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Que caminhos estamos trilhando?

Olá, caro leitor. Vamos iniciar esta coluna fazendo um exercício:

– Lhe convido a trazer da memória três jogadores que você julgue serem os melhores que já viu jogar. Independente se ainda estão em atividade ou não. Não precisa se apressar muito, pense bem.

– Lhe convido agora a relembrar algum momento marcante de seu time de coração, algum acontecimento do seu time que lhe cause alegria, nostalgia, saudades em recordar.

Pronto? Conseguiu pensar em três jogadores? Relembrar algum momento do seu time de coração? Ok! Agora, peço que faça uma análise de tudo isso, quais jogadas destes jogadores lhe vieram a mente? Em que situação se encontravam? E o seu time, em que fase do jogo estava? O que a equipe estava executando?

Sem medo de errar, acredito que a grande maioria dos jogadores lembrados, são de posições prioritariamente ofensivas, e que os lances recordados, foram em momentos que estes detinham a bola, que realizaram alguma ação com a bola, dribles, passes, assistências, finalizações, etc. Assim como o número dos momentos que vieram a memória do seu time de coração, foram muito mais ofensivos do que defensivos, situações em que sua equipe marcou um belo gol sobre o arquirrival, a conquista de um título vindo daquele gol marcado no último minuto, ou aquele gol antológico anotado fora de casa, que calou toda a torcida adversária.

Claro que existirão exceções, que alguns irão se recordar de um Puyol, um Taffarel, um Cannavaro, que se notabilizaram pela capacidade defensiva. E, são tão dignos de lembrança quanto qualquer outro. Vocês acham que a grande maioria dos torcedores “são-paulinos” se recordam mais das defesas que Rogério Ceni fez (que talvez tenham sido maior em número, pelo tempo que jogou no São Paulo, mas semelhantes em importância e/ou dificuldade as que Zetti também realizou) ou dos gols de falta e pênalti que ele marcou?

Reforço a opinião, de que a grande maioria pensou em jogadores de ataque, ou até os que se lembraram de jogadores com características prioritariamente defensivas, lembraram de ações em que os jogadores detinham a posse da bola, assim como de seus times de coração.

Busquei te levar a estas recordações e análises, para refletirmos sobre algo maior e mais complexo, os rumos que nosso futebol têm tomado nos últimos tempos.

É notório e possível se comprovar através dos dados coletados por empresas como a Footstats, que a maioria das equipes que têm vencido os jogos, não necessariamente tem tido maiores índices de posse de bola e finalização, cada vez mais nossas equipes têm abdicado de deter a posse de bola, de buscar propor o jogo, por uma estratégia mais defensiva, visando os contra-ataques rápidos. Isso pode se dar por diversos fatores, buscar manutenção no cargo, “falta” (seria falta de jogadores ou de coragem? Competência para buscar construir outro tipo de jogo?) de jogadores com características de se propor o jogo, falta de tempo para treinamentos, constantes mudanças no elenco, enfim, poderia levantar muitos outros motivos, mas a questão é, será que não estamos usando estes argumentos somente como muletas? Sobretudo nas divisões de base, aonde é cada vez mais comum ver equipes formadas somente para se defender.

É obvio e digno que cada um irá jogar da forma como acredita, como lhe convém, e é bom que hajam ideias divergentes! Afinal, ninguém passa os 90 minutos do jogo só atacando, portanto é necessário saber defender bem também!

A questão que levanto é quanto a nossa cultura, quanto aquilo que mais permeia nossas mentes, aquilo que acelera nossos corações, aquilo que faz parte da nossa história. E historicamente, mundialmente, somos reconhecidos por nossas capacidades ofensivas, nossa habilidade com a bola, capacidade de criar novas jogadas, novas soluções para cada problema que o jogo e o adversário interpõe, nossos atacantes são pinçados cada vez mais cedo pelos grandes clubes europeus. Historicamente, nossas torcidas rejeitam e reprimem suas equipes quando estas não buscam tomar as rédeas do jogo, ou quando um treinador troca um atacante por um defensor. Em tempos onde cada vez mais se busca globalizar sem perder identidade, reforçar tradições, cultivar raízes, por que o nosso futebol tem caminhado no sentido contrário?

