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Futebol de rua e a importância da brincadeira

Por: João Batista Freire e Rafael Castellani

É praticamente impossível conhecermos uma criança que não goste de brincar. Para elas, tudo aquilo que é percebido como brincadeira, causa um efeito irresistível de experimentá-lo, de se deixar envolver. É tentador para toda, e qualquer criança, deixar qualquer coisa que esteja fazendo para se envolver com uma brincadeira. Essa tentação também é experimentada pelos adultos, no entanto, passam anos aprendendo a resistir a sedução da brincadeira. Fazem-no para se tornarem sérios e poder trabalhar, dar conta das obrigações, governar, obedecer. Tornam-se pessoas disciplinadas. Reservam, para a diversão, apenas momentos especiais. Mas brincar, cair na farra, é muito bom! De vez em quando esses adultos não resistem e quebram a disciplina, fogem às obrigações, distraem dos trabalhos… é como se, nesses momentos, entregassem o controle de suas ações ao jogo. É, esse tal de jogo, brincadeira, chamem do que quiser, é irresistível! começar pela raiz que justifica o mandato do Presidente da Confederação Brasileira de Futebol:

Houve um tempo, não muito longevo, que brincar de bola na rua era a principal diversão e passatempo das crianças. Brincava-se de golzinho, bobinho, altinha, rebatida e, quando a situação tomava ares de seriedade, até “jogo contra” a rua vizinha acontecia. Não que os videogames não tenham nada a ensinar às nossas crianças, mas nada se compara ao poder educativo de uma boa brincadeira de futebol na rua. E aprendia-se muito! É uma pena que as escolas de educação formal, e as “escolinhas de futebol”, não tenham se dado conta ainda do quanto a criança aprende brincando.

Parte do desinteresse que nossas crianças apresentam pela escola deve-se ao fato de não verem sentido e razão naquilo que ensinam. Mas, principalmente, pela forma com que cada conteúdo, relacionado à matemática, português, história, dentre outros componentes curriculares, é ensinado. É chato aprender. Sentados numa carteira por horas, sem poderem levantar-se, correr e rir, ouvindo e copiando “matéria” da lousa, é de se esperar que não gerem interesse nas crianças mesmo. Se fosse do jeito que as brincadeiras se mostram para elas, sem dúvida qualquer matéria escolar seria interessante, afinal, seriam coisas de crianças. E raramente uma criança é tratada como criança.

Até nas “escolinhas” de futebol crianças são tratadas, frequentemente, como miniaturas de atletas profissionais. Às vezes para satisfazer os interesses dos pais ou do mercado, às vezes por puro desconhecimento, é comum os professores das escolas de esporte reproduzirem os treinos realizados por atletas de alto nível ainda que, obviamente, respeitando critérios de complexidade e intensidade. O mesmo acontece em outros ambientes que fazem parte da vida da criança. É comum, na família, serem tratadas como protótipos de adultos projetados pelos pais, na escola, como projetos de adultos idealizados por este ou aquele grupo de adultos, na religião, idem.

E onde as crianças possuem mais liberdade para se expressarem como crianças? Na rua! Por isso, o futebol de rua é tão divertido, é tão atraente e gera tanta aprendizagem.

Acostumamo-nos à ideia de que, para aprender futebol atualmente, devemos nos recorrer às “escolinhas” de futebol ou às categorias de base dos clubes. Afinal, é nestes espaços que se encontram os “detentores” do saber (não à toa as escolas comandas por ex-atletas são muito procuradas). No entanto, pouco refletimos sobre a aprendizagem propiciada nestes ambientes. Via de regra, se reconhece que as crianças aprendem algo, sobre futebol, especificamente, fora da escola de educação formal ou escolas e clubes de futebol, mas pouco valor se dá à forma como aprendem nestes outros espaços. É como se educação sem mestre declarado não fosse exatamente uma educação, de forma que não poderia ser descrita. Ou seja, a ideia geral ainda é aquela, segundo a qual, quando aprendemos algo, é porque alguém preparado para ensinar nos ensinou.

A rua é entendida por nós como um espaço público de educação quando nos referimos a formação para a vida em cidadania, a vida coletiva, a vida política e social. Vale destacar, também, que a rua, conforme a entendemos, não se limita ao intervalo delimitado pelas calçadas e onde trafegam os carros e bicicletas, mas, também, as praças, praias, campinhos de várzea; é um ambiente no qual as crianças aprendem a jogar bola, independente da presença de um adulto ou professor, pois nela, eles brincam. E quando brincam, se divertem. Se interessam por aquela prática, pois ela lhe dá prazer. Brincar, para as crianças, é coisa séria!

A APRENDIZAGEM INEVITÁVEL E INCONTROLÁVEL DA RUA

Imaginemos um grupo de quatro crianças, dois meninos e duas meninas, entre quatro e cinco anos de idade brincando de “Copa do Mundo de futebol” na garagem da casa de uma delas. Vamos chamar esse espaço de rua, porque não é convencional, não há adultos ensinando crianças, tampouco há um currículo, livros didáticos, aprendizagem institucionalizada e outras características típicas da educação formal que se desenvolve no ambiente escolar.

Portanto, vale destacar novamente que a rua, tal como a abordamos neste texto, não se restringe a um espaço público, limitado por calçadas, onde circulam pessoas, automóveis, bicicletas… No espaço das crianças de nosso exemplo, há bolas, roupas, bonecos, caixas de papelão, chinelos (os gols) e outros objetos. Todas falam aqui e ali, a mais velha fala mais, pegam objetos, colocam em lugares combinados, tiram, colocam de novo, organizam os bonecos torcedores, os bonecos da imprensa, e começam a brincar de futebol enquanto uma delas passa a narrar o jogo durante o jogo. Difícil acompanhar e entender o que fazem; é tudo muito criativo e diversificado.

Aparentemente, imitam o que é feito pelos jogadores profissionais, mas não é igual. Tudo tem uma conotação mágica, os problemas são resolvidos rapidamente, as brigas, que ocorrem com frequência, dissipam-se, não restam mágoas, a brincadeira prossegue. Há algumas aprendizagens visíveis pela diminuição das dificuldades em realizar um gesto ou uma jogada, pelo entendimento das sugestões da criança mais velha, pelas imitações etc.

Mas isso não é tudo. Numa avaliação convencional, somente essas coisas visíveis poderiam ser solicitadas. Se deixarmos de lado hipóteses de avaliação, podemos aventar inúmeras outras aprendizagens não perceptíveis superficialmente, portanto, impossíveis de provas convencionais.

Em todo processo de formação de conhecimento, ou de aprendizagem, há uma maneira de formar o conhecimento ou de aprender. Na família, de modo geral, há imposições de comportamentos feitas pelos adultos em relação às crianças: “Não”, “Isso está errado”, “É melhor fazer assim”, “Você vai se machucar” etc. Na escola convencional, o processo é orientado por professores com autoridade para transmitir conhecimentos, seja pelo cargo que ocupam, seja pela formação acadêmica que possuem. Esses conhecimentos são previamente preparados, desde um currículo nacional até um plano de aula, e impostos aos alunos. Senão com a mesma severidade que ocorre em família, pelo menos com advertências igualmente rigorosas em relação às consequências da recusa ou do fracasso quanto à aprendizagem. Na rua, é outra coisa. Embora no grupo aqui considerado haja uma criança mais velha sugerindo, e até dando ordens, não há a mesma seriedade quanto a isso, nem da parte de quem sugere, nem dos mais novos. É um faz-de-conta, um tipo de jogo, onde tudo é de mentirinha. Portanto, a pressão do compromisso, típico da família, da escola e de qualquer tarefa obrigatória, não existe.

Até porque, no ambiente lúdico, o descompromisso com algo exterior aos jogadores é o fundamento. Na brincadeira dessas crianças, nada parece ser sério na visão dos adultos, nada parece ter utilidade. Portanto, é um jogo. Se não é útil, então, é jogo. Claro que estamos considerando o termo utilidade somente do ponto de vista da visão adulta utilitária. As consequências dessas brincadeiras para a formação de vida dessas crianças ainda estão longe de ser compreendidas por nossos pesquisadores.

Os riscos imaginários de tentar o novo e de criar em ambientes institucionais, como a família ou a escola, fazem as pessoas, boa parte das vezes, relutar, recuar, evitar enfrentar as novidades ou apresentar alguma criação. Mas no ambiente lúdico, até o medo é de mentirinha, e surge como desafio a ser enfrentado. No caso das crianças brincando de futebol, elas inventam um ambiente onde muitas situações podem ser criadas, dando margem ao enfrentamento de novidades e mesmo à provocação de novidades. São apenas quatro crianças, mas elas criam um ambiente que, além de lúdico, é fora das instituições reconhecidas pela sociedade como responsáveis pela educação das crianças, como a família e a escola. De certa maneira, trata-se de outro grupo social; um grupo que agora habita um espaço público, o que é bem diferente da família e da escola, embora com as restrições do insipiente desenvolvimento de crianças muito novas.

Mesmo considerando que o desenvolvimento moral e social dessas crianças é insuficiente, elas estão começando a habitar um mundo que não é mais o mundo privado. A literatura costuma descrever a entrada da criança no mundo público a partir do momento em que, segundo determinadas teorias, ela está madura, por volta dos seis a sete anos de idade. Mas isso não procede, porque não é algo que um dia começa, afinal, sempre esteve lá na criança, potencialmente.

Apenas que, enquanto amadurecem funções como a imaginação, a motricidade, as relações afetivas, a própria ampliação da motricidade e do pensamento, com a consequente ampliação do espaço de atuação, a criança entra em relação com outros que não os da vida privada. É o caso das crianças aqui descritas. Claro que estamos falando da sociedade de hoje; no mundo antigo, as relações, tanto em casa como fora dela, eram bastante distintas das atuais.

Também não nos referimos à vida privada e pública, familiar e social ou política dos adultos. Nosso interesse, neste momento, é exclusivamente em relação às crianças e sua passagem do espaço privado para o espaço público. Essa passagem para a vida pública, que no grupo das crianças aqui descritas, não distingue as meninas dos meninos, daí por diante ganha diferenças notáveis.

Especialmente quando nossa atenção volta-se, acima de tudo, para a educação da rua e, como decorrência, a Pedagogia da Rua, manda a tradição de nossa sociedade, que os meninos terão acesso menos limitado à rua que as meninas. E isso terá consequências dramáticas e, possivelmente, devastadoras. Entre elas uma sociedade definida e dirigida, por vezes, desastrosamente, pelos homens. Há um mundo a ser descoberto, porque negligenciado historicamente por nossas pesquisas. Um mundo habitado por crianças, em um espaço público que escapa à educação familiar e escolar, que ainda não foi compreendido. Possivelmente os grupos infantis constituem a sociedade mais precoce de nossas vidas. A formação para a vida pública deve começar nesses grupos, essas pequenas sociedades infantis, que ainda não compreendemos, porque não as estudamos.

A RUA NOS ENSINA MUITO MAIS DO QUE DRIBLAR, PASSAR E FAZER GOLS

A escola não é a Rua. Tampouco a rua é a escola. A rua é outro ambiente, com outra orientação, outro modo de fazer as coisas, e onde as relações se estabelecem de outra forma. Diferente. Nem melhor, nem pior. Aprender a controlar bem a bola em uma brincadeira de rua, não significa que fazer do mesmo jeito na escola levará ao mesmo resultado. Principalmente porque não será possível fazer do mesmo jeito. A Rua, isto é, o espaço de convivência de crianças (mas também de adolescentes e adultos em diversas situações), tem características irreprodutíveis.

Quando a prática da Rua vai para a aula na escola – por exemplo, uma brincadeira – ela é, ou deveria ser, pedagogizada. Significa que servirá a propósitos diferentes, porque a escola, ou qualquer outra instituição de ensino, tem compromissos com a sociedade fora dela mesma. Ela prepara conscientemente para uma vida em sociedade (mesmo que esse trabalho não seja bem-feito); a Rua não tem essa orientação. A brincadeira de Rua esgota-se nela mesma, é jogo apenas, isto é, aquele tipo de acontecimento que não tem qualquer compromisso além dele mesmo.

Isso não quer dizer que as aprendizagens da Rua não terão repercussões em diversas outras situações ao longo do tempo futuro, inclusive na escola. Porém, na Rua não há esse propósito, afinal, a Rua não é uma instituição cujos propósitos e ideologias estão declarados. Mais especificamente no caso do Futebol, quando o ensino é institucionalizado, tal como se busca fazer principalmente nas escolas de futebol e categorias de base dos clubes, é possível ocorrer uma orientação pedagógica totalmente desvinculada da cultura da Rua, assim como é possível também adotar uma orientação pedagógica que procura reproduzir a Rua ou tê-la como referência. Em parte, isso significa trazer para as aulas e treinos de futebol, seja nas escolas de esporte ou categorias de base dos clubes, o aspecto lúdico, sobretudo por seu caráter de diversão, de alegria e de prazer, e as questões afetivas que permeiam toda e qualquer prática social, neste caso, o futebol.

