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Integrando o atleta ao grupo

Um fato comum nas equipes de futebol profissional, principalmente no Brasil, é a entrada de novos atletas no elenco no decorrer das competições esportivas. Sabemos que a chegada de um novo membro em qualquer equipe é sempre importante e valiosa, porém ela pode causar impactos no grupo e isso se amplifica quando em casos em que este atleta que chega é um jogador de sucesso na carreira e com trajetória internacional.

Sobre este acontecimento muitos clubes podem passar por dificuldades e existem ocasiões em que a equipe chega a perder performance quando novos atletas chegam no decorrer das competições. Em situações assim, sempre nos perguntamos “o que fazer”?

Acredito que um importante desafio, além da questão tática e técnica, está em conseguir integrar esses novos membros num grupo que já possui um espírito colaborativo instalado.

Neste ponto, reforço a questão de que dificilmente conseguimos um grupo vencedor que conviva num ambiente de discórdia ou de conflitos permanentes. Ao se inserir novos membros num grupo, obviamente os conflitos acontecerão eventualmente, mas se a tensão permanecer no grupo por algum motivo poderá ocorrer o rompimento do espírito de equipe já instalado e, com isso, com certeza o desempenho esportivo cairá consideravelmente.

É importante percebermos que a cada comentário ou atitude de um atleta, sendo ele novo no grupo ou não, tem potencial para afetar o espírito de equipe, seja de forma positiva ou negativa. Atitudes positivas potencialmente ocasionam sempre coisas boas para o grupo e atitudes negativas geram coisas ruins. Sendo assim, todos os membros de uma equipe precisam reconhecer essa verdade, principalmente os novos integrantes.

Por este motivo, imagino que seja importante ressaltar que se pudéssemos traçar uma primeira meta para este momento de inclusão, esta seria a meta de não prejudicarmos os desempenhos individuais dos membros do grupo, para então posteriormente podermos evoluir em direção de uma meta comum a ser alcançada pelo grupo. Ter base comportamental para se buscar atingir essa meta comum, significa para o grupo que todos conseguirão levar uma perspectiva positiva para suas atuações individuais e projetar um espírito positivo sobre os demais membros da equipe.

Todos os atletas que por acaso não estiverem preparados mentalmente para se concentrar nos aspectos positivos dos demais, pelo menos podem evitar ser negativos. Desta forma, o atleta evita se tornar involuntariamente um obstáculo no caminho das metas da equipe (definidas anteriormente ou no momento de sua chegada) contribuindo assim para que se alcancem grandes resultados em equipe.

Com isso estabelecido, chega-se o momento de fortalecer o posicionamento da missão da equipe em primeiro lugar, quando o respeito está estabelecido e todos estimulam e apoiam os talentos individuais e comportamentos positivos que quando somados criam um grupo coeso e maduro em busca de objetivos comuns.

Para isso acontecer na prática é necessário procurar desenvolver o espírito de equipe, proporcionando que os atletas possam buscar as boas qualidades dos demais atletas que compõem esta equipe mutuamente, ouvindo os companheiros, respeitando os sentimentos e contribuições de cada um deles, aceitando as diferenças e aceitando ajudá-los. Podemos chamar isso de harmonia entre os membros de um grupo e este é fator que contribui para a obtenção de um melhor desempenho.

E você, amigo, concorda que os clubes devem cuidar da integração de seus novos atletas em suas equipes?

Até a próxima! 

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Ligas esportivas no Brasil: O que precisa mudar para desenvolver?

O sucesso recente de algumas ligas esportivas estrangeiras no Brasil chama a atenção por duas razões principais. A primeira é a quebra de um mito, de que somos um mercado frágil economicamente e, portanto, não teríamos condições de trabalhar uma plataforma de negócios ligada a ligas esportivas com o nosso público. Vira mito pela constatação deste interesse crescente das ligas em avançar com novos negócios dentro do mercado brasileiro.

O segundo é que o nível do debate sobre o tema precisa melhorar muito para que possamos construir um mercado sólido para o esporte de competição dentro do país. Ainda não construímos uma Liga Esportiva, na acepção da palavra! É neste sentido que elenquei 5 pontos principais de reflexão que poderão contribuir com o desenvolvimento de projetos sólidos e sustentáveis no Brasil.

Para ler a coluna na íntegra, basta clicar aqui

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O Desporto tem violência, mas não é violento!

O desporto, mormente o futebol, é o fenômeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo (perdoem-me repetir tantas vezes esta frase!). Por isso, estudar e praticar o desporto permitem-nos uma convivência íntima com o “fato social total” (Durkheim). Num ponto, no entanto, poderemos todos convir: o desporto manifesta-se como um ritual de “violência simbólica”, ou de “guerra simbólica” e daí o ser uma prática que civiliza, que socializa, que procura limitar e canalizar, pelas regras que o distinguem, a agressividade que há dentro de nós, pois que o Homem é, de fato, o mais feroz de todos os animais, como as guerras o provam exuberantemente.