Fonte: download-wallpaper.net/content/uefa-champions-league-2012.html
Fonte: download-wallpaper.net/content/uefa-champions-league-2012.html

 
Fonte: globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2012/06/meu-jogo-inesquecivel-contra-turcos-e-todos-denilson-brilha-na-semifinal.html
Fonte: globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2012/06/meu-jogo-inesquecivel-contra-turcos-e-todos-denilson-brilha-na-semifinal.html

 

Talvez eu seja um dos “últimos românticos”, com toda certeza saudosista, o que não me faz ser nem um pouco menos moderno, ou avesso ao futuro, não. Mas, ainda acredito nas raízes, nas tradições, na cultura que viviam os que estiveram aqui antes de mim, acredito que para chegar em algum lugar, preciso saber de onde eu vim… E isso em qualquer aspecto da vida (que é sistêmica!), e sendo o futebol parte dela, quando olho de onde veio nossa cultura de futebol, como esse jogo me fascinou, e vejo os rumos que ele vem tomando, temo que estejamos perdendo nossa trilha, nosso caminho, e me assusta imaginar que no futuro, ao invés de ver o escudo do Chelsea ou da Turquia, eu veja o do Brasil nestas imagens. E você, o que acha? Até a próxima!

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Campanha do Cruzeiro ganha o mundo

Há muito tempo o futebol deixou de ser jogado somente dentro das quatro linhas, conforme bem destaca Marcos Guterman no livro “O Futebol Explica o Brasil: Uma história da maior expressão popular do país”: “ O futebol é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e também consegue dar significado aos desejos de potência da maioria absoluta dos brasileiros. Essa relação , de tão forte, é vista como parte da própria natureza do país (…)”. Por essa razão, os clubes e jogadores de futebol acabam por possui um papel e uma relevância muito além das quatro linhas.

O Cruzeiro marcou um verdadeiro gol de placa quando no Dia Internacional da Mulher, na partida contra o Murici-AL, pela Copa do Brasil, os jogadores do Cruzeiro entraram em campo levando mensagens com referências às mulheres estampadas na camisa.

A inciativa do clube mineiro levantou uma importante reflexão diante de estatísticas que mostram a violência contra as mulheres, tais como “A cada 2h uma é morta”, “A cada 10 jovens, 8 sofreram assédio”, “A cada 11 minutos, um estupro”, “Apenas 9 em cada 100 deputados”, “Salários 30% menores”.

As estatísticas apresentadas foram colhidas pela pela ONG Azminas (que luta pelo empoderamento feminino) e demonstram o sofrido cotidiano das mulheres no Brasil.

A campanha denominada #VamosMudarOsNúmeros foi premiada com o Leão de Ouro na  categoria “Meios de Comunicação” do 64º Cannes Lion, a maior e mais prestigiosa premiação para a publicidade mundial.

O gol de placa teve o apoio da Umbro (fornecedora de material esportivo do clube) foi marcado pelo Departamento de Marketing do Cruzeiro em parceria com a Ong AzMina e a Agência New360.

Para se ter uma ideia do feito da equipe mineira, pode-se compara-lo ao recebimento de uma bola de bronze da FIFA por atleta que atue no Brasil.

Parabéns ao Cruzeiro! Medidas como essa no futebol tão importante culturalmente (e muitas vezes tão machista) são imprescindíveis para a mudança dos paradigmas da sociedade brasileira em casos de preconceito e intolerância.

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Respeitar a individualidade do jogador

Como treinador há 12 anos, cada vez mais, passo por experiências que fortalecem uma tese: nos 90 minutos, dentro do jogo, temos uma parcela mínima de atuação, ao mesmo tempo, podemos prejudicar e muito o andamento individual dos jogadores com demasiadas intervenções; também no processo semanal de treino, dependendo do que fazemos, podemos perder muitos talentos.

Claro, temos um papel decisivo nas escolhas globais e na forma como organizamos a equipe. O problema crucial é não se despir do ego de ser treinador, de realizar algumas intervenções marqueteiras e negligenciar que o jogo é dos jogadores na hora que a bola rola.

E isso tudo cria um paradigma que cada vez mais assola meus pensamentos: o que realizamos diariamente vêm diminuindo a capacidade individual do jogador?

A vida moderna do treinador, o acesso a muita informação vaga, os modismos, e especialmente a vaidade intrínseca a profissão, direcionou-me para essa pergunta acima, já que atualmente o protagonismo em cima do treinador está gigantesco, sobrenatural. O treinador tem se sentido onipotente. Mas poucos enxergam que isso arrasta algumas mazelas que afeta especialmente a dimensão individual do jogador.

