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O bom jogador de hoje

Quando somos crianças e jogamos futebol nos mais diversos ambientes, o melhor da turma é aquele que tem o gesto técnico mais bonito, mais apurado: o melhor é aquele que dribla mais, que chuta melhor, que faz mais gols e etc. Se pegarmos o futebol profissional “antigo” – de cerca de quinze, vinte anos atrás – isso quase sempre também acontecia. O grande jogador era aquele que mais aparecia pra torcida, que dava ‘caneta’ nos adversário, que dava chapéu e por aí vai.
Essa máxima não se alterou por completo. Explico: o talento sempre vai prevalecer. O jogador que desequilibra será bem-vindo no futebol de qualquer época. Mas duas coisas importantes mudaram: esse jogador talentoso passou a ser ainda mais reverenciado quando usa sua técnica em prol da equipe e aquele jogador que pouco aparecia, que não tinha um jeito de tocar na bola e até de correr tão plasticamente dentro do padrão, mas que apresenta uma eficácia gigantesca pra resolver problemas, passou a ser mais valorizado.
O contexto tecnológico nos permite observar jogos e jogadores do mundo todo. É possível contabilizar jogadas e movimentos com e sem a bola de todos. E mais: se algum lance nos impressiona voltamos rapidamente a imagem e destrinchamos todos os pormenores. Diferentemente de antes que um “olheiro”, por exemplo, ia pelos campos desse mundo e tinha uma, no máximo, duas impressões do jogador.
Esse avanço na análise nos leva a saber quais jogadores resolvem os problemas de maneira mais eficaz em todas as fases do jogo. Nos permite observar quem faz a leitura correta das jogadas. Conseguimos saber quem toma as melhores decisões. Quem se comunica melhor com o jogo, companheiros de equipe e tira vantagem disso diante dos adversários. Com isso, os treinamentos tendem a evoluir e se não é possível e talvez nem mais necessário aprimorar o gesto técnico em sua plasticidade é totalmente inteligente criar mecanismos para os jogadores terem respostas mais rápidas e eficientes ao que o jogo apresenta.
Esse ponto específico da tecnologia com o avanço da análise quantitativa e qualitativa é um fractal de vários aspectos do jogo que mudaram. Há inúmeros outros. Mas a valorização de jogadores que no “futebol antigo” eram tidos, talvez, como ‘desengonçados’  ao correr, passar, driblar e chutar, mas que com um olhar mais criterioso e amplo nos revelam coisas surpreendentemente positivas e complexas é uma das grandes vitórias do futebol tido como moderno.

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O conteúdo construtivo

Dia desses recebi um link de um grande portal de notícias que falava sobre a queda de audiência dos canais por assinatura especializados em esportes. Em época de isolamento social, com os campeonatos paralisados e os atletas em quarentena, e ao passo que crescem as novas mídias e o envolvimento com as redes sociais, era natural que o número de pessoas ligadas na TV diminuísse. Entretanto, a queda deste número nos leva a repensar o futebol enquanto da sua gestão e marketing.

Em primeiro lugar, o conteúdo do futebol é infinito, haja vista o sucesso de audiência dos jogos antigos e todas as discussões que são levantadas em torno das reprises. Análises, reflexões, o que era bom e o que não era. O que podia ter sido feito de diferente e o que não. Percebem-se debates de muito fundamento e que nos dão a oportunidade para um olhar crítico sobre o cenário atual.

Ao mesmo tempo, nos faz refletir sobre as rasas discussões que acontecem na maioria dos programas esportivos nas grandes mídias de massa: rádio e televisão. Debates que não levam nada a lugar algum, que querem prever o futuro, que não analisam, não refletem, só exploram e ficam em cima dos problemas, não propõem soluções e, com isso, não agregam, não constróem, não servem – nos dois sentidos, o de trabalhar em favor de e o de encarregar-se de algo – à sociedade.

É necessário que o futebol, através das entidades de administrações da modalidade (federações e confederação) e das instituições de prática esportiva (clubes), reflitam sobre os seus papéis. Como o futebol quer ser visto? Como os clubes e as federações querem ser lembrados? Geradores da discórdia, da intriga, da malícia, do tráfico de influência e do jogo de interesses? A cada dia notamos mais de tudo isso nas ligações de poder em todos os setores deste país, o que acaba por gerar mais desgosto e ojeriza entre todos. Certamente não querem ser lembrados assim.

 

Garrincha no início dos anos 1960 ao lado de crianças após um treino do Botafogo FR. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Nestes tempos em que tudo está parado é oportunidade para romper paradigmas, pensar diferente e crescer. Seguir adiante e em frente, que é o sentido da vida. É natural. Impossível pensar o Brasil sem o futebol, elemento fundamental na formação da nossa identidade nacional.