Por outro lado, todas as religiões têm uma tradição de violência: os budistas, os cristãos, os muçulmanos, os judeus, etc.; a ideologia bélica e tribal dos clubes, as “tropas de choque” que se destacam das claques organizadas – muitas são as formas de conflito que podem despontar do espetáculo desportivo. Muitas são as vezes (e cito agora palavras de José Gomes Ferreira) que o futebol “sangra o desespero do mundo”. Relembro os meus tempos de criança e de rapaz, quando os meus ídolos se chamavam “torres de Belém” e o Amaro e o Quaresma e o Rafael e o Matateu e o Di Pace e o José Pereira, o “pássaro azul”. Eram os meus ídolos, ou seja, as figuras número um das minhas predileções, se bem que o Peyroteo me despertasse um respeito que eu não sabia explicar. Um dia, perguntei ao Feliciano, defesa-cenreal do Belenenses: Como é que travava o Peyroteo? E ele, sem restrições e sem medo: “Quando o travava, era à porrada!”. E acrescentava, com palavras que tinham, para mim, uma inapagável ressonância: “Aquele gajo só à porrada se podia travar”. E eu ficava a pensar que o Peyroteo, temível rematador do Sporting Clube de Portugal, o mais alto e o mais forte dos “cinco violinos”, tinha dotes sobrenaturais. Ele foi um desses homens raros que se fez futebolista só para fazer sofrer a malta do meu tempo, que reinava, em Lisboa, nos reinos da Ajuda e de Belém. Nem ao almirante Gago Coutinho, que via subir vagarosamente a Calçada da Ajuda e que ligara, por via aérea, Portugal ao Brasil, nem ao Gago Coutinho, a pessoa mais importante que eu conheci “in illo tempore”, eu votava tamanho culto. Anos mais tarde, a Beatriz Costa confidenciou-me que foi o “senhor almirante” que a ensinou a ler…

Nietzsche publicou, em 1848, a genealogia da moral, onde se lê que “a história do homem é a história do seu fracasso” – fracasso que provoca inevitavelmente humilhações, ressentimentos, ódio e, como etapa última, a violência. São portanto (se o Nietzsche tem razão) humilhados, ressentidos, predispostos à violência alguns dos “agentes do futebol”. Contudo, observa-se, hoje, no desporto, um esforço constante, no sentido de promover a racionalidade, o senso crítico, a reflexão, a ética mesmo, no meio da lei da concorrência pela concorrência que o envolve e condiciona. E até da manipulação ideológica, quase sempre intolerante! São vários os fatores que fazem da nossa sociedade uma sociedade criminogénica: a exploração do homem pelo homem, o tráfico de droga, a prostituição e a criminalidade organizadas, a violência gratuita, a competição apresentada como a categoria estrutural do ser humano. Enfim, fatores suficientes para que o desporto que dela nasce seja tentado, aqui e além, a ser também “lobo do homem”. Elemento de um sistema que funciona sem outro objetivo do que a performance e o lucro, é o “vazio existencial” (V. Frankl) o que dele pode resultar. Por isso, há necessidade de um novo progresso desportivo, de um novo crescimento desportivo, de uma rutura com muito do que é passado e presente, no Desporto, que leve à emergência de novos possíveis e ao surgimento de um desporto de rosto humano. Para tanto e porque o Desporto não é, unicamente, uma Atividade Física, porque é verdadeiramente Motricidade Humana, ou seja, o Homem em movimento intencional – que se tente reencontrar, na prática desportiva, as dimensões humanas perdidas, designadamente a transcendência, que não é física tão-só, porque se refere ao humano na sua integralidade, incluindo o que nele é poesia e profecia e amor. O postulado da primazia da razão, donde surge o homem unidimensional em que o espírito se reduz à inteligência, dando ao olvido a fé, a poesia, o amor – parece definitivamente sepulto e não só pela filosofia, pelas ciências também.

No entanto, devemos reconhecer que resplende, nas regras e normas que regulam a prática desportiva, um laço intrínseco e inquebrável com a Ética, enquanto “matriz de bons costumes, boas práticas e um referencial de valores humanos, nos domínios do desporto”. O Código de Ética Desportiva, editado pelo Plano Nacional de Ética no Desporto (IPDJ-SEDJ), bem documenta e justifica a necessidade da ética, no desenvolvimento do Desporto: “Falar de ética no desporto é centrarmo-nos em valores que deverão estar presentes na orientação dos praticantes, em todos os agentes desportivos e no movimento associativo, de forma a que o desporto se possa constituir como um verdadeiro fator educacional, de integração e inclusão social, contribuindo para o desenvolvimento de todas as potencialidades humanas e consciencialização de todos os agentes que se relacionam quanto à respetiva responsabilidade, na observência de comportamentos leais e que possam servir de modelo positivo para os mais jovens”. E assinala que “são destinatários do presente Código todos os agentes que, de alguma formas, se relacionem com o desporto, taos como: praticantes, treinadores, árbitros, juízes, profissionais de saúde, dirigentes, jornalistas, educadores, encarregados de educação, entidades desportivas, empresários, espetadores e adeptos. Sendo certo que, na sua essência, os princípios da ética são transversais a todos os agentes do desenvolvimento desportivo” (pp. 9-10). Daqui se infere que o treino e as aulas da chamada educação física não deverão reduzir-se a conhecimento. De fato, a educação e o treino precisam do conhecimento, para poder inovar, mas não precisam menos de ética, para que o saber fique ao alcance de todos os excluídos. Na Sociedade do Conhecimento da Era da Informação, que é a nossa, ser excluído é ser, antes do mais, excluído do conhecimento. As ditaduras não temem o poder do desporto, mas dos desportistas que sabem pensar, quero eu dizer: que sabem descobrir, no analfabeto, o resultado da sociedade injusta. O Código de Ética Desportiva, atrás citado, só poderia publicar-se numa sociedade livre e democrática porque, nele, nem todo o conhecimento é absorvido pelas ciências, ou pelas ordens governamentais. Há, nele, saber e sabedoria e a vontade de uma frontal rejeição da &ldqu
o;colonização do mundo da vida” (Habermas).

