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A responsabilidade científica do futebol

Já o Sporting tinha sido excluído da Champions League, por duas derrotas descomunais e o Benfica, ainda na fase de grupos, sofrera igual tratamento porque mostrou, sem margem para dúvidas, que se encontrava corroído por uma espécie de cancro de que não se conhece a origem e eis que por causa de um erro do árbitro Lucílio Batista, na final da Taça da Liga, o mundo lisboeta do futebol rompeu em sanhudos debates, sustentando os sportinguistas que o árbitro os “roubara” propositadamente e os benfiquistas que a Taça lhes coube, em clara honradez de processos.

Entretanto, o F.C. Porto assiste do pódio de campeão, piscando um olho discreto e vencedor, à conversa azeda entre os dois principais clubes da capital, que parecem viver em clima de marasmo, derrotismo, de verdadeira confusão mental.

Com efeito, o que é a Taça da Liga? No âmbito europeu muito pouco! No âmbito nacional, é uma prova que serve, à maravilha, para o Sporting e o Benfica esconderem a sua gritante incapacidade à conquista do Nacional de Futebol e para se afirmarem no futebol europeu.

Não ponho em causa as poucas e lúcidas páginas que justificam a Taça da Liga. O que está aí, à vista de toda a gente, é que os principais clubes, ou olham para ela com um olhar lateral e sem interesse, ou fazem o que os actuais Benfica e Sporting (e digo actuais porque já os conheci, quando escreveram páginas imorredoiras, na história do nosso futebol) parecem ser especialistas: legarem à posteridade um retrato onde se surpreendem os tiques e os ridículos de uma macrocefalia que se fez acéfala.

E, no entanto, há no Benfica e no Sporting funcionários e técnicos (incluindo os de saúde) de eloquente competência e honestidade. Uma boa parte deles conheço-os, há largos anos. Alguns muito me ensinaram, quando foram meus alunos. O que se passa então, no futebol sénior destes clubes, que se encontra confuso e envolto em sucessivos falhanços, mascarados por longas disputas e cansativas parlengas?

Há poucos dias, um daqueles técnicos, que não teme cotejo com o que de melhor apresenta, na sua área, o futebol inglês, ou o italiano, ou o espanhol, confessava-me, derramando uma sentida tristeza: “Professor, no campo da avaliação dos índices de fadiga e do controlo de treino e da recuperação física e da prevenção das lesões etc. e até no da observação e análise de jogo, estamos ao nível do que melhor se faz na Europa e por isso lhe pergunto: o que nos falta, no seu entender, para sermos uma equipa vencedora?”. Tinha o rosto carregado de ansiedade e prosseguiu: “Lembro-me, com frequência, do que nos ensinava nas aulas e muitas vezes dou comigo a repetir: é preciso saber mais do que futebol, para se saber de futebol. Professor, estou rodeado de gente que sabe de futebol e a prestação da equipa, que tem jogadores de classe, é um rosário de insucessos”.

Sempre tive receio de falar do que nunca fiz. Se bem que razoavelmente informado, designadamente no que à filosofia das ciências diz respeito, sou um modestíssimo filósofo. No entanto, não posso esconder que levo uma vida de convívio fraterno com treinadores desportivos de excepcional relevo, como o Mário Moniz Pereira, o José Maria Pedroto, o Mário Wilson, o José Mourinho. Leio, atentamente, os livros do Jorge Castelo, um teórico sem par no futebol europeu, do Jorge Araújo, que realiza um incomparável (entre nós) trabalho interdisciplinar desporto-gestão, do José Neto que não se cansa de apontar-me os pontos mais salientes da vasta problemática do futebol. Escuto o que o Jorge Jesus me relata do seu dia-a-dia de treinador perspicaz e diligente. Acompanho, mesmo com entusiasmo, o futebol português e o internacional. Não me escusei, por tudo isto, à resposta que o meu interlocutor me solicitava:

Se todos sabem muito de futebol e a equipa, mesmo com jogadores de grande valia técnica, não é eficiente, a organização, que transforma um conjunto em sistema, não funciona.

Repito: é a organização que une e transforma os elementos em sistema. Mas esta união é mais qualitativa do que quantitativa. Um conjunto de bananas não faz um sistema. O conjunto é sistema, quando é corpo e alma, ou seja, quando o jogador corre e remata e defende e luta… porque acredita! Quando o seu desempenho, a sua atitude ganhadora resultam de uma totalidade que não se desmorona porque objectivos bem nítidos e fundamentados a informam. Um dos mais notáveis biólogos de todos os tempos pode ser ouvido, neste passo: “o que define uma máquina são as relações (…). A organização de uma máquina implica matéria, mas esta matéria não entra enquanto tal na definição de máquina” (Francisco Varela, Autonomie et Connaissance. Essai sur le vivant, Seuil, Paris, 1992, p. 128).

