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Por abordagens metodológicas que valorizem a qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro

Por Eduardo Barros* & Rafael Castellani**

Tem sido frequente, nos clubes, imprensa e no âmbito acadêmico, muitos apontamentos que destacam a importância de resgatarmos a nossa identidade de jogo que, no decorrer do tempo, por questões multifatoriais, vem se perdendo. O problema é grave e as críticas, culpados e responsáveis, surgem de todos os lados. Para alguns, a culpa é dos treinadores profissionais que, pressionados por resultados ou influenciados por outras culturas de jogo, tem aplicado Modelos de Jogo que se distanciam das principais características do nosso futebol. Para outros, os responsáveis são os profissionais das categorias de base que não aplicam treinos de fundamentos, o que sempre foi um diferencial dos nossos principais atletas. Outros, ainda destacam que os empresários são os culpados, uma vez que influenciam os nossos jovens a perderem o prazer e a paixão pelo jogo. Vale, também, a crítica à distância entre o que é produzido pelos pesquisadores/cientistas e a realidade concreta nos clubes e escolas de esporte. Neste cenário, temos também a imprensa, que atua criticamente e não só escancara, mas potencializa, nossos problemas, pois alimenta um ciclo vicioso e reconhecido do futebol brasileiro: a falta de projetos de longo prazo, a busca a qualquer custo do resultado imediato e a excessiva demissão e rotatividade de treinadores em todos os níveis, mas, especialmente, no futebol profissional. Existe mais uma série de argumentos que expõem o distanciamento do melhor futebol brasileiro e precisamos ter clareza que uma questão de natureza complexa como essa não tem origem ou causa em somente um elemento.    

Diante de todo esse contexto, é notável em nosso jogo, menor ofensividade, movimento, beleza, arte, alegria, ginga e criatividade. Afinal, para que estes elementos estejam presentes, um ambiente favorável precisa ser criado. E será que existe alguma maneira de (re)criarmos, mesmo com tantos desafios e pressões, tal ambiente? 

O estímulo à qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro passa, necessariamente, pela adoção de abordagens de ensino-aprendizagem-treinamento, em todos os níveis da modalidade (da Iniciação ao futebol Profissional), que tenham no Jogo, em sua essência, a principal ferramenta para o desenvolvimento dos jogadores. Além disso, é indispensável que o foco da abordagem seja dado a cada indivíduo em sua totalidade, num processo humanizado que explora as potencialidades e virtudes, permitindo que o talento de cada indivíduo tenha espaço para se manifestar.

Destacados especialistas da Pedagogia do Esporte no Brasil, como João Batista Freire, Alcides Scaglia e Wilton Santana, dentre outros, apontam que o Jogo é o melhor meio para a educação integral, logo esportiva, das nossas crianças e jovens que sonham em se tornar atletas profissionais de futebol. Logo, o jogo configura-se como elemento central do treino para que se promova a adaptação dos jogadores às diversas situações, de modo que percebam autonomamente as situações e “problemas do jogo”, adquiram propriedades para tomada de decisões e respondam às ações de companheiros e adversários (e suas interações).

Mais do que isso, como vemos destacando, é preciso, também, que a metodologia de treino adotada por treinadores dê conta de lidar com a imprevisibilidade, aleatoriedade e o ambiente caótico inerentes ao futebol, por conta da sua grande complexidade. É a prática cotidiana sob essas condições (de treino) que garantirá aos jogadores maiores possibilidades de desenvolverem e expressarem sua criatividade, a beleza dos seus gestos e dribles/fintas, sua ginga e um estilo ofensivo de jogo, algo que, por décadas, caracterizou o estilo/essência do futebol brasileiro.       

Com o avanço dos estudos no campo da pedagogia do esporte, muitas abordagens metodológicas foram propostas. Além dos professores supracitados (João Batista Freire, Alcides Scaglia e Wilton Santana), há tantos outros (Roberto Paes, Larissa Galatti, Julio Garganta, Claude Bayer e Pablo Greco, por exemplo) que, mesmo considerando as especificidades de suas proposições e teorias, corroboram a necessidade de ruptura com abordagens pedagógicas que fragmentam o jogo e que desconsideram a interferência de fatores complexos  no desenvolvimento da capacidade dos praticantes em compreender os fenômenos do jogo e intervir de modo inteligente nas situações que ele impõe aos praticantes.

Nesse sentido, gostaríamos de destacar uma destas abordagens que, no nosso entendimento, pode trazer grandes contribuições para que o futebol brasileiro resgate e manifeste, em maior proporção, elementos do nosso jogo que sempre nos identificaram futebolisticamente: a pedagogia da rua.

Desenvolvida por João Batista Freire e “alimentada” por tantos outros professores e treinadores, a pedagogia da rua é apresentada por Freire (2022) no seu mais novo livro “O jogo de bola na escola: introdução à pedagogia da rua”, como a teorização de uma prática realizada no ambiente da rua, entendendo-o como um espaço que extrapola os limites das calçadas. Rua, neste caso, é, também, os campinhos de várzea, as praias, as praças etc. Ou seja, não se trata de realizar uma transposição mecânica do futebol jogado na rua para as escolas de futebol e clubes, mas, ao pedagogizar essa prática, dotá-la de um método que qualifique e dê novo significado ao que se aprende e como se aprende a jogar futebol. Nesse sentido, “a pedagogia da rua não é a educação da rua” (FREIRE, 2022. p.40). Da mesma forma, não podemos tratar o futebol de rua ou o jogo de bola na rua como um sinônimo da pedagogia da rua. Mas a rua, como uma pequena sociedade lúdica, na qual inúmeros jogadores de futebol se formaram, sendo o principal espaço de aprendizagem de tantos craques brasileiros, produz conhecimentos e nos apresenta um processo de aprendizagem que podem ser levados às categorias de base dos clubes de futebol.           

O essencial é que essa pedagogia se baseie no jogo e na brincadeira, ou seja, no lúdico. A partir da expressão do lúdico e pelo resgate do prazer na prática do futebol (nada parecido com as filas intermináveis e repetitivas para realizar uma finalização, um passe ou driblar um cone), podemos formar atletas conscientes da sua prática e das suas ações durante o jogo, capazes de resolverem os problemas (do jogo) de modo inteligente, autônomo e criativo.

Se o ambiente da rua deve estar presente nos clubes de futebol brasileiros e, mais especificamente, em suas categorias de base, o que esperar das sessões de treinamento para as nossas crianças e jovens? O que nos vem à mente quando pensamos, quer tenhamos praticado ou não, o futebol de rua? Como levar a pedagogia da rua, na prática, para o clube?

Os treinamentos que buscam recriar o ambiente da rua precisam oferecer aos jogadores diversas características; e a liberdade, seguramente, é a principal delas. Mas como estimular a liberdade nas categorias de base? Estimulá-la, em hipótese alguma deve ser resumida à permissão para os jogadores de ataque poderem driblar quando invadirem ou estiverem no último terço do campo. Em contrapartida, não limitar ou, ao menos, ampliar a área de atuação de cada um dos jogadores é um importante passo, bem como permitir que o drible e outras jogadas de maior risco estejam presentes em todos os setores do campo. Um zagueiro deve, em seu processo de formação, passar por várias posições da modalidade. Nas sessões de treino, precisa ser estimulado a cumprir funções de lateral, de volante, de meio-campista e, inclusive, de atacante. Durante as atividades propostas pelo seu treinador, mesmo que inicie um determinado exercício como zagueiro, deve ter liberdade para tocar e passar, para jogar do lado direito e esquerdo, para atuar fora de sua posição e realmente jogar (e viver e sentir) o jogo em todas as suas possibilidades. Se estiver no campo de defesa e o drible for uma boa solução, precisa arriscá-lo. Se está sob pressão, mas tem um companheiro que abriu linha de passe na tentativa de sair jogando, deve tentar a ação, mesmo que erre. Imagine um zagueiro que receba o estímulo de poder driblar ou passar sob pressão, todos os dias, por 10 anos de categorias de base, do sub-11 ao sub-20. Compare com um zagueiro habituado apenas a buscar soluções simples e de baixo risco. A diferença de recursos entre um jogador e outro será significativa.

