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DADOS TÉCNICO-TÁTICOS: SERVE COMO ANALISAMOS? PARTE I

Por: Bruno Loureiro

Olá a todos! É com grande prazer que depois de alguns anos, voltarei junto a Universidade do Futebol a publicar novos artigos sobre o mundo do futebol em todas as esferas. Desejo à todos um ótimo 2026 com muita saúde e muito futebol! Vamos Lá!

A Análise de Desempenho no decorrer dos últimos vinte anos se tornou peça fundamental em grandes equipes para conseguir cada vez mais informações para desvendar detalhes que possam fazer a diferença entre a vitória e a derrota de uma partida.

Devido aos avanços da tecnologia, o acesso a informação de dados, imagens e relatórios tem sido imensa, tendo como necessidade, o desenvolvendo da capacidade de interpretação e escolha de dados para análise com intuito de obter o conhecimento necessário para a equipe em um determinado objetivo.

Segundo estudos (Frank & Miller, 1986) um treinador experiente de futebol consegue recordar ao máximo 41% dos eventos significativos de uma partida, este dado demonstra a importância de uma análise acurada de dados e imagens com uma visão holística sobre os fatos.

No futebol a possibilidade de ações podem ser de magnitude quase infinitas o que torna sua análise muito complexa e de difícil interpretação. O futebol pode ser definido como um esporte estocástico, ou seja, um sistema matemático que calcula a aleatoriedade das ações para tentar determinar uma probabilística onde algumas ações podem ter maior chance de acontecer ao invés de outras em base ao contexto de jogo. Para simplificar conceito, os cálculos matemáticos dizem que um jogador terá maior probabilidade de realizar um gol através batendo um pênalti ao invés do no pontapé inicial.

Em um esporte onde estímulos iguais podem ter respostas diferentes e pequenas variações geram grande diferenças, como podemos interpretar os dados tático – técnico (tático vem antes pois a técnica é o último estagio da tomada de decisão que é de natureza tática individual)?

Sabemos que dados numéricos carecem de um princípio fundamental; O CONTEXTO de jogo!

Mas o que seria contexto de jogo e existe um modo de defini-los?

Ter de modo claro o significado do contexto de jogo nos ajuda na definição dos comportamentos individuais, de grupo e coletivo. O contexto de jogo pode ser divido em 5 pontos principais.

  1. Bola
  2. Adversário
  3. Companheiro
  4. Gol
  5. Espaço

Através destes pontos podemos entender melhor os comportamentos das equipes nas duas fases (Posse e não posse) e dentro o ciclo de jogo (Transição ofensiva, defensiva e bolas paradas).

Exemplo prático pode ser que se uma equipe tem uma marcação zonal, a bola é quem comanda os comportamentos da linha defensiva, esta tipologia de marcação requer um grande trabalho de sincronia da linha defensiva, tentando ocupar muito bem os espaços para evitar linhas de passe que atravessem dentro a ultima linha defensiva. O Treinador Sarri atualmente na Lazio é um ótimo exemplo para estudos sobre o tema.

Já se uma equipe tem marcação homem a homem, o adversário será quem comanda estes comportamentos. Esta tipologia requer uma disposição física muito intensa com grande agressividade e capacidade de leitura de antecipação. O treinador Gasperini atualmente na Roma (ex Atalanta) é um ótimo exemplo para estudos sobre o tema.

Desta forma, os dados estatísticos em fase defensiva podem ser interpretados de maneira mais aprofundada. Equipes que jogam como marcação homem a homem, tendem a ter maior número de “tackles” enquanto a marcação zonal a maior interceptação nas linhas de passe. Este tipo de conhecimento do contexto de jogo da maior significado ao dados interpretados.

Com o avanços das tecnologias (I.A.) cada vez mais os relatórios estão se aproximando ou tentando se aproximar do contexto de jogo, ajudando a ter com maior clareza o entendimento do andamento de uma partida ou de uma inteira temporada.

Um exemplo pratico seria o número total de finalizações (quantitativo) e qual o XG (expect goals) destas finalizações (qualitativo).

Temos como derivado destes dados outros que tentam ainda mais nos ajudar a aproximar ao contexto como XGOT (Expect Goals on Target) que vá em base ao local, potência e trajetória da finalização. Um exemplo seria que uma finalização de fora da área com XG 0.03 (pré finalização) mas com XGOT 0.40 (post finalização) significaria alta probabilidade de realização de um gol se cruzarmos as duas métricas indicando alta qualidade na finalização realizada.

Podemos ir mais além com as análises com o número de assistências (quantitativo) e saber seu XT (X treath) que identifica por exemplo quanto de periculosidade a escolha do passe naquele determinado momento poderá ter. Exemplo prático pode ser uma transição 3vs2 em que um determinado momento o jogador em posse tem a duas escolhas de passe, e em base ao XT a probabilidade de finalização com alto XG de um jogador será mais alta que o outro em base ao seu XT.

Estes são apenas pequenos exemplos da complexidade e estudo que temos que obter para conseguir decifrar momentos cruciais na análise de equipes e jogadores. Estes exemplos mostram que nenhum dado sozinho pode exemplificar um resultado de uma partida, o evento mais importante do jogo O GOL é também um dos mais raros sendo cerca de 0,05 das ações totais que ocorrem no jogo.

Um dos erros mais comuns que vemos é que se realizam análises dos dados partindo de um dos seus elementos mais raros (GOL) ou seja, o resultado final da partida pode influenciar diretamente na leitura e interpretação dos dados. Claramente o gol durante a partida pode mudar os comportamentos de ambas as equipes mas ter conhecimento do contexto nos ajuda a interpretar melhor as métricas atrás dos 0,05 % mais importantes do futebol.

No próximo artigo falaremos sobre as diferenças entre dados de Volume e Periculosidade com exemplos práticos de leitura e interpretação.

Para melhor entendimento segue um INFOGRAFIA dos assuntos tratados.

INFOGRAFIA

Até a próxima,     

Bruno Loureiro Batista
Treinador Licença UEFA
Analista desempenho
Juventus F.C

  

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Entre observar e decidir: a importância do método

Por: Nicolau Trevisani

Ao longo da minha trajetória no futebol, atuei em diferentes funções e contextos: análise de desempenho em categorias de base (São Paulo FC), futebol profissional no Brasil como analista de desempenho e scout (São Paulo FC) e, atualmente, como scout internacional na América do Sul (. FC Dallas -MLS). Essas experiências não aconteceram de forma isolada. Pelo contrário, acabaram se conectando em algo que considero central hoje: a forma como observo o jogo e organizo critérios para apoiar a tomada de decisão.

O trabalho no ambiente formativo me ensinou a olhar para o desenvolvimento ao longo do tempo, respeitando maturidade, contexto e processo. Já no futebol profissional, a pressão por resultado imediato trouxe outra camada importante: a necessidade de transformar informação em clareza rápida para a comissão técnica. No scouting, especialmente em um contexto internacional, esse olhar precisou se ampliar ainda mais — compreender o jogador não apenas pelo que ele faz, mas pelo ambiente em que faz, pelo nível de exigência competitiva e pela adaptação necessária a novas realidades.

