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Futebol, saúde, cultura e educação

Há uma visão do senso comum que toma o futebol e o esporte de uma forma geral, como sinônimo de saúde, cultura e educação. Visto superficialmente, não temos nada contra este pensamento.
 
Entretanto, precisamos entender que há diferentes dimensões da prática esportiva. O futebol, por exemplo, pode ser praticado como competição de alto rendimento, cujo objetivo primeiro é a conquista, a vitória. Ele pode também ser praticado como proposta educativa, no âmbito escolar e aí o objetivo é mais formativo. E, finalmente, podemos ver o futebol como forma de puro lazer, onde se deve buscar o equilíbrio físico e emocional, a saúde, a descontração e o divertimento. Nesta forma de lazer, o futebol pode também ser considerado como espetáculo, onde os interessados podem participar apenas como espectador, no estádio, à frente da TV ou ouvindo uma transmissão pelo rádio.
 
Mas seja qual for o objetivo, é preciso que entendamos que o futebol não é bom ou benéfico para seus praticantes, por si só. Para que se atinja seus objetivos específicos é sempre necessário que haja uma intencionalidade, ou seja, uma intenção por trás das nossas ações.
 
Na verdade, a prática do futebol, profissional, escolar ou de lazer, depende de seus atores ou líderes que conduzem estas práticas, para que se garanta reais benefícios a todos. Explico: se esses praticantes são pessoas egocêntricas, reprimidas, violentas ou agressivas, é bem provável que estas características sejam reproduzidas e refletidas no jogo. 
 
Portanto, podemos concluir que o futebol pode, sim, ser um excelente instrumento de cultura, de educação e de saúde, mas para que isto ocorra em sua plenitude, é necessário que as pessoas envolvidas em sua prática e, principalmente, os treinadores, professores ou líderes comunitários que conduzem estas práticas, tenham estas boas intenções de forma clara e segura, fato que, infelizmente, nem sempre acontece.

Para interagir com o autor: medina@universidadedofutebol.com.br

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Quem ensinou nossos atletas a jogar futebol?

Para respondermos (você leitor e nós, autores desse texto) a essas perguntas, apontamos no texto outras às quais ora serão por nós respondidas, ora você leitor poderá respondê-las. Segue o texto.

É bem conhecido de todos a ciência do comportamento chamada construtivismo, a qual aponta que para se aprender algo é necessário que a pessoa esteja em contato com o que se quer aprender. Mas quando falamos em futebol, atualmente, falamos em escolinhas de esportes e então falamos em pelo menos duas pessoas em ação, o aluno/atleta e o professor/técnico. Entretanto, será que a presença desse professor/técnico “garante” a aprendizagem dos alunos/atletas?

A resposta é simples: “Não garante, mas pode facilitar!”. Como nos coloca Paulo Freire, ninguém ensina nada a ninguém, o professor (considerar nesse texto também técnico) deve agir como um facilitador do aluno (considerar também atleta), ou seja, aquele que auxilia o aluno a aprender, possibilitando-lhe um ambiente com estímulos interessantes e condizentes com aquilo que se quer ensinar.

Então isso significa que excelentes atletas, (entendendo excelentes como sinônimo de habilidosos ou inteligentes taticamente) como Garrincha, Pelé, Ronaldinho Gaúcho e Robinho, tiveram facilitadores em suas aprendizagens. Então quem foram estes? Seus técnicos? Seus companheiros de time? Como se dá aprendizagem de um atleta? O que é tão importante para se tornar um atleta inteligente para o jogo?

Deixaremos essas questões para você leitor responder. Mas faremos alguns apontamentos que podem ajudá-lo a pensar sobre isso. Para tanto, iremos explicar o que significa ensinar e aprender e como se deve ensinar futebol atualmente.

Quando uma criança está aprendendo a jogar futebol numa escola de esportes ou num clube de futebol, temos a presença de um professor ou do “professor” como eles costumam chamar aquele que “os ensina”. Até aí nenhuma novidade. Mas, quando falamos de ensino aprendizagem, falamos necessariamente de Pedagogia, uma das ciências mais antigas da humanidade que surgiu com nossos antepassados gregos com o nome Paidéia. Desde aquela época seu significado deriva de sua função, ou seja, Pedagogia é uma ciência que não se refere única e exclusivamente ao modo como se ensina, à metodologia de ensino, mas reflete sobre o contexto que envolve a ação educativa, resultando numa prática de intervenção comprometida, intencional, dirigida, organizada e ciente de suas responsabilidades (ARANHA).

E a Pedagogia no futebol, o que esta significa?

Para o ensino dos esportes, ou para a Pedagogia do futebol, de acordo com Jorge Olimpio Bento, precisamos primeiro entender que o esporte é pedagógico e por conseqüência educativo, quando, entre outras coisas, proporciona obstáculos, exigências, desafios para se experimentar, observando regras e lidando corretamente com os outros.

Mas ensinar não significa “apenas” entender o que é pedagogia, mas entender o que significa ensinar, e para isto Paulo Freire destaca algumas responsabilidades, obrigações e princípios, quando aponta algumas exigências do ensinar, dentre as quais citaremos algumas:

– (ensinar exige) rigorosidade metódica;
– (ensinar exige) pesquisa;
– (ensinar exige) respeito ao saberes do educando;
– (ensinar exige) aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação;
– (ensinar exige) reflexão crítica sobre a prática;
– (ensinar exige) respeito à autonomia do ser do educando;
– (ensinar exige) bom senso;
-(ensinar exige) a convicção de que a mudança é possível.

Podemos então perceber que, ao ensinarmos, em particular, esportes, devemos entender essa ação impregnada por diversos princípios e condutas pedagógicas, pois, sob a ótica do conceito ensinar não existe diferença entre o ensinar futebol (esportes) e ensinar português (ou qualquer outro conhecimento). Portanto, quando ensinamos algo a alguém o mais importante é sabermos que todos somos inteligentes, capazes de crítica e de capacidade in-determinada.

Mais difícil do que saber o que significa ensinar é saber o que significa aprender, ou seja, como, por que e o que cada um aprende.