A liberdade é a chave para a autonomia, inteligência e criatividade! Quem se sente livre para jogar, desenvolve a tomada de decisão. A exposição à prática autônoma é o caminho para jogar bem e melhor, logo, de forma inteligente. E, parafraseando o criador da Pedagogia da Rua, João Batista Freire, como o jogo é o paraíso da imprevisibilidade (2024), pode ser também o paraíso da criatividade, ou das novidades que podem emergir como soluções para os problemas que o jogo impõe ao praticante que, por sua vez, tem liberdade para decidir e agir.

É importante deixar claro que o exemplo dado sobre os zagueiros se aplica a todas as posições, até mesmo ao goleiro. Já pensou se os goleiros, ao longo do processo de formação, treinassem sistematicamente (não todos os dias, claro) em diferentes posições na linha? Um goleiro que recebe ou precisa executar um passe ao longo do jogo e tem diferentes soluções como resposta aumenta o nível de jogo da sua equipe em comparação àquele que só tem o chutão como recurso? Treinar como jogador de linha auxiliaria o goleiro a desenvolver competências e habilidades que podem ser transferidas para a sua posição formal? Vale uma boa reflexão sobre esta questão…

Diferentemente do ambiente da rua, cujas relações, combinados e decisões são tomadas de modo diferente e pelas próprias crianças e jovens, os clubes de futebol contam com a atuação não só do treinador, mas de toda a comissão técnica, com mais ou menos integrantes, de acordo com a estrutura, tamanho e recursos de cada um. Pedagogizar o conhecimento produzido na, e pela, rua, e levar essa pedagogia às escolas de esporte e categorias de base dos clubes, além de servir à propósitos diferentes, significa atribuir ao adulto (o professor, treinador, dentre outros) papel protagônico na construção de um ambiente de treino que permita a liberdade (e não só) como forma de expressão da criatividade e de tomadas de decisão autônomas. Este adulto, no âmbito dos clubes de futebol, em especial nas categorias de base, pode ser qualquer profissional que faça parte da comissão técnica, mas centralizaremos, neste texto, na figura do treinador, por entendê-lo como principal líder de uma equipe esportiva.   

Nesse sentido, é fundamental que o treinador oportunize aos atletas a maior quantidade e mais diversas experiências possíveis, preferencialmente com bola, que se aproximem ao máximo das condições de jogo com as quais o jogador tem que lidar. Além de planejar tais situações de aprendizagens, como temos destacado, cabe também ao treinador incentivar e encorajar o drible, o improviso, a antecipação de uma jogada, ou seja, dotar seus atletas de liberdade para serem eles mesmos e expressarem sua criatividade a partir do estabelecimento de uma cultura de aceitação e compreensão do erro. Afinal, o erro é elemento indissociável do processo de aprendizagem.

Diante de todas estas responsabilidades do treinador, entendemos que este profissional precisa estar muito bem preparado para liderar um grupo de crianças ou jovens, praticantes de futebol. Será possível desenvolver jogadores e equipes criativas, ofensivas, móveis, versáteis, corajosas se o treinador não reunir e aprimorar estas características? Destacamos a necessidade de os treinadores terem a capacidade de (re)criar o ambiente da rua, com aquilo de bom que ela tem a nos oferecer pedagogicamente, em suas sessões de treinamento, no entanto, será que, via de regra, ofertamos um ambiente institucional favorável para o desenvolvimento dos treinadores alinhados ao estilo e essência do futebol brasileiro?

Como a prática do futebol está sendo realizada de forma supervisionada e orientada desde a infância, não será possível alimentarmos a qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro se não houver um investimento significativo em nossos formadores. Eles são os guias, ou mediadores, para o surgimento, em maior escala, de melhores jogadores e melhor nível de jogo nas categorias de base.

O planejamento de atividades, as conversas iniciais e finais de cada treino, a disputa de competições, a construção da equipe, a gestão do grupo, as abordagens individuais, a condução dos exercícios, a gestão da comissão técnica, o cuidado, a atenção e o olhar para a formação integral dependem de uma liderança que tenha ampliado conhecimento sobre tudo que envolve o desenvolvimento humano e, também, das equipes de futebol.    

 Idealmente, um bom treinador não só tem ampliado conhecimento como busca aperfeiçoá-lo continuamente, atento às melhores práticas (pedagógicas, técnicas, de gestão, de comunicação, de liderança, de treino) aplicadas ao seu grupo de jogadores. Um bom treinador e sua equipe de trabalho irão colher informações-chave sobre cada jovem, como sua história de vida, sua educação formal, sua condição social e vão se valer dessas informações para balizar suas ações.

É neste contexto complexo e holístico, como a vida, que as novas bases para a (re)criação de um novo futebol brasileiro precisa estar fundada. É urgente a implantação de Modelos de Jogo que tenham como princípios a liberdade estrutural, a multifuncionalidade, o refino técnico, o jogo ofensivo, a ginga, a coragem e não só a permissão, mas o estímulo sistematizado da criatividade, individual e coletiva. Uma vez que o jogo é coletivo e é consensual a existência de equipes cada vez mais organizadas, compactas e sólidas defensivamente, não podemos resumir a criatividade às jogadas de efeito, de característica individual, como um drible ou uma finalização inesperados, que tem a possibilidade de definir uma partida truncada, mas também o direcionamento (se recorda que classificamos o treinador como um guia?) das ocupações do espaço pela equipe de modo que através dos passes, o meio técnico-tático mais utilizado no jogo de futebol, emerjam jogadas coletivas com potencial para desestruturarem as melhores defesas.  

E como cada equipe é constituída de seres únicos, treinadores e jogadores, seguramente estaríamos diante de Modelos de Jogo também singulares, autorais, dotados da beleza de não serem uma cópia ou adaptação de qualquer outro. Parece utópico? Sim! Mas é possível…

Vale destacar que há grandes equipes e treinadores que podem servir de referência para a implantação dos Modelos de Jogo em toda a realidade das categorias de base. Inclusive, quando abordamos a retomada da qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro, reconhecemos que existem exemplos históricos que nos direcionam para um caminho que tem a cara do nosso povo, da nossa cultura e da nossa identidade. Que estes grandes exemplos, do passado ou atuais, sejam inspirações para os nossos formadores, da iniciação esportiva à porta de entrada para o alto rendimento.  

Sobre os autores:

*Eduardo Barros – Atual auxiliar técnico do Fluminense, já atuou na equipe principal da Seleção Brasileira e tem experiência tanto em categorias de base como no profissional em outros clubes: Athletico Paranaense, Coritiba, Juventude, Grêmio Novorizontino, Audax-SP e Oeste. Possui a Licença PRO de treinador da CBF Academy, sendo bacharel em Educação Física (Unicamp) e pós-graduado em Administração de Empresas pela FGV. Ele também é consultor pedagógico na Universidade do Futebol.

**Rafael Castellani – Atualmente é professor da CBF Academy, líder do grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol e Pesquisador Colaborador do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia de Estudos do Futebol Brasileiro. Possui licenciatura em Educação Física (Unesp), mestrado em Educação Física & Psicologia do Esporte (Unicamp) e doutorado em Psicologia Social & Psicologia do Esporte (Usp).

