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O que realmente fará a diferença no futebol?

Olá a todos! Neste artigo iremos refletir sobre o que realmente pode fazer diferença no futebol ao conseguir aumentar o máximo possível a probabilidade de vitórias e, consequentemente, diminuir as derrotas. Segundo estudos (ANDERSON & SALLY 2013), o futebol é o esporte com menos probabilidade de que os favoritos consigam vencer (52%) em relação aos demais esportes coletivos – basquete 66%, beisebol 60%, futebol americano 65%, handebol 71%.

Nos dias de hoje, devido a tecnologia e o vasto conhecimento em diversas áreas dos aspectos humanos, tivemos uma evolução de forma exponencial, nos últimos 20 anos, na performance dos atletas chegando quase ao seu limite no que diz respeito as suas capacidades específicas para a modalidade (físicas, técnicas e táticas). A seguir vamos analisar alguns aspectos:

Para as capacidades físicas, hoje através de sistemas GPS e treking das partidas podemos entender exatamente como se movem os jogadores com distâncias, acelerações, desacelerações, diferentes velocidades de corrida, mudança de direção, dentre outros dados durante os treinamentos. Isso permitiu o estudo detalhado e programações específicas de treinamentos para cada atleta em suas equipes nas diferentes posições no campo.

Nos aspectos tático-técnicos (tática vem primeiro do técnico pois a capacidade de escolha é a tática individual vindo antes do gesto técnico a ser realizado) através de scout numéricos, observação livre e análises vídeo, é possível entender os comportamentos de uma equipe em diferentes fases do jogo para detectar pontos fortes e vulneráveis do time, setor ou jogadores adversários. Este conhecimento permite treinamentos estratégicos (individuais e coletivos) para que sua equipe reconheça o mais breve possível os movimentos do adversário e tenha um determinado comportamento pré-estabelecido para combater e/ou aproveitar a situação enfrentada.

Devido a tantos estudos, conhecimento e especificidade dos aspectos humanos ligados ao futebol, em qual área poderíamos e devemos nos aprofundar cada vez mais? De acordo com as novas tendências do futuro do esporte, esta área seria a do aspecto mental-emotivo dos jogadores. Como diz Pep Guardiola, em sua entrevista a Aspire Academy: “ O jogador hoje é capaz de chegar cem vezes ao fundo do campo para cruzar uma bola, mas a questão é: quando ele vai chegar? Um segundo antes? Um segundo depois? Ele tem que saber chegar no timing certo nem antes e nem depois, e isso define a inteligência no futebol”.

O fator mental, apesar de ser considerado muito importante, sempre foi menos trabalhado dentre os outros aspectos e capacidades devido a sua difícil compreensão e aplicação durante os treinamentos. A visão de um psicólogo em um staff técnico, já é muito conhecido geralmente cobrindo um papel de interlocutor e motivador mas pouco voltado para a atuação do atleta durante uma partida. O desempenho de um jogador durante uma partida pode-se resumir de acordo com a equação (GALLWAY 2013): “Desempenho Real = Desempenho Potencial – Interferências internas e externas”. Ou seja, o real trabalho de um psicólogo esportivo é compreender e exercitar aspectos mentais de cada atleta, como exemplo: a concentração, velocidade de pensamento e capacidade de escolha junto ao aspecto (talvez o mais importante), a gestão das emoções de acordo com os diferentes momentos do jogo, como: resultado vigente, importância do jogo, tempo de jogo, força do adversário, torcida, objetivos e problemas pessoais, entre outros.

De uma forma ainda não muito difundida, os chamados psicólogos esportivos começam a ter mais espaços nas equipes tendo como fundamental objetivo o entendimento dos comportamentos mental-emotivos da equipe e jogadores propondo exercícios para que, através de uma melhor gestão emocional durante toda a partida, isto possa ajudar a melhorar ou a manter o maior tempo possível a sua velocidade de pensamento e capacidade de escolha que vão influenciar diretamente no resultado de uma partida.

Em tempo de equivalência física, tático e técnica, o “famoso” jogador inteligente é aquele capaz de resolver problemas criando imprevisibilidade através de seu pensamento criativo. Este jogador pode ser goleiro com ótima capacidade de leitura da trajetória da bola, um zagueiro com perfeita antecipação ao lance ou com coragem de comandar o jogo com uma condução dentro das linhas adversárias; um meio campo que através de um passe é capaz de quebrar linhas em uma perfeita leitura tática; um atacante que se move no momento certo para receber um passe ou simplesmente criando superioridade numérica através de 1 vs 1 criando a instabilidade defensiva procurada em cada ação de ataque.

O futebol é somente e exclusivamente dos jogadores então, o investimento em um trabalho direcionando o reconhecimento e a gestão das emoções durante a partida, será a real diferença no futebol.

Segundo vocês, como podemos trabalhar o aspecto mental-emotivo com especificidade na performance do jogador durante as partidas?

Um abraço!

 
Referência Bibliográfica:
ANDERSON C.; SALLY D.; Os números do jogo: Por que tudo o que você sabe sobre futebol esta errado. São Paulo: Schwarcz, 2013
GALLWAY T.; The Inner Game: A essência do jogo anterior. São Paulo: NEWBOOK, 2013

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O exercício de treino

Perceber o futebol como um feito simples, cultural, uma maneira de sentir, viver ou puramente um jogo, está cada vez mais complicado nesses dias atuais. Compreender que os exercícios de treino devem ser cenários para algumas interações e para que as coisas surjam de forma natural, espontânea e construída também.

Infelizmente, o futebol está cheio de modismo, ideias preconcebidas com alguns preceitos instalados, principalmente na construção de exercícios que tomam conta da mente coletiva dos treinadores pela proliferação dos meios de comunicação. Quatro perguntas vêm à tona: todos devem treinar como todo mundo treina? Os exercícios de um treinador profissional em um clube são específicos a outro? Os exercícios vistos no profissional podem ser copiados na base? Os exercícios com múltiplas regras e adornos tiram o essencial do jogo?

