Por: João Batista Freire e Rafael Castellani
É praticamente impossível conhecermos uma criança que não goste de brincar. Para elas, tudo aquilo que é percebido como brincadeira, causa um efeito irresistível de experimentá-lo, de se deixar envolver. É tentador para toda, e qualquer criança, deixar qualquer coisa que esteja fazendo para se envolver com uma brincadeira. Essa tentação também é experimentada pelos adultos, no entanto, passam anos aprendendo a resistir a sedução da brincadeira. Fazem-no para se tornarem sérios e poder trabalhar, dar conta das obrigações, governar, obedecer. Tornam-se pessoas disciplinadas. Reservam, para a diversão, apenas momentos especiais. Mas brincar, cair na farra, é muito bom! De vez em quando esses adultos não resistem e quebram a disciplina, fogem às obrigações, distraem dos trabalhos… é como se, nesses momentos, entregassem o controle de suas ações ao jogo. É, esse tal de jogo, brincadeira, chamem do que quiser, é irresistível! começar pela raiz que justifica o mandato do Presidente da Confederação Brasileira de Futebol:
Houve um tempo, não muito longevo, que brincar de bola na rua era a principal diversão e passatempo das crianças. Brincava-se de golzinho, bobinho, altinha, rebatida e, quando a situação tomava ares de seriedade, até “jogo contra” a rua vizinha acontecia. Não que os videogames não tenham nada a ensinar às nossas crianças, mas nada se compara ao poder educativo de uma boa brincadeira de futebol na rua. E aprendia-se muito! É uma pena que as escolas de educação formal, e as “escolinhas de futebol”, não tenham se dado conta ainda do quanto a criança aprende brincando.
Parte do desinteresse que nossas crianças apresentam pela escola deve-se ao fato de não verem sentido e razão naquilo que ensinam. Mas, principalmente, pela forma com que cada conteúdo, relacionado à matemática, português, história, dentre outros componentes curriculares, é ensinado. É chato aprender. Sentados numa carteira por horas, sem poderem levantar-se, correr e rir, ouvindo e copiando “matéria” da lousa, é de se esperar que não gerem interesse nas crianças mesmo. Se fosse do jeito que as brincadeiras se mostram para elas, sem dúvida qualquer matéria escolar seria interessante, afinal, seriam coisas de crianças. E raramente uma criança é tratada como criança.
Até nas “escolinhas” de futebol crianças são tratadas, frequentemente, como miniaturas de atletas profissionais. Às vezes para satisfazer os interesses dos pais ou do mercado, às vezes por puro desconhecimento, é comum os professores das escolas de esporte reproduzirem os treinos realizados por atletas de alto nível ainda que, obviamente, respeitando critérios de complexidade e intensidade. O mesmo acontece em outros ambientes que fazem parte da vida da criança. É comum, na família, serem tratadas como protótipos de adultos projetados pelos pais, na escola, como projetos de adultos idealizados por este ou aquele grupo de adultos, na religião, idem.
E onde as crianças possuem mais liberdade para se expressarem como crianças? Na rua! Por isso, o futebol de rua é tão divertido, é tão atraente e gera tanta aprendizagem.
Acostumamo-nos à ideia de que, para aprender futebol atualmente, devemos nos recorrer às “escolinhas” de futebol ou às categorias de base dos clubes. Afinal, é nestes espaços que se encontram os “detentores” do saber (não à toa as escolas comandas por ex-atletas são muito procuradas). No entanto, pouco refletimos sobre a aprendizagem propiciada nestes ambientes. Via de regra, se reconhece que as crianças aprendem algo, sobre futebol, especificamente, fora da escola de educação formal ou escolas e clubes de futebol, mas pouco valor se dá à forma como aprendem nestes outros espaços. É como se educação sem mestre declarado não fosse exatamente uma educação, de forma que não poderia ser descrita. Ou seja, a ideia geral ainda é aquela, segundo a qual, quando aprendemos algo, é porque alguém preparado para ensinar nos ensinou.
A rua é entendida por nós como um espaço público de educação quando nos referimos a formação para a vida em cidadania, a vida coletiva, a vida política e social. Vale destacar, também, que a rua, conforme a entendemos, não se limita ao intervalo delimitado pelas calçadas e onde trafegam os carros e bicicletas, mas, também, as praças, praias, campinhos de várzea; é um ambiente no qual as crianças aprendem a jogar bola, independente da presença de um adulto ou professor, pois nela, eles brincam. E quando brincam, se divertem. Se interessam por aquela prática, pois ela lhe dá prazer. Brincar, para as crianças, é coisa séria!

