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Semeando o ódio

Na semana que passou, e nesta que se adentra, as diretorias de São Paulo e Palmeiras deram um espetáculo de incompetência, amadorismo e irresponsabilidade. A começar pela discussão de em qual estádio seria o confronto decisivo entre os times no Campeonato Paulista, passando pela evocação de momentos históricos e conturbados das duas equipes.

É digno o Palmeiras querer decidir em seu estádio uma partida semifinal de Paulistão. Só que isso não pode virar motivo para seus dirigentes, em companhia com os do São Paulo, incentivarem o ódio entre os seus torcedores.

“Eles nunca engoliram os italianinhos”, disseram os palmeirenses na semana passada.

“Ficamos preocupados com a decisão de se jogar no Palestra Itália”, devolveram, com ironia, os responsáveis pelo São Paulo.

O fato é que, em pleno futebol globalizado, modernizado e, especialmente, mercantilizado, é impensável que dois dos clubes de maior torcida do país tenham a infelicidade de serem comandados por pessoas irresponsáveis, que buscam atiçar a rivalidade de suas torcidas em vez de trabalhar para protagonizar o melhor espetáculo possível aos seus fãs.

Pela lógica do dinheiro, Palmeiras e São Paulo deveriam se enfrentar duas vezes no estádio do Morumbi, que seria dividido igualmente para os torcedores das duas equipes. Da mesma forma, a receita de bilheteria de ambas as partidas seria destinada igualitariamente entre os clubes. Para manter a neutralidade da disputa, cada equipe usaria um vestiário e um banco de reservas em cada uma das partidas.

Em vez de, como pessoas civilizadas, os dois clubes proporem tal acordo, seus dirigentes passaram a semana que passou duelando nos bastidores em troca do mando de campo no jogo decisivo. O Palmeiras saiu vitorioso ao conseguir levar a partida para o Palestra Itália. O São Paulo saiu atirando ao insinuar uma preocupação com a segurança de todos, sendo que há dois anos têm disputado, sem grandes problemas, partidas até mais decisivas no estádio palmeirense.

Dentro de campo a rivalidade pode e deve existir. Mas deve parar por aí. Marcos e Rogério Ceni, os capitães e bandeiras das duas equipes, são ex-colegas de seleção brasileira, campeões mundiais. Junior, Kléber e Denílson já jogaram dos dois lados. Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho são contemporâneos da bola.

Então por que seus dirigentes insistem em semear a discórdia? Por que é importante relembrar o passado, quando sem qualquer ética os clubes duelavam entre eles nos bastidores e com isso iam gerando mais ódio entre seus pares?

O futebol de hoje precisa, definitivamente, de uma discussão ética. O que palmeirenses e são-paulinos fizeram nos últimos dias foi simplesmente semear o que de pior há no sentimento entre as duas torcidas. E, depois, um joga no outro a culpa pela explosão de fúria dos torcedores.

Não há espaço para rivalidade nos bastidores da bola. Em vez de semear o ódio, Palmeiras e São Paulo deveriam trabalhar para gerar a civilidade entre os seus torcedores. Por que, em vez de duelarem para ver quem atua em qual estádio os cartolas não propusessem uma competição de qual torcida fará mais barulho no dia decisivo?

Com direito a medição de níveis de decibéis dos torcedores e premiação ao “campeão”. Sim, é uma idéia estapafúrdia, sem dúvida. Mas, pelo menos, ela não incentiva uma pessoa a tomar o lugar, a camisa, a bandeira ou a vida de outra.

 

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br