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A periodização em futebol

O conceito de periodização aplicado ao jogo de futebol, cada vez mais, tem sido adaptado à nova forma de interpretação da realidade (visão sistêmica) e também a característica competitiva da modalidade, que inviabiliza uma preparação que tenha como objetivo isolados picos de forma ao longo de uma temporada.

Posto isso, modelos de periodização com ênfase na vertente física, amplamente aplicados em equipes de futebol (em todos os níveis) podem ser considerados obsoletos.

Como exemplo, a periodização convencional em bloco, proposta por Verkoshansky:

MODELO GERAL DE TREINAMENTO DE VERKHOSHANSKI

Como características gerais deste modelo geral de treinamento, podem ser apontadas:

• Evolução em relação à periodização clássica de Matveev (que dividia a temporada em três grandes períodos)

• Defende a individualidade da carga de treinamento

• Possibilita o desenvolvimento consecutivo de capacidades, utilizando o efeito residual de cargas já trabalhadas;

• Dá ênfase ao trabalho no regime motor específico;

• É também conhecida como preparação em Blocos A, ou de preparação de base (voltado para o aumento da força especial), B, ou de preparação especial (voltado para o aumento da velocidade de execução no exercício da competição e na capacidade técnica e C, ou de competições mais importantes (voltado para o máximo nível de potência no regime motor específico), que variam em função do tempo de preparação para a competição;

• Possibilita o alcance de vários picos de forma a serem atingidos ao longo da temporada (em várias competições).

Grandes estudiosos perceberam que esta forma de distribuir os objetivos e conteúdos de treino não atendiam as demandas do futebol e então apresentaram novas propostas de preparação para o jogo.

Surge em Portugal, com o intuito de periodizar o Modelo de Jogo, a Periodização Tática, criada por Vítor Frade e que tem o pensamento complexo como referencial teórico.

MORFOCICLO PADRÃO DA PERIODIZAÇÃO TÁTICA

Dentre as características desta periodização, destacam-se:

• A componente tática surge como núcleo central da preparação;

• Estabelece um modelo de jogo adotado com coordenação própria e com as dimensões físicas, técnicas e psicológicas subjugadas à tática;

• Centra-se no desenvolvimento do modelo de jogo da equipe a partir das ideias de jogo do treinador, fundamentadas na desmontagem e hierarquização dos princípios de jogo (em sub-princípios e sub-subprincípios);

• Forma desportiva coletiva qualitativa que tem como referência básica o ato de jogar melhor o jogo de futebol.

• A PT destaca três pressupostos metodológicos básicos: Progressão Complexa que implica em progredir complexamente o jogar da equipe a partir de exercícios que considerem o nível de jogo atual e o pretendido; Alternância Horizontal em Especificidade que envolve a operacionalização do Morfociclo Padrão, caracterizado pelo jogo, dias recuperativos e dias aquisitivos; e Princípio de Propensão que cria exercícios que tornam propensas ocorrências de determinados comportamento que, repetidos sistematicamente, poderão tornar-se hábitos.

• O pico de forma deve ser semanal.

O treinador Rodrigo Leitão também desenvolveu um Modelo de Periodização, denominada como Periodização Complexa de Jogo e que seu microciclo assim se apresenta:

MICROCICLO DA PERIODIZAÇÃO COMPLEXA DE JOGO

O Jogo, em sua essência, é o núcleo central da preparação, que apresenta como principais elementos:

• As dimensões do jogo (física, técnica, tática, psicológica, sociocultural, etc.) estão subordinadas a lógica do jogo;

• O modelo de jogo não tem fim em si mesmo (ele é um dos meios para o cumprimento da lógica do jogo);

• Visa desenvolver a inteligência circunstancial individual e coletiva de jogo;

• Forma coletiva em constante progressão, avaliada de maneira qualitativa e quantitativa, tendo como referência o jogar melhor o jogo de futebol – circunstancialmente.

É muito difícil ser preciso sobre a forma como estes conhecimentos tem chegado às universidades e aos clubes de futebol brasileiros. Em diversos e-mails que recebo, de alunos de graduação ávidos por conhecimento, é mencionada a limitada oferta de conhecimento proposta pelas disciplinas relacionadas ao futebol. Somam-se a este fato, o constante ingresso de novos profissionais na modalidade sem a devida preparação teórica, a não atualização dos profissionais atuantes e as ainda embrionárias iniciativas de capacitação profissional em nosso país.

Os efeitos sistêmicos de todo este cenário são inúmeros. Apenas um deles é a constatação (divulgada por um companheiro de profissão nas redes sociais) de que o país do futebol (???) tem predominância de zagueiros e laterais na Champions League 14/15. Dos 80 brasileiros na competição, 39 (48,75%) são jogadores da linha de defesa. Um dado relevante se comparado aos somente 11 jogadores de ataque (13,75%) num país que é (e sempre será???) mundialmente conhecido pelo poder ofensivo.

Para concluir, os poucos parágrafos supracitados não são suficientes para aprofundar o conhecimento sobre os atuais modelos de periodização. Muita leitura, revisões, discussões e prática são fundamentais para que o nosso “espiral de conhecimento circunscrito” se desenvolva. Caso alguém tenha interesse, posso compartilhar alguns materiais de estudo.

Ah: outro efeito sistêmico foi o 7 a 1. Ou vocês acreditaram que foi um apagão?
 

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A Neuróbica e o atleta

Numa coluna passada abordei a questão do poder da mente e a importância que o controle mental tem para o desempenho de todo atleta profissional.