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Final do Paulistão 2026 com projetos

Por: Marcel Capretz

A final do Campeonato Paulista 2026 expõe dois projetos diferentes, porém eficientes e consolidados: a eficácia e grandeza do Palmeiras e o organizado e inteligente Novorizontino. Cada um com uma realidade diferente, em função do tamanho, história e capacidade de arrecadação, porém bem sucedidos dentro do escopo a que se propõe. Corinthians e São Paulo, que fizeram as semifinais, poderiam ter chegado na grande decisão, mas aí o modelo profissional não ficaria tão evidente já que ambos os clubes sofrem um verdadeiro caos administrativo e financeiro.

A cultura nociva do futebol brasileiro apontou o 2025 do Palmeiras como ruim. Particularmente, não consigo considerar ruim chegar a final da Libertadores e ser vice-campeão Brasileiro. Voltemos aos dois outros grandes da capital paulista: é possível de maneira cristalina imaginar Corinthians e São Paulo na final da Libertadores em um futuro próximo? A última final corintiana foi em 2012 e a última tricolor foi em 2006…pelos lados palmeirense é possível imaginar outra final da América em um, dois, três anos…isso porque tem trabalho. Tem projeto. Tem consistência.

Analisando o Novorizontino a lógica é a mesma. O clube foi literalmente refundado e calcado desde o recomeço em gestão profissional, austeridade e pé no chão. Um passo de cada vez. É muito concreto imaginar a equipe de Novo Horizonte na Serie A do Brasileiro, já que tem batido na trave nos últimos anos. É um cenário completamente diferente, por exemplo, do último adversário de menor tamanho que o Palmeiras enfrentou em uma final de Estadual, em 2023, que foi o Água Santa. Alí foi um trabalho pontual que funcionou, mas que dava claros sinais que não se sustentaria. O mapa do futebol não para de mudar e mais importante do que um suposto peso da camisa, baseado em uma história que fica cada vez mais para trás, o que vale hoje é profissionalismo, conhecimento para tomar boas decisões, responsabilidade financeira e governança. Por mais finais como essa entre Palmeiras x Novorizontino para que o amadorismo fique cada vez mais escanteado.

Foto: Fabio Menotti/Palmeiras/by Canon

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br

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Saúde Mental no Esporte: um jogo que começa dentro da cabeça do atleta

Por: Maurício Rech

Por muito tempo, acreditamos que o maior campo de batalha no futebol era o gramado. Hoje, a ciência mostra que a disputa mais silenciosa e decisiva acontece dentro da mente dos atletas — e é justamente aí que reside o futuro do alto rendimento.

Estudos recentes sobre saúde mental no esporte de elite apontam uma realidade preocupante: atletas de alto desempenho têm riscos iguais ou até maiores de desenvolver transtornos emocionais do que a população geral. Ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono e abuso de substâncias são alguns dos sintomas mais recorrentes. E a razão não é fraqueza. É sobrecarga!

A Neurociência ajuda a explicar esse fenômeno: o cérebro humano não foi projetado para viver sob estresse crônico e vigilância constante. Em contextos de pressão intensa — como jogos decisivos, exposição midiática ou cobranças internas e externas — o sistema nervoso ativa mecanismos de sobrevivência, como a liberação contínua de cortisol. O resultado? Queda de rendimento, falhas cognitivas, lesões por tensão muscular e, em muitos casos, colapsos emocionais invisíveis aos olhos do público.

O maior adversário de um atleta, muitas vezes, não é o outro time. É o não lidar com as próprias emoções.

Esse cenário desafia os gestores do futebol moderno a mudarem de paradigma. Já não basta cuidar apenas da força física, da tática ou da nutrição. É preciso entender que cuidar da saúde mental não é luxo — é estratégia de alto rendimento.

A Psicologia Positiva, aliada à Neurociência, oferece caminhos científicos e funcionais para promover esse cuidado. Modelos como o PERMA, por exemplo, mostram que o bem-estar de longo prazo depende de cinco elementos-chave: emoções agradáveis, engajamento, bons relacionamentos, sentido de propósito e conquista. E o mais interessante: tudo isso é treinável! O cérebro possui plasticidade — ou seja, pode se adaptar e crescer a partir de experiências estruturadas de regulação emocional, mindfulness, mental skills training e feedback positivo.

Imagine um clube onde atletas são preparados não apenas para o jogo especificamente, mas para lidar com frustração, crítica, falhas e transições de carreira de forma mais ampla. Onde líderes sabem escutar e oferecer suporte emocional. Onde o ambiente de treino é, ao mesmo tempo, exigente e acolhedor. Isso não é utopia — é o que clubes de elite no mundo inteiro já começaram a construir com base em ciência!

Além disso, a integração de ferramentas digitais e inteligência artificial no monitoramento emocional está ampliando a capacidade dos clubes de identificar sinais precoces de exaustão psicológica. Já existem tecnologias que avaliam humor, sono, estresse e engajamento em tempo real — mas elas só são úteis quando associadas a uma cultura de cuidado.

É chegada a hora de perguntar: “O que estamos fazendo para proteger e potencializar a mente dos atletas?” Porque treinar as dimensões mais biológicas do atleta sem levar em conta as dimensões neuronais, é como escalar um jogador machucado: ele pode até ter certo desempenho, mas certamente não renderá tudo o que pode dentro do seu potencial.

Investir em saúde mental não é tratar doenças. É cultivar longevidade, foco, equilíbrio e alta performance. É formar atletas mais humanos — e clubes mais inteligentes.

O futebol começa no cérebro. E quem aprender a treinar emoções com a mesma seriedade que treina finalizações, vai estar à frente. Não só no placar, mas naquilo que realmente importa: pessoas inteiras, capazes e prontas para vencer — dentro e fora de campo.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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A grandeza de um clube está nos seus valores

Imagem: Reprodução/Instagram @luisao4oficial

Como ex-capitão e alguém que dedicou tantos anos da sua vida ao Benfica, não posso esconder a minha preocupação diante da postura adotada pelo clube nas acusações de racismo feitas por Vini Jr. a um de nossos atletas. Para o meu espanto, a reação institucional foi de adesão imediata ao discurso do jogador acusado, sem que, aparentemente, houvesse qualquer interesse genuíno em apurar os acontecimentos após uma denúncia tão grave.


O uso da imagem de Eusébio, nossa maior lenda, como um escudo que supostamente blinda o clube de ser falível no combate ao racismo foi no mínimo doloroso, assim como as inúmeras tentativas de descredibilizar a vítima.


Doloroso porque o Benfica sempre foi maior do que qualquer circunstância, qualquer jogador, dirigente ou momento. Sempre se apresentou como uma instituição de valores, de dimensão humana e de responsabilidade histórica. Foi assim que eu aprendi e que vivi desde o momento em que cheguei à Luz, em 2003, quando o clube vivia uma de suas maiores crises desportivas.


Hoje, porém, vivemos um outro tipo de crise, muito pior, porque é moral, e que me gera questionamentos inevitáveis: do lado de quem estamos? E, mais importante ainda, do lado de quê estamos? O que defendemos nas nossas vidas? Queremos realmente enfrentar o problema de frente ou só desejamos convenientemente varrê-lo para debaixo do tapete?


Neste momento, é isso que está verdadeiramente em debate. Não se trata de rivalidades, de proteger A ou B. Trata-se de princípios. Racismo não é opinião. É uma chaga que precisa ser combatida com firmeza e responsabilidade, e talvez, como sociedade, o primeiro passo seja o mais difícil: olharmos no espelho e examinarmos nossas consciências.