O prazer e a alegria de jogar futebol não estão presentes somente em crianças e jovens. Sim, está certo que é nesses períodos de vida que mais podemos brincar e nos divertir, mas não é porque crescemos e nos tornamos adultos que o futebol precisa se tornar algo maçante, chato, repetitivo e desprovido de alegria e divertimento. O que mais diverte crianças e jovens na prática do futebol: aguardar numa fila seu raro momento para dar um chute na bola ou brincar de rebatida? Driblar cones em direção ao outro lado do campo ou brincar de driblinho/golzinho na rua? E os adultos (e aqui vale considerar até mesmo os(as) atletas profissionais): quando correm em volta do campo para aquecer ou quando brincam de bobinho?

É comum vermos, independente da instituição/espaço na qual se ensina o futebol às crianças e adolescentes, cones dispostos simetricamente em filas para serem fintados ou driblados. Vale ressaltar que tal prática também é notada, com frequência, no âmbito do futebol profissional, com adultos. Diante destas circunstâncias, não há risco, não há mobilidade nos cones, não há ameaças, não há um tempo imprevisível para realizar a finta ou drible, não há tensão, não há diversão, não há jogo. O cone simplesmente fica ali, inerte, no lugar em que o colocaram, dócil, não mais que uma referência para repetições mecânicas de gestos previamente determinados.

Sua função é simular a presença de uma pessoa, algo que nem de longe consegue. Quando muito, resta, para quebrar a monotonia, uma ou outra fantasia que meninos e meninas produzam, intimamente, sem que ninguém saiba disso além deles mesmos.

Julgam os inventores da tal “pedagogia do cone”, que isso levará os praticantes ao conhecimento e desenvolvimento de determinadas ações técnicas relacionadas ao futebol, tal qual a finta, drible, condução, entre outras. Há método nisso, claro, mesmo que esse método não habite a consciência do inventor. Nada se faz sem método. Trata-se de um método de transmissão, pura e simples. Um professor ou treinador diz para um aluno ou atleta repetir o gesto de contornar os cones, porque, dessa maneira, o aluno/atleta repetidor aprenderá a conduzir a bola e driblar um adversário. O adversário, no caso, é o cone, e o repetidor terá que realizar um enorme esforço criativo (talvez consiga, talvez não) para imaginar que o cone é seu adversário. É esperado pelo inventor, ou mero reprodutor, da pedagogia do cone que, como resultado desses exercícios, os jogadores (repetidores), quando estiverem participando de um jogo contra um time adversário, possam aplicar o conhecimento de conduzir e fintar cones diante de pessoas de carne e osso.

Há algum sentido nisso? Com tal procedimento, os meninos e meninas aprenderão o difícil gesto de fintar e driblar adversários em jogos de futebol? Sim, é impossível que nada se aprenda agindo dessa maneira. Os pés dos meninos e meninas se ajustarão ao gesto, que ficará mais refinado. Há um objetivo nisso que orientará o modo de tocar a bola, de se ajustar a ela, de mantê-la sob controle enquanto a pessoa muda de direção etc. As repetições filtrarão o gesto, eliminarão resíduos e, ao final, algum conhecimento restará. Alguns dirão que o gesto técnico estará refinado! Ainda assim, de que forma se espera que crianças e jovens se envolvam em exercícios como esse? Com alegria e prazer? Ou com tédio e impaciência diante do “interminável” tempo de espera nas filas?

Porém, é bom que se esclareça: embora ocorra alguma aprendizagem a respeito da arte de fintar, driblar ou conduzir a bola, neste caso específico, essa arte se aplica, antes de tudo, aos cones, não às pessoas.

Considerando que cones são pouco semelhantes às pessoas, quando, no jogo, no lugar de cones houver adversários de carne e osso, a generalização desse conhecimento será, provavelmente, muito pequena, ou insignificante. Convenhamos que é bem diferente fintar um cone e fintar uma pessoa! Ou seja, de que adianta um(a) jogador(a) possuir uma técnica refinada para determinados gestos se este não poderá ser reproduzido no contexto do jogo?

Imaginemos agora outra situação: meninas e meninos aprendendo a fintar ou driblar pessoas. Uma professora propôs um jogo em que seus alunos serão incentivados a fintar ou driblar e conduzir uma bola durante uma prática muito divertida. Eles tentam fazer gols, mas há mais defensores que atacantes. E qualquer gol feito após uma finta vale o dobro.

Como difere esta situação da anterior, em que os praticantes (sejam eles crianças, adolescentes e até mesmo adultos que já praticam o futebol profissionalmente) tinham que conduzir a bola e fintar ou driblar cones, não é mesmo?! Os adversários não estão dispostos estaticamente em filas. O risco de perder a bola é permanente, os adversários não param de se movimentar, o tempo para agir é mínimo, a imprevisibilidade é a marca de todas as ações, a tensão é constante, mas, ainda assim cria diversão, há jogo, há alegria, há prazer. Os adversários são de carne e osso, não ficam inertes, dóceis e os gestos de quem vai fintar não podem ser previamente determinados.

Imaginemos, também, que, na mesma aula/treino, a criança viveu, não uma, mas dez ou quinze situações em que teve que enfrentar um adversário e decidiu fintá-lo. A cada vez, seus gestos, mesmo sendo semelhantes a gestos anteriores, não eram iguais. Não eram iguais, porque seus oponentes eram diferentes, a posição no espaço era diferente, as reações dos adversários eram sempre diferentes, e porque ela, a cada vez, mantinha uma relação estreita com o adversário, suas reações tornavam-se sempre diferentes.

Algumas vezes ela conseguia fintar, em outras não, e tudo isso se incorporava ao seu baú de repertórios, ao seu leque de oportunidades. Em uma única aula ela acumulou em seu repertório, talvez, centenas de novos movimentos, somente em relação à finta. Claro que todos esses movimentos guardam semelhanças, pois têm em comum o gesto mais geral da finta (ou drible), mas que, na vida de ações práticas, não existe; é apenas um esquema geral que une todas as ações de fintar, pois nunca um gesto para fintar será igual a qualquer gesto anterior.

Seguramente, a criança que fintava pessoas repetiu muito mais vezes o gesto de fintar, durante uma aula, que a criança que fintava cones, mas em ambas as situações, as repetições eram de caráter completamente diferentes.

Sob nosso entendimento, é muito mais significativo o enriquecimento das coordenações que formam a habilidade de fintar (ou driblar e conduzir a bola, por exemplo) quando se trata de fintar pessoas. Sem contar que consideramos apenas o plano das coordenações motoras.

Sequer discutimos (e isso deverá ser feito em outro momento), por exemplo, o plano afetivo, afinal, não é preciso ter coragem para fintar um cone, mas é preciso ter coragem para fintar uma pessoa. Um cone não dá medo, uma pessoa pode dar, e assim por diante. Tentemos traduzir em um exemplo aquilo que vimos buscando explicitar. Imagine uma menina, criança, de apenas nove anos de idade, chamada Cinara. Cinara tinha frequentado durante seis meses uma escola de futebol. Nessa escola de futebol, seus maiores oponentes eram cones. E ela aprendeu a fintar cones. Tornou-se exímia dribladora de cones. Mas Cinara pediu para deixar a escola de futebol depois do primeiro jogo contra a equipe de outra escola de futebol, pois ela não conseguiu driblar ninguém e nem marcou gols. Deu “tudo errado” e saiu do jogo chateada. Sua mãe ouviu falar de uma escola de futebol que as crianças adoravam e matriculou Cinara nessa outra escola. Ela começou a aprender a jogar futebol de outro jeito, não havia cones, parecia mais difícil, mas a professora inventava um monte de brincadeiras de driblar e as crianças se divertiam muito. Erravam bastante e, num primeiro momento, Cinara errava muito mais do que quando driblava cones, mas também acertava bastante. Quando foram fazer o primeiro jogo contra outra equipe, Cinara conseguiu driblar várias vezes e saiu muito feliz do jogo. Até hoje ela está nessa escola de esporte.

Quando a Cinara, ou qualquer outra criança, jovem ou adulto em fase de aprendizagem, conduz a bola durante o jogo e pára na frente do adversário, ela pode ter várias opções, mas tem um tempo mínimo para se colocar diante de tais opções e escolher a melhor. Isso não quer dizer que, conscientemente, colocará à sua frente todas as opções de gestos que acumulou. Trata-se de um processo quase que inteiramente inconsciente. Vamos supor que ela tenha escolhido como melhor opção fintar seu oponente.

Novamente, vale ressaltar, o adversário não é um cone, é uma pessoa e tem um tamanho diferente de todos os outros adversários. Seu oponente se mexe, ele não fica parado como um cone, e isso dificulta tudo. Cinara experimenta se mover para o lado direito, o adversário faz o mesmo e a cerca, ela volta, para, movimenta-se para frente e volta, imediatamente sai pela esquerda, pára, retrocede, avança pela esquerda de novo e consegue enganar seu(- sua) rival. Ao contrário do que ocorria quando tinha que driblar um cone, ela fez, não um, mas dezenas de gestos diferentes.

Teve êxito, mas poderia não ter tido. Mas se fracassasse, o enriquecimento de seu repertório para fintar, ainda assim, seria enorme. Cada gesto feito ficou guardado, como em um banco de dados. Nas próximas vezes em que ela tiver que enfrentar a situação de fintar, poderá recorrer a um repertório maior que nas vezes anteriores.

Vale ressaltar, entretanto, que o foco deste texto não é discutir se nos aquecemos melhor correndo em volta do campo ou jogando bobinho. Ou se aprendemos a driblar melhor passando por um cone ou jogando golzinho na rua, mas sim trazer para o debate a ideia de que tudo isso pode ser feito com alegria, diversão, prazer, ou seja, fazendo da prática do futebol uma experiência positiva, prazerosa e, consequentemente, duradoura. Como já antecipamos, o outro aspecto que gostaríamos de destacar, também ligado ao plano afetivo, refere-se aos desafios, medos, situações de sucesso e fracasso, que costumeiramente a rua nos ensina.

Certamente, realizar um drible em um adversário é muito mais instigante do que em um cone ou em um adversário invisível.

Executar uma finalização ou desarme com a cabeça a partir de uma bola cruzada da lateral e com a presença de um adversário é muito mais desafiador do que lançar a bola com as mãos para o próprio cabeceio. Marcar ou enfrentar a marcação de um jogador mais rápido, mais alto ou mais forte que você, lhe ensinará muito mais a lidar com o medo do que ser marcado por um cone. Ou seja, é certamente no contato com o outro, em situação real ou simulada de jogo, que esses aprendizados se dão de modo mais intenso e permanente.

Isso não significa que, automaticamente, tal tipo de aprendizagem se transfere para outras situações de vida. A rua não tem esse compromisso. Num primeiro momento, aquilo que uma criança aprende jogando bola, superando medos, fracassando e sendo bem-sucedida, vivenciando o êxito ou a frustração, restringe-se ao plano imediato das ações práticas do jogo. A repercussão dessas aprendizagens na vida fora do jogo e ao longo da vida, mantém-se como mistério; muito do que sabemos, especialmente no plano afetivo, não sabemos de onde veio.

Porém, a rua não tem compromisso pedagógico. A aprendizagem da rua é uma aprendizagem ligada ao que se vive; na rua, aprende-se a viver, vivendo. Porém, quando compreendemos o que se passa na rua e transpomos esses ensinamentos para as escolas ou clubes, começamos uma outra história.

A escola sim, tem compromisso com ensinar tecnicamente, de imediato, e também com a formação para a vida. Aquilo que a rua faz tão bem, a escola tem que fazer, pelo menos, razoavelmente. E aquilo que a rua não faz, a escola tem que fazer. O que os conhecimentos de cada prática transcendem a própria prática e se estendem a outros campos do conhecimento (por exemplo, a superação de desafios, a definição de estratégias se transferindo ao conhecimento matemático) são, em boa parte, componentes de nosso inconsciente.

Podem chegar a outros campos do conhecimento, mas não saberemos como, nem quando. Porém, essa educação da rua transformada em pedagogia nas escolas pode alimentar uma metodologia que produza tomadas de consciência. Aí sim, os conhecimentos tornados, ao menos parcialmente, conscientes, podem ser orientados para potencializar conhecimentos em outras áreas.

Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com/

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Inteligência emocional: Um olhar sobre o futebol

Por: Maurício Rech

A população do Brasil lidera mundialmente em níveis de ansiedade, conforme apontam dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que se reflete diretamente no esporte. Atletas de futebol, expostos à pressão por resultados, às críticas da mídia e às expectativas de torcedores, enfrentam desafios emocionais intensos. Além disso, o uso excessivo de redes sociais e tecnologia tem sido identificado como um fator que contribui para o aumento da ansiedade entre os jovens brasileiros (45% dos casos de ansiedade entre jovens de 15 a 29 anos estão relacionados ao uso intenso dessas plataformas). De forma geral, a ansiedade elevada pode comprometer tanto o desempenho profissional quanto a saúde mental, causando déficit de concentração, tomada de decisões impulsivas e aumento do estresse competitivo. Nesse contexto, a inteligência emocional surge como um recurso valioso para ajudar atletas a lidar com essas demandas psicológicas e a encontrar equilíbrio mental nas suas rotinas.


A inteligência emocional é definida como a capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar as próprias emoções, bem como de lidar com as emoções dos outros de maneira eficaz. No contexto esportivo ela desempenha um papel fundamental, especialmente em esportes coletivos como o futebol, em que as relações interpessoais e a gestão emocional são cruciais para o desempenho individual e da equipe.

