do nosso futebol de base, nos apresenta em pesquisa recente ainda não publicada, que cerca de 15% dos atletas que disputam a copinha acaba assinando contratos profissionais e permanecem ao menos 3 anos atuando profissionalmente, ainda que somente 5% destes tem a oportunidade de jogar em grandes equipes das quatro principais séries do futebol brasileiro.    

Ou seja, ainda que sobrevalorizemos esses dados, menos de 15 jovens, a cada 100 que disputam essa competição, tornam-se jogadores profissionais e realizam o sonho buscado desde a infância. Um sonho, vale destacar, que não é pessoal, mas sim familiar. Alguns deles, é verdade, já possuem seu contrato profissional antes mesmo de disputar uma partida profissionalmente, mas isso tem muito mais relação com a preservação de um “ativo” por parte do clube do que pelas qualidades esportivas já adquiridas e demonstradas pelo jovem atleta.

Esse funil é tão estreito e desafiador que, para grande parte destes jovens, poder disputar uma Copinha já é um sonho. São inúmeros os exemplos e relatos presenciados que expressam muita emoção, gratidão e felicidade com esse feito. Cada choro ao ouvir o hino brasileiro tocar antes do início da partida, ao conceder uma entrevista ou ao comemorar um gol é a mais pura expressão do significado social que o futebol tem para estes milhares de jovens.

Por outro lado, infelizmente, a avassaladora maioria destes jovens talentosos jogadores de futebol “fica pelo caminho” e não passa pelo funil que os levam ao futebol profissional. Para estes, a Copinha é, ao mesmo tempo, sonho e pesadelo. Sonho, pelos motivos supracitados. Pesadelo, por verem desmoronar a última oportunidade de se tornarem um jogador profissional. Entretanto, o que faz da não realização de um sonho um pesadelo não é, necessariamente, o fato de não obter um contrato profissional. Mas é a forma como é “descartado” e por se ver sem outra perspectiva de vida. Dediquei um dos capítulos da minha tese de doutorado, publicada em 2017 (CASTELLANI, 2017), para discorrer sobre esse assunto com mais qualidade, mas cabe aqui frisar que são comuns os sentimentos de impotência, frustração, desamparo, abandono, decepção e tristeza. Disse-me um jovem jogador que tive a oportunidade de entrevistar: “…não estar mais nos planos do clube é simplesmente, mais ou menos, que nem papel higiênico, você é descartado”.

Não há melhor forma de oferecer a estes inúmeros jovens outra perspectiva de vida do que lhes oferecendo, além de um ambiente acolhedor, respeitoso e um tratamento humanizado, uma educação de qualidade. É preciso investir na educação destes jovens! E investir na educação não é conferir se estão matriculados em alguma escola e se a frequentam; é garantir que tenham as melhores condições possíveis para obter uma educação formal de qualidade. Educação de qualidade não deve ser plano B para jogadores que não se profissionalizam. Deve ser plano A! Sim, afinal, a educação formal é fundamental tanto para os que não se profissionalizam no futebol, como também para os que alcançam esse objetivo. E se em grande parte de uma partida os jogadores passam tomando decisões que sejam capazes de resolver os problemas do jogo, alguém tem dúvidas também de que um jogador inteligente tem maiores condições de obter sucesso jogando futebol?   

Taça da Copinha 2025 — Foto: Marcos Ribolli

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Dados técnicos-táticos parte II: volume e periculosidade

Olá a todos! Hoje daremos continuidade ao tema sobre análise e interpretação de dados com uma abordagem mais aprofundada com intuito de gerar informações que possam ser de maior utilidade dentro de uma equipe. 

Sabemos da dificuldade de transformar dados e relatórios numéricos em informações relevantes devido a origem estocástica e o contexto do futebol (como explicado no artigo anterior).

Apesar desta dificuldade existem alguns padrões que podem nos ajudar a adaptar e interpretar dados quantitativos e qualitativos.

Devemos lembrar sempre que os dados estão sempre interligados entre si. Sabendo como dar significado a eles, podemos não apenas descrever, mas analisar os comportamentos coletivos e individuais.

Uma vez estudado o contexto, quais são os outros fundamentos para aprofundar nossa interpretação dos dados? 

Para realizar as análises quantitativa e qualitativa (coletiva e individuais) existem cinco palavras-chave; “O que”, “Onde”, “Quando”, “Quem” e “Como”.

Para exemplificar o utilizo das palavras-chave citadas na análise vídeo, podemos representar uma ação da seguinte forma:

  1. O QUE – Número de passes da equipe
  2. COMO – Tipologia de passe
  3. ONDE – Zona de campo?
  4. QUEM – Qual ou Quais jogadores?
  5. QUANDO – Com ou sem pressão adversaria?