Com tudo isso, numa época em que os nossos valores e a nossa nacionalidade estão abalados com tanta intransigência e intolerância, o esporte que tanto amamos possui uma boa parte no dever da recondução para que se construa o país que realmente queremos: justo e sustentável. Que o bom senso e o respeito sejam indiscutíveis e inegociáveis. A partir daí não há dúvidas de que o conteúdo gerado será de muito mais valia, críticos capazes de gerar as inquietações necessárias às transformações que tanto queremos.

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Em tempo, uma citação que se relaciona com esta semana do 21 de Abril:

Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-lo.”
Joaquim José da Silva Xavier, o ‘Tiradentes’ (1746-1792),
rtir da Independência do Brasil e herói da Inconfidência.

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Sobre os jogos do passado e o risco do anacronismo

O Brasil de 1970: um desses times para muito além do anacronismo. (Foto: Divulgação/Reprodução: Daily Maverick)

 
Outro dia, no meu perfil numa dessas redes sociais, escrevi rapidamente sobre este hábito, especialmente cultivado em razão da quarentena, de analisar jogos antigos, de clubes e seleções. É uma questão não exatamente problemática em si: pelo contrário, eu mesmo tenho assistido e produzido algum material sobre alguns desses jogos. Até porque, como disse o Ángel Cappa, treinador argentino, citado lá no Pep Guardiola: A Evolução, “o futebol do futuro está no passado”.
É claro que uma frase dessas acaba sendo capciosa, porque pode sugerir um certo saudosismo – o que não é verdade. Os que leem as coisas que eu escrevo sabem que, a meu ver, muito disso que se chama, às vezes com uma certa ansiedade, de ‘futebol moderno’, pode ser menos ‘moderno’ do que parece, menos ‘evoluído’ do que parece. Pode ser uma mera aparência, uma ressignificação própria deste tempo, às vezes refém de interpretações potencialmente equivocadas. É aqui, aliás, que gostaria de traçar alguns limites nessas análises de jogos do passado.
Basicamente, há dois riscos muito evidentes nessas aventuras: vamos chamar o primeiro problema de problema da profundidade. E vamos chamar o segundo problema de problema do anacronismo. Eles não estão separados.
No caso do problema da profundidade, o que fica subentendido (ou, às vezes, o que é dito literalmente) é que não havia muito conhecimento e, portanto, não havia muita ‘profundidade’ nas análises e no entendimento do futebol que se tinha no passado – como se tudo o que se disse e tudo o que se fez fosse apenas um amontado de crendices e superstições, que não teriam nenhuma validade hoje em dia. Ao mesmo tempo, também fica subentendido que a nova geração de analistas, treinadores e profissionais do futebol em geral, da qual nós supostamente fazemos parte, essa sim estaria preparada com ferramentas adequadas de conhecimento, seria capaz de enxergar mais e melhor do que os ‘antigos’ e, portanto, teria mais ‘profundidade’ no entendimento do jogo em comparação a um passado não muito distante.
Sinceramente, é um raciocínio que me soa pretensioso e absurdo em muitos níveis. Mas gostaria de chamar a atenção especialmente para um ponto: uma das grandes diferenças no processo formativo das novas gerações que trabalham com futebol talvez esteja nisso que chamamos de processos formais de ensino-aprendizagem. Hoje, tanto treinadores quanto analistas de desempenho, preparadores físicos, gestores, jornalistas e curiosos têm à sua disposição cursos e mais cursos formais, nos quais geralmente há uma literatura disponível para pesquisa, registros escritos do que se pretende discutir. Num passado recente, há cerca de vinte anos, isso não era uma prioridade, o saber de treinadores e profissionais em geral era, via de regra, um saber da experiência. O que fica subentendido em algumas dessas análises que não me descem muito bem é que os saberes formais são muito mais importantes e significativos do que o saber da experiência, e que aqueles que se baseiam nas próprias experiências seriam, automaticamente, exemplos de ‘atraso’ e de ‘superficialidade’ (um equívoco enorme, mas não vou me alongar neste ponto por aqui).
É justamente a pretensão decorrente de um ou outro processo formal de aprendizagem, associada com uma certa ansiedade profissional (de mostrar, o mais rápido possível, que não fazemos parte do grupo dos ‘atrasados’), que faz aparecer o segundo problema, que é o problema do anacronismo. Basicamente, o sujeito anacrônico é aquele que alimenta expectativas e projeta cenários de uma dada época para outra. E quando não as encontra, julga a outra época a partir da régua do seu próprio tempo. Isso fica claro quando se diz, por exemplo, que uma equipe X era ‘desorganizada’, que uma equipe Y ‘não tinha amplitude’ ou que um atleta Z foi profissional numa época em que ‘era mais fácil jogar futebol’. É claro que o sujeito que assiste regularmente ao futebol de hoje pode sentir-se desconfortável ao assistir um jogo antigo, como um jovem guitarrista de hoje em dia talvez ache lenta uma melodia do Jimi Hendrix, ou um jovem cineasta ache enfadonho um filme do Ingman Bergman. Mas o problema não está no jogo, nem na música, nem no filme: está no vício adquirido pelos nossos olhos, pelos nossos ouvidos e pelo nosso corpo, demasiado acostumados a certos estímulos, e incapazes de simplesmente apreciar os outros sem julgá-los (erradamente) pela régua do nosso tempo.
Aqui, aliás, está um ponto bastante central, que posso até retomar em breve: é preciso um certo cuidado para não transformarmos impressões subjetivas em supostas verdades absolutas (exemplo: o ‘futebol antigo’ era mais ‘lento’). Se defendermos, como parece que queremos defender, uma superação disso que chamamos de inatismo e disso que chamamos de empirismo, se queremos realmente investir em métodos e pedagogias baseadas nisso que chamamos de interacionismo, então precisamos considerar que o conhecimento se faz na inter-ação, na relação sujeito/objeto, de modo que o olhar e a ação dos sujeitos não devem ser ignorados, mas são determinantes na construção dos nossos conhecimentos. Daí que seja um absurdo, aliás, sugerir que o futebol deve se apoiar somente na ‘objetividade’ – é um entendimento deturpado do que significa construir conhecimento e, na mesma esteira, das atribuições humanas na articulação de conhecimento numa sociedade encharcada de informação, como é a nossa.
Mas sobre isso, falamos em breve.
 