É doloroso ver este gigante, por natureza e por história, sofrer nas mãos de quem aparentemente tenta apequená-lo moralmente. O Benfica que eu conheci e defendi dentro de campo sempre esteve do lado certo da história.
O tempo se encarregará de mostrar, com plena justiça, quem esteve de que lado das trincheiras. E eu espero, sinceramente, que estejamos à altura da grandeza que sempre nos definiu.

Parabéns ao Benfica que ontem completou 122 anos de uma das mais lindas histórias do desporto. Que a grandeza deste símbolo seja sempre medida não só por suas conquistas, mas também pelos valores que escolhe defender.

122 anos do Benfica

*Luisão é ex-atleta, com passagens Cruzeiro, Benfica (onde foi capitão, 2º atleta com mais partidas e com maior número de conquistas pelo clube, além de ter atuado defendendo a Seleção Brasileira. Também atuou como embaixador e gestor técnico do Benfica. Atualmente é comentarista esportivo da ESPN.

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Tirando os racistas da toca

Imagem: Reprodução/Instagram @realmadrid

Gosto do jeito como Vinícius Jr. comemora seus gols. Provocativo ele cutuca os racistas em suas tocas. Cutucados, eles mostram as garras, destilam seus venenos e então podemos identificá-los com mais facilidade.

O futebol tem sido, historicamente, um reduto acolhedor de fascistas em suas mais diversas versões. No estádio repleto, entre boas e más pessoas, encontramos os misóginos, os machistas, os homofóbicos, os xenófobos, os racistas e outros. Ofendidos pelas manifestações de Vini Jr. após seus gols, os fascistas não o xingam de idiota, estúpido, grosseiro etc., mas de preto, de macaco. Para os racistas chamar alguém de preto é um xingamento.

Vinícius não é santo. Várias atitudes suas irritam. Recentemente xingou publicamente, durante um jogo, o técnico de sua equipe. Tremenda falta de educação. Mas ele é, também, virtuoso, craque de bola e corajoso. Consegue desfilar enorme habilidade para jogar futebol carregando o peso de torcidas inteiras praticando o mais refinado racismo contra ele. E vai fundo, vai ao juiz, que geralmente fica perdido sem saber exatamente o que fazer, vai ao seu clube, vai às autoridades maiores do futebol, move processos. Não dá sossego aos fascistas.

O último episódio de espetáculo racista foi dado durante a partida entre Benfica e Real Madrid, no Estádio da Luz em Lisboa. Depois de um tremendo golaço Vini Jr. comemorou provocando a torcida que já o provocava há algum tempo. Reagiram com o esperado racismo. Além disso, um dos jogadores do Benfica, Prestianni, tampou a boca com a camisa do clube e xingou o brasileiro de macaco. Vinícius parou o jogo, chamou o juiz, fez um escarcéu. O árbitro interrompeu a partida, mas cedeu, e ela prosseguiu. Nesse meio tempo o técnico do Benfica, Sr. José Mourinho, foi ao brasileiro e sugeriu que ele fosse bem-comportado, que comemorasse como Pelé, Eusébio e outros. Se ele se comportasse bem, não seria incomodado pelos racistas. Embora, é claro, os racistas continuassem a existir, livres para praticar seu racismo à vontade. Enganou-se o Sr. Mourinho. Os escravizados brasileiros eram castigados mesmo quando se comportavam exemplarmente. Sabe por que os outros jogadores negros de clubes europeus não são xingados pelos racistas Sr. Mourinho? Porque não cutucam os racistas para tirá-los de suas tocas. Mas os racistas continuam sendo racistas do mesmo modo, continuam desprezando quem não tem a pele branca. Racismo silencioso é pior que racismo explícito Sr. Mourinho. E sabe o que são aqueles que justificam atitudes racistas? Racistas.

O jogo entre Benfica e Real Madrid prosseguiu, mas não deveria ter prosseguido. Inflamada pelo acontecimento, boa parte da torcida portuguesa passou a xingar, a ser racista, todas as vezes que Vinícius Jr. pegava na bola. Certa vez José Mourinho disse que o futebol tem muitos poetas mas eles não ganham jogos. Sabe aquele gol fantástico do Vini Jr. que derrotou o Benfica? Pois ele valeu por um poema completo.

*João Batista Freire é educador, pesquisador e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), livre-docente em Pedagogia do Movimento e atua como consultor do Instituto Esporte Educação (IEE), além de ser consultor educacional da Universidade do Futebol. É referência na área de Educação Física escolar, jogo e pedagogia do esporte, com diversas e renomadas publicações sobre ludicidade, prática corporal e pedagogia do futebol.
Mais informações: https://cev.org.br/qq/joao-freire/

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Análise de vídeo: tipologias e diferenças

Por: Bruno Loureiro Batista

Olá a todos, após conversarmos sobre as bases de interpretação de dados juntamente ao contexto de jogo, hoje falaremos sobre a análise vídeo, suas características, utilizo e tipologias.

Estimasse que cerca de 50%-70% da capacidade cerebral seja dedicada ao processamento visual (Felleman and Van Essen; 1991) estes estudos demonstram a importância da carga cognitiva através da imagem vídeo como grande parte do processo de aprendizagem.

Um dos modos mais potentes que ajudam no processo de aprendizagem juntamente com a imagem é o chamado “codificação dual” que indica a junção de imagens com a linguagem verbal simultânea, aumenta consideravelmente as probabilidades na retenção da informação (Paivio,1971). Estes estudos nos ajudam a entender quão eficaz e potente o instrumento vídeo pode ser, principalmente com as novas gerações Z e Alpha.

Por mais que possamos tentar “ler” o andamento de uma partida através dos relatórios numéricos, a análise das imagens será sempre primordial para entendimento da partida. As imagens têm o poder de correlacionar um feedback abstrato com a realidade dos fatos, entender as tomadas de decisão baseada no contexto, conectar aspectos estruturais de tática coletiva e individual, além de criar maior conexão socioafetiva através de diálogo entre jogadores e staff técnico.

Quando utilizamos imagens, número e exercícios para correções e estratégias tático-técnicos, é importante salientar que “Se sabemos o PORQUE fazemos algo, melhoramos COMO o fazemos” 

Quando se pensa em análise vídeo (tática-técnica) temos diversas variáveis como análise de mercado (scouting), análise de adversários, análise da própria equipe e training análises. Juntamente com os relatórios numéricos podemos ter um quadro completo de informações seja para a Prá-partida, Momento Partida ou Post-Partida. A ideia deste artigo será aprofundar as tipologias de análise de acordo com suas características, objetivos e diferenças. Como no mundo do futebol a palavra “Depende” é uma das mais utilizadas, é muito importante termos o conhecimento da terminologia para ajudar a no discernimento das ações

Cada tipologia tem suas vantagens e desvantagens de acordo com o objetivo do staff técnico. De uma forma geral podemos dividir em quatro macro princípios de análises

– Análise Estratégica

– Análise Situacional

– Análise Conceitual 

– Análise Live (Ao Vivo)

ANÁLISE ESTRATEGICA:   

A tipologia mais difundida e utilizada é a análise Estratégica, que tem como principais características a observação das equipes adversarias. Dentre as considerações para a realização da análise estratégica estão a analise  de 3 a 5 jogos normalmente para; observação do sistema de jogo adversário; partidas jogadas dentro e fora de casa; contra um sistema de jogo adversário similar; comportamento da equipe com resultado vigente (favor, contra ou empate); característica do treinador adversário; Características em base a cada terço de jogo (15’ em 15’); substituições em relação ao resultado vigente; Comportamentos em base al ciclo de jogo (Posse, não posse, transições ofensivas e defensivas e bolas paradas).

O próximo passo é definir junto ao staff técnico a elaboração de material vídeo específico e/ou relatório escrito que possam traçar o perfil da equipe adversaria. 