A APRENDIZAGEM INEVITÁVEL E INCONTROLÁVEL DA RUA
Imaginemos um grupo de quatro crianças, dois meninos e duas meninas, entre quatro e cinco anos de idade brincando de “Copa do Mundo de futebol” na garagem da casa de uma delas. Vamos chamar esse espaço de rua, porque não é convencional, não há adultos ensinando crianças, tampouco há um currículo, livros didáticos, aprendizagem institucionalizada e outras características típicas da educação formal que se desenvolve no ambiente escolar.
Portanto, vale destacar novamente que a rua, tal como a abordamos neste texto, não se restringe a um espaço público, limitado por calçadas, onde circulam pessoas, automóveis, bicicletas… No espaço das crianças de nosso exemplo, há bolas, roupas, bonecos, caixas de papelão, chinelos (os gols) e outros objetos. Todas falam aqui e ali, a mais velha fala mais, pegam objetos, colocam em lugares combinados, tiram, colocam de novo, organizam os bonecos torcedores, os bonecos da imprensa, e começam a brincar de futebol enquanto uma delas passa a narrar o jogo durante o jogo. Difícil acompanhar e entender o que fazem; é tudo muito criativo e diversificado.
Aparentemente, imitam o que é feito pelos jogadores profissionais, mas não é igual. Tudo tem uma conotação mágica, os problemas são resolvidos rapidamente, as brigas, que ocorrem com frequência, dissipam-se, não restam mágoas, a brincadeira prossegue. Há algumas aprendizagens visíveis pela diminuição das dificuldades em realizar um gesto ou uma jogada, pelo entendimento das sugestões da criança mais velha, pelas imitações etc.
Mas isso não é tudo. Numa avaliação convencional, somente essas coisas visíveis poderiam ser solicitadas. Se deixarmos de lado hipóteses de avaliação, podemos aventar inúmeras outras aprendizagens não perceptíveis superficialmente, portanto, impossíveis de provas convencionais.
Em todo processo de formação de conhecimento, ou de aprendizagem, há uma maneira de formar o conhecimento ou de aprender. Na família, de modo geral, há imposições de comportamentos feitas pelos adultos em relação às crianças: “Não”, “Isso está errado”, “É melhor fazer assim”, “Você vai se machucar” etc. Na escola convencional, o processo é orientado por professores com autoridade para transmitir conhecimentos, seja pelo cargo que ocupam, seja pela formação acadêmica que possuem. Esses conhecimentos são previamente preparados, desde um currículo nacional até um plano de aula, e impostos aos alunos. Senão com a mesma severidade que ocorre em família, pelo menos com advertências igualmente rigorosas em relação às consequências da recusa ou do fracasso quanto à aprendizagem. Na rua, é outra coisa. Embora no grupo aqui considerado haja uma criança mais velha sugerindo, e até dando ordens, não há a mesma seriedade quanto a isso, nem da parte de quem sugere, nem dos mais novos. É um faz-de-conta, um tipo de jogo, onde tudo é de mentirinha. Portanto, a pressão do compromisso, típico da família, da escola e de qualquer tarefa obrigatória, não existe.
Até porque, no ambiente lúdico, o descompromisso com algo exterior aos jogadores é o fundamento. Na brincadeira dessas crianças, nada parece ser sério na visão dos adultos, nada parece ter utilidade. Portanto, é um jogo. Se não é útil, então, é jogo. Claro que estamos considerando o termo utilidade somente do ponto de vista da visão adulta utilitária. As consequências dessas brincadeiras para a formação de vida dessas crianças ainda estão longe de ser compreendidas por nossos pesquisadores.
Os riscos imaginários de tentar o novo e de criar em ambientes institucionais, como a família ou a escola, fazem as pessoas, boa parte das vezes, relutar, recuar, evitar enfrentar as novidades ou apresentar alguma criação. Mas no ambiente lúdico, até o medo é de mentirinha, e surge como desafio a ser enfrentado. No caso das crianças brincando de futebol, elas inventam um ambiente onde muitas situações podem ser criadas, dando margem ao enfrentamento de novidades e mesmo à provocação de novidades. São apenas quatro crianças, mas elas criam um ambiente que, além de lúdico, é fora das instituições reconhecidas pela sociedade como responsáveis pela educação das crianças, como a família e a escola. De certa maneira, trata-se de outro grupo social; um grupo que agora habita um espaço público, o que é bem diferente da família e da escola, embora com as restrições do insipiente desenvolvimento de crianças muito novas.