A aprendizagem é estudada por diversas ciências, mas a Educação e a Pedagogia fizeram uma importante associação quando começaram a desenvolver os estudos na área da Psicologia da Educação. Nesta área têm surgido diferentes estudos sobre o que significa aprender, isto é, estudos que buscam explicar o complexo processo pelo qual as formas de pensar e os conhecimentos existentes numa sociedade são dominados por uma pessoa (DAVIS e OLIVEIRA).

Contudo, só podemos saber se um aluno aprendeu se o avaliarmos. No esporte tem-se o hábito de avaliar os alunos pela observação de sua habilidade motora, o que pode ser um erro, pois ao demonstrar uma habilidade, o aluno pode estar repetindo um gesto que sabe fazer, mas isso não significa que ele também saiba quando utilizá-lo e porquê.

Mas qual a importância dessa discussão nesse momento? O importante não é um atleta habilidoso, inteligente, inteligente taticamente?

Vamos começar a explicação retornando aos nossos exemplos. O que fez com que Garrincha, Pelé, Ronaldinho Gaúcho e Robinho, por exemplo, além de tantos outros, fossem considerados excelentes atletas em suas épocas? Seria executarem as habilidades do futebol melhor do que outros atletas? Seria jogarem como atacantes, num país que valoriza mais quem faz um gol do que quem defende? Mas e os outros atacantes, por que não são considerados tão bons quanto eles?

Acreditamos que esses atletas não aprenderam a jogar futebol nas escolas de esportes, pois na época em que aprenderam as crianças jogavam futebol nas ruas, nos clubes, na praia, em qualquer lugar, e não apenas nos clubes, como ocorre com muitos atletas hoje. Quem é contemporâneo desses atletas, sabe que em qualquer espaço vazio em que se tem uma criança e a vontade de jogar futebol, basta algo para se chutar, como uma lata velha, uma laranja jogada ao chão ou mesmo uma bola, a mais tradicional companheira, que o jogo já é possível. Quantos de nós já presenciamos crianças jogando futebol em diferentes espaços, que não eram necessariamente um campo de futebol, principalmente nas periferias das cidades. Jogar futebol no Brasil sempre foi uma brincadeira prazerosa, que culturalmente agrega muitas crianças, principalmente pela acessibilidade que proporciona aos mais carentes financeiramente.

Então, se esses atletas aprenderam a jogar futebol, ou aprenderam a desenvolver sua inteligência tática para o futebol nas ruas, o que os clubes esportivos, atuais entidades responsáveis pelo ensino esportivo dessas crianças que não podem mais sair das suas casas por causa da violência que nossas ruas representam, devem fazer? Como conseguir nos clubes aquilo que a rua possibilitava aos atletas: desenvolver talentos esportivos?

Também fica difícil acreditar que exista uma fórmula única, inteligente ou milagrosa de se fazer atletas habilidosos, de se criar ídolos. Não se pode negar que os atletas mais habilidosos têm algumas características que por si só conseguiram desenvolver mais do que os outros atletas, e por isso, a responsabilidade de um atleta ser mais inteligente para o jogo do que outros atletas não é única e exclusiva do técnico, mas de cada agente desse ambiente de aprendizagem. No entanto, os estudos na área das Ciências dos Esportes apontam para uma aprendizagem empírica desses atletas. Ou seja, não temos dados que apresentem como foi o processo de ensino aprendizagem aprendizado desses excelentes, mas sabemos que a aprendizagem foi rica em atividades, brincadeiras, jogos, diversão com a bola nos pés, e esse é o grande segredo de um atleta inteligente, a diversidade, pois o jogo exige ininterruptamente a criação de possibilidades de gol, de defesa, de pas
ses, de cortes, enfim de intervir de maneira eficaz para se resolver os problemas postos e para se criar situações de superioridade tática!

Atualmente, a dificuldade dos clubes para ensinar esse atleta, que não jogou nas ruas, é ter uma proposta de ensino pautada apenas em conhecimentos técnicos, sem uma correspondente reflexão. Um ensino que se caracteriza por ser bancário[1], depositário, como dizia Paulo Freire, que, quando aplicado ao esporte, treina o atleta no desempenho de habilidades motoras, sem permitir-lhe o desenvolvimento e a possibilidade de assumir uma capacidade crítica, inteligente, responsável, sobre o conteúdo ensinado.

Portanto, pedagogicamente pensando, o que significa ensinar esporte?

O que deve ser ensinado é: além do aprendizado do jogo em si e de seus fundamentos dentro do seu contexto, a aquisição de condutas motoras (ampliando-se o repertório de possibilidades de respostas para os jogos), e o entendimento do esporte como um fator cultural (por conseqüência, humano), estimulando sentimentos de solidariedade, cooperação, autonomia e criatividade (SCAGLIA e SOUZA). Mas tudo isso só facilitará o atleta se desenvolver inteligente se for dado a ele diversidade de criação. Entendendo criação não como repetição de movimentos ou jogadas, mas a repetição de situações, treinos nos quais ele é responsável pelas suas condutas de criação, de resolução de problemas. Para os menos observadores, é preciso possibilitar aos atletas que cresçam jogando futebol com o mesmo espaço de criação que as crianças os fazem nas ruas, sem técnico. A diferença deve ser o conhecimento do técnico e de sua comissão sobre como as brincadeiras, os pequenos, médios e grandes jogos facilitam o desenvolvimento da inteligência do ser humano!

* Tânia Leandra Bandeira taniabas@terra.com.br

Referências bibliográficas

ARANHA. M. L. de A. História da educação. 2a. Ed. São Paulo: Moderna, 1996.
BENTO, J. O. Novas motivações, modelos e concepções para a prática desportiva. In: BENTO, J. O. (Org.) O desporto do século XXI: os novos desafios. 1991.
DAVIS, C.; OLIVEIRA, Z. Psicologia na educação. 2ª. Ed. São Paulo: Cortez, 1994.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 2 Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
SCAGLIA, A. J., SOUZA, A. J. Pedagogia do esporte. In: COMISSSÃO DE ESPECIALISTAS MINISTÉRIO DOS ESPORTES. Pedagogia do esporte. Brasilia: CEAD/UNB, 2004.

