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A TV e a promoção do espetáculo

O nome do adversário; o logotipo; o nome do estádio; a programação pré-jogo. O canal fechado “Sportv” exibiu ao vivo o amistoso entre Palmeiras e Red Bull Brasil, no último domingo (25), no Allianz Parque. Para isso, porém, “escondeu” uma série de elementos da partida e evitou a divulgação de parceiros comerciais das duas equipes. De quem é a culpa?

Em vez de Allianz Parque, o estádio que recebeu a partida foi chamado de Arena Palmeiras em toda a transmissão. O Red Bull Brasil virou RB Brasil, e o escudo do time paulista foi desfocado para evitar a exposição da empresa patrocinadora. O Sportv também não mostrou a extensa programação pré-evento, com apresentações de motocross, paraquedismo e de ídolos alviverdes.

Quer pensar em como podia ter sido? Poucas horas depois do amistoso, a liga profissional de futebol americano (NFL) realizou seu jogo das estrelas. É um evento anual conhecido por ser um jogo de pouco apelo esportivo (é difícil imaginar uma disputa atraente de futebol americano sem ter alto grau de competitividade). Ainda assim, é um show de enorme popularidade global. E o perfil de transmissão televisiva do evento tem a ver com isso.

Transmitir a NFL envolve acordos como exibição de compactos durante a semana, inclusão da liga em programas de notícias, enquadramento de câmera em dias de transmissão, hora de abertura e encerramento de jornada e nomenclaturas da liga, das franquias e dos parceiros. Até os comerciais são regulados.

O modelo das ligas esportivas dos Estados Unidos é adotado há tempos pela Liga dos Campeões da Uefa – não por acaso, esse é o maior torneio de clubes do futebol mundial. Quando a TV Globo comprou o pacote de transmissão da competição para rede aberta no Brasil, foi preciso um enorme acordo para respeitar os parceiros comerciais da emissora. A Uefa exigia comerciais da cerveja Heineken, por exemplo, mas o canal tem a Ambev como anunciante de todo o pacote de futebol. O conflito só foi dirimido por um adendo ao contrato de direitos de mídia.

A Globo precisou de um aval da Uefa para não incluir comerciais da Heineken nos intervalos dos jogos. Também teve de negociar com a entidade para traduzir o nome do torneio – o padrão internacional é “Uefa Champions League”, em inglês. Mas precisou fazer concessões de enquadramento e conteúdo, em contrapartida.

Menos permissiva nesse sentido, a Fifa é outro exemplo de controle absoluto de conteúdo no futebol. Jogos da Copa do Mundo têm um padrão determinado pela entidade, e as emissoras dispostas a mostrá-los precisam concordar com isso.

Para garantir esse padrão, aliás, a Fifa assumiu há décadas a geração do conteúdo. A entidade tem uma empresa chamada HBS, que é a responsável por toda a transmissão ao vivo de eventos. Parceiros de mídia têm direito a um número determinado de câmeras exclusivas, mas elas só respondem por uma pequena parcela do que é mostrado ao público.

E aí chegamos ao futebol brasileiro. A Globo boicota deliberadamente os parceiros comerciais das equipes nacionais. A explicação da emissora para isso é que essa é uma forma de separar o conteúdo informativo e jornalístico do que é publicidade. Em teoria, notícias não servem para divulgar nenhuma marca.

O problema é que essa lógica não é irrestrita. A Globo faz concessões a parceiros comerciais e a empresas que pagam por isso. Na década passada, a emissora chegou a oferecer a algumas marcas a possibilidade de cobrir digitalmente as placas de campo da Copa do Brasil, que eram vendidas na época pela Traffic. Times e organizadores do campeonato faziam prospecção e buscavam empresas interessadas em aparecer numa propriedade deles, e a TV cobriria tudo isso para priorizar seus anunciantes. Isso só não aconteceu porque nenhuma companhia quis comprar a briga.

Ao fazer isso, a Globo se coloca como um concorrente direto dos clubes. Empresas interessadas apenas em mídia preferem investir no canal do que nas equipes. Isso enfraquece os times financeirametne, e o processo tem duas consequências diretas: eles usam a parceira de transmissão quando precisam de socorro financeiro e têm menos poder quando vão negociar direitos de mídia. É um ciclo que só interessa à TV.

O caso do amistoso de domingo escancara duas necessidades prementes no futebol brasileiro: é preciso criar projetos que não sejam focados apenas em mídia (e o que a Red Bull faz é exatamente isso), assim como é preciso rever o papel da TV no esporte. O termo “parceiro de mídia” não parece correto para alguém que deliberadamente trabalha para asfixiar os times e criar relação de dependência.

Contudo, os dois caminhos dependem de ação dos clubes. Em uma frente, ação individual (criação de departamentos de marketing mais eficientes, com métricas e protocolos que sejam menos balizados pela exposição, alicerçados no conteúdo e no vínculo com o torcedor). Em outra direção, é fundamental uma ação coletiva (isoladamente, nenhum clube tem poder suficiente para contestar o modelo vigente de parceria com a TV).