Agora, meu querido amigo, sou eu a perguntar-lhe: todos os jogadores do seu clube acreditam no treinador e naquilo que ele determina ou propõe?… Redarguiu, sem dificuldade: “Nem todos”. E eu muito lépido: assim, as relações estão inquinadas e a máquina funciona mal, inevitavelmente! Os jogadores até podem ser muito profissionais, mas só se é vencedor quando se é mais do que profissional, quando se é, digamos a palavra: crente! Resumindo: quando, sem rejeitá-lo, se ultrapassa o próprio raciocínio lógico e dedutivo.

Na alta competição, o futebolista é, em todos os momentos, interpelado, convocado a dar uma resposta complexa, total às solicitações do jogo e da própria vida. A responsabilidade do futebolista (como do praticante de qualquer outra modalidade, em alta competição) é humana, bem antes de ser futebolística.

“Que hei-de eu fazer, professor?”. E a interrogação ficou a ressoar, expectante, na boca do meu antigo aluno. Respondi-lhe: leia os dois últimos livros de Edgar Morin, publicados pela Editora Piaget. Leia, sem receio, criticamente. O que embrutece não é a falta de instrução, mas a convicção da inferioridade da nossa inteligência. São duas obras de reduzida dimensão e, depois, voltamos a falar. A responsabilidade social do futebol reside aqui: em dizer ao mundo em que vivemos que nada se resolve só com especialistas, com a neutralidade do positivismo, mas com peritos que o são porque também conhecem o todo.

Como bem o mostrou Michel Serres, no seu livro La traduction. Hermes III (Minuit, Paris, pp. 81-83), o perito, à maneira antiga (e há uma praga desta gente, nas altas instâncias do futebol) tem um discurso parcial, limitado, reduzido a uma única problemática. Como se tudo não estivesse em rede com tudo! Ocorre-me o Imbelloni, ao tempo treinador do Braga, a sustentar que no futebol tudo estava inventado. Desconhecia o antigo jogador argentino que, numa compreensão complexa da realidade, a inércia é impossível, dado que tudo é processo, tudo se encontra em devir histórico. No desporto, a competição é tentativa de superação é movimento! E o que é o progresso senão mudança contínua?

As crinas brancas das ondas emergiam à superfície da paisagem em que o nosso olhar se perdia. Almoçávamos tranquilamente, na Costa da Caparica…

*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal

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De faca na Liga

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Sports Technology Journal: periódico especializado em tecnologia esportiva

Olá, amigos.

Hoje abro espaço para divulgar um importante periódico em consolidação, especializado em tecnologia no esporte. Lançado no ano passado, de atuação global, com centros editoriais e comercias nas Américas, Europa, Ásia e Oceania, o Sports Technology Journal traz em sua proposta o estreitamento de relações entre os profissionais do esporte com o objeto tecnológico, por meio da aproximação da pesquisa cientifica com as inovações da indústria esportiva.

A seguir, os tópicos que o periódico sugere:

·         Design esportivo e inovações estratégicas
·         Desenvolvimento de produtos esportivos
·         Tecnologia esportiva e o homem
·         Tecnologia esportiva e sustentabilidade
·         Ciências do esporte e engenharia
·         Modelos esportivos e simulação
·         Medidas e mensurações no esporte
·          Análise de desempenho esportivo
·         Lesões esportivas e estratégias de prevenção
·         Aerodinâmica esportiva
·         Biomecânica esportiva
·         Biometria esportiva
·         Bioinformática esportiva
·         Material e processos esportivos
·         Equipamentos esportivos, padrões e normas de segurança
·         Arquitetura de estádios
·         Tecnologia para esportes adaptado
·         Sistemas de gerenciamento esportivo
·         Legislação esportiva relacionada à tecnologia
·         Pesquisas em tecnologia esportiva aplicadas na educação
·         Cases da indústria esportiva

Muitos tópicos ainda podem derivar desses sugeridos, mas o importante é ressaltar o surgimento de um espaço
destinado à divulgação e discussão, em padrões científicos, das tendências e inovações neste segmento.

Até o presente momento, foram divulgados 40 artigos, e para nós, que defendemos a inserção e ambientação do futebol no universo tecnológico, apenas dois tiveram relação com nossa adorada modalidade. Ambos sobre absorção do impacto da grama, vinculado à política de segurança da Fifa.

Pouco, é verdade! Mas está aberto o espaço. A exemplo de outras tantas modalidades que lá aparecem sendo discutidas e testadas do ponto de vista das inovações tecnológicas, como o snowboard, o beisebol, o golfe, o alpinismo, entre tantas outras, servem de estímulos para que possamos, cada vez mais, procurar por  possibilidades aplicadas ao futebol.

O surgimento desse veiculo corrobora com aquilo que estamos discutindo recentemente sobre a necessidade de desenvolver as habilidades e competências do profissional do esporte frente aos novos recursos tecnológicos. 