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Os caminhos para uma formação crítico-reflexiva

Como pesquisador na área de educação a distância e formação reflexiva de professores, inquietou-me a proposta de uma Cidade do Futebol, cuja missão constitui-se como uma “plataforma virtual criada para integrar a comunidade dos profissionais do setor e abrir espaços para as pessoas com interesse em participar ou se aprofundar nas questões científicas das mais variadas áreas ligadas ao esporte bretão.”

Creio ser consensual entre os pesquisadores a idéia de que as comunidades virtuais se consolidam em um espaço em que a prática se desenvolve pela/na interatividade entre seus membros e é a partir dessa motivação que se abrem perspectivas para a criação de objetos de aprendizagem, que podem ser usados em diferentes contextos e em diferentes ambientes virtuais de aprendizagem. Para atender a essa característica, cada objeto tem sua parte visual que interage com o aprendiz separada dos dados sobre o conteúdo e os dados instrucionais do mesmo. A principal característica desses objetos é sua reusabilidade, que é posta em prática através de repositórios, que armazenam os objetos logicamente, permitindo serem localizados a partir da busca por temas, por nível de dificuldade, por autor ou por relação com outros objetos.

Nessa concepção, a leitura do ambiente virtual de aprendizagem, Cidade do Futebol, me conduz a pensar como a experiência real do futebol, marcada pela estrutura de uma máquina desejante, fincada no liame de um desejo que não se faz na ausência, na carência, e sim no real primitivo da matéria, no movimento, conforme nos ensinam Deleuze & Guatarri (1997), pode se ver refletida no virtual e em que medida essa seria uma experiência de transacionalidade do espaço? Como essa experiência virtual de aprendizagem recupera o onírico, o lúdico, a fantasia, o imaginativo, o afetivo, o não-racional, o desejo sempre presente de jogar, de constituir-se no jogo e recriar seus espaços? Ainda em um lastro mais ambicioso, como nesse espaço virtual se consolidaria uma experiência reflexiva para o ensino do futebol?

Autores como Rabardel & Weill-Fassina (1995) sustentam que a formação de experiências virtuais na vida quotidiana é algo que fazemos naturalmente como forma de criar pontos de referência que nos integram no mundo e nos permitem comunicar uns com os outros. No entanto, são muitos aqueles que defendem que é possível traçar uma distinção efetiva entre a experiência real e a virtual e, portanto, ponderar sobre as conseqüências da intersecção entre uma e outra.

Assim, a experiência virtual supera a real. Essa afirmação baseia-se, em primeiro lugar, no aumento da facilidade de acesso àquela. O medo subjacente é que a sociedade se torne dependente dessas novas e excitantes experiências a que acendemos por meio do simples clicar do botão. O resultado é que as experiências reais poderão constituir uma desilusão, visto não serem tão instantâneas e de tão fácil acesso como as proporcionadas pelos multimídia.

Em segundo lugar, o domínio da experiência virtual é infinito, uma vez que aquilo a que temos acesso na comunidade virtual pode ser classificado como real ou fantasia. A preocupação subjacente é a de que a sociedade estará tão absorvida a expandir os limites da experiência virtual que a experiência real passará para um plano secundário.

Essa hipótese é assustadora para muitos, pois não há nada mais gratificante do que as experiências em primeira mão. Ainda que a experiência real possa ser mais satisfatória, há mais coisas na vida do que a satisfação dos desejos primários: por exemplo, cada vez mais turistas querem ter a experiência vivida no ecoturismo, sem terem a consciência que, por outro lado, constituem a principal ameaça à natureza que constitui esse espaço.

Com o crescimento constante da população, não podemos nos dar ao luxo de permitir que cada um realize a sua fantasia, especialmente se à custa do meio ambiente e das diversas culturas e espécies. Para além desses efeitos, acresce que nem todos têm possibilidades de experiências em primeira mão, devido aos fatores de tempo, custo e risco envolvidos, criando também no universo virtual um fosso entre inforicos e infopobres, à semelhança das diferenças existentes no mundo real.

Idealmente, a experiência real deveria ser gerida de modo a ser acessível a tantas pessoas quanto possível, até ao ponto em que não constituísse um perigo para o equilíbrio do planeta. A experiência virtual seria então encorajada sempre que a experiência real não fosse uma opção viável.

À medida que a tecnologia progride e os limites da experiência virtual se expandem e otimizam, essa passará a ser incorporada e aceita como parte integrante da nossa vida de todos os dias. O acesso à educação, ao entretenimento e à comunicação avançou rapidamente desde a criação da internet e da televisão interativa. Isso não pode ser visto como algo de negativo, pois acrescenta recursos que serão úteis para o mundo real.

Entrementes, e a experiência real do futebol? Como se constituiria na experiência virtual?

Nesse terreno, penso que o assunto não é propriamente o futebol, mas o país da bola, um país em que mesmo aqueles que não estudam o esporte freqüentam as arquibancadas, procuram entender de bola ou discutir futebol. Com a Cidade do Futebol, seus organizadores de certa forma infringem um tabu e trazem a experiência do real para um espaço virtual em cuja fundação não está a própria experiência, mas a duplicação de um real que se reconhece na transgressão, nas outras formas de percepção, na produção desejante que se faz real justamente porque se alimenta da paixão do nosso povo pelo futebol. A meu ver, a equipe da Cidade do Futebol marca um gol de placa, pois recria a experiência do futebol-arte/prazer real e presente para todos, em um novo espaço educativo de reflexão sobre o futebol, que ainda não é, mas se pretende fazer presente a todos.

Com essa plataforma virtual, penso que o projeto da Cidade do Futebol desperta em seus muitos interlocutores a estrutura de um desejo transacional, marcado pela necessidade de se conhecer profundamente aquilo que já se conhece, permeado por uma nova experiência, que recria nos limites da metacognição, o histórico, o cultural e o filosófico sempre presentes na experiência do futebol. O mérito desse projeto está justamente em transformar esse conteúdo existente, mas muitas vezes inacessível/irrefletido na experiência do jogo, em consciência do esporte, da reflexão sobre a pedagogia do futebol, da interlocução transdisciplinar, do movimento em torno de uma prática desportiva que se quer emancipatória, conscientizadora e democrática.