Analisando essa tese e respondendo as perguntas acima por experiência própria, os exercícios copiados ou com múltiplos adereços, inicialmente parecem carregar informação e modernidade, mas com o passar do tempo, demonstram trajetórias traçadas com pontos cíclicos ou atalhos processuais que inibem aspectos cruciais para a teia relacional da dinâmica de jogo.

Fazendo isso, de certa forma, nos comparamos muitas vezes, sem saber, a outros contextos, e negligenciamos o básico que é o processo e o instante dele. O grande desafio é perceber que cada processo é único, e carrega consigo o desconhecido, as dúvidas e confianças que cada jogo proporciona.

Claro, prescrever regras e condições estruturais-funcionais gera possibilidades interessantes, mas influem no tempo e espaço do jogo e do jogar que podem por vezes, se excessivas, retirar o caráter real da competição que nada mais é que a máxima adaptabilidade às interações dos jogadores e do jogo.

E há que reconhecer essas características, ou seja, reconhecer realmente o que é jogo. Ir mais além de qualquer conceito ou cópia, esse é o verdadeiro conteúdo do exercício. E os exercícios nessa ideia, nada mais são que cenários de interação para agir e antecipar com mais facilidade o que virá adiante. Desta forma, engloba libertar a rigidez vista, não vista, sentida, não sentida, e permitir que mutações e variações aconteçam a todo instante.

Se conservarmos exercícios abertos e livres, imaginando que todo dia uma tela em branco deva ser pintada pelos jogadores, conseguiremos obter uma perspectiva complexa e compreender a natureza desse fenômeno futebol. É preciso tentar manter essa pureza e causar naturalmente circunstâncias que estão acima do alcance apenas do que o treinador pretende.

O treinador Português Vítor Pereira, no congresso sobre Periodização Tática na última semana, abordou essa temática de forma relevante, vejamos abaixo:

Os meus exercícios hoje são muito mais simples do que aqueles que quando comecei a treinar. Estive cinco anos na formação do FC Porto e tive oportunidade de fazer, errar, refletir. Quando cheguei ao futebol sênior sentia-me preparadíssimo, mas não por ler livros de exercícios. Aquele livro dos mil e um exercícios que nos oferecem no terceiro ou no quarto nível de treinador… nunca lhe tirei o plástico.

Os exercícios têm de ser meus, da minha cabeça. Tenho que andar sempre com um bloco ou com um guardanapo, ou o que for, para assentar tudo quando estou sentado a pensar, a beber a minha cervejinha, se for possível.

Para mim, jogar o jogo é controlá-lo do princípio ao fim, em todos os momentos. Mas reconheço que, por exemplo, no Santa Clara, tinha uma equipa muito organizada, mas faltava criatividade e liberdade. Por exemplo, o Hulk, sempre que jogávamos em um ou dois toques, ele tinha grandes dificuldades, mas sem isso ele se destacava. Ou seja, o exercício não pode ser castrador, tem de se expressar por si próprio. Se vocês têm necessidade de interrompê-lo muitas vezes, é melhor refletirem sobre o exercício.

Antigamente, antes do exercício, eu explicava tudo: o exercício é este, o objetivo é este e os comportamentos que eu quero ver são estes. Já não o faço, sabem porquê? Porque eles conseguem sempre fazer mais do que aquilo que a nossa cabeça consegue imaginar.  

Um verdadeiro exercício dificilmente se estabelece por objetivos blindados ou excessivos, pois sempre surgem novas conexões ou aspectos mais pormenorizados mesmo que não queiramos. E a melhor forma de produzir conhecimento de treino está por meio de tendências práticas de cada contexto, desenhadas, praticadas e vivenciadas emotivamente pelos jogadores diariamente. O verdadeiro exercício de treino está nos jogadores.

Abraços e até a próxima quarta!

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Seleção Brasileira Global ou Nacional?

O título da coluna de hoje não visa analisar se a nossa seleção e, consequentemente, o futebol brasileiro permanece com destaque e respeito mundo afora. O objetivo central é mostrar os prós e contras de um panorama novo trazido com os dois jogos amistosos disputados pela seleção em excursão pela Oceania, contra a sua arquirrival Argentina e contra a equipe da casa Austrália.

Nos acostumamos a acompanhar a transmissão de jogos da seleção durante a últimas décadas pela TV Globo, seja em jogos oficiais, como também em qualquer amistoso. A Globo permanece com os direitos de transmissão dos grandes eventos que a seleção participa, como Eliminatórias da Copa do Mundo, a própria Copa do Mundo e Copa América. Porém, não havia adquirido os direitos desses amistosos na Oceania e, para surpresa do mercado em geral, não houve acordo entre a emissora e a CBF.

A confederação, por sua vez, ao não ficar satisfeita com a proposta apresentada pela Globo, resolveu abrir o seu leque e, de forma planejada ou por força do acaso, criou a primeira experiência da seleção brasileira utilizando um novo modelo de transmissão. A CBF comprou espaço na TV Brasil, além de ter acertado com a TV Cultura, UOL e Vivo. A transmissão ficou sob responsabilidade da própria confederação, através da CBF TV, incluindo a geração de imagens, narração e até mesmo comentários com a presença ilustre de Pelé.

Ainda é muito cedo para avaliar se a iniciativa foi positiva ou negativa. O fato dos jogos terem ocorrido no início da manhã em dias de semana e a seleção ter tido desfalques importantes, incluindo a grande estrela Neymar, impossibilitam o entendimento mais claro do tamanho da repercussão gerada.

Um fato é claro. A ausência da Globo, não somente durante a partida, mas também durante o noticiário pré e pós jogo, fez com que muitos torcedores nem soubessem que os jogos aconteceriam. A audiência, o alcance e também o costume da emissora trouxeram, de certa forma, um distanciamento entre a seleção e o seu usual torcedor. Se fosse um Brasil e Argentina jogado em alguma cidade brasileira, com a presença de todos os grandes craques, em um dia e horário comum ao existente, o barulho poderia ser diferente.