Historicamente, a inteligência emocional foi incorporada ao mundo dos esportes de alto rendimento como uma ferramenta para aprimorar a performance dos atletas, indo além do treinamento físico e técnico. Estudos científicos na área esportiva mostraram que atletas com maior capacidade de gerir suas emoções tendem a lidar melhor com a pressão de competições, recuperam-se mais rapidamente de fracassos e constroem relações mais saudáveis com colegas e treinadores. Equipes de elite no futebol têm investido em programas psicológicos voltados ao desenvolvimento da inteligência emocional, utilizando psicoeducação e capacitação em saúde mental para integrar estratégias emocionais aos treinamentos. Popularizada pelo psicólogo Daniel Goleman nos anos 90, a inteligência emocional está alicerçada em cinco fatores principais: autoconsciência, autocontrole, motivação, empatia e habilidades sociais. Este conjunto de fatores está presente no cotidiano dos atletas de futebol de maneira integrada, tanto em treinamentos quanto em competições, por isso a necessidade de desenvolvê-los de forma consciente e adequada. Treinadores também utilizam esses conceitos para liderar seus times de forma assertiva e emocionalmente equilibrada, contribuindo para uma dinâmica de grupo mais saudável. Vejamos:

  • A autoconsciência permite que os jogadores identifiquem suas emoções e compreendam como elas influenciam o desempenho em campo. Por exemplo, um atleta que reconhece sua ansiedade antes de uma partida pode usar técnicas de respiração para se acalmar.
  • O autocontrole é essencial para gerenciar reações impulsivas, como a frustração após um erro, ajudando o jogador a manter o foco no jogo.
  • A motivação intrínseca é um dos principais impulsionadores de resiliência e superação, permitindo que os atletas estabeleçam metas claras e persistam mesmo diante de adversidades.
  • A empatia possibilita que os atletas compreendam as necessidades e sentimentos dos colegas, promovendo uma comunicação mais eficaz dentro do time.
  • As habilidades sociais garantem que os jogadores trabalhem bem em equipe, resolvam conflitos e fortaleçam os laços interpessoais, criando um ambiente harmonioso e cooperativo.

Por outro lado, a ausência ou falta de inteligência emocional entre atletas e treinadores pode gerar diversas dificuldades. Treinadores com baixos níveis de inteligência emocional frequentemente apresentam dificuldades em lidar com o estresse e as pressões inerentes ao ambiente esportivo, o que pode resultar em reações impulsivas, comunicação ineficaz e conflitos dentro da equipe. Em alguns casos, isso leva à perda de autoridade e à desmotivação dos jogadores. Já atletas com pouca inteligência emocional podem ter dificuldades em controlar emoções desagradáveis, como frustração ou ansiedade, o que pode impactar diretamente o desempenho em campo. Além disso, a incapacidade de lidar com derrotas ou situações adversas pode gerar queda de confiança, atritos interpessoais e até mesmo a deterioração do ambiente de trabalho em equipe.

A inserção da inteligência emocional no dia a dia dos clubes e atletas mostra-se cada vez mais associada ao crescimento integral do esportista e o sucesso das equipes, promovendo um ambiente capaz de lidar de forma mais equilibrada e funcional com derrotas e vitórias. Além disso, atletas emocionalmente inteligentes não apenas performam melhor em campo, mas também constroem uma carreira mais equilibrada e sustentável. A inteligência emocional, portanto, é uma aliada indispensável para transformar o futebol em uma experiência enriquecedora e bem-sucedida.

Maurício Rech tem formação acadêmica com Mestrado em Psicologia e Saúde e graduação em Direito, além de extensões nas áreas de Filosofia, Psicologia e Neurociências. Atua como professor, pesquisador científico e palestrante na área de Saúde Mental e Desenvolvimento Humano, integrando a área de psicoeducação aos seus trabalhos anteriores no esporte como advogado, agente e Diretor Executivo de Futebol Profissional e Categorias de Base.

Foto: Marcelo Cortes/CRF

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Flow, atenção plena, coerência cardíaca e alto rendimento no futebol: A tríade do desempenho ótimo

Por: Ito Edson

Já foi referenciado, bastantes vezes, que o futebol está inserido em um sistema complexo e alcançar um desempenho de alto nível exige mais do que apenas habilidades técnicas e táticas. É necessária uma abordagem sistêmica para seu melhor entendimento, na qual vários fatores, em interação, podem melhorar o desempenho dos jogadores e das equipes.

O sucesso no campo depende, também, da capacidade mental e emocional dos jogadores, da forma como estão preparados para lidar com os vários momentos e problemas que aparecem ao longo da semana de vida e de trabalho, e durante os jogos. Cada situação com que o jogador se depara em campo, influencia a sua tomada de decisão. Podemos encontrar, como base na otimização do desempenho no futebol, a interseção entre três conceitos que consideramos sólidos e fundamentais na compreensão do mesmo, que são: o Flow Feeling, a atenção plena (mindfulness) e a coerência cardíaca.

O conceito de Flow Feeling, que se traduz na “imersão total no jogo (numa tarefa, em geral)”, foi introduzido pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, e descreve um estado mental em que o jogador está completamente imerso nas tarefas a desempenhar durante a partida (movimentos, técnicas, etc.). Durante o flow, o atleta experimenta um foco intenso, a sensação de controle sobre suas ações e a perda da noção do tempo. Pensemos em um grande gol marcado de livre direto, apenas como exemplo. Um atleta em flow em uma situação de gol em livre direto, descreveria a ação em câmara lenta, com o ruído do público ao seu redor a silenciar-se, dar-se-ia conta de cada mínimo detalhe que aconteceu durante a marcação do livre, como se todos os sentidos do mesmo estivessem apenas voltados para essa ação. Seria como se “o mundo parasse” e o tempo abrandasse, apenas para marcar aquele livre.

A maioria dos atletas que descrevem casos de flow, referem-se a essas mesmas sensações, que se traduzem em momentos de elevado desempenho natural e fluido, onde o jogador reage instintivamente ms situações do jogo, as distrações desaparecem e o desempenho atinge a sua plenitude. Ele está totalmente conectado com o momento presente, o que é crucial para fazer passes precisos, tomar decisões rápidas e reagir eficazmente aos movimentos dos adversários. Um outro conceito da tríade a que nos referimos, é o de atenção plena, ou mindfulness, fundamental para um foco continuado durante uma partida de futebol

O mindfulness, que tem raízes na filosofia budista, estudado e disseminado na cultura ocidental por Jon Kabat-Zinn, é uma técnica que envolve treinar a mente para permanecermos conscientes de onde estamos e do que estamos fazendo. Observando pensamentos e sensações sem julgamento nem reações excessivas, reativas ou oprimidas pelo que está acontecendo ao nosso redor, ajuda m manutenção da concentração, em cada momento do jogo. É a capacidade humana de estar totalmente “no presente”. Esse foco exclusivo no momento, no jogo, ajuda o joga- dor de futebol a evitar distrações e preocupações, por exemplo, com o resultado final, com ações dos outros que não controla ou com os erros técnico-táticos cometidos pelo mesmo.

Praticar mindfulness ajuda a reduzir o estresse, a ansiedade, e outras sensações que podem prejudicar o desempenho em campo. Além disso, melhora a capacidade de foco tornando mais fácil a transição para o estado de flow feeling, anteriormente descrito. Ao estar consciente e focalizado no momento presente, o jogador pode responder melhor ms situações dinâmicas que acontecem durante o jogo e manter a calma sob pressão, um dos lemas conhecidos, dos famosos NAVY SEALs: “stay calm in chaos / mantenha-se calmo no caos”. Finalmente, em interação com os conceitos anteriormente descritos, o de Coerência Cardíaca, desenvolvido pelo Instituto HeartMath e que influencia, também, o equilíbrio físico e emocional do jogador durante a partida, pro- movendo uma melhoria do seu foco. É uma técnica de respiração que regula o ritmo cardíaco e ajuda a sincronizar o corpo e a mente.

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Pode ser especialmente útil durante momentos de alta pressão ou esforços físicos intensos. Ao promover uma respiração regular e profunda, a coerência cardíaca reduz o estresse e melhora a atenção. Durante uma partida, a prática da coerência cardíaca pode ajudar o jogador a manter a calma em situações críticas, ou momentos decisivos, como em cobranças de pênalti, de escanteio, finalizações decisivas, alívios de bola, carrinhos, dribles, passes com elevado nível de dificuldade e perigo, provocações em campo e fora dele, entre outras. Isso permite uma melhor clareza mental e aumento do controle emocional, facilitando a execução do jogador e, consequentemente, o desempenho da equipe, mantendo elevada qualidade nas tomadas de decisão.

Estas três práticas dos conceitos que apelidamos, resumidamente, da tríade do desempenho ótimo, fazem parte de uma realidade sistêmica, na qual tudo influencia tudo, e servem, não apenas para aprimorar as habilidades técnicas e táticas, como referimos no início deste artigo mas, também, fortalecer a mentalidade e as emoções do jogador e, consequentemente, das equipes.

Antes, durante e depois dos treinos e jogos, o jogador pode utilizar técnicas para praticar estes métodos da tríade: Flow Feeling, Atenção Plena e Coerência Cardíaca, e assim obter benefícios que o ajudarão a identificar áreas de bom desempenho e outras para melhoria do mesmo, mantendo uma atitude construtiva, ao longo de todo o processo.

Foto capa: Twitter/Manchester City

Imagem 1: Jewel SAMAD/AFP

Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com/

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Incubadoras de atletas ou a transgressão dos direitos da criança e do adolescente

Por: João Batista Freire

Em 24 de setembro de 1990 o Brasil tornou-se signatário da Convenção Sobre os Direitos da Criança da ONU. O sofrimento das crianças durante as duas grandes guerras, especialmente na segunda, levou à iniciativa de reunir os países em torno da ideia de protegê-las dos maus tratos de vários tipos (bombardeios, exploração sexual, fome, desabrigo etc.), que resultou na elaboração da Declaração Universal dos Direitos da Criança, adotada pela Assembleia da ONU, em 20 de novembro de 1959. Algumas boas medidas foram tomadas por alguns países mas, de modo geral, as crianças continuam sendo as maiores vítimas da estupidez dos adultos que dirigem o mundo.

O universo de desrespeito e agressões às crianças é enorme, porém, neste caso, limitaremos nosso empenho ao campo do esporte de maneira geral, e ao do futebol de maneira específica. O desrespeito às crianças e adolescentes ocorre, especialmente, na chamada iniciação ao esporte, e ele é praticado por parte de famílias das crianças, de dirigentes esportivos, de professoras, professores, técnicos, técnicas, políticos, judiciário, redes sociais e jornalismo, entre outros. Como seria por demais extenso detalhar o desrespeito por cada um desses setores, cabe-me, como educador e pesquisador, mais uma vez fazer considerações científicas sobre o absurdo cometido por aqueles que são responsáveis pela formação esportiva de nossas crianças e adolescentes. Aproveito para render homenagens aos que trabalham respeitando a dignidade humana, não importa a idade. Vamos às diversas dimensões do desenvolvimento humano, e como elas podem ser afetadas pelo desrespeito praticado no campo do esporte.

Moral: no campo da moral ocorrem, talvez os maiores equívocos e as maiores transgressões à criança e ao adolescente. Que sabem as pessoas que estão cometendo tais transgressões a respeito do desenvolvimento moral da criança e do adolescente? Eu poderia tomar de empréstimo inúmeras situações vividas por mim como educador. Ontem assisti à animação Flow, premiada com o Oscar deste ano, a história de um gatinho. Havia muitas crianças no cinema. De repente, numa das cenas iniciais, o gatinho está caminhando na floresta e ocorre uma inundação súbita, muita água, barulho, tudo vindo para cima do gato. Atrás de mim uma garotinha de uns 4 anos de idade começou a gritar desesperadamente com pena do bichinho. Ela gritava que ele ia morrer, coitadinho! E passou o filme todo falando, chorando, gritando com pena do gatinho. Aos 4 anos ela não entenderia a regra de que é preciso fazer silêncio na sala de cinema. Essa é uma regra para adolescentes e adultos. Ela mergulhou na história e a vivia como algo real. Não separava a ficção do filme da realidade de estar em uma sala de cinema. Para ela havia mesmo um gato que corria imenso risco de morrer na inundação. Os adultos ao redor achavam muita graça da garotinha, mas ela sofria de verdade. Assim são as crianças. Quando brincam de jogar bola, as crianças dessa idade não conseguem se colocar em outros pontos de vista que não os seus. Para elas o jogo de bola é um faz-de-conta, uma fantasia. Elas correrão todas atrás da bola, não importa sua direção. Querem apenas brincar, se divertir. Começam a apresentar vestígios de moral aos 5, 6 anos de idade mais ou menos. E esse processo de desenvolvimento levará anos até que elas tenham compreensão suficiente do que é regra, norma, lei etc. A norma ou regra, exige renúncia de interesses. A regra é feita das renúncias parciais dos interesses individuais. Crianças são incapazes de renunciar aos seus interesses, a não ser por imposições severas das crianças mais velhas e dos adultos. No entanto, vemos hoje crianças de 5, 6, 7 anos e mais sendo submetidas a regras de adultos, tanto em escolas de futebol, como em categorias de base de clubes ou em torneios e campeonatos. Mesmo quando se trata de adolescentes (temos que lembrar que infância e adolescência são períodos longos da vida), seria preciso também levar em conta o modo de entender as coisas desses jovens. Adolescentes são capazes, sim, de compreender regras, porém, ao mesmo tempo, adolescentes são pessoas que procuram novos horizontes, novas perspectivas, são questionadores do presente, precisam ser ouvidos, planejar, discutir. Ao envolver crianças e adolescentes no esporte é preciso se colocar no ponto de vista deles e não apenas no ponto de vista de quem ensina. No esporte há muito ensino e pouca aprendizagem, ou seja, respeita-se pouco quem aprende e se investe muito em quem ensina. Quando as crianças e os adolescentes podem brincar de jogar bola, além de poderem aprender melhor, podem viver em um ambiente com flexibilidade suficiente para resguardar o ritmo de desenvolvimento moral de cada pessoa.