Posteriormente, se realizará a apresentação aos jogadores do material analisado para aplicação de estratégias ofensivas e defensivas em que os jogadores possam reconhecer com maior facilidade o padrão coletivo e individual do oponente e como afrontá-los.

Esta tipologia de análise favorece um conhecimento geral dos padrões táticos-técnicos dos adversários em diversos momentos da partida dando um informações necessárias para um plano de jogo. Basear-se somente na análise estratégica pode levar a dificuldades caso a equipe oposta mude os comportamentos esperados podendo cria incertezas coletiva individuais sobre o plano de jogo treinado na preparação da partida. Importante sempre ter o equilíbrio na utilização da estratégia baseada no adversário, mas sem perder a sua identidade de jogo. 

ANÁLISE CONCEITUAL:

 A análise conceitual tem como caraterística o estudo da própria equipe, ela requer antes de tudo uma linguagem e definição para cada tipo de ação como por exemplo descrito no glossário CBF. https://drive.google.com/file/d/16jxs8YBWcsx2vHpI08RvmvXmU5eStgA1/view?usp=drive_link

Isto é fundamental para se começar a criar as análises a partir da sua identidade de jogo. Através dela desse-se criar uma base de dados das ações durante o tempo. Por o futebol ser um jogo situacional (estocástico) com número quase infinito de combinações, a definição das ações requer estudo específico levando em consideração certos aspectos do jogo como:  Zona do campo, número de jogadores envolvidos, tempo total da ação, número de jogadores a frente ou atras da linha da bola, no caso de bola parada agregar o desenvolvimento da ação na sua zona de conclusão. 

Esta tipologia de análise pode ser divida em “periculosidade” e “volume de jogo” que serão definidas seguindo as especificidades acima com intuito de separar CONCEITUALMENTE cada situação ocorrida durante uma partida.

Um exemplo pratico seria analisar as saídas de bola (3-4 clip vídeo) que apesar de não serem nunca iguais, partem do mesmo princípio e partir deste ponto entender COMO foi realizada partindo da tomada de decisão, ocupação e distância de relação da equipe em relação ao adversário e em base a identidade de jogo e estratégia adotada.

A principal diferença característica da análise conceitual está no fato que seu estudo é realizado independente do êxito final da ação, ou seja, um erro técnico-tático individual ou coletivo não é o fator determinante para que elas sejam analisadas e comparadas, elas podem ter origem técnica (domínio, passe, condução), tática (tomada de decisão , ocupação coletiva – individual ou perfilamento corporal). De forma prática não é porque a saída de jogo teve eficácia significa que foi bem feita ou vice e versa.

ANÁLISE SITUACIONAL: 

 A análise situacional tem como característica uma visão detalhada de uma determinada ação baseada na eficácia da mesma. Quando uma equipe leva um gol, através da tipologia situacional, se vai analisar o erro ou acerto que originou o seu êxito. 

Como uma fotografia específica, com a análise situacional é possível individualizar um comportamento coletivo ou setorial em qualquer circunstância da partida. Esta mensagem chega aos jogadores de uma forma muito direta pois os participantes na ação analisada se sentem particularmente envolvidos. 

A diferença entre a análise situacional e conceitual está no fato que a ação analisada é de uma forma especifica e detalhada naquele momento específico. Independente das fases do jogo ou de qual tipologia de “periculosidade” de uma determinada situação, o analista poderá ir “direto ao ponto” para tentar explicar a eficácia ou não da mesma. 

Um exemplo pratico e significativo pode ser que se uma equipe leva três gols de maneiras completamente diferentes entre si, (escanteio, transição e bloco baixo) se analisa separadamente cada situação partindo do êxito que foi ter levado o gol. 

A análise situacional apesar de ser mais direta a específica, permite um arquivo reduzido ao longo do tempo pois as situações de jogo a serem analisadas podem ser infinitas devido as circunstâncias se não levamos em consideração os princípios da identidade de jogo da equipe. Geralmente esta tipologia de analise se não realizada com a devida atenção, acarreta horas de discussão pois a cada fotograma podemos analisar o clip vídeo de modo diverso onde a palavra “SE” ganha importância como exemplo: “se ele tivesse aqui seria assim…”, ou “se o adversário tivesse feito isso, ele teria feito diferente…”, criando uma infinidade de possibilidades que podem não serem mais verificadas da mesma forma. 

Estas duas tipologias de analise se referem ao Pré e Post Partida e uma vez definidas as diferentes modalidades de análise, o analista de desempenho junto ao treinador e o staff técnico podem decidir de qual maneira utilizá-las. As tipologias de análises estão estreitamente interligadas sendo que o utilizo de uma não exclua o da outra. 

ANÁLISE LIVE:

A análise de desempenho live de uma partida provavelmente seja a mais complexa e tem como sua característica principal a combinação de leitura tática e gestão emocional. Durante o jogo o analista tem que ter a capacidade se abstrair emocionalmente da partida independente da sua importância (uma final de campeonato por exemplo), para poder focar nos padrões, compreender, analisar e sugerir soluções.

Nesta tipologia de análise, todas as outras modalidades (estratégica, conceitual e situacional) se convergem. O analista por se posicionar em um ponto privilegiado do estadio, atua como “segundo par de olhos” do treinador, e deve através de suas observações não descrever as ações mas sim confirmar, refutar ou ajustar as sensações do staff técnico que estão no banco de suplentes. 

Para que analise seja eficaz e tenha êxito positivo é determinante ter ao menos três pontos bem definidos.

  • – Visão sistêmica: Capacidade de observar além do raio de ação da bola, focando nos comportamentos coletivos e setoriais em zona mais distantes chamada zona de intervenção segundo Paco Seiru-lo (Peralta 2020).
  • Identificaçāo de Padrões: Isolar erros ou pontos fortes nas sequências de movimentos que possam ser corrigidos pela equipe ou explorados através de ajustes táticos imediatos e/ou substituições.  
  • Sensibilidade Comunicativa: Filtrar o volume de informação para entregar ao treinador apenas o que é relevante e pratico para o andamento da partida.

Como disse o analista de desempenho do Manchester City Carles Pranchat “Muita informação é desinformação”.

Bruno Loureiro Batista é Treinador/Analista de Partidas Individuais no setor de base da Juventus FC. É graduado em Ciências do Esporte pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui licença UEFA A. Possui experiência em análise de desempenho e desenvolvimento individual de atletas, atuando no futebol europeu de alto rendimento.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/bruno-loureiro-batista-a95681165/

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Estudo de caso – Transição base–profissional no Brasil a partir do Campeonato Brasileiro de Aspirantes

Por: Nicolau Trevisani & Diogo Oliveira

Realizei, em conjunto com Diogo Oliveira, analista de desempenho da equipe Sub-20 do Ceará, um estudo com 48 atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes entre 2017 e 2021, representando dois clubes grandes do futebol brasileiro. O objetivo foi compreender como esse contexto competitivo atua como uma etapa intermediária no processo de transição entre a base e o futebol profissional.

Os dados revelaram que apenas 17 desses 48 atletas conseguiram, posteriormente, atuar em competições nacionais ou internacionais de alto nível — não foram consideradas competições regionais —, o que representa um aproveitamento de aproximadamente 35,4%. O número reforça algo que já se observa empiricamente no futebol brasileiro: o Campeonato de Aspirantes pode funcionar como um ambiente real de transição, mas o salto competitivo é restrito, seletivo e altamente exigente.

Ao analisar quais jogadores conseguiram atravessar essa fronteira, um padrão se repetiu. A maior parte dos atletas que se consolidaram no futebol profissional atua do meio-campo para trás. Isso não é casual. Essas posições exigem leitura de jogo, posicionamento, tomada de decisão e consistência — capacidades que tendem a se transferir com mais estabilidade da base para o profissional. Além disso, são funções que contribuem diretamente para o equilíbrio coletivo da equipe, o que costuma gerar maior confiança por parte das comissões técnicas e facilitar uma inserção progressiva no elenco principal.