Hoje venho compartilhar com vocês o conceito da Neuróbica, que é conhecida como uma nova ciência do exercício do cérebro. Sabe aqueles pequenos esquecimentos que acontece conosco eventualmente? Então, esses pequenos lapsos podem não interferir muito em sua vida cotidiana, mas a ansiedade que eles podem provocar talvez atrapalhe o desempenho de uma maneira geral. Com os atletas isso também pode acontecer, ainda mais devido à pressão que sofrem pela busca constante por melhores.

Mas o bom é que podemos combater esta ocorrência e com isso tonar nosso cérebro cada vez mais ativo. Em resultados de pesquisas recentes sobre o cérebro, foi possível apurar que novos métodos que podem ser incorporados às atividades diárias contribuem com o desenvolvimento e a manutenção das conexões cerebrais de todos nós. Sendo assim, passamos a conhecer a Neuróbica, que tal e qual os exercícios físicos contribuem para a manutenção da forma física, os exercícios para o cérebro podem nos ajudar a melhorar nossa capacidade mental.

Para todo e qualquer ser humano, atleta profissional ou não, é possível aplicar a Neuróbica em diversas situações cotidianas, potencializando ainda mais o desenvolvimento da capacidade mental.

1 – No início e no término do seu dia

• Sentindo um cheiro diferente pela manhã, ao invés do tradicional de um café feito na hora, uma boa sugestão é sentir outro aroma pela manhã como baunilha, limão ou hortelã, com isso estará ativando novos circuitos neurais.

• Escove seus dentes com a outra mão, este exercício exigirá que você utilize o lado oposto do cérebro.

2 – No percurso de ida e volta ao trabalho

• Desbrave novos caminhos para seguir ao trabalho, isso contribui para que seu cérebro crie um novo mapa mental.

3 – No trabalho

• Treine espontaneamente um novo tipo de passe ou lançamento em campo.

• Respeite as pausas durante sua atividade profissional, elas oferecem um tempo necessário para o relaxamento mental e a interação social.

4 – Nas refeições

• Experimente uma situação de partilhar uma boa parte da refeição em silêncio, a ausência de comunicação verbal obriga você a usar diferentes circuitos associativos para “falar” e decifrar o que está sendo “dito” pela linguagem corporal das outras pessoas.

Estas são algumas das inúmeras situações em que os atletas podem aplicar a Neuróbica e com isso poder ampliar sua capacidade mental com simples ações do cotidiano. Esta será uma enorme contribuição para a melhoria do desempenho em campo, que exige cada vez mais raciocínio rápido para as situações de jogo.

Até a próxima! 

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As arenas e os investimentos públicos

Acho engraçado os comentários sem qualquer embasamento claro sobre o financiamento de arenas pelo poder público. Existem alguns mitos no Brasil que impedem um investimento mais coeso neste segmento, que poderia transformar verdadeiramente o esporte no país. De antemão, devo dizer: não estou aqui recomendando gastos públicos aos ventos. Bem ao contrário, como se verá a seguir…

Acesso com frequência o site “Stadia Magazine” para estudos e busca de informações gerais e não são raras as notícias que mostram a construção ou reconstrução de estádios, arenas ou ginásios com o apoio incondicional do poder público local.

O caso mais recente (pelo menos em termos de concretização dos acordos anteriormente firmados) é o do West Ham, da Inglaterra, que irá se mudar para o Estádio Olímpico de Londres na temporada 2016-17 depois de um acordo de 99 anos (http://www.stadia-magazine.com/news.php?NewsID=62719), em que irá pagar um valor de aluguel anual, mas terá como contrapartida as reformas e adequações a seu estilo (inclusive suas cores, para ficarmos em um exemplo bem simples).

Existe uma hipocrisia velada ou declarada sobre os absurdos deste tipo de financiamento no Brasil. E o que se vê é que, em todo o mundo, dificilmente se constrói arenas sem o apoio do ente público, que entende as arenas como indutores de desenvolvimento econômico regional.

Por aqui, as construções, quando feitas com recursos públicos, não levam em conta as especificidades de administração deste tipo de equipamento ou mesmo da sua sustentabilidade financeira. O achismo é de que qualquer um pode geri-lo. E a lucratividade operacional posterior também parece ser um grande “pecado”.

O fato é que se precisa medir melhor os benefícios e as contrapartidas possíveis de um empreendedor em favor do poder público quando este último é parceiro e oferece subsídios ao empreendimento.

As parcerias devem ser claras, transparentes e pautadas em um planejamento consistente, medindo-se os impactos que aquela nova construção (ou reforma) poderá gerar. Este é o salto que precisamos dar para que se continue um processo extremamente necessário para o desenvolvimento do esporte brasileiro, que é a qualificação das instalações esportivas em consonância com a entrega de entretenimento possível para os fãs. 

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A grande revolução a fazer no futebol

O Edgar Morin, num livro de vários autores, Éduquer pour l´Ére Planetaire, escreveu, na página 26: “A ideia de verdade é a maior fonte de erro que se possa imaginar – o maior erro existe, quando nos julgamos possuidores do monopólio da verdade”. Porque sou um simples teórico do Desporto (embora as minhas leituras, a minha investigação e o ter convivido e esbanjado aprendizagem com verdadeiros mestres do “fenômeno desportivo”) não é sem receio que me lanço ao tema, em epígrafe. Aliás, já tanto se escreveu sobre o futebol, espíritos de escol e puros oportunistas, que muitos serão os que pensam que pouco mais haverá a acrescentar. No entanto (e não é a primeira vez que o faço) não viro a cara ao risco e adianto que o futebol (e portanto o desporto) precisa, para continuar a desenvolver-se, de uma revolução científica ou, segundo Bachelard, de uma rutura epistemológica. Porquê? Porque, normalmente, quando se fala de futebol, quase sempre em monólogos ou diálogos arrebatados e arrebatadores, nunca se faz do Homem, na sua integralidade, o objeto de estudo, mas a tática, os erros da arbitragem, problemas de ordem econômica e biomédica, etc. Assim, o futebol parece ser ciência, não do Homem, mas da sua ausência. No futebol de muitos estudiosos e “agentes do futebol”, o termo Homem designa, não o tema fundante das falas ou dos escritos, mas apenas um intervalo entre palavras, palavras, palavras, ou seja, entre verdadeiros obstáculos epistemológicos. Tenho para mim que o desporto é um dos aspetos da motricidade humana . Nele, estuda-se, teoriza-se, pratica-se uma atividade humana que é “jogo e movimento e agonismo e instituição e projeto” (Gustavo Pires). Uma atividade humana muito próxima do domínio público e que dificilmente escapa, por isso, às controvérsias inflamadas do senso comum. Mas sempre uma atividade humana…