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Força mental no futebol

É possível analisar um jogo de futebol a partir de várias maneiras e pontos de vista. Podemos falar da parte técnica, tática, física, emocional e até social, espiritual e daí por diante. Nunca julgo o que é certo ou errado. Prefiro olhar o que funciona e o que não funciona. Até o que é bonito e feio é relativo pois depende de conceitos pré-estabelecidos por cada um.
Um ponto que para mim tem grande relevância e em vários momentos das discussões é deixado de lado é o aspecto mental do jogo. A personalidade de um jogador, de um técnico e até a personalidade coletiva de uma equipe é fundamental para o resultado final. Em campo se vê o lado mais marcante de cada um. E isso pode ser positivo, mas também negativo. Se é em campo o que se é na vida. Por exemplo, um jogador quando pressionado irá reagir dentro das quatro linhas da mesma maneira que reagirá na vida pessoal quando também estiver pressionado, independentemente da natureza dessa pressão.
Fazendo um exercício prático disso que estou colocando: Romário seria o centroavante que foi se tivesse uma maneira diferente de encarar a vida? Ou ainda Emerson Sheik faria o que fez na final da Libertadores de 2012 pelo Corinthians contra o Boca Juniors se fosse uma pessoa acanhada e tímida? Eu poderia citar inúmeros exemplos, não só esses de reações positivas, mas também outros de jogadores que se apequenam e somem frente a situações-problemas do jogo.
Uma equipe é campeã por inúmeros fatores e o emocional é um deles. Procurar entender o comportamento global de um jogador é fundamental para decidir contratá-lo ou não. Um atleta é bom de fato quando responde de maneira assertiva as situações que para ele se apresentam. Muitas vezes, vai decidir partidas e campeonatos não o que tem o gesto técnico mais apurado e sim aquele que tem uma mentalidade forte e inabalável.
 

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Relacionamentos duradouros

Durante esta época de quarentena é comum este colunista estar à frente da TV, que está por reprisar jogos antigos. É bacana porque o telespectador não se lembra apenas do jogo, mas onde estava, com quem, qual era o contexto e as situações. São incontáveis as recordações que estas reprises despertam. O romantismo vem à tona e são inevitáveis as comparações: que naqueles tempos as coisas eram de um jeito e hoje são de outro.