Para as pessoas que pretendem evitar equívocos na educação esportiva, do ponto de vista moral, recomendo algumas leituras. Entre elas Jean Piaget, Lawrence Kohlberg e Yves de La Taille.

Motora: como sabem aqueles que estudam o desenvolvimento humano, o ser humano é um só, e essa divisão em dimensões, como estamos fazendo aqui, é um artifício didático, uma tentativa de facilitar a compreensão, dada a complexidade que constitui a criatura humana. Não existe um desenvolvimento motor desconectado de um desenvolvimento moral, por exemplo. Também sabemos que, em todas as dimensões do desenvolvimento humano, os ritmos variam significativamente de pessoa para pessoa. É possível encontrar crianças andando aos dez meses de idade, ao passo que outras só podem fazê-lo aos 16 meses por exemplo. Algumas crianças falam com 12 meses e outras somente com 20 meses e assim por diante. Portanto, encontrar crianças de 6 anos de idade muito habilidosas para controlar bolas pode ser sintoma de precocidade e não de talento especial. Há um detalhe muito importante quando do nascimento do ser humano que nos ajudaria a compreender, não só o desenvolvimento motor, mas todas as dimensões do desenvolvimento. Quando nascemos, somos bastante desprovidos de coordenações motoras. Conseguimos observar, enquanto movimentos ordenados, apenas aquilo que chamamos de reflexos inatos, isto é, respostas automáticas a estímulos, alguns dos quais desaparecem em poucos meses. Exemplos de reflexos inatos são o reflexo de sucção, o da marcha, o de preensão etc. Ao longo da vida, podemos adquirir reflexos condicionados. E por qual motivo o ser humano, ao contrário dos outros animais, nasce tão desprovido de coordenações? Trata-se de um recurso especial da natureza humana para que possamos nos adaptar às constantes mudanças de nosso meio ambiente, uma vez que o meio ambiente da criatura humana é mais cultural que natural. E, como sabemos, a cultura é algo que muda o tempo todo. Portanto, à medida que o tempo passa, a criança vai ajustando seus gestos desordenados à necessidade de ordenação. Como base para esse desenvolvimento ela tem, desde os reflexos, esquemas inatos de se equilibrar, mantendo uma postura equilibrada para os demais gestos, de segurar, gerador de todas as coordenações de manipulação, e de marchar, gerador das coordenações de deslocamento. Em torno dessa base a criança, de acordo com as experiências vividas em seu meio, transformará seus gestos desordenados em gestos ordenados, isto é, em coordenações motoras. O começo de tudo é essa desordem inicial. O fim, não existe, as coordenações prosseguem por toda a vida, mas possuem um período privilegiado, que é a infância.

A lei geral do desenvolvimento na natureza, de modo geral, inclusive a natureza humana, é a diversidade. A diversidade é a regra, não importa se na Mata Atlântica ou na natureza humana. Pode-se alegar que não é possível atingir níveis de campeãs olímpicas na ginástica artística se a especialização não se der precocemente. Num universo de gestos mecânicos e estereotipados, onde todas seguem os mesmos procedimentos, sim, porém, trata-se de crianças que trocaram a riqueza da infância por milhares de horas de rotinas de exercícios. Podemos discutir ideologicamente o que esperamos da infância, o que queremos para nossos filhos, mas não podemos dizer que uma criança, se pudesse escolher, trocaria a brincadeira por rotinas de exercícios semelhantes a trabalhos forçados. A experiência de preparar a criança para o esporte respeitando seu direito de ser criança, servindo-se de uma metodologia que tenha o lúdico como base, poucos arriscam. Uma metodologia lúdica talvez não levasse a rendimentos superiores à metodologia mecanicista, mas valeria tentar. Caso os rendimentos não fossem os mesmos, pelo menos garantiríamos uma vida mais feliz para essas crianças, em qualquer esporte, e um nível de respeito adequado. A humanidade precisa que crianças tenham o direito de ser crianças.

O que significa respeitar a diversidade quando envolvemos crianças no esporte? Significa que a base de qualquer gesto especializado é a riqueza do acervo motor acumulado. Toda criança deveria viver gama de movimentos suficiente para acumular um imenso banco de dados de gestos, sobre o qual se assentariam, com solidez, os gestos especializados do esporte. Isso demandaria anos e anos de experiências, estendendo-se à adolescência, porque o sistema nervoso do ser humano demora, até se consolidar completamente, perto de vinte anos. Somos a criatura viva que se mantém jovem por mais tempo.

No caso do futebol, seria possível ensinar crianças e adolescentes respeitando as leis da diversidade, do lúdico, do respeito à dignidade humana? Claro que sim. Pois se somos capazes de executar treinamentos exaustivos, rotineiros, mecânicos, transformando crianças em miniaturas de adultos, por que não conseguiríamos fazer o mais simples, o mais natural, que seria tratar criança como criança e adolescente como adolescente? Pois não foi assim que os brasileiros, desde o início do século XX aprenderam a jogar bola com tal maestria que se tornaram os melhores jogadores do mundo? Esquecemos isso? Pois vamos relembrar: o fabuloso futebol brasileiro, fonte de inspiração em todo o mundo, foi aprendido por crianças pobres, brancas e pretas, das periferias das cidades, brincando, se divertindo, criando, inventando. Como acham que Garrincha aprendeu a jogar bola? Será que a ficha não cai nunca para esse pessoal que não se cansa de explorar e desrespeitar crianças?

Se quiserem estudar mais sobre esse tema recomendo ler livros de Manuel Sérgio Vieira e Cunha, João Batista Freire, Roberto Rodrigues Paes, Alcides Scaglia, Rafael Castellani, João Paulo Medina e outros.

Afetiva: o esporte é o território dos afetos, isto é, das emoções, dos sentimentos, das paixões. Isso não significa que não haja razão no esporte, mas que, em determinados momentos, a razão não é superior. A tal ponto isso é fundamental no esporte que alguns técnicos o reconhecem e até incentivam. Lembro Phil Jackson, lendário técnico de basquetebol do Chicago Bulls, ao tempo de Michael Jordan, dizendo aos jogadores, em certas ocasiões: “parem de pensar e joguem”. Inteligente como ele era, sabia que ninguém podia parar de pensar, mas reconhecia que era o momento de jogar com as emoções, de juntar, num único momento, pensamento e emoção, um não se sobrepondo ao outro, ou até deixando que as emoções assumissem o controle. Também na vida cotidiana saber lidar com as emoções é fundamental. Há cerca de mil feminicídios por ano no Brasil, praticados por homens que, educados para serem inseguros quanto à sua masculinidade, portanto, para serem machistas, perdem completamente o controle sobre os afetos e matam mulheres. Emoção é algo educável. Devemos educar emocionalmente as pessoas para que elas possam ser equilibradas e não cometer desatinos. No calor de um jogo como o futebol, perder o equilíbrio emocional significa chutar o pênalti na mão do goleiro, tomar cartão vermelho, esquecer de marcar o atacante etc. A educação das emoções é um processo de uma vida inteira. No entanto, esperamos que uma criança de 6, 7, 10 anos seja capaz de lidar com as emoções de competições que não são feitas para elas, mas apenas uma miniaturização das competições adultas. Árbitros de competições infantis se comportam em relação às crianças como se elas fossem profissionais adultas. Pais cobram de seus filhos crianças comportamentos adultos durante treinamentos e jogos. No mundo do esporte pouco se reconhece o fato de que as emoções estão em formação e que as crianças precisam de um ambiente acolhedor, organizado ao molde delas e dos adolescentes, para que na vida adulta essas, então, crianças e adolescentes, sejam equilibradas, generosas, solidárias. Uma criança não consegue lidar com as pressões geradas pelas cobranças da família, dos professores, dos dirigentes, das torcidas, em relação a rendimentos. É comum crianças e adolescentes frequentarem escolas de futebol ou equipes de base e serem educadas para sentirem medo: medo de driblar, medo de chutar, medo de atacar, medo de defender, medo de errar, medo de tudo. Crescem e se tornam, se se tornarem, jogadores e jogadoras medrosos, incapazes de lidar com as emoções geradas pela imprevisibilidade típica de todo esporte. E como fazer para lidar com isso durante a educação esportiva (usarei o termo educação esportiva em vez de formação esportiva)? Todos temos medos em certas situações, mas, como educar para que a coragem se sobreponha ao medo, que a ousadia supere a insegurança, a autonomia seja maior que a dependência?  

Os profissionais da área que pretendem se aprofundar nesse tema poderão transitar por teorias de grandes autores como Freud, Winnicott, Vygotsky, Wallon, Klaus Scherer, LeDoux, James-Lange, Goleman e outros.  

Social: O ser humano é um animal gregário. Precisa se juntar para ter chances de sobrevivência. Foi o que fez, ao longo da história, embora tropece ainda nas habilidades necessárias para viver em sociedade. Um exemplo típico, tomando de empréstimo um universo específico, nós o encontramos no futebol. Não basta um jogador ter habilidades excepcionais no controle de bola; de nada vale ser um malabarista com a bola se não souber colocar tais habilidades a serviço do coletivo, isto é, do time que ele compõe com mais dez jogadores.

Com muita frequência, quando lidamos com crianças e adolescentes no futebol, deixamos de considerar as características de desenvolvimento desses alunos. Não levamos em conta, por exemplo, que a criança tem dificuldades de se colocar no ponto de vista do outro, algo indispensável para a vida em sociedade. Ela tende a investir seus esforços apenas para satisfazer seus próprios interesses, o que explica, num jogo de bola de crianças de até 7 ou 8 anos de idade mais ou menos, termos várias delas correndo atrás da bola sem se preocuparem muito com a equipe como um todo. Quanto aos adolescentes, sem dúvida são capazes de compreender a importância do coletivo, porém, são questionadores, cheios de dúvidas, e essa maneira de ver as coisas deveria levar professores e professoras a sempre conversar com eles, antes e depois das práticas.

A respeito das crianças, e isso veremos melhor quando tratarmos da dimensão lúdica, as práticas selecionadas para as aulas deveriam privilegiar o modo como as crianças lidam com o viver em grupo. Precisamos entender que elas estão aprendendo a viver em grupo, saindo de um estado de autocentrismo para um estado de heterocentrismo. Precisam de tempo e muitas experiências diversificadas para lidar com isso. Uma das hipóteses frequentemente colocadas em prática é a de impor comportamentos sociais artificialmente coletivos, em que as crianças agirão de acordo com imposições rígidas. Por outro lado, podemos respeitar o fato de que são autocentradas, apenas sugerindo, sempre que houver oportunidades, que poderiam agir de maneira mais coletiva. Melhor que isso seria escolher conteúdos em que as crianças tivessem que observar, ao mesmo tempo, a bola e o campo, a bola e os companheiros etc., criar situações em que precisam dar atenção a outros componentes do jogo além da bola. Dar boas aulas, formando não só o jogador, mas também o cidadão, requer criatividade, competência.

A obsessão por formar precocemente o craque de futebol, certamente por ver nele uma fonte de lucros, leva a equívocos terríveis. Quantos talentos não são desperdiçados por esses equívocos? Infelizmente parte dos responsáveis pela educação esportiva dos jogadores de futebol não é a que mais estuda, que mais se prepara, que mais se preocupa com a formação do ser humano.

Os que pretendem se aprofundar nesse tema certamente terão que passar por obras de autores como Durkheim, Max Weber, Norbert Elias, Zigmunt Bauman e outros.

Inteligível: trata-se de nossa dimensão intelectual, nossa capacidade de pensar, de criar, de refletir, de compreender, de nos fazermos inteligíveis. Quando nascemos, e durante alguns meses, por insuficiência de amadurecimento cortical, não somos capazes de pensar, tal como nós adultos entendemos o pensamento. Agimos por reflexos, por impulsos e por ajuda dos mais velhos. Aos poucos, com o amadurecimento das funções corticais, a imaginação passa a produzir seus frutos. Imaginação é essa capacidade de “ver” para dentro as experiências praticadas. Experiência humana é qualquer ação, desde caminhar, pegar, bater, ver, ouvir, tocar, até pensar, criar, lembrar etc. Tudo que fazemos pode ser recuperado pela imaginação e se tornar matéria prima para novas produções. É isso que nos faz humanos. Uma das produções privilegiadas da imaginação é o pensamento, esse fazer mental que nos permite compreender as ações realizadas ou a serem realizadas.