É importante, no entanto, fazer uma distinção relevante dentro desse processo. Os jogadores ofensivos que não passaram pelo Campeonato Brasileiro de Aspirantes, ou que tiveram uma passagem muito curta por essa competição, costumam ser atletas que, ainda no período de formação, apresentaram um nível de destaque muito acima da média do clube e da categoria. São jogadores que conseguiram se impor de forma clara pelo talento individual, pela capacidade criativa e pelo impacto recorrente no jogo. Esse diferencial precoce faz com que, em muitos casos, o processo se antecipe: o talento excepcional acelera a transição e encurta etapas.

Por outro lado, os atletas que disputaram o Campeonato Brasileiro de Aspirantes são, em sua maioria, jogadores que não anteciparam as etapas do processo de transição. Permaneceram mais tempo no percurso formativo e chegaram a esse ambiente intermediário antes do acesso ao futebol profissional. Dentro desse grupo, observa-se que jogadores do meio-campo para trás tendem a encontrar maior facilidade para acumular minutos no nível profissional, enquanto atletas ofensivos enfrentam maiores dificuldades, sobretudo pela exigência de impacto imediato e pela menor margem de erro atribuída a essas funções.

Do ponto de vista neurocognitivo, esse cenário faz bastante sentido. A criatividade no futebol — entendida não como improviso aleatório, mas como a capacidade de perceber soluções relevantes em contextos complexos — depende diretamente de segurança. Quando o cérebro percebe ameaça constante, como medo do erro, cobrança excessiva ou instabilidade, estruturas ligadas à sobrevivência, como a amígdala, tendem a dominar o processamento. O resultado é uma percepção mais estreita, decisões mais conservadoras e menor acesso a soluções criativas.

Jogadores de meio-campo e defesa, por exercerem funções mais previsíveis e menos dependentes de ações de alto risco criativo, costumam atuar em um ambiente técnico-tático neurobiologicamente mais favorável. Isso permite que a chamada criatividade funcional apareça com mais frequência: a pequena pausa antes do passe, o ajuste corporal, a leitura antecipada do jogo. Não se trata apenas de uma questão tática, mas de como o cérebro consegue operar sob menor carga de ameaça na maior parte do tempo.

No setor ofensivo, o cenário costuma ser o oposto. A exigência por impacto imediato — especialmente gols — somada à concorrência elevada e à baixa tolerância ao erro faz com que mesmo atletas tecnicamente talentosos passem a decidir sob estresse constante. A necessidade permanente de serem criativos em contextos de alta pressão compromete a percepção e empobrece a tomada de decisão. Isso ajuda a explicar por que menos jogadores ofensivos conseguem acumular minutos no futebol profissional de seus clubes de origem, precisando muitas vezes sair para encontrar contextos mais favoráveis ao seu melhor desempenho.

O Campeonato Brasileiro de Aspirantes, portanto, pode ter cumprido um papel importante como etapa intermediária de validação nos anos analisados. No entanto, o estudo reforça que o sucesso na transição para o alto nível não está ligado apenas ao talento bruto. Ele está fortemente associado à capacidade do jogador de ser taticamente confiável, consistente e funcional dentro da estrutura coletiva — características que dependem tanto da formação quanto do ambiente em que o atleta está inserido.

Para quem trabalha com formação, desempenho ou scouting, esse olhar é fundamental. Avaliar um atleta não é apenas identificar o que ele faz com a bola, mas compreender sob quais condições ele consegue perceber, decidir e sustentar boas escolhas ao longo do tempo. Criatividade não nasce do caos; ela emerge da segurança. E, na transição para o futebol profissional, oferecer contextos que favoreçam essa segurança pode ser o diferencial entre um talento que se perde e um jogador que consegue, de fato, se estabelecer no alto nível.

Até a próxima

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

Diogo Oliveira atua como profissional de Análise de Desempenho no futebol profissional, com foco na avaliação detalhada do rendimento individual e coletivo de atletas por meio da interpretação de dados técnicos, táticos, físicos e comportamentais.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/diogo-camelo-/?originalSubdomain=br

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Cuidar de Quem Cuida: A pressão invisível sobre treinadores e gestores no futebol de alto rendimento

Em tempos de alta competitividade, gestão globalizada e transmissões em tempo real, o futebol profissional se consolidou como uma atividade de grandes impactos emocionais, complexos e constante exposição neste universo. Dentro desse contexto, se fala cada vez mais sobre a saúde mental dos atletas, mas pouco se investiga ou se discute, com profundidade, os efeitos da pressão e do estresse sobre treinadores, diretores e comissões técnicas. No entanto, são com essas lideranças que, em uma escala hierárquica de cobranças, esses efeitos começam e se retroalimentam.

Estudos internacionais já apontam que treinadores de elite estão entre os grupos mais afetados por burnout, exaustão emocional e sintomas de ansiedade crônica. Uma pesquisa conduzida com técnicos da Premier League (Inglaterra) revelou que muitos deles apresentam respostas fisiológicas agudas durante os jogos, com alterações significativas na pressão arterial, liberação de cortisol e sintomas de fadiga mental, mesmo nos dias subsequentes à partida.

Na neurociência, compreende-se que o cérebro humano sob estresse prolongado entra em estado de alerta constante, o que prejudica funções essenciais como a tomada de decisão, a memória de trabalho e a empatia. O cérebro emocional (sistema límbico, especialmente a amígdala) assume o comando em detrimento do cérebro executivo (córtex pré-frontal), gerando um ciclo de reatividade, irritabilidade e rigidez cognitiva. No contexto futebolístico, isso pode se traduzir em discursos agressivos no vestiário, mudanças impulsivas de estratégia, ou dificuldades de liderança colaborativa.

É importante destacar que os estressores organizacionais no futebol não são distribuídos de forma linear. Existe um efeito cascata: o presidente do clube pressiona o diretor; este exige resultados do técnico; o técnico transfere a tensão para sua comissão e atletas. A cultura da performance implacável, aliada à mídia imediatista e à precariedade de suporte emocional, cria um ambiente de alto risco psicossocial, onde o desgaste mental se torna a regra, e não a exceção.

Por outro lado, alguns clubes de vanguarda já estão modificando esse paradigma com a implantação de programas estruturados de suporte psicológico para treinadores, comissão e liderança institucional.

No Liverpool FC, após a perda trágica de um membro da equipe, o clube passou a integrar um psicólogo no cotidiano do vestiário, reforçando uma cultura de escuta e acolhimento também para a comissão técnica e staff.

• No Burnley FC, da Inglaterra, um psiquiatra foi incorporado ao time médico como responsável pelo bem-estar dos atletas e também dos treinadores e coordenadores.

O Bodø/Glimt, da Noruega, implantou desde 2017 um modelo de treinamento mental coletivo, comandado por um ex-oficial da força aérea norueguesa, oferecendo suporte emocional e estratégico à equipe técnica em momentos de crise.

Esses exemplos revelam uma tendência que vai além da empatia, tratando de estratégias de proteção ao ser-humano e à performance.

Treinadores mais regulados emocionalmente demonstram melhor equilíbrio na tomada de decisão, maior clareza comunicacional e maior tolerância ao erro. Além disso, têm maior capacidade de influência positiva sobre atletas e comissão, atuando como verdadeiros reguladores emocionais do grupo.

Do ponto de vista da psicologia positiva e da neurociência, é possível aplicar princípios concretos para esse cuidado: treinamentos de mindfulness, educação emocional, capacitação em inteligência emocional, ancoragem em propósito, gestão do sono e criação de ambientes psicologicamente seguros. A plasticidade neural garante que essas práticas, repetidas com consistência, aumentem o repertório de regulação emocional, a resiliência e a saúde mental sustentada.