Para um comunicador do esporte, algo que chama a atenção são as marcas envolvidas no futebol em outros tempos. Não as das placas de publicidade, mas nas camisas dos clubes. Relacionamentos duradouros entre marcas e clubes são vínculos até hoje lembrados e celebrados como exemplos de “marketing esportivo”, mesmo sabendo que isso é apenas uma – muito – pequena parte do que se entende como “marketing esportivo”! Dizem que havia um trabalho de relações públicas por trás disso tudo, blá, blá, blá, tal e coisa, coisa e tal, havia já a ativação, dentre outros instrumentos de comunicação. Feito um exercício de raciocínio, percebe-se que passos mais firmes neste trabalho foram dados no final dos anos 1980. Em outras modalidades, sim, o extinto Banco Nacional valeu-se muito de Ayrton Senna nas ações de comunicação.

Entretanto tudo era muito novo naquela altura e o potencial comercial que o futebol proporcionava era pouco conhecido e explorado, uma vez que estava muito mais sob controle de gestões amadoras e voltadas “pra dentro”, não para o mercado. Estas marcas expostas nas camisas por várias temporadas seguidas – popularmente conhecido como “patrocínio master” – eram sim para exposição da marca e exploração comercial, mas realizados mais através de contatos internos dos próprios clubes do que propriamente um plano estratégico para colaborar com as imagens da instituição esportiva e da marca patrocinadora.

Flamengo e Corinthians de 1993 com patrocinadores exemplos de “relacionamentos duradouros”. (Foto: Reprodução/Divulgação)

 

Com o passar do tempo percebe-se que o interesse neste “patrocínio master” pelo setor privado adquiriu uma nova dinâmica. Está cada vez mais difícil obtê-lo. Levantam-se algumas hipóteses do porquê disso: que o futebol está cada vez mais caro, que o retorno é baixo por conta das possibilidades de comunicação entre patrocinador e patrocinado, além da falta de instrumentos de governança nas entidades esportivas que promovam a transparência necessária para que a empresa saiba onde o recurso financeiro que ela fornece está sendo investido.

Com tudo isso, é muito bonito lembrarmos as camisas e as marcas daqueles relacionamentos duradouros. Entretanto, não nos iludamos que muitos daqueles relacionamentos eram espécie de encontros arranjados, contatos internos dentro dos próprios clubes. A marca da empresa era promovida, mas a do clube, não. Especialistas do amor e conselheiros amorosos dizem que a base da duração em um relacionamento é a confiança mútua. Hoje são raros estes relacionamentos duradouros.

Então alguma coisa tem que mudar.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

De modo algum; nós desafiamos o agouro; há uma providência especial na queda de um pardal. Se tiver que ser agora, não está para vir; se não estiver para vir, será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo: se ninguém conhece aquilo que aqui deixa, que importa deixá-lo um pouco antes? Seja o que for!
Hamlet (Shakespeare)

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Sobre os jogos não assistidos (e as coisas que não sei)

Inglaterra de 1966: um exemplo das (várias) equipes que ainda não vi – mas que também me formam. (Foto: Divulgação/Reprodução: diário Mirror)