Marcos Guterman, jornalista brasileiro e doutor em História, pela USP, é o autor do livro O futebol explica o Brasil (Editora Contexto, S. Paulo, 2009) onde se lê: “O futebol é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e também consegue dar significado aos desejos de potência da maioria absoluta dos brasileiros. Essa relação, de tão forte, é vista como parte da própria natureza do país – as explicações, para o fenômeno, vão mais na direção da Antropologia que da História. O que este livro mostra é que o futebol, pelo contrário, não é um mundo à parte, não é uma espécie de Brasil paralelo. É pura construção histórica, gerado como parte indissociável dos desdobramentos da vida política e econômica do Brasil. O futebol, lido corretamente, consegue explicar o Brasil” (p. 9). Que o mesmo é dizer: porque o conteúdo das ciências humanas são práticas significantes, capazes de transformar o Homem, a Vida, a Sociedade e a História, elas transgridem o conceito positivista de ciência; nelas, há mais do que natureza, há também cultura, há mais do que razão, há também sentimento, há mais do que história, há também profecia, há mais do que factos, há também valores, há mais do que mathesis, há também desejo, há mais do que movimento, há também intencionalidade. O estatuto epistemológico das ciências humanas (e portanto da motricidade humana e do futebol) diz-nos que as ciências da natureza, onde predomina a física e a matemática, não têm condições para determinar o vivido. Por isso, muitos cientistas do desporto, que reduzem o gesto desportivo a números e que buscam apoio tão-só em autores de língua inglesa, e portanto empiristas até à medula, situam as ciências humanas na parte inferior da escala do saber objetivo.

Do que venho de escrever se infere que o treinador desportivo e o professor de Educação Física, na Escola (cfr. “A Escola e o Desporto em Portugal”, de Vítor Serpa, na edição de 2014/9/6, deste jornal) têm muito mais que trabalhar e avaliar do que as capacidades físicas e os aspetos técnico-táticos do rendimento de uma equipa. Para algumas pessoas, que vivem em 2014 (e não em 1914) as ciências da natureza (ou empírico-formais) são objetivas, indiscutíveis, em contraste com as ciências humanas que, situadas na ordem dos valores e das significações, não podem matematizar-se, nem objetivar-se. Em linguagem coloquial e decerto vincada pela minha ignorância, eu permito-me lembrar a estes cientistas que a física e a microfísica fornecem, em muitos casos, explicações distintas e divergentes do mesmo fenômeno. E nem por isso se aponta, na microfísica, defeitos, carências ou fraquezas de ordem científica. No futebol (ou seja, em plena área das ciências humanas) podem repetir-se, em muitas situações. as palavras de Jorge Luís Borges (cito de cor): “Não posso dar-te soluções para todos os problemas da vida. Nem tenho respostas para as tuas dúvidas e receios. Mas quero escutar-te e procurá-las contigo”. José Mourinho já afirmou convicto. “O meu pensamento sobre o futebol nasce da união universidade-futebol”. E chega mesmo a dizer: “Um clube de futebol deve viver em torno das ideias do seu treinador”. Pep Guardiola referiu, com naturalidade, em 20/7/2009, no Barça: “O grande desafio, para nós, é manter o espírito, as ideias da temporada anterior”. Para José Mourinho e Pep Guardiola, os êxitos e até a naturalidade expositiva e convincente do treinador resultam, muito sumariamente, de ter ideias confirmadas pela prática. E, para ter ideias, também é preciso estudo, certas relações interdisciplinares e organização. Volto ao Edgar Morin, no livro acima citado: “O conhecimento não é a acumulação de dados ou de informações, mas a sua organização” (p. 38).

A grande revolução epistemológica a fazer no futebol é esta: o futebol é o humano, na sua complexidade, que o pratica. Portanto, é o humano, na sua complexidade, quer deverá treinar-se. As formas de consciência, os sentimentos, que devem acompanhar a ação, colocam necessariamente problemas fundamentais ao treino e à competição. José Neto apresenta uma visão global do treino desportivo, com um quadro de competências para o jogo, que integra: força, resistência, atenção, velocidade, autoconfiança, agilidade, formulação de objetivos, capacidade técnica, coesão, capacidade tática, liderança, motivação (cfr. Preparar para ganhar, Prime Books, 2014, p. 123). Na cientificidade do futebol, como terreno fértil de experiências humanas, são muitos os pressupostos extracientíficos. No livro de Juan Carlos Cubeiro e Leonor Gallardo, Mourinho versus Guardiola (Prime Books, 2011) a solicit
ação dos autores, registei o meu pensar, a este respeito: “Para mim, o futebol não é uma atividade física, é uma atividade humana. Por isso, os métodos, no futebol, são os métodos das ciências humanas. E essa é a força principal de José Mourinho. Ele pode não saber muito de fisiologia, nem de bioquímica. Mas sabe muito de ciências humanas. E é por este motivo que ele, no meu entender, está no caminho certo” (p. 121). Talvez seja bom fazer notar que, se o futebol é tão-só uma Atividade Física, a ele se aplica o postulado de Galileu: “A Natureza é um livro escrito em linguagem matemática”. Mas como medir a qualidade de um Cristiano Ronaldo, ou de um Messi, ou de um Neymar? Ou a dos dois jogadores mais inteligentes que os meus olhos viram: Di Stéfano e Zinedine Zidane? Com a ciência de Galileu, o futebol poderia explicar-se e seria previsível. Daí o pensamento unidimensional, simplificador e reducionista dos que pensam o desporto (o futebol) como Atividade Física.