A violência é uma constante estrutural ao longo da História? Mas não o é, no desporto. Nem estrutural, nem estruturante. “As práticas de violência, no universo das modalidades esportivas, existem, sim, contudo são mais de caráter pontual do que essencial (…). Em outros termos, pode-se dizer que são ocorrências secundárias – embora dignas de nota e a exigir providências das autoridades competentes – e não acontecimentos principais, ou seja, circunstâncias que definem a natureza, a lógica e o sentido da atividade” (Mauricio Murad, a violência e o futebol- dos estudos clássicos aos dias de hoje, editora FGV, Rio de Janeiro, 2007, pp. 170/171). Rendo homenagem sincera a todos os que, na alta competição, na educação ou no lazer fazem do desporto um modo de sermos-uns-com-os-outros, uma prática verdadeiramente necessária ao homem (e à mulher) do nosso tempo. Por amável convite do Dr. Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, assisti ao Football Talks 2015, onde revi e voltei a abraçar Manuel José (que no futebol egípcio, deixou indestrutível prestígio), João Alves (o das luvas pretas, lembram-se?), o Dr. David Sequerra (o selecionador campeão do primeiro europeu de juniores), o Dr. António Oliveira, João Pinto, João Vieira Pinto, Manuel Jesualdo Ferreira, José Augusto e António Simões (dois antigos jogadores da melhor equipa que eu conheci, no futebol benfiquista e no futebol português), enfim uma sucessão fulgurante de figuras inesquecíveis do nosso futebol. E todos, fosse qual fosse a sua cor clubista, pareciam irmanados por um mesmo sentimento de amiga compreensão e tolerância. Todos. Sem exceção. Numa preciosa lição que os desportistas autênticos sabem dar… 

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Silêncio

O uruguaio Alcides Ghiggia conviveu com o silêncio por exatos 65 anos. Morto na última quinta-feira (16), ele era o último remanescente da partida decisiva da Copa do Mundo de 1950. Foi o autor do gol que deu à equipe celeste a vitória por 2 a 1 sobre o Brasil e calou um Maracanã abarrotado.

Ghiggia é um dos protagonistas do documentário “Dossiê 50: Comício a favor dos náufragos”, lançado em 2013 pelo jornalista Geneton Moraes Neto. A obra é resultado de anos de pesquisa e apuração – as primeiras entrevistas foram feitas em 1986! – e tem momentos memoráveis. Um deles é uma conversa com o algoz brasileiro, realizada em 2013.

“O silêncio causou um impacto muito grande. Eu achava que a torcida brasileira ia encorajar a seleção para que o Brasil pudesse empatar, mas o que a torcida fez foi um silêncio enorme. Somente três pessoas silenciaram o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu”, narra Ghiggia no documentário.

Na entrevista, o uruguaio revelou que foi proibido pela mulher de ouvir a narração do gol que havia marcado em 1950 e que evitava o assunto quando encontrava brasileiros que haviam disputado aquela partida: “Nós falávamos de tudo, menos de futebol. Por quê? Por uma questão de respeito”.

As palavras de Ghiggia mostram o quanto o silêncio tem sempre o que contar. No primeiro caso, da reação após o gol, foi essa a maior demonstração do quanto aquele lance abalou o público que estava no Maracanã. Num esporte tão dependente de 100% de desempenho em valências diferentes, o abalo emocional provocado por aqueles instantes atônitos é incalculável.

Como Ghiggia mostrou, porém, o silêncio não é apenas uma reação de quem sentiu um duro golpe. Também foi assim que o uruguaio conseguiu demonstrar respeito aos brasileiros, que foram “vítimas” dele em 1950 e tiveram de conviver até o fim da vida com essa frustração.

De uma forma ou de outra, o fato é que o silêncio sempre tem algo a dizer. Em qualquer processo de comunicação – sobretudo em ambientes passionais como o esporte –, entender isso é uma parte nevrálgica no processo de construção.

Aqui cabe um paralelo com o cinema. Nas grandes obras, os silêncios contam partes relevantes da história. Ou então, quando a intenção é provocar silêncio no público que assiste a um filme, também há uma estratégia por trás disso.