Foi a partir dessa circulação entre áreas que uma pergunta passou a guiar meu trabalho: o que diferencia uma boa observação de uma observação que realmente ajuda a decidir melhor? No futebol, vemos muitos dados, vídeos e relatórios. Mas nem sempre isso reduz ruído. Muitas vezes, apenas adiciona camadas de complexidade a decisões que já são difíceis.

Na prática, passei a valorizar menos o evento isolado e mais a frequência com que o jogador consegue decidir bem em diferentes contextos. Observar como ele se posiciona antes de receber, como reage ao erro, como sustenta a leitura sob pressão ou em vantagem no placar. Esses detalhes dizem mais sobre adaptabilidade e consistência do que um lance bem-sucedido destacado em vídeo.

Esse olhar também muda a forma de projetar. Não existe jogador bom ou ruim fora de contexto. Existe adequação — entre perfil, ambiente, modelo de jogo e tempo de maturação. Ignorar essa relação costuma gerar erros caros, seja no desenvolvimento, na contratação ou na expectativa criada em torno de um atleta.

Por isso, hoje entendo trajetória profissional não apenas como um conjunto de experiências, mas como a construção de um método. Um método que conecta observação, interpretação e decisão. Que respeita o lado humano do jogo sem perder rigor técnico. E que busca ajudar clubes e profissionais a enxergar melhor o que está diante deles — reduzindo ruído e aumentando consistência em um ambiente onde decidir bem, mais do que acertar sempre, é o verdadeiro diferencial.

Ter um método capaz de organizar, solidificar e dar sentido às informações só foi possível graças à formação acadêmica, mas, sobretudo, às diferentes experiências vividas ao longo do caminho. O jogo e o jogador estão ali para todos verem. Observar com método, porém, é o que realmente qualifica a informação — e faz diferença na prática profissional.

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Três pilares da tomada de decisão no futebol

Por: Nicolau Trevisani

Nos textos anteriores, falei sobre como vínculo e ambiente ajudam o atleta a acessar estados de presença que se aproximam do Flow. Hoje, queria olhar para outro ponto dessa cadeia: o que acontece dentro do cérebro nos instantes que antecedem a decisão — e como isso aparece concretamente no jogo.


Antônio Damásio, em Sentir e Saber, descreve que a consciência surge quando o cérebro integra sinais do corpo com informações do ambiente. Essa integração é rápida e, embora pareça intuitiva, segue uma lógica muito concreta.

No futebol, isso aparece em três movimentos internos.


O primeiro é emocional. Regiões como a amígdala e a ínsula avaliam o momento antes mesmo de o atleta ter clareza consciente. Se o corpo está em alerta, a percepção encolhe e o jogador tende a escolher saídas de segurança. Quando o corpo está mais regulado, a leitura se expande — o atleta enxerga mais possibilidades, não apenas ameaças.

O segundo movimento é perceptivo. Estruturas que filtram estímulos — como o tálamo — ajudam o cérebro a decidir, em milissegundos, o que realmente importa naquela jogada: o adversário pressionando, o espaço livre, a linha de passe. Em estados próximos ao Flow, esse filtro trabalha melhor: menos ruído, mais relevância.

O terceiro é decisório. Redes responsáveis por avaliar prioridades e conectar emoção com raciocínio — como o córtex pré-frontal — transformam essa leitura em ação. É aqui que a sensação vira clareza. Em termos simples: o jogador decide porque conseguiu interpretar o que sentiu.

Isso fica evidente em um lance comum.
Imagine um zagueiro recebendo a bola sob pressão. Se o corpo dele lê o momento como ameaça, ele devolve rápido, domina mal ou simplesmente se livra da jogada. Mas se o corpo está mais estável, ele percebe o atacante chegando, ajusta o tronco, atrai a pressão e encontra um passe por dentro. A técnica pode ser a mesma; o que muda é como o cérebro organizou aquele segundo.

Quando observamos um jogador, entender um pouco melhor esses processos pode nos ajudar a perceber — de forma sutil e precisa — onde estão de fato as potencialidades e fragilidades de um atleta no entendimento de jogo. Compreender o processo decisório do ponto de vista neural e biológico não substitui a análise tradicional, mas se torna uma ferramenta adicional para identificar coerências, padrões e também as “pontas soltas” que às vezes impedem um jogador de transformar leitura em ação.

No fim, Damásio ajuda a nomear algo que o futebol revela o tempo todo: decidir é o momento em que o sentir se transforma em clareza. E quando esse processo acontece com menos interferência emocional — algo que o Flow facilita — essa clareza dura mais tempo e aparece com mais consistência.

Foto: Sérgio Busquets em ação contra o Real Madrid — Foto: REUTERS/Isabel Infantes

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Supervisão e Afeto: Um Olhar Humano na Relação com Jovens Atletas

Por: Caio Rizek

A supervisão de futebol vai muito além de planilhas, viagens e cronogramas. O trabalho real acontece nas relações, nos diálogos, nas observações silenciosas durante o treino, nas conversas com as famílias e, sobretudo, nos gestos de cuidado com os meninos que estão em formação.

Como supervisor, me coloco nesse ponto de encontro entre o campo e a vida. Acolho as angústias, percebo as ausências e, muitas vezes, percebo aquilo que o jovem atleta ainda não sabe expressar em palavras.

O Papel da Família e o Equilíbrio Emocional do Jovem Atleta

A estabilidade emocional de uma criança ou adolescente está, em grande parte, ancorada na relação familiar. No futebol de base, essa presença é determinante. Famílias que acompanham, apoiam e compreendem o processo formativo ajudam a criar um ambiente mais seguro, no qual o jovem pode errar, crescer e aprender com naturalidade.

Em contrapartida, a ausência afetiva costuma deixar marcas perceptíveis no comportamento, na forma como o jovem reage às frustrações. Já vi, mais de uma vez, meninos que conviviam com a ausência do pai demonstrarem maior agressividade em campo. Essa energia, muitas vezes, não é rebeldia, mas carência. É o grito silencioso de quem sente falta de referência, de alguém que o ampare emocionalmente.

É por isso que, no futebol de base, a família não é coadjuvante, mas sim parte essencial da formação. Um atleta emocionalmente equilibrado é resultado, em boa medida, de uma estrutura familiar que o sustenta e lhe oferece segurança para lidar com vitórias e derrotas.

Quando o Empresário Ocupa o Lugar do Afeto

Em alguns casos, o empresário surge na vida do jovem atleta como essa figura de referência, preenchendo vazios que deveriam ser ocupados por vínculos familiares. É natural que, diante da ausência do pai ou da distância da família, o jovem busque no agente esportivo alguém que o ouça, oriente e ofereça segurança.

