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A última rodada

Ainda falta uma rodada para o término do Campeonato Brasileiro de 2014, mas os dez jogos do próximo fim de semana servirão apenas para definir os dois últimos rebaixados (Botafogo e Criciúma já caíram). Com muito drama e pouca coisa a ser resolvida, a principal questão do fim de semana derradeiro da principal competição do futebol nacional é como distribuir emoção entre partidas que valem pouco ou nada.

A questão é inerente ao formato do campeonato, que é disputado em sistema de pontos corridos. Existe a possibilidade de esse tipo de certame ser decidido com antecedência, e isso escancara o maior desafio do modelo: contar histórias que não sejam limitadas às conquistas.

O Cruzeiro assegurou o título com duas rodadas de antecedência. No último fim de semana, a um jogo do término, o São Paulo garantiu o segundo posto. Além disso, Internacional e Corinthians preencheram as vagas brasileiras para a próxima edição da Copa Libertadores. Os únicos times realmente interessados na última rodada são Bahia, Palmeiras e Vitória – entre eles, apenas um vai evitar o descenso.

Bahia, Palmeiras e Vitória são as histórias óbvias da última rodada. Mas será que só os três farão jogos interessantes? Aliás, o Bahia fará uma partida com outro elemento relevante: será a despedida do meia Alex, do Coritiba, que vai encerrar a carreira após o término do Brasileirão.

Em menor escala, há uma briga interessante entre Internacional e Corinthians. Os dois times estão empatados em pontos e ainda postulam o terceiro lugar. A diferença entre isso e a quarta posição é a classificação direta para a fase de grupos da Libertadores – entre os dois, um será obrigado a disputar a etapa preliminar do torneio sul-americano.

A questão é: como promover os outros jogos? Por exemplo: como atribuir interesse ao duelo entre o rebaixado Botafogo e o Atlético-MG, campeão da Copa do Brasil e atual sexto colocado? Como valorizar o confronto entre Grêmio e Flamengo, dois clubes relegados ao meio da tabela?

Cada time que disputa a liga profissional de basquete dos Estados Unidos (NBA) faz mais de 80 partidas antes dos playoffs. Na segunda metade da temporada, muitos desses jogos são absolutamente desinteressantes para classificação. Ainda assim, os ginásios seguem cheios e barulhentos.

O primeiro ponto aqui é o formato de venda. Times da NBA vendem carnês para toda a temporada, coisa que ainda é pouco comum no Brasil, a despeito do crescimento dos planos de sócios.

A grande vantagem de vender carnês é assegurar renda de bilheteria por um longo período. O desafio, em contrapartida, é que o longo prazo não faz parte da cultura padrão de nenhum torcedor. Desenvolver esse tipo de coisa demanda um trabalho de convencimento – as pessoas precisam entender por que é importante que elas comprem ingressos para todas as partidas da temporada. Esse convencimento pode ser feito com comunicação incisiva ou com benefícios.

No Brasil, o que acontece é o contrário. O exemplo mais recente aconteceu na decisão da Copa do Brasil – Atlético-MG e Cruzeiro praticaram preços exorbitantes para os dois jogos do duelo vencido pela equipe alvinegra. A principal vantagem de vender ingressos pensando apenas no curto prazo é sobretaxar essas entradas nos momentos mais relevantes da temporada. Em vez de uma receita equilibrada durante todo o ano, as partidas mais importantes acabam pagando pelas que dão menos dinheiro.

Parece besteira, mas o modelo de venda praticado no Brasil é parte de um enorme problema. O país tem um campeonato de futebol disputado em pontos corridos, mas não pensa nas implicações disso ao se comunicar com o torcedor. Nós ainda falamos sobre “a chance de o time ser campeão” ou “a luta para evitar o rebaixamento” como se essas decisões fossem as únicas coisas relevantes na competição.

Falta no Brasil uma comunicação adequada ao formato de temporada do futebol. Falta algo que seja mais focado nas histórias e menos nas conquistas. A última rodada de um campeonato com quase tudo definido podia ser uma excelente oportunidade para isso.

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Transformações para o futebol brasileiro

Estamos próximos do encerramento de mais uma temporada. Já conhecemos, antecipadamente, o campeão da Série A, dias atrás foi conhecido o campeão da Copa do Brasil e, neste ano, assim como na Copa Libertadores, não teremos nenhum representante brasileiro na final da Copa Sul-americana.

Na perspectiva dos resultados, valorizado e priorizado a qualquer custo em nossa cultura, os alcançados este ano nos torneios internacionais (considerando também a Copa do Mundo) deveriam, no mínimo, proporcionar reflexões profundas na maneira como pensamos e gerimos o nosso futebol.

Sustentabilidade, categorias de base, calendário, evolução sistêmica do jogo, planejamentos de curto, médio e longo prazo, torcida, iniciação esportiva e fair-play financeiro são apenas alguns dos temas que precisaremos avançar nos próximos anos se um dia pretendemos retomar a hegemonia do futebol mundial.

Porém, como o momento da temporada é, para muitos profissionais, de recesso, ou então, de início de pré-temporada dos estaduais 2015, deixaremos estas discussões mais amplas para outra oportunidade. Será proposta, então, uma reflexão no âmbito da nossa atuação profissional e o quanto ela impacta positiva ou negativamente no todo em que estamos inseridos e, é claro, em nós mesmos.

Abaixo, alguns questionamentos:

Você foi proativo ao longo da temporada?

Você defendeu os interesses da instituição em que você trabalha?

Você agiu com ética profissional?

Você contribuiu na construção de um ambiente de trabalho enriquecedor?

Você aprendeu com os profissionais que estão ao seu redor?