E a dimensão individual nada mais é que a descoberta do jogador com seu próprio talento e a observação do treinador para desenvolver esse talento. Essa interação vai um pouco de encontro com as ideias de Ken Robinson em seu livro “O elemento”, onde afirma que “esse talento parte de uma cadeia de quatro elementos desenvolvidos de forma interdependente: capacidade natural, paixão, atitude e contexto”.

O jogador com sua capacidade natural, se primeiramente estiver inserido em um contexto adequado, cercado de pessoas pacienciosas, que querem desenvolver essa capacidade, com o passar dos dias vai reconhecendo sua potencialidade, o que tem de melhor, o que faz bem e com naturalidade. Essa identificação vai desenvolvendo cada dia seu talento de jogo. Isso criará também uma paixão pelo jogo e um compromisso com seu talento e automaticamente com a equipe. Também criará um espírito de atitude que o fará ter um compromisso individual para desenvolver outras capacidades. Ou seja, o jogador começa conhecer sem perceber cada vez mais sua individualidade.

Mas o problema atual, é que a capacidade individual de cada jogador, muitas vezes é suplantada pelo ego do treinador, em querer ganhar a qualquer custo, achar que o jogo se fabrica apenas por ele, por suas ideias ou por uma poção mágica de jogo.

A valorização excessiva da atuação do treinador, especialmente no sentido exacerbado de criar uma forma de jogar sem olhar para a capacidade natural dos jogadores, cria argumentos incongruentes e disparatados com a verdadeira atuação. Sobretudo na formação, devemos ter muito claro que precisamos ajudar os jogadores a ampliarem seus talentos.

Como treinadores, carregamos uma mochila de aprendizagem enxergando cada jogador com suas peculiaridades. Por isso, reforço que nosso papel não é tentar fazer os jogadores virarem reflexos do que pensamos ou ordenamos, mas sim que se desenvolvam individualmente e que lutem por sua autonomia.

Agora, se quisermos que os jogadores sejam fabricados como séries de produtos enlatados, convencidos que a uniformidade e o perfil único de atleta resolverão todos os problemas, acabamos tirando o brilho natural e o conteúdo individual que cada jogador arrasta consigo.

É conveniente que os treinadores saibam que qualquer tarefa feita, que qualquer atitude estranha, arrastará sequelas positivas ou negativas nesse desenvolvimento individual do jogador. Por isso, muitas ideias, muitas frases prontas que parecem modernas podem ser limitadoras e outras mais simples podem ser libertadoras.

O treinador da seleção argentina de voleibol, Julio Velasco, fala “que o prazer do treinador há de ser o prazer de um artesão, não o de um industrial. Somos artesãos do ensino e da formação do desportista. O treinador deve ser feliz com o progresso do esportista, não com o objetivo final que se consiga. Deve ser feliz pelo processo e não pela vitória. Isso deve encher de satisfação. O primeiro prazer é ver crescer os jogadores. E o segundo é a vitória que se obtém com esses jogadores”.

Abraços e até a próxima quarta!

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As milionárias pré-temporadas

Os clubes europeus já voltaram de férias. Como ocorre a cada novo ciclo, cada clube segue para alguma localidade em busca da melhor preparação para a desgastante temporada que terão pela frente. É o período onde o entrosamento entre comissão técnica e atleta ocorre, onde novas formações táticas são testadas e, como não poderia deixar de ser, também um período para trazer uma nova receita aos cofres do clube.

Antigamente, os clubes realizavam as suas pré-temporadas em localizações relativamente próximas de suas cidades. Jogos e torneios amistosos eram realizados, inclusive com clubes brasileiros participando, como no caso do Ramón de Carranza e do Teresa Herrera, torneios históricos realizados na Espanha.

Esses mais tradicionais ainda continuam existindo, mas sem o mesmo apelo de antigamente. O foco agora é a realização de pré-temporadas ao redor do mundo. Muitos clubes aproveitam essa janela para divulgar a sua marca em mercados como China, Japão e, mais recentemente, Estados Unidos.

Nesse ano, um grande torneio terá todas as atenções voltadas a ele por envolver os maiores clubes. Como o nome de International Champions Cup, o evento é dividido em três sedes (Estados Unidos, China e Cingapura) e contará com 15 clubes do porte de Real Madrid, Barcelona, Juventus, Milan, Inter de Milão, Roma, Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Manchester United, Manchester City, Chelsea, PSG, entre outros clubes locais.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Além de trazer uma nova fonte de receita recheada aos clubes, também é um momento importante para popularizar o futebol nesses mercados. A promessa desses jogos, que serão disputados a partir de hoje até o dia 30, é de casa cheia com os torcedores equipados com as camisas e outros produtos de seus times globais.