O estudo destes dados não explica exatamente o porquê de alguma ação acontece, se anula ou se repete durante uma partida, mas segundo sua interpretação, podem dar informações sobre o andamento de uma equipe durante uma ou mais jogos.

Uma vez definidos os fundamentos e contexto do jogo, podemos dividir a análise em dois macros princípios; VOLUMEe PERICOLOSIDADE.

Esta divisão nos ajuda a entender melhor o que uma equipe tem como sua base de performance técnica.

VOLUME

Se entende por volume de jogo todas as ações que demonstram a capacidade de uma equipe de manter a Posse de bola, gerando o aumento de modo QUANTITATIVO as ações, indicando a dominância do jogo.

Como indicadores podemos ter a percentual da posse de bola, número de passes realizados, número de passes de passes certos, tipologia de passes entre outros. Ainda dentro a posse de bola, podemos ter uma correlação com a zona de campo, como por exemplo o chamado FIELD TILT. Esta métrica se baseia na quantidade de posse de bola da equipe nos últimos trinta metros de campo. Um exemplo pratico seria que se uma equipe tem 60% de posse de bola na partida, e no 100% de sua posse, 40% foi no último terço do campo como o indica o Field Tilt, significa que a equipe analisada teve um volume de posse de bola ofensivo muito alto independente da periculosidade criada. Este tipo de interpretação nos ajuda a entender a maior probabilidade e sensação de criar situações de perigo ao adversário, mas não garantem que um dos eventos mais raros (o gol) seja realizado.

Existem algumas características que podem alterar significativamente os dados do volume de jogo, dentre os mais importantes estão a qualidade técnica da equipe, a escolha estratégica do adversário e o resultado vigente da partida. Estes fatores mesmo se muitas vezes correlatos, são extremamente importantes para o conhecimento do contexto.

PERICULOSIDADE

A periculosidade tem como objetivo identificar a criação de jogadas que podem levar ao gol dando a real QUALIDADE da posse de bola. Os índices partem do número de finalizações, finalizações no gol, chances reais de gol, XG, XGOT entre outros.

Segundo o livro “The numbers of the game” (Chris Anderson e David Sally) nos big-5 campeonatos da Europa temos a média de que a cada gol marcado, são necessários 9-10 finalizações, ou seja cerca de 10% dos chutes totais ao gol. Se forem analisados as chances clara de gol, são necessários em média de 2,5 a 3 de chances criadas, ou seja a media de eficácia das grandes chances estão entre 33%-40% em base ao campeonato.

Mas o que estes dados significam e como posso me basear neles para a minha equipe?

Segundo dados de empresa de analises de dados como Opta, Statsbomb, Wyscout entre outros, a media  mundial (inclusive brasileira) esta dentro os 30%-40% de eficácia em big chances criadas, isto significa que quando devemos interpretar o numero de gols de uma partida, primeiramente devemos observar se o numero de chances criadas e percentual estão dentro da media mundial, ou seja, em uma partida singular, podemos perder a partida mesmo criando 6 big chances e não realizando nenhum gol (abaixo da media de conversão). Mas provavelmente, se minha equipe tende a criar 6 big chances como média no andamento das partidas, será muito provável que eu entre na média e farei al menos um gol ou dois na partida, com picos de 3 se estiver em um ótimo momento.

Este tipo de abordagem aos dados já nos ajuda a começar a dar real significado ao que realizamos em campo para depois poder aprofundar em entender o porquê em um determinado momento a equipe pode estar acima ou abaixo da performance esperada. Para auxílio das possíveis causas podemos analisar todos os dados de XG e XGOT coletivo e individuais para interpretar a qualidade da finalização criada pela equipe e/ou do jogador em questão.

Para exemplificar de modo simples, analisando o relatório técnico da Champions League, o Barcelona foi a equipe que melhor aproveitou as chances criadas em base ao XG realizando 40 gols em um Xg coletivo de 30.5, ou seja realizou 9.5 gols a mais do que esperado segundo o dado.

O mesmo acontece a nível individual, o jogador Raphinha realizou 13 gols com Xg de 4.9, isto significa que sua capacidade de finalização foi muito além do esperado, tendo o segundo colocado o atacante Lautaro Martinez com 9 gols em um Xg de 4.5 ou seja o dobro.

Segue link para consulta: https://drive.google.com/file/d/1tw3FLGvIjQtYJqty0GvuUazyVPTMB_0h/view?usp=drive_link.

Tendo o conhecimento dos dados e conseguindo contextualizar com a sua realidade, podemos dar significado real do que acontece em uma partida para uma visão holística dos dados.

Este tipo de abordagem nos permite refletir com maior profundidade e de modo mais objetivo o trabalho que vem sendo desenvolvido pela comissão técnica tendo em vista que a questão tática-técnica (tomada de decisão e execução técnica) dependerá sempre do jogador.