A diferença é que o roteiro de uma partida de futebol é construído durante 90 minutos. Existe um altíssimo grau de imprevisibilidade, e as reações ainda são influenciadas pelo aspecto passional do esporte. Por isso, existe uma necessidade maior de preparação prévia. O silêncio pode acontecer em qualquer momento e por diferentes motivos, mas deve sempre haver um planejamento para isso.

Volto a dizer: o esporte é um ambiente que exige um altíssimo grau de eficiência. Numa seara assim, é até impensável admitir que as reações do público não sejam planejadas, direcionadas ou controladas. A relação puramente passional do público é bonita e é tradicional, mas as pessoas que trabalham com comunicação precisam aprender urgentemente a influenciar isso.

Em esportes menos populares, com dinâmica menos passional, isso já acontece com alguma frequência no Brasil. Influência das ligas norte-americanas, o país tem pessoas e dinâmicas preparadas para dar à torcida o clima adequado a cada momento de um jogo. O futebol, no entanto, ignora totalmente o peso que isso pode ter no desempenho técnico.

As pessoas que trabalham com comunicação no futebol precisam urgentemente adotar uma postura mais ativa. Passamos da época de admitir que tudo aconteça de forma orgânica, sem direcionamento algum. Enquanto sonharmos com isso, estaremos sempre sujeitos a diretrizes espúrias. Ou você acha que não existe nenhum interesse por trás de críticas, vaias ou elogios advindos das arquibancadas?

A questão é que o futebol – no Brasil, principalmente – faz pouco para controlar as reações. Nosso modelo de comunicação na modalidade ainda é extremamente reativo, mais focado no controle de crises do que na possibilidade de evitá-las. É assim também com os jogadores, aliás: em vez de orientá-los e controlar o que eles falam, lidamos com a repercussão das polêmicas.

Foi assim com o atacante Fred, que foi extremamente mal educado com um repórter do canal fechado Sportv depois da derrota para o Vasco no último domingo (19). Foi assim também com o meia Paulo Henrique Ganso, que errou em dois momentos (criticou abertamente o zagueiro Lucão no intervalo da partida contra o Atlético-PR e reclamou ao ser substituído pelo técnico Juan Carlos Osorio diante do Coritiba). A lista é grande, mesmo se ficarmos apenas nos exemplos recentes.

Comunicação não é apenas sobre o que você ouve ou percebe. Comunicação também é um trabalho constante para criar assuntos e direcionar alguns comportamentos. Em livros sobre entrevistas, é comum que esse trabalho seja comparado com uma dança. Deve ser assim também a relação com todos os agentes envolvidos em um evento do tamanho de um jogo de futebol profissional.

Enquanto não estivermos prontos para influenciar jogadores, torcedores, dirigentes e todas as outras pessoas que trabalham numa partida, vamos seguir convivendo com silêncios e barulhos desmedidos.

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A volta da cerveja aos estádios

Um ano após a Copa do Mundo, a polêmica sobre a venda de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol persiste. A Bahia puxou a fila com a criação de Lei que autoriza e regulamenta a venda da cerveja nos estádios de futebol. O Rio Grande do Norte acompanhou. Na última semana, o estado de Minas Gerais seguiu o mesmo caminho.

Sob o ponto de vista técnico, chama a atenção o fato de se criar uma lei para autorizar o que não é proibido, o que afronta a Constituição brasileira, pois a Carta Magna estabelece que ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer algo, salvo em virtude de lei e não há qualquer proibição legal para a venda de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol.

A atual proibição da venda de cerveja é fruto da interpretação equivocada de dispositivo do Estado do Torcedor que estabelece a proibição do torcedor nos estádios portando objeto ou substância que cause violência. Assim de inexistir qualquer proibição para a sua venda, não há qualquer estudo que comprove que a cerveja cause violência.

Pelo contrário, estudo realizado na Inglaterra ((PEARSON & SALE “‘On the Lash’: revisiting the effectiveness of alcohol controls at football matches” in: Policing & Society, Vol. 21, No. 2, June 2011.) aponta sérios problemas causados pela proibição:

1) Os torcedores aumentam a quantidade ingerida de bebida antes de entrar no estádio e passam a ingerir bebidas mais fortes;

2) Os Torcedores entram no estádio em cima da hora do jogo, dificultando o esquema de segurança e gerando tumulto;

3) Os torcedores se concentram –se nos bares arredores, aumentando a chance de encontro entre torcedores rivais, em espaços sem esquemas de segurança.

4) Há grande concentração de público na entrada em cima da hora do jogo, gerando: Aumento de filas; Aumento de catracas utilizadas; Aumento de custos; Aumento de tumulto e violência no acesso ao Estádio;

5) Estádio perde receita (restaurantes, lojas, eventos antes do jogo…);

6) Torcedor consome ainda mais bebida, com maior velocidade, inclusive bebidas quentes, sabendo que a bebida é proibida dentro do estádio;

7) Pessoas circulando na rua, dificultando o tráfego e o acesso ao estádio

Vale dizer que não há venda de bebidas alcoólicas nos estádios brasileiros há alguns anos (em MG desde 2008) e a violência além de não diminuir, aumentou. Ademais, a Copa do Mundo foi um exemplo demasiadamente claro de que não existe qualquer incompatibilidade entre cerveja e futebol.