Mesmo considerando que o desenvolvimento moral e social dessas crianças é insuficiente, elas estão começando a habitar um mundo que não é mais o mundo privado. A literatura costuma descrever a entrada da criança no mundo público a partir do momento em que, segundo determinadas teorias, ela está madura, por volta dos seis a sete anos de idade. Mas isso não procede, porque não é algo que um dia começa, afinal, sempre esteve lá na criança, potencialmente.
Apenas que, enquanto amadurecem funções como a imaginação, a motricidade, as relações afetivas, a própria ampliação da motricidade e do pensamento, com a consequente ampliação do espaço de atuação, a criança entra em relação com outros que não os da vida privada. É o caso das crianças aqui descritas. Claro que estamos falando da sociedade de hoje; no mundo antigo, as relações, tanto em casa como fora dela, eram bastante distintas das atuais.
Também não nos referimos à vida privada e pública, familiar e social ou política dos adultos. Nosso interesse, neste momento, é exclusivamente em relação às crianças e sua passagem do espaço privado para o espaço público. Essa passagem para a vida pública, que no grupo das crianças aqui descritas, não distingue as meninas dos meninos, daí por diante ganha diferenças notáveis.
Especialmente quando nossa atenção volta-se, acima de tudo, para a educação da rua e, como decorrência, a Pedagogia da Rua, manda a tradição de nossa sociedade, que os meninos terão acesso menos limitado à rua que as meninas. E isso terá consequências dramáticas e, possivelmente, devastadoras. Entre elas uma sociedade definida e dirigida, por vezes, desastrosamente, pelos homens. Há um mundo a ser descoberto, porque negligenciado historicamente por nossas pesquisas. Um mundo habitado por crianças, em um espaço público que escapa à educação familiar e escolar, que ainda não foi compreendido. Possivelmente os grupos infantis constituem a sociedade mais precoce de nossas vidas. A formação para a vida pública deve começar nesses grupos, essas pequenas sociedades infantis, que ainda não compreendemos, porque não as estudamos.

A RUA NOS ENSINA MUITO MAIS DO QUE DRIBLAR, PASSAR E FAZER GOLS
A escola não é a Rua. Tampouco a rua é a escola. A rua é outro ambiente, com outra orientação, outro modo de fazer as coisas, e onde as relações se estabelecem de outra forma. Diferente. Nem melhor, nem pior. Aprender a controlar bem a bola em uma brincadeira de rua, não significa que fazer do mesmo jeito na escola levará ao mesmo resultado. Principalmente porque não será possível fazer do mesmo jeito. A Rua, isto é, o espaço de convivência de crianças (mas também de adolescentes e adultos em diversas situações), tem características irreprodutíveis.
Quando a prática da Rua vai para a aula na escola – por exemplo, uma brincadeira – ela é, ou deveria ser, pedagogizada. Significa que servirá a propósitos diferentes, porque a escola, ou qualquer outra instituição de ensino, tem compromissos com a sociedade fora dela mesma. Ela prepara conscientemente para uma vida em sociedade (mesmo que esse trabalho não seja bem-feito); a Rua não tem essa orientação. A brincadeira de Rua esgota-se nela mesma, é jogo apenas, isto é, aquele tipo de acontecimento que não tem qualquer compromisso além dele mesmo.
Isso não quer dizer que as aprendizagens da Rua não terão repercussões em diversas outras situações ao longo do tempo futuro, inclusive na escola. Porém, na Rua não há esse propósito, afinal, a Rua não é uma instituição cujos propósitos e ideologias estão declarados. Mais especificamente no caso do Futebol, quando o ensino é institucionalizado, tal como se busca fazer principalmente nas escolas de futebol e categorias de base dos clubes, é possível ocorrer uma orientação pedagógica totalmente desvinculada da cultura da Rua, assim como é possível também adotar uma orientação pedagógica que procura reproduzir a Rua ou tê-la como referência. Em parte, isso significa trazer para as aulas e treinos de futebol, seja nas escolas de esporte ou categorias de base dos clubes, o aspecto lúdico, sobretudo por seu caráter de diversão, de alegria e de prazer, e as questões afetivas que permeiam toda e qualquer prática social, neste caso, o futebol.