No próximo artigos entraremos na análise vídeo e suas tipologias.

Infrográfico criado pelo autor

Até a próxima

Bruno Loureiro Batista é Treinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/

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Requisito de Solvência: o primeiro teste do Fair Play Financeiro em 2026

O Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (Fair Play Financeiro) da CBF – Confederação Brasileira de Futebol inaugura uma nova lógica de controle no futebol brasileiro.

Não se trata de boas práticas recomendáveis, mas de sistema normativo com efeitos diretos e sancionatórios, que impactam a governança, a gestão financeira e a capacidade competitiva dos Clubes.

Nas próximas semanas, compartilharei breves observações sobre os requisitos do Fair Play Financeiro.

A escolha por iniciar pelo Requisito de Solvência é objetiva: é o primeiro a produzir efeitos práticos imediatos a partir de janeiro de 2026 e funciona como ponto de partida do modelo regulatório.

Seu conceito é simples: o Clube não pode possuir pagamentos em atraso, considerados como qualquer valor não quitado nos termos contratuais ou legais.

Isso abrange obrigações perante outros Clubes, atletas, comissão técnica, funcionários, prestadores de serviços e autoridades públicas, incluindo tributos e encargos sociais.

As obrigações (dívidas) assumidas a partir de 01/01/2026 já estão integralmente sujeitas às regras do Fair Play Financeiro, sem qualquer carência (para aquelas vencidas até 31/12/2025, há regime de transição que se encerra em 30/11/2026).

O impacto, portanto, é próximo e concreto.

A inadimplência deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a ser um problema regulatório, sobretudo quando cruza o calendário oficial de verificação.

Com efeito, nas respectivas datas de verificação, o Clube deve declarar que não possui débitos vencidos, por meio de documento assinado pela Alta Direção e submetido à Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), órgão regulador vinculado à CBF:

📅 Calendário regulatório

31/03 (débitos até 28/02)

31/07 (débitos até 30/06)

30/11 (débitos até 31/10)

Veja a seguir o infográfico que resume bem esse cenário:

IMPORTANTE REFORÇAR: O silêncio ou informações imprecisas agravam o risco regulatório.

Havendo inadimplência, a ANRESF, caso seja provocada, intimará o Clube para comprovar a quitação ou apresentar defesa no prazo regulamentar. Essa defesa não é automática nem ampla. Só é admitida quando houver litígio formal (Poder Judiciário, centro arbitral ou órgão jurisdicional do futebol), sustentado por evidência substancial e sem decisão que imponha pagamento imediato.

Esse desenho normativo do deixa claro que a responsabilidade do Clube é objetiva. O cumprimento do requisito sob análise independe da apuração de dolo ou culpa. Com o mero descumprimento, a infração se caracteriza, ainda que a origem do atraso seja atribuída a terceiros, falhas operacionais ou dificuldades financeiras conjunturais.

E as sanções são severas: advertência pública, multa, bloqueio de registro de atletas, retenção de receitas, dedução de pontos, exclusão de competições e, em casos graves, não concessão ou cassação da licença para disputar torneios organizados no âmbito da CBF e rebaixamento.

Ainda há previsão de responsabilização pessoal. Dirigentes, administradores, empregados, conselheiros e controladores (pessoas naturais) que, por ação ou omissão, contribuírem para a infração podem ser punidos individualmente. As sanções vão de advertência e multa até suspensão, inelegibilidade para cargos de direção e, nos casos mais graves, banimento do futebol.

Em suma, o Fair Play Financeiro deixa uma mensagem clara: 2026 não é o começo do debate, é o começo da cobrança.

Quem trata o Requisito de Solvência, base operacional do Fair Play Financeiro, como um tema “para depois” corre o risco de descobri-lo, em breve, como um problema esportivo, institucional — e pessoal.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
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A braçadeira como ferramenta de gestão: a revolução alemã na função do capitão

Por: Lucas Alecrim

Liderança é mais do que ocupar um cargo. Segundo o dicionário Aurélio, trata-se da capacidade de liderar, comandar e exercer influência baseada no prestígio pessoal. Um conceito presente em diferentes esferas da sociedade — famílias, empresas, indústrias — sempre que existe um grupo que precisa de direção, tomada de decisão e responsabilidade.

No futebol, esse fenômeno se manifesta de forma clara. Líderes surgem dentro e fora dos gramados: na gestão de elencos, na organização do dia a dia e, sobretudo, na figura do capitão, aquele que representa o coletivo nos momentos de pressão.