Com certeza uma gama de assuntos presentes em alguns desses artigos não serão fáceis de compreender e, em muitos casos, nem será necessário o profissional aprender o processo de desenvolvimento e quais materiais, equações e processos foram utilizados em determinada tecnologia. Mas, sem dúvida, estar atento às mudanças, às inovações, e, sobretudo, aos quesitos resultados e impactos que possam ter no desempenho da equipe ou dos jogadores é primordial para que se mantenha a atualização tecnológica.

No próximo texto da série sobre Teoria da Tecnologia Esportiva, exploraremos um pouco das capacidades e habilidades do profissional para que consiga realizar essa atualização tecnológica.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Interditemos a Conmebol

A solução parece ser uma só. Interditar a Confederação Sul-Americana de Futebol, ou como eles mesmos gostam de ser chamados, a Conmebol. Entidade máxima do futebol da América do Sul, a Conmebol pode, sem qualquer dúvida, ser chamada de cérebro mínimo da gestão esportiva na América do Sul. 

Pelo menos no futebol.

A lambança que foi feita pela entidade na condução do processo envolvendo os jogos de times mexicanos nas oitavas-de-final da Libertadores é daquelas de fazer corar qualquer criança que um dia já quis organizar um campeonato de futebol de botão em casa.

Indefinição, insegurança, conflito de interesses, falta de pulso, falta de tato, falta de responsabilidade.

Uma lista interminável de erros e trapalhadas que acabaram deixando o principal campeonato de futebol das Américas mais mal organizado do que muito jogo de várzea por aí (o que, em se tratando de futebol na América do Sul, não é nenhuma grande novidade).

Chivas e San Luís não poderiam ter continuado na disputa da Libertadores. Infelizmente, por conta de uma epidemia de um vírus da gripe que pode até matar, não poderia. 

Todo ano acontece isso? Não.

Esses times seriam prejudicados? Sim.

A culpa é da Conmebol ou dos clubes? Não.

Infelizmente, era a decisão a se tomar. Automaticamente, os clubes que tinham ficado em terceiro lugar nas chaves dos dois times mexicanos se classificariam em seus lugares. E, no ano que vem, Chivas e San Luís estariam assegurados na disputa da Libertadores, que excepcionalmente teria duas equipes a mais em 2010.

Em 2003, a Fifa viu-se em dilema parecido, com o vírus do Sars a castigar especialmente a Ásia. Isso era o início do ano. Em setembro, a Copa do Mundo de futebol feminino seria jogada na China. A sete meses do evento, a Fifa mudou a sede do torneio para os Estados Unidos, postergando a sede chinesa para 2007.

É o mesmo caso. E com dimensões mais complexas, já que envolve Copa do Mundo e zilhões de dólares em contratos comerciais e venda de direitos de transmissão. 

O bom gestor precisa tomar sérias decisões. Mesmo que desagrade a muitos. Por isso mesmo, as entidades esportivas não podem ter, em seus tomadores de decisões, pessoas meramente políticas, como é o caso de Nícolas Leoz, há mais de duas décadas politicamente no comando da Conmebol…

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Chelsea vs Barcelona, o segundo confronto: a beleza do jogo, a ingenuidade de Nuno Amieiro e a minha

O futebol é arte e ciência. Uma arte que, abstrata, é bela de maneira diferente a cada olhar que a penetra. Uma ciência que não é exata, porque nem toda ciência é exata – e nem por isso deixa de ser ciência.

Como diria o professor Alcides Scaglia (aqui espero não ser traído pela minha memória para poder ser exato e fiel a sua fala) para apreciar o futebol de hoje não podemos observá-lo com os mesmos olhos e pressupostos de ontem; para entender sua beleza precisamos avançar a novos paradigmas.

Olhar o jogo de futebol como fenômeno complexo não é trivial. Insistentemente, grandes partidas e circunstâncias do jogo são analisadas sob a perspectiva dos óculos do ontem, que contribuem muito pouco para o entendimento da complexidade do jogo do hoje.

Para avançar a essa discussão e compartilhar um pensamento, aqui nesse ponto, passarei a falar do segundo jogo entre as equipes do Chelsea FC e do FC Barcelona, válido por uma das semi-finais da Uefa Champions League 08/09 (dando sequência então a uma idéia que iniciei no texto anterior a esse).

Antes, lembro que a primeira partida entre as duas equipes (na Espanha – e que terminou em zero a zero) foi motivo para diversas ondas de comentários. Algumas criticando o comportamento tático da equipe inglesa, desenhando-o como covarde, feio, o anti-futebol.