A fortificação dessa experiência virtual opera-se no âmbito de uma distancia transacional, ou seja, no espaço psicológico e comunicacional a ser transposto; um espaço de potenciais mal-entendidos entre as intervenções do instrutor e as do aluno, possíveis por intermédio de um instrumento, a plataforma virtual Cidade do Futebol. Segundo Vygotsky (1988), o instrumento (e o computador pode ser considerado um) aparece como elemento intermediário entre o trabalhador e sua tarefa e que amplia suas possibilidades de transformação da natureza, portanto um elemento mediador da relação entre o indivíduo e o mundo, onde há outros indivíduos para serem conectados.

Essa experiência, virtual e instrumentalizadora, mostra-se crítico-reflexiva, pois possibilita tanto aos usuários quanto a equipe da plataforma que saiam da concha e reinventem maneiras de se fazer o futebol, dessa vez como experiência educacional que se constrói na transdisciplinaridade, em uma postura de respeito pelas diferenças culturais, de solidariedade e integração à natureza, transcendendo de um universo técnico fechado do futebol para um espaço que traz à baila a multiplicidade dos modos de conhecime
nto, como uma necessidade de reafirmar que o jogar/fazer/conhecer futebol faz-se a partir do valor de cada sujeito como portador e produtor legítimo desse conhecimento. Sem o domínio demarcado desta ou daquela área, mas na travessia e ultrapassagem de todas as áreas, a fim de se obter uma confrontação que não lega ao futebol um lugar privilegiado, antes tem nele uma movimentação transcultural, que se deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar.

Finalmente, observo que a experiência virtual da Cidade do Futebol constitui-se como uma prática reflexiva acerca do ensino futebol, visto que sua existência incita a produção compartilhada de conhecimento a partir de discussões multidisciplinares, consolidadas em um caminho colaborativo-reflexivo em que os colaboradores da equipe interagem com colaboradores externos, produzindo significados compartilhados que, posteriormente, farão parte dos sentidos que alguns dos envolvidos levarão para compartilhar com outros sujeitos. A dinâmica dessas participações permite a compreensão da ação dos colaboradores, oportunizando a construção de uma comunidade virtual de fato, cujo objetivo insere-se na busca de um conhecimento sobre o futebol pautado na mútua colaboração apoiada na potencia da razão que possibilita de fato a existência humana.

Bibliografia

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Rio de Janeiro: 34, 1997.
RABARDEL, Pierre; WEILL-FASSINA, Annie. (Org.). Le design technique. Apprentissage, utilisations et evolutions. Paris: Hermes, 1995.

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Os efeitos da altitude na performance do atleta

Jogar futebol em altitudes elevadas pode ser prejudicial à performance do atleta. Mas, segundo fisiologistas, a partir de uma determinada altura, não há mais tanta diferença para o corpo a rarefação do ar.

Cidade do Futebol elenca a seguir os diferentes efeitos para o corpo humano se aclimatar às diferentes condições de altitude em que se disputa uma partida de futebol. Leia a seguir:

Acima de 1.500 m

Fica muito difícil definir quais seriam os índices limites para que os chamados “efeitos da altitude” comecem a ser sentidos. Embora quase todas as pessoas se adaptem de maneira similar, existem ligeiras variações.

Nesta altitude o atleta pode não sentir efeitos clínicos, mas já tem uma sensível queda no rendimento aeróbio. O atleta sente dificuldade para respirar, decorrente da pressão barométrica mais baixa e o oxigênio fornecido ao músculo é reduzido. O resultado disso é um maior consumo de carboidratos e de fontes de energia, “cansando” mais rapidamente o profissional.

Acima de 2.400 m

Além das sensações de queda de rendimento físico, acima destas altitudes começam a ficar mais perceptíveis os problemas físicos. É onde começam os índices de aparecimento do “mal agudo das montanhas”.

Este mal é considerado como o mais comum entre os problemas causados por altas altitudes. Pode aparecer dentro de um período de 12 até 48 horas de exposição à altitude.

Os sintomas desta doença são a sensação de fadiga, a cefaléia (dor de cabeça), perda de apetite, náuseas, enjôo e a respiração ofegante. Estes sintomas desaparecem dentro de alguns dias na maioria das pessoas.

Acima de 2.700 m

Começa a fase crítica. Todos os problemas já citados são agravados acima desta altitude. O “mal agudo das montanhas”, por exemplo, pode evoluir para condições muito mais graves e que são a maior preocupação dos médicos nos casos de prática de exercícios de alta intensidade.

Uma das doenças mais graves é o edema pulmonar de altitude (High Altitude Pulmonary Edema). Esta doença se desenvolve dentro de um a quatro dias de exposição. Ocorre uma passagem de líquido do sangue para os alvéolos (pulmões). A dificuldade para respirar é intensa e, além disso, a pessoa apresenta um quadro de tosse intensa acompanhada de secreção de escarro com sangue. Esta doença, durante muitos anos, foi diagnosticada erradamente como pneumonia, devido à semelhança de sintomas. Sua evolução é rápida e ela pode causar a morte do paciente.

O maior temor dos médicos, porém, é o edema cerebral da altitude elevada (High Altitude Cerebral Edema), que é causado pelo acúmulo de líquido no cérebro. Esta doença também se desenvolve dentro de um a quatro dias, podendo ser precedida do “mal agudo das montanhas” e do edema pulmonar de altitude.

Um sinal de alarme precoce é a ataxia (dificuldades para caminhar). A perda de coordenação motora também é um sintoma comum. A dor de cabeça intensa e até alucinações também pode ocorrer. Em poucas horas a doença pode evoluir para um quadro fatal. Quanto maior for a altitude, maior é o risco.

Quando constatada a ocorrência destras doenças, o procedimento mais adequado é retirar o paciente da altitude elevada imediatamente. Ainda que o atleta não apresente seqüelas graves após um jogo em grandes altitudes como nas cidades de La Paz ou Quito, é possível que ele tenha sido acometido parcialmente pela doença.