Você ouviu os profissionais que estão inseridos no seu contexto profissional?

Você assumiu as responsabilidades que lhe são devidas ou você é adepto da máxima: “Eu venci, nós empatamos e vocês perderam”?

E, por fim, você compartilhou conhecimento ou preferiu “esconder” informações importantes para o desenvolvimento do trabalho de modo a utilizá-las num momento mais favorável a você?

Muitas pessoas podem classificar estas perguntas como de cunho pessoal, logo, impertinentes no contexto de atuação profissional. É preciso ter ciência, no entanto, que o relacionamento humano é a chave de processos essenciais de um clube de futebol.

Alguns exemplos podem evidenciar como os itens supracitados refletem com grande magnitude no dia-a-dia dos clubes. Na sequência, serão apresentados cenários hipotéticos:

Um preparador físico com baixa pró-atividade pode desperdiçar minutos importantes da sessão de treino ao deixar de explorar diversos conceitos de jogo desde o aquecimento.

Um treinador de resultados pode buscar a vitória a qualquer custo e ir na contramão dos objetivos de um clube-formador.

Um auxiliar técnico sem ética, pode denegrir a imagem do treinador “queimando-o” perante outros profissionais.

Os grupos de estudos podem alavancar o alinhamento conceitual dos profissionais do clube.

Um técnico de uma categoria pode se reunir formalmente com o técnico de outra e “dissecarem” o Modelo de Jogo de suas equipes e onde estão as suas principais dificuldades.

Num momento de derrota, um treinador traz a responsabilidade para si, “protege” o grupo e cria uma reflexão coletiva sobre os motivos do fracasso.

E, para terminar, aquele auxiliar que, com um olhar de fora, mais privilegiado e menos pressionado, “esconde” informações que seriam muito úteis para o sucesso do trabalho, pois, na verdade, o que ele quer ver é o fracasso.

Ao longo de minha ainda curta trajetória profissional tem ficado cada vez mais evidente que se pretendemos mudar o futebol brasileiro, precisamos, primeiramente, mudar a nós mesmos. Muitas vezes, agimos a partir de nossos interesses, sem preocupações com o todo e com transcendência de nossos objetivos pessoais.

Quem sabe um dia, com o predomínio de atuações profissionais éticas, sérias, proativas, conscientes, ouvintes e coletivas, invariavelmente, transformaremos o nosso futebol?

Certa vez, ouvi de um professor que somos permanentemente avaliados. Com o tempo aprendi, no entanto, que mais importante do que a avaliação dos outros é a minha própria. Então, a partir do que foi discutido hoje, como você se avalia?

Abraços e até a próxima coluna. 

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O bloqueio da renda do 1º jogo da final da Copa do Brasil

Um dos problemas que assola os clubes brasileiros é a crescente dívida com impostos federais. Inclusive, está em tramitação Projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal que tem por objetivo promover uma reestruturação nos passivos fiscais dos clubes, permitindo que sejam efetivamente pagos.

Enquanto esta lei não é aprovada, os clubes têm a opção de entrar em programas de refinanciamento das dívidas fiscais, que são conhecidos como Programa de Refinanciamento de Dívidas Fiscais (Refis).

Assim, em meados de outubro foi publicada no Diário Oficial a aceitação, por parte da União, da inclusão das dívidas do Atlético Mineiro no Refis.

Apesar disso, dias antes do primeiro jogo da final da Copa do Brasil, o clube alvinegro foi surpreendido com a ordem judicial de bloqueio (arresto) dos valores arrecadados com a venda de ingressos.

De um lado há, a autorização do credor (União) para a realização de acordo judicial, e de outro, o pedido realizado pelo próprio credor de bloqueio da renda dentro do processo de execução.

No caso em questão, o juiz da causa entendeu que, diante da existência de outras demandas e da ausência de bens penhoráveis, deveria prevalecer o pedido de bloqueio da renda.

Doutro giro, o Atlético entende que, tendo sido publicado no Diário Oficial ato da União aceitando a realização de acordo (Refis), qualquer medida judicial de bloqueio de bens não teria objeto, já que as partes voluntariamente realizaram acordo, e que seria ônus da Fazenda Nacional (responsável pela cobrança) informar aos juízes das execuções.

Sob o ponto de vista legal, o Atlético tem razão, pois, segundo o artigo 151 do Código Tributário Nacional, o parcelamento suspende a exigibilidade do crédito tributário.

Apesar disso, contra o clube há o entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que a suspensão da exigibilidade do crédito tributário superior a quinhentos mil reais para opção pelo Refis pressupõe a homologação expressa do comitê gestor e a constituição de garantia por meio do arrolamento de bens.

Diante de todo o exposto, percebe-se a clara e urgente necessidade de se resolver legislativamente, de forma clara a precisa, a questão do endividamento tributário dos clubes, a fim de que a União possa receber seus créditos e que o clube possa ter garantida sua manutenção e não esteja sujeito às medidas que restrinjam o acesso ao seu patrimônio. 

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Intervenções e suas perigosas armadilhas

A resistência sobre a criação de modelos de negócios voltados para a construção e o desenvolvimento do futebol brasileiro não aparecem somente nos sistemas políticos de clubes e de entidades de administração do esporte, tal e qual costumamos abordar ou debater em ambientes qualificados.

É cada vez mais preocupante a forma como os diferentes meios tratam qualquer tentativa de se trabalhar a indústria do futebol dentro de uma plataforma de negócios. No episódio mais recente, a intervenção do Estado do Ceará sobre a operação da Arena Castelão é um flagrante desvirtuamento sobre os ciclos de aprendizagem que um equipamento esportivo novo e moderno precisa passar – estamos falando de pouco menos de 1 ano de operação, com rupturas evidentes (Copa das Confederações 2013 e Copa do Mundo 2014). Ou seja, o primeiro ano efetivo de operação ainda não existiu.