São muitas correntes opostas analisando esse fato. Uns que clamam pelo fim do predomínio da Globo em nosso futebol e outros que enxergam que é justamente a presença da emissora que enriquece o espetáculo, pela qualidade técnica de sua transmissão e pelo alcance inigualável da massa em todos os cantos do país.

Como qualquer fato novo, a discussão é válida. Apesar dos inúmeros erros e negócios obscuros realizados pela CBF durante as últimas décadas, culminando em seu completo descrédito, é justo dizer que a iniciativa embrionária foi corajosa e audaciosa. Mesmo se tudo retornar ao binômio Seleção Brasileira + Globo, a semente foi plantada para que todos saiam de sua zona de conforto e enxerguem que há um mundo novo e desconhecido a ser explorado.

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O segredo de Daniel Alves

Gostaria de ter publicado este texto na semana passada, mas tive de priorizar questões pessoais. Espero que o assunto não tenha se perdido no dinamismo esquizofrênico desse mundo que comporta cada vez mais conteúdo entre 140 caracteres e textões, mas paradoxalmente diminui constantemente a atenção a qualquer coisa.

Feito o preâmbulo de mea culpa, é importante dizer que a relevância do assunto não se perdeu. Trata-se de um texto publicado pelo lateral direito brasileiro Daniel Alves, 35, no site “Player’s Tribune”. Veiculado originalmente em inglês e intitulado “The secret” (“O segredo”, em tradução livre), o depoimento fala de quando o jogador trocou o Barcelona pela Juventus, da preparação que precede suas apresentações e de como isso tem a ver com a trajetória que o colocou ali. Todos os sentimentos expostos ali, como a relação com a família e o desejo de dar orgulho ao pai, despertam empatia quase imediata. É impossível ler sem entender o que o atleta sente, pensar no quanto ele é similar às “pessoas comuns” e como essa concepção é diferente das principais características que moldaram a imagem de Dani Alves nos últimos anos.

O texto de Daniel Alves é um exemplo do quanto a imagem do lateral foi mal trabalhada ao longo da carreira.

Daniel Alves é um jogador brasileiro de carreira tão longeva quanto prolífica no futebol europeu. Sobrevive há anos entre os principais da posição e já demonstrou repertório extremamente diversificado em aspectos como tática e técnica. Já disputou Copa do Mundo como lateral e como meio-campista. Já foi a principal válvula ofensiva de um Barcelona que ficará eternamente marcado como um dos times mais espetaculares da história.

O sucesso esportivo, contudo, é apenas uma faceta de Daniel Alves. O brasileiro também ama roupas, adora visuais extravagantes, é verborrágico, é nacionalista e tem outras tantas características que nós conhecemos pouco.

Porque Daniel Alves, um dos jogadores brasileiros mais relevantes das últimas décadas, também é uma personalidade que nós conhecemos pouco?

Foi o lateral direito que disse que Guardiola queria treinar a seleção brasileira. Foi o lateral direito que cobrou da imprensa de seu país uma postura mais condescendente (e até torcedora) com a equipe nacional. Foi o lateral que falou tantas vezes sobre o que aprendeu (dentro e fora das quatro linhas) em sua passagem pela Europa.

Não faltaram aparições públicas a Daniel Alves. Não faltaram entrevistas, conversas com alguns dos veículos mais relevantes da mídia global. O que faltou foi um plano de comunicação que soubesse transmitir o que o texto publicado no “Player’s Tribune” transmite.

Fundado pelo ex-jogador de beisebol Derek Jeter, o site oriundo dos Estados Unidos já conseguiu publicar textos de algumas das personalidades mais relevantes do esporte mundial. A ideia é que os atletas apresentem seus sentimentos e falem sobre suas trajetórias – o conteúdo é transformado em texto por uma equipe tão competente quanto experiente.

É importante que exista uma plataforma disposta a ouvir os atletas e transmitir um pouco mais do que é percebido por mídia e público. Mas a necessidade de um canal assim só é tão grande porque faltam planos estruturados de comunicação para cada personalidade.

As características mais marcantes de Daniel Alves para uma parcela significativa do público no Brasil são coisas como “marrento”, “fala demais”, “só se preocupa com roupas”, “fútil”, “deslumbrado” e outras tantas coisas nada positivas. Também não é nada do que o texto mostra.

A maioria dos atletas do Brasil ainda confunde a existência de uma estratégia de comunicação com a contratação de uma equipe de assessoria de imprensa, de um profissional para gerenciar contratos de imagem ou com o tempo de exposição do personagem. Essa concepção é apenas um exemplo de como o erro, nesse caso, provém da base e não do processo de comunicação.

O que um atleta precisa é de um plano de comunicação que traduza com eficiência as características positivas que ele tem. Que potencialize o carisma e que melhore a relação dessa personalidade com o mercado, os fãs e os veículos de mídia. Assessoria de imprensa, nesse caso, é apenas uma parte do todo.

Já passou da hora de entendermos a necessidade de pensar o atleta como uma marca e de trabalhar para explorar de forma correta os pontos positivos dessa marca. A comunicação tem mudado no mundo todo, com uma dependência cada vez menor de meios tradicionais. O poder da narrativa não tem mais interlocutores ou intermediários. O segredo de Daniel Alves foi escancarar isso a todos.

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Detecção de Talentos – Parte I

Olá, leitor!

Diz um provérbio português que “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”. Este provérbio pode ser facilmente adaptado para realidade brasileira da seguinte forma: “de médico, treinador e louco, todo mundo tem um pouco”.  Vivemos em um país que respira, que vive o futebol intensamente, é fato inegável que a grande maioria da população, seja de que classe social for, consome o jogo de bola com os pés trazido por Charles Miller* ao Brasil.