É justamente nesse ponto que este texto se apoia. Ao longo dos anos, algo sempre me chamou a atenção no futebol alemão: a forma como a liderança é construída, transmitida e preservada ao longo das gerações. Um verdadeiro processo de passagem de bastão entre capitães da seleção alemã — a tradicional Die Mannschaft.

Esse processo me lembra um pouco as aulas que eu tinha na faculdade sobre estrutura empresarial e seus conceitos, por exemplo a cultura organizacional.

A cultura organizacional que é um conjunto de valores, crenças, normas, práticas, símbolos e comportamentos que definem como uma organização funciona e como as pessoas dentro dela se relacionam. É, em essência, a “personalidade” de uma empresa, clube, instituição ou equipe.

Ela molda a forma como decisões são tomadas, como conflitos são resolvidos, como metas são perseguidas e como as pessoas percebem seu papel dentro do grupo. Não é algo formal ou escrito apenas em manuais; muitas vezes é tácito, aprendido no dia a dia e transmitido por tradição, exemplo e convivência.

No nosso contexto alemão, não se trata aqui de listar títulos ou comparar desempenhos individuais. O foco está no processo, na continuidade e no perfil de liderança que a Alemanha historicamente cultiva.

Na minha concepção, quatro nomes simbolizam bem essa linha do tempo: Franz Beckenbauer, Lothar Matthäus, Philipp Lahm e Joshua Kimmich.

Claro, houve diversos outros nomes que tiveram essa responsabilidade e eram tão habilidosos tecnicamente (ou melhores) que os nomes listados acima. Entretanto, não acho que tivessem características semelhantes.

Tudo começa com Franz Beckenbauer, o eterno Der Kaiser. Um líder absoluto dentro e fora de campo, que redefiniu a posição de líbero e passou a simbolizar inteligência tática, elegância e autoridade silenciosa. Em 1970, jogou uma semifinal de Copa do Mundo com a clavícula quebrada. Em 1974, liderou a Alemanha ao título diante do lendário “Carrossel Holandês”. Beckenbauer não apenas jogava futebol — ele ditava comportamentos.

Poucos anos depois, surge Lothar Matthäus, um jogador de características distintas, mas com a mesma essência de liderança. Atuando no meio-campo, combinava força física, leitura de jogo e capacidade de organização. Curiosamente — e simbolicamente — Matthäus foi treinado por Beckenbauer na Copa do Mundo de 1990, vencida pela Alemanha. Ali, mais do que orientações táticas, houve transmissão de mentalidade.

Com a aposentadoria de Matthäus, o futebol alemão apresentou outro capitão, não de forma imediata, com perfil semelhante: Philipp Lahm. Versátil, disciplinado e extremamente inteligente, Lahm foi o líder técnico e emocional da seleção campeã do mundo em 2014. Não era o mais midiático, mas talvez fosse o mais confiável. Representava, em campo, a ideia de coletividade acima do individual.

Após aquele título, a braçadeira passou por nomes importantes, como Bastian Schweinsteiger, até chegar, também de forma não imediata, ao atual símbolo dessa continuidade: Joshua Kimmich.

Capitão da seleção sob o comando de Julian Nagelsmann, Kimmich reúne características que se repetem nesse processo histórico: intensidade, disciplina, leitura tática, inconformismo competitivo e exemplo diário. Um líder que conduz pelo comportamento.

Nas palavras do próprio treinador:
“Ele é um exemplo para todo o grupo. Sempre dá tudo de si, quer treinar o tempo todo e estabelece padrões.”

Os números ajudam a ilustrar, mas não explicam sozinhos o impacto desses atletas:

  • Beckenbauer: 856 jogos
  • Matthäus: 930 jogos
  • Lahm: 764 jogos
  • Kimmich: mais de 700 jogos em alto nível

Mais importante do que estatísticas é entender o perfil. A Federação Alemã de Futebol (DFB) nunca pareceu escolher seus capitães apenas por talento técnico. O que pesa, historicamente, é a capacidade de inspirar, assumir responsabilidades e proteger o coletivo.

A liderança alemã, dentro e fora do futebol, costuma se basear em disciplina, responsabilidade compartilhada e visão de longo prazo. Não há espaço para improviso constante. O sucesso é visto como consequência de organização, planejamento e trabalho contínuo.

Esse tipo de líder inspira porque age com coerência. Assume erros, protege o grupo nos momentos difíceis e entende que liderar não é mandar, mas servir ao processo.

Talvez o aspecto mais inspirador seja o compromisso com o legado. Liderar, nesse contexto, não é apenas vencer hoje, mas preparar o amanhã. Construir estruturas, formar pessoas e garantir que o nível se mantenha alto mesmo após a troca de gerações.

No futebol alemão, a braçadeira muda de braço — mas a liderança permanece.

Um grande abraço e um excelente 2026.
Lucas Alecrim