As duas frentes passam necessariamente por um mesmo processo. Clubes precisam desenhar a experiência de seus torcedores com a marca, independentemente do modelo de consumo dessa marca. A comunicação só vai subir de nível no futebol brasileiro quando as diretorias entenderem que esse é um processo sistêmico, que abrange toda a relação das pessoas com o esporte – e com o time, por consequência. Nesse sentido, todo conteúdo é relevante e precisa ser bem cuidado. Isso vale até para os parâmetros adotados pela TV. Há tempos, a exposição deixou de ser suficiente.

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A carreira e o mercado de trabalho no futebol

Existe um ditado popular que afirma: “Se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”.

Esta máxima, que você já deve ter escutado inúmeras vezes e, talvez, pronunciado quando estava avesso às opiniões alheias, retrata bem o que não deve balizar a sua conduta profissional.

Com alguns exemplos, na coluna de hoje tentarei retratar a relevância dos (bons) conselhos em nossa trajetória profissional. Se considerarmos os cargos disponíveis na gestão de campo (treinadores, assistentes, analistas, preparadores e adjuntos), é certo que existem cerca de 50 vagas no Brasil, para cada uma destas funções, que representam o topo do mercado de trabalho. É claro que dentre estas 50 vagas, as diferentes condições estruturais e financeiras dos clubes proporcionam um ranking que elitiza ainda mais os principais cargos de gestão de campo do futebol brasileiro.

É grande a chance de você que está lendo esta coluna não estar (bem como este que vos escreve), atualmente, numa destas vagas. Ao mesmo tempo, cabe a você construir a sua história, trilhar os seus caminhos e tomar as decisões que poderão conduzi-lo ao topo de sua profissão, ao menos no âmbito nacional.

Ao longo de minha ainda curta carreira profissional, uma das decisões que tomei (mais de uma vez) foi ter os ouvidos sempre prontos para escutar profissionais que, de alguma forma, exercem influência sobre minha atuação.

E entre os inúmeros conselhos que ouvi ao longo de quase 8 anos de profissão, três (de três profissionais diferentes) marcaram muito e foram determinantes nas constantes tomadas de decisão que são inerentes a nossa carreira. Foram estes:

“O mercado precisa saber quem você é, pois quem não é visto não é lembrado.”

“Você está preparado. Acredite!”

“A carreira no futebol não é linear.”

O primeiro conselho surgiu num momento de pouca experiência profissional e crença de que um trabalho bem feito, independentemente do local, seria suficiente para atrair os olhares do mercado e proporcionar um convite/proposta de crescimento profissional. Na ocasião fui alertado que o mercado precisaria saber quem eu era e quais eram as minhas ideias sobre o jogo de futebol.

O segundo conselho surgiu num momento em que hesitei participar de um processo seletivo (se é que podemos chamar de processo seletivo a maneira que o clube em questão contratava profissionais) para ser treinador numa das equipes das categorias de base de um grande clube do futebol brasileiro.

Ao comentar com um companheiro de profissão, ele me disse que eu estudava futebol constantemente, estava atualizado em relação as metodologias de treinamento e não possuía menos competências do que muitos outros profissionais que já haviam ocupado o cargo e, portanto, estava preparado. Naquele momento aprendi que deveria acreditar mais em mim e em meu trabalho.

E, por último, o conselho que inicialmente me incomodou, pois estava certo de que, após trabalhar como auxiliar-técnico do profissional e técnico de uma equipe sub-20, os próximos trabalhos seriam exclusivamente com estas categorias. Em minha (equivocada) opinião, profissionalmente, não seria cabível retornar as equipes iniciais de formação. Era mais uma de minhas crenças e esta classificava como um “rebaixamento” retornar a uma função com crianças e adolescentes. Através do conselho pude ampliar o olhar e entender melhor a rotatividade e dinâmica do mercado de gestores de campo e o quanto são distintas de outras profissões. Do momento em que o conselho foi dado até hoje, saí de uma equipe sub-17, passei pela sub-13, 17 e profissional de outra e, agora, estou em uma sub-23 de outra. Como “vítima” da rotatividade e dinâmica, uma crença poderia ter me impossibilitado de vivenciar experiências profissionais incríveis.

Quem me deu o conselho, recentemente saiu de uma equipe sub-15 para trabalhar com profissionais. Mais uma grande prova de que “a carreira no futebol não é linear”.

Para terminar, é bem provável que você ainda não esteja no ponto máximo que almeja para a sua carreira (bem como esse que vos escreve). É certo também que alguns conselhos não são suficientes para conduzir uma vida profissional de sucesso. Some a essa caminhada inúmeros desafios, aprendizados, escolhas, acertos, erros, vitórias, derrotas, alegrias, decepções, conquistas e fracassos. Some também inúmeros conselhos que não lhes serão úteis. Cabe a você ouvi-los e ter capacidade de discernimento.