Não são raros os casos de entes públicos tentando assumir um papel que não deveria ser dele. Desvirtuou-se completamente a relação de investimentos e regulação do mercado, que seria o ambiente mais adequado para os organismos públicos atuarem.

A angústia por resultados rápidos ou a tentativa de dar respostas políticas a demandas que deveriam ser de competência esportiva ou de mercado é o que mais assusta. O impacto negativo sobre o desenvolvimento de projetos sustentáveis no ambiente do futebol brasileiro é enorme. Coloca em dúvida a livre iniciativa e a expectativa por melhores investimentos privados no presente e no futuro.

O que o mundo do esporte precisa aprender é que é preciso desenvolver novas e diferentes especialidades para atuar efetivamente sobre atividades complexas que se desenham nesta indústria. Fazendo uma analogia, é mais ou menos o que a ótima (e recente) propaganda do HSBC quis dizer neste vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=k0zFJUpHO8s&list=UU6Nq_TluKxyQemTmYXFIW9Q

“Tudo mundo acha que tem uma solução para tudo mas, na verdade, só quem conhece da realidade do mercado são os especialistas em (…)” 

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Um 6 a 1 que mudou tudo. Ou não.

E se o Galo tivesse rebaixado o Cruzeiro no último jogo do BR-11?

Na Arena do Jacaré, a Raposa dirigida por Vagner Mancini precisava vencer para não ser rebaixada. O Galo de Cuca (que dirigira o rival nos primeiros cinco jogos sem vitórias no BR-11) tinha a faca e o pão de queijo nos pés para rebaixar o Cruzeiro pela primeira vez para a Segunda Divisão, no último jogo dos 19 anos de Zezé Perrella no comando do clube.

Era para entrar mordendo o Galo, ainda que sem Neto Berola. Era para o Cruzeiro ter sentido a ausência dos suspensos Montillo e Fábio, os melhores celestes, e o tático Marquinhos Paraná.

Era para ter sido o jogo para o Atlético mandar o Cruzeiro para o inferno que purgara em 2006.

Não foi.

Acabou sendo a maior goleada do Cruzeiro no clássico mineiro que, então, estava empatado na estatística do Brasileirão. Eram 18 vitórias para cada lado.

Mas só um time a buscou em 4 de dezembro de 2011.

Com 8 minutos, as supersticiosas camisas brancas do Cruzeiro abriram o placar. Anselmo Ramon fez inusitada bela jogada pela direita e deu no pé de Roger Flores.

Sete minutos depois, o Bahia abriu o placar contra o Ceará, outro resultado ótimo para o time azul. Diferente da derrota no clássico para o Galo, que perdia assim um lugar até na Copa Sul-Americana. Um excelente preparativo para a Libertadores…

Mas o Galo fazia feio. Teve duas chances, se tanto, até levar o segundo gol, aos 28. Roger bateu no segundo pau, Serginho não subiu, e Leandro Guerreiro fez de cabeça.

Guerreiro que na véspera perdera um filho abortado pela mulher. Guerreiro que foi o espírito do Cruzeiro contra um Galo amuado.

Batia cabeça o Atletico e ninguém batia legal o coração alvinegro. Cuca colocou Magno Alves como homem para encostar em André. Carlos César passou para a lateral, aos 32.

Não deu 42 segundos e o Cruzeiro ampliou. Réver bobeou e foi ultrapassado fácil por Welington Paulista, que armou o lance para Anselmo Ramon virar como quis sobre Leo Silva e fazer fácil o terceiro gol, enfiando a bola entre as pernas de Renan Ribeiro.

Lance juvenil de Réver e Leo Silva. Dois colossos campeões da América um ano e meio depois da goleada em Sete Lagoas.

O 3 a 0 celeste rebaixava Ceará, Atlético Paranaense, América Mineiro e Avaí.

O Galo até tentava. Agora pela direita, o promissor Bernard fazia fumaça. Mas foi no contragolpe pela esquerda que Fabrício partiu, foi levando, passou como quis por Richarlyson, e bateu de fora da área a bola que bateu em Carlos César e tirou o goleiro.

Quatro a zero aos 45 minutos. Nem deu a saída. Acabou ali o primeiro tempo. E o sofrimento azul.

Quando reiniciou a partida, com menos de 25 segundos, a China Azul, dona daquele mando de jogo com torcida única (sempre um absurdo) começou a gritar olé. Merecido pela bola que o Cruzeiro estava jogando e há muito não jogava, e por tudo aquilo que o Galo deixou jogar. De modo deplorável.

Aos 11, o lance que melhor representa o que se viu em campo. Roger passou duas vezes por dois. Ou quatro vezes. Arrancada sensacional pela direita que terminou no toquinho para a cabeçada de Wellington. A bola nem precisou bater na rede.

5 a 0. Roger, que acabou com o jogo, deu o gol ao artilheiro, que fez sinal de que tudo teria acabado.

Show celeste. Xô, Galo!

O jogo para rebaixar o rival. E o Atlético se rebaixou.

Ainda diminuiu, em lance de Leo Silva para Rever. 1 x 5. 15 minutos. De zagueiro para zagueiro como se fossem atacantes. Como seriam também isso em 2013.

Mas ainda era pouco. Tanto que a torcida celeste gritou o nome de “Cuca”, agradecendo a goleada sofrida. Mas, também, no fundo, o ótimo trabalho que havia feito na Libertadores daquele ano.