No futebol movimenta-se um ser sapiens/demens e não um ser sapiens/sapiens. A permanente dialética, que futebol é, não permite unicamente nem números, nem certezas. A grande revolução a fazer no futebol é captarmos o que nele é essencial: a qualidade. E instituir-se o treino da qualidade, ao mesmo tempo que se treinam a tática e os procedimentos técnicos. Quando, no treino, o jogador aprender a aprender-se, na sua complexidade, o treino permite um caminho novo aos altos desempenhos. Mas, para tanto, são precisos mais treinadores, novos também, que não estejam conformes com os padrões habituais. Falta no futebol a imagem do intelectual. Que saiba de futebol. E não só! Faltam ao futebol os treinadores capazes de se debruçarem, com o mesmo interesse, sobre o que tem sido habitual no treino e sobre o texto de um pensador atual ou sobre um vislumbre de humanidade eterna. Nos instrumentos verbais que o treinador do futuro manejar, tem de avultar mais cultura, como expressão do mais humano. Como expressão de um futebol diferente… 

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Mãozinha

O Campeonato Brasileiro de 2014 já teve 25 rodadas. O Cruzeiro, líder e principal candidato ao título nacional, está seis pontos acima do Internacional, seu próximo adversário. Abaixo deles, três pontos separam os times que figuram entre o terceiro e o sétimo posto da tabela. Há equilíbrio e houve bons jogos. E nenhum desses assuntos ocupa tanto espaço em entrevistas coletivas ou em debates esportivos quanto a arbitragem. Se há uma marca na atual temporada do principal torneio de clubes do país, essa marca é a interferência de juízes.

Um motivo preponderante para isso é a repercussão de uma determinação da Fifa. Preocupada com a subjetividade em marcações de bola na mão, a entidade que comanda o futebol mundial orientou árbitros a reduzir a interpretação. Em pelo menos dois cursos ministrados neste ano, juízes brasileiros receberam a incumbência de separar apenas “movimentos naturais” de “movimentos antinaturais”. A ideia era reduzir a incidência de decisões baseadas na “intenção”.

Segundo levantamento do canal fechado ESPN, a média de pênaltis por rodada aumentou 150% no Campeonato Brasileiro depois da Copa de 2014. Outra conto número, aferido pelo site UOL, é igualmente alarmante: o torneio teve 43 infrações até a 22ª rodada, número comparável aos das principais ligas do planeta (a última temporada da Premier League teve 87 pênaltis, por exemplo), mas 37,2% das penalidades marcadas no Brasil são polêmicas.

Tomemos, então: a Fifa mudou uma orientação, e isso fez disparar o número de pênaltis no Brasil. Além disso, mais de um terço das penalidades anotadas no país são pelo menos discutíveis. Falta critério e falta compreensão sobre os critérios.

Sobre a nova orientação da Fifa, o mestre Tostão definiu perfeitamente. “Se pela nova regra foi correta a marcação do árbitro a favor do Corinthians, a regra é burra”, comentou o colunista do jornal “Folha de S.Paulo” a respeito de um lance da vitória alvinegra por 3 a 2 sobre o São Paulo, em 21 de setembro. “Os Zé Regrinhas querem acabar com a subjetividade, a interpretação e o bom senso. É impossível criar tantas regras para tantas situações diferentes. A interpretação é necessária e importante, no futebol e na vida”, completou.

A discussão que nos cabe, portanto, não é sobre a regra ou sobre lances específicos. Há dois aspectos que têm passado à margem desse debate, mas que são fundamentais para qualquer evolução oriunda das polêmicas.

O primeiro ponto é a formação. Enquanto a preparação de árbitros e auxiliares no Brasil for alicerçada no físico ou em decisões mecânicas, os absurdos seguirão. Não é suficiente que as pessoas conheçam os problemas e uma lista padronizada de soluções. É fundamental que elas entendam o contexto e que estejam preparadas para tomar decisões.

Nesse aspecto, comparo à debilidade de formação de árbitros a um problema recorrente nas categorias de base do futebol brasileiro. Jogadores têm conhecimento empírico advindo de uma mistura entre talento, formação cognitiva propícia e repertório. Quando chegam aos clubes, aliam a isso uma série de atribuições mecânicas. Eles tomam decisões em campo por razões praticamente inatas ou porque são preparados para responder de forma pronta a cada situação.

Um jogador sabe o que fazer e como se posicionar quando a bola chega a determinada posição do campo. Muitas vezes, porém, não entende como ou por que fazer isso. Ele sabe resolver o problema, mas não sabe por que solucionar assim.

O mesmo vale para muitos árbitros: se a orientação da Fifa é vetar a subjetividade, eles cumprem e marcam penalidades em praticamente todas as bolas que batem nas mãos de defensores. Em muitos casos, falta discernimento sobre situações básicas.

Depois de cada jornada do futebol brasileiro, nenhum assunto é tão comentado quanto a arbitragem. Enquanto o debate for baseado em lances e não pensar em como a formação dos juízes pode mudar, contudo, o assunto está longe de sair da pauta.

A pauta, aliás, nos leva ao segundo ponto de discussão sobre o tema. Por que a arbitragem é tão debatida? Em que isso contribui para o jogo?