O retorno das cervejas aos estádios proporcionará geração de empregos, de renda e aumentará o faturamento dos clubes. O futebol inglês comprova absolutamente isso.

Portanto, apesar de desnecessária as Leis da Bahia, do Rio Grande do Norte e agora de Minas Gerais possuem importante papel no fim da demonização da venda de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol. Espera-se que, neste momento, o governador mineiro sancione a lei e que este movimento em prol do retorno das cervejas aos estádios de futebol se alastre pelo país. O torcedor e o futebol só tem a ganhar. 

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A importância de falar com o fã

Como é importante falar com os consumidores! E não só falar, mas também ouvir e manter vivo um canal de diálogo positivo. Eis uma premissa básica no ambiente do marketing que muitas vezes é negligenciada na nossa ainda incipiente experiência de fazer marketing esportivo no Brasil.

Mas na última semana o Paraná Clube nos brindou com um belíssimo exemplo de como é possível trabalhar uma comunicação simples e criativa e que gerou uma ótima repercussão tanto entre torcedores do próprio clube quanto de clubes rivais.

A de maior destaque é a que se resume na imagem abaixo: 

O amparo da ação foi pautado no desempenho esportivo do clube. A atitude do Paraná foi buscar, de forma muito transparente, uma melhor relação com o seu torcedor – inclusive, relatou detalhes sobre questões de gestão pelas quais o clube está passando. E o mais interessante é que, pela forma como foi tratado o assunto, o tema que veio à tona foi muito bem recebido pela grande maioria das pessoas.

Logicamente, a estratégia não se reduziu a uma única ação. Ela está lastreada em um processo de comunicação bem interessante e merece ser visitado. A forma como o perfil do clube no Facebook aborda os diferentes temas e fala com o seu fã é um modelo que merece uma atenção especial.

Como lição, o exemplo do Paraná Clube é só um retrato da necessária mudança pela qual o futebol (e, certamente, o esporte também) no Brasil precisa passar: falar efetivamente com o consumidor. Este é o pilar básico para que um ciclo virtuoso de sucesso comece.

Patrocinadores, Veículos de Mídia e até o Governo precisam se aproximar e conversar com as pessoas! O esporte é, sabidamente, um excelente meio para isso. A relação com a indústria passará a ser sólida à medida que as entidades esportivas melhorarem suas estratégias de comunicação e passarem a atingir o alvo em quantidade e qualidade. Eis o principal (embora percebido tardiamente) desafio!

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90%

A derrota por 2 a 1 para o Sport, no dia 20 de junho, foi a quinta consecutiva do Vasco no Campeonato Brasileiro de 2015. O time carioca ocupava a lanterna do principal torneio do futebol nacional, e nem a demissão do técnico Doriva, anunciada um dia depois do revés, foi suficiente para amenizar o clima. No dia 22, o presidente Eurico Miranda resolveu agir. Surgiu então uma das maiores trapalhadas de comunicação na atual temporada.

“Estamos elaborando um projeto Ronaldinho Gaúcho. O que eu posso dizer é que está bastante adiantado e que em termos percentuais está na casa dos 90%, mas ainda é só um projeto”, anunciou o presidente vascaíno. Na mesma entrevista coletiva, Eurico também disse que o time carioca havia contratado o técnico Celso Roth, o atacante argentino Herrera e o lateral direito Léo Moura, outro que não fechou efetivamente com a equipe cruzmaltina.

O Vasco chegou a reagir nas rodadas seguintes, com vitórias sobre Flamengo e Avaí, mas a ascensão durou pouco. Foram outros três insucessos em sequência, empilhados em duelos com Chapecoense, São Paulo e Avaí. O time cruzmaltino segue na zona de descenso para a segunda divisão, com campanha pior do que nos anos em que acabou rebaixado.

No último domingo, um dia depois da derrota para o Grêmio, jogadores do Vasco foram cobrados por torcedores quando desembarcaram no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Atletas e comissão técnica ouviram xingamentos, reclamações e cobranças sobre o fracasso na negociação com Ronaldinho.

Ronaldinho, convém lembrar, foi um dos jogadores mais espetaculares da história do futebol brasileiro. Teve dois anos monstruosos no Barcelona (2004 e 2005), temporadas em que foi eleito pela Fifa o melhor do planeta. Depois, caiu de rendimento e passou a viver de lampejos. Na última temporada, defendeu o Querétaro no Campeonato Mexicano e acabou relegado ao banco de reservas.

No entanto, dada a precipitação de Eurico para tentar desviar o foco, Ronaldinho acabou virando um factoide no Vasco. Ele e Léo Moura se transformaram em símbolos de uma gestão que prefere dar respostas vazias em tom contundente a criar projetos de comunicação que sejam efetivamente relevantes.