Bibliografia

SAFRAN, Marc R.; McKEAG, Douglas B.; CAMP, Steven P. Van. Manual de Medicina Esportiva. Editora Manole, 2002.
MAUGHAN, Ron; GLEESON, Michael; GREENHAFF, Paul L. Bioquímica do Exercício e do Treinamento. Editora Manole, 2000.

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Scout e as crises das inovações no futebol

“O futuro não é o que se teme, é o que se ousa”.
(Carlos Lacerda)

O futebol tem medo do futuro! Sempre teve!

Onde já se viu uma seleção de futebol levar médicos, preparadores físicos, psicólogo e pasmem: um dentista para uma Copa do Mundo?

Em 1958, Paulo Machado de Carvalho (o nome do Pacaembu), então chefe da delegação brasileira da Copa do Mundo da Suécia, posteriormente coroado como o “Marechal da vitória”, foi massacrado com argumentos similares por apresentar um plano de trabalho que envolvia esses profissionais na comissão técnica.

Sabe-se que o tal dentista, Mario Trigo, coordenou um trabalho de cerca de 500 obturações nos 33 atletas brasileiros, levantando as questões sobre os focos de infecção dentárias interferirem na recuperação de lesões dos atletas.

Em 1966, a Inglaterra iniciou de forma mais organizada um sistema de marcação homem a homem, que exigia um condicionamento físico mais apurado. Era para alguns “o início do fim” da técnica, do futebol arte.

Zico, o atleta de laboratório, ganhou 17 centímetros e 33 quilos sob muitas criticas. Kaká passou por processo similar, ganhando 11 quilos e aumentando sua massa de 64% para 74%, também com criticas.

Tudo culpa da inserção de recursos tecnológicos e conseqüente aprimoramento de fisiologistas, preparadores físicos, etc.

As inovações e melhorias dos processos sempre passam por um questionamento forte e incisivo, seja pelo lado romântico do futebol, seja pelos críticos de carteirinha. Mas isso não impede os avanços. Qual clube hoje não possui uma equipe de preparadores físicos, um staff médico, e mesmo fisiologistas atuando próximo aos treinadores? Foram criticados veementemente e ainda o são quando “ameaçam” (propõem) com novidades.

Hoje se observa uma tendência voltada à preocupação com informação de cunho técnico e tático, os clubes em sua maioria já têm seus ‘olheiros´ de papel e prancheta na mão, mas ainda receiam uma organização e recursos tecnológicos que facilitem esse trabalho.

Ora, em tempos de velocidade de informação não se pode recusar recursos tecnológicos que facilitem o acesso às informações, sejam elas num pós-jogo para o planejamento semanal, sejam elas no decorrer do próprio jogo. Afinal, se o gol é um mero detalhe, fiquemos atentos aos detalhes.

O scout, ferramenta que vai além da estatística, permite uma integração de informações e análises, que deve chegar rapidamente e de forma dinâmica às mãos da comissão técnica, não subestimando o trabalho de alguns, mas sim os instrumentalizando e otimizando seu tempo. Liberados de papel e prancheta, podem extrair mais informações, mais detalhes.

Ainda que imerso em criticas o esporte já vem apresentando algumas estruturas e recursos para lidar com esse aspecto que podemos chamar Central de Inteligência de Jogo (CIJ), no qual encontram-se estatísticas, scout, análise, avaliações de jogo e desempenho.

No basquete, temos uma das mais comentadas utilizações da tecnologia de informação para os quesitos técnicos e táticos. Essa importância é vista nos membros das comissões técnicas das equipes: o Chicago Bulls, com cerca de 36 pessoas envolvidas nas questões de jogo dentre técnicos e médicos, conta com um assistente-técnico para scout, uma rede de olheiros e observadores e um coordenador de análises de vídeo. O Phoenix Suns é outro exemplo, tendo em seu corpo técnico um assistente para scout, uma rede de olheiros e um coordenador de vídeo, além de um grupo de oito pessoas responsáveis por estatística de jogo (Statistical Crew).

Pode-se questionar os quesitos diferenciados da modalidade, mas trazemos também um exemplo do futebol no qual o Chelsea, time do técnico português José Mourinho, tem em seu corpo técnico além de funções tradicionais como preparadores físicos, assistentes-técnicos, médicos, entre outros, uma grande equipe responsável pela CIJ, dentre os quais encontramos o que eles nomeiam de: Match Observer Scout, Head Opposition Scout, Chief Scout e Match Analyst.

Assim como a equipe multidisciplinar (fator hoje mais do que essencial aos clubes de futebol) de Paulo Machado em 1958 foi recebida e encarada com muito medo e receio, o scout como recurso tecnológico, bem como qualquer outra inovação que chega ao futebol tem suas barreiras, seus críticos. Mas em breve tempo esperamos ler num começo de um artigo sobre avanços no futebol:

“Onde já se viu um clube de futebol utilizar-se de recursos tecnológicos como scout… Nos anos 2000 quando se falava nesse assunto…”

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É possível dissociar atletas e homens?

O futebol é um esporte com nuances que extrapolam as quatro linhas do campo de jogo. A principal delas, muitas vezes esquecida nas análises sobre a modalidade, é que os atletas não podem ser dissociados das pessoas. Os problemas, inquietações, dramas e incertezas de qualquer um são transpostos para a realidade da atividade física – seja ela profissional ou não. Portanto, entender os indivíduos é fundamental para a compreensão do que acontece nos gramados.

Entretanto, ainda são poucas as contribuições da antropologia e da sociologia ao esporte mais praticado do planeta. Estudos sobre o futebol são mais focados na técnica, no físico ou na tática do esporte, e muitas vezes o lado humano é subjugado diante desses fatores.

“Se formos considerar a grandeza, a universalidade e a participação no cenário mundial, o futebol ainda é pouco estudado pelas ciências humanas. Esse campo científico prefere olhar mais para a economia, a política, o desenvolvimento social, as cidades, o trabalho ou a religião. O esporte, mesmo sendo um fenômeno com abrangência em toda a sociedade e produzindo implicações em todos os outros setores, acaba perdendo espaço”, analisa o professor de sociologia Aldo Antonio de Azevedo.