Decisões da arbitragem geram polêmicas, e essas polêmicas são exacerbadas por análises contaminadas por clubismo. São os assuntos de bares e restaurantes no dia seguinte, e é natural que a mídia explore isso. De forma simples, discussões sobre erros ou acertos de juízes geram audiência e despertam interesse.

Para técnicos e jogadores, a arbitragem é um importante subterfúgio. “Nosso time perdeu, não criou e tem pouca capacidade para trocar passes. A defesa é lenta, o meio-campo é pouco criativo, e o ataque é pouco eficiente. Ainda assim, a derrota só aconteceu porque o árbitro anotou um impedimento absurdo aos 20min do segundo tempo, quando o adversário vencia por 3 a 0 e nós estávamos começando uma reação”. Com exceção da análise exageradamente honesta do início, é comum ouvirmos explicações e análises parecidas em praticamente todas as partidas no Brasil. A reclamação virou algo inerente ao jogo.

Não sou favorável a nenhum tipo de censura, e é bom deixar isso claro antes de qualquer avanço no raciocínio, mas já passou da hora de os responsáveis pelo futebol brasileiro enxergarem o mal que isso faz à imagem do jogo. A Fifa propagou durante anos uma visão deturpada sobre o assunto, baseada na premissa de que a polêmica ajuda a difundir o esporte, mas o resultado é bem diferente disso.

A questão é que as discussões sobre arbitragem mostram dois problemas de comunicação do futebol brasileiro: falta planejamento e falta conteúdo. Ninguém se preocupa com o que técnicos, jogadores e dirigentes dizem no dia a dia, ainda que isso seja contra a imagem do campeonato. Ninguém se preocupa, tampouco, com a criação de temas que preencham essa agenda.

O curioso sobre o primeiro problema é que o Brasil tem um histórico de repressão quando as coisas saem do controle. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) denuncia o atacante Emerson Sheik, do Botafogo, por falar às câmeras de TV que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é uma vergonha. No entanto, nada é feito com técnicos e jogadores que reclamam de marcações de árbitros em praticamente todas as rodadas – e aqui não entra um debate sobre a razão na reclamação ou na denúncia; a discussão é apenas sobre a diferença de tratamento.

Comentaristas de arbitragem costumam dizer que o bom juiz é o que chama pouca atenção. Ora, mas como um profissional pode ser coadjuvante se os holofotes estão constantemente direcionados a ele? Como tirar da linha de frente alguém cujas decisões são minuciosamente escrutinadas e debatidas? As coisas simplesmente não batem.

Já passou da hora de o futebol brasileiro se preocupar institucionalmente com o que se fala sobre ele. Já passou da hora de o país do futebol ter um plano de comunicação para o assunto que domina os dias posteriores às rodadas. Se quisermos evoluir, precisamos deixar de falar de arbitragem e falar um pouco de futebol.

Em tempo: A CBF vai fazer na próxima quinta-feira (02) uma reunião para discutir amplamente a arbitragem. Participarão jogadores, juízes, auxiliares e jornalistas. Que esse seja um primeiro passo para uma padronização entre expectativa e realidade, afinal.

Em tempo – II: Este texto não é uma defesa de árbitros ou das decisões que eles tomaram no Campeonato Brasileiro. Também não é um ataque à categoria. O ponto aqui é outro: se quisermos o bem do futebol, precisamos falar um pouco mais sobre o jogo. 

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Atlético-MG, Cruzeiro e a violência no futebol

Entra ano e sai ano, o tema da violência nos estádios de futebol brasileiros permanece atual. Desta vez, os tristes e lamentáveis fatos se deram no clássico mineiro entre Atlético-MG e Cruzeiro.

Logo, antes da partida, quatro torcedores atleticanos foram baleados na Região Leste de Belo Horizonte, enquanto esperavam por um ônibus com destino ao estádio para acompanhar o clássico. Este ponto é um tradicional local de embarque de atleticanos durante os clássicos contra o Cruzeiro.

Dentro do estádio também houve violência, com invasão e saque de um dos bares do Mineirão, quebra de cadeiras e disparo de bombas e rojões no gramado. A partida chegou a ser interrompida pelo árbitro.

Os atos de violência dentro do estádio levaram a Procuradoria do STJD a instaurar denúncia contra Cruzeiro e Atlético, na qual os clubes responderão por desordens e lançamentos de objetos, e podem ser multadas em até R$ 200 mil e perder até 20 mandos de campo por infração, nos termos do art. 213, do Código Brasileiro de Justiça Desportiva.

Novamente, o jogo ficou em segundo plano e todos os debates tem se concentrado nos incidentes de violência. Mais uma vez há um jogo de empurra-empurra e, provavelmente, ninguém assumirá a culpa e medidas efetivas não serão tomadas.

Tenho estudado a relação dos clube-torcedores e a violência nos estádios de futebol há cerca de dez anos e durante uma década de estudos, percebemos pouquíssimo avanço prático e um crescimento assustador da violência.

A Espanha, por exemplo, na década de 90 criou normas para conter a violência e conseguiu em um curto período de tempo se tornar vitrine mundial nesse aspecto. Medidas de segurança adotadas pela Comissão Nacional contra a Violência nos Espetáculos Esportivos fizeram com que o corpo de segurança do Estado tivesse plena fiscalização e controle dos torcedores dentro dos estádios e em suas imediações, por meio de câmeras de vídeo e um trabalho sincronizado entre os diferentes corpos de segurança que trabalham durante o evento esportivo.

