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Por abordagens metodológicas que valorizem a qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro

Por Eduardo Barros* & Rafael Castellani**

Tem sido frequente, nos clubes, imprensa e no âmbito acadêmico, muitos apontamentos que destacam a importância de resgatarmos a nossa identidade de jogo que, no decorrer do tempo, por questões multifatoriais, vem se perdendo. O problema é grave e as críticas, culpados e responsáveis, surgem de todos os lados. Para alguns, a culpa é dos treinadores profissionais que, pressionados por resultados ou influenciados por outras culturas de jogo, tem aplicado Modelos de Jogo que se distanciam das principais características do nosso futebol. Para outros, os responsáveis são os profissionais das categorias de base que não aplicam treinos de fundamentos, o que sempre foi um diferencial dos nossos principais atletas. Outros, ainda destacam que os empresários são os culpados, uma vez que influenciam os nossos jovens a perderem o prazer e a paixão pelo jogo. Vale, também, a crítica à distância entre o que é produzido pelos pesquisadores/cientistas e a realidade concreta nos clubes e escolas de esporte. Neste cenário, temos também a imprensa, que atua criticamente e não só escancara, mas potencializa, nossos problemas, pois alimenta um ciclo vicioso e reconhecido do futebol brasileiro: a falta de projetos de longo prazo, a busca a qualquer custo do resultado imediato e a excessiva demissão e rotatividade de treinadores em todos os níveis, mas, especialmente, no futebol profissional. Existe mais uma série de argumentos que expõem o distanciamento do melhor futebol brasileiro e precisamos ter clareza que uma questão de natureza complexa como essa não tem origem ou causa em somente um elemento.    

Diante de todo esse contexto, é notável