Imagine o Brasil recebendo um torneio com alguns desses clubes globais e a participação de alguns nacionais? Apesar do futebol não precisar de divulgação por aqui, o impacto seria de grandes proporções.

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Decidindo sobre uma nova carreira

Tenho escrito algumas vezes sobre a importância da gestão da carreira dos atletas e como isso é um tema valioso para os nossos debates atuais. Um fato recente colocou em prova a necessidade desta discussão: a demissão do cargo de treinador do ídolo São Paulino, Rogério Ceni.

Será que um adequado planejamento para transição de carreira, demonstra-se estratégia importante frente aos desafios da uma nova carreira para os atletas profissionais dentro do futebol brasileiro?

Podemos começar essa reflexão reforçando um ponto importante para um bom e adequado planejamento visando uma efetiva transição de carreira: as decisões fora das quatro linhas. Elas podem ser tão ou mais delicadas, do que aquelas tomadas dentro de campo e esse cenário traz a necessidade de cada atleta conhecer brevemente as fases de uma carreira no esporte e os impactos de uma decisão infundada.

Existem formas de apoio para que um atleta possa tomar as decisões mais adequadas, para sua carreira, fora do campo. Vamos relembrar uma delas: A análise do campo de forças. Este é um modelo baseado no trabalho de Kurt Lewin’s – “Teoria dos Campos”, que descreve o campo de forças ou pressões agindo em um evento particular num determinado momento. Essencialmente, a teoria sugere que forças que agem para mudar uma situação são balanceadas com forças que agem para resistir a mudança.

Na prática funciona desta maneira: um coach avalia junto ao coachee (atleta) quais são as forças que impulsionam e as forças contrárias em relação a uma determinada situação, cenário ou objetivo desejado. Ou seja:

  • Define-se a situação atual da carreira do atleta;
  • Define-se o objetivo do atleta (resultado desejado);
  • Identifica-se todas as possíveis forças impulsionadoras;
  • Identifica-se todas as possíveis forças contrárias;
  • Realiza-se uma análise das forças concentrando-se em:
    • Redução das forças contrárias a resistência;
    • Fortalecimento ou adição de forças impulsionadoras e favoráveis ao processo.

Tendo em mãos estas reflexões o atleta tem maiores e melhores condições de perceber se o cenário avaliado é o que mais se adere aos seus objetivos de carreira e aos seus desejos pessoais. A partir deste cenário, deve-se elaborar um plano de ação para atender os itens que fortaleçam e impulsionem a realização do cenário escolhido.

E aqui então, temos um grande e importante ponto de atenção, muitas vezes o atleta ainda não tem realizada todas as etapas e ações que são sugeridas no referido plano, e nestes casos ele pode cair numa armadilha de uma rápida transição, através de um promissor convite ou de uma repercussão positiva que sua carreira anterior tem sobre alguma instituição esportiva.

Isto posto, temos a possibilidade de analisar, frente ao acontecido com o ídolo São Paulino, se realmente as técnicas para um bom planejamento visando a transição de carreira são ou serão realmente efetivas, tendo em vista o contexto imediatista do nosso futebol, no que se refere ao cenário de uma carreira técnica dentro do esporte.

Até a próxima!

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Mas você é mulher

“Mas você é mulher!” – Quantas vezes nós, mulheres, já ouvimos essa frase? Quantas vezes você, leitor e leitora, proferiram esta frase? E nós, mulheres que gostamos de futebol, podemos multiplicar por vinte a quantidade de vezes em que a ouvimos.

Quando queremos ir ao estádio ou ao bar sozinha assistir ao jogo do time do coração, quando pensamos em profissões relacionadas à futebol… Ah, e se chegamos lá e cometemos algum deslize a frase muda um pouquinho para a clássica “mas tinha que ser mulher!”, mas continua ali, limitando, tachando e impondo regras que não existem ou, ao menos, não deveriam existir.

Certa vez fui ao bar sozinha assistir a um jogo do Palmeiras. Era final de campeonato, verdão brigando pelo título, domingo de sol típico para um barzinho… e eu não passei vontade, fui! A única mulher com camisa de time, a única mulher sentada sozinha em uma mesa, a única mulher que, aparentemente, estava acompanhando o jogo que passava em todos as televisões de todos os estabelecimentos. Essa deveria ser uma cena normal, mas não parecia ser! O que parecia era ser um convite para alguém sentar ao meu lado, parecia que eu esperava por algum convite, parecia que cada um queria dar a sua opinião e que todo o mundo parecia olhar – surpreendido.