Infelizmente, nossa sociedade está em uma situação onde a violência nos acompanha desde a infância . A perda sistemática de valores, as oportunidades frustradas, as privações e as diferenças sociais cada vez mais marcantes, dentre outros fatores, tem cultivado a violência nos estádios como uma válvula de escape. Dessa forma, o Estado tem que atuar de forma efetiva e com verdadeira repreensão e prevenção. Todo o demais é tapar o Sol com a peneira.

Para tanto propõe-se as seguintes medidas:

Incentivo à pesquisas sobre o tema, bem como investimentos em treinamento e formação de polícias especializadas na prevenção da violência nos eventos de massa.

Criação de uma unidade policial autônoma especializada em eventos esportivos de massa.

Investimento em programas sociais que gerem emprego e diminuam as desigualdades sociais. sociales.

Criar leis que estabeleçam infraestrutura nos estádios de futebol e os direitos dos consumidores de eventos esportivos, bem como fiscalizar seu cumprimento.
Acabar com a sensação de impunidade.

Punir dirigentes, técnicos, jogadores, policiais, membros da imprensa e torcedores que provoquem tumulto o deem declaracões que possa incentivar a violência e a rivalidade exarcebada entre os torcedores.

Coibir los excessos dos agentes de segurança pública e estabelecer um constante sistema de avaliação de sua atuação.

Implantar canais de denúncias anônimas sobre abusos cometidos em eventos esportivos.

Implantar disciplinas atinentes educação esportiva nas escolas e criar campanhas de conscientização anti-violência.

Não se tratam de medidas inventadas, mas extraídas de experiências positivas em países como Inglaterra, Espanha, EUA e Alemanha e podem, de fato, extirpar a violência dos estádios brasileiros.

Portanto, meios para se combater a violência nos estádios de futebol, existem, para tanto, é imprescindível uma atuação estatal mais efetiva, eis que a fórmula atual está flagrantemente ineficiente. 

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Exercitando o cérebro para melhores resultados

Exercitarmos o nosso cérebro é muito importante para nossas vidas, mas muitas pessoas nunca ouviram falar sobre isso e muitos atletas também não. Por incrível que pareça já são inúmeros centros de treinamento do cérebro espalhados pelos Brasil e o desenvolvimento das atividades para o cérebro já faz parte da vida de muitas pessoas.

De maneira geral temos cinco principais razões para as pessoas exercitarem seus cérebros:

1. Já existe comprovação científica que estimular o cérebro faz com que ele passe a executar suas tarefas cotidianas com mais eficiência;

2. As pessoas passam a serem capazes de finalizar suas atividades num tempo menor, uma vez que suas habilidades cognitivas são potencializadas e desta maneira tem-se mais tempo para realizar outras atividades;

3. Exercitar o cérebro contribui com a prevenção de doenças degenerativas, como lapsos de memória e o famoso “branco”, pois a prática da ginástica cerebral diminui a velocidade do “desligamento” dos circuitos neuronais que ocorrem ao longo do tempo em nossas vidas;

4. A pessoa fica mais criativa e concentrada nas atividades cotidianas, o que aumenta sua produtividade pessoal e profissional;

5. Finalmente, estimular o cérebro com novidades é sinônimo de saúde mental.

No caso dos atletas, exercitar o cérebro pode ser um grande diferencial no futuro e atualmente os avanços da Neurociência nos proporcionaram uma maior compreensão da mente humana.

O treinamento cerebral é um condicionamento mental que contribui para vencer obstáculos, para desenvolver as múltiplas inteligências e consequentemente para possibilitar um destaque na vida ou profissional. Acompanhando o esporte de uma maneira geral e o futebol de maneira mais específica, podemos perceber que a cada dia mais a competitividade está sendo decidida cada vez mais pelo lado mental. Talvez o grande divisor de águas no desempenho esportivo num futuro próximo esteja na mente do atleta, além de um ótimo preparo físico e tático, as equipes de futebol e seus atletas precisarão cada vez mais estar preparados para estarem mentalmente superiores aos seus adversários.

Para os atletas, alguns dos benefícios apontados do exercício mental são:

• Atletas com reações mais rápidas, com a redução do tempo de reação devido a maior concentração, agilidade mental e habilidade motora mais desenvolvida;

• Atletas atuando de maneira mais regular, errando menos durante os treinos e competições, resultado da maior habilidade motora conquistada e da capacidade de manter-se em alto nível de concentração por maiores períodos de tempo;

• Atletas com capacidade para tomarem as melhores decisões ao longo das competições e melhor capacidade em acertar as jogadas durante as partidas, como resultado da agilidade mental, da melhoria do raciocínio lógico e do pensamento lateral.

Agora, amigo leitor quanto mais a ciência avança, mais se torna importante que o esporte consiga incorporar novas atividades para o completo desenvolvimento dos atletas e com isso para aumentar as chances de desempenho esportivo em níveis mais elevados rumo à excelência do desempenho esportivo. Concorda?

Até a próxima. 

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O gesto de Sheik e os negócios do esporte

A frase de Emerson “Sheik” (https://www.youtube.com/watch?v=sjpB0-MVC1c) do Botafogo, após ter sido expulso do jogo contra o Bahia, em partida válida pela 22ª rodada do Campeonato Brasileiro, tem gerado inúmeros debates. Ao que parece, agora a moda é ser insurgente ao poder. No futebol tupiniquim o “bacana” é vociferar contra a CBF. Está na moda.

Por vezes, ao ler/ouvir a imprensa ou mesmo em conversas informais, tem-se a clara certeza de que o prédio da CBF é formado por um grupo de pessoas que fica pensando em tudo, como se os jogos do Campeonato Brasileiro fossem totalmente manipulados, como máquinas, que respeitam o bel prazer da entidade máxima do futebol brasileiro. Às vezes, pela opinião pública em geral, deveria tender a acreditar que as pessoas ligadas a CBF têm 100% de aproveitamento na Loteria Esportiva, já que “fazem de tudo” para que o Clube A vença o Clube B e assim por diante, com resultados de competições totalmente fechadas.