O prazer e a alegria de jogar futebol não estão presentes somente em crianças e jovens. Sim, está certo que é nesses períodos de vida que mais podemos brincar e nos divertir, mas não é porque crescemos e nos tornamos adultos que o futebol precisa se tornar algo maçante, chato, repetitivo e desprovido de alegria e divertimento. O que mais diverte crianças e jovens na prática do futebol: aguardar numa fila seu raro momento para dar um chute na bola ou brincar de rebatida? Driblar cones em direção ao outro lado do campo ou brincar de driblinho/golzinho na rua? E os adultos (e aqui vale considerar até mesmo os(as) atletas profissionais): quando correm em volta do campo para aquecer ou quando brincam de bobinho?
É comum vermos, independente da instituição/espaço na qual se ensina o futebol às crianças e adolescentes, cones dispostos simetricamente em filas para serem fintados ou driblados. Vale ressaltar que tal prática também é notada, com frequência, no âmbito do futebol profissional, com adultos. Diante destas circunstâncias, não há risco, não há mobilidade nos cones, não há ameaças, não há um tempo imprevisível para realizar a finta ou drible, não há tensão, não há diversão, não há jogo. O cone simplesmente fica ali, inerte, no lugar em que o colocaram, dócil, não mais que uma referência para repetições mecânicas de gestos previamente determinados.
Sua função é simular a presença de uma pessoa, algo que nem de longe consegue. Quando muito, resta, para quebrar a monotonia, uma ou outra fantasia que meninos e meninas produzam, intimamente, sem que ninguém saiba disso além deles mesmos.

Julgam os inventores da tal “pedagogia do cone”, que isso levará os praticantes ao conhecimento e desenvolvimento de determinadas ações técnicas relacionadas ao futebol, tal qual a finta, drible, condução, entre outras. Há método nisso, claro, mesmo que esse método não habite a consciência do inventor. Nada se faz sem método. Trata-se de um método de transmissão, pura e simples. Um professor ou treinador diz para um aluno ou atleta repetir o gesto de contornar os cones, porque, dessa maneira, o aluno/atleta repetidor aprenderá a conduzir a bola e driblar um adversário. O adversário, no caso, é o cone, e o repetidor terá que realizar um enorme esforço criativo (talvez consiga, talvez não) para imaginar que o cone é seu adversário. É esperado pelo inventor, ou mero reprodutor, da pedagogia do cone que, como resultado desses exercícios, os jogadores (repetidores), quando estiverem participando de um jogo contra um time adversário, possam aplicar o conhecimento de conduzir e fintar cones diante de pessoas de carne e osso.
Há algum sentido nisso? Com tal procedimento, os meninos e meninas aprenderão o difícil gesto de fintar e driblar adversários em jogos de futebol? Sim, é impossível que nada se aprenda agindo dessa maneira. Os pés dos meninos e meninas se ajustarão ao gesto, que ficará mais refinado. Há um objetivo nisso que orientará o modo de tocar a bola, de se ajustar a ela, de mantê-la sob controle enquanto a pessoa muda de direção etc. As repetições filtrarão o gesto, eliminarão resíduos e, ao final, algum conhecimento restará. Alguns dirão que o gesto técnico estará refinado! Ainda assim, de que forma se espera que crianças e jovens se envolvam em exercícios como esse? Com alegria e prazer? Ou com tédio e impaciência diante do “interminável” tempo de espera nas filas?
Porém, é bom que se esclareça: embora ocorra alguma aprendizagem a respeito da arte de fintar, driblar ou conduzir a bola, neste caso específico, essa arte se aplica, antes de tudo, aos cones, não às pessoas.
Considerando que cones são pouco semelhantes às pessoas, quando, no jogo, no lugar de cones houver adversários de carne e osso, a generalização desse conhecimento será, provavelmente, muito pequena, ou insignificante. Convenhamos que é bem diferente fintar um cone e fintar uma pessoa! Ou seja, de que adianta um(a) jogador(a) possuir uma técnica refinada para determinados gestos se este não poderá ser reproduzido no contexto do jogo?