“Mas ela é uma mulher sozinha em um bar, assistindo futebol”! Sim, uma mulher, em um bar, assistindo futebol, sozinha, torcendo, vibrando, roendo as unhas, tomando cerveja e que levanta, sozinha, paga a conta e vai embora.

Parece simples, parece intimidador, parece afronta, parecem tantas coisas, mas no fundo é apenas uma mulher fazendo o que quer.

“Mas você é mulher!”

“Sim, graças a Deus!”

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O risco de rebaixamento para o torcedor

A história se repete sem que vejamos mudanças concretas serem discutidas. O clássico entre Vasco e Flamengo foi mais um capítulo da triste história que vivemos há décadas nos estádios espalhados pelo país, com uma confusão generalizada ocorrida após o apito final.

O que é necessário acontecer para que o cenário mude? Virou rotina ver no noticiário a briga entre torcidas a cada rodada. E o que de fato acontece com esses criminosos?

De um lado, temos os clubes, que alegam não ter responsabilidade e que o problema é da polícia militar. De outro, temos a polícia, muitas vezes despreparada e que também corre grande risco por sempre estar em menor número. Temos também o poder público, incapaz de criar normas que efetivamente punam os responsáveis que se infiltram nas torcidas em busca de confusão. E, por um último, temos o torcedor.

Esse é quem mais perde e o único que não tem culpa. Cada vez mais afastado ou extremamente corajoso em arriscar a sua vida e de seus familiares para aproveitar 90 minutos da paixão que nutre pelo seu clube e pelo futebol.

Vasco confusão

A tendência, como de costume, é que o estádio de São Januário seja interditado por um número razoável de jogos. O clube merece uma punição? Sem dúvida que sim, porém não pode pagar o preço sozinho ou, ao menos, ver que a punição não mudará em absolutamente em nada a cultura enraizada.

Jogos com portões fechados, clássicos com torcida única, barreiras enormes para dividir as torcidas adversárias. Não chegaremos a nenhum lugar com essas medidas paliativas e sem sentido. E as brigas continuam, dentro do estádio ou bem distante deles.

E o torcedor? Esse só perde. Melhor assistir pela TV mesmo, carregando a tristeza ao ver um estádio vazio pela tela e segurando a vontade de estar lá vibrando, comemorando, se divertindo. Perde também o clube, salvo raras exceções, com receitas pífias de bilheteria. Perde o vendedor de pipoca, de bebida, o ambulante do churrasquinho. Perde o patrocinador, que não vê motivo para realizar ativações de matchday.

São tantas perdas que o caminho não pode ser outro do que a queda de divisão. Se é que ainda há formas de o torcedor ser mais rebaixado!

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E a Alemanha segue dando exemplo

Nas últimas semanas, o futebol alemão mais uma vez deu exemplo de que o trabalho sério e fundamentado (na ciência e não nos achismos), pode render valorosos frutos. A Alemanha sagrou-se campeã da Euro Sub-21 e da Copa das Confederações, batendo Espanha e Chile respectivamente, pelo mesmo placar de 1×0. A equipe que disputou a Copa da Confederações ainda possui uma particularidade, foi composta por jogadores jovens (na média de 23 anos) e jogadores que não são comumente convocados, a competição serviu de experiência para o treinador Joachim Löw observar jogadores, visando a convocação para a Copa da Rússia de 2018.

E estas conquistas do futebol alemão não são ao acaso, vem para complementar o título mundial conquistado no Brasil em 2014 e a medalha de prata nas Olimpíadas, também do Brasil, em 2016, resultados expressivos, fruto de uma reestruturação que o futebol alemão passou, e que teve início nos anos 2000, após eliminação ainda na primeira fase da Eurocopa.

Desde então a Alemanha investiu pesado na formação de jogadores. Cerca de 1 bilhão foram investidos na construção de centros de treinamentos para jovens espalhados pelos país, e que são abertos ao público, sem ligação com os clubes. A federação alemã passou a exigir que todos os clubes das séries A e B da Bundesliga possuíssem centros de excelência para suas categorias de base, uma “cartilha” de conduta para clubes foi criada, dentre outras exigências, onde além de manterem estruturas para as categorias menores, os clubes devem ainda cumprir com questões administrativas, como não poder gastar mais do que arrecadam. Os gastos com salários não podem ultrapassar 50% das receitas, não podem vender 100% de suas ações, sendo que 51% delas ficam com os torcedores. Esporadicamente os clubes são fiscalizados, e caso não consigam comprovar que estão cumprindo com as regras, podem sofrer sanções pesadas, chegando a poder ser rebaixado de divisão.