Não que eu queira beatificar as pessoas ligadas a esta instituição. Longe disso. Bem longe!!! Mas o fato é que compreendemos muito mal o papel de cada entidade dentro do sistema. E isso inclui os atletas que o praticam. As lutas contra um poder são, mais das vezes, iniciadas de maneira positiva (pela causa) mas conduzidas posteriormente de forma equivocada, o que apenas reforça o poder institucionalizado.

Por seu turno, há uma cultura generalizada no Brasil de derrubada constante daqueles que supostamente dominam um sistema. Trata-se, a bem da verdade, de uma cultura autodestrutiva, em que os que estão na parte de baixo do sistema não analisam o mérito da causa ou enxergam a sua efetiva importância para iniciar um processo construtivo de mudança, que depende de todos.

Dentro deste imbróglio, fica claro que não compreendemos o sistema ao qual estamos inseridos. Ao falar que a “CBF É UMA VERGONHA”, estamos, na verdade, dizendo que todos os que fazem parte do Campeonato Brasileiro são uma vergonha. Sim, atletas, sem vocês não haveria campeonato. Ou apenas a entidade que governa o futebol que é uma vergonha? Tudo que está abaixo dela é o hors concours da idoneidade e eficiência?

Francamente. Enquanto não entendermos o negócio do futebol como um todo, sabendo o papel de cada indivíduo e de cada organismo pertencente ao sistema, vociferar palavras de ordem não resultam em nada. É como falar mal da própria empresa que trabalha: se não é possível modificá-la, vá para a concorrente.

O debate para a mudança deve ser construtivo e no foro qualificado para tal. Precisamos e podemos ser bem mais inteligentes do que mandar “recadinhos” no meio de jogos após uma expulsão… 

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Protagonistas: quando falar é pior

Em qualquer campanha de comunicação, o uso de protagonistas segue duas premissas básicas: humanizar a mensagem e criar uma relação de aspiração. Em outras palavras, o porta-voz de uma marca é escolhido para dar às pessoas uma imagem mais humana e para que o público-alvo queira ser como ele. Nas duas situações, a responsabilidade de quem dá a cara a um produto é gigantesca. E esse é só um exemplo extremo do quanto a imagem pode ser valiosa.

Nomes que fazem sucesso no esporte costumam ser protagonistas em campanhas de produtos de diversos segmentos. Não é por acaso: neles as pessoas encontram exemplos de atributos como dedicação, trabalho em equipe e sucesso.

Personagens oriundos do esporte têm ainda outra vantagem: lidam com o emocional de quem consome a informação. O atleta que desempenha papel decisivo em uma vitória ou conquista proporciona satisfação para o torcedor. É uma geração natural de empatia.

Se um ator diz que um produto é bom, o peso é um. Se um atleta usa o mesmo produto, as pessoas que o idolatram ou que seguem o time dele vão ter naturalmente uma relação mais próxima com a marca. O peso é outro. Essa é uma das principais razões de algumas companhias investirem tanto em atletas como porta-vozes.

Há outro ponto: a voz de quem é do esporte reverbera. É claro que muita coisa se perde pelo excesso de informações do segmento, mas é inegável a capacidade de mídia do segmento.

O “problema” é que esses protagonistas são humanos, e como humanos são sujeitos a erros. São mais do que rótulos ou personagens criados para agradar a um determinado grupo.

Já falamos sobre isso diversas vezes, e esse risco existe com qualquer protagonista. O mesmo risco que uma marca corre com um atleta aparece se a empresa apostar em um ator, músico ou apresentador de TV.

No último mês, a liga profissional de futebol americano (NFL) teve uma discussão sobre isso. Dois grandes jogadores foram envolvidos em escândalos pessoais (Adrian Peterson foi acusado de agredir o filho, e Ray Rice foi filmado agredindo a namorada). Isso deflagrou enorme discussão na competição, a ponto de alguns patrocinadores terem manifestado publicamente que estavam preocupados.

São exemplos extremos, é claro, mas o esporte brasileiro não teve o mesmo nível de discussão após declarações recentes envolvendo o goleiro Aranha, titular do Santos, alvo de ofensas racistas em jogo contra o Grêmio.

“Acho que o Aranha se precipitou um pouco ao querer brigar e parar o jogo. Se eu fosse parar o jogo toda vez que me chamassem de macaco ou crioulo, todo jogo ia parar. O torcedor, dentro da sua animação e animosidade, ele grita”, disse Pelé sobre o episódio.

O caso envolvendo Aranha repercutiu muito. O Grêmio, que já realizava campanhas contra o racismo, chegou a emitir uma carta à Fifa para explicar o episódio. O técnico Luiz Felipe Scolari escreveu um bilhete em nome do elenco e mandou ao goleiro do Santos.

Ainda assim, o time gaúcho foi punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Em sessão da comissão disciplinar, o Grêmio foi excluído da Copa do Brasil por causa do comportamento de seus torcedores – ainda que alguns tenham sido identificados e indiciados.

“Foi tudo uma grande encenação do goleiro”, classificou Adalberto Preis, um dos vice-presidentes do Grêmio. “Às vezes, ficamos com a impressão de que não perdoaram o Felipão pela goleada de 7 a 1 para a Alemanha e se voltam contra a gente por causa disso”, completou Odorico Roman, outro dos vice-presidentes do clube, à “ESPN”.

Scolari fez ainda pior. “Vamos ver se eles vão cair na esparrela do Aranha de novo”, disse o técnico a jornalistas, sugerindo que o goleiro tenha armado o que as câmeras mostraram de forma clara.