Lembro-me de um episódio marcante: Após uma final do Campeonato Paulista Sub-12, encontrei um menino chorando no vestiário. À primeira vista, parecia a frustração pela derrota, algo comum, parte do aprendizado esportivo. Meses depois, a mãe me procurou pedindo ajuda para analisar um contrato de agenciamento, pois estavam mudando de “empresário” (vale ressaltar que a atividade de agenciamento/representação de atletas é permitida por lei somente a partir dos 15 anos e meio, mas isso é assunto para outro artigo).

Durante a conversa, contou que o antigo agente “não dava muita atenção ao seu filho” e que nem sequer foi assistir à final do campeonato. O menino havia ficado triste ao perceber que os “empresários” dos colegas estavam nas arquibancadas, enquanto o dele não apareceu.

Naquele instante, liguei os pontos: o choro daquele menino, na verdade, não era apenas pela derrota. Era a dor da ausência. A ausência do pai, que mora em outro estado, ou do “empresário”, que havia assumido simbolicamente esse papel de presença masculina e protetora.

Essa situação me marcou profundamente. Mostrou, na prática, o quanto a presença (ou a falta dela) pesa no desenvolvimento emocional de uma criança. O quanto a ausência, ainda que silenciosa, grita dentro do campo.

No ano seguinte, já no Sub-13, o mesmo menino começou a apresentar comportamentos diferentes. Tornou-se mais agressivo, queria se impor perante os colegas e chegou a dizer que os outros meninos “precisavam pedir bênção” a ele, pois ele “mandava” no condomínio onde morava (alguns meninos moram no mesmo condomínio, próximo ao clube). Era uma forma de compensar a ausência com uma busca de autoridade, uma tentativa de sentir-se visto e reconhecido.

Ainda naquele ano, houve uma mudança de treinador, e o menino passou a desafiar a nova liderança, testando limites e confrontando decisões, algo que não acontecia com o treinador anterior, com quem havia estabelecido uma relação de confiança e afeto.

Esse comportamento revelou, de forma muito clara, o quanto as relações de afeto e pertencimento influenciam diretamente na postura do atleta. O menino, na ausência de vínculos sólidos, buscava se afirmar pela imposição, não pelo diálogo. Sua agressividade era, no fundo, um pedido de atenção.

Apesar de tudo, sempre mantive com ele uma relação de simpatia e respeito. No contato olho no olho, sempre senti um vínculo de afeto, algo sincero, recíproco. Ainda hoje, quando o encontro, percebo em seu olhar um carinho silencioso. Gosto de conversar com ele, e sinto que é mútuo. Esse tipo de relação confirma que, mesmo nas trajetórias marcadas por conflitos, o vínculo humano deixa marcas positivas. Isso, para mim, é a essência da supervisão.

Neste ano, ele voltará a disputar uma final do Campeonato Paulista. Estarei atento ao seu olhar. Certamente haverá fortes emoções, e estarei ao seu lado, para o que der e vier.

O Supervisor como Elo de Cuidado

É nesse contexto que o supervisor precisa atuar com olhar sensível e ético. Muitas vezes, é ele quem percebe o que está por trás de uma reação explosiva, de um silêncio prolongado ou de um rendimento inesperadamente baixo. O supervisor é o profissional que precisa conectar o atleta à sua rede de apoio, aproximando família, comissão técnica e demais setores do clube.

Isso exige empatia, discernimento e, principalmente, escuta. Em um ambiente onde o desempenho costuma ser o foco, o supervisor tem o dever de resgatar o humano. De lembrar que cada menino é mais do que um número, uma promessa ou uma estatística: é alguém em processo de amadurecimento, que precisa se sentir visto e compreendido.

Supervisão com Olhar Afetivo e Responsabilidade Educacional

A função do supervisor é também educativa. Ele equilibra expectativas, conduz conversas difíceis, orienta famílias e, muitas vezes, é o adulto confiável que o atleta procura quando o mundo parece confuso. O olhar afetivo, nesse sentido, é ferramenta de trabalho.

A performance esportiva se constrói sobre bases emocionais sólidas. E essas bases nascem de vínculos verdadeiros, dentro e fora do clube. Quando o ambiente formativo é ético, empático e coerente, o atleta se desenvolve não apenas tecnicamente, mas como pessoa.

Um Futebol de Base com Vínculos Verdadeiros

Acredito que o grande desafio e o grande propósito da supervisão é conciliar o profissionalismo da gestão com a sensibilidade do cuidado humano. Trabalhar com crianças e adolescentes exige empatia, paciência e presença.

A família, o clube e o supervisor formam uma tríade essencial para sustentar o processo formativo. Cada um tem um papel fundamental. Quando essa rede se fortalece, o resultado vai muito além do campo: são jovens mais estáveis, confiantes e preparados para a vida.

Caio Rizek
Supervisor de Futebol | São Paulo FC

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Correr pelo outro: o vínculo como motor da performance e facilitador do Flow

Por: Nicolau Trevisani

Em textos anteriores aqui no portal, já abordei o conceito de Flow aquele estado de imersão total em que o atleta joga no presente, concentrado, leve e conectado ao jogo. Mas há um elemento que antecede e facilita esse estado de performance e que merece muita atenção: o vínculo.

Se o Flow representa o ápice da fluidez entre mente, corpo e ambiente, o vínculo é quase uma ponte entre atletas e ambiente — o que permite que o estado de Flow apareça de forma mais frequente e segura, com confiança e coragem.


O vínculo é o elo de confiança que conecta o atleta às pessoas e ao contexto que o cercam. Amy Edmondson (1999) descreve o termo segurança psicológica como a sensação de poder agir e se expressar sem medo de punição. No futebol, esse vínculo se manifesta em detalhes: no tom de voz do treinador, na coerência do discurso, na empatia dentro do grupo. É o que diferencia um ambiente em que o jogador atua com receio de errar de outro onde ele se sente livre para arriscar, criar e aprender.

Mais do que isso: vínculos fortes entre os componentes de um grupo facilitam a capacidade de competir e lutar por objetivos coletivos, e não apenas individuais, dentro de campo.

Quando há vínculo, o sistema nervoso sai do modo de defesa e entra em um estado de segurança, o que facilita a criação. O cérebro deixa de se proteger e passa a perceber, decidir e executar com mais clareza. O jogo se torna mais leve e mais inteligente. Sem vínculo, o atleta joga travado; com vínculo, o jogo flui — e isso naturalmente se reflete em uma performance individual e coletiva mais consistente.

Esse fenômeno também aparece em uma das frases mais repetidas e simbólicas do futebol: “Esse time corre um pelo outro.” Essa expressão cotidiana traduz, de forma simples, o que a ciência explica em linguagem técnica. Quando o vínculo está presente, a confiança coletiva ativa os circuitos cerebrais de cooperação e empatia, gerando mais foco, energia e prazer na execução. O jogador não corre por obrigação, mas por conexão e essa diferença muda completamente a intensidade e a estabilidade da performance.