Jorge Valdano expôs o seguinte no jornal “A Bola” (de 2 de maio):

Foi surpreendente a quantidade de opiniões favoráveis que teve a estratégia do Chelsea: com perseguições individuais, centrocampistas de grandíssimo nível que não pisaram a área contrária, interrupções frequentes para interromper o ritmo do Barcelona… O negócio saiu-lhes redondo porque encontraram o 0-0 que procuravam. Só por isso, para certa crítica, já obtiveram a patente de equipa inteligente. O que me parece incrível é a pouca generosidade que temos para com as equipas que assumem o risco, o jogo, futebol grande. Só ganham o elogio quando ganham o jogo. Ao invés, os espectadores aplaudem os empates ainda que seja à custa de varrer o espetáculo“.

O futebol é surpreendente e ainda que possa passar despercebido, talvez seja esse o aspecto do jogo que faça brotar nas pessoas, dos apaixonados aos especialistas, discursos em diferentes direções ao se referirem a um mesmo jogo.

Além do abismo sempre presente entre a interpretação de uma partida de futebol aos óculos dos especialistas comparada aos óculos do senso comum, há ainda uma inadvertida distância (muitas vezes tão grande quanto a anterior) entre o que passa pelas lentes daqueles que observam o jogo e descarregam seus argumentos amparados pelo discurso científico.

Mesmo pautadas na complexidade do jogo, muitas observações acabam por, sem perceber, promover análises simplificadas de fenômenos “não-simples“, em uma dimensão que, por não ser compreendida por alguns nichos, se mascara como uma visão complexa (pseudo-complexa!) do jogo.

Ainda sobre o primeiro jogo entre o FC Barcelona e o FC Chelsea, Nuno Amieiro (um dos autores do livro “Porque tantas vitórias – sobre o trabalho de José Mourinho”) faz as seguintes colocações em seu blog:

Para mim, o lado táctico tem a ver com o jogo todo e, nessa medida, o primeiro elogio a ser feito teria de ser dirigido à equipa de Guardiola. Para mim, falar de táctica é falar de intenções e de interações e, neste sentido, o jogar do Barça mostrou (e tem vindo a mostrar, por vezes de forma excepcional) maior riqueza e complexidade táctica. Foi, por isso, aos meus olhos, muito mais táctico do que o do Chelsea. Basta ver o modo como a equipa responde, perto e longe da bola, à progressão com bola de Piqué pelo corredor central. Ou o modo como ocupa o espaço a atacar e faz a bola circular. Ou o modo como «acampa» no último terço e mete a bola a correr, rente à relva, na procura do espaço e do momento certo para tentar finalizar. Ou o modo como recusa cair na tentação do pontapé longo ou do cruzamento cego para dentro do «aquário». Ou o modo como responde à perda da posse de bola e, desse modo, poucas vezes é obrigado a «desmontar as tendas». Tudo isto revela critérios. Tudo isto é construção (táctica) do treinador.

Por isso, sim. Também acho que o Barcelona-Chelsea foi um jogo muito táctico. Mas, sobretudo, pelo que nos mostrou o Barça. Sabem como jogou? Então sabem do que falo, sabem o que é a Táctica para mim. Ela é o fio invisível que faz emergir aquilo que reconhecemos como traços marcantes do jogar de uma equipa“. 

A riqueza de um jogo está na interação complexa entre as referências que tornam o jogar resposta eficaz para o cumprimento da lógica do jogo. 

Ainda que algumas vezes, em aparência, treinadores e equipes adotem estratégias para cumprir objetivos intermediários, que estão menos próximos da lógica do jogo e mais íntimos de evitar o seu cumprimento por parte do adversário, não podemos perder de vista jamais que a busca de uma equipe é pelo jogar bem, e que isso não garante necessariamente a vitória.

É claro que a falta de clareza sobre o cumprimento da lógica do jogo leva jogadores e equipes ao “jogar bem estratégico” e não a um “jogar bem superior”, em que os méritos pelo desempenho estão no alcançar metas menores dentro do jogo e não no cumprimento de sua lógica.

Pois bem. Cheguemos ao segundo jogo entre as equipes do Chelsea FC e do FC Barcelona, agora na Inglaterra.

A equipe Londrina controlou boa parte do jogo (como no primeiro jogo, ainda que divirjam alguns especialistas). Um controle sem bola que deu permissão ao FC Barcelona ter um comportamento típico, mas em regiões não típicas ao seu “habitue” no campo de jogo. Em outras palavras a equipe espanhola manteve a posse de bola, circulando-a de uma lado ao outro, mas sem se aproximar de seu “alvo” ofensivo.

O Chelsea por sua vez apostou em transições ofensivas rápidas, com jogo vertical alongado, abrindo mão da posse da bola. Mas, diferente do jogo anterior a equipe inglesa teve mais êxito na progressão em direção ao campo ofensivo nas jogadas agudas de contra-ataque (especialmente por ter conseguido recuperar mais bolas em regiões mais adiantadas do que no primeiro jogo e por ter atacado efetivamente com um número maior de jogadores).