 
Foi na semana passada, acho que quarta ou quinta-feira, que me apareceu um dos textos mais bonitos a que tive acesso nessa quarentena: este breve ensaio do escritor espanhol Arturo Pérez-Revarte, publicado aqui no Brasil por este excelente caderno virtual que é o Estado da Arte, do Estadão.
Ao longo do texto, o autor vai desenhando um caminho que lembra não apenas dos livros que leu e que lhe formaram ao longo da vida, mas especialmente dos livros que não leu. Sendo que os livros que ele não leu (e que provavelmente não lerá) foram e são tão importantes na sua formação quanto aqueles que já estão lidos. Repare, aliás, no recorte neste ‘livros que não leu’: não se trata apenas dos livros que sabemos que existem mas que não estão conosco. Na verdade, se trata especialmente dos livros que sabemos que existem, que compramos ou pegamos emprestado (ou qualquer outra coisa), que ficam na nossa biblioteca por dias, semanas e anos e que, mesmo assim, acabamos não lendo.
É mais ou menos o que ele diz aqui:
“Quando compreendi que nunca leria todos os livros que gostaria de ler, e aceitei essa realidade com resignada melancolia, mudou minha vida de leitor. Fez-se mais plena e madura, do mesmo modo em que, na primeira guerra que eu conheci, reconhecer que eu também poderia morrer mudou minha forma de ver o mundo. Os livros que eu nunca lerei me definem e me enriquecem tanto como aqueles que eu li.”
O texto inteiro é muito bonito, mas especialmente essa parte é muito significativa. Não pude deixar de pensar neste período em que todos nós, profissionais do futebol em geral, temos assistido alguns ou vários jogos do passado. Seja como passatempo ou como ferramenta de estudo consciente, nos está sendo dada a chance tanto de assistir a jogos que já havíamos visto (agora, com outros olhos) como também de assistir a jogos e equipes que ainda não havíamos visto, talvez não como gostaríamos, mas que, de alguma forma, fizeram e fazem parte da nossa própria formação. E ainda que nos seja possível viver ou reviver esses momentos, é claro que o tempo de vida que nos resta (aliás, é impossível não reconhecer a nossa fragilidade humana, especialmente neste período sombrio) não será suficiente para assistirmos a todos os jogos ou todas as equipes ou todos os atletas que gostaríamos de assistir. A nossa formação é e será pela metade, nunca será por inteiro e – aqui está o ponto em que devemos nos apoiar – isso não é um problema, mas é precisamente a chave de uma vida com sentido. Afinal, do que vive uma vida já completa?
Se não podemos assistir a todos os jogos, nem ler todos os livros, nem escrever todos os textos, nem conhecer todas as pessoas e, portanto, nem fazer tudo o que gostaríamos de fazer, então o nosso processo formativo, profissional e existencial, não precisa se voltar para um ponto de chegada, para um determinado cais, porque ele acontece no caminho, entremeado, acontece pelo meio. Lendo o ‘Variações Sobre o Prazer’, do Rubem Alves, no dia em que escrevo esta coluna, encontro uma citação do Guimarães Rosa, neste livro estupendo que é o Grande Sertão: Veredas, que traduz muito melhor do que eu isso que quero dizer. “O real não está na saída nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”
Neste período de tanta incerteza, em que seguimos em frente sem muita convicção, talvez seja importante admitirmos este outro lado, e inclusive procurar a beleza nele, pois nós não nos fazemos e não nos faremos (no futebol ou em qualquer outro lugar) somente pelas coisas que temos conosco – o que temos, afinal, é muito pouco. As coisas que sabemos são muito breves perto da infinitude do saber, a nossa grandeza às vezes é muito mais compridez (o Fernando Pessoa disse algo assim, não?) e talvez o nosso peso seja breve perto do peso do mundo. Mas veja bem: isso não é motivo de lamento! É motivo de profunda admiração. As coisas que eu não sei me fazem tanto quanto as (poucas) coisas que eu sei. Se soubesse mais, talvez eu seria menos.
E admirando o que nos falta, talvez encontremos a nós mesmos.
 

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O atraso do futebol brasileiro

No futebol contemporâneo, globalizado e acessível a todos que queiram aprender e evoluir, as informações e tendências circulam muito rápido. Com uma pouca pitada de esforço e curiosidade é possível acompanhar o que os melhores treinadores do mundo fazem e criam. Mas mesmo assim, o futebol brasileiro ainda evolui em um ritmo muito lento se comparado aos demais. Talvez porque a grosso modo ainda não tenhamos tanta curiosidade. Ou podemos ter sede de aprender, mas não beber das fontes corretas de conhecimento, aquelas realmente capazes de fazer nosso futebol melhorar. Podemos, em algum momento, ter a dose certa do desejo de aprender, adquirir conhecimentos válidos, porém pecar na interpretação e implementação dessas informações. Enfim, mesmo com um nível absurdo e inédito de conhecimento disponível, o nosso futebol parece estar sempre defasado ao que de melhor acontece na elite mundial.
Claro que tudo isso se dá por muitos fatores. Mas tenho observado alguns que tem me chamado a atenção. Há alguns anos passamos a devorar a literatura portuguesa, por exemplo. Entretanto com um pouco de atraso. Quando José Mourinho explodiu no cenário mundial obras e mais obras foram produzidas a respeito das ideias e principalmente da metodologia que ele usava para transporta-las do treino para o jogo. Só que esse atraso, somado a dificuldade até natural de absorver uma nova forma de enxergar complexamente o jogo e adaptá-la as especificidades do cenário brasileiro, fez com que não acompanhassemos essas tendências em tempo real.
Na prática, ainda estamos falando de modelo de jogo, princípios e sub-princípios de ataque, defesa e transições, sendo que a nata do futebol mundial está em um outro patamar. Ao passo que ainda tentamos enxergar no jogo amplitude, profundidade, compactação e etc, os melhores técnicos do mundo trabalham do indivíduo para coletivo. Explico: o foco hoje está em formar jogadores mais inteligentes, que resolvam os problemas do jogo com a máxima eficácia e menor gasto de energia possível.
Outro exemplo: estamos falando muito de intensidade. Equipes intensas, defesas intensas, ataques intensos e etc. Sendo que para nós intensidade ainda quer dizer correr muito; só olhamos para o aspecto físico do jogo. Porém o alto nível mundial fala de intensidade complexa, em que a parte física está aliada a técnica, a tática e a cognitiva. Um time intenso não precisa necessariamente correr mais do que o outro. Um jogador intenso não é o que mais se desgasta. Ou para você Lionel Messi não resolve os problemas do jogo na mais alta intensidade técnica e mental mesmo sendo um dos jogadores que menos corre em campo?!
Se falo tanto em complexidade não posso pontuar que se melhorássemos só em alguns pontos teríamos o melhor futebol do mundo. É sistêmico, multifatorial. Todavia, se nossos treinadores, auxiliares técnicos e preparadores físicos pudessem acompanhar em cima da pinta o que se faz na elite e tivessem já um conhecimento prévio adquirido para implementar e fazer uma réplica no nosso futebol, claro respeitando nossas especificidades e características, já estaríamos dando um bom passo para a evolução.
 