Mihaly Csikszentmihalyi (1990) mostrou que o Flow surge quando o desafio se equilibra com a habilidade, criando um estado de engajamento profundo. Mas, para que esse equilíbrio exista, o atleta precisa estar emocionalmente seguro. A confiança que nasce do vínculo é o gatilho que permite ao corpo e à mente entrarem nesse estado de fluidez. A dopamina associada à sensação de domínio e à recompensa intrínseca (Deci & Ryan, 2000) aumenta, a atenção se afina e o tempo parece desacelerar. Tudo isso só acontece quando há uma base relacional que dá suporte ao risco, à entrega e à espontaneidade — três pilares do Flow.

Em outras palavras: o vínculo é o alicerce invisível da concentração e da leveza. Ele não é sentimentalismo, é estrutura neuropsicológica que transforma um grupo em equipe e um bom jogador em alguém capaz de atingir o seu limite real. Essa reflexão é muito importante também quando pensamos sob a ótica do scouting. Ao analisar um jogador, não basta enxergar o que ele faz, mas em que tipo de ambiente ele faz. Entender o que de fato pode ajudar ou dificultar o potencial de virar performance. Ambientes com vínculos fortes favorecem a expressão plena da habilidade; ambientes frágeis ou punitivos tendem a inibir a tomada de risco e a criatividade.

Por isso, ao pensar em contratação ou desenvolvimento, é fundamental perguntar:

“Esse jogador vai encontrar aqui as mesmas condições de vínculo e ambiente que sustentam o seu melhor desempenho? O ambiente que ofereço permite que ele tenha tempo, segurança e vínculos estáveis para atingir esse potencial a médio e longo prazo? Ou, no meu contexto, faz mais sentido trazer atletas já prontos, que dependam menos de fatores relacionais e mais da própria autorregulação emocional?”

São perguntas fundamentais para entender se o potencial que observamos é mais direto ou mais dependente de contexto para acontecer — e, principalmente, se o nosso ambiente está preparado para receber e desenvolver pessoas com diferentes níveis de maturidade emocional.

O Flow é o auge do desempenho, mas o vínculo é o seu ponto de partida. Quanto mais genuína for a relação entre as pessoas e o ambiente, mais natural será a fluidez do jogo e de todos que o envolvem. Seja nas decisões, nas ações ou no prazer de jogar, o vínculo é o que transforma o esforço em entrega, o talento em confiança e o futebol em algo verdadeiramente humano.

Foto: Albert Gea/Reuters

Referências:
Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The Psychology of Optimal Experience. Harper & Row.
Edmondson, A. (1999). Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, 44(2).
Deci, E. & Ryan, R. (2000). Self-Determination Theory and the Facilitation of Intrinsic Motivation. American Psychologist, 55(1).

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Caso prático: os componentes psicológicos que ajudam a entender a histórica virada do Palmeiras

Por: Nicolau Trevisani

Antes da histeorica semifinal da Libertadores e da “noite mágica” vivida pelo Palmeiras no jogo contra a LDU a comissão técnica do Palmeiras fez algo que ultrapassa a motivação tradicional (muitas vezes até mitológica) muito comum em momentos decisivos no alto rendimento. Nos quartos dos atletas, espalharam placares de grandes viradas e goleadas da história recente do clube — lembranças concretas de que o impossível já havia sido superado antes.

O gesto é simples, mas profundamente intencional: um resgate de evidências positivas. Ao rememorar momentos de superação, a comissão não apenas reforçou a confiança do grupo — reativou a memória emocional da competência. Em termos psicológicos, essa estratégia desperta o sentimento de autoeficácia (Bandura, 1977): a crença de que se é capaz de agir com sucesso diante de um desafio.

Quando o atleta revisita vitórias passadas, ele não se conecta apenas ao resultado, mas ao estado interno que o levou a performar bem: o foco, a energia, a leveza e a sensação de domínio. Essas lembranças funcionam como gatilhos emocionais e neuroquímicos que reduzem o medo e reacendem a motivação intrínseca. É uma forma de dizer ao cérebro: “Você já esteve aqui. E foi capaz.”

No plano coletivo, esse tipo de mobilização cria as condições ideais para o que Alcides Scaglia define como estado de jogo — um estado em que o atleta e a equipe estão plenamente conectados à ação, em sintonia com o contexto, o ambiente e os companheiros. O estado de jogo, segundo o autor, é o momento em que “a lógica do jogo ocupa o centro da atenção”, permitindo que o atleta perceba, decida e aja de maneira fluida, com mínima interferência de fatores externos.

Esse conceito dialoga diretamente com o estado de flow descrito por Mihaly Csikszentmihalyi (1990), em que desafio e habilidade se equilibram, gerando um nível profundo de imersão e prazer na execução. A diferença é que, no futebol, o flow se manifesta dentro de um contexto coletivo, em que emoção, ambiente e intenção tática se misturam numa única experiência.

Foi isso que Abel Ferreira e sua comissão técnica conseguiram despertar:
um estado de jogo coletivo, onde a crença compartilhada reorganiza a emoção e devolve leveza à execução. Não se trata de inflamar o grupo pelo grito, mas de reativar a confiança pela lembrança. De transformar o passado em gatilho emocional para o presente.

A neurociência do esporte explica que esse tipo de lembrança positiva reduz a ativação da amígdala (ligada ao medo) e aumenta a liberação de dopamina, o que favorece a atenção, a coragem e a tomada de decisão criativa. O corpo deixa o modo de defesa e entra no modo de criação — condição essencial para jogar bem sob pressão.

Raphael Veiga resumiu após o jogo:

“A gente precisava de duas coisas: acreditar e jogar futebol.”

Acreditar é o primeiro passo para jogar. Mas jogar com presença, confiança e coerência é o que transforma crença em performance.

Esse caso prático mostra que, no futebol de alto rendimento, a emoção não é oposta à racionalidade — é a base da performance. Mobilizar o grupo emocionalmente não é “motivar” — é reorganizar o estado mental para que o jogo volte a fluir. E talvez essa seja uma das maiores virtudes de uma boa comissão técnica: criar, antes da bola rolar, as condições psicológicas para que o jogo — e o jogador — possam acontecer por inteiro.

Referências Bibliográficas:

  • Bandura, A. (1977). Self-Efficacy: Toward a Unifying Theory of Behavioral Change.
  • Scaglia, A. J. (2003). Jogo e Treinamento: Perspectivas da Pedagogia do Jogo.
  • Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The Psychology of Optimal Experience.
  • Deci, E. & Ryan, R. (2000). Self-Determination Theory.
  • Edmondson, A. (1999). Psychological Safety and Learning Behavior in Teams.

Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

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O jogo da vida

Por: João Batista Freire

Crianças precisam brincar muito. Precisam brincar muito porque brincar, para elas, é como respirar, alimentar-se e serem acolhidas. Brincar (ou jogar) é vital para as crianças e para a sociedade (que nem sabe disso). Observar crianças torna isso tão evidente que me custa crer que a sociedade adulta não perceba tal evidência. Deixadas livres, quando não estão dormindo ou doentes, as crianças brincam. Brincam ao se alimentar, brincam ao tomar banho, brincam com todas as coisas ao seu redor, brincam com as mãos, com os pés, com os sons, com os olhares, com os cheiros, com os toques, com a imaginação, com tudo. Brincar, ou jogar, é decisivo na espécie humana. Pode salvá-la ou condená-la, porque os jogos não são para o bem ou para o mal, mas para aquilo que fizerem deles os jogadores. Brincar (ou jogar) para a criança é uma compulsão, assim como o é para gatinhos e cachorrinhos (todos os chamados animais superiores brincam). A intensidade da brincadeira na infância alimenta a motricidade e a imaginação da criança.

Nem todos os jogos são de imaginação, porque as crianças mais novas, com menos de 18 meses aproximadamente, também jogam e ainda não são capazes de imaginar com desembaraço; seus jogos são sensoriais e motores. Porém, a partir do momento em que adquirem maturidade para se servir da imaginação, esta passa a acompanhar os jogos e até a orientá-los. A partir dessa idade a imaginação orienta os jogos e se alimenta deles. O jogo faz a criança imaginar mais que qualquer outra atividade. Tanto é assim que o jogo mais típico da criança é o jogo de faz-de-conta. Com poucos anos de vida a criança será capaz, inclusive, de jogar apenas com a imaginação, sem necessidade de realizar qualquer ação motora. Porém, o mais comum é que os jogos da criança sejam uma bela sincronia entre imaginação e gestos.

As crianças, e todos nós, jogamos movidos por uma espécie de pulsão, uma necessidade vital. O jogo, no ser humano, não é um capricho, uma escolha, mas uma necessidade tão decisiva quanto a alimentação, o abrigo ou o sexo. Restringir a imaginação na criança é restringir suas oportunidades de imaginar, e a imaginação humana é tão decisiva para a espécie que restringir a imaginação no período da infância é diminuir as chances de sobrevivência da espécie humana. Há muito sabemos que os chamados animais superiores também brincam; durante a infância brincam (ou jogam) intensamente. Se observarmos suas brincadeiras, constataremos que seus gestos lembram aqueles usados pelos animais adultos em seus empenhos para manter a vida, ou seja, são jogos de agarrar, morder, perseguir, escapar, saltar, rolar etc. Brincam daquilo que lhes será decisivo para a sobrevivência. Considerando que a natureza não pode ter receitas diferentes para o que é mais fundamental para a manutenção da vida, concluímos que também o ser humano jogará (ou brincará) com aquilo que será decisivo para sua sobrevivência enquanto espécie. Observemos as crianças e veremos que elas brincam, acima de tudo, de realizar gestos e imaginar. Porém, principalmente, de imaginar. O jogo de imaginação é o grande jogo humano, em crianças e em adultos. E por um motivo bastante simples: o que nos torna humanos e nos dá a grande chance de nos mantermos como espécie humana é a imaginação. Trata-se do grande diferencial humano comparativamente às outras espécies. Cada espécie viva tem seu diferencial, que torna sua vida possível no planeta. No caso da espécie humana esse diferencial é a imaginação. Sem imaginação bem desenvolvida não há chances de sobrevivência para a espécie humana. Jogando somos livres para imaginar, mais que em qualquer outra situação. Quando jogamos não há tarefas cobradas de fora do jogo, não há pressões externas, por isso podemos imaginar livremente.  

Todas os animais precisam alimentar os instrumentos que tornam sua vida possível. No caso dos humanos, se é a imaginação que, acima de tudo, torna sua vida possível, é ela que mais precisa ser alimentada. Há várias maneiras de alimentar a imaginação, entre elas uma muito especial: jogar. Entre outros motivos, jogamos para alimentar a imaginação. Considerem que somos a espécie que tem a duração mais prolongada de juventude. Considerem que a juventude (infância e adolescência) é nosso período de vida mais flexível, mais propenso às aprendizagens. Considerem que a juventude é o período de vida em que mais nos dedicamos ao jogo. Ou seja, a espécie viva que tem, como instrumento fundamental de sobrevivência, a imaginação, tem um enorme período de vida para se dedicar a enriquecê-la (embora continuemos a alimentar, com menos intensidade, a imaginação durante a idade adulta e a velhice). Se a cultura humana favorecerá isso, ou não, é outro assunto, mas essa cultura, especialmente no que se refere à educação, deveria investir, acima de tudo, na imaginação. E de que maneira? Servindo-se do jogo como instrumento alimentador dessa imaginação. Submeter crianças a processos de adultização, tais como passou a ocorrer com enorme frequência em diversos campos da atividade humana, além de ser cruel e transgressor de seu direito de serem crianças, consiste em enorme risco para a existência humana a longo prazo.

Há vários elementos que podem nos mobilizar para o jogo. Em um jogo de pega-pega, por exemplo, o desafio de escapar ao pegador em um espaço delimitado, ou de ser capaz de pegar os fugitivos, testando nossa capacidade de correr, desviar, acelerar, parar etc., é altamente estimulante. Num jogo de construir miniaturas de casas o estímulo maior é ser capaz de criar figuras e torná-las, na imaginação, reais com as peças disponíveis. Num jogo de pular corda o obstáculo maior à nossa inteligência é suplantar, com nossa habilidade de saltar, os problemas de tempo e espaço colocados pela brincadeira. Quando se trata do jogo de futebol, o desafio maior é organizar as ações corporais para finalizar, com sucesso, ao gol adversário. Quaisquer que sejam os desafios colocados pelo jogo, a partir dos dois anos de idade, mais ou menos, desde o faz-de-conta de uma criança de quatro ou cinco anos, aos complexos jogos desportivos dos adultos, o êxito dos jogadores dependerá de suas habilidades motoras e de sua capacidade de imaginar as soluções e os caminhos para o sucesso. E por qual motivo a imaginação seria tão importante? Porque é a ela que o jogador mais recorre, uma vez que o espaço para que a imaginação se apresente e oriente as ações é mais amplo e livre no jogo que em outras circunstâncias. Na situação de jogo, ela só é jogo porque não há algo com o caminho completamente traçado; haverá sempre um espaço vazio, inusitado, imprevisível, que só pode ser preenchido pela imaginação, a única capaz de criar algo inusitado. Quando se trata de um trabalho, ele pode ser realizado por uma rotina já conhecida, embora muitos trabalhos exijam, também, a criatividade. No entanto, o espaço de criatividade do jogo é muito maior, porque ele permite ao jogador um espaço de risco enorme, ou porque, ocorrendo o erro, as consequências não são graves (sempre se pode começar de novo), ou porque o próprio risco é o grande motivador (temos vários exemplos, entre eles os esportes de aventura de alto risco, ou os esportes de desafio extremo como o automobilismo). Quando as crianças ficam sozinhas, ou em grupo, e livres, rapidamente inventam brincadeiras. E essas brincadeiras são desafios de, em parte, repetir o que já sabem fazer, em parte de criar algo, de suplantar um novo obstáculo, de arriscar uma ação inusitada. Lembram quando o Professor Manuel Sérgio dizia que o ser humano é um animal de transcendência? Pois ele queria dizer que nascemos incompletos, e isso não é um defeito de nossa natureza, mas uma boa qualidade. Sendo incompletos temos sempre que criar algo para preencher aquilo que falta. Uma vez preenchida a falta, novas faltas surgirão. Quando jogam, as crianças refletem, sem ter consciência disso, nossa natureza incompleta e nossa necessidade de sempre transcender o estado atual. Ao jogar e se colocar o desafio de criar algo a mais, as crianças seguem a orientação primordial de transcender aquilo que somos no estado atual. Do nascimento à morte nossa tarefa será preencher nossas faltas, tal como no mito grego, em que Prometeu, amarrado a um penhasco e, tendo seu fígado comido todos os dias por um abutre, precisava regenerá-lo em seguida. A Prometeu sempre lhe faltou o fígado, aos seres humanos sempre lhes faltará algo. Sem a imaginação ele não poderia preencher suas faltas. Discutir a incompletude natural do ser humano requer, no entanto, um ensaio à parte.