Aliada a toda comoção que o jogo gera no Brasil, a maioria dos brasileiros se julga um “entendido no assunto”, sempre tem uma análise profunda do último jogo de sua equipe, dos erros que o técnico cometeu, do que o jogador deveria ter feito naquele lance… E, possuem um craque (seja ele a idade que for) em casa, no time do bairro ou da escolinha, esperando uma oportunidade de ser descoberto. O futebol é o esporte que mais atrai repercussão midiática e ingestão de recursos financeiros, visto que atualmente vivemos em uma sociedade que associa status e o poder econômico a ter sucesso e felicidade na vida, não fica difícil de compreender o porquê de tantos “olheiros”, pais, meninos (talvez este ainda sejam mais motivados pelo amor e prazer que o jogo propiciam) desejarem entrar no mundo do futebol de alto rendimento, cuja principal porta de entrada são as categorias de base dos clubes de futebol.

A maioria dos clubes formadores no Brasil inicia o seu processo de detecção e capitação de talentos bem cedo, em suas categorias sub-10, 11, 13 e 14 (os que possuem equipes de futsal começam ainda mais cedo). Os clubes que dispõem de maior estrutura, contam com observadores e parceiros (projetos, escolinhas, etc) espalhados por todo país (sem contar os que possuem fora do Brasil). De semana a semana são muitos os meninos que chegam aos clubes para serem avaliados pelas comissões técnicas, esporadicamente acontecem seletivas (as famosas peneiras) que reúnem vários aspirantes a jogador, e ainda são inúmeros os contatos diretos que os pais ou os próprios meninos fazem com os clubes no intuito de serem avaliados.

Sim, diferente do que muitos pensam, nos grandes clubes, existem muitas oportunidades e possibilidades (sobretudo para os mais novos) para que os meninos sejam observados e avaliados. Esta observação pode acontecer dentro ou fora do clube e, obviamente, não é um processo isento de falhas, mas somando-se a quantidade de clubes, parceiros e observadores, a margem de abrangência é muito grande. É um tanto injusto dizer que não há oportunidades.

Sendo satisfatória a oferta de oportunidades de avaliação, se faz necessário compreender que inversamente proporcional é a quantidade de vagas, há uma pequena demanda (vagas nos clubes) para uma grande oferta (meninos querendo preencher as vagas). A responsabilidade de quem avalia, de quem oportuniza, é muito grande, é necessário entender o que o clube busca, que características pretende encontrar nos jogadores, o diferente nível de exigência para cada idade, o potencial de evolução que este jogador demonstra, nível de maturação, estes e outros parâmetros quando bem diagnosticados tendem a diminuir a margem de erro, que invariavelmente vai acabar ocorrendo.

Quem avalia está lidando com os sonhos de pais e meninos, com os objetivos a longo prazo do clube, portanto, este processo não pode ser algo simplesmente mecânico, puramente frio, que somente separa os “bons” dos “ruins”. Minimizar os erros deste processo é preciso, refletindo sobre eles poderemos promover uma detecção de talentos mais humana, justa e precisa, e esse assunto continuará numa próxima coluna. Até lá!

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Maria, Maria

Quais monumentos públicos, prédios, estruturas urbanas que homenageiam uma mulher?

Possivelmente você deve ter se lembrado de um prédio residencial, da sede de algum hospital… mas para por ai! São raras as mulheres que dão nome a viadutos, por exemplo. Trânsito, símbolo da masculinidade contemporânea. E de um prédio administrativo de um time de futebol? Nem pensar!

Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre. Recentemente a torcida anticapitalista Resistência Azul Popular lançou uma chamada no Facebook para um ato: reivindicariam a mudança de nome da Sede Administrativa do Cruzeiro Esporte Clube para Dona Salomé, torcedora símbolo do time, velha conhecida dos frequentadores assíduos do Mineirão.

A proposta pode parecer singela, mas, se vamos ser inteiramente honestos, para quem vive o futebol não é surpreendente que no meio boleiro haja resistência ou mesmo aversão ao nome, pura e simplesmente por ser substantivo feminino, essa dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta.

Logo surgiram as previsíveis reações na rede e, de forma geral, cruzeirenses se perguntavam o que os atleticanos diriam da torcida como um todo. Destaque-se: torcida esta que já carrega a pecha de “maria” em Minas Gerais, ofensa grave, que insinua atributos femininos ou afeminados ao lado azul do estado. Ao menos é este o conceito que se pode inferir da resposta cruzeirense, “franga” ou “gaylo”.

O embate pela defesa da masculinidade dos clubes seria, lamentavelmente, mais do mesmo, mas o episódio tem algo mais assustador, mais violento.

Explicamos:

O edifício no qual sugeriu-se a homenagem a Salomé, ostenta, atualmente, em letras garrafais de aço escovado, o nome Sede Administrativa Zezé Perrella. Sim, o senador.

Existe a possibilidade de que o ex-presidente e conselheiro do clube esteja envolvido em negócios escusos de grandeza internacional, a imagem do clube é vinculada às denúncias ao senador em horário nobre para todo o país ver, e o nome de Zezé continua não incomodando.

Seu retorno não é desejável, as notícias podem prejudicar a imagem do clube, nem declarações sobre o Cruzeiro se quer da boca de Zezé: por quê então o seu nome é uma opção tão natural e pacífica para a Sede, enquanto que Salomé causa alvoroço na opinião pública? Mas é preciso ter força. O que há de tão depreciativo na homenagem a ponto de que alguns prefiram ser associados a meia tonelada de pasta base de cocaína, a serem associados à torcedora?

A resposta, se é que é possível apontar para alguma, passa também pela compreensão do símbolo da mulher a quem se pretendeu homenagear. Dos atributos possivelmente relacionados a Zezé, vamos aos de Salomé.