Vamos concordar que o futebol é um jogo extremamente complexo. Trata-se de um esporte, assim considerado porque é praticado por uma imensa comunidade. Exige poucas e rigorosas regras, capazes de normatizar as relações entre pessoas as mais diversas. Sua estrutura envolve um campo de grandes dimensões e um número grande de habitantes (22 jogadores, vários árbitros, plateia, meios de comunicação, dirigentes, técnicos, médicos etc.). O futebol é um escoadouro de culturas. Uma criança pode, quando muito, brincar de jogar futebol, e não praticá-lo em toda a sua complexidade. O pensamento de uma criança não é capaz de compreender toda essa complexidade. Exigir isso de uma criança é contribuir para comprometer sua formação intelectual. O pensamento de uma criança de 5 ou 6 anos, algumas delas alvos da cobiça de agentes e famílias (projetando-as como futuros craques de futebol), é do tipo fantasioso, que resolve os problemas por soluções mágicas. Monteiro Lobato, em sua obra para crianças, criou o pó de pirlimpim, usado pelas crianças do sítio do Pica Pau Amarelo para resolver, magicamente, os problemas. A criança acha que alguma coisa é porque ela acha que é e pronto! Uma vez perguntei, durante uma brincadeira, a crianças de 5 e 6 anos, como a gente poderia fazer para viajar para a Lua. Elas se serviram de um tronco de árvore caído no pátio da escola como foguete e, num passe de mágica, viajaram para a Lua. Como poderiam essas crianças lidar com a complexidade de um jogo como o futebol, ou com a ideia de serem craques no futuro. Quando criança eu também queria ser jogador de futebol, queria ser como Pelé, Nilton Santos e Garrincha. Mas era uma fantasia, meu gosto pessoal e não um plano de realidade adulta. Aos 7 anos mais ou menos a criança começará a compreender as coisas, razoavelmente se colocando fora de seu próprio ponto de vista. Mas isso é insipiente e dependerá do apoio de coisas concretas. Ela continuará achando, por exemplo, que seu pai é um herói, incapaz de ver defeitos nele, por dificuldade de considerar vários outros pontos de vista de análise. Uma criança de até 10, 11 anos de idade, terá muitas dificuldades para lidar com projeções no futebol. Jogará com as coisas imediatas: o drible preso ao momento, evitará o passe, chutará ao gol em qualquer oportunidade, exibirá suas próprias habilidades. Haverá exceções, crianças com amadurecimento precoce e, infelizmente, serão tomadas como regra para justificar o treinamento precoce das demais.

Se o ensino do futebol, ou de qualquer outro esporte, fosse feito a partir do ponto de vista da criança ou do adolescente, seria completamente diferente. No caso da criança começaria por ser totalmente lúdico, ou seja, o futebol para ela seria uma brincadeira. No caso do adolescente o ensino do futebol seria um promotor de autonomia, de emancipação, de independência. O ensino do futebol feito a partir do ponto de vista unicamente de quem ensina transforma o futebol para crianças e adolescentes em réplica mal resolvida do futebol adulto profissional.

O aprofundamento nesse tema pode ser facilitado pela consulta de obras de autores como Jean Piaget, Vygotsky, Wallon, Lino de Macedo, Luria e outros.

Lúdica: a dimensão lúdica trata dos estados em que realizamos uma ação sem qualquer outro propósito que não seja a própria ação. Uma espécie de fazer por fazer. Ou seja, quando retiramos da ação os compromissos com algo externo, com as cobranças, podemos vivê-la somente com as tensões internas, sem as pressões externas. Porém, quando uma criança vai ao esporte e é cobrada em resultados, por pais, agentes, professores e outros, parte do lúdico da ação esportiva é perdido em detrimento dessas pressões, muitas vezes insuportáveis para a estrutura de uma criança. Algo parecido ocorre com os adolescentes, porque, mesmo considerando seu poder de pensar virtualmente, por hipóteses, ele ainda não é suficientemente maduro emocional, moral e socialmente para suportar as cobranças por resultados.

O lúdico é aquele estado que nos alivia das tensões, que nos permite viver momentos de leveza, que nos permite viver sensações de realização frequentes, que faz crescer nossa autoestima. Quando a criança aprende esporte brincando, ela viverá ambientes em que sua autoestima estará alta e isso poderá repercutir positivamente por toda a sua vida.

O jogo, em suas materializações de brincadeiras, folguedos, danças, músicas, entre tantas possíveis, é o território privilegiado de desenvolvimento de uma criança. Ela pode praticar qualquer esporte, desde que seja em forma de brincadeira. Ela pode brincar de lançamento do dardo, de jogar basquetebol, de jogar futebol, de nadar etc., mas não pode treinar atletismo, basquetebol, futebol ou natação como se fosse um adulto pequeno. São coisas completamente diferentes e só não sabe isso quem não se preparou para ser bom professor ou boa professora, bom dirigente, bom pai ou boa mãe. A criança também pode participar de competições esportivas, porém, essas competições precisam ser adaptadas para atender às características da criança. Ela pode participar de um festival de atletismo ou de natação, onde todas as crianças correriam ou nadariam, por exemplo, sem que fossem classificadas ao final como melhores ou piores, e onde todas seriam premiadas com diplomas de reconhecimento pelas ações realizadas.

Quem pretender estudar melhor esse tema pode consultar as obras de Piaget, Vygotsky, Alcides Scaglia, João Batista Freire e outros.

Para finalizar, cabe a pergunta: e agora, o que fazer diante de tudo isso? Podemos encaminhar alguns trabalhos práticos para dar conta das advertências feitas ao longo do texto? Sim, foram feitas muitas advertências e, inclusive, várias denúncias. Todas as agressões contra a criança no esporte devem ser denunciadas. Além das denúncias de agressões, também fizemos denúncias contra a incompetência dos trabalhos. Não é vergonhoso verificar que as crianças aprendem futebol brincando entre elas melhor que nos momentos em que está frequentando uma escola de futebol (em boa parte dos casos)? O que há naquela brincadeira entre elas que ensina tão bem? E não foi assim que aprenderam os grandes craques da história do futebol brasileiro?

É bastante simples ensinar futebol ou qualquer outro esporte em um ambiente lúdico, respeitando a criança como criança e o adolescente como adolescente. Sim, eu sei que teremos a oposição de boa parte dos pais e dirigentes, mas esse é um problema que só pode ser resolvido com paciência, muito estudo, e boas conversas em reuniões com pais e dirigentes. Os pais, pouco informados, acreditam que colocar seus filhos em uma atmosfera de treinamentos adultos adiantará o processo e os tornará craques precocemente. Isso nunca aconteceu e não acontecerá (a não ser excepcionalmente, o que não pode ser tomado como regra), mas a ilusão permanece. Quando muito tal medida tornará os pais vítimas de maus agentes, que ganharão dinheiro à custa de alimentar essa ilusão.

Vou dar um único exemplo para mostrar como é simples o trabalho num ambiente lúdico. Simples, prazeroso, realizador! Vou escolher a brincadeira de pega-pega. Metade das crianças ficará de posse de uma bola (podemos usar vários tipos de bola, de borracha, de meia, de plástico, bolas oficiais, os que forem possíveis). A outra metade ficará sem bola. As crianças estarão descalças, porque jogar descalço facilita o desenvolvimento de habilidades mais refinadas e previne futuras lesões. Uma das crianças será escolhida como pegador, os demais terão que escapar à sua perseguição. O pegador correrá atrás da criança que ele decidir perseguir, mas terá que tomar a bola do perseguido – não basta tocar na bola. O perseguido poderá driblar o pegador, poderá fugir dele em velocidade, ou poderá passar para alguém que estiver sem bola. Quando o pegador tomar alguma bola, aquele que a perdeu passará a ser o pegador.

Variação dessa brincadeira – Podemos aumentar o número de pegadores para dois ou três. Quando um pegador tomar uma bola, deixará de ser pegador o que estiver há mais tempo nesse papel. Outra variação – Podemos aumentar ou diminuir o número de alunos sem bola.

Essa brincadeira eu criei agora. A partir de qualquer brincadeira popular podemos criar inúmeras brincadeiras para ensinar futebol ou outro esporte. No caso dessa brincadeira minha intenção era ensinar o drible, o desarme, o passe, e a condução de bola, portanto, uma brincadeira bem ampla. Quantas vezes, em quinze minutos, por exemplo, cada criança conduzirá a bola, driblará, desarmará ou passará? Não dá para calcular, pois o número de repetições será muito grande. Além disso, quando ela conduzir a bola, será para fugir do pegador, e isso fará sentido para ela. Quando ela driblar, será por um motivo forte na brincadeira, ou seja, realizará gestos que farão sentido para ela, que não afrontarão sua inteligência. Por outro lado, se ela tiver que passar a bola para um colega com repetições mecânicas, apenas para obedecer ao comando de um professor, que sentido tem isso para ela? Serão passes que jamais acontecerão num jogo de futebol. Ou quando ela tem que, obedecendo ao comando de um professor, conduzir a bola contornando cones. Quando isso acontecerá num jogo de futebol? Já viram cones espalhados pelo campo durante um jogo contra um time adversário?

A criança é inteligente e isso tem que ser respeitado. A aula de futebol não pode ser uma agressão a essa inteligência. A criança tem que aprender futebol para se tornar mais inteligente, mais segura emocionalmente, mais solidária, mais cooperativa, mais sociável, mais habilidosa.

Usei apenas um exemplo, e poderia usar dezenas ou centenas de outros. No entanto, continuamos insistindo na velha fórmula de querer ensinar por ações descontextualizadas, sem sentido, mecânicas. E nos frustramos, porque não ensinamos.

Uma sugestão final: em vez de colocarem como objetivo no ensino futebol para crianças formar craques futuros, coloquem como objetivo fazê-las felizes. Certamente, com isso, as chances de que um dia venham a ser craques aumentarão, mesmo que não seja esse o objetivo.

Foto: Oli Scarff/Getty Images

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Psicologia positiva no futebol: Uma nova visão de desempenho

Por: Maurício Rech

A Psicologia Positiva é uma área relativamente recente dentro do campo da psicologia e da saúde mental, focada no estudo científico das forças e virtudes que contribuem para o desenvolvimento humano. Enquanto a psicologia tradicional tem como objetivo principal o tratamento de transtornos mentais e a redução do sofrimento humano, a Psicologia Positiva busca compreender o que torna a vida significativa e satisfatória. Ao invés de se limitar a resolver problemas, esse campo de estudo promove o desenvolvimento de potencialidades e a construção de uma vida equilibrada e produtiva.

É importante destacar que a Psicologia Positiva não é uma ideia romântica ou ingênua de acreditar que “está sempre tudo bem”, mas sim uma área científica comprometida em encontrar maneiras funcionais de lidar com situações emocionais difíceis. É um caminho que busca focar na solução e não no problema, de compreender e enfrentar desafios em vez de fugir deles ou culpar os outros, e de olhar para as emoções internas como um caminho para lidar melhor com os desafios externos. Apresenta-se como uma área de estudo que atenta para o ser humano com uma visão sistêmica e propõe-se a otimizar sua atuação dentro de seus diversos papeis sociais, tanto profissionais quanto pessoais. A Psicologia Positiva e a psicologia tradicional são complementares, uma não substitui o trabalho clínico da outra, mas aqui falaremos daquela que tem como foco a ampliação da compreensão sobre como potencializar e promover o bem-estar em indivíduos e grupos.

No contexto esportivo, em especial no futebol, os treinadores desempenham um papel central no desenvolvimento técnico e emocional de seus atletas. Incorporar princípios da Psicologia Positiva à formação dos treinadores pode ser um diferencial significativo para alcançar maiores níveis de saúde mental e, consequentemente, melhor desempenho. Isso envolve capacitá-los a identificar e potencializar pontos fortes dos jogadores, incentivar a mentalidade de crescimento e criar um ambiente propício ao engajamento e à colaboração. Em situações de vitórias, por exemplo, o treinador pode utilizar momentos específicos para reforçar emoções agradáveis e o senso de competência e resiliência do time, destacando o trabalho em equipe e os esforços individuais que contribuíram para o sucesso. Esse tipo de abordagem não ignora as dificuldades enfrentadas, mas utiliza área emocional para fortalecer a capacidade do grupo de lidar com futuros desafios. Por outro lado, em derrotas, a Psicologia Positiva oferece elementos e técnicas fundamentadas que ajudam os atletas a enfrentar a frustração de maneira funcional, transformando erros em oportunidades de aprendizado. Nesse processo, o foco deixa de ser atribuir culpa ou negar o ocorrido, e passa a ser compreender e superar o desafio. Capacitar treinadores também envolve o desenvolvimento de habilidades de comunicação empática e liderança positiva, fundamentais para criar relações de confiança e respeito com os atletas. Um treinador e corpo técnico que compreende e aplica esses conceitos pode inspirar não apenas um melhor desempenho em campo, mas também um crescimento pessoal em seus jogadores.

Os atletas, especialmente em esportes de alto rendimento como o futebol, enfrentam diversas formas de pressão constante, não apenas por resultados em campo, mas decorrentes de adaptações contínuas em viagens durante as competições e transferências de clubes, além de questões culturais e distanciamento da família. A aplicação da Psicologia Positiva no dia a dia pode transformar a forma como eles lidam com essas demandas. Práticas como o fortalecimento do otimismo, o cultivo de gratidão e a definição de metas claras e alcançáveis podem melhorar não apenas o desempenho esportivo, mas também o bem-estar geral dos jogadores. Elas não eliminam as dificuldades existentes, mas ajudam os atletas a desenvolverem uma perspectiva mais equilibrada e funcional sobre as adversidades. O treinamento mental baseado em princípios e elementos da Psicologia Positiva pode incluir programas de psicoeducação e de capacitação focados em identificar forças pessoais, criar planos de superação para desafios específicos e fortalecer o senso de propósito dos atletas. Técnicas como a atenção plena e meditação são cientificamente comprovadas como úteis para melhorar o foco, reduzir os efeitos do estresse e favorecer a neuroplasticidade.