Imaginemos agora outra situação: meninas e meninos aprendendo a fintar ou driblar pessoas. Uma professora propôs um jogo em que seus alunos serão incentivados a fintar ou driblar e conduzir uma bola durante uma prática muito divertida. Eles tentam fazer gols, mas há mais defensores que atacantes. E qualquer gol feito após uma finta vale o dobro.
Como difere esta situação da anterior, em que os praticantes (sejam eles crianças, adolescentes e até mesmo adultos que já praticam o futebol profissionalmente) tinham que conduzir a bola e fintar ou driblar cones, não é mesmo?! Os adversários não estão dispostos estaticamente em filas. O risco de perder a bola é permanente, os adversários não param de se movimentar, o tempo para agir é mínimo, a imprevisibilidade é a marca de todas as ações, a tensão é constante, mas, ainda assim cria diversão, há jogo, há alegria, há prazer. Os adversários são de carne e osso, não ficam inertes, dóceis e os gestos de quem vai fintar não podem ser previamente determinados.
Imaginemos, também, que, na mesma aula/treino, a criança viveu, não uma, mas dez ou quinze situações em que teve que enfrentar um adversário e decidiu fintá-lo. A cada vez, seus gestos, mesmo sendo semelhantes a gestos anteriores, não eram iguais. Não eram iguais, porque seus oponentes eram diferentes, a posição no espaço era diferente, as reações dos adversários eram sempre diferentes, e porque ela, a cada vez, mantinha uma relação estreita com o adversário, suas reações tornavam-se sempre diferentes.
Algumas vezes ela conseguia fintar, em outras não, e tudo isso se incorporava ao seu baú de repertórios, ao seu leque de oportunidades. Em uma única aula ela acumulou em seu repertório, talvez, centenas de novos movimentos, somente em relação à finta. Claro que todos esses movimentos guardam semelhanças, pois têm em comum o gesto mais geral da finta (ou drible), mas que, na vida de ações práticas, não existe; é apenas um esquema geral que une todas as ações de fintar, pois nunca um gesto para fintar será igual a qualquer gesto anterior.
Seguramente, a criança que fintava pessoas repetiu muito mais vezes o gesto de fintar, durante uma aula, que a criança que fintava cones, mas em ambas as situações, as repetições eram de caráter completamente diferentes.
Sob nosso entendimento, é muito mais significativo o enriquecimento das coordenações que formam a habilidade de fintar (ou driblar e conduzir a bola, por exemplo) quando se trata de fintar pessoas. Sem contar que consideramos apenas o plano das coordenações motoras.
Sequer discutimos (e isso deverá ser feito em outro momento), por exemplo, o plano afetivo, afinal, não é preciso ter coragem para fintar um cone, mas é preciso ter coragem para fintar uma pessoa. Um cone não dá medo, uma pessoa pode dar, e assim por diante. Tentemos traduzir em um exemplo aquilo que vimos buscando explicitar. Imagine uma menina, criança, de apenas nove anos de idade, chamada Cinara. Cinara tinha frequentado durante seis meses uma escola de futebol. Nessa escola de futebol, seus maiores oponentes eram cones. E ela aprendeu a fintar cones. Tornou-se exímia dribladora de cones. Mas Cinara pediu para deixar a escola de futebol depois do primeiro jogo contra a equipe de outra escola de futebol, pois ela não conseguiu driblar ninguém e nem marcou gols. Deu “tudo errado” e saiu do jogo chateada. Sua mãe ouviu falar de uma escola de futebol que as crianças adoravam e matriculou Cinara nessa outra escola. Ela começou a aprender a jogar futebol de outro jeito, não havia cones, parecia mais difícil, mas a professora inventava um monte de brincadeiras de driblar e as crianças se divertiam muito. Erravam bastante e, num primeiro momento, Cinara errava muito mais do que quando driblava cones, mas também acertava bastante. Quando foram fazer o primeiro jogo contra outra equipe, Cinara conseguiu driblar várias vezes e saiu muito feliz do jogo. Até hoje ela está nessa escola de esporte.
Quando a Cinara, ou qualquer outra criança, jovem ou adulto em fase de aprendizagem, conduz a bola durante o jogo e pára na frente do adversário, ela pode ter várias opções, mas tem um tempo mínimo para se colocar diante de tais opções e escolher a melhor. Isso não quer dizer que, conscientemente, colocará à sua frente todas as opções de gestos que acumulou. Trata-se de um processo quase que inteiramente inconsciente. Vamos supor que ela tenha escolhido como melhor opção fintar seu oponente.