É até claro demais para falar assim, mas Eurico parece não entender o quanto o mundo mudou nos últimos anos. Bravatas e carteiradas não são nada além do que elementos para transformar o “Youtube” em instrumento de cobrança sobre a gestão de um clube.

A comunicação do Vasco no período de crise podia ter criado lemas, mostrado a importância do torcedor para tentar reagir ou focar atributos históricos que têm valor perene, independentemente da fase negativa. Em vez disso, Eurico preferiu a resposta rápida e simples. “Ah, mas e se não der certo?”. “É só jogar a culpa nos 10% que faltavam”.

A situação de Eurico ficou ainda mais complicada porque Ronaldinho vai jogar no futebol carioca em 2015, mas no Fluminense. O time tricolor confirmou o acerto no sábado (11), e no domingo (12) usou o fato para tripudiar em nota publicada em seu site oficial.

“Entre os 10% que restavam a outros clubes para acertar com o craque havia o Fluminense. Pobres adversários, que ainda não aprenderam a lição: não se usa números contra o Tricolor”, diz a nota publicada no site do time das Laranjeiras.

Eurico conseguiu desviar a atenção e diminuir as conversas sobre a crise do Vasco, é verdade. Contudo, fez isso de uma forma que apenas criou mais pressão sobre o time que já faz péssima campanha no Brasileiro. Lidar com o fracasso nas conversas com Ronaldinho era tudo que o elenco não precisava.

Em meio a isso, Eurico resolveu vociferar novamente. Na última sexta-feira (10), disse que “o Vasco não será rebaixado”, mas que não fará mais contratações para isso: “O reforço sou eu”. Um dia depois, derrota por 2 a 0 para o Grêmio.

A verborragia é claramente o caminho preferido do presidente vascaíno. Contudo, está longe de ser o único. Eurico deveria saber que há uma série de outros caminhos para atingir o público e direcionar a torcida.

O Bayern de Munique colocou quase 70 mil pessoas na Allianz Arena na semana passada, na apresentação do elenco para a temporada 2015/2016, a despeito de ter perdido o ídolo Schweinsteiger, que passou a vida toda no clube. Se você souber como promover e tiver um planejamento adequado, é possível se comunicar com o torcedor e até desviar o foco em momentos ruins sem precisar recorrer a bravatas ou a 90%.

Ronaldinho no Fluminense

Sobre o negócio feito pelo Fluminense, ainda é cedo para falar. Ronaldinho não terá um salário baixo, e isso o transforma numa aposta de risco para o time tricolor, que não tem mais o mecenato da Unimed. Além disso, o jogador de 35 anos está longe do auge físico e nunca foi exatamente marcado pela competitividade.

A questão, dentro e fora do elenco, é comunicação mais uma vez. Se o Fluminense conseguir convencer a torcida de que Ronaldinho é o talento que faltava à equipe e conseguir convencer o elenco de que é preciso correr por ele, o negócio tem tudo para funcionar muito.

Para isso, porém, o Fluminense precisa saber como transmitir as mensagens adequadas. E aí, como Eurico ensinou, não basta vociferar coisas. Sobretudo se as coisas estiverem apenas 90% fechadas.

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Como estimular a equipe a mudar de corredor de ataque

A mudança de corredor de ataque é uma competência coletiva necessária que tem como objetivo a manutenção da posse de bola, a busca por espaços menos povoados e a criação de igualdade ou superioridade numérica que potencializem as possibilidades de gerar desequilíbrio ao oponente.

Atraídos pela pressa (muitas vezes demasiada e confundida com velocidade) em concluir as jogadas em ataques rápidos ou contra-ataques, tem faltado ao futebol brasileiro qualidade de, no campo de ataque, circular a bola para a criação de uma ação ofensiva mais vantajosa à equipe e não ao adversário.

Na coluna desta semana serão propostos dois jogos conceituais que visam o desenvolvimento de tal competência.

Para ler a coluna na íntegra, basta clicar aqui

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Benfica

Para aqueles que estudam e sonham com um futebol gerido de maneira diferente no Brasil, recomendo reservar 90 minutos. Exatamente o tempo de uma partida de futebol! É para assistir a uma série de reportagens produzidas pela SIC Portugal sobre o Sport Lisboa e Benfica, o clube mais popular da terra de nossos colonizadores.

Com as ressalvas sobre o enredo jornalístico da produção, que serve, naturalmente, para ser atrativo para todos os públicos, para nós que estudamos e procuramos buscar novas informações sobre a gestão do futebol vale pelos filtros de processos e de construção de longo prazo pela qual o clube português passou na última década.

Além disso, trata-se de um clube social na sua essência, que disputa uma competição nacional pouco atrativa (embora possa disputar os principais campeonatos europeus), situado em um país com limites geográficos reduzidos, uma economia ainda frágil, que não se pode comparar com as principais economias europeias, e população de pouco mais de 10 milhões de habitantes, idêntica a Paraná ou Rio Grande do Sul. Muito por isso o exemplo é de extrema relevância para a nossa realidade, fugindo daquele senso comum de querermos nos igualar a Manchester, Barcelona, Real Madri ou Bayern de Munique. Trata-se de algo muito mais próximo daquilo que podemos construir no cenário dos nossos clubes no Brasil.