 

Vejamos alguns números do jogo:

Os padrões se aproximam bastante dos do primeiro jogo, em Barcelona. As mudanças de uma partida para outra estão principalmente nas referências de ocupação de espaço (bem como sua estruturação) utilizadas especialmente pela equipe do Chelsea FC, e pela mudança de comportamento operacional da equipe espanhola – contrária a seu comportamento habitual – nos minutos finais do jogo (e que ainda que para muitos tenha ganhado toques de “estratégia de desespero”, “ausência de tática” ou “coração na ponta da chuteira”, foi para esse que vos escreve mudança tática que deveria ter ocorrido desde os primeiros minutos de jogo).

Outra mudança com relação ao primeiro jogo é que as alterações estratégico-operacionais proporcionaram um maior número de finalizações por parte da equipe do Chelsea FC quando comparadas ao jogo na Espanha, com grande parte delas ocorrendo dentro da área penal (grande área) – ao contrário da equipe do FC Barcelona que teve nesse segundo confronto a maioria das finalizações fora da área penal.

Vejamos no campograma que se segue, as regiões das finalizações:

Certamente, muitas pessoas (dos especialistas ao senso comum) dirão que houve “justiça” no resultado do jogo, afinal, classificou-se para a final da Uefa Champions League 08/09 a melhor equipe; aquela que melhor jogou futebol nos dois confrontos da semi-finais.

Eu prefiro dizer mais uma vez, que a equipe do FC Chelsea foi a equipe que controlou melhor os dois jogos. Não venceu porque controlar não significa dominar, nem influenciar, e, portanto, não garante vitória. Insisto, devemos tomar cuidado para não adequarmos teorias e construtos científicos à conveniência dos nossos argumentos quando deveríamos, ao contrário, apoiarmos nossos argumentos aos construtos e teorias científicas.

O que sei ao certo, é que não existem verdades absolutas, e buscá-las pode ser um caminho, mas jamais um desfecho. Então, prefiro ver a beleza do jogo não com os óculos do passado, mas com aqueles que me permitam apreciá-lo, avançando a paradigmas que insistem em permanecer fincados nesse mesmo caminho; porque o presente não foi ontem.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Conclusões

Existem duas conclusões possíveis de extrair da final da Champions League entre Manchester United e Barcelona.

A primeira é que clubes de ponta que trabalham com a base começam a apresentar resultados mais concretos. Os dois clubes finalistas são, possivelmente, as principais forças do mundo a aliar formação com aquisição. Boa parte do time dos dois clubes é proveniente das suas respectivas academias, o que mostra a consolidação de um modelo de formação que pode atrapalhar o principal canal de receita dos clubes brasileiros. 

A partir do momento em que clubes acreditam que podem formar bons atletas internamente, eles passam a (1) evitar comprar jogadores já formados e, portanto, encarecidos e (2) comprar jogadores mais jovens, logo, mais baratos. 

Esse tipo de manifestação restringe parte do mercado de maneira geral, mas certamente abre outras frentes. É uma tendência que está um pouco longe ainda de criar maiores efeitos no mercado de forma geral, porém pode ser o início de alguma coisa.

A segunda conclusão é que o juiz foi grosseiro, o que sugere que (1) o nível da arbitragem européia também não é dos melhores ou que (2) há uma preocupação da Uefa em evitar uma segunda final seguida com os mesmos clubes do mesmo país, em especial da Inglaterra, que é o único país com uma liga em condições de rivalizar mercadologicamente com a confederação continental.

As duas conclusões, o fortalecimento do trabalho de base e a grosseria do juiz norueguês, são fatos. O que as motiva e os seus efeitos são especulações que podem gerar algum efeito posterior.

O que exatamente, eu não sei. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre isso.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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Bastidores do poder

O São Paulo FC é o “top of mind” entre os clubes do futebol brasileiro quando se fala de gestão profissional.

O clube, em seu histórico de administração, em especial a partir da construção do estádio do Morumbi, primou pela formação de seus quadros administrativos com profissionais gabaritados para conduzir o seu dia-a-dia.

Entretanto, nem só de profissionalismo vive um clube. Ele também vive de política, ao longo dos mandatos exercidos por seus associados eleitos e, principalmente, às vésperas dos pleitos que renovam ou mantém o poder.

Sabiamente, ao que tudo indica, o clube sempre blindou esse tema e não deixou que as discussões internas atingissem as notícias. Até 2004.

Numa discussão já em âmbito jurídico, situação e oposição debatem a validade do estatuto do clube em vigor. 

A situação se baseia no artigo 217 da Constituição Federal, que prevê autonomia administrativa para as associações em sua organização e funcionamento e respalda mudanças em seu teor sem a necessidade da concordância da Assembléia Geral dos sócios. 

A oposição invoca o Código Civil, cujo teor dispõe de soberania à Assembléia Geral dos associados do clube em casos de alterações no estatuto, inclusive no que tange a duração do mandato – núcleo central da briga.