No futebol brasileiro, a experiência que mais chamou atenção quanto à participação de especialistas em ciências humanas nas comissões técnicas aconteceu na década de 80, no Corinthians. Naquela época, a presença do diretor de futebol Adílson Monteiro Alves, que era sociólogo, foi um dos fatores que desencadearam o movimento conhecido como “Democracia corintiana”, que deu voz aos jogadores nas decisões que envolviam o elenco alvinegro.

“O fato de o Adílson ser sociólogo deu uma visão diferente ao que acontecia e é bom que exista esse distanciamento crítico. É importante essa postura para os dirigentes. Os jogadores estão cada vez menos livres, e os clubes precisam enxergar que as emoções e as vontades são muito importantes”, pondera José Paulo Florenzano, doutor em ciências sociais e diretor do Museu da PUC-SP.

As discussões sobre o futebol, aliás, ganharam mais espaço a partir dos últimos anos do século XX. Muito tem se falado sobre a representação do jogo como um drama social e um ritual de abrangência em todos os setores da população – principalmente no Brasil.

“O futebol serve também como um mecanismo simbólico de discussão do talento contra o esquema, do espontâneo contra o plano, do justo contra o injusto e das regras que devem valer para todos contra a ‘corrupção´ dos endemoniados que tramam contra nós. Se todos os meninos tivessem as mesmas oportunidades em escolas exemplares e em bairros de classe média, teríamos uma outra concepção do craque, e ele certamente representaria outros valores”, aponta o antropólogo Roberto DaMatta.

Essa classificação do futebol como um ritual, aliás, é importante para a compreensão sobre a gênese das torcidas e dos torcedores. A partir do século XX, o esporte se massificou e o reflexo disso foi uma incorporação de sua prática no dia-a-dia das pessoas.

“Hoje, um torcedor de futebol é formado na infância. Geralmente por influência de algum parente próximo ou amigo. Ele acaba se identificando com a torcida da equipe porque ele tem a identificação com esse amigo. Só que, outros fatores contribuem para a formação de torcedores. Um deles é o sucesso dentro de campo, como é o caso do São Paulo que dos anos 90 para cá”, aponta Fátima Martin Rodrigues Ferreita Antunes, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo.

Jogadores ou torcedores, a sociologia é fundamental para entender o comportamento das pessoas que participam do cotidiano do futebol. Em todos os momentos, em todas as esferas, o ambiente do esporte é composto por pessoas e por seus problemas.

* Colaboraram Gabriel Codas e Rubem Dario

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Futebol: a paixão nacional brasileira

A despeito de não ter sido criado no Brasil, o futebol ganhou tanta importância na realidade nacional que é impossível dissociar sua trajetória da própria história do país. Futebol e a sociedade brasileira são duas realidades que se fundem de forma constante, a ponto de o esporte ter sido classificado como “paixão nacional”. Mas qual é a origem dessa cultura arraigada na população? Por que a modalidade foi eleita entre tantas, ganhou uma série de adeptos e se tornou universal? A resposta não está apenas nas qualidades do esporte, mas nas características da sociedade.

“A idéia de usar o futebol para criar uma identidade nacional foi algo construído no decorrer dos anos e hoje faz parte da cultura do Brasil. Já em 1925, quando o Paulistano fez sucesso em uma excursão pela Europa, a imprensa chamou a equipe de ‘os reis do futebol´. Quando voltaram, eles foram recebidos com festa e até pelo presidente”, conta Fátima Martin Rodrigues Antunes, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo, que atualmente trabalha na prefeitura da capital paulista.

A valorização do sucesso esportivo faz parte de uma reação de auto-afirmação dos brasileiros em uma produção estrangeira. Ao contrário de bens produzidos no país, o futebol é uma atividade inventada por europeus e que se transformou quando entrou em contato com a ginga e o estilo característico dos brasileiros.

“Isso tem a ver com a idéia de que podíamos ser bons em alguma coisa que vinha de fora e o mundo civilizado prezava. Não se trata mais de samba, capoeira ou mestiçagem, mas de football. Isso reverteu a maneira trivial e sempre negativa de ler a nossa identidade”, reforça o antropólogo Roberto da Matta.

Diante de tanta importância para a sociedade, o futebol deixou de ter sua duração limitada aos 90 minutos das partidas. As discussões sobre o jogo passaram a permear todo o dia do povo, nas conversas informais e nas análises de especialistas.

“Nessa ótica, o futebol assume uma condição de fenômeno social e precisamos buscar entendê-lo na perspectiva do mundo atual. Ele produz implicações sociais, políticas, culturais, econômicas, biológicas… sua abrangência extrapola muito as quatro linhas”, analisa o professor de sociologia Aldo Antonio Azevedo.

No início, quando o futebol chegou ao país, essa massificação foi criada a partir da estratificação dos estereótipos de clubes e torcedores. Essa identificação facilitou o acúmulo de pessoas com perfis parecidos, bem como o apoio do governo a uma atividade capaz de criar o conceito de unidade nacional e servir como um entretenimento de grande abrangência.

“Antigamente, as torcidas de futebol surgiam a partir da associação da imagem do clube. Hoje há pesquisas que constatam uma mudança no cenário, e essa divisão praticamente inexiste. Hoje, um torcedor de futebol é formado na infância e a difusão do futebol é uma das responsáveis por isso”, comenta Fátima.

No início do século XX, o futebol brasileiro passou por alterações como a entrada dos negros e dos pobres, além do início da era do profissionalismo a partir de 1933. Essas e outras mudanças foram feitas com o intuito de dar ao esporte um perfil mais globalizado e facilitar o acompanhamento.

“Esse novo cenário também passou a admitir formas teatralizadas de torcer. Tudo isso aconteceu em um cenário de desenvolvimento dos meios de comunicação e de um governo de táticas populistas, que era do Getúlio Vargas. A soma desses fatores propiciou o surgimento das primeiras torcidas organizadas e ampliou a difusão do esporte no país”, justifica Luiz Henrique de Toledo, doutorado em ciência social pela Universidade de São Paulo.