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O futebol e o futuro

Dizem que o mundo não será mais o mesmo com a pandemia da COVID-19. O futebol também não. Em um primeiro momento os gastos deverão ser contidos, menos pessoas frequentarão os jogos, menor será o consumo. A indústria do futebol terá o trabalho de manter e cativar o público que possui em vez de procurar aumentar a sua base de torcedores. Tudo bem que o futuro é incerto, mas não é o apocalipse. Questão de se reinventar.

Nesta quarentena este colunista viu a série “The English Game”, em exibição por determinada plataforma de serviços de filmes e séries por streaming. Recomendo fortemente, inclusive. Somos tão – e a cada dia mais – apaixonados por futebol que nos esquecemos que é uma criação relativamente recente dentro de uma linha do tempo. Um piscar de olhos de 160 anos, muito pouco dentro da história. O que reserva o futuro da modalidade? E-sports? Super atletas? Futebol “Disneyficado”[1] ou a escalada do futebol de bairro, comunitário, fenômeno que acontece atualmente no Reino Unido?

Em outro momento de reflexão este colunista lembrou-se de quando ficou por minutos a observar um cartaz com a foto aérea da modernização do estádio do Beira-Rio para a Copa do Mundo de 2014. Parecia o Coliseu, em Roma e fez lembrar das aulas de história, quando se dizia que lá aconteciam as corridas de brigas – entre outras coisas menos esportivas – que arrastavam as multidões. Aquilo durou séculos e certamente quem viveu aquele tempo deve ter imaginado que aquilo não acabaria.

Foto: Reprodução/Divulgação

 

Não quero que o futebol acabe. E não vai.

Se a modalidade for trabalhada com propósito, com a devida responsabilidade que possui em relação à sociedade e à formação de cidadãos, com respeito ao atleta e aos torcedores, o futebol sempre terá algo de bom para proporcionar. Em tempos de pandemia – sem ser romântico ou demagogo – observa-se (oxalá esteja correto) mais respeito e cuidado para com o próximo. Seja em relação à saúde, mas também na tolerância em relação às crenças e costumes. Sem esta diversidade a humanidade não avança, uma vez que novos pontos de vista e maneiras diferentes de pensar não surgem. Precisamos do outro para sermos pessoas melhores, e vice-versa. O futebol é sim capaz de ser um manancial dos bons exemplos que o mundo precisa, a partir do momento em que o indivíduo tiver em mente agir com bom senso e discernimento. Cada vez mais raros, não é mesmo?

Com tudo isso, quando tudo isso passar, certo que os calendários terão que ser ajustados, adequados e de certa forma, transformados. Mas antes que tudo isso seja feito devemos perguntar como queremos o futebol e o que queremos do futebol. Fuga da rotina? Válvula de escape? Oportunidade de negócio? Identidade, representação e pertencimento? As incertezas continuarão, mas não significarão o fim. Vai ser preciso se reinventar e vai ter que ser pra melhor.

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Em tempo, mais uma citação que se relaciona com o tema da coluna:

“Na luta não importa o tamanho do cão, mas o tamanho da luta no cão.
Archie Griffin

 

 


[1] “Disneyficação do futebol: termo utilizado para caracterizar os grandes conglomerados empresariais que possuem clubes de futebol pelo planeta, em analogia à “Disney World” e seus parques temáticos filiais no mundo;

 

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A evolução do jogo no Brasil