Enquanto a briga não se resolve no STJ e STF, situação e oposição articulam compor os interesses, ainda que momentaneamente, para evitar prejuízos à instituição.

Esperneios jurídicos à parte, vê-se que a política e os processos eleitorais sempre são assuntos delicados para os clubes de futebol, e no mais das vezes, condicionam ou são condicionados pela gestão profissional. Dependerá do clube e de suas circunstâncias…  

Fatos como esse costumam ser positivos para a evolução das instituições. Ainda que por vias traumáticas, a política e a gestão podem sofrer processos de depuração rumo à maturidade.

Pude vivenciar de perto um grande exemplo dessa maturidade. Em 2006, em viagem de negócios a Madrid, bem no meio da corrida eleitoral do Real Madrid. Havia quatro chapas, com quatro comitês com infra-estrutura e localização de dar inveja aos maiores partidos políticos brasileiros, disputando a eleição num período que durou três meses. Não houve negociatas, acordos ou coligações de bastidores. Ao final, venceu a chapa de Ramón Calderón por uma diferença de 268 votos para um dos concorrentes.

Informação importante: todo candidato a presidente do Real Madrid deve apresentar, dentre outros requisitos, idade mínima de 40 anos e um aval bancário de 15% sobre o orçamento anual do clube. Nas eleições recentes de 2009, isso correspondia a 52 milhões de euros. Prova irrefutável que demonstra que o sócio do clube não está interessado em ganhar dinheiro da instituição, mas dedicar sua experiência profissional e política para a sua administração.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Teoria da Tecnologia Esportiva III: processo digestivo do impacto tecnológico

Dissemos, em outra ocasião, que tecnologia deve ser compreendida não como sinônimo de perfeição, e sim, de otimização, de aperfeiçoamento e melhoria para atingir os objetivos de forma mais eficaz. E requer uma “intimidade” com os recursos até a transição necessária para a intervenção prática.

Essa familiarização é parte do investimento pessoal que o profissional pode fazer no desenvolvimento de suas habilidades e competências nesse setor. Aliás é imprescindível que seja investido tempo nesse processo. Afinal, a chegada de novas perspectivas interfere nos valores e paradigmas que estamos habituados e quase sempre gera incomodo.

Lima (2000, pág. 12) traz algumas frases famosas sobre a chegada de novos recursos ou ainda de momentos nos quais se fazia uma leitura inicial sobre um novo impacto tecnológico. Eis algumas:

“Pessoas bem informadas sabem que é totalmente impossível transmitir vozes através de um fio, e mesmo que isso fosse possível, esse tipo de ação não teria nenhum valor prático”.
Editorial do Boston Post (1895)

“Eu penso que o mercado mundial só tenha condições de absorver cinco computadores”.
Thomas Watson, presidente da IBM (1943)

“Computadores, no futuro, talvez cheguem a pesar não mais do que uma tonelada e não menos do que meia”.
Popular Mechanics – Forecasting the Relentless March of Sciencie (1949)

“Não existe nenhuma razão prática para que as pessoas desejem ter um computador em suas casas”.
Ken Olson, presidente fundador da Digital Equipment Corporation (1977)

O autor comenta a seguir que dadas situações não devem ser encaradas como falta de competência ou visão por parte dessas pessoas, apenas uma percepção baseada nos paradigmas daquele momento.

“Estas pessoas, que tinham experiência e conhecimento em seus segmentos de atuação. Faziam afirmações como estas, não porque estivessem desinformadas ou porque tivesse algum tipo de preconceito relativo à tecnologia. Muito provavelmente suas afirmações fossem fruto do que denomino ‘processo digestivo do impacto tecnológico'”. (LIMA, 2000, pág. 13)

Esse processo digestivo do impacto tecnológico proposto pelo autor é, sem dúvida, um dos fatores preponderantes para que o profissional desenvolva a sua atualização profissional, pois, sem o planejamento prévio para absorver e compreender as novas relações de produção e interação com o mundo tecnológico, seria muito complicado para desenvolver, a partir disso, a sua intervenção.

Ainda existem outros elementos pertinentes à atualização profissional, os quais configuram-se como pré requisitos para  o desenvolvimento  das capacidades e habilidades. Afinal, assim como em outras disciplinas deve-se compreender e aprender a lidar com os recursos tecnológicos, suas contribuições e limitações na prática do futebol.

Daremos seqüência no próximo texto com mais algumas competências tecnológicas do profissional do futebol tendo como “pano de fundo”, a idéia que já havíamos apresentado no texto do dia 9 de dezembro de 2008, intitulado “Atualização tecnológica: mão dupla”.

“A atualização tecnológica depende muito do profissional, deve ser uma busca constante daquele que pretende se diferenciar no mercado, mas também, devemos cobrar e alertar as entidades envolvidas de que elas precisam criar mecanismos de capacitação dos profissionais para lidar com os avanços que hoje a ciência e a tecnologia trazem para o esporte”.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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Sol entre nuvens

O Brasil ainda não se acostumou à disputa por pontos corridos. 