Os desafios colocados pelo jogo são, na verdade, os desafios colocados à imaginação humana. São os jogos aqueles que mais desafiam o ser humano a testar os limites de sua imaginação, a dimensão mais decisiva para que se mantenha como criatura viva no planeta. Na verdade, o grande teste dos humanos no planeta é o teste de verificar se sua imaginação dá conta de lidar com os grandes problemas de adaptação. Nossa imaginação, responsável pela produção de boa parte de nossa inteligência, já produziu, inclusive, a inteligência artificial. Porém, desafios como a escassez de água potável, a poluição dos oceanos e do ar, o desmatamento, a miséria e a fome, as guerras, a corrupção e os preconceitos, entre outros, nunca foram solucionados por nossa inteligência natural, muito menos pela inteligência artificial. Os desafios de bom uso da inteligência foram colocados a todas as criaturas vivas, da ameba ao ser humano. A má notícia é que a maioria das criaturas vivas que passou pelo planeta Terra falhou no uso da inteligência; não resolveu os problemas de adaptação e foi extinta. A boa notícia é que algumas delas vivem há centenas de milhões de anos.

Todas as criaturas vivas são casos típicos e únicos da natureza, apesar de suas bases comuns. Quis a natureza humana que fôssemos uma criatura frágil do ponto de vista motor, porém, dotados de imaginação suficiente para compensar tal fragilidade. Associada à imaginação nossas ações tornam-se poderosas. A imaginação foi capaz de criar a cooperação, a solidariedade, as máquinas de locomoção, as máquinas de força, os computadores, os aparelhos de comunicação e a medicina, entre outras invenções. Descobrimos, pensando, que somos frágeis individualmente, mas somos fortes socialmente. Alguns dos maiores problemas não solucionamos ainda, embora percamos boa parte de nossos esforços com guerras e outras formas de estupidez. Ainda deixamos que alguns manipulem a imaginação de bilhões e fartem-se nos lucros fazendo isso. No entanto, talvez não haja outro caminho para a educação que não seja investir para que desenvolvamos sempre mais nossa imaginação. Ainda não paramos para refletir sobre o enorme risco que corremos quando suprimimos oportunidades de desenvolver a imaginação, principalmente entre as crianças. E seria tão simples fazer isso. Bastaria que elas pudessem brincar mais tempo e com mais liberdade. Que as escolas fossem adaptadas às crianças. Que tivéssemos uma matemática criança, uma biologia criança, um português criança e assim por diante… e um esporte criança.

Quando vai ao esporte, além de aprender a praticar o esporte, a ideia da criança é a de que vai se divertir, vai jogar, vai brincar. Durante as aulas, em boa parte das vezes ela é surpreendida por rotinas de exercícios que nem de longe lembram um jogo. Recordo de uma criança, depois de fazer sua primeira aula de natação, quando o pai lhe perguntou se ela tinha gostado da aula. Ela respondeu que não queria mais ir à escola de natação. O pai quis saber o motivo, e ela disse que a professora não a deixou nadar, ficou o tempo todo batendo pernas na beirada da piscina. A criança quer brincar de jogar bola, mas tem que treinar futebol adulto em miniatura. E esse procedimento no futebol faz parte de um conjunto de aberrações praticadas na educação, quer seja no campo das artes, dos esportes ou das ciências. Essas aberrações suprimem o direito da criança ao lúdico, ao jogo, ao brinquedo, além de não ensinar o que anuncia. Deixada livre, brincando de jogar bola com os amigos, ela aprenderia mais.

O problema é maior que o futebol, maior que o esporte. Trata-se de um problema geral de educação dos seres humanos que, por não compreenderem a importância da infância, comprometem toda uma sociedade. O destino dos seres humanos está profundamente vinculado ao desenvolvimento de sua imaginação, e a imaginação nunca poderá se desenvolver tanto quanto na infância e adolescência, especialmente na primeira. É a imaginação que permite que um jogador de futebol se torne um virtuose da bola, um artista. Suprimir na criança que aprende futebol suas oportunidades de desenvolver a imaginação é torná-la um jogador comum, insosso, sem criatividade. Está ao alcance de, praticamente, todas as crianças, desenvolver boas habilidades com a bola. Ao alcance da arte de jogar futebol estão somente aquelas crianças e adolescentes que puderem brincar com a bola, aqueles que puderem sincronizar sua boa imaginação com sua boa motricidade.

Dirigentes, pais, professoras e professores de futebol, técnicos e técnicas de futebol, empresários, agentes, dão um tiro no pé quando insistem em especializar precocemente as crianças e adolescentes no futebol, obrigando-os a se submeterem a rotinas de treinamentos técnicos específicos. Se passarem por eles mil meninas e meninos, raros escaparão à sangria da criatividade. Obrigados a abrir mão da imaginação oriunda do lúdico, somente por golpe de sorte ou talento extremo (muitíssimo raro) um ou outra seguirá adiante com alguma chance de vir a ser um profissional destacado. Porém, se fossem respeitadas as características das crianças e adolescentes e todos pudessem desenvolver as habilidades para o futebol em um ambiente lúdico, saudável, sem pressões por resultados, sem dúvida o número daqueles que seguiriam adiante com chances de se tornarem adultos praticantes de um ótimo futebol seria muito maior. Porém, antes disso, o mais importante é assegurar a essas crianças e jovens o direito de praticar o esporte como uma maneira de viver com dignidade, com respeito, com felicidade. O momento de estar no esporte deve ser um momento de vida privilegiado, de vida feliz, prazerosa, e não um momento de sofrimento, de renúncia à vida típica da infância e da adolescência.