Maria Salomé da Silva,  83 anos, traz no corpo a marca, Maria, Maria, mistura a dor e a alegria de quem deixou a labuta na lavoura em Bom Despacho para morar na capital mineira e se apaixonou pelo Cruzeiro. Ela gosta de contar que desde a inauguração do Mineirão, em 1965, esteve ausente de apenas 18 partidas. Figurinha batida no estádio, dona Salomé também se destaca pelo otimismo e fé inabaláveis. Sua autoridade é reconhecida e respeitada pelas organizadas e avulsos.

Aliás, falando em organizada, Dona Salomé circula no meio, viaja com as torcidas e acompanha aos jogos fora com frequência. É preciso ter graça: há relatos folclóricos de suas viagens e suas raposas de pelúcia, todas batizadas com nomes de jogadores. Somadas à cabeleira da torcedora, o look é sempre glamouroso e requisitado para fotos.

Mas, à parte de seu estrelato-torcedor, Salomé também é apenas uma de nós. O amor de Salomé pelo clube é o amor desinteressado da grande massa, na expressão de uma mulher que frequenta sozinha o estádio há mais de 50 anos.

Polêmicas recentes à parte, a torcida cruzeirense é, no fim das contas, muito mais Salomé do que Zezé. As notícias correntes só deveriam reforçar essa identidade. Resta saber se a reação exagerada por parte dos internautas se dá pelo menosprezo do feminino enquanto protagonista no futebol; ou, ainda, se no imaginário da torcida sedes administrativas não são lugar para o torcedor comum.

É difícil argumentar o contrário quando, na prática, não são mesmo. São poucas as mulheres no administrativo do clube, menos ainda atletas (apenas na modalidade de atletismo). Mas enquanto as mudanças não ocorrem nas instituições, não é demais lembrar que o fundamento do clube é a torcida, essa que possui a estranha mania de ter fé na vida. Essa torcida tem raça e amor e é composta por muitas mulheres e gays, como todas as outras torcidas.

Nesse sentido, ter vergonha de ser Maria, ainda mais em tempos de Zezé, é ter vergonha de si mesmo! Se essa correlação é tão difícil de se fazer, sinal do distanciamento do clube para com a torcedora, e do torcedor consigo mesmo.

Já há muito passou da hora de se poder ser maria com orgulho, dentro e fora do estádio!

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!

Lá Lá Lá Lerererê Lerererê

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Gestão do padrão semanal

Se uma equipe de futebol é uma organização brotada pela interação dos diversos companheiros de equipe, o padrão semanal das atividades deve desenvolver processos, sinergias e retroalimentações funcionais-dinâmicas harmônicas ao estado dos jogadores, da equipe, ao último jogo e ao próximo jogo.

A funcionalidade arredondada desse intercâmbio gera um estado de equilíbrio semanal, uma lógica que leva todo compêndio de conteúdos para o terreno de jogo. O papel da comissão técnica (treinador, auxiliar e preparador físico) é simplesmente facilitar, dinamizar e controlar corretamente esse processo sem exacerbar demasiadamente alguns aspectos.

E nesse processo, diferentes metodologias advindas de escolas distintas servem como referência para estruturar essa lógica semanal. Algumas com um conteúdo riquíssimo, algumas com conteúdos mais modernos, outras mais tradicionais, e algumas criadas pela mescla dessas tendências, mas todas válidas e utilizadas.

Nesse texto, o preceito da questão vai além de definir essas macro-preferências, que claro, deliberam uma identidade metodológica de cada comissão técnica, mas sim identificar um plano mais pormenorizado, ou seja, em como operacionalizar os detalhes gerais e específicos que ajudam a cimentar a equipe a ter possibilidades maiores de êxito com a correta gestão semanal dessas particularidades.

Além disso, cada equipe é formada por jogadores diferentes que condicionam planos de ação distintos em cada realidade e possíveis adaptações. Identificar isso é importante.

Também no futebol existem diferentes níveis competitivos e, mesmo no futebol formativo, nas categorias de base, o desenvolvimento do trabalho deve respeitar uma organização. No futebol formativo o ensaio-erro pode ser maior, e através do desenvolvimento semanal pode-se ir determinando o que vai bem ou o que não vai bem com maior facilidade. Alguns experimentos também podem ser realizados avaliando com maior paciência a lógica semanal. Isso enriquece o processo e a comissão técnica.

Fortalecendo essa tese com um caráter pedagógico, o preparador físico da equipe sub-15 do Palmeiras, Cyro Bueno, fala de preceitos importantes para a correta gestão do padrão semanal:

Primeiramente temos que saber que o futebol é uma modalidade essencialmente tática, o que nos faz pensar na enorme complexidade que cada decisão tomada trará do ponto de vista cognitivo. Num olhar ao viés físico, o mesmo acontecerá. Portanto, o padrão semanal deve estar atento às demandas comportamentais e físicas. 

Para correlacionar esses aspectos, devemos respeitar uma metodologia e um modelo de jogo criado e, estar sempre em consonância com o princípio da curva de supercompensação e sua adaptabilidade em semanas com um ou mais jogos. Seguir um padrão semanal dentro do processo de treino pode parecer utópico, mas não é tanto, desde que o contexto esteja fundamentalmente sustentado sob evidências e, o ambiente, rico de concepções claras, práticas e eficazes. 

E claro, independentemente da metodologia preconizada para conduzir o processo, e são muitas, o formato semanal deve levar em consideração alguns aspectos gerais que podem influenciar sua estrutura:

– O conteúdo das sessões de treino e a magnitude das cargas mentais e fisiológicas (estas sempre correlacionadas) aplicadas. Inevitavelmente, a carga interna de uma sessão afetará nas possibilidades seguintes para o decorrer da semana. Por isso, o padrão semanal muitas vezes não será padrão, mas de uma forma ou outra, deve ser o norte balizador organizacional;

– O processo ‘’estímulo-recuperação’’. Para que estejamos do ponto de vista orgânico funcionalmente aptos para as atividades, a alternância horizontal das cargas de treinamento e descanso devem estar adequadas. Além disso, deve-se respeitar as respostas individuais de cada atleta aos estímulos;

– A disposição dos conteúdos semanais na formatação geral do trabalho da equipe. Mesmo que muitas vezes seja impossível antecipar os cenários e as variáveis que inevitavelmente virão ao longo do ano, deve-se estar atento aos períodos das diferentes competições e a distribuição das cargas de treinamento.