Essas declarações podem ter sido feitas com intuito de defender o Grêmio. O que elas conseguiram, contudo, foi criar um clima ainda mais hostil para Aranha quando o goleiro voltou a jogar na Arena do Grêmio. Ele foi vaiado e xingado durante quase toda a partida.

O ambiente que cercou Aranha foi lamentável, e é bom deixar isso claro, mas o foco da discussão aqui não é nem esse. O ponto é: o que essas declarações de Pelé e dos gremistas acrescentaram ao debate? Em que elas foram úteis para analisar um problema que é complexo, arraigado na nossa cultura e cruel para um grande contingente da população?

A questão aqui é entender o alcance. Personagens do esporte têm enorme capacidade para direcionar discussões e formar opinião. Ignorar isso é uma enorme falta de entendimento do ambiente.

Pelé, por exemplo: o que ele viveu é importante, claro, mas em que a realidade do atleta Pelé acrescenta à discussão? Ele é o maior jogador de todos os tempos, figura que repercute em âmbito internacional. Em que ele ajudou no debate sobre racismo no futebol?

Os gremistas, então: eles podem ter pensado no clube e defendido os próprios interesses, mas qual das declarações ajudou alguém a pensar no que foi feito e no quanto o racismo permeia o cotidiano da sociedade brasileira, não apenas nos estádios?

Sim, vivemos numa sociedade de ranço racista. Temos uma democracia jovem, na qual a igualdade ainda é um conceito extremamente frágil. O estádio é apenas um reflexo disso.

A questão é que o esporte tem potencial para fazer o caminho inverso. Se o que acontece nos estádios é reflexo do perfil da sociedade, é possível que isso também influencie a formação da população. Mas alguém se preocupa com isso?

Em tempo: no dia 8 de setembro, a coluna “O poder da palavra”, publicada aqui na Universidade do Futebol, também falou sobre o caso Aranha. A intenção do texto não foi diminuir o caso ou defender os envolvidos. O goleiro do Santos foi alvo de ofensas racistas, e ofensas racistas são sempre condenáveis. O ponto da discussão ali foi outro: não podemos impingir rótulos a quem comete um erro, por mais grave que seja o erro.

O que aconteceu com Aranha foi criminoso e indefensável. As pessoas responsáveis devem ser julgadas e condenadas. Só não se pode limitar ninguém a isso. Pessoas são complexas, passíveis de erros e acertos, e qualquer discussão precisa considerar isso. 

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Planilha de Avaliação Interdisciplinar

Monitorar o desempenho global de um atleta é uma das tarefas mais complexas do futebol atual. São tantas ferramentas, recursos e variáveis de análise que inúmeras disciplinas diretamente relacionadas com a modalidade precisam intervir, de maneira interdisciplinar, para que as respostas obtidas tenham significado. Com tais respostas, torna-se possível a diminuição das margens de erro nos permanentes processos decisórios que envolvem cada um dos atletas integrantes de um clube.
Seja para subi-lo de categoria, dispensá-lo, renovar contrato ou até promovê-lo à equipe principal, o cenário ideal pede que todas as áreas e departamentos do clube tenham contribuições com informações-chave sobre o desempenho.
Sob esta perspectiva, a coluna desta semana traz um modelo de planilha de Avaliação Interdisciplinar. Sua criação tem como objetivo facilitar a comunicação entre os diferentes setores de um clube, centralizar as informações relativas a cada um dos jogadores, dinamizar o controle individual de desempenho e, consequentemente, qualificar o processo de decisão.
A ideia é que cada competência analisada relacionada a um departamento ou desempenho específico, disponibilize um gráfico em teia, didático para observar e apontar forças e fraquezas.
Dentre os Departamentos existentes num clube de futebol, podemos apontar alguns como: Nutrição, Psicologia, Fisiologia, Preparação Física, Departamento Técnico, Médico, de Fisioterapia, Sócio-educacional e de Análise de Jogo.
A proposta de aplicação da planilha por cada um destes departamentos visa a definição de competências para uma determinada variável do desempenho, que devem ser qualificadas por um score progressivo, de 1 a 5 (em que 1 significa a nota mais baixa e 5 significa a nota mais alta), para posterior obtenção de uma média final neste quesito e também de um dado mais objetivo sobre o atleta.
Por exemplo, o departamento técnico pode definir como variável de análise o Perfil Técnico por Posição. Sendo assim, para um meio-campista elenca-se as seguintes competências: passe curto, passe longo, assistência, finalização de média distância, finalização de curta distância, 1vs1 ofensivo, passe de costas-pressionado, cobrança de bola parada. Para cada uma delas, a Comissão Técnica deve apontar uma nota de 1 a 5 e, ao final do preenchimento das células, serão obtidas a Média do Perfil Técnico da Posição e também o gráfico em teia.
Além do Perfil Técnico por Posição, inúmeras outras variáveis de desempenho podem ser estabelecidas. Como: perfil físico (índice de fadiga, velocidade máxima, percentual de gordura), perfil nutricional (qualidade das refeições, quantidade de refeições, deficiências nutricionais), perfil sócio-educacional (frequência escolar, notas, leitura de livros, participação em eventos sócio-educativos) desempenho em competição (minutos jogados, partidas jogadas, gols feitos, assistências, número de substituições) desempenho psicológico (endurance psicológico, nível de atenção e concentração, resiliência, autocontrole).
Fica a critério do clube estabelecer o que será analisado, sua importância e qual a pontuação de cada uma das competências. Seguramente, quanto mais rica for a análise do atleta, mais evidentes estarão seus pontos fortes, fracos e seu potencial de valor agregado. Informações valiosas para intervenções precisas no cada dia mais competitivo futebol brasileiro.
Abraços e até a próxima coluna!
 
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