Ao promover a autoconfiança e a coesão de grupo, a Psicologia Positiva apresenta-se como potente caminho para influenciar diretamente os resultados no campo. Trabalhar com uma equipe que treina em um ambiente positivo e encorajador tende a apresentar maior comprometimento, menos erros associados ao estresse e maior capacidade de recuperação após derrotas. Em longo prazo, essa mentalidade e forma de desenvolvimento psicossocial contribui para a formação de atletas mais completos, resilientes e motivados. Além de resultados esportivos, o impacto positivo se estende à vida fora dos gramados, respeitando a integridade do ser humano atleta.

Nesse sentido, investir na capacitação de treinadores e na implementação de princípios da Psicologia Positiva no cotidiano dos clubes de futebol é um passo estratégico para transformar a experiência esportiva em uma oportunidade de crescimento pessoal e coletivo. Ao longo dos anos trabalhei com centenas e centenas de atletas, de base e profissionais, assim como treinadores e comissões técnicas, e, seguramente, a falta de conhecimento e de atenção aos quesitos saúde mental e inteligência emocional desviaram muitos de uma trajetória de sucesso. Se antes não havia fundamento científico para entender causas e apresentar soluções para esta área, atualmente já temos muita informação e material embasado. Portanto, hoje, mais do que buscar vitórias em campo, é essencial criar condições para que atletas e equipes se fortaleçam e floresçam de forma integral!

Maurício Rech tem formação acadêmica com Mestrado em Psicologia e Saúde e graduação em Direito, além de extensões nas áreas de Filosofia, Psicologia e Neurociências. Atua como professor, pesquisador científico e palestrante na área de Saúde Mental e Desenvolvimento Humano, integrando a área de psicoeducação aos seus trabalhos anteriores no esporte como advogado, agente e Diretor Executivo de Futebol Profissional e Categorias de Base.

Foto: Marcos Ribolli

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Tática individual: A arte de jogar futebol com intensão

Por: Lucas Trae

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Falar sobre tática individual sempre gera bons debates no meio do futebol. Quando esse assunto vem à tona, costuma estar associado à tomada de decisão do atleta. Embora possa parecer complexo, discutir esse tema é uma oportunidade de estudo para que os treinadores não tratem os jogadores como robôs, que apenas seguem decisões predefinidas. É essencial que os jogadores desenvolvam um repertório de ações e aprendam a interpretar o jogo, permitindo que tomem suas próprias decisões.

A tomada de decisão de um atleta é influenciada por diversos fatores. Entre os fatores externos, estão o adversário, os companheiros e o espaço disponível; já os fatores internos incluem a confiança e a qualidade técnica do jogador. No entanto, antes de abordarmos a tomada de decisão, há outro aspecto que poucas vezes é explorado, mas que considero muito importante: a intenção na ação.

Ter intencionalidade nas ações proporciona um maior controle do jogo. Em vez de apenas reagir às variáveis do jogo, o jogador deve aprender a manipular o adversário de diferentes maneiras para gerar vantagens a seu favor.

De forma sucinta, identifico duas intenções claras ao realizar qualquer ação com a bola: dominar ou ganhar espaço. A partir disso, podemos estabelecer alguns critérios de execução para essas intenções. Para o jogador que possui a bola, podemos considerar a fixação, que consiste em atrair defensores para o portador da bola, mexendo com a intenção do adversário. Para o jogador sem a bola, podemos falar sobre desmarque, que se refere a movimentos intencionais para dominar ou ganhar espaços efetivos em benefício próprio. Outro critério é a mobilização, que envolve intencionais que atraem defensores, beneficiando tanto seus companheiros quanto o próprio jogador em ações subsequentes. Por fim, apoiar significa criar e ocupar ângulos que possibilitem dar continuidade ao jogo, progredir ou definir o ataque.

Imagem 3

Considero que o maior desafio é coordenar esses critérios entre todos os jogadores da equipe. Por isso, o ideal é que as ações sejam coordenadas em grupos menores, de no máximo três jogadores. Isso não significa que não possam ser aplicadas entre mais ou menos jogadores, mas se aplicadas em relações menores tendem a ter um resultado mais expressivo do que em relações com mais jogadores.

Essas relações, apesar de ser entre poucos jogadores, independente de função e local do campo, podem resumir as diversas possibilidades que existem dentro de um jogo.

Elas podem variar em relações verticais, diagonais, horizontais, com diferentes distâncias e ritmos alternados, além de também se reajustarem durante as ações. O mais importante é que o treinador não precisa mecanizar as ações para que elas sejam coordenadas. Em vez disso, deve criar cenários de treino onde os atletas possam decidir e se expressar, utilizando critérios de execução que os ajudem a interpretar qual abordagem é mais vantajosa em diferentes situações de jogo. É fundamental evitar impor ao atleta o que ele deve fazer, permitindo que ele pense e tome suas próprias decisões.

Foto capa: Patrik Stollarz

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Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com/

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A assepsia da arte de jogar futebol

Por: João Batista Freire

Em 2008 escrevi um capítulo de livro intitulado Um mundo melhor, uma outra educação física, em que afirmei que “… a reinvenção do futebol à brasileira deu-se à revelia da educação física. Nossos jogadores foram forjados nos campos de várzea, nos pequenos espaços de areia, terra ou grama que grassavam pelo Brasil afora.” p. 58 (Freire, 2008). Lá pelos anos 1980, creio, o dramaturgo brasileiro Plínio Marcos disse que o futebol brasileiro estava se acabando e era a ginástica (educação física) que estava causando o estrago. De qualquer maneira, era preciso destruir o modelo brasileiro e sul-americano, caso contrário, ele prevaleceria por muito mais tempo. Escrevi, na época: “O antídoto para essa cultura tão típica já existia: era preciso fazer com que a educação física assumisse o futebol, prática para a qual sempre fechara os olhos. E ela assumiu, seguindo os sábios conselhos das ciências modernas que orbitavam ao seu redor (a fisiologia do esforço, a biomecânica etc., as chamadas ciências do esporte).” P. 59 (idem). O futebol genuinamente brasileiro ainda resistiu por algum tempo, mas, no início dos anos 2000 dava sinais de cansaço. Sempre fomos bombardeados por um colonialismo cultural que nos chega pelas matrizes curriculares, pelas ciências duras de fundo europeu, pelo cinema norte-americano, jornais e redes sociais, entre outros meios. É difícil resistir a isso. Esse colonialismo cultural poderia ser chamado de colonialidade, termo usado por vários autores, entre eles o peruano Anibal Quijano (Quijano, 2019), um tipo de dominação que sucede o colonialismo físico, aquele que tinha a presença do colonizador nos cargos definidores da política, da economia e da cultura.

Aqui e ali surgiam jogadores que insistiam em jogar ao modo brasileiro, porém, de modo geral, a orientação passou a ser: tornar-se cada vez mais forte, cada vez mais defensivo, cada vez mais disciplinado a um sistema rígido de posicionamento em campo. E nada de correr riscos, como se o jogo, por definição, não fosse um fenômeno movido pelo risco, pela imprevisibilidade. O medo, nesse tipo de jogo, é a referência. A ousadia é a bruxa que deve ser levada à fogueira. E foi assim que, aos poucos, nosso futebol passou a se parecer, cada vez mais, com o futebol europeu, sem ter, contudo, o poder econômico para contratar os melhores jogadores do mundo e, pior, sem ter poder econômico para manter, nos times brasileiros, alguns dos melhores jogadores do mundo, revelados em nosso país. E nosso futebol foi se empobrecendo até chegar ao ponto em que chegamos hoje, quando nossos grandes craques internacionais só jogam por aqui quando não conseguem mais contratos na Europa, Estados Unidos ou países árabes.

A explicação do fenômeno de mediocrização do futebol brasileiro não é exclusiva do futebol, é um fenômeno mundial de colonialidade dos países periféricos. No tempo do Brasil colônia, ou da África colônia, as potências europeias extraíam o máximo possível de riquezas dos países colonizados. No tempo atual, da colonialidade, potências europeias, assim como a grande potência norteamericana, extraem o máximo possível de riquezas de nosso país sem que precisem estar presentes fisicamente. Enriquecem com nossas matérias primas, enriquecem nos convencendo a comprar suas quinquilharias, enriquecem com nossos jogadores de futebol, enriquecem dominando nossas vontades, enriquecem restringindo nossa capacidade de escolha, enriquecem evitando que tenhamos a oportunidade de desenvolver um pensamento crítico, enriquecem subtraindo nossas consciências. Esse é o efeito da colonialidade. No ano 2000, Enrique Dussel escreveu: “… é que o espírito da Europa (germânico) é a verdade absoluta que se determina ou se realiza por si mesma sem dever nada a ninguém. Esta tese, que chamarei de “paradigma eurocêntrico” (por oposição ao “paradigma mundial”), é a que se impôs não só na Europa ou nos Estados Unidos, mas também em todo o mundo intelectual da periferia mundial.” P. 51 (Dussel, 2000).

Quando for interessante para as potências do Norte que o futebol brasileiro seja poderoso, ele será. Por enquanto, é mais interessante e lucrativo fortalecer os grandes clubes europeus (e agora também alguns clubes árabes) com os artistas da bola produzidos no Brasil, na Argentina, na Colômbia, no Uruguai, no Equador e nos países africanos. As grandes potências não possuem qualquer interesse em fortalecer o futebol brasileiro, até porque a única maneira de fortalecê-lo seria manter nossos craques por aqui e permitir que os brasileiros jogassem futebol como brasileiros. Na contramão, a CBF permite que as equipes profissionais do Brasil integrem até nove jogadores estrangeiros, ampliando a catástrofe de nosso futebol. Se houvesse interesse em fortalecer o futebol brasileiro, em hipótese alguma o modo de identificar futuros craques seria o atual; praticamos o método da descoberta, o método de descobrir por aí meninos e meninas talentosos, e integrá-los às equipes de base, algo que se opõe ao método da formação. Futebol se ensina, ninguém nasce sabendo jogar. Porém, ensinar dá trabalho, exige formação de professoras e professores, exige infraestruturas, demandaria tempo, seria preciso ensinar a jogar futebol e os colecionadores de dinheiro não podem perder tempo educando pessoas; por enquanto é mais fácil pagar pessoas de formação duvidosa para descobrir talentos por aí. Os gênios do comércio futebolístico afirmam, sem corar, que futebol não se ensina, que os talentos já nascem prontos. Se tivessem interesse em estudar o assunto saberiam que, biologicamente, é impossível alguém nascer com talento para jogar futebol. Todos nascem com maiores facilidades ou dificuldades para as diversas ações possíveis no mundo. Revelarão tais facilidades ou dificuldades sempre que houver oportunidades para agir em situações diversas. Isso, porém, não prescinde de complexos sistemas de educação, que deveriam ajudar as pessoas a desenvolverem suas aptidões e superar suas dificuldades. Ninguém nasce destinado a jogar futebol, mas uma boa educação pode conseguir juntar boas aptidões com pedagogias competentes, aumentando as chances de formação de grandes jogadores. Mas aí estamos falando de educação, e esse termo produz manifestações alérgicas graves nos colecionadores de dinheiro do mundo do futebol. Metodologias para ensinar bem futebol existem, mas são, quase sempre, ignoradas. São metodologias que consideram o modo como os brasileiros pobres, brancos e pretos, aprenderam a jogar bola e transformaram o futebol brasileiro em uma potência mundial.

Não se trata, neste artigo, de negar toda a ciência e culpá-la pela degradação do futebol brasileiro. Ou de julgar que a educação física foi a única carrasca que levou nosso futebol ao cadafalso. Mas se trata, sim, de negar que a ciência dura é a única maneira de fazer ciência, que o pensamento clássico europeu é o único modo correto de pensar, e de afirmar que é possível fazer educação física de um outro modo que não o de suas raízes europeias. Somos de tal maneira condicionados pela colonialidade cultural que invade nossos currículos, pesquisas e práticas culturais, que, sempre que aparece um jogador diferente, com trejeitos tipicamente brasileiros, se ele não for um fenômeno excepcional, dificilmente sobreviverá à assepsia da arte a que será submetido nas escolas de futebol e categorias de base. E quando surge um técnico que ousa fazer algo parecido com o futebol brasileiro, a opinião especializada, torcedores e dirigentes apenas aguardam que ele seja derrotado algumas vezes seguidas para submetê-lo a um tribunal inquisitorial e condená-lo à fogueira. Claro que a maioria dos técnicos e aspirantes a técnicos que “sonham” com um jeito brasileiro de jogar futebol morrem no nascedouro ou renunciam ao “sonho” ao longo da trajetória profissional. Talvez devessem ser estratégicos e enganar o sistema, o que seria uma boa maneira de subverter essa ordem cruel de dependência dos países ricos. Quem sabe esses técnicos “sonhadores” de bons e corretos “sonhos” não deveriam dar ao seu trabalho, pelo menos durante algum tempo (início de temporada, começo de trajetória profissional), uma aparência tradicional, disciplinada, e ir, aos poucos, subvertendo essa ordem e transformando o pesadelo em sonho? Querer que os brasileiros possam jogar futebol ao seu modo produz um confronto com os colecionadores de dinheiro, injusto, posto que as armas dos colecionadores são, por enquanto, imensamente mais fortes. Porém, talvez os “sonhadores”, que sempre existirão, devessem aprender a viver dentro do sistema, mantendo a disposição de subvertê-lo sem que se perceba. Os colecionadores de dinheiro nada sabem de pedagogia ou de metodologia, portanto, ao olhar treinamentos e jogos nada perceberão. Até o “sonhador” chegar à vitória incontestável! E estou falando de algo que, de alguma forma, já aconteceu, e recentemente. Quando os colecionadores de dinheiro, alertados por quem entende mais que eles, perceberem, talvez não se importem, porque, de qualquer maneira, os resultados que eles queriam apareceram e isso não deixou de lhes alimentar a cobiça. E se se importarem e interromperem o trabalho, o sonho já foi realizado e o exemplo segue imortal.