Para você, deixo o meu conselho: Dedique-se muito, mantenha expectativas realistas e acredite que é possível chegar aos principais cargos de gestão de campo do futebol brasileiro. Dizem que se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. Você tem algum?

ps: Obrigado a todos que, em algum momento, me deram conselhos e, em especial, aos 3 profissionais que me referi na coluna. 

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Sanção x Solução

Ganhamos uma batalha! Mas levamos? Essa é a dúvida que paira minha mente há algum tempo após inúmeros movimentos que vem surgindo no âmbito do futebol para pressionar por melhorias da governança da modalidade no país.

Nesta segunda-feira veio o esperado (???) veto presidencial da Lei de Responsabilidade Fiscal dos Clubes, a partir de um texto que previa o refinanciamento de dívidas dos clubes sem as contrapartidas destes para o implemento de um trabalho mais qualificado de gestão e de efetiva responsabilidade sobre as contas das entidades.

Ótimo! Ponto para aqueles que querem as mudanças, como eu. Na verdade, conquistou-se tempo para voltar a um debate sobre um modelo de legislação e efetiva aplicação desta lei (coisas de um país com amplo descrédito institucional: a lei pega ou não pega? Eis uma dúvida ridícula, mas factual. Se é lei, deveria ser lei. E ponto!).

E não se enganem: a CBF já trouxe a solução para a fiscalização da Lei. Prometeu incluir no regulamento de competições, evitando qualquer ensaio de agentes externos sobre o sistema. Disse, inclusive, que quem mais está apto a fazer este tipo de julgamento são eles mesmos, com sistema de justiça constitucionalmente reconhecidos. Olhando sob a ótima institucional, não estão errados em pensar desta maneira.

Enfim, por todo o histórico (passado e recente) de movimentos sobre ajustes econômicos, fiscais e financeiros dos clubes de futebol, o fato é que ainda não vejo com bons olhos o caminho que se está tentando seguir.

Não consigo ter a clareza de que uma lei possa provocar a mudança no comportamento dos gestores de clubes de futebol. Haverá, sim, uma adaptação aos pré-requisitos de uma regulamentação que poderá vir e, por mais que seja bem feita e respeitada, não será a garantia para que haja melhor gestão destas organizações.

Eu já fiz esta abordagem em outros textos aqui na Universidade do Futebol e, por isso, insisto: precisamos de um modelo de estímulos ao invés de punição. É preciso ensinar boas práticas de gestão aos clubes e, por seu turno, ao mercado, que compreende muito mal as similaridades e as diferenças das entidades esportivas de outras organizações que exercem uma atividade qualquer de negócios. Os dirigentes precisam, antes de tudo, competir para serem melhores gestores, na acepção da palavra!

Em suma: antes de punir, que tal estimularmos aqueles que fazem direito? Se o que se quer efetivamente é uma solução do problema para o futebol brasileiro, é fundamental rediscutir a forma desta solução e como se chega até ela. O veto presidencial deu tempo para este repensar – para todos os lados, é bom que se diga – e, quem sabe, buscarmos uma solução mais inteligente para aquilo que queremos. 

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Comunicação de crise no esporte

Não é qualquer pessoa que tem humildade suficiente para admitir que precisa de ajuda. Aliás, são poucos os que têm capacidade de analisar um ambiente com distanciamento necessário para entender que uma ação externa é necessária. Falar sobre isso, então, é um tabu para a maioria. O futebol brasileiro é prova disso.

Ter dívida não é um problema. Toda grande empresa tem. Quase toda pessoa tem (considere que compras parceladas, financiamentos de imóveis e até alguns investimentos são “dívidas”). No entanto, por décadas de absoluto despreparo para lidar com essa realidade, os clubes brasileiros acumularam déficit que afeta negativamente a gestão.

Pense na realidade de uma pessoa: alguém que contrai uma dívida de longo prazo (a compra de um carro, por exemplo) e se compromete a pagar esse valor em parcelas mensais precisa fazer concessões. Para ter receita suficiente, é fundamental cortar custos em outras frentes e ter responsabilidade com o salário recebido.

Clubes brasileiros fazem o contrário: têm dívidas, mas seguem gastando mais do que recebem. Na prática, a dívida aumenta constantemente até se tornar impagável.

Em tempo: pagar a dívida nem sempre é o melhor negócio no Brasil. Em muitas situações, o melhor negócio é conseguir uma renegociação com taxas menores, reservar o dinheiro necessário para o pagamento e lucrar com rendimento. Não é a saída mais ética do mundo, mas é muito usual.

O problema é que clubes brasileiros não fazem nem isso. Não há um planejamento para lidar com déficit, e tampouco existe uma equação financeira adequada a uma realidade de crise. Não é uma unanimidade, mas essa é a realidade mais comum no esporte do país – e não apenas no futebol.

Esse cenário tornou-se ainda mais cruel quando os times de futebol do Brasil passaram a lidar com orçamentos maiores. Com mais dinheiro, a saída responsável seria equacionar a dívida e criar um cenário sustentável para os anos seguintes. A saída imposta pelo mercado foi inflacionar contratos, pagar mais por profissionais e fazer negociações menos responsáveis.