* Colaboraram Gabriel Codas e Rubem Dario

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A formação sociológica de atletas

O futebol é a principal forma de entretenimento da maioria dos brasileiros. O status de paixão nacional fez do sucesso no esporte um sonho comum a muitas crianças e adolescentes. Contudo, um fator alterou essa realidade nos últimos anos. Devido à valorização profissional dos atletas, o futebol se tornou também uma porta de saída da realidade de privações e dificuldades que atinge muitas pessoas no país.

Vencer no futebol é uma oportunidade de acumular fama, dinheiro e realização em uma atividade acompanhada por todos no território nacional. Só que essa realidade criou pressões e frustrações para os candidatos a jogadores e isso mudou de forma drástica o dia-a-dia de alguns.

O primeiro momento em que essa cobrança fica evidente é nas categorias de base. “Os jovens não possuem a mesma cobrança externa por parte de torcedores e da mídia, mas são a esperança de seus familiares por uma vida melhor e isso é um peso muito grande”, avalia o sociólogo Francisco Xavier Rodrigues, que acompanhou o processo de revelação de atletas no Internacional entre 1997 e 2002.

Rodrigues identificou que essa pressão por resultados positivos dos atletas não parte apenas da família, mas de todas as pessoas envolvidas no processo: “A exigência também parte deles e dos empresários. Há uma preocupação de todos com a formação de um jogador que renda dinheiro aos cofres do clube em uma negociação futura”.

Quando chegam à categoria profissional, muitos atletas acabam prejudicados por conta dessa pressão exercida a partir de diferentes meios. Despreparados ou em situação instável, eles transpõem essa situação para o caminho de suas carreiras.

“É o caso dos jogadores que voltam para as categorias menores, por exemplo. Eles refletem uma preocupação grande das equipes na formação e na manutenção dos principais atletas para garantir que eles gerem recursos quando forem negociados”, avalia o sociólogo.

Os jogadores que se fixam entre os profissionais encontram outro desafio: ídolos de um esporte que é a principal atividade de entretenimento do país, eles são alçados à condição de ídolo e passam a fazer parte de um grupo de pessoas que têm suas vidas monitoradas e acompanhadas pelos torcedores.

“Os atletas são artistas, mas eles também fazem parte da sociedade que influenciam. O que acontece no futebol é uma constante troca entre essas duas coisas. Os jogadores querem vestir roupas da moda, mas eles também fazem parte dos formadores de opinião quanto à moda”, compara Rodrigues.

Alguns atletas, quando não conseguem se enquadrar no estereótipo estabelecido para o ídolo, assumem a posição de rebeldes. “O que muitas pessoas não percebem é que esses atletas contribuem para a evolução do esporte, já que o contraponto é fundamental em qualquer área da sociedade”, teoriza José Paulo Florenzano, doutor em ciências sociais, professor e diretor do Museu da Cultura da Puc-SP.

Exemplos de rebeldia não compreendem apenas jogadores indisciplinados, mas atletas que fogem do padrão de comportamento estabelecido e esperado no ambiente esportivo. É o caso da “Democracia corintiana”, movimento lançado pelo elenco da equipe alvinegra na década de 80 para dar aos atletas poder de decisão sobre as questões em que eles tivessem interesse direto (premiações, concentrações e férias, por exemplo).

“Hoje em dia é muito mais complicado vermos um jogador que saia do roteiro estabelecido pelos cartolas. Tudo é mais rígido e as regras são mais duras. Esse é um dilema muito grande do futebol”, classifica Florenzano.

A exigência de comportamento exemplar dos atletas influencia até a vida pessoal deles, como reforça Florenzano: “Aquela boemia, uma tradição do esporte e da sociedade nacional, está acabando. Se um atleta é visto na noite ele pode ser o culpado pela derrota de seu time. Esse não é um processo natural, mas é cada vez mais claro”.

* Colaboraram Gabriel Codas e Rubem Dario

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Sociologia explica violência das torcidas

O comportamento violento das torcidas de futebol é um fator que ratifica a importância de uma visão da atividade fundamentada nos conceitos da sociologia. Afinal, o que acontece no ambiente esportivo é apenas a transposição da lógica e dos problemas estabelecidos pela própria sociedade.

“As origens da violência estão na própria sociedade. Os indivíduos podem ser apáticos ou agressivos de acordo com a comunidade em que vivem. Essa diferença é estabelecida por sua formação e pelo entorno”, aponta a autora do livro “Futebol e violência”, Heloísa Helena Baldy dos Reis, que passou cerca de dez anos estudando as manifestações de comportamento hostil na modalidade.

Essa explicação, aliás, mostra que a violência faz parte do cotidiano de qualquer esporte e que o futebol não é uma exceção. A diferença é que, por ser a modalidade mais popular do mundo – atualmente, movimenta cerca de 1 bilhão de pessoas -, o futebol tem problemas de proporções maiores e mais catastróficas.

Por conta de suas proporções, as manifestações de violência envolvendo torcedores de futebol – sobretudo em dias de jogos – acabaram virando um problema de segurança pública. O que potencializa esses confrontos entre aficionados, no caso da realidade brasileira, é a soma de uma legislação frágil e da ausência de um trabalho de base para o combate das causas.

“Em diversos países, a violência foi combatida e teve quedas sensíveis em função da aplicação de leis rígidas. O Brasil enfrenta uma situação de fragilidade judiciária e de frustração social. Muitas vezes, o comportamento agressivo é reflexo de problemas no cotidiano. Portanto, a violência deve ser combatida em sua origem”, estabelece Heloísa.

Um dos casos mais emblemáticos de violência ligada ao futebol é o futebol da Inglaterra. O país sempre foi conhecido pela agressividade de seus torcedores, identificados como hooligans. Essas facções protagonizaram seguidas cenas de selvageria e confronto físico no ambiente esportivo, deixando de ser um problema inerente apenas à esfera do futebol e assumindo a condição de ameaça ao bem-estar social.