O jogo seguiu morno. Mesmo com os vermelhos dados a Werley e Wellington Paulista. Mas do banco vinha o crédito. Ortigoza foi ao fundo e deu o sexto gol a Everton. A bola entrou e, como no primeiro tempo, o jogo nem recomeçou.

6 a 1.

O Cruzeiro que só tinha um ponto de diferença contra os rivais na luta pelo rebaixamento abriu cinco gols de vantagem contra o maior rival. Galo que tinha o mesmo patrocinador do Cruzeiro. E não teve mais nada em comum além do BMG no peito.

“A vitória do milênio” para o Galo virou uma goleada eterna.

– isso não é perder um jogo. É pisar no nosso coração.

Falou e disse Alexandre Kalil, presidente do Galo.

Mas…

E se o Cruzeiro tivesse perdido?

Teria sido campeão brasileiro em 2013 depois de ter vindo da série B em 2012?

Nunca aconteceu.

O Galo teria conquistado tudo que venceu desde 2013?

Certamente. Mas aquela derrota serviu para muita gente saber na Cidade do Galo que é preciso estar atento até os últimos lances. Como time e torcida tanto acreditaram na Libertadores-13 e, agora, na Copa do Brasil-14.

Mas…

E se fosse diferente?

Responde Leonardo Bertozzi, que comigo e com Mario Marra escreveu “Nós Acreditamos”, o livro campeão da Libertadores de 2013, editado pela BB.

Bertozzi, e se o Galo tivesse vencido em 4 de dezembro de 2011? Ele responde como se fosse fato consumado:

– Aqueles jogadores do Galo viraram heróis para a torcida, que nunca mais precisaria ouvir gozações sobre segunda divisão. Parecia um título. E acabou sendo a coisa mais próxima de um titulo desde então. Acomodação tomou conta do Galo em 2012, e o melhor resultado desde então foi um sétimo lugar no Brasileiro. Contratações desesperadas, trocas de técnico e as frustrações de sempre. O Cruzeiro subiu sem sustos e voltou a montar times competitivos, mas os 11 anos sem um título de expressão incomodam cada vez mais”

É a projeção de Bertozzi.

Anderson Olivieri, autor de “20 Jogos Eternos do Cruzeiro” (Maquinária Editora), conjectura o que seria se a Raposa tivesse perdido em Sete Lagoas o jogo que encerra o seu livro.

– Virou lugar-comum dizer que o 6 a 1 de 2011 foi bom para os dois clubes. Ao Cruzeiro, óbvio, porque não caiu e ainda aplicou a maior goleada da história no rival. Ao Atlético, pois teria sido um divisor de águas na gestão do clube. Não vejo assim. Acho que as duas equipes despontaram porque foram eficientes no trabalho pelos anos seguintes. Ainda que o Atlético tivesse rebaixado o Cruzeiro naquela oportunidade, acredito que haveria bonança aos mineiros, como houve, em 2013 e 14. Mas deixemos o “se” de lado. A história, como escrita, está suficientemente heroica e imortal.

É isso.

O Cruzeiro teria tudo para fazer mais história, sendo “tri” nacional, com o título da B em 2012 e o bi-tetra da A.

O Atlético teria tudo para ter feito o que de lindo conquistou em 2013.

E, agora, pode fazer mais uma história inédita em 2014.

 

*Texto publicado originalmen
te no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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A hora da festa

Foi bonita a festa, pá. O Cruzeiro conquistou no último domingo (23), com duas rodadas de antecedência, um justo e merecido bicampeonato brasileiro. Foi um dia especial para a porção azul de Minas Gerais. No entanto, também foi uma demonstração inequívoca de um problema recorrente de comunicação no esporte nacional. O Brasil, esse povo tão acostumado a fazer festa por qualquer coisa, ainda precisa aprender a comemorar.

Ah, mas é difícil imaginar uma comemoração efusiva em um campeonato disputado no sistema de pontos corridos. Ainda mais numa temporada em que a conquista do Cruzeiro já era dada como certa havia muitas rodadas. Ainda mais três dias antes da decisão da Copa do Brasil contra o Atlético-MG, maior rival celeste, que venceu o primeiro duelo por 2 a 0. Sim, há vários atenuantes. E nem assim a festa do bicampeonato brasileiro foi adequada.

Qual é o momento marcante da festa do Cruzeiro? Que imagem foi artisticamente planejada para as emissoras que exibiram a comemoração? Aliás, que contrato exigiu que as parceiras de transmissão do Campeonato Brasileiro mostrassem o pós-título?

Comemoração adequada não é necessariamente um sinônimo de comemoração por longas horas, prejudicando o descanso e o planejamento da sequência da temporada. Tampouco é necessariamente um sinônimo de comemoração visceral, tipo mais comum em conquistas mais emocionantes ou inesperadas. Festa também pode (e deve) ser planejada.

Pense agora nas festas mais marcantes da sua vida. Seu casamento, seu aniversário de 15 anos, sua formatura ou algo do gênero. Tente lembrar quanta preparação ou quanto esforço elas demandaram. Independentemente do dinheiro despendido, o ponto aqui é: momentos assim são feitos para que pessoas compartilhem emoções. E isso não é possível sem apreço por detalhes – o local, a música, a iluminação e tantos outras coisas que podem mudar radicalmente a experiência de quem vai a um evento desses.

Esforço e apreço por detalhes não são características apenas de festas com alto preço ou longa duração. É possível criar momentos especiais em diferentes formatos. O presente mais legal nem sempre é o mais caro.