A análise financeira do futebol brasileiro precisa ser mais aprofundada e individualizada, é claro, e esse texto não seria suficiente para isso. A questão aqui é que a comunicação precisa estar preparada para um dos momentos mais complicados da história do futebol brasileiro.

Clubes não têm dinheiro, e isso não é novidade. A novidade é que as dívidas altas têm influenciado diretamente o processo de gestão. Além dos prejuízos, clubes lidam com receitas antecipadas e pouca margem de negociação de curto prazo.

A negociação irresponsável de atletas também entra nessa conta. Clubes passaram anos abrindo mão de direitos sobre seus principais talentos, em negócios cujo foco era equacionar a dívida. O resultado? Em vez do déficit, o que diminuiu foi o ativo.

No último domingo, dois comentaristas de um programa do canal fechado “Fox Sports” discutiram sobre a reação a isso. Falando especificamente sobre o caso do Flamengo, que tem se esforçado para incluir austeridade na gestão e reduzir a dívida, um deles defendeu os preceitos incutidos na gestão do clube durante a gestão do presidente Eduardo Bandeira de Mello. Outro respondeu que a torcida liga pouco para isso e que qualquer avaliação do trabalho de um mandatário depende exclusivamente da quantidade de vitórias.

O Santos tem vivido dicotomia similar. Alguns dos principais jogadores do clube saíram por falta de pagamento – nomes como Edu Dracena, Arouca, Mena e Leandro Damião acionaram a Justiça para encerrar vínculo com o clube. Ainda assim, a diretoria contratou reforços para a temporada 2015 e foi atrás de nomes como o centroavante Ricardo Oliveira, que assinou um contrato de risco.

Se você fosse jogador do Santos e estivesse com salários atrasados, como reagiria a essas contratações? Como você lidaria com uma empresa que deixa de pagar o que deve para fazer novos investimentos?

O exemplo contrário é o Palmeiras. Depois de um ano extremamente conturbado, a diretoria alviverde fez uma montagem de elenco em 2015 que não teve apenas sentido técnico. As 15 contratações também foram feitas para mexer com a autoestima dos torcedores, que se empolgaram com a perspectiva de uma equipe mais forte.

O ápice disso foi a contratação do atacante Dudu, ex-jogador do Grêmio. O Palmeiras contratou o jogador depois de Corinthians e São Paulo terem passado dias disputando. Foi uma vitória que mostrou à torcida e ao mercado que o clube alviverde era uma alternativa real para os atletas mais badalados do mercado. Antes da justificativa técnica, foi uma negociação de fundo emocional.

O problema é que muitos clubes usam exclusivamente essa ideia. Contratações não são estratégicas, mas caminhos para mexer com a autoestima do torcedor e para dar respostas ao mercado.

No caso do Palmeiras, a contratação de Dudu foi atrelada a uma comunicação voltada a incrementar o programa de sócios do clube. Em um dia, foram mais de duas mil adesões.

E o Santos, o que tem feito para justificar tantas contratações? E os outros clubes que vivem momentos complicados? Fazer comunicação na crise é mais difícil, mas muito mais importante.

O futebol brasileiro precisa parar de agir como ricos falidos. Os clubes precisam deixar de ser aquelas pessoas que agem como se ainda fossem poderosas e que gastam como se tivessem como pagar.

As dívidas dos clubes brasileiros deixaram de ser administráveis. Pior: elas têm comprometido a gestão. Se os dirigentes quiserem pensar minimamente em um futuro rentável, é fundamental que eles adotem práticas austeras. E para isso, é fundamental fazer comunicação com foco em gestão de crise.

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Direitos econômicos, fair play financeiro e a nova realidade do futebol brasileiro

Enquanto a bola não rola, nos bastidores o momento é de muitas novidades, eis que a CBF decidiu incluir em suas normas e regulamentos a proibição de titularidade de direitos econômicos por investidores e regras de transparência e fair play financeiro e trabalhista.

No que tange aos investidores, a norma que foi inspirada inspirada em medidas da UEFA e da FIFA estabelece que a partir de maio, somente os clubes poderão ser titulares de direitos econômicos de atletas.

Os investidores são indispensáveis para a estrutura econômica dos clubes brasileiros, razão pela qual, acredita-se que os investidores acabarão por firmar contratos civis com os clubes que serão registrados em cartório.

Este contrato preverá que determinado percentual nas transações envolvendo atletas de futebol. Caso, após a transação, o clube não repasse a participação dos investidores, será cabível medida judicial, como, por exemplo, processo de execução para recebimento dos valores.

Com relação à transparência e fair play financeiro, trata-se de medida igualmente inspirada em medidas já adotadas na pela UEFA e por diversos países como a Espanha e Portugal e que, sem dúvidas corresponde a uma verdadeira revolução, já que, a partir de agora os clubes serão obrigados a comprovar a regularidade de suas obrigações tributárias; a existência e autonomia de Conselho Fiscal nas respectivas entidades; a redução do déficit operacional ou do prejuízo; o cumprimento de todos os contratos de trabalho e o regular pagamento dos respectivos encargos, de todos os profissionais contratados, mediante a apresentação dos comprovantes de pagamento de salários, de recolhimento de FGTS, de recolhimento das contribuições previdenciárias e de pagamento das obrigações contratuais e quaisquer outras havidas com os atletas e demais funcionários, inclusive direito de imagem, ainda que não guardem relação direta com o salário. As demonstrações financeiras dos clubes deverão ser transparentes ao explicitar receitas e despesas de forma clara.