Eis os links para a série de reportagens, com breves comentários sobre cada uma delas:

– PARTE 01 (http://goo.gl/sdGcNv): apresenta de forma clara a transformação pela qual o clube passou – (a) Definição de metas; (b) Gestão profissional; (c) Contratação de especialistas para gerir e tomar decisões efetivas pelo clube; (d) Agir localmente e pensar globalmente; (e) Controle de conteúdo.

– Comentário: no nosso cenário, serve como um importante parâmetro que não se é possível mais fazer futebol em alto nível, com controle de receitas e proteção da marca, com meros “simpatizantes” do clube o administrando. Não é mais admissível que um departamento de marketing de um clube, que fature mais de R$ 200 MM por ano, seja administrado por menos de uma dezena de profissionais, que atuam sem qualquer autonomia. Também mostra uma premissa que já é consagrada no mercado americano, que é o controle do conteúdo do clube pelo clube. Isso se traduz pela criação da BenficaTV, que é citada de forma sintética na reportagem.

– PARTE 02 (http://goo.gl/6J0Um5): a abordagem passa, em um primeiro momento, pela parte técnica e a relação com a gestão do clube, apresentando o Centro de Treinamento, as equipes de Análise de Jogo e alguns bastidores da preparação da equipe para os jogos. Do lado do marketing, uma pequena amostra sobre as atividades e compromissos dos atletas com ações semanais em prol do clube, que reforçam sua marca e sua proximidade com o público.

– Comentário: é fundamental evoluir de forma significativa a gestão técnica dos clubes no Brasil. A intromissão sobre os processos de trabalho cotidiano da comissão técnica feita pelos dirigentes é a parte mais latente e que afeta substancialmente a performance. Quanto ao marketing, apenas mais uma mostra de que é possível fazer coisas simples, de baixo custo, e com alto valor para os fãs – como resultado, naturalmente, um maior apreço pela marca do clube.

– PARTE 03 (http://goo.gl/d0VuoH): certamente o capítulo menos técnico do ponto de vista da gestão, mas relevante para percebermos as entregas de conteúdo em casos de conquistas esportivas e também a relação com ex-jogadores do clube – o que demonstra o ambiente interno positivo construído pelo Benfica na relação entre dirigentes e equipe técnica.

– Comentário: a preparação para a conquista e o ambiente criado para os festejos do título é o maior aprendizado. O cenário e, novamente, a proximidade com os fãs formam o melhor retrato deste conceito.

O desejo pela mudança transcende as conquistas esportivas, que são o fim, ou seja, a consequência de um trabalho bem feito, de forma consistente ano a ano, sem desvios.

É por esses e outros exemplos mundo afora que defendemos a ideia que é possível termos algo muito melhor no futebol brasileiro. Não centralizado apenas em um bom exemplo, mas em vários. Não apenas em lapsos ou bolhas, com prazo de validade, mas sim de maneira perene e sólida. Podemos fazer mais e melhor com os recursos que temos à nossa disposição hoje. É preciso começar e não desistir dos objetivos, mesmo que no meio do caminho os obstáculos apareçam! 

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Contexto

A contratação do colombiano Juan Carlos Osorio foi uma das grandes apostas do São Paulo para a temporada 2015. Depois da chegada dele, porém, o time se desmantelou no setor defensivo (Paulo Miranda, Dória, Denilson e Souza saíram, e Rodrigo Caio ficou num processo de vai-não-vai em que ele foi o grande prejudicado). Dos movimentos às declarações, o São Paulo dos últimos dias é a síntese perfeita de uma série de conceitos que permeiam o futebol brasileiro.

A começar pelo time: o São Paulo destruiu seu setor de contenção, complicou demais a saída de bola e limitou as opções do treinador. Tudo isso ainda no primeiro terço do Campeonato Brasileiro, uma competição em que são raras as equipes que terminam com a mesma estrutura que tinham quando começaram. O principal torneio do futebol nacional é uma corrida em que você só sabe como as coisas começam, mas não pode avaliar nada até que a janela se feche, pelo menos – isso sem falar nas mudanças de técnicos, conceitos e estrutura que acontecem durante o trajeto.

Antes de o Campeonato Brasileiro começar, o São Paulo era um time com estrutura montada e uma base que havia feito boa campanha no ano anterior. Quando Osorio foi contratado, a ideia era que ele burilasse isso e levasse o time a um patamar diferente. Depois dos movimentos da diretoria, contudo, a pergunta é: que time?

Há uma série de pontos a serem abordados sobre a postura da diretoria do São Paulo, mas o time paulista não é um caso isolado. O futebol brasileiro inteiro tem essa premissa, e a conjuntura fez com que o país retomasse fortemente o viés exportador – em comparação com anos anteriores, as transferências para o Brasil caíram e as negociações para fora cresceram.