Novamente, vale ressaltar, o adversário não é um cone, é uma pessoa e tem um tamanho diferente de todos os outros adversários. Seu oponente se mexe, ele não fica parado como um cone, e isso dificulta tudo. Cinara experimenta se mover para o lado direito, o adversário faz o mesmo e a cerca, ela volta, para, movimenta-se para frente e volta, imediatamente sai pela esquerda, pára, retrocede, avança pela esquerda de novo e consegue enganar seu(- sua) rival. Ao contrário do que ocorria quando tinha que driblar um cone, ela fez, não um, mas dezenas de gestos diferentes.

Teve êxito, mas poderia não ter tido. Mas se fracassasse, o enriquecimento de seu repertório para fintar, ainda assim, seria enorme. Cada gesto feito ficou guardado, como em um banco de dados. Nas próximas vezes em que ela tiver que enfrentar a situação de fintar, poderá recorrer a um repertório maior que nas vezes anteriores.
Vale ressaltar, entretanto, que o foco deste texto não é discutir se nos aquecemos melhor correndo em volta do campo ou jogando bobinho. Ou se aprendemos a driblar melhor passando por um cone ou jogando golzinho na rua, mas sim trazer para o debate a ideia de que tudo isso pode ser feito com alegria, diversão, prazer, ou seja, fazendo da prática do futebol uma experiência positiva, prazerosa e, consequentemente, duradoura. Como já antecipamos, o outro aspecto que gostaríamos de destacar, também ligado ao plano afetivo, refere-se aos desafios, medos, situações de sucesso e fracasso, que costumeiramente a rua nos ensina.
Certamente, realizar um drible em um adversário é muito mais instigante do que em um cone ou em um adversário invisível.
Executar uma finalização ou desarme com a cabeça a partir de uma bola cruzada da lateral e com a presença de um adversário é muito mais desafiador do que lançar a bola com as mãos para o próprio cabeceio. Marcar ou enfrentar a marcação de um jogador mais rápido, mais alto ou mais forte que você, lhe ensinará muito mais a lidar com o medo do que ser marcado por um cone. Ou seja, é certamente no contato com o outro, em situação real ou simulada de jogo, que esses aprendizados se dão de modo mais intenso e permanente.
Isso não significa que, automaticamente, tal tipo de aprendizagem se transfere para outras situações de vida. A rua não tem esse compromisso. Num primeiro momento, aquilo que uma criança aprende jogando bola, superando medos, fracassando e sendo bem-sucedida, vivenciando o êxito ou a frustração, restringe-se ao plano imediato das ações práticas do jogo. A repercussão dessas aprendizagens na vida fora do jogo e ao longo da vida, mantém-se como mistério; muito do que sabemos, especialmente no plano afetivo, não sabemos de onde veio.
Porém, a rua não tem compromisso pedagógico. A aprendizagem da rua é uma aprendizagem ligada ao que se vive; na rua, aprende-se a viver, vivendo. Porém, quando compreendemos o que se passa na rua e transpomos esses ensinamentos para as escolas ou clubes, começamos uma outra história.
A escola sim, tem compromisso com ensinar tecnicamente, de imediato, e também com a formação para a vida. Aquilo que a rua faz tão bem, a escola tem que fazer, pelo menos, razoavelmente. E aquilo que a rua não faz, a escola tem que fazer. O que os conhecimentos de cada prática transcendem a própria prática e se estendem a outros campos do conhecimento (por exemplo, a superação de desafios, a definição de estratégias se transferindo ao conhecimento matemático) são, em boa parte, componentes de nosso inconsciente.
Podem chegar a outros campos do conhecimento, mas não saberemos como, nem quando. Porém, essa educação da rua transformada em pedagogia nas escolas pode alimentar uma metodologia que produza tomadas de consciência. Aí sim, os conhecimentos tornados, ao menos parcialmente, conscientes, podem ser orientados para potencializar conhecimentos em outras áreas.
Artigo originalmente escrito e cedido a Universidade do Futebol pela Revista Futebol Estudado, no seguinte endereço: https://www.revistafutebolestudado.com/