Ações como essa ajudaram a fortalecer o futebol alemão, além das recentes conquistas de importantes troféus, sua liga nacional tem a melhor média de público do mundo, cerca de 45 mil pessoas por jogo, só o Borrusia Dortmund tem média de 80 mil espectadores por partida! A média do Brasileirão gira em torno de 15 mil pessoas, menor que da segunda divisão alemã que é de 17 mil pessoas.

Os treinadores na Alemanha passam por um criterioso processo de formação, o que qualifica o trabalho dentro das quatro linhas. Vejamos a imagem que explica isso:

Fonte: https://daiotega.files.wordpress.com/2014/07/piramide_alemc3a3.png
Fonte: https://daiotega.files.wordpress.com/2014/07/piramide_alemc3a3.png

 

Os números alemães impressionam, porém, para todos os que levam o futebol a sério, e não somente com paixão, entendem que são marcas que o futebol brasileiro poderia também alcançar, ainda mais por termos mais que o dobro de território e população em relação a Alemanha. Mas, para isso, é preciso sair do comodismo e achismo que muitos insistem em permanecer, coisa que deveriam ter acontecido mais do que depressa após o fatídico 7×1 (que faz aniversário hoje, aliás). A máxima que “o futebol é assim, não vai mudar”, não cabe mais nos dias atuais.

Olhando para as duas últimas conquistas alemãs, podemos notar que todo esse trabalho vem dando resultado, é possível encontrar algumas semelhanças na forma de jogar da seleção sub-21 e da principal “B”. Claro que ambas enfrentaram situações bem distintas, a principal enfrentou o atual bicampeão sul-americana, o Chile, enquanto a sub-21 enfrentou a Espanha, de reconhecida competência na formação de jogadores. Para não estender muito, e até também pelos rumos que as partidas tomaram, a análise irá se ater à fase defensiva alemã, vejamos as semelhanças encontradas:

Imagem2
Sub-21

https://vimeo.com/224701535

Principal "B"
Principal “B”

https://youtu.be/2tKQRlm7HnQ

Estas são apenas pequenas amostras dos frutos que a Alemanha, após 17 anos do início de sua reestruturação, obteve. O projeto alemão segue a todo vapor e agora no mundial sub-17 poderemos ver aqueles que já iniciaram sua vida futebolística neste novo contexto, criado nos anos 2000. Vale a pena conferir o desempenho da equipe sub-17 e torcer para que nossos dirigentes, mesmo sendo medalhistas de ouro e pentacampeões mundiais, saibam se espelhar em nossos companheiros alemães, por enquanto, somente tetracampeões mundiais.

 

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Jogo de localização

O jogo de localização é um termo criado pelo treinador espanhol Juanma Lillo, atual treinador do Atlético Nacional da Colômbia. Procurei me aprofundar em algumas referências, escrever algumas inquietudes e compartilhar algumas ideias de reflexões que tive com meus amigos Willian Batista de Almeida (ex-treinador do Atibaia sub-17 de São Paulo) e Kevin Vidaña (atual treinador do Atarfe sub-19 da Espanha), ambos conhecedores do tema. A ideia da coluna é desbravar globalmente essa forma de entender o jogo para em futuras publicações pormenorizar alguns aspectos.

Crédito: Higuita e Lillo no Atlético Nacional da Colômbia| Reprodução: Twitter
Crédito: Higuita e Lillo no Atlético Nacional da Colômbia| Reprodução: Twitter

 

Bem, no futebol há várias formas de jogar e enxergar o jogo. Nenhuma melhor que a outra, apenas com ideias e convicções distintas. O jogo de localização é uma delas e tem seus ideais excêntricos. Primeiramente, entende que o jogo é dos futebolistas, e os futebolistas não atuam simplesmente, eles inter-atuam, se inter-relacionam formando uma unidade coletiva. Isso cria uma linguagem intencional-interativa que permite uma comunicação dinâmica entre todos.

Em seu artigo “A lógica interna e o jogo de localização”, Kevin Vidaña deixa claro que “o jogo de localização tem suas bases estruturais e funcionais na lógica interna do jogo, que não suporta mais ideologia que a sua própria. É um conjunto de normas conexas entre si, a fim que seus propósitos de atividades não se produzam de forma isolada, dispersa ou fracionada, e nos indiquem a intencionalidade do jogar”.