Outrossim, a inobservância das regras de transparência e fair play poderá gerar punições gravosas como perda de de pontos, desclassificação ou rebaixamento. Tais medidas são aplicadas na Europa onde, em 2013, o Málaga ficou fora da Liga Europa por falta de pagamento dos salários dos atletas. Caso semelhante ocorreu na Itália em 2002, quando a Fiorentina teve sua vaga na série B negada e teve que disputar a C2.

Doutro giro, o fair play financeiro adotado na Inglaterra desde 2012 fortaleceu os clubes, já que como a organização financeira, as equipes passaram a ter maior facilidade para conseguir patrocínios e tiveram diminuída sua dependência de adiantamento de despesas ou empréstimos bancários.

No momento em que o país perde Ricardo Goulart e Diego Tardelli, dois de seus maiores craques, para o futebol chinês, as medidas implementadas pela CBF, se bem geridas podem revolucionar a gestão dos clubes brasileiros tornando-os mais profissionais e economicamente viáveis.
 

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Um real motivo para a busca pelo melhor desempenho

Muitas vezes percebemos que diversos atletas não obtém o melhor desempenho de suas carreiras, mesmo tendo condições de atuarem nos melhores clubes e nem com a participação das melhores preparações em diversas pré-temporadas.

Podemos nos perguntar o que realmente acontece com a carreira destes atletas. Será que estão sem estímulo para avançar em seus melhores desempenhos ou não acreditam que podem evoluir em termos profissionais?

Quero contribuir com uma reflexão sobre um ponto que talvez possa ser um elemento chave nesta investigação: a falta de uma grande missão em sua vida profissional e a consequente ausência de metas que podem levá-lo a alcançar este resultado final de carreira.

Uma missão que pode nos trazer um propósito para nossas vidas é fundamental para cada um de nós e com o atleta funciona da mesma forma. Dentro de um processo de coaching esportivo o atleta pode definir sua missão e propósito, de forma que estes possam impulsionar seu desempenho profissional e consequentemente sua carreira.

Ao se elaborar a missão e o propósito, o atleta pode elaborar uma lista de grandes metas ou realizações desejadas para sua carreira, como se fosse uma verdadeira lista de sonhos ou desejos, até porque é importante compreender que todo bom planejamento de ações começa com um sonho a realizar.

Esta lista de metas ou objetivos podem ser categorizadas e classificadas, de forma que isto facilite a consequente priorização das ações a serem executadas, bem como os prazos para realiza-las. A partir deste ponto o atleta é orientado e estimulado a construir objetivos bem formulados, que sejam valiosos para ele e estejam de acordo com sua missão e propósito.

Neste ponto em particular acredito estar a grande chave do sucesso da formulação de metas e objetivos para um melhor desempenho profissional, pois de nada adiante termos metas audaciosas e objetivos bem formulados se estes não possuem alinhamento ou congruência com os desejos mais genuínos de quem os persegue.

É de fundamental importância este alinhamento e penso que muitas vezes esta reflexão e questionamento não acontece na vida do atleta, que passa muito mais a navegar conforme o sabor do vento, do que buscar sinceramente conquistas que o permitirão a ele ter inspiração e motivação suficientes para superar seus próprios obstáculos.

Como disse um dia Viktor Frankl: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como”, e esta frase ilustra exatamente a importância de termos missão e propósito bem definidos nas faces profissional e pessoal de nossas vidas, independente de sermos atletas profissionais ou não.

Até a próxima!
 

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Precisamos de um projeto de nacionalização dos clubes brasileiros

É impressionante a energia que é gasta por “grandes especialistas” que analisam a gestão dos clubes brasileiros sobre a magia de se construir projetos de internacionalização das marcas destas entidades. De fato, trata-se de um campo ainda pouco explorado pelo mercado brasileiro e com grande potencial de aferição de receitas. Fluminense e Corinthians estão fazendo as primeiras incursões em solo americano, registrando grande repercussão positiva. É inegável!

Mas o que me preocupa mais e me tira um pouco o sono quando pensamos em “futuro do futebol brasileiro” é, na verdade, a necessidade de editarmos um projeto consistente de NACIONALIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO, com o perdão da redundância.

Aliás, esse termo não é novo. Aod Cunha, em um famoso documento que versa sobre o futuro da gestão do futebol, aborda em um dos itens que apenas os clubes que forem capazes de ter uma base nacional e internacional de torcedores / consumidores / simpatizantes terão orçamentos competitivos.