Para clubes e instituições que desejam liderar não apenas em títulos, mas em longevidade, é urgente reconhecer: cuidar da saúde mental de quem comanda também é cuidar do desempenho coletivo. Afinal, é o treinador quem prepara o campo emocional para que o jogo aconteça. E, para isso, ele também precisa de estrutura, suporte e compreensão.

O futuro do futebol de alto rendimento será daqueles que entenderem que a pressão não se elimina, mas se regula. E que até o mais experiente dos técnicos também é, antes de tudo, um ser humano.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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Metodologia, Tempo e Vida

Uma reflexão, como aquelas de sono interrompido, por inquietações pedagógicas, onde o pensamento não para. Às vezes, é nesse intervalo entre o descanso e o despertar que algumas perguntas insistem em aparecer.

O que sustenta, de verdade, aquilo que chamamos de metodologia quando o tempo passa?

Costumamos tratar metodologia como algo novo, organizado, limpo, quase perfeito. Como uma bola recém-tirada da caixa. Mas será que ela se sustenta por ser nova ou por já ter atravessado o tempo? Será que aquilo que ainda não foi colocado em jogo consegue, de fato, sustentá-lo?

Talvez a melhor representação de uma metodologia não seja um manual, um plano fechado ou um conjunto de regras. Para mim, metodologia é uma árvore. Um ser vivo. Algo que carrega o peso do tempo, que cria raízes profundas, que sustenta um tronco firme e que se permite ramificar em diferentes direções. Uma árvore cresce, mas não cresce negando aquilo que já foi. Ela cresce porque permanece.

Quando um jogador chega ao elenco profissional, ele se depara com algo que, muitas vezes, não viveu plenamente durante sua formação: a diversidade. Diversidade de idades, de histórias, de experiências e de tempos de vida. No processo formativo tradicional, ele quase sempre compartilhou o campo com meninos da mesma idade, do mesmo ano, do mesmo recorte. Um ambiente controlado, organizado, previsível.

Mas o futebol profissional não é assim. A vida não é assim.

Pelé jogou uma Copa do Mundo sendo um menino, compartilhando o mesmo ambiente com senhores. Homens com família, com dores, com histórias longas. E ele ali, um garoto. A pergunta que se impõe não é apenas onde Pelé se formou tecnicamente, mas onde ele aprendeu a conviver com essa diversidade.

Na rua.

Na rua não existe categoria. Existe jogo. O mais velho ensina sem perceber, o mais novo aprende observando, e todos precisam se adaptar. A rua não separa por idade; ela organiza por respeito, leitura de jogo e sobrevivência. Antes de preparar para o alto rendimento, a rua prepara para o convívio. Para a escuta. Para o tempo do outro.

Talvez o maior equívoco dos nossos processos de formação seja confundir desenvolvimento com novidade. E esquecer que, no futebol e na vida, o que sustenta não é o que brilha, mas o que permanece.

Metodologias vivas, como árvores, não têm pressa de parecer modernas. Elas se preocupam em ser verdadeiras.

E talvez seja isso que a rua sempre soube fazer melhor.

Inspirações e referências:

João Batista Freire, Wilton Carlos de Santana, Danilo Augusto Ribeiro

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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Entre Sonhos e Pressões: quando o futebol de base deixa de ser infância

Ao longo dos textos anteriores, procurei compartilhar um olhar sobre a supervisão no futebol que ultrapassa a logística e a operação de jogos. Falei de afeto, vínculos, presença e da importância das relações humanas na formação de jovens atletas. Neste terceiro artigo, avanço para um tema sensível, complexo e absolutamente necessário: os limites entre formação esportiva, exploração do trabalho infantil e projeções emocionais dos adultos sobre as crianças.

Tratar desse assunto exige cuidado, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com o desenvolvimento integral do ser humano, princípio que deve orientar qualquer projeto sério de futebol de base.

Quando o Sonho Vira Trabalho: A Exploração da Criança Atleta

O futebol é, para muitas crianças, brincadeira, prazer e expressão. No entanto, em determinados contextos, ele passa a assumir contornos de obrigação, cobrança excessiva e expectativa financeira precoce. É nesse ponto que surge um alerta importante: quando o futebol deixa de ser espaço formativo e passa a ser exploração do trabalho infantil.

Treinos exaustivos, agendas lotadas, viagens constantes, pressão por resultados imediatos e responsabilidades incompatíveis com a idade são sinais que precisam ser observados com atenção. A criança deixa de brincar, de errar, de experimentar e passa a “performar”.

Cito dois casos reais, obviamente modificando os nomes verdadeiros.

Didi tinha 9 anos de idade, quando passou a se queixar de dores que o impediam de jogar. Exames médicos constataram fratura em um osso do pé, causada por estresse. Como pode uma criança de 9 anos sofrer uma fratura por estresse?

Em trabalho investigativo, conversando com diversas pessoas, descobri que o pai levava o menino para jogar vários jogos aos finais de semana. Ele jogava por diversas equipes, em diversos locais. O próprio pai, talvez sem perceber a dimensão do que estava fazendo, me confessou que “era correria”, viajava tantos quilômetros nos finais de semana para o filho jogar. Como ele se destacava nos jogos, vários times o chamavam para jogar.

Não perguntei ao pai, mas desconfio de que recebia dinheiro dos times para levar o seu filho.

O menino tem talento, está no processo de desenvolvimento e formação desportiva. Não se sabe se será atleta profissional. Tem “projeção” de que sim. Torço para o pai não atrapalhar muito.

Dedé tinha 13 anos, quando o pai pediu uma reunião com o coordenador técnico, para questionar a minutagem de participação em jogos pelo clube. Queria que o filho jogasse mais tempo, como titular. Na ocasião, apresentou um plano de carreira para o filho que, sinceramente, era surreal. Infelizmente não posso mostrar aqui, mas acreditem, o plano feito pelo pai estipulava os seguintes objetivos:

  • Ser referência em sua geração, ativo importante para o clube;
  • Ser lembrado como atleta mais veloz, objetivo e intenso da geração 20XX;
  • Gerar valor, para que o desenvolvimento seja justo, economicamente viável;
  • Ser referência em seu colégio e ambiente regional.
  • Cronograma diário: Escola das 7:10 às 13:00; Janta das 22:45 às 23:30. Durante as tardes, treinos em outros times e em academia com personal trainer.
  • Responsabilidade da família: acompanhamento de planilha de custo e investimento.

O menino não tinha tempo para ser criança!

O pai trabalhava em uma instituição financeira, exercendo cargo de alta direção. Talvez enxergasse o filho como um “ativo”, um investimento que traria rendimentos financeiros.

Como não foi totalmente atendido, pediu a liberação e o levou para outro clube. Consta do registro na CBF que passou uma temporada no “clube 2”, ficou uma temporada sem clube e no ano passado se transferiu para o “clube 3”. Não sei dizer se o plano do pai foi revisitado.

Esses exemplos ajudam a ilustrar como, muitas vezes, o discurso do “sonho” mascara uma realidade de sobrecarga emocional e física. O sonho é legítimo. A exploração, não.

O supervisor, nesse cenário, precisa estar atento aos sinais: queda de rendimento escolar, ansiedade excessiva, medo de errar, lesões recorrentes, irritabilidade. São indicadores de que algo deixou de estar equilibrado.

A Frustração do Pai Projetada no Filho

Outro ponto recorrente, e igualmente delicado, é a projeção das frustrações pessoais dos pais sobre os filhos atletas. Muitos desses pais não tiveram oportunidade no futebol ou não alcançaram o sucesso desejado. O que não foi vivido por eles passa a ser exigido do filho.