Acredito que com uma correta gestão desses aspectos, relacionados com outros pormenores, conseguimos conduzir o processo semanal da melhor forma possível, deixando a equipe em condições ótimas para jogar o jogo, com seu maior patamar cognitivo e físico, dentro do modelo preconizado e nas adversidades que o adversário provoca. 

Já o preparador físico da equipe sub-17 da Chapecoense, Jardel Zamberlan, fala sobre o desenvolvimento de um processo mais específico:

Desenvolvemos um padrão semanal que considera as formas de fadiga. Com a correta gestão disso, conseguimos treinar corrigindo os erros cometidos pela equipe no último jogo, e ao mesmo tempo criar adaptabilidade através da análise do próximo adversário, do que não fizemos bem no jogo passado, tentando arrastar o mínimo de cansaço para o próximo jogo. 

A alternância de tempo, distâncias percorridas e recuperação nos exercícios, nos possibilita treinar controlando a fadiga periférica (física). No geral, muitas vezes o padrão semanal é pensado apenas no viés físico, negligenciando assim a fadiga central (cognitiva). Esta possui um peso muito grande quando projetamos nossa semana de trabalho.

No padrão semanal que acreditamos, o jogador deve tomar muitas decisões em alguns dias específicos da semana com trabalhos que envolvam interações intersetorais e coletivas, e também ao mesmo, em outros dias, com trabalhos de velocidade de execução (principalmente em treinos que antecedam o jogo), fazendo com que o jogador chegue à partida com um “frescor”, que o fará agir e tomar melhores decisões, de forma mais rápida, devido ao desgaste central menor.

Nosso padrão se estrutura a partir de jogos apenas nos sábados. Como quarta-feira é o dia mais distante dos jogos, treinamos com as maiores distâncias de campo e maior número de jogadores. Sendo assim a fadiga (tanto periférica como central) é similar a que terá no jogo, já que as medidas do campo e a quantidade de interações com os jogadores são parecidas. Apesar de treinarmos com a intensidade máxima relativa sempre, a segunda e terça ainda tem um caráter recuperativo, pois ainda arrasta o cansaço do último jogo. Do mesmo modo que a quinta e sexta-feira trabalhamos como uma pré-ativação para o próximo jogo, delimitando conteúdos menores, conseguindo ter aquisição, deixando os jogadores aptos para ter um desempenho máximo ou próximo do ideal no jogo. Sendo assim, essa lógica se repete semanalmente, tendo em conta a distribuição dos conteúdos em cada dia, a evolução individual dos jogadores e da equipe. 

A responsabilidade de uma comissão técnica é criar uma lógica semanal sabendo primeiramente da realidade do contexto. Isso abarca saber do clube, dos jogadores, da equipe, da categoria, para depois gerir corretamente múltiplos fatores que instituem a semana. Essa sensibilidade vai propor a comissão, no contexto que tiver, um plano adaptável para as diferentes realidades, criando pontos chaves contextuais, mesclados com a organização semanal pretendida, que vai além de chavões, métodos ou fatos prontos. Por isso, um padrão semanal balizado por uma metodologia nunca vai elevar uma equipe ao seu máximo potencial se não for aberto, funcional e prático.

Abraços e até a próxima quarta!

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A Liga do Campeão

A final da Champions League realizada no último sábado em Cardiff, capital do País de Gales, trouxe elementos que engrandecem ainda mais esse que é o maior torneio entre clubes de futebol realizado no mundo. Dentro de campo, o Real Madrid levantou a taça pela 12º vez, consolidando a sua supremacia no continente e aumentando a sua já larga vantagem para os demais clubes. Enquanto isso, a Juventus terminou novamente como vice campeã, chegando pela 7ª vez em segundo colocado e ficando com o gosto amargo de quem quase chegou lá. Se o Real Madrid é o maior campeão, a Juve é a maior vice.

A cada ano, a organização do evento torna-se cada vez mais atraente e garante um espetáculo ainda mais agradável aos seus fãs, tanto aos que viajam para assistir a grande final, como também para quem acompanha de longe pela televisão e internet. Todo o ciclo envolvendo os pilares de marketing funcionam de forma harmônica, com os elementos se retroalimentando.

A audiência estimada de pessoas que assistiram ao jogo chega a 350 milhões de pessoas espalhadas por mais de 200 países. Em termos de comparação com o Super Bowl, trata-se do triplo de quantidade de pessoas ligadas durante a realização da partida. Sem dúvida, excluindo a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, é o maior evento esportivo do mundo. Com uma diferença crucial: esses dois eventos globais ocorrem uma vez a cada quatro anos, enquanto a Champions League acontece todo ano, durante 9 meses entre fases de classificação e finais.

Para a cidade que sedia a final, também é uma oportunidade de gerar receita para a economia local. Cardiff foi a cidade escolhida para a final desse ano. A pequena cidade com cerca de 320 mil habitantes, recebeu mais de 150 mil torcedores vindos da Espanha, Itália e de muitos outros países que viajaram para assistir ao jogo dentro do estádio ou simplesmente para sentir a atmosfera e aproveitar outras atividades proporcionadas pelo evento. Entre serviços e produtos consumidos, acredita-se que os valores movimentados tenham ultrapassado 50 milhões de euros.

Um ponto-chave para a expansão da Champions League são os excelentes cases de patrocínio que ocorrem a cada novo ano. A Heineken hoje possui uma plataforma de patrocínio tão especial e aclamada por conta de ativações realizadas nessa última década. Muitos começaram a seguir o seu caminho, criando ativações junto aos fãs com base em planejamentos detalhados e criativos, explorando a paixão que o futebol transmite e tornando o seu alcance exponencialmente maior na era das redes sociais.