Emissoras de TV que transmitem o Campeonato Alemão pelo mundo recebem antes de cada rodada uma programação sobre os jogos. Não apenas com as partidas que serão exibidas na rodada, mas com todos os detalhes sobre os eventos.

Em rodadas que podem definir o campeão, a programação enviada às emissoras de TV inclui detalhes como tempo para montagem do palco, tempo para distribuição de medalhas, tempo para o show pós-título (e o nome do artista que vai se apresentar) e tempo para premiações individuais. Tudo é planejado com antecedência (e com redundância, se houver mais de um time brigando pela taça).

Aliás, a taça é outro aspecto relevante. Se houver mais de um time com chance de ficar com o título, a federação alemã de futebol (DFB, na sigla em alemão) envia réplicas do troféu para os estádios em que os candidatos forem jogar. O campeão brasileiro só recebe a taça na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em cerimônia fechada e sem graça.

Já citei esse exemplo anteriormente, mas o New York Giants, time que disputa a liga profissional de futebol americano (NFL), fez um planejamento especial para a disputa do título em 2011. Instantes depois da vitória no Super Bowl XLV, as lojas do estádio em Arlington (Texas) tinham mais de 200 produtos alusivos ao feito. Eram lembranças com diferentes estilos e diferentes preços, e todas as pessoas que saíam passavam necessariamente pelas vitrines.

Que torcedor, segundos depois de acompanhar in loco a conquista de um título, passa por uma loja com 200 opções de produtos alusivos ao feito e não compra pelo menos uma recordação? Planejar a festa também é cuidar das lembrancinhas e pensar em maneiras para eternizar a emoção daquele momento.

No Brasil, houve na década passada uma moda de camisetas comemorativas. A cada título, times vestiam modelos que eram lançados instantaneamente em pré-venda. O momento da premiação era usado para divulgar esses produtos. E aí, no momento mais nobre, na foto que se transformava em pôster e ia parar no baú de memórias do torcedor, os patrocinadores das equipes ficavam totalmente escondidos.

Lançar produtos alusivos a uma conquista é um acerto indiscutível. Contudo, também é necessário planejar para saber como fazer isso. É lícito aproveitar a emoção da festa, mas é fundamental pensar também em quem paga as contas.

Aí entra uma questão cultural: no Brasil, planejamento muitas vezes é sinônimo de arrogância ou de certeza. Não estamos acostumados a pensar em todas as hipóteses (coisas boas e coisas ruins podem acontecer em qualquer evento). Isso vale para qualquer segmento.

Se um time brasileiro compra bebidas ou contrata um show para uma festa de título, a leitura que muitos fazem é de menosprezo ao adversário ou de certeza de conquista. Já passou da hora de superarmos clichês do tipo.

Planejar não é vergonha e não atrapalha. Aliás, ao contrário. Não é por acaso que todos estão tão ansiosos pela decisão do goleiro Rogério Ceni, maior ídolo da história recente do São Paulo. Ele tem contrato com o clube até o fim do ano e deve se aposentar depois disso, mas reluta em confirmar o término da carreira.

Na semana passada, a Penalty, fornecedora de material esportivo do São Paulo, enviou e-mail a jornalistas convidando para uma entrevista coletiva de lançamento da “última camisa” de Rogério Ceni. No evento, segundo a empresa, o goleiro oficializaria a aposentadoria.

O convite dizia que a entrevista seria nesta terça-feira (25), mas o São Paulo desmentiu. Rogério Ceni foi ainda mais enfático e criticou a Penalty. “Ninguém pode dizer quando eu vou parar”, disse o goleiro.

O São Paulo já marcou um jogo comemorativo para fevereiro de 2015 (contra o Liverpool, time que os paulistas bateram na decisão do Mundial da Fifa de 2005). Além disso, o clube começou a preparar a festa do adeus de Ceni. Para a Penalty, porém, esse não é apenas o ocaso de um ídolo. Trata-se de uma chance contundente de turbinar o faturamento de Natal, e isso não é pouco para uma fabricante de material esportivo.

O principal erro nesse caso foi a falta de ajuste de expectativas. É natural que a empresa tenha interesse de divulgar um produto e é natural que o clube tenha interesse de preservar seu principal ídolo – Rogério pode postergar a aposentadoria ou simplesmente adiar o anúncio para depois do término da temporada. Tudo isso tinha de ser esclarecido para evitar ruídos &
ndash; a Penalty responsabilizou a empresa que fazia assessoria de imprensa para a marca, que foi dispensada.

Fazer festa dá trabalho, e o exemplo de Ceni mostra que o trabalho já começa no convite. 

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Novos rumos no futebol e o segundo mandato da presidente Dilma

Em disputa acirrada, a atual Presidente de República, Dilma Rousseff, do PT, venceu o candidato tucano Aécio Neves e governará o Brasil pelos próximos quatro anos. Sua reeleição coincide com o momento em que o futebol brasileiro ainda se recupera do vexame sofrido na Copa do Mundo, quando foi eliminada pela seleção alemã e um estrondoso 7 a 1 e busca novos rumos.

No seu projeto de Governo, a Presidente eleita não apresentou propostas em que se possa vislumbrar melhoras. Doutro giro, há indícios de mudanças.

A Presidente tem se mostrado disposta a se reunir com o Bom Senso FC, movimento dos jogadores que visa melhorias no futebol brasileiro, eis que esteve com eles em junho e em julho, manifestou preocupação e prometeu ação.

Ademais, há três pontos de extrema relevância na pauta: a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, a regulamentação da participação dos atletas nas assembleias das entidades esportivas e a criação de um Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol.

São temas de extrema relevância e a Presidente poderá auxiliar com articulações políticas para que sejam colocadas em discussão nos órgãos e entidades competentes.