Referências:

Dussel, Enrique. Ética da libertação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

Eco, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Quijano, Aníbal. Ensayos em torno a la colonialidade del poder. Buenos Aires: Del Signo, 2019.

Freire, João Batista. Um mundo melhor, uma outra educação física (páginas 51 a 74). In: Rodrigues, David (org.). Os valores e as atividades corporais. São Paulo: Summus, 2008.

Futebol de rua. Foto: Lucas Ninno.

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Construindo campeões: O poder das emoções no futebol

Por: Maurício Rech*

As emoções desempenham um papel crucial no desenvolvimento humano, influenciando cognição, comportamento e interações sociais. Desde o nascimento, as emoções fazem parte de um sistema adaptativo que orienta as respostas a estímulos ambientais e sociais do ser humano. Ao longo da vida, as emoções atuam de forma contínua na tomada de decisões, resolução de problemas e na formação de relacionamentos interpessoais. Portanto, um entendimento relativo ao funcionamento das emoções não apenas enriquece a experiência humana, mas também contribui para a saúde mental, bem-estar emocional e o desenvolvimento psicológico de uma sociedade emocionalmente inteligente.

Quando se pensa em atletas de alta performance, falando aqui especificamente na área do futebol, ainda é comum que sejam referidas as dimensões táticas, técnicas, físicas e nutricionais, sem dar-se a devida ênfase à dimensão emocional. Contudo, estudos científicos baseados em evidências demonstram não apenas a relevância singular da dimensão psicológica, mas, também, que ela abrange e está diretamente integrada às outras dimensões acima referidas, eis que não há como trabalhar com o desempenho de seres humanos sem observar-se as questões emocionais em uma perspectiva integrada e sistêmica.

Ao tratarmos de atletas de futebol, por exemplo, identificar questões emocionais é premissa que merece atenção desde o momento que o atleta chega ao clube, na medida que as emoções terão influência não apenas sobre o desempenho no campo, mas também sobre aspectos cruciais do desenvolvimento pessoal e social. Desde as primeiras experiências esportivas, ainda nas categorias de base, as emoções moldam a maneira como os jovens atletas enfrentam desafios, lidam com a competição e interagem com seus colegas de equipe, comissão técnica e demais pessoas que fazem parte do seu entorno. A capacidade de compreender e regular as emoções torna-se uma ferramenta valiosa para esses jovens ao longo de suas carreiras e vidas, não apenas para otimizar seu rendimento esportivo, mas também para cultivar habilidades como trabalho em equipe e autoconfiança.

A compreensão e aplicação de estratégias psicológicas de autorregulação emocional na área desportiva, tais como autocompaixão, resiliência, bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico, dentre outros, impactam positivamente no desenvolvimento emocional global de atletas desde sua formação, assim como de equipes técnicas e profissionais em geral. Todas estas estratégias têm associação direta com o melhor desempenho profissional e humano dentro de uma visão sistêmica.

A autorregulação emocional, por exemplo, aparece como uma habilidade fundamental, capacitando atletas a gerenciar as pressões competitivas, manter o foco durante partidas intensas e aprender com as experiências emocionais associadas ao esporte, contribuindo, assim, para uma performance mais consistente e eficaz. A autocompaixão, por sua vez, ao promover uma abordagem mais saudável diante dos desafios, está relacionada a níveis mais elevados de confiança e autoestima, fatores que são conhecidos por influenciar positivamente o desempenho atlético. O bem-estar, essencial para o equilíbrio mental, também está associado a um melhor desempenho em campo, uma vez que atletas que experimentam altos níveis de satisfação com a vida e motivação intrínseca tendem a abordar as atividades esportivas com maior entusiasmo e dedicação. Além disso, a resiliência, ao permitir a adaptação diante de obstáculos, lesões ou derrotas, está positivamente correlacionada com a capacidade de superar contratempos e manter um desempenho consistente ao longo do tempo.

Nesse sentido, ao integrar conscientemente esses elementos da psicologia ao esporte no dia a dia, os treinadores e profissionais do futebol também desenvolvem-se emocionalmente e contribuem para o desenvolvimento psicológico de seus atletas e de suas equipes, promovendo um ambiente propício para o florescimento de habilidades mentais associadas ao sucesso pessoal e profissional, adquirindo uma visão sistêmica do funcionamento humano e culminando num desempenho em campo mais elevado e duradouro. Ou seja, a gestão adequada de questões emocionais por parte da equipe técnica e dos atletas impacta na formação de uma mentalidade saudável diante de vitórias e derrotas, contribuindo para um desenvolvimento mais amplo e integrado de todos os evolvidos.

Tenho a convicção de que investir no entendimento sobre o funcionamento básico do cérebro e na gestão emocional de jovens atletas de futebol não apenas elevará seu desempenho esportivo, mas também promoverá o desenvolvimento pessoal e social ao longo de suas trajetórias esportivas. A neurociência e a psicologia fundamentam suas descobertas científicas em pesquisas e estudos realizados com seres humanos, incluindo atletas de alta performance. Me parece que está mais do que na hora dos “gestores da bola” alertarem-se para a humanização dos futuros profissionais do futebol, entendendo, acolhendo e investindo no cuidado da esfera emocional de todos aqueles que trabalham e “vestem a camisa” dos clubes.

Foto: 📷 Cesar Greco/Palmeiras


*Maurício Rech tem formação acadêmica com Mestrado em Psicologia e Saúde e graduação em Direito, além de extensões nas áreas de Filosofia, Psicologia e Neurociências. Atua como professor, pesquisador científico e palestrante na área de Saúde Mental e Desenvolvimento Humano, integrando a área de psicoeducação aos seus trabalhos anteriores no esporte como advogado, agente e Diretor Executivo de Futebol Profissional e Categorias de Base.

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Bateu na Europa e voltou: Possíveis prognósticos

Por: Marcelo Rodrigues.

Embora não queira generalizar os casos, observamos infelizmente uma formação ruim dos nossos atletas do futebol brasileiro, notadamente quando são transferidos para algum clube europeu, detalhe este que passa despercebido muitas vezes por agentes, empresários e intermediários que, muitas vezes visando apenas ao lucro, se esquecem completamente dessa necessidade de preparação total do atleta.

Na ponta do iceberg, Barcelona, Paris Saint-Germain, Bayer de Munich, Benfica, Internazionale de Milão; Messi, Mbappé, Rodrygo, Neymar e Casemiro. Estas grifes e personalidades não são a regra do futebol internacional. Se iludam com os carrões, os salários em euros pagos regiamente em dia e não se preparem adequadamente… o resultado disso será o bater e voltar no concorrido futebol europeu.

Muito nessa falha de preparação se dá com os aspectos culturais do país para o qual o atleta irá mudar. Converso regularmente com atletas e eles têm o sonho de jogar na Europa. Não foram poucas as vezes em que alguns não souberam me responder adequadamente em qual país desejavam atuar, alguns acreditando até que Europa fosse um país, não um continente. Não exerço o meu trabalho para rir ou criticar pequenos deslizes, mas auxilio no esclarecimento de algumas dificuldades que terão, notadamen no Velho Mundo.

Esmiuçando aqui alguns aspectos:

1) Idioma: felizmente os clubes de ponta do futebol brasileiro (até em consonância com a legislação vigente) adota a prática escolar como regra básica. Contudo, no estudo de línguas, é recomendável que o jovem atleta tenha aulas de reforço por fora, investindo no inglês se pretende atuar na Premier League e demais ligas europeias, no espanhol se dese- jarem atuar na La Liga etc.

2) Cultura: felizmente, esse jeito relaxado de se levar a vida e ter penca de amigos não é regra lá fora. Assim, brasileiros muito acostumados a serem mais gregários poderão ter dificuldades com a forma mais fria com a qual lidarão com companheiros de time treinado- res etc. Esqueçam por ora a turma do pagode e churrasco. Lembrem-se do sábio provérbio: “Em Roma aja como os romanos”.

3) Alimentação: esqueçam o feijão e a culinária brasileira. Muitos pratos não encontram equivalentes aqui e uma dica que dou aos atletas é se permitirem alimentar coisas diferentes, afinal, você estará em um outro país com a sua culinária típica.

4) Clima: o inverno europeu é extremo e, em muitos casos, além da sensação térmica enregelante, você terá que driblar os dias nublados e com pouca ou nenhuma incidência do Sol. Transtornos psicológicos poderão acometer espíritos pouco preparados.

Observaram como em apenas quatro tópicos elenquei dificuldades a que atletas passar no exercício de sua profissão? Desenvolvimento de mentalidade, esta é a dica! Sonha ganhar os seus vencimentos em euros, a moeda que vale cinco vezes mais? Sonhar é permitido! Mas se prepare para viver o seu sonho. Nesta mochila de sugestões minhas, encha-a disso e muito mais: persistência, abnegação, escolha, compreensão e reta razão.

Empresários, agentes e intermediários que não dão atenção a esses detalhes, visando apenas ao lucro, estão corrompendo os so- nhos destes atletas, muitos deles jovens

Some-se a isso a nossa combalida educação pública que forma o cidadão apenas para pertencer ao mercado de trabalho, com pouca formação cidadã. Afinal, num país corrup como o Brasil, educação pública de qualidade seria o inseticida que acabaria com este flagel Rodrygo e Endrick, do Real Madrid e muitos outros atletas têm recorrido ao mental coach no sentido de auxiliarem suas respectivas carreiras, somando a todo um staff de profissionais. Cito estes dois, pois são casos públicos, fazendo eu questão de ajudar forma discreta e profissional, auxiliando para que estes sonhos sejam realizado entendendo o atleta como o ser humano no seu todo e não apenas como aquele boleiro endinheirado e rodeado de puxa-sacos que estão ali apenas para serem sanguessugas deste talento nato.

Autor do artigo: Marcelo Rodrigues.

Fotos:

Vitor Roque comemora gol pelo Real Betis – (crédito: Foto: Fran Santiago/Getty Images)

1) Fotomontagem (Autoria Própria)

2) https://midias.correiobraziliense.com.br/_midias/jp-g/2023/06 /08/675×450/ 1_melhores_brasileiros_na_euro- pa-28202567.jpg?20230608204209?20230608204209

3) https://assets.goal.com/images/v3/bltf9aa8d3750703d02/ Que_masda.jpg

4) https://asset.skoiy.com/jnrcnjwljorqgsbu/kvzo0qb681sj.jp- g?w=1852Gq=80G

Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com/

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Expected Goals (Gols Esperados) e a construção de uma equipe efetiva ofensivamente

Por: Matheus Grandim de Almeida .

Imagem1. Em PSG 0 x 1 Liverpool, Elliott marcou o único gol do jogo (Foto: REUTERS)

No espetáculo de uma partida de futebol, o momento máximo é o gol. As equipes se organizam para cumprir a lógica do jogo de futebol a todo o tempo: Marcar mais gols que o adversário com o menor número de ações possível (Leitão, 2009). Analiso o “menor número de ações possível” como número de ações ótimo, para cada jogada.

Porém, em partidas como o último PSG x Liverpool, marcado com vitória do Liverpool por 1 a 0 ficamos nos perguntando: Por que uma equipe que cria tanto não conseguiu converter?  A resposta vem com uma outra pergunta: Como foram essas chances?

Quando nos deparamos com essa questão, necessitamos compreender o conceito de efetividade no jogo de futebol. A equipe que busca sempre o número de ações ótimo para chegar ao gol, está de modo inerente visando um gasto energético coletivo ótimo para esse objetivo. Isso significa que a equipe tem como meta eliminar gastos energéticos desnecessários, alcançando maior efetividade.

Uma equipe, como sistema complexo, tem elementos, que com suas características individuais, interagem entre si e, através das interações formam uma organização específica daquele sistema, dando forma a um todo único. Se uma característica deste sistema mudar, ou se o modo como essas características se relacionam muda, o todo também irá mudar (Morin, 1997). Vamos deixar mais prático: Cada jogador tem suas características individuais, e essas características são expressas ao jogar. Ao interagir com colegas de equipe, diferentes características vão gerar um jogo específico daquela interação.