O fato é que, a cada semana, há algum tempo, leio ou vejo projetos de clubes europeus com projetos voltados para o mercado brasileiro. E com grande sucesso. Nas redes sociais, são raros os jovens (torcedores / consumidores / simpatizantes) que levantam uma bandeira em defesa do futebol brasileiro. Muito pelo contrário: a grande maioria dos debates redunda naquilo que ocorre no futebol internacional.

Em uma série de reportagens recente do “Bom Dia Brasil”, da TV Globo, o último episódio (em 26-dez-2014 – pode ser acessado aqui: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/edicoes/2014/12/26.html) mostrou o crescimento do apreço das crianças por craques e equipes internacionais. Nas escolinhas, as crianças preferem ir treinar com uma camisa de clube estrangeiro e não brasileiro. Isso é assustador!!! Sem falar na programação da TV Fechada, do acesso a Internet e dos jogos de vídeo game, que aproximaram este público do que ocorre lá fora.

Muito mais por eficiência do projeto de internacionalização que os europeus começaram já na última década que se somou ao trabalho de marketing ainda em fase de “descobertas” no futebol brasileiro. Ou seja, por aqui, os bons projetos, quando feitos, são isolados e/ou de curta duração.

Um exemplo da premissa acima está na escolha aleatória de jogos que alguns clubes do sudeste fazem no Norte, Nordeste ou Centro-Oeste, aproveitando as novas arenas da Copa 2014. A ideia, a bem da verdade, seria ótima, se fosse bem executada. O que ocorre é uma tomada de decisão baseada, mais das vezes, no desespero: o time vem mal há três jogos e a torcida não comparece. Então a “solução” é tirar o jogo do estádio principal para colocá-lo em um lugar X, que naquele momento poderá render uns trocados a mais. Um projeto como este pode e deve ser bem estruturado para o alcance de algo positivo, focado no fortalecimento da marca dos clubes em território nacional, cumprindo uma ação dentro de uma estratégia maior.

Em síntese, a premissa para iniciar um projeto de internacionalização dos clubes brasileiros deveria ser a seguinte: apenas quando a maioria dos jovens torcedores do clube conseguir, espontaneamente, falar mais de meia dúzia de nomes de jogadores do elenco atual do próprio time.

A ironia não é uma provocação. É simplesmente por acreditar que a conquista de novos territórios só é saudável sob o ponto de vista dos negócios quando se tem bases sólidas no seu mercado de origem.

E finalizo para reforçar todo o potencial que o mercado brasileiro ainda possui. Os clubes do exterior perceberam isso há algum tempo, após uma boa análise do nosso mercado. Se continuarmos ignorando esse fato, talvez as próximas gerações irão aprender língua estrangeira com o futebol e não mais dentro de escolas de idiomas especializadas… 

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Coisas que só acontecem no Botafogo

Há coisas que só acontecem no Botafogo. Diversos episódios históricos contribuíram para a consolidação dessa frase na cultura popular do futebol brasileiro – não existe clube nacional que seja mais ligado a superstições, por exemplo. Em 2015, porém, já é grande a lista de coisas que só acontecem no Botafogo. Ao menos no segmento de comunicação, o time alvinegro não precisou sequer de um mês para ser um caso raro no país.

Dois exemplos disso estão ligados à reformulação do elenco. Rebaixado à segunda divisão do Campeonato Brasileiro, o Botafogo mudou muitas peças desde o término de 2014. O processo de renovação do grupo de atletas tem sido norteado por uma contundente corta de custos – nenhum dos contratados tem salário superior a R$ 100 mil mensais.

O corte é ainda mais claro do que o que havia acontecido na temporada 2014, quando o Botafogo já havia feito um ajuste na realidade econômica de seu elenco. No início do ano passado, o time alvinegro reduziu de R$ 5 milhões para R$ 3,5 milhões mensais a folha salarial e acabou com arroubos como o negócio com o holandês Clarence Seedorf, que recebia R$ 700 mil por mês quando defendia o clube.

A adequação financeira é um processo, portanto, que tem relação com uma série de fatores. É um reflexo de aspectos como a realidade do mercado, as dívidas acumuladas pelo clube em anos passados e a busca por uma política de austeridade. A lista que podia compor uma justificativa para o novo momento é extensa, mas não foi nada disso que o gerente de futebol do Botafogo, Antonio Lopes, usou ao apresentar os reforços Alisson e Bill.

“Todos sabem que o Botafogo tem um orçamento elaborado pela direção, e o futebol precisa cumprir isso. Temos essa missão e logicamente temos uma faixa salarial para contratar e cumprir. Contratar com um salário de R$ 200 mil é fácil, mas a nossa realidade é outra. Tivemos de garimpar e monitorar jogadores”, explicou o dirigente.

A torcida do Botafogo já tinha vários motivos para estar preocupada. O time tem graves problemas financeiros, vem de um descenso no Campeonato Brasileiro e sofreu diversos abalos recentes de auto-estima. E aí, em meio a um processo de reformulação, um dirigente assume o discurso de “é o que tem para hoje” ao se referir aos reforços. Num momento assim, independentemente dos nomes, o processo de comunicação deveria ser o contrário. Alisson e Bill podiam ser arautos da esperança de um novo momento e da reconstrução do time, mas viraram reflexos de um momento ruim.