A série de negociações que o São Paulo fez é reflexo de fatores como moeda fraca, desejos individuais dos jogadores e o estado econômico das equipes nacionais. Nas temporadas anteriores, os principais clubes do país inflacionaram de forma contundente as folhas de pagamento e também as dívidas de curto prazo. Em 2014, o Flamengo foi o único entre os grandes a reduzir seu déficit.

Portanto, ainda que as decisões da diretoria do São Paulo sejam questionáveis, tudo é contexto. O fortalecimento do Campeonato Brasileiro passa necessariamente por uma revisão de tudo isso.

Juan Carlos Osorio questionou a diretoria do São Paulo. Não apenas pelo número de jogadores negociados, mas por todos fazerem parte de um mesmo setor. No domingo (05), no empate sem gols com o Fluminense, ele chegou a relacionar para o banco de reservas o zagueiro Breno, que não entra em campo desde 2011.

As cobranças públicas de Osorio são lícitas e pertinentes. No entanto, cabe mais uma reflexão sobre contexto: que cenário o colombiano esperava encontrar no futebol brasileiro quando foi contratado? Ele realmente achou que haveria manutenção e sequência do elenco? Ele pensou que existiria algum planejamento de saídas numa seara em que planejamento ainda é algo extremamente raro?

O caso das baixas é o segundo de Osorio no São Paulo. Expulso na derrota por 4 a 0 para o Palmeiras, o técnico colombiano havia reclamado da atitude do árbitro e dito que desconhecia o critério adotado no Campeonato Brasileiro de 2015, com uma postura menos permissiva sobre questionamentos de decisões em campo.

Mais uma vez: por que Osorio não sabia? É certo um profissional desconhecer o contexto em que está inserido e usar essa falta de informação como justificativa para um erro? Tente transportar isso para outra realidade e pense no quanto é absurdo alguém que foi contratado recentemente por uma empresa falhar e dizer que “não sabia”.

Nos dois casos, Osorio exemplifica um dos piores aspectos comuns entre os jogadores brasileiros: a falta de entendimento sobre o contexto. É essa a natureza, por exemplo, dos atletas que se transferem para times ucranianos e depois reclamam do frio ou da perda de visibilidade. Afinal, o que eles esperavam quando assinaram?

As reclamações de Osorio são perfeitamente cabíveis e levantam debates necessários para o futebol brasileiro. Ao fazê-las, porém, o técnico mostrou desconhecimento sobre o meio em que está inserido. Isso é perigoso.

Entretanto, Osorio não foi o único no São Paulo a servir de exemplo nesse sentido. Depois da derrota para o Atlético-PR, o goleiro Rogério Ceni corroborou as cobranças à diretoria e as críticas ao volume de negociações. O capitão tricolor, que está em sua última temporada como profissional, disse que entende a necessidade financeira do clube, mas que a cúpula da equipe também precisa entender a necessidade que ele tem de ser campeão.

Mais uma vez, não há problema com a declaração. O que Rogério disse é o que outros jogadores também devem pensar. Novamente, a questão é contexto: numa situação como essa, é no mínimo complicado que a principal liderança de um grupo manifeste publicamente que prioriza objetivos pessoais em detrimento da situação de sua equipe.

No mesmo jogo, no intervalo, Paulo Henrique Ganso deu outra demonstração nesse sentido. Questionado sobre a partida – o São Paulo perdia por 1 a 0, gol marcado pelo zagueiro Gustavo após cobrança de falta –, o meia disse que o time paulista atuava bem, que só estava atrás no marcador por causa de um erro individual e que todo mundo sabia de quem tinha sido a falha – no lance, Lucão deixou de acompanhar o defensor do Atlético-PR.

A análise de Ganso não está errada. Mais uma vez, a questão é contexto: qual é o impacto de uma crítica tão direta, sobretudo se o alvo for um atleta tão novo e que já sofre com a desconfiança de parte da torcida? Não ajudou, certamente.

Entender o contexto pode ser um processo complicado em muitos momentos, mas é fundamental para amenizar problemas. Isso evitaria teses como o apagão que a comissão técnica da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) criou para justificar os 7 a 1 da Alemanha, por exemplo. Se tivessem olhado para o contexto, Felipão e Parreira entenderiam que era momento para algo muito mais contundente.

O mesmo vale para a própria CBF, que resgatou Dunga depois da Copa e criou o contexto para uma seleção brasileira com repertório pobre e estilo extremamente limitado. Questão de contexto: esse tipo de jogo pode ser eficiente, mas não tem nada a ver com o que os torcedores esperam ou cobram da equipe nacional.

No fim, a eliminação do Brasil nas quartas de final da Copa América é apenas mais uma parte de um contexto. É um subproduto de um cenário que se construiu durante anos e que não tem perspectivas de mudança em curto prazo.

Ah, o presidente da CBF não foi ao Chile para acompanhar a Copa América. Não por ter ficado aqui e priorizado o desenvolvimento do futebol nacional, mas por temer ser preso se deixar o Brasil. O fato de Marco Po
lo del Nero ser atualmente o principal dirigente do futebol nacional é mais um que não pode ser analisado de forma isolada. Como Eduardos Cunhas da vida, o mandatário da CBF é fruto de um contexto.