O futebol brasileiro está na segunda divisão mundial. E se não abrir os olhos o quanto antes para a evolução será rebaixado para a terceira. E quando cito o futebol brasileiro me refiro a todos os seus ‘players’: gestores, treinadores, preparadores, jogadores e porque não falar de torcida e imprensa. Estamos atrasados na maioria dos aspectos dentro e fora de campo se compararmo-nos com a elite mundial. Mas quero nesse texto me fixar mais em alguns pontos de dentro das quatro linhas, mesmo sabendo que é difícil separar ‘campo e bola’ da gestão.
A discussão por aqui ainda está presa a esquema tático. Valorizamos e damos ênfase a disposição dos jogadores no espaço de jogo: falamos de 4-4-2, 4-3-3, 3-5-2 (obs: me permito aqui cometer o erro de não colocar o número 1 antes da primeira linha, pois infeliz e erroneamente não contamos o goleiro nesse dito ‘esquema’). Ao fixarmos um time em posições pré-determinadas não estamos sendo fiéis ao que de fato acontece em um jogo. Por exemplo, no mais alto nível são as transições (ofensivas e defensivas) que compõem boa parte das ações. E nelas é impossível visualizarmos esses esquemas táticos tradicionais iniciais e engessados que ainda tanto falamos no Brasil.
Para evoluirmos temos que pormenorizar as ações individuais e coletivas. Em grandes clubes europeus já há muitos anos a discussão está em como ganhar micro-segundos com e sem a bola, em como gerar situações de vantagens numéricas e qualitativas para defender e atacar, criar treinamentos que melhorem a posição corporal do jogador para dar e/ou receber um passe, desenvolver a inteligência do jogador para tomar melhores decisões, fazer com que os atletas consigam resolver os problemas do jogo com os dois pés e outras pequenas partes do jogo que estão em um nível extremamente avançado.
Não devemos rasgar o que já fizemos no Brasil. No ‘futebol antigo’, fomos bem sucedidos. Entretanto, é necessário olhar para o mundo e ver o que se faz entre os profissionais que mais se destacam atualmente. Para termos resultados novos precisamos também de atitudes novas. Definição de insanidade para mim é fazermos as mesmas coisas e esperarmos resultados diferentes. Não sei se você tem percebido, mas o mundo mudou. E o futebol também…
 

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Sobre a digestão no futebol em tempos de pausa

Hungria de 1954: em parte, nascida da reflexão sobre os saberes disponíveis. (Foto: Reprodução/Divulgação: goal.com/Getty Images)

 
Outro dia, o Jonathan Wilson (que escreveu, dentre outros livros, o conhecido ‘A Pirâmide Invertida) publicou um artigo interessante, no qual ele discute, desde o título, como a quarentena oferece um tempo fundamental para a inspiração de treinadores e treinadoras. Ele cita como exemplo Marton Bukovi, treinador húngaro do século passado, que teria criado o que chamamos hoje de falso nove justamente durante a Segunda Guerra Mundial.
Para muita gente, este é um período de atualização, ou mesmo de reciclagem. Sinceramente, não sou muito chegado no verbo atualizar (porque nem eu e nem vocês somos softwares), assim como não sou muito chegado no verbo reciclar – nem eu e nem vocês somos resíduos. Das palavras disponíveis, embora me agrade falar de inspiração, também acho que podemos falar de reflexão. Este é um período em que podemos muito bem refletir sobre os nossos saberes profissionais, sobre as coisas que nós sabemos e, principalmente, sobre as coisas que não sabemos (que são em maior número, afinal).
Deixem-me falar um pouco melhor sobre isso.