Não vai dar nem tempo de respirar e, no próximo final de semana, em meio à ressaca de jogos decisivos pelos Estaduais, pela Copa do Brasil e pela Copa Libertadores, vamos entrar na disputa do Campeonato Brasileiro.

E, até agora, ninguém falou nada sobre o principal torneio do ano. Ou, se não for tão importante quanto uma Libertadores, pelo menos é o mais longo.

Sim, eu sei, é muito chato, no meio de uma grande festa, você ficar olhando para o que ainda nem começou. Mas o fato é que o Brasileirão é uma espécie de sol entre nuvens para o torcedor e, especialmente, para a imprensa no país todo.

No Rio e em São Paulo, os dois principais mercados do país, ganharam as duas maiores torcidas do Brasil, as de Flamengo e Corinthians. Títulos que reforçam a hegemonia estadual de ambos, mas que também mascaram muito a realidade que os dois terão pela frente.

Ambos têm elencos reduzidos, com poucos jogadores em condição de serem titulares. E isso, num campeonato que dura oito meses, é fatal. São muitos jogos, muitas viagens e, também, muitas lesões que se aproximam no torneio por pontos corridos. Se um time não estiver com jogadores à altura no banco de reservas, não conseguirá chegar tão longe.

Já se vão seis anos de Brasileirão em pontos corridos. Em 2009, entraremos na sétima edição de repetição da fórmula. E, no país todo, só podemos apontar São Paulo, Inter e Cruzeiro como times que poderão ver o torneio de maneira ensolarada.

Os três sabem que é importante disputar a competição em alto nível desde o começo. E que, para manter o nível, é preciso ter mais do que 11 jogadores e outros 15 reservas. É preciso ter cerca de 15 a 20 atletas em condições de ser titulares. E, ao longo da temporada, mesclar esses jogadores para não “estourar” o time. 

Desses três, Cruzeiro e Inter ganharam seus estaduais de maneira invicta. Mesmo jogando Libertadores e Copa do Brasil simultaneamente. Sinal de que seus rivais diretos não estão no mesmo nível. 

Nesta semana virão as sempre prováveis escolhas de favoritos ao título. Não duvide que muitos dos campeões estaduais entrarão nessa lista. Mas também não pense que os jornalistas estarão de olho na capacidade aeróbica desses times para um torneio que começa em maio e vai até dezembro…

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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Barcelona vs Chelsea: covardia, retranca ou estratégia?

Ainda que muita gente acredite no contrário do que vou dizer, vou “contradizer o contrário”.

Em jogo válido pelas semifinais da Uefa Champions League 08/09, as equipes do FC Barcelona e do Chelsea FC se enfrentaram na Espanha, em uma partida que despertou uma série de comentários e teorias.

No “papo de arquibancada”, o de sempre: “o Barcelona dominou o jogo e merecia a vitória; o Chelsea foi uma equipe covarde que só quis se defender“; e ainda: “também se o Chelsea fosse tentar sair para o jogo não teria a menor chance“.

Antes de qualquer coisa, vou me expor à primeira polêmica. Se o Barcelona tivesse dominado o jogo não teria ele vencido a partida?

Vou esclarecer.

Há alguns anos (talvez muitos!) antes das tão midiáticas lutas de MMA (Mixed Martial Arts) lembro-me dos primeiros “combates” internacionais entre faixas-pretas que tive oportunidade de assistir (o que na época era chamado de “vale-tudo”).

Recordo-me de uma luta do brasileiro Rickson Gracie contra um “gigante” que realmente não consigo lembrar o nome. Já com algum tempo de “combate”, quando o brasileiro aparentemente dominado pelo seu oponente (apesar de uma duvidosa expressão de tranquilidade) estava, segundo o “narrador”, prestes a ser derrotado; o inesperado: seu adversário “bateu” pedindo para o árbitro interromper a luta antes que Rickson Gracie quebrasse o seu braço.

O aparentemente dominado brasileiro vencia a luta; sem precipitação, sem desequilíbrio, com um controle e um domínio sabido somente por ele.

Pois bem, voltemos ao FC Barcelona vs Chelsea FC.

O FC Barcelona é a equipe com maior número de gols feitos, menor número de gols sofridos e melhor aproveitamento em pontos de toda a Espanha até o momento em que escrevo esse texto (e dificilmente terá deixado de ser até sua publicação).

Além de rápida circulação da bola, com valorização de sua posse e constantes progressões ao gol (especialmente nas transições ofensivas), a equipe espanhola tem se destacado por uma transição defensiva extremamente intensa com referências bem definidas para imediata recuperação da posse da bola.