Com relação aos professores e professoras, a responsabilidade por educar crianças e adolescentes é enorme. Tal responsabilidade não condiz com pessoas que não se interessam por estudar, por se preparar intensamente para dar conta da tarefa de educar. Não basta incorporar alguns procedimentos técnicos, meia dúzia de rotinas de exercícios mecânicos e descontextualizados que serão impostos às crianças e jovens. Boas professoras e bons professores do esporte se interessam por conhecer metodologias, por estudar as pedagogias disponíveis dentro e fora do esporte, por saber os fundamentos da psicologia da criança, por se aprofundar nas teorias do desenvolvimento e da aprendizagem, por saber como se organizam as sociedades, desde as pequenas sociedades lúdicas das crianças às sociedades adultas.

Impedir o lúdico, a imaginação e a criatividade nas crianças é, como se diz no vocabulário futebolístico, jogar contra o patrimônio. Nesse caso, o patrimônio da humanidade.

Crianças brincando. Foto: Aline Oliveira/reprodução

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As confirmações e reflexões da copa do mundo sub 20

Por: Nicolau Trevisani

Entre os meses de setembro e outubro, estive viajando pela América do Sul. Além de uma ida à Colômbia — muito importante para entender o contexto do futebol e a cultura do país —, tive a oportunidade de estar no Chile para acompanhar a Copa do Mundo Sub-20.

Durante o Mundial, pude assistir in loco a diversos jogos, de diferentes seleções e contextos. Também estavam presentes inúmeros profissionais de clubes, funções e países distintos, todos com objetivos próprios, mas com o mesmo interesse em observar de perto uma competição que reúne diferentes formas de jogar e de pensar o jogo.

Entre tantos aprendizados, um ponto no qual eu já acreditava se confirmou de forma ainda mais clara: futebol é contexto. E entender isso profundamente é o que permite acertar muito mais do que errar — seja qual for a função de quem trabalha no esporte.

Começando pelas equipes: coletivamente, foi possível observar várias escolas e propostas de jogo se enfrentando — times com mais posse, menos posse, jogo direto, apoiado, reativo, posicional. Qual é a melhor? Na verdade, todas podem ser boas ou ruins. Mais importante do que o gosto pessoal é entender o contexto coletivo de cada equipe e a ideia de jogo de cada treinador. Só depois, com esse “óculos”, é possível avaliar se a equipe joga bem ou não — o que, no fim das contas, significa apenas ser eficiente na execução da própria ideia.

E quando olhamos para os profissionais e os jogadores que estavam lá? O que são, afinal, “bons jogadores”? Essa resposta está intimamente ligada ao contexto em que se observa. É impossível dizer se um jogador é bom ou não sem antes responder: para onde e para quem?

Um atleta de uma seleção X, com determinada característica, pode “não ser bom” para um clube que busca outra demanda — mas pode se encaixar perfeitamente em uma equipe Y, em outro cenário. Arrisco dizer que todos os jogadores que disputaram o torneio têm qualidades suficientes para performar bem em algum bom contexto coletivo. O desafio é encontrar onde esse potencial pode se expressar melhor. É papel do clube colocar o jogador no ambiente certo, onde suas condições técnicas, táticas, cognitivas e humanas se alinhem ao modelo de jogo e ao propósito coletivo.

Por isso, a ida à Colômbia também foi tão relevante: além dos jogos, a possibilidade de entender a cultura e o contexto dos atletas locais é uma informação de altíssimo valor. Observar é também compreender o ambiente que forma o jogador — e isso inclui elementos culturais, sociais e humanos.

Outro ponto essencial, quando falamos de contexto, é a cultura em que o atleta vive e a capacidade de adaptação ao novo ambiente. Um jovem jogador da Coreia do Sul, que sempre viveu e jogou em seu país, tem hábitos completamente diferentes de um atleta da Nigéria que cresceu e atuou no futebol africano. Essas diferenças impactam diretamente na forma de treinar, competir e se relacionar. O processo de adaptação humana e cultural pode ser tão ou até mais importante do que qualquer característica técnica — e ignorá-lo pode comprometer o desempenho de um jogador em campo.

Por isso, compreender o contexto em todas as dimensões — tática, cultural, emocional e humana — é o que realmente diferencia quem apenas observa de quem entende o jogo e as pessoas que o compõem.

Para encerrar, gostaria de lembrar de   uma frase que ouvi algum tempo atrás do amigo Renato Rodrigues, hoje comentarista da TNT a quem tenho bastante respeito e admiração:

“Não existe jogador ruim, existe jogador no lugar e no contexto errado.”

Essa frase sempre fez muito sentido pra mim. E, ao observar a diversidade de profissionais e atletas presentes no Mundial, ela se mostrou novamente atual e verdadeira.

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SUPERVISÃO DE FUTEBOL: UMA PERSPECTIVA SISTÊMICA DE FORMAÇÃO HUMANA

Por: Caio Rizek

Com grande alegria e senso de responsabilidade, inicio aqui minha contribuição com a Universidade do Futebol — espaço que há anos me inspira e agora me acolhe como autor convidado.

Este é o primeiro de uma série de artigos que pretendo desenvolver com profundidade e propósito. Meu objetivo é olhar para a supervisão no futebol de base sob uma perspectiva mais ampla, que vá além da logística e da operação do jogo. Mais do que relatar rotinas operacionais ou desafios logísticos — que, claro, fazem parte da função —, o que me move é o desejo de tratar a supervisão sob uma ótica educacional, relacional e formativa, centrada na formação integral de crianças e jovens atletas. Quero propor reflexões sobre o papel do supervisor como educador, articulador de vínculos e agente de formação integral.

Supervisionar, para mim, é muito mais do que coordenar escalas, organizar viagens ou representar o clube em jogos. É cuidar de vínculos, criar segurança emocional, garantir coerência institucional e contribuir, com escuta e sensibilidade, para a formação de jovens em desenvolvimento. É entender que, antes de serem atletas, são pessoas — com histórias, sonhos e vulnerabilidades.

Minha trajetória é multifacetada: transita entre o Direito, a Educação Física e a Gestão. Sou graduado nas duas primeiras áreas, advogado, professor, e atualmente curso o MBA Executivo em Liderança e Gestão pela USP/ESALQ. Tenho especializações em Direito Constitucional, Direito Administrativo e recentemente iniciei uma pós-graduação em Advocacia Desportiva. Busquei, ao longo dos anos, complementar essa base com cursos promovidos por instituições como a Universidade do Futebol, CBF Academy, FPF Academia, FGV, CONMEBOL e o Comitê Olímpico Brasileiro, nas áreas de gestão, análise de desempenho, coordenação metodológica, pedagogia e logística esportiva.

Destaco aqui, com carinho especial, o curso Princípios para Ensinar Bem o Futebol, da Universidade do Futebol, que foi para mim uma verdadeira virada de chave — abriu caminhos para uma compreensão mais profunda do futebol como ferramenta de formação humana e transformação social.