***

Na minha pesquisa de mestrado, que estou prestes a terminar, tenho estudado justamente o processo de construção das filosofias de treinadores de futebol. A meu ver, este período de quarentena permite exatamente isso, refinar as nossas próprias filosofias. Assim como um carpinteiro talha a madeira, às vezes indefinidamente, em busca da perfeição, me parece que assim devemos nós tratar as nossas próprias filosofias. Aliás, este é um dos motivos porque tenho usado a palavra filosofias, no plural: estou convencido de que não é um processo singular, que uma filosofia estática e fechada não dá conta da complexidade da vida e que a construção de filosofias profissionais anda de mãos dadas com a vida que se vive, o que significa que, enquanto há existência, haverá filosofias.
Como filosofia, tenho adotado um conceito apresentado pelo francês Andre Comte-Sponville, na introdução de um livro chamado Apresentação da Filosofia. Ele diz, textualmente: ‘A filosofia não é uma ciência, nem mesmo um conhecimento; não é um saber a mais: é uma reflexão sobre os saberes disponíveis. É por isso que não se pode aprender filosofia, dizia Kant: só se pode aprender a filosofar.’
Me parece que com esse conceito podemos ir longe. Chamo a atenção, especialmente, para essa parte que diz que fazer filosofia não significa saber a mais. Basta olharmos à nossa volta (e olharmos no espelho) e veremos o quão ávidas e ansiosas as pessoas estão para saber cada vez mais, como se os saberes que nós carregamos conosco sempre fossem inadequados e insuficientes, mas também como se funcionassem como uma conta bancária, que será (supostamente) tão melhor quanto mais zeros tiver. Mas, na ânsia de acumular conhecimentos, nós nos esquecemos, como escreveu certa vez o Nietzsche, dos riscos da taça que acumula demasiado mel. Ou, se você preferir uma analogia do Schopenhauer, brilhantemente colocada no livro A Arte de Escrever, de nada adianta empanturrar-se de conhecimentos (de futebol ou de qualquer outra coisa) se não nos dermos o direito de digerirmos. A comida mal digerida pouco acrescenta ao corpo. As leituras mal digeridas, ou que não degustamos com a devida atenção, não nos fazem nada, saímos delas do mesmo jeito que entramos. A quantidade não basta.
Digerir, neste caso, pode muito bem significar refletir. Mas de novo, não é exatamente refletir sobre coisas novas, mas fazer como novas as coisas que estão mofando em nós mesmos: refletir sobre os saberes disponíveis! Neste período podemos retrucar a nós mesmos, encontrar as lacunas do nosso próprio modelo de jogo, dos nossos próprios métodos de treinamento, das nossas próprias análises de desempenho, das nossas próprias relações com os atletas e os profissionais que nos cercam. Se você preferir (e aqui recorro novamente ao Nietzsche, numa alusão que está no livro Sociedade do Cansaço, do Byung Chul-Han), este momento, na medida do possível, permite a contemplação, exercer a vida contemplativa, suspender os pensamentos. Não um momento de produtividade doentia, não um momento de explorarmos a nós mesmos, não é disso que se trata: é um momento em que, aos que podem, é dado do direito de parar, sentir a passagem do tempo, sentirmos a nós mesmos e, exatamente por isso, refletirmos sobre as coisas que sabemos e – de novo – sobre as que não sabemos. Outro dia, lendo um ótimo artigo do professor Desidério Murcho, me senti persuadido a admitir que, do ponto de vista lógico, é claro que as chances de estarmos equivocados sobre qualquer assunto são bem maiores do que as chances de estarmos inteiramente certos – não existem argumentos irrefutáveis, afinal.
Assim como vários colegas, tenho aproveitado as horas livres para assistir alguns jogos antigos. Outro dia mesmo, assisti a Real Madrid x Barcelona (2×6), de 2009, o jogo em que Lionel Messi foi de fato apresentado ao mundo como… falso nove! É muito interessante perceber não apenas o estrago que os seus movimentos fizeram na defesa do Madrid, especialmente nos zagueiros (Cannavaro e Metzelder, salvo engano meu), mas também como mesmo o jogo de posição mais ortodoxo talvez precise de pelo menos uma ponta solta, de um elo livre que circule por diversas alturas do campo, criando superioridades no setor da bola e atraindo a marcação para espaços valiosos. Talvez o exemplo definitivo disso esteja precisamente num outro jogo do Barcelona, a final da Champions League de 2010/2011, contra o Manchester United, em que o FCB jogou num nível de fato superlativo e Messi transitava tranquilamente por zonas muito mais baixas do campo.
Mas perceba que assistir jogos ou lives nas redes sociais, ou ler outros livros e artigos, ou escrever outras coisas, não precisam ser atividades que fazemos para empilhar conhecimentos. Devemos fazer nos relacionando com as coisas, construindo ativamente, de criarmos afinidade com o jogo a que assistimos, o livro que estamos lendo, as coisas que escrevemos, o modelo que construirmos (que nunca estará pronto), os nossos comportamentos em transição defensiva, os nossos procedimentos de recuperação e prevenção de lesões, enfim: não é uma questão de saber mais, é uma questão de saber melhor. Saber melhor sobre os saberes que não sabemos, mas também e especialmente saber melhor sobre os saberes que já sabemos – são esses os que nos dão as maiores rasteiras.
Por fim, reparem como este tempo de pausa no futebol escancara as bizarrices dos calendários em geral. Não é possível exigir do profissional do futebol que tenha tempo e condições de refletir com qualidade quando há jogos em cima de jogos, viagens em cima de viagens, críticas em cima de críticas (via de regra, sem muito fundamento). Some a isso o fato de que profissionais do futebol (e do esporte, em geral) são pessoas absolutamente normais, com uma vida normal, com família e amigos e responsabilidades particulares, e é claro que as horas do dia não serão suficientes para pensar com qualidade (e isso não se restringe ao futebol, diga-se) No calendário, segue a lógica da digestão, de que falamos acima: estamos empanturrados e comendo.
E a indigestão, como se sabe, talvez não seja exatamente amiga da inspiração.