De forma geral, o termo localização vem de uma fusão entre posição e situação. Investigando no dicionário, percebemos que o termo posição tem uma relação sinônima com postura, já o termo situação tem a ver com circunstância calhada de algum lugar ou para algum lugar. Ambas se relacionam invariavelmente, e uma coisa sucede a outra previamente-posteriormente e positiva-negativamente.

Assim, um jogador pode estar fora de posição mas em boa situação, ou pode estar na posição em uma situação ruim, por alguns motivos invisíveis e outros visíveis, tais como: variabilidade do jogo, oposição do adversário e leitura individual. Mesmo com isso, pode ainda ter vantagem naquele instante. Porém, uma coisa sucede a outra, e a verdadeira pujança só acontece com o domínio da relação entre posição e situação e isso acaba delineando e desenhando a energia varonil do jogo de localização.

Então, de nada adianta um jogador estar bem situado ou em uma determinada posição, seja ela no recomeço a frente da linha, entre os jogadores da linha, no lado forte ou contrário da linha ou nas costas da linha, se não existir intencionalidade coletiva cinética, e especialmente liberdade organizada entre todos os jogadores, seja no jogador que intervém e nos outros 10 jogadores, para que possam simplesmente interagir uns com os outros, com a bola, o tempo, o espaço, superando o oponente e provocando uma conjecturada superioridade.

E a implicação dessa superioridade é simples: visa desorganizar a defesa adversária. E há um paradigma em cima disso. O jogo de localização é muito maior que simplesmente gerar superioridade numérica, tocar a bola, trocar de faixa ou corredor. Também não é uma simples sucessão de passes ou apenas realizações de passes. Ele envolve interações com passes, conduções, enganos, dribles, transportando consigo maiores probabilidades de eliminar adversários com criatividade contextual. Assim realmente vai gerar desequilíbrios vantajosos e dinâmicos.

Tais interações são geradas por uma intencionalidade fulgente, com conteúdos, com uma série de condições estruturais e funcionais, que ditam o jogo de localização, garantindo o momento posterior ou o contínuo do jogo. O local onde estou, para onde vou, onde quero estar, onde devo estar, onde meu companheiro está, para onde vai, se sou beneficiado ou devo beneficiar o companheiro, evidenciam a situação e a posição agindo como uma fluidez unitária, uma transcendência funcional que se ordena organizadamente e espontaneamente desordena o adversário através do contínuo do jogo, por meio da transformação dos espaços e os ajustamentos naturais dos jogadores.

E, essa forma de jogar, os jogadores devem saber o que fazer e também devem criar o que fazer. Se há um processo de início, progressão e finalização, com referências comuns, como distâncias de relação, escalonamentos, perfilamento corporal, fixações dos adversários, há muitos pormenores que a forma de desenvolvimento do jogo de localização pode enriquecer o jogador e a inteligência da criação liberta. E o interessante também é que a relação entre o estar situado e o estar posicionado por mais próxima que pareça ideal, ao mesmo tempo é imprevisível, já que não existe o ideal, pois muitas interações apenas acontecem e são eficazes para aquele instante. Por isso, saber o que é a essência do grande jogo e sua lógica interna, é imprescindível para o jogo de localização.

Saída em primeiro momento do Barcelona – foto retirada do artigo “A lógica interna e o jogo de localização” de Kevin Vidaña
Saída em primeiro momento do Barcelona| Reprodução: foto retirada do artigo “A lógica interna e o jogo de localização” de Kevin Vidaña

 

Para o treinador espanhol, Oscar Cano, profundo entendedor do jogo de localização, “todas as interações com bola, seja em condução, passe ou drible, fazem-se para atrair o adversário. Uma temporização de 2,3 segundos prendendo a bola às vezes deixa a priori o adversário organizando, mas libera alguém livre para ser um futuro receptor. É uma referência contínua para desajustar e separar o rival e que o rival libere espaços para a equipe progredir, receber atrás das linhas de pressão e quebrar linhas com rupturas curtas e longas pelos desajustes conseguidos. Perceber onde os companheiros estão e suas repercussões, atendendo aos movimentos, as fixações, como vão movendo a defesa para buscar o companheiro melhor condicionado, viajando todos juntos, toda equipe, formando um bloco ofensivo, gerando superioridade, é o segredo dessa forma de enxergar o jogo”.