A apresentação deles, aliás, teve uma segunda aula de comunicação. Uma repórter interpelou Bill durante a entrevista coletiva e fez uma primeira pergunta sobre a transferência para o Botafogo.

“A gente comentou há pouco que você fez uma ótima campanha com o Ceará no ano passado, fez vários gols e foi artilheiro. Você ajudou o Ceará a ir para a primeira divisão, e mesmo assim aceitou vir para o Botafogo e voltar a disputar a segunda divisão. Queria que você dissesse o que o estimulou a ficar na segunda divisão”.

A resposta de Bill foi sensacional: “Olha, o Ceará não subiu. Ficou na segunda ainda. Infelizmente, por seis pontos a gente não subiu”.

A repórter fez uma segunda tentativa, e isso deixou a história ainda mais insólita. “A gente conversava com seu pai lá embaixo também, e ele disse que era Fluminense, mas que agora o time dele é o Botafogo. Queria saber se é um pouco isso para toda sua família, se jogar no Rio de Janeiro estimulou você. Outro ponto que ele acabou confessando é que um problema que você teve no Ceará foi com mulheres, mas ele já puxou sua orelha para isso não acontecer aqui”.

“Não. Sou casado, e graças a Deus muito bem casado. Isso que você falou é mentira. Você está doida? Esse negócio com mulheres já passou. Hoje eu sou muito bem casado, tenho dois filhos maravilhosos e chego ao Botafogo muito feliz de poder trabalhar aqui. Você me quebrou, hein? E outra coisa: não era meu pai, não. Só se meu pai saiu do caixão. Infelizmente, meu pai faleceu e minha mãe também”, respondeu Bill em tom bem humorado.

A repórter esbarrou em uma das questões mais básicas sobre comunicação. Não há mensagem adequada sem uma preparação bem feita, bem associada ao repertório. Não há conversa que não seja alicerçada em informações.

Na sexta-feira (09), no auge da crise em Paris, a repórter Cecília Malan entrou ao vivo na TV Globo. Questionada pelo apresentador Evaristo Costa sobre notícias de momento, ela respondeu com um sincero “Estou na rua, e aqui não tem internet”.

São duas distorções interessantes. A primeira repórter confiou totalmente em conversas, sem ter sequer checado se a fonte com quem havia conversado era realmente o pai do jogador. A segunda se resignou por dificuldades técnicas – agravadas, é claro, pela instabilidade da cidade e pela dificuldade para buscar informações num cenário tão ameaçador. A jornalista da Globo tinha ouvido o estouro de duas bombas enquanto fazia a entrada ao vivo anterior.

Ainda assim, os dois episódios são exemplos de como a comunicação pode ser truncada pela falta de repertório do emissor da mensagem. Independentemente da finalidade, a preparação é uma etapa preponderante nesse processo.

Também é o repertório que transformou uma terceira notícia do Botafogo em um dos episódios mais marcantes da janela de transferências do futebol brasileiro. Jefferson, principal ídolo do atual elenco e titular da seleção brasileira, renovou contrato e vai disputar a segunda divisão.

O movimento de Jefferson não é inédito – Marcos havia feito o mesmo quando o Palmeiras caiu, por exemplo –, mas o momento fez com que essa decisão tivesse enorme repercussão. Com o ocaso de Rogério Ceni, que está cada vez mais perto da aposentadoria, e a saída de outros bons valores, como Neymar, quais são os ídolos que sobram no futebol brasileiro? Quais jogadores que atuam no país são realmente identificados com seus clubes e servem como exemplos para seus torcedores?

Jefferson é uma raridade. Não apenas por ser ídolo num contexto em que isso é cada vez mais raro, mas também por ter valorizado a história. Ele podia ter priorizado aspectos como dinheiro ou permanência na seleção brasileira, por exemplo.

A questão agora é o que vai ser feito disso. O Botafogo tem obrigação de dar a Jefferson um tratamento adequado. A temporada atual tem de ser a de consolidação do goleiro como grande referência do futebol nacional.

O repertório que faltou à repórter é a maior arma do Bot
afogo no caso de Jefferson. Não é necessário fazer nada além de exaltar o que ele já fez pelo clube, mesmo nos momentos mais conturbados. Jefferson é exceção e deve ser tratado como nenhum outro jogador no cenário nacional. Mas será que “há coisas que só acontecem no Botafogo” também sobre isso? 

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O termômetro do futebol brasileiro

A temporada de 2015 começou!

Algumas contratações, muitas dificuldades econômicas, a manutenção no cargo de muitos treinadores na elite do futebol nacional e as dúvidas constantes sobre quais problemas limitam o retorno ao protagonismo individual e coletivo, do jogador e do jogo brasileiro, no cenário mundial.