Essa projeção assume diferentes formas: cobranças constantes, comparações, pressão por desempenho, controle excessivo da rotina e até interferência (ou tentativa de) no trabalho da comissão técnica.

Cito alguns exemplos, novamente, substituindo os nomes verdadeiros.

Huguinho tinha o pai obcecado por números, minutagem e comparações. Pediu reunião com o coordenador técnico para contestar a não titularidade do filho nos jogos, pois teria dados estatísticos demonstrado que ele seria melhor do que o atleta escolhido pela comissão técnica.

O menino era muito inteligente, falava inglês, espanhol e alemão fluentemente. Estava aprendendo outras línguas. Gostava de filmes clássicos e de séries como tramas complexas. Era claro que gostava de conversar com adultos e não com os colegas de time. Certa vez, conversando com ele no saguão de um hotel, me disse que não gostava dos hábitos dos colegas, pois ouviam música ruim, não liam livros, não gostavam de história, economia, nem de política.

Mas o pai foi goleiro amador, deseja que o filho seja goleiro profissional.


Zezinho aparentava claramente não estava feliz com a vida que levava. Alojamento, rotina de treinos e jogos. Mas o pai insistia para que o menino continuasse no clube, pois achava que seria jogador de futebol.

Luizinho era filho de um ex-jogador de futebol profissional, que jogou na Europa e na seleção brasileira e atuava como “personal”, treinador particular e gestor da carreira do filho. Era comum o menino retornar ao clube, após a folga do final de semana, com dores musculares. No período em que deveria descansar, “treinava” com o pai.

Nesses casos, o futebol deixa de ser espaço de descoberta e passa a ser palco de compensações emocionais. A criança joga para atender expectativas externas, não para se desenvolver, aprender ou se divertir.

Os Impactos Emocionais no Atleta

A criança submetida a esse tipo de pressão tende a desenvolver comportamentos que merecem atenção: ansiedade, agressividade, medo de errar, dificuldade de lidar com frustrações e, em alguns casos, perda do prazer pelo jogo.

O erro, elemento central do aprendizado, passa a ser vivido como ameaça. O jogo vira prova. O campo, um tribunal. E o futebol, que poderia ser ferramenta de formação humana, se transforma em fonte de sofrimento.

É importante lembrar: nem toda cobrança é sinal de cuidado, assim como nem toda presença é sinônimo de apoio saudável.

O Papel do Supervisor como Guardião do Processo Formativo

Diante desse cenário, o supervisor assume um papel fundamental: o de guardião do processo formativo. É ele quem faz a mediação entre clube, família e atleta. Quem chama para a conversa, estabelece limites, orienta e, quando necessário, protege.

Proteger o atleta não significa afastá-lo da responsabilidade ou do compromisso. Significa garantir que o desenvolvimento aconteça no tempo certo, respeitando a infância, a adolescência e os aspectos emocionais envolvidos.

O supervisor precisa ter coragem para sustentar diálogos difíceis, para dizer “não” quando o ambiente começa a adoecer, e para lembrar a todos que o futebol de base não é um fim em si mesmo, mas um meio de formação.

Formar Atletas ou Formar Pessoas?

Essa talvez seja a pergunta central que atravessa este artigo e toda a série. O futebol de base precisa decidir, diariamente, se está apenas produzindo atletas ou se está contribuindo para a formação de pessoas equilibradas, críticas e emocionalmente saudáveis.

Quando o processo é bem conduzido, o resultado aparece no campo e fora dele. Quando não é, o custo humano costuma ser alto.

Caminhos Possíveis

Combater a exploração e as projeções emocionais passa por educação, diálogo e clareza de papéis. Passa por clubes com valores bem definidos, supervisores preparados, comissões técnicas alinhadas e famílias orientadas.

O futebol de base pode e deve ser um espaço de sonho. Mas um sonho que respeite a infância, preserve a dignidade e prepare o jovem não apenas para jogar, mas para viver.

Caio Rizek é Supervisor de Futebol de Base do São Paulo FC, atuando na organização e integração dos processos esportivos e institucionais das categorias de formação. É advogado e bacharel/licenciado em Educação Física, com formação executiva em gestão e liderança (MBA USP/Esalq). Possui experiência na supervisão operacional do departamento de futebol, relacionamento com comissão técnica, atletas e famílias, além de atuação em rotinas estratégicas do ambiente de base.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/caiorizek/

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Fair Play Financeiro além dos números: governança e transparência no centro do jogo

Dando sequência à série em que venho ilustrando os requisitos do Fair Play Financeiro da CBF, hoje o recorte é propositalmente diferente. Não se trata de um requisito financeiro ou contábil, mas de um pilar estrutural de governança e transparência, que sustenta todo o modelo regulatório.

Com efeito, o Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) não se limita a exigir solvência, controle de custos ou limites de endividamento, isto é, requisitos econômico-financeiros. Ele também impõe, de forma expressa, requisitos de governança e transparência, obrigando os Clubes a manter e comunicar formalmente à ANRESF (órgão regulador) informações verificáveis, que devem ser atualizadas em até 30 dias sempre que houver qualquer alteração relevante, sobre sua (i) estrutura de controle societário e sobre o chamado (ii) Pessoal-Chave da Administração.

Em relação à composição do seu controle societário, o Clube deve informar inclusive participações dos controladores em outros Clubes, no Brasil ou no exterior.

Já o conceito de “Pessoal-Chave” não é restrito ao organograma formal. Para fins regulatórios, considera-se como integrante toda pessoa que detenha autoridade e responsabilidade pelo planejamento, direção e controle das atividades do Clube, direta ou indiretamente. Diretores executivos ou não, conselheiros e gestores com poder decisório estratégico entram nesse radar. O critério não é o cargo — é o poder real de decisão.

Na prática, isso resolve (ou expõe) situações muito concretas. Por exemplo:

  • o conselheiro que não é diretor, mas influencia contratações relevantes;
  • o controlador que participa de outro Clube no exterior;
  • o gestor que atua “nos bastidores”, mas decide orçamento, elenco ou fornecedores.

Ou seja, não importa apenas o cargo formal. Importa quem decide. A lógica do Regulamento é direta: não há sustentabilidade financeira possível quando não está claro quem manda, quem influencia e quem responde.

Infográfico: Requisito de governança e transparência

Esse nível de transparência também é essencial para algo cada vez mais sensível neste ambiente regulatório: a identificação de Partes Relacionadas. Sem clareza sobre quem controla e quem decide, torna-se impossível mapear conflitos de interesse, transações intragrupo, favorecimentos indevidos ou operações que distorçam a concorrência esportiva e financeira.

Por isso, essas informações não têm natureza meramente cadastral. Elas integram o sistema de monitoramento regulatório e já possuem um marco temporal definido: os Clubes devem apresentá-las até 30 de abril de 2026.

O ponto mais sensível está nas consequências. O Regulamento é expresso ao afirmar que omissão, atraso ou falsidade na prestação dessas informações configuram reprovação regulatória, sujeitando o Clube a sanções que podem ir de advertência pública e multa até retenção de receitas, restrições de registro de atletas, dedução de pontos, exclusão de competições e, nos casos mais graves, rebaixamento ou cassação da licença para competir.

A mensagem é inequívoca: governança deixou de ser discurso institucional ou boa prática recomendável. Tornou-se condição regulatória de permanência no sistema competitivo. Transparência não é mais opcional — é requisito.

O Fair Play Financeiro sinaliza uma mudança clara de maturidade regulatória: clubes que não organizarem sua governança e sua transparência dificilmente conseguirão sustentar qualquer outro requisito do sistema.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
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