Importante destacar que a CBF apoiou o candidato Aécio Neves e que o Governo Federal, no pós-Copa, adotou postura bastante agressiva no que tange à gestão do futebol brasileiro.

Ademais, o atual Governo tem características intervencionistas, o que, em tese, viola o artigo 217, da Constituição que assegura a autonomia das entidades desportivas dirigentes e associações, o que incomoda os dirigentes. A grande questão é se o Governo terá força política para exigir transparência para renegociação das dívidas dos clubes.

Nunca é demais ressaltar que o desporto brasileiro com um todo e, inclusive o futebol, recebem verbas, subsídios e benefícios públicos.

Além da necessidade de se buscar a renegociação das dívidas fiscais e maior transparência no uso de verbas e benefícios públicos, o futebol possui algumas peculiaridades que merecerão atenção especial do próximo mandato.

Ora, após a Copa do Mundo, fala-se muito no sistema alemão de gestão e formação dos atletas, entretanto, a legislação brasileira desestimula e, em alguns casos até impede, a formação de jogadores de futebol desde a sua infância.

Isso se dá porque a Constituição Brasileira proíbe o trabalho para menores de 14 anos e, em razão disso, a Lei Pelé somente permite o primeiro contrato na mesma idade. Tal situação inviabiliza grandes investimentos em atletas antes dessa idade, já que o clube formador não possuirá qualquer garantia.

Enfim, se a Presidente Dilma e o seu “novo” Governo quiserem mudar os rumos do futebol brasileiro terão muito trabalho e resistência pela frente, o que exigirá coragem e força política. Indícios destes rumos começarão a surgir na indicação do novo Ministro dos Esportes. Aguardemos.
 

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Melhorando a capacidade de adaptação do atleta

Nos dias atuais do futebol, com o grande volume de transferências dos atletas profissionais para diversos lugares do mundo, saber como promover de uma maneira mais fácil a sua adaptação à nova situação, torna-se algo muito importante na carreira de qualquer atleta profissional de futebol.

Seja numa transferência para um grande clube ou uma mudança de país, os atletas sofrem grandes impactos emocionais com este movimento e certamente em muitos casos isto pode afetar diretamente sua capacidade de atingir seu melhor desempenho, conforme expectativas que foram geradas em torno dele. Por isso decidi compartilhar nesta semana alguns pontos sobre a importância da adaptação do atleta nestes cenários.

As pessoas com alta capacidade de adaptação utilizam seu cérebro de uma maneira fundamental para o sucesso e Deepak Chopra esclarece muito bem este ponto em seu livro Super Cérebro. Ele nos apresenta que essa habilidade é necessária à sobrevivência humana e que de todos os seres vivos, apenas os humanos se adaptaram a todos os ambientes do planeta. Seja diante dos climas mais inóspitos, das dietas alimentares mais incomuns, das piores doenças ou das mais temíveis crises causadas pelas forças naturais, nós fomos capazes de nos adaptarmos.

Deepak cita o exemplo de Einstein e comenta sobre as forças desenvolvidas por ele, bem como também obstáculos que ele evitava para obter uma grande capacidade de adaptação.
As três forças de Einstein: deixar pra lá, ser flexível e manter a calma.

Os três obstáculos evitados por Einstein: apego a velhos hábitos, manutenção das mesmas condições e estagnação.

Segundo ele é possível medirmos a adaptabilidade de uma pessoa pela maneira como ela consegue deixar pra lá, ser flexível e manter a calma diante das dificuldades apresentadas. E mais, pode-se avaliar a dificuldade de adaptação de uma pessoa pela predominância de velhos hábitos e costumes que a mantêm paralisada.

Por exemplo, se uma pessoa pensar frequentemente em todas as lembranças dolorosas de abalos e derrotas, estas irão lhe dizer repetidamente o quanto ela é limitada, e notadamente isto se aplica a vida de qualquer atleta profissional.

Quando se enfrenta um novo problema ou situação, pode-se resolvê-la da maneira habitual ou de uma maneira nova. A primeira escolha é sem dúvida o caminho mais fácil, mas nem sempre é a melhor no ponto de vista do impacto no resultado que a pessoa deseja atingir para concretizar um objetivo traçado. Imagine que um atleta chegue a um novo clube e com uma baixa capacidade de adaptação, ele reproduz velhos hábitos que não se enquadram naquela situação?

Provavelmente ele não conseguirá ter um bom desempenho e uma sequência de enfraquecimento emocional fará com que ele deixe de acreditar no seu próprio potencial, passando eventualmente a preferir o retorno à situação imediatamente anterior ao invés de buscar a melhor adaptação ao novo contexto, gerando consequente paralisia na sua evolução profissional devido ao encarceramento mental em algo que já passou.

Porém, o atleta pode sim buscar uma melhor adaptabilidade e Deepak nos sugere algumas recomendações para que se use o cérebro com o objetivo de elevar esta capacidade.

Como ser adaptável

• Pare de repetir o que funcionou no passado, mas não está funcionando no momento.

• Recue um pouco e procure uma nova solução, refletindo sobre o quanto as suas ações atuais impactam seus objetivos.

• Quando as velhas tensões aparecerem, se afaste. Assim você poderá refletir melhor e analisar o contexto.

• Reconstrua os laços emocionais que foram perdidos.

• Deixe de brigar tanto para ter razão. No final das contas, ter razão não significa nada perto de ser feliz.

Ao seguir os passos acima, criamos espaço no cérebro para a mudança. Devemos compreender que repetir as ações fixa velhos hábitos no cérebro, alimentar uma emoção negativa é o caminho mais eficiente para bloquear emoções positivas.