Se escalarmos no mesmo lado do campo Vinicius Junior, Rodrigo e Estevão, isso irá gerar um sistema específico desta interação. Se as interações forem buscando o ataque, teremos um sistema com dinâmicas que visam atacar o gol adversário gerando desequilíbrios específico dessa interação. Se as interações mudam e esse sistema precisa se organizar para ser mais defensivo, as dinâmicas mudam e o todo também muda.

Ainda, se fizer uma substituição e, por exemplo, trocar o Estevão pelo zagueiro Van Djik, as interações irão mudar e o todo também.

Isso nos leva à efetividade ofensiva de uma equipe, visto que a função dos treinadores e treinadoras é construir com o time, de acordo com as características individuais presentes na equipe, dinâmicas que tornem o ataque efetivo, chegando ao gol com o número de ações ótimo, com um gasto energético ótimo.

Uma métrica que nos ajuda nesse processo é o xG (Expected Goals, traduzindo como expectativa de gols). Recentemente, analisando dois recentes artigos sobre o tema construí reflexões para que isso seja treinável.

O primeiro texto analisado (Shot quality and results and football, da Soccerment) analisa as correlações das métricas de xG e a probabilidade de vitória de uma equipe.

Um exemplo bem recente, PSG 0 x 1 Liverpool do dia 05/03/2025 pela Champions League, mostra que não necessariamente um xG maior da equipe significa vitória. Veja como, apesar do grande volume de finalizações, as métricas do PSG apontam chances de baixo xG ou baixo xGOT, sendo a maior métrica obtida pela equipe francesa, a finalização de Dembelè com xG de 0.41 e xGOT de 0.43, métricas explicadas mais à frente.

Imagem 2. xG e xGOT de PSG e Liverpool pela partida da Champions do dia 05/03/2025 (SofaScore)

Após analisar que algumas equipes com xG total maior não venciam o jogo, os autores do primeiro artigo abordam que uma tendência observada está na verdade nas métricas de xG por chute e xGD (xG concedido).

(Imagem 3. Soccerment)

Equipes com xG por chute acima de 0,18 apresentam 70% de chance de vitória na partida. Porém, o adversário pode ter um alto xG por chute e essa porcentagem tende a cair, visto uma maior probabilidade do adversário em marcar.

Portanto, quanto maior a diferença entre a métrica de xG por chute das equipes, maior a chance de vitória para a equipe que obtiver maior xG por Chute.

Uma diferença de xG por chute maior que 0,05 apresentou vitória para o maior xG por chute em 71% dos casos. Já uma diferença menor que -0,05 apresentou vitória para o maior xG por chute em 10% dos casos.

Um aspecto importante é a influência do acaso. Em análise de regressão, a correlação entre xGD (xG concedido) e Xpoints (Expectativa de pontos na classificação) é maior (R2 de 0,55, respondendo 55% dos casos) que a correlação entre xG e a chance de vitória (R2 de 0,38, que responde 38% dos casos). São métricas consideráveis para o acompanhamento dessas tendências.

Baseado nisso, as equipes estão selecionando mais as finalizações, buscando finalizar cada vez mais próximas do gol, como podemos ver na imagem 3.

Um dos aspectos que analiso como influenciador dessa métrica é o grande repertório ofensivo, sustentados por conceitos robustos do ponto de vista tático, que fornece variações de infiltração e ataque a zonas vitais da área, regiões de difícil proteção, e que ocorrem a maioria dos gols, principalmente dentro do funil. Além disso, como abordado no texto, equipes que utilizam essas métricas como componentes do processo de treinamento também influenciaram esse cenário.

Mecanismos táticos como corridas de ruptura, auxiliadas por desmarques de apoio entre linhas, para gerar espaços de infiltração, dinâmicas para gerar bolas descobertas que possibilitam acionar atletas em ruptura são aspectos presentes que visam atacar zonais vitais na área, gerando e aproveitando as vantagens do jogo, como na imagem a seguir.

(Imagem 4. Soccerment)

Este gráfico mostra a importância de gerar dinâmicas de ataque ao funil, e estruturas defensivas coordenadas para defender regiões vitais (mais claras no gráfico) onde ocorrem a maior densidade de finalizações.

O xGOT é uma métrica importante neste cenário, referente às finalizações da equipe e afetando o xG por finalização final da equipe. Consiste em uma métrica que analisa apenas as finalizações que acertaram o gol e a probabilidade delas serem convertidas, fornecendo a informação sobre a eficiência técnica do atleta. Uma finalização pode ter um baixo XG, mas se executada com qualidade pode ter um xGOT alto. Assim, identifica-se também os atletas com alto nível técnico de finalização, informação importante para gerar boas situações de definição para este atleta.

Um exemplo é o gol marcado por Salah contra o Bournemouth. Esta finalização esteve como xG 0.05, ou seja, chance de gol de 5% em chances como esta, porém, nos pés de Salah o xGOT foi de 0.72, indicando que a eficiência do atleta em finalizar era altíssima, mesmo com uma chance de baixo xG.

Assim, gerar dinâmicas que deixem os atletas certos (melhores finalizadores) em zonas vitais da área e do funil é fundamental para maior efetividade da equipe. Veja as métricas desta finalização abaixo.

Imagem 5. (Estatísticas SofaScore)

De modo complementar ao primeiro texto, o segundo artigo analisado (Raheem Sterling Proves That Everything You Know About Goal-Scoring Is Wrong, escrito por Bobby Gardiner para o portal The Ringer) apresenta o caso de Sterling e sua efetividade ofensiva na temporada 18-19 da Premiere League, ilustra o conteúdo principal discutido: Potencializar as métricas xG dos atletas.

apresenta o caso de Sterling e sua efetividade ofensiva na temporada 18-19 da Premiere League, ilustra o conteúdo principal discutido: Potencializar as métricas xG dos atletas.

Para tanto, as perguntas que direcionam a resposta à essa questão são: O que é importante para uma finalização se tornar gol? O que de fato faz um atleta melhorar seu xG por finalização? Como um dos principais marcadores daquela temporada era criticado pela sua finalização?

Expected Goals (xG) é uma métrica que indica a probabilidade de gol por finalização, baseado em aspectos como localização, oposição, identidade do finalizador, técnica de finalização, tipo de passe recebido, a recepção deste passe, relação do posicionamento do goleiro e direção do chute.

O cerne do texto está nas métricas de Expected Goals e o aumento ou diminuição dessa métrica com base na qualidade das finalizações. Nesse ponto os gráficos abaixo ilustram bem esse ponto fundamental.

Imagem 6. (BobbyGardiner – Stratabet)

Imagem 7. (Bobby Gardiner – Stratabet)

Imagem 8. (Bobby Gardiner – Stratabet)

Os gráficos acima mostram o ranking de atletas por Expected Goals, e ao lado a sua margem de melhora ou piora de sua métrica com base na qualidade de suas chances. Messi, por exemplo, tem seu xG melhorado devido a suas chances terem muita qualidade. Esse aspecto se refere à sua capacidade de gerar chances qualificadas.

Aubameyang, por exemplo, já mostra piora de sua métrica de xG devido à qualidade ruim de suas chances de gol, e isso está ligado diretamente à sua capacidade de gerar chances de qualidade em suas ações.

A frequência de chances, porém, é tão importante quanto a qualidade delas. Cavani, como exemplificado pelo texto, teve alta frequência de chances, mas piora em sua métrica pela qualidade delas, porém mesmo assim fez 27 gols.

Com base nos gráficos, podemos dizer que o melhor jogador é aquele que tenha um alto xG e uma margem alta de melhora de sua métrica. Ou seja, é necessário aproveitar as chances, mas principalmente gerá-las com qualidade.

Para isso, é necessário compreender que o xG e o xGD são variáveis treináveis e devem estar presente na estruturação do treino.

De modo coletivo e setorial, desenvolver xG ocorre ao analisar as características dos jogadores e as interações dentro do sistema, sendo fundamental desenvolver dinâmicas que potencializem as interações e que geram chances com alto xG. Compreender quais dinâmicas geram chances com alto xG é importante pois a equipe passa a ser estruturada visando a efetividade ofensiva.

A mesma lógica se aplica ao xGD (xG por chance concedida), pois com base no estudo das situações geradas pelos adversários que obtiveram maiores xGD, as sessões de treino passam a ser voltadas em desenvolver o sistema defensivo para resolver problemas de modo setorial e coletivo visando anular essas situações nocivas ao sistema.

Esse conceito é fundamental para ser desenvolvido desde as categorias de base, mas é muito importante seu aprimoramento também no profissional. Os aspectos técnico-táticos individuais são de suma importância para que os atletas gerem situações qualificadas com potencial de alto xG.

Portanto, é interessante para melhora do xG por parte dos atletas, atividades em que o atleta necessite estar mapeando o espaço, gerar e atacar espaços, timing para a realização da ação, orientação corporal, resolução de problemas a um toque, repetições de diferentes situações de finalização com diferentes tipos de passes.

Abaixo, um exemplo de como isso pode ser utilizado na potencialização da equipe:

Imagem 9. (Estatísticas SofaScore)

Na imagem acima, é mostrado o mapa de todas as finalizações do Liverpool na partida contra o Bournemouth. Dentre todas as finalizações, a destacada é a que maior obteve xG, com métrica de 0.79. Além disso, mostra um alto xGOT (0.87).

Este dado mostra que esta finalização foi um pênalti e teve alta chance de gol e finalizada por um atleta com alta performance técnica de conversão. Resultado mais provável é o gol. Foi o que aconteceu. Essa finalização é um pênalti, e o retrospecto de Salah em pênaltis é positivo. Gerar situações de possibilidade de pênalti é uma vantagem para o Liverpool, porém vamos focar nossa análise em situações de bola rolando, assim como o texto enfatiza. Analisaremos a segunda finalização com maior xG, um cabeceio de Luis Dias.

Imagem 10. (Estatísticas SofaScore)

Esta finalização teve o maior xG dentre todas as situações geradas de bola rolando (0.50), e xGOT de 0.40. Ou seja, tinha uma alta probabilidade de gol, e uma execução com média probabilidade de conversão.

Nesse ponto, vemos que pode ser uma dinâmica em potencial, mas se um atleta com melhor aproveitamento dessa oportunidade estivesse nessa posição atacando a bola, a probabilidade de conversão poderia ser melhor.

Vamos a algumas situações práticas ilustradas.

Na partida entre Newcastle e Leicester, a finalização de bola rolando com maior XG foi a de Isaac, com métrica de 0.60 e xGOT 0.99. Alto xG, alto xGOT. Vamos analisar como essa jogada foi desenvolvida e como o Newcastle pode ter essa dinâmica gerada com maior frequência.

A jogada foi um cabeceio, que originou de uma transição ofensiva com ataque veloz pelo lado esquerdo de Gordon e Hall, com Joelinton livre no meio como armador.

Imagem 11. (Estatísticas SofaScore)

Imagem 11. A dinâmica criada inicia com o Newcastle com jogo apoiado com 4 jogadores do lado direito, atraindo a pressão de 5 jogadores no Leicester para este setor. No lado oposto, a equipe do Newcastle tem vantagem numérica de 4 x 2 com Joelinton livre no meio para a retirada. A inversão rápida e apoiada é fundamental para atacar o lado oposto em vantagem

Imagem 12. Bola no lado oposto, Tonali ataca o espaço entre o lateral e o zagueiro do Leicester, fixando o lateral adversário e dando tempo e espaço para Gordon esperar a ultrapassagem de Hall.

Imagem 13. Gordon conduz para dentro, atraindo a pressão de dois marcadores, liberando espaço para Hall ultrapassar e cruzar com liberdade.

Imagem 14. Isaac no funil, ataca o “espaço da dúvida” (espaço onde há milésimos de segundo de indefinição entre zagueiros e goleiro, vital para finalização. Gol de Isaac fechando o placar.

Imagem 15. Gol de Isaac

O aspecto importante para o desenvolvimento da equipe é treinar para que essa dinâmica possa ser gerada com mais frequência nas partidas, pois gera alto XG devido aos espaços para progressão e ataque à bola que surgem da dinâmica, além de espaço de força pela esquerda, com dois jogadores de espaço de força interagindo entre si (Gordon e Hall) com Joelinton livre por dentro.

O interessante é levar isso para o treino, atividades que trabalhem as situações em que a equipe conseguiu maior xG para tornar-se um padrão do sistema. Porém, para isso é fundamental que se analise quais características se relacionaram em cada momento da jogada, desde a construção, a criação e a finalização, como progrediu em cada fase do campo e como finalizou.

Os seres humanos que jogam são protagonistas do espetáculo, entender suas características individuais, o modo como interagem dentro do sistema é fundamental para que padrões sejam desenvolvidos, ou descobertos, pois dinâmicas não treinadas também podem surgir das interações. Vai da sabedoria dos treinadores e treinadoras identificarem essas dinâmicas para que passem a ser padrões no sistema.

Isso é efetividade ofensiva, é a estatística sendo muito mais que um número, não esquecendo que quem joga são seres humanos.

Referências:

LEITÃO, Rodrigo Aparecido Azevedo et al. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. Campinas (SP): Universidade Estadual de Campinas, 2009.

MORIN, E. O método 1. A natureza da natureza. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1997.

Artigo 1. Shot quality and results in football – Soccerment

Artigo 2. theringer.com/2018/1/12/16879916/soccer-raheem-sterling-manchester-city-goal-scoring-expected-finishing-skill