Alguns autores chegaram a comparar o comportamento dos hooligans com o de viciados, dizendo que a prática de atos violentos em estádios seria a droga desses torcedores. A prática da violência pelos jovens potencializa a excitação, aumenta os níveis de adrenalina e abre caminho para que eles participem do espetáculo montado pela mídia, deixando o papel de meros espectadores e assumindo a condição de protagonistas do espetáculo.

O mais curioso é que o perfil dos hooligans mostra que a maioria dessas pessoas sempre foi composta por trabalhadores comuns, muitas vezes exemplares, que deixam seu estilo de vida sereno e correto apenas durante o futebol. Depois, retomam casas, famílias e empregos extremamente comuns.

No entanto, pesquisas espanholas reforçam a idéia de que as atitudes violentas têm origem ligada a problemas sociais. Por exemplo, 75% dos torcedores envolvidos em confrontos nos estádios não tiveram iniciação no futebol em escolas ou clubes. Isso mostra que o fanatismo muitas vezes está arraigado nas pessoas que gostam do esporte e não têm talento ou condição de fazer parte dele.

Pesquisas também apontaram a presença de problemas como alcoolismo, abuso sexual, drogas e racismo ligados aos torcedores mais agressivos. Alguns deles possuem até ligação com grupos nacionalistas ou neonazistas, transformando o campo de futebol em plano de fundo para a exteriorização de suas posturas deturpadas.

“De uma forma geral, a violência está inserida em um contexto social. No Brasil, essa prática ainda é apoiada pela percepção de impunidade que reina na sociedade”, pondera Heloísa.

No início dos anos 1990, executivos responsáveis pelo futebol na Inglaterra tomaram medidas drásticas com o intuito de reduzir a violência nos estádios. Essas mudanças incluíram reforço na segurança, penas mais severas para os torcedores e um controle mais rígido de seu comportamento.

Os alambrados foram banidos dos estádios ingleses, substituídos por placas que lembram que a invasão de campo é um crime. As melhorias de conforto e segurança nos estádios causaram uma redução nos índices de violência, mas também aumentaram drasticamente o preço médio dos ingressos na Inglaterra.

“Existem muitos tipos de violência, e podemos destacar a racional. Isso é o que acontece quando torcedores promovem ataques premeditados e até ensaiados a seus rivais, e isso é o mais comum no futebol. Outros países apostaram nas leis rígidas para combater isso e tiveram sucesso”, compara Heloísa.

No Brasil, a discussão sobre a violência nos estádios só se tornou mais presente na realidade social depois de um confronto entre as torcidas de São Paulo e Palmeiras no Pacaembu, em jogo válido pela Supercopa de juniores de 1995, que matou um torcedor do time tricolor.

As discussões acerca do tema, contudo, não foram suficientes para originar medidas contundentes de repressão à violência no Brasil. Desde então, muitas outras cenas de selvageria aconteceram nos estádios do país e o embate entre torcedores ainda é uma ameaça constante.

“Impediram os torcedores de entrarem nos estádios com bandeiras, camisetas e instrumentos musicais. Depois, proibiram a venda de bebidas alcoólicas. Muitas coisas foram feitas para diminuir a incidência de atos violentos, mas faltam medidas que façam esse combate na raiz do problema”, conclui Heloísa.

Bibliografia

GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol – dimensões histórias e socioculturais. Editora Nova Alexandria, 2002.
LEVER, Janet. A loucura do futebol. Editora Record, 1983.
MARTINS, Carlos Benedito. O que é sociologia. Editora Brasiliense, 2001.
MEKSENAS, Paulo. Aprendendo sociologia. Editora Loyola, 1995.
GIDDENS, Anthony. Em defesa da sociologia. Editora Unesp, 2001.
LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. Editora Brasiliense, 1996.
EWANS-PRTICHARD, Edward. Antropologia social. Edições 70, 1985.
MARCONI, Marina de Andrade & PRESOTTO, Zélia Maria Neves. Antropologia – uma introdução. Editora Atlas, 2005.
HELAL, Ronaldo. Passes e impasses. Editora Vozes, 1997.
BALDY, Heloísa Helena Baldy. Futebol e violência. Editora Autores Associados, 2006.

* Colaboraram Gabriel Codas e Rubem Dario

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O dia em que o Atlético-MG venceu a seleção do tri

Para muitos amantes e especialistas do futebol nenhum time encantou mais do que a seleção brasileira do tricampeonato de 1970. Até por esse motivo, o feito dos jogadores do Atlético-MG há 38 anos é tido como uma das maiores honras do clube. No dia 3 de setembro de 1969, a equipe de Belo Horizonte derrotou o Brasil, durante a preparação para o Mundial de 70, por 2 a 1.

O triunfo também é exclusivo do Atlético-MG. Nenhum outro time (clube) de futebol do mundo conseguiu vencer a equipe dirigida pelo técnico João Saldanha. Dario, ídolo do clube alvinegro, foi o autor do gol da vitória do Atlético-MG e relembra os fatos daquele dia com extremo orgulho.

“A seleção brasileira estava invicta havia vários jogos e a equipe era conhecida como ‘As Feras do Saldanha´. Foi um grande jogo e o Atlético jogou com muita raça naquele dia. Eu me lembro que joguei com a camisa do Galo por baixo e, quando acabou o jogo e eu tirei a camisa da seleção mineira, o Mineirão veio abaixo e a torcida foi à loucura”, contou o atacante ao site oficial do clube.

Os gols da noite foram marcados por Amauri, que abriu o placar para o Atlético-MG, Pelé, que empatou para o Brasil e Dario, que deu números finais ao confronto aos 20 minutos do segundo tempo.

O time alvinegro teve que atuar com o uniforme vermelho da seleção mineira por exigência da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), antiga Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O Brasil entrou em campo com Félix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo; Piazza, Gérson e Jairzinho; Tostão, Pelé e Edu. Ainda entraram no decorrer da partida Everaldo, Rivelino, Zé Maria e Paulo César.

O Atlético-MG começou o amistoso de preparação da seleção brasileira com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes e Cincunegui; Oldair, Amauri e Vaguinho; Laci, Dario e Tião.

Fonte: site oficial do Atlético-MG (www.atletico.com.br)