Como dica, para saber se o atleta está se tornando mais adaptável, basta estar atendo e perceber se ele…

…consegue rir de si mesmo.

…entende que existe mais numa determinada situação do que você percebe.

…outras pessoas não lhe parecem mais antagonistas simplesmente porque discordam de você.

… a negociação começa a funcionar, e você participa dela sinceramente.

…“concessão” se torna uma palavra positiva.

…consegue relaxar mantendo-se alerta.

…vê as coisas de uma maneira que ainda não tinha visto, e isso o encanta.

Por isso, os atletas podem ter um pouco mais de atenção a este tema, afinal de contas o final do ano se aproxima e com ele uma possível transferência de clube pode estar prestes a acontecer, certo?

Até a próxima. 

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Patrocinador ativo x Ativação do patrocínio

Muito se fala no mercado sobre ativação de patrocínio, especialmente ligado a uma abordagem que é comumente considerada falha em boa parte dos grandes patrocínios realizados no Brasil, em que as marcas aplicam um valor significativa para a compra de uma propriedade e, depois, não realizam ações efetivas de comunicação para criação de sinergias do patrocinado com a própria marca.

Tal “desleixo” com as ferramentas de ativação por parte das empresas tende a conduzir para resultados pífios de visibilidade e percepção de marca. Consequência de um mercado que ainda precisa amadurecer muito, tanto do lado dos patrocinados quanto de quem aplica recursos para o patrocínio.

Indo um pouco mais além nesta relação, percebe-se também que ainda pouco se fala do “patrocinador ativo”, ou seja, as empresas participarem da construção de plataformas esportivas mais consistentes junto das organizações esportivas.

Eis um conceito que está em fase de desenvolvimento e aperfeiçoamento mundo afora mas que pouco se percebe no Brasil. Ou melhor, as marcas, ao notarem que enfrentam eventuais problemas na relação de patrocínio com as entidades esportivas, optam por construir seus próprios conteúdos, evitando assim qualquer desgaste de imagem que poderia ser provocado pela aproximação com o esporte formal.

Na Europa, o “patrocinador ativo” vem se tornando um player importante no desenvolvimento do esporte e na construção de plataformas mais sólidas para as modalidades. Em notícia do SPORTCAL do dia 17-nov, Heineken e Land Rover, patrocinadoras do Rugby, sinalizam com diretrizes que combinam os interesses de consolidação da modalidade em escala global com as expectativas das marcas (http://www.sportcal.com/News/news_free_article.aspx?articleID=102357&source=e&cid=83440). Um exemplo mais simples, é verdade, mas que já indica como as marcas atuam perante as entidades que recebem seus investimentos.

Na Alemanha, o S20 “The Sponsors Voice” (http://www.s20.eu/), reúne um grupo seleto de empresas que representam os maiores volumes de aplicação de recursos no esporte local a título de patrocínio. A associação apresenta diretrizes importantes nas áreas de legislação, ciência, inovação e responsabilidade social para que as marcas patrocinadoras tenham melhores resultados de comunicação. Para ficar em um único exemplo, o S20 publicou no ano passado um documento completo de orientações e parâmetros que devem ser seguidos em áreas de Hospitalidade Corporativa, ou seja, aspectos que as entidades esportivas deveriam ficar atentas para poder atender melhor clientes tão importantes quanto aqueles que financiam suas atividades.

Quando pensamos em um processo de ganha-ganha com o patrocínio esportivo, é preciso que as empresas caminhem além da simples impressão da marca em uma placa de publicidade. É verdade que as entidades esportivas precisam melhorar em muito suas entregas e, por tal razão, é que os patrocinadores no mundo adotam iniciativas mais proativas em relação a seus patrocinados.

Há um espaço ainda vasto para que, no Brasil, se façam ações mais relevantes de ativação de patrocínios e, mais ainda, para que as empresas atuem de maneira mais consistente e próxima de seus patrocinados, de modo a beneficiar não só suas estratégicas de comunicação como também o desenvolvimento pleno do esporte. 

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O engenheiro Fernando Santos: o ser e o tempo

Não, não vou ocupar-me do Ser e Tempo de Martin Heidegger (1889-1976). Nem, para tanto, reconheço em mim competência tamanha. Mas parece-me filosófica a questão: para saber de desporto (e portanto de futebol) o que é preciso saber? Qual o saber radical (ou o decisivo e fundamental) onde assenta o conhecimento do futebol? Uma pergunta ainda, com a mesma intenção: qual a essência do futebol? Sem o dizer, o engenheiro Fernando Santos, atual treinador da seleção portuguesa de futebol, ensinou-nos, com inflexível e austera firmeza: é o ser humano, é o “agente do futebol”, designadamente o praticante. E, por isso, foi a este nível que se centraram as suas preocupações, logo que o nomearam selecionador. E o Ricardo Carvalho e o Tiago e o Danny e o Cédric e o William Carvalho integraram o “onze” em que mostrou mais acreditar. O Ricardo Quaresma, um dos melhores jogadores portugueses, também foi convocado e também jogou. No próprio dia do Dinamarca-Portugal, Fernando Santos dizia ao jornal A Bola: “Quem decide no campo são os jogadores, eu estou cá fora”. De facto, para quem viu o jogo (eu vi pela televisão) ficou demonstrado que a tática quatro-quatro-dois-losango (que por vezes se transformou em quatro-três-três) resultou em plenitude, mas foi a classe de Ricardo Carvalho e de Ricardo Quaresma e o gênio de Cristiano Ronaldo (e a honestidade de todos eles) a “causa das causas” da vitória memorável, em Copenhague. Venho assinalando, há um bom par de anos já, que não há remates, há homens (e mulheres) que rematam; não há defesas, há homens (e mulheres) que defendem; não há fintas, há homens (e mulheres) que fintam – se eu não compreender antes os homens (e as mulheres) que rematam e defendem e fintam, não entenderei nunca nem os remates, nem as defesas, nem as fintas. O Cristiano Ronaldo, após o Dinamarca-Portugal, sem pormenores engenhosos, desassombradamente afirmou: “Já tinha saudades de jogar com o Ricardo Quaresma”. E sorridente acrescentou: “É que eu já sei como ele centra, eu sabia o percurso da bola e assim fiz o golo. Eu conheço-o bem”.