Como enfrentar essa aparente máquina, no seu terreno de jogo habitual? Como evitar a rápida circulação da bola e as constantes progressões ao gol nas transições ofensivas? Como evitar perder a bola depois de sua recuperação e minimizar tanto a eficiência da transição defensiva espanhola como a posterior transição ofensiva a partir de regiões perigosas do campo de jogo?

Com referências de ação bem definidas, a equipe do Chelsea conseguiu manter boa intensidade de concentração quase que em todo o jogo e fez aquilo que não parecia ser possível.

Para evitar a rápida circulação de bola do FC Barcelona, a equipe do Chelsea FC povoou, por vezes com 10 e por vezes com 11 jogadores seu campo de defesa. Com grande número de jogadores concentrados nessa região, a equipe espanhola não conseguiu realizar passes rápidos em direção ao gol – tendo então que circular a bola horizontalmente bem longe da meta defensiva da equipe inglesa.

Para evitar perder a bola próxima ao seu gol defensivo, a equipe do Chelsea FC fez a opção por um jogo de passes longos com imediata progressão ao campo de ataque quando da recuperação da posse da bola, primando mais por não tornar a perdê-la em regiões próximas a sua meta de defesa do que por “evitar perdê-la”.

Vejamos alguns dados do jogo:

É notório o fato de que o Chelsea FC abdicou de ficar com a bola. Com isso, trocou poucos passes. Como optou por um jogo de rápida progressão a sua meta ofensiva, teve mais passes longos em profundidade do que seu advsersário; com isso também errou mais.

O fato de o FC Barcelona ter ficado mais tempo com a bola – levando a equipe inglesa a “correr atrás dela” (coma fora anunciado por um “especialista”) – não teve reflexos na distância total percorrida pelas equipes no jogo.

Quando analisamos as finalizações, podemos observar que o volume da equipe espanhola foi aproximadamente seis vezes maior do que o da equipe inglesa (com boa parte delas dentro da “grande área”).

Vejamos:

Podemos extraopolar conclusões a partir desses dados e das observações do jogo na direção que nossos argumentos permitir – entendendo inclusive que o FC Barcelona levou mais perigo do que o Chelsea FC (é só olhar para as finalizações).

Eu prefiro, honestamente, dizer que quem cumpriu melhor parte dos seus objetivos foi a equipe inglesa e não a espanhola; afinal, olhando para as finalizações, eu diria que proporcionalmente ao número delas, foi o Chelsea que teve mais eficiência em chegar dentro da área, e que dado o grande número obtido pelo FC Barcelona foi essa equipe a menos competente em traduzir suas ações em gols.

Obviamente que a partir desses dados não posso convencer ninguém que o FC Barcelona não teve nem controle, nem domínio do jogo. Tão pouco que o Chelsea FC controlou a equipe espanhola. Mesmo assim, me arrisco: o jogo foi zero a zero, e apesar de ninguém ter “batido” pedindo o final do combate, o que vale mesmo é o placar final; e nesse caso para mim, foi o Chelsea que se aproximou mais dos seus objetvos…

Esperemos pelo próximo jogo.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Soberania continental

A classificação dos cinco clubes brasileiros para a fase final da Copa Libertadores é a prova da soberania do futebol brasileiro no continente. O Brasil está para a América do Sul assim como a Inglaterra está para a Europa.

Pudera. As duas nações não apenas são aquelas que têm a moeda nacional mais forte, mas também são aquelas que possuem, de maneira mais territorialmente disseminada, mais apego ao futebol. Se na América do Sul a Argentina aparece como grande concorrente do Brasil, na Europa quem faz frente à Inglaterra é a Espanha. Mas Argentina e Espanha possuem suas forças extremamente concentradas. Na Espanha, o dueto Barcelona e Real Madrid impera. Ora um, ora outro. Na Argentina, é tudo concentrado, em Buenos Aires. Mais especificamente, pelo menos nos últimos tempos, no Boca Juniors. Nem o River faz mais tanta frente aos clubes brasileiros.

A questão é que não tem muito o que fazer. Em geral, a Inglaterra compra os melhores talentos da Europa e, consequentemente, forma as melhores equipes. No Brasil, isso não é tão evidente, mas acontece. A concentração de jogadores sul-americanos nas equipes brasileiras cresce a cada dia. Tem espaço pra crescer ainda mais.

Enquanto Brasil e Inglaterra continuarem sendo potências clubísticas e econômicas, o cenário dificilmente irá mudar.

A Inglaterra sofreu um baque feio com a crise. A libra esterlina perdeu um valor considerável em relação ao Euro. Uma eventual aceleração da decadência econômica inglesa pode dar início à perda de poder dos seus clubes de futebol. O Brasil até está sofrendo com a crise, mas nada que vá fazer o cenário mudar, uma vez que os outros países sul-americanos estão sofrendo muito mais.

Mas convenhamos, se for para depender do avanço econômico dos outros países da América do Sul, o futebol brasileiro vai reinar por muito tempo ainda.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br