Além da própria Heineken, ações de outros patrocinadores como Pepsi, Nissan e Lay´s geraram engajamento que ultrapassa muito as fronteiras do continente europeu.

A Lay’s, batata oficial da Champions League, realizou até mesmo uma ativação envolvendo Brasil e Argentina, reforçando o quanto esse evento é cada vez mais global. A ação buscou mostrar o quanto o futebol e, especialmente a Champions League, pode unir pessoas de diferentes culturas e nacionalidades que tem em comum a paixão por esse esporte. Vale a pena assistir ao vídeo:

A Pepsi, também dentro da mesma lógica de contar casos individuais que representam o sentimento de milhares, criou uma ação chamada “Troca de Memórias”, onde torcedores anônimos brasileiros eram entrevistados para falar de algum ingresso que guardaram de jogo memorável que foram assistir. A proposta era ver quais aceitariam trocar esse ingresso histórico pela chance de ganhar um ingresso para a final da Champions League. Porém, havia uma pegadinha e, ao invés de contar o final, compartilho o vídeo da ação:

A qualidade e a capacidade da UEFA em trazer algo de novo para cada nova temporada de seu principal produto é a prova do quanto é possível aliar a emoção do esporte com a razão dos negócios. Nesse caso, todos estão sagrando-se campeões.

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Relação do futebol com o futsal

Cada vez mais temos ouvido falar da relação entre o futebol e o futsal, especialmente da importância do futsal na formação de jogadores. O que mais tem chamado atenção é que outros paralelos vêm sendo comentados na atualidade sobre a transferência de conceitos. Além da importância da vivência do jovem jogador na modalidade da bola pesada precocemente para aumentar seu engrama motor, juntamente com a qualidade individual do jogador pelo excesso positivo de relação com a bola e a inteligência funcional do jogador devido às tomadas de decisão, ouve-se falar muito que a fluidez do jogo sem separar ataque e defesa, o jogo a dois toques, as quebras de pressão e linhas, as manobras, os triângulos, as diagonais e paralelas, as posturas defensivas, e outros transferes qualitativos do dinamismo funcional peculiares ao futsal estão cada vez mais presentes no futebol.

E realmente, tudo isso, atualmente, está muito presente no futebol. Uma pena que tradicionalmente as modalidades são entendidas isoladamente, perdendo essa oportunidade de interação por meio de um fluxo intenso de transferência de conceitos, informações e conhecimentos. Claro que alguns profissionais procuram beber das duas fontes e inter-relacionar cada vez mais as modalidades, devido a tudo isso acima e suas características peculiares como jogos esportivos coletivos de progressão (JECP), atentando-se a lógica interna, a característica organizacional-funcional e a condição de jogo-complexo.

E é nisso que quero chegar. Sabendo que o futebol é distinto do futsal devido as suas dimensões do campo, regras e outros aspectos, a sua evolução permite afirmar, cada vez mais, que nesse momento existe uma circunvizinhança maior.

Bem, o que mais se observa no futsal é a constante busca por espaços livres permitindo que a interação entre os jogadores crie superioridade qualitativa, cinética, posicional ou numérica. Essa é uma constante disputa durante toda a partida e exige tomada de decisões instantâneas por parte dos jogadores, tendo em vista o espaço reduzido da quadra de jogo. No futebol atual, presenciamos cada vez mais isso devido à intensidade organizacional que o jogo desenvolveu. A primazia pela compactação horizontal e vertical, pelos perfis distintos de organização defensiva e ofensiva e pela valorização das transições (troca rápida de atitude), exige uma mudança de perspectiva no jogo atual, obrigando os jogadores a encontrar soluções cada vez mais rápidas, tecnicamente eficazes e imprevisíveis também.

Nesse contexto, o futebol precisa cada vez mais de jogadores técnicos e inteligentes? A busca pelo domínio do espaço e o ganho de espaço que no futsal sempre foi uma questão vital, e claro, no futebol também, mas sem tanta velocidade, relações curtas, geométricas e estruturadas, nesse momento da evolução do jogo torna-se preponderante?

É aí que entra nossa sensibilidade como treinadores. Para que exista realmente uma conexão respeitando a natureza desses dois jogos, é condição importante um mergulho profundo no ambiente complexo dessa relação sobre as bases da essencialidade do jogo, a criatividade, as mutações individuais, grupais e coletivas interacionando qualitativamente com as dimensões organizacionais, emocionais e fisiológicas.

Mas, como em qualquer jogo esportivo coletivo de progressão (JECP), apesar das similaridades estruturais e funcionais, muitas são as possibilidades de jogo acendidas palas relações dos jogadores relacionadas com as ideias de jogo a fim de buscar o efeito final: a vitória. Assim, infinitas possibilidades podem acontecer com diferentes perfis de jogo existentes. Isso também repercute na formação de jogadores, por isso, como treinadores temos que ter essa sensibilidade apesar de apresentarmos as nossas preferências. O que não podemos é castrar os jogadores e criar paradigmas.

Para Lewis Maté Weschenfelder Heineck, treinador de futsal formativo no município de Pinhalzinho-SC, “O futebol sempre foi o palco de grandes atletas com comportamentos de futsal, muitos deles oriundos da referida modalidade. Ofensivamente percebe-se mais essa similitude, devido à necessidade de tomadas de decisão rápidas e interações com ou sem bola em caráter agressivo. Penso que o que diferencia as duas modalidades está no terreno de jogo, na relação com a bola, espaços maiores-menores e a regra do impedimento. As aproximações conceituais relativas a rupturas, fintas sem bola e orientações corporais são semelhantes, para não dizer idênticas. Penso que os conceitos e princípios básicos (ofensivos e defensivos) são os mesmos para todas as modalidades coletivas. Controle de amplitude, profundidade e triangulações. Manipular a defesa para gerar superioridade quantitativa ou qualitativa em determinados setores, visando a entrada em zona de finalização, e a defesa tentando neutralizar ao máximo as zonas fortes do adversário. O fato de vermos cada vez mais as equipes de futebol jogando em compactações verticais e próximas ou idênticas em distância ao futsal, equipes com densidade defensiva em amplitude, tentando ao máximo evitar o jogo interior, valoriza bastante os profissionais de nossa área. Aqueles que dominam esses conceitos, e os trabalham na formação, podem fazer com que o futsal seja sim um berço formador de atletas para o futebol, respeitando sempre as suas peculiaridades.”