O desporto não é apenas uma teoria, nem tão-só uma doutrina – o desporto é uma vida! Uma equipa, como uma família, mostra-se nos mais pequenos trechos de fraterna amizade, entre os jogadores, e no respeito pelas ordens do treinador que se aceita como conselheiro ou guia. Uma equipa, ou se movimenta, estrutura, enobrece, como uma família, ou o 4x3x3, ou o 4x4x2, ou o 3x5x2, ou o 4x2x3x1, surgem acorrentados a erros e fragilidades sem conta. Juan Mata, jogador do Manchester United, ao El País, de 2014/10/20, assegurou com palavras solenes: “Van Gaal es honesto. Es más importante ser una buena persona que un buen técnico”. Ao Juan Mata apresentam-no os jornais como um rapaz rebelde e livre, pagando, com frequência, as consequências das suas atitudes, do seu desprezo pelas fórmulas feitas, da sua falta de respeito pelas consagrações indevidas. Mas, segundo o jornalista que o entrevistou, é um leitor habitual de bons livros. Talvez, por isso, e instruído pela lição diária dos factos, a sua plena crença na necessidade de o treinador ser pessoa de admirável lucidez e honestidade… antes do mais! O desporto de alta competição tende, hoje, a reduzir-se à racionalidade técnica e tática, à rentabilidade econômica (o futebol é um negócio) e a uma retórica de salivoso e anacrônico clubismo. Ora, e a dignidade incontornável do homem, como pessoa, presente em cada um dos elementos que constituem um departamento de futebol? E não é por aqui que deve começar o treino do futebolista de alta competição? Para que serve a ética no treino e na competição? Concorre ela a uma performance mais plena? O Juan Mata na mesma entrevista não esconde a admiração que sente pelo treinador Van Gaal: “ Gosta muito de falar connosco e perguntar-nos que opinião temos dos exercícios que fazemos nos treinos. Por vezes, fala de Guardiola e dos conselhos que lhe dava. Van Gaal tem prazer em ouvir os jogadores, principalmente quando eles procuram soluções que podem beneficiar o grupo”.

A reflexão filosófica acordou tarde para o Desporto, que era uma Atividade Física e quanto mais física mais desatinada. Após esta melancólica conclusão, a Filosofia não poderia ocupar-se do Desporto. Até que (e agora, desde os gregos, dou um salto de séculos) o Desporto passou a estudar-se de um modo unificado onde entravam dialeticamente, integrando a mesma totalidade, aspetos epistemológicos, éticos, estéticos, tecnocientíficos, sociais, políticos, culturais. E então a Filosofia descobriu que o Desporto era uma Atividade, mais do que Física, Humana e sentiu que não podia ficar indiferente à humanidade que o Desporto é. E temas como ciência, consciência, competição, motricidade, solidariedade, liberdade, utopia, desejo são problemas filosóficos porque são desportivos e são problemas desportivos porque são filosóficos. E na escola hegelo-marxista, na fenomenologia, em Nietzsche, em Ortega y Gasset, em Wittgenstein, em Huizinga, em Arnold Gehlen, em Adorno, em Marcuse, em Hannah Arendt, em Habermas encontramos juízos esclarecedores acerca do corpo, do jogo, do desporto, do espetáculo, da competição. E do discurso, da comunicação. N’A Condição Humana (Relógio d’Água, Lisboa, 2001), Hannah Arendt observa: “Nenhuma outra atividade humana precisa tanto do discurso como a ação” (p. 41). O ser do Desporto é o Homem! Numa competição ou num treino, quando se pergunta: o que aconteceu? É pelo Homem que se pergunta…

O que venho de escrever, nas suas linhas essenciais o engenheiro Fernando Santos conhece, assim como os que têm a paciência de ler-me. Entre as dezenas de jogadores profissionais de futebol, que já conheci, mesmo os de mais larga audiência, nenhum me mostrou desagrado, pelo seu atual (ou antigo) treinador, por razões de ordem tática. Os fatores decisivos da sua antipatia residiam na prepotência, na canhestra comunicação, na teimosia, na incapacidade de liderar e organizar. Numa grande equipa de futebol, hoje, liderança, ética e humanismo convergem. A crise, portanto, não é normalmente de ordem tática. Por isso, eu confio no engenheiro Fernando Santos, como treinador e líder da seleção portuguesa. No meu modesto entender deverá nascer, no futebol, uma perspetiva paradigmática nova, onde o que o define não tem apenas e só uma natureza científica. A transcendência (a superação) é o sentido da vida e portanto do desporto. E no ato da transcendência não há ciência tão-só, há vontade e esperança e fé – há a convicção profunda de que o Homem e o Desporto são tarefas a realizar! Só quando o Futebol for um modo de desfatalizar a História, o futebol poderá desenvolver-se, numa ordem imprevisível e nova. Por isso, repito, eu confio no
engenheiro Fernando Santos, como treinador e líder seleção portuguesa de futebol.