Nas mesas redondas e reportagens que se discutem tais problemas, tem sido comum apontarem: o trabalho desenvolvido nas categorias de base, a pressão constante por resultados que afeta a qualidade do jogo, o desaparecimento gradativo dos campos de várzea (e, consequentemente, dos craques), a gestão predominantemente não profissional da maioria dos clubes brasileiros e até a baixa qualificação profissional dos nossos treinadores.

Opiniões com visão mais ampliada inter-relacionam os fatos e diagnosticam que um conjunto de elementos de todas as áreas que envolvem a modalidade, seja política, técnica ou administrativa, estão desajustados. Isto reflete negativamente nos 90 minutos.

Afinal, como atividade-fim, os 90 minutos (e somente eles) importam. É por esta preciosa hora e meia que todos os processos de um clube, dos administrativos aos técnicos são planejados e executados.

Sucesso terão os clubes que aliada às buscas por vitórias nos 90 minutos privilegiarem a sustentabilidade e o lucro como prática organizacional.

Sabemos, no entanto, que a obsessão pela vitória a qualquer custo desconsidera a fórmula básica de uma gestão empresarial.

Retomando o foco do texto para os 90 minutos e, mais especificamente, para o produto tático que muitas equipes do nosso futebol têm apresentado, na sequência da coluna serão divulgadas duas imagens (transferidas ao software Tactical Pad) extraídas de um jogo da Série A do Campeonato Brasileiro.

O objetivo da exposição destas imagens é instigá-lo e questioná-lo sobre como terminamos a temporada anterior e cronologicamente iniciamos a temporada atual, sem tempo hábil para profundas transformações em nosso jogo.

Abaixo, a primeira imagem:


 

A equipe do lado esquerdo da imagem tem a posse de bola com o jogador destacado. O adversário, em organização defensiva, mostra-se estruturado em 1-4-2-3-1, com a linha de defesa identificada em vermelho, de volantes em laranja e de meias em amarelo.

Nesta jogada, a equipe com posse realizou uma circulação da bola, alterou o corredor de ataque e realizou as seguintes movimentações durante a referida circulação:

Na sequência, a resposta coletiva da equipe sem bola na tentativa de neutralizar o ataque oponente:

Não “cobrir” a bola (pressionando a região do oponente portador da bola), expor o eixo central e acompanhar individualmente as trocas de posição gerando espaços vazios perigosos são alguns comportamentos de jogo que podemos observar nesta imagem.

Incomoda afirmar que as respostas desta equipe, bem diferentes do que as principais equipes do futebol mundial executariam num lance semelhante, também é a resposta de muitas outras espalhadas pelo país.

No final das contas, o que vale são os 90 minutos. No futebol brasileiro atual temos apresentado problemas durante boa parte deste tempo.

Gostaria de saber a sua opinião!

 

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Liberdade de expressão

– Pai, o que é liberdade de expressão?

– É poder falar o que você quiser, filho.

– Valeu, pai. Então deixa eu xingar esse macaco filho da p#$@ do Luan!

– Não, filho. Peraí. Não é assim. Você não pod…

– Vou chamar aquele mico de chaminé do avesso! Ele vai se fu$5#@ aquele retardado, placenta de p#$%! Viado da p%$$@, só faltava ser judeu, aquela b2$&@ de terrorista muçulmano do cacete!

– Filho!!! Que é isso?

– É o que penso desse m#@$% do c@#@&%$!

– Não é assim. Você pode falar o que pensa só quando você pode arcar com isso. Não é para sair detonando, xingando, maltratando.

– É o que eu penso dele, pai. Vou falar o que eu acho dele. Ninguém tem nada a ver com isso.

– Quem fala o que pensa não pensa no que fala, filho.

– Mas você falou que liberdade de expressão é isso?

– É. Mas você precisa respeitar a liberdade de quem não gosta da sua expressão.

– Então você é contra falar o que pensa?

– Não. Eu sou contra quem fala o que vem à cabeça – se é que vem alguma coisa. Sou contra quem fala pelos cotovelos e com cotovelite. Sou contra quem pensa com o fígado. Sou contra quem usa o que há de melhor no humor para causar e tacar terror. Sou a favor de que todos se manifestem sobre tudo. Mas que todos arquem com as consequências e com a própria consciência. Ou a falta dela.

– Eu acho que tem mais é de ser sincero sempre, pai!

– Nem sempre é virtude a sinceridade. Certas coisas podem ser pensadas. Mas não ditas. E, sobre certos assuntos mais complexos, eu gostaria que as pessoas entendessem e respeitassem as opiniões contrárias. Até dos que não parecem entender muita coisa, e menos ainda respeitar quem pensa diferente.

– Não entendo.

– Você vai entender um dia quando for adulto, filho.

– Mas e isso que aconteceu em Paris com o pessoal daquela revista? Eles foram mortos por detonarem todo mundo? Mas não era brincadeira? Você não diz que com bom humor a gente supera tudo?

– Isso você vai entender menos ainda quando for adulto, filho.

– Tem hora que eu não quero crescer, pai.

– Tem dia que eu gostaria de pegar você e o mundo no colo e botar para dormir para ver se a gente pode começar tudo de novo.
 

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.