Já o treinador da Associação Female Futsal, Eder Popiolski e ex-coordenador das Categorias de Base da Associação Chapecoense de Futebol: “Creio que a relação do futsal com o futebol formativo esteja um pouco explorada talvez pela dificuldade de relacionamento dos treinadores entre as duas modalidades ou pelo baixo entendimento processual. Contudo, muitos jogadores de futebol tem sua formação iniciada no futsal pela facilidade de acesso e isso pode ajudar a nos entender que a quadra tem influências positivas. O ponto crucial favorável ao uso do futsal é a frequente participação do jogador no jogo, seja devido à quantidade de ações de relação com a bola ou nos aspectos cognitivos nas tomadas de decisões, pois o espaço reduzido requer bastantes movimentos intencionais à procura de posicionamento, já que o menor número de participantes exige maior quantidade de busca de espaços com e sem a bola e a marcação próxima reduz o tempo para a realização das interações entre os jogadores. Tudo isso, resulta num processo de leituras muito rápidas, acelerando o processo de raciocínio tático do jogo”. 

O mais marcante dessa relação é que em cada zona do campo de futebol, e são muitas, muitos futsais podem acontecer e ganhar vida. O problema está no desentendimento de oito leis vitais, mais claras no futsal, mas que também estão presentes no futebol, e negligenciadas algumas vezes por acreditarmos que o glamour do jogo de futebol e as coisas acessórias são mais importantes que a essência básica: qualidade dos jogadores, inteligência de jogo, tempo, espaço, engano, pausa, velocidade e precisão.

Abraços e até a próxima quarta!

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A tradição ditou a regra nas ligas secundárias europeias

Se nas 4 principais ligas nacionais europeias não tivemos surpresas entre os seus campeões, na maior parte das ligas secundárias os resultados também não trouxeram grandes novidades frente ao que era esperado antes de seu início.

Na França, a Ligue 1 tem chegado cada vez mais próximo dos principais campeonatos do continente, muito por conta do dinheiro injetado em alguns clubes. A expectativa era que o PSG dominasse a disputa e conquistasse mais um título, porém viu o Mônaco surpreender com uma equipe repleta de jovens promessas. Há anos atrás, o clube do Principado foi comprado por um bilionário russo que movimentou o mercado com grandes contratações, plano desfeito no ano seguinte, quando iniciou uma nova política de apostar em jovens talentos. Além do título francês, também alcançou a fase semifinal da UEFA Champions League. Apesar da conquista, o clube amargou uma das piores médias de público do campeonato, muito por conta da sua localização.

Em Portugal, deu a lógica. Benfica campeão, Porto vice, Sporting em terceiro. O predomínio de Benfica e Porto é uma das maiores do futebol mundial. Dificilmente, o troféu tem ido para outras mãos. Apesar de não ter o poder financeiro da elite europeia, os clubes portugueses construíram uma imagem que gera muitos frutos. Hoje Portugal é uma grande ponte entre o futebol sul-americano e os gigantes clubes europeus. Muitos jogadores de países como Brasil, Argentina e Colômbia rumam ao país com o sonho de ganhar visibilidade e, assim, obterem contratos multimilionários na Espanha, Inglaterra ou Alemanha. O sucesso nos cofres desses clubes com esse modelo de compra e venda tem sido a balança para o futebol português prosperar.

Na Holanda, o campeão foi um clube bastante tradicional que estava na fila há 18 anos. O Feyenoord conquistou o seu 15º título da Eredivisie. Após duas décadas de glória entre os anos 60 e 70, onde inclusive conquistou uma Taça de Campeões da Europa, o clube passou por altos e baixos e ficou para trás em comparação aos seus dois grandes rivais Ajax e PSV, mais ricos e populares.

Na Turquia, o domínio também costuma ficar entre 3 clubes. Galatasaray, Fenerbahce e Besiktas praticamente ganharam todos os campeonatos até então disputados no país. Em 61 temporadas, venceram 54. Nesse último domingo, o Besiktas conquistou o bicampeonato em um país onde o futebol é uma enorme paixão. A rivalidade entre os três grandes extrapola o campo de jogo e o povo turco vive a semana dos grandes clássicos como em poucos países no mundo.

Um outro país que merece atenção pela paixão despertada pelo futebol é a Grécia. Lá também temos uma rivalidade clara entre 3 clubes, Olympiakos, Panathinaikos e AEK Athens, porém é o país onde há um predomínio tão grande de um deles. Nos últimos 20 anos, o Olympiakos sagrou-se campeão em 18 oportunidades. Historicamente, possui mais do que o dobro de títulos do que o segundo colocado Panathinaikos.

Independente do país, o que vimos nessa temporada das ligas europeias foi uma consolidação da tradição e da riqueza, duas características que andam lado a lado no futebol. Quanto maior a história do clube, maior a perspectiva de ter a maioria de fãs em seu território.

Sob o ponto de vista do negócio, é mais fácil associar uma marca a um clube vencedor e que estará em contato com uma massa mais ampla de consumidores, do que apostar em um clube menor que demandará tempo e dinheiro para trazer resultados relevantes.

O ponto de equilíbrio para que essas hegemonias locais não tornem o futebol desinteressante por falta de concorrência está em fatores como a distribuição justa de direitos de televisão. Modelos como existentes na Alemanha e na Inglaterra podem não eliminar o favoritismo dos maiores e mais tradicionais, mas tornam a competição mais acirrada e dão a oportunidade de surpresas aparecerem no meio do caminho.