Atuo como Supervisor de Futebol de Base no São Paulo FC, com responsabilidades que envolvem organização de treinos, jogos e viagens nacionais e internacionais, registro e credenciamento de atletas, representação institucional, análise de regulamentos, controle de minutagem e comunicação com atletas e famílias. Mais do que tarefas técnicas, enxergo nessas funções uma oportunidade de educar, mediar e fortalecer a identidade do clube.

Minha experiência como professor de Educação Física e auxiliar técnico nas categorias sub-09 a sub-14 me ensinou a lidar com as infâncias e juventudes no campo, na quadra, no vestiário e fora deles. Acredito que a supervisão deve garantir que o ambiente formativo seja ético, seguro, empático e inspirador.

Neste contexto, enxergo que a função do supervisor transcende a logística, sendo também educador, mediador e referência institucional.

Meu compromisso com esta série de artigos é justamente esse: contribuir com o debate, provocar reflexões e compartilhar práticas que têm colaborado para um futebol de base mais humano, mais pedagógico e mais coerente com sua missão social.

Convido você, leitor, a caminhar junto comigo nessa construção coletiva. Que este seja um espaço de diálogo, aprendizado e transformação.

Muito obrigado pela confiança e pela escuta. Seguimos juntos.

Caio Rizek

Supervisor de Futebol | São Paulo FC

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Psicologia positiva no futebol: uma nova visão de desempenho

Por: Maurício Rech

A Psicologia Positiva é uma área relativamente recente dentro do campo da psicologia e da saúde mental, focada no estudo científico das forças e virtudes que contribuem para o desenvolvimento humano. Enquanto a psicologia tradicional tem como objetivo principal o tratamento de transtornos mentais e a redução do sofrimento humano, a Psicologia Positiva busca compreender o que torna a vida significativa e satisfatória. Ao invés de se limitar a resolver problemas, esse campo de estudo promove o desenvolvimento de potencialidades e a construção de uma vida equilibrada e produtiva.

É importante destacar que a Psicologia Positiva não é uma ideia romântica ou ingênua de acreditar que “está sempre tudo bem”, mas sim uma área científica comprometida em encontrar maneiras funcionais de lidar com situações emocionais difíceis. É um caminho que busca focar na solução e não no problema, de compreender e enfrentar desafios em vez de fugir deles ou culpar os outros, e de olhar para as emoções internas como um caminho para lidar melhor com os desafios externos. Apresenta-se como uma área de estudo que atenta para o ser humano com uma visão sistêmica e propõe-se a otimizar sua atuação dentro de seus diversos papeis sociais, tanto profissionais quanto pessoais. A Psicologia Positiva e a psicologia tradicional são complementares, uma não substitui o trabalho clínico da outra, mas aqui falaremos daquela que tem como foco a ampliação da compreensão sobre como potencializar e promover o bem-estar em indivíduos e grupos.

No contexto esportivo, em especial no futebol, os treinadores desempenham um papel central no desenvolvimento técnico e emocional de seus atletas. Incorporar princípios da Psicologia Positiva à formação dos treinadores pode ser um diferencial significativo para alcançar maiores níveis de saúde mental e, consequentemente, melhor desempenho. Isso envolve capacitá-los a identificar e potencializar pontos fortes dos jogadores, incentivar a mentalidade de crescimento e criar um ambiente propício ao engajamento e à colaboração. Em situações de vitórias, por exemplo, o treinador pode utilizar momentos específicos para reforçar emoções agradáveis e o senso de competência e resiliência do time, destacando o trabalho em equipe e os esforços individuais que contribuíram para o sucesso. Esse tipo de abordagem não ignora as dificuldades enfrentadas, mas utiliza área emocional para fortalecer a capacidade do grupo de lidar com futuros desafios. Por outro lado, em derrotas, a Psicologia Positiva oferece elementos e técnicas fundamentadas que ajudam os atletas a enfrentar a frustração de maneira funcional, transformando erros em oportunidades de aprendizado. Nesse processo, o foco deixa de ser atribuir culpa ou negar o ocorrido, e passa a ser compreender e superar o desafio. Capacitar treinadores também envolve o desenvolvimento de habilidades de comunicação empática e liderança positiva, fundamentais para criar relações de confiança e respeito com os atletas. Um treinador e corpo técnico que compreende e aplica esses conceitos pode inspirar não apenas um melhor desempenho em campo, mas também um crescimento pessoal em seus jogadores.

Os atletas, especialmente em esportes de alto rendimento como o futebol, enfrentam diversas formas de pressão constante, não apenas por resultados em campo, mas decorrentes de adaptações contínuas em viagens durante as competições e transferências de clubes, além de questões culturais e distanciamento da família. A aplicação da Psicologia Positiva no dia a dia pode transformar a forma como eles lidam com essas demandas. Práticas como o fortalecimento do otimismo, o cultivo de gratidão e a definição de metas claras e alcançáveis podem melhorar não apenas o desempenho esportivo, mas também o bem-estar geral dos jogadores. Elas não eliminam as dificuldades existentes, mas ajudam os atletas a desenvolverem uma perspectiva mais equilibrada e funcional sobre as adversidades. O treinamento mental baseado em princípios e elementos da Psicologia Positiva pode incluir programas de psicoeducação e de capacitação focados em identificar forças pessoais, criar planos de superação para desafios específicos e fortalecer o senso de propósito dos atletas. Técnicas como a atenção plena e meditação são cientificamente comprovadas como úteis para melhorar o foco, reduzir os efeitos do estresse e favorecer a neuroplasticidade.

Ao promover a autoconfiança e a coesão de grupo, a Psicologia Positiva apresenta-se como potente caminho para influenciar diretamente os resultados no campo. Trabalhar com uma equipe que treina em um ambiente positivo e encorajador tende a apresentar maior comprometimento, menos erros associados ao estresse e maior capacidade de recuperação após derrotas. Em longo prazo, essa mentalidade e forma de desenvolvimento psicossocial contribui para a formação de atletas mais completos, resilientes e motivados. Além de resultados esportivos, o impacto positivo se estende à vida fora dos gramados, respeitando a integridade do ser humano atleta.

Nesse sentido, investir na capacitação de treinadores e na implementação de princípios da Psicologia Positiva no cotidiano dos clubes de futebol é um passo estratégico para transformar a experiência esportiva em uma oportunidade de crescimento pessoal e coletivo. Ao longo dos anos trabalhei com centenas e centenas de atletas, de base e profissionais, assim como treinadores e comissões técnicas, e, seguramente, a falta de conhecimento e de atenção aos quesitos saúde mental e inteligência emocional desviaram muitos de uma trajetória de sucesso. Se antes não havia fundamento científico para entender causas e apresentar soluções para esta área, atualmente já temos muita informação e material embasado. Portanto, hoje, mais do que buscar vitórias em campo, é essencial criar condições para que atletas e equipes se fortaleçam e floresçam de forma integral!

Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com