Então não se trata de posicionar para apenas gerar uma suposta superioridade estática em alguma região do campo, ou seja, não se trata posicionar por posicionar, da mesma forma que não se trata de passar a bola por passar, de movimentar excessivamente por movimentar; trata-se de estar bem localizado, e estar bem localizado é estar no momento e no timing certo dentro do espaço, no tempo certo sem estar cedo demais ou atrasado. É dar um sentido para todos os movimentos sem mecanizar, pois ao mecanizar supostas vantagens e espaços, pode-se tirar a essência coordenativa das interações naturais que fluem dentro das transformações dos espaços onde a vantagem realmente ocorre em cima do oponente.

E falar de interações naturais mais proveitosas pode ser uma “anti-tese”, pois a natureza não entende de interesses e aproveitamentos, desconhece a concepção “eu”, desconhece o significado de “utilidade”. Como saber o que é verdadeiramente útil ao jogo?

Por isso, a chave do jogo de localização é simples: conhecer a lógica interna do jogo, a natureza do jogo, estar bem situado e estar bem posicionado no timing certo, fazendo a bola mover-se de diferentes formas para novas localizações evitando o uso excessivo de movimentos mecanizados, especialmente de aproximação e apoio, reconhecendo a verdadeira hora de aproximar, afastar, parar, correr, frear e acelerar. Isso vai proporcionar aos jogadores relações para que identifiquem o manejo individual do tempo, espaço e da velocidade para cada instante. Isso fará com que cada jogador se conheça melhor e conheça melhor seu companheiro, o que vai fazer o jogo ficar singularmente coletivo e transcender a visão da troca excessiva de 650 passes curtos por jogo ou usar a posse de bola para apenas passar a bola.

Abraços a todos e até a próxima quarta!

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O Touro Vermelho e Verde

Na semana passada, a tradicional Portuguesa de Desportos, a querida Lusa, protagonizou o ápice de seu declínio ao ser desclassificada logo na primeira fase da Série D do Campeonato Brasileiro, a última divisão da competição nacional. Com esse resultado, o clube não tem assegurada a sua participação na edição em 2018, somente se for campeã da Copa Paulista nesse segundo semestre.

Durante a semana passada, um assunto que fez grande barulho circulando pela internet foi a ideia de alguns torcedores incentivando a fusão da Lusa com o clube de futebol Red Bull Brasil, fundado pela marca austríaca há exatos 10 anos. Apesar de ter conseguido uma rápida ascensão à elite do futebol paulista, o clube também foi eliminado logo na primeira fase da Série D do Brasileiro desse ano.

Essa ideia encontra razão como forma desesperada de dar sobrevida ao clube de origem portuguesa. Além do terrível retrospecto de 2013 para cá, o clube está afundado em dívidas, que contribuíram de forma devastadora para a situação atual. Porém, dificilmente a ideia encontrará respaldo racional e que se concretize em um negócio sustentável.

Em seus áureos tempos, a Lusa era admirada por conseguir brigar de cabeça erguida com os gigantes Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos. A fórmula do sucesso estava em sua capacidade de revelar grandes jogadores do porte de um Denner, da influência da comunidade portuguesa na gestão e, principalmente, pela força de seu clube social, que possuía mais de 100 mil sócios adimplentes. Hoje, o futebol de base não possui nenhuma condição estrutural para revelar algum novo craque, a comunidade portuguesa cansou dos desmandos ocorridos e, os sócios, seguindo o que ocorreu com outros tradicionais clubes sociais da cidade, desapareceram.

Crédito: Reprodução
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A empresa de energéticos Red Bull construiu uma relação muito próxima com o esporte mundial, criando eventos diferenciados e ultrarradicais, ao mesmo tempo em que apostou no futebol com um modelo inovador ao dar nome a diversos clubes espalhados por países como Áustria, Estados Unidos e Alemanha, onde conquistou inclusive o vice-campeonato da Bundesliga nessa temporada. Aqui no Brasil, os resultados ainda são tímidos, porém a imagem de inovadora e de gestão eficiente fez com que os lusitanos arregalassem seus olhos ao pensar na ideia dessa fusão.

A empresa, de forma inteligente e divertida, aproveitou essa situação para lançar mensagens com seu mascote em “territórios” portugueses, degustando os pratos tradicionais dessa rica culinária, como o bolinho de bacalhau e o pastel de Belém.

Enfim, ideias não custam nada. Como seria essa junção entre a tradição e a modernidade? Entre o conservador e a inovação? Apesar de pouco provável, vale acompanhar os desdobramentos. É melhor nunca duvidar da força de um touro, da obstinação de um português e, principalmente, do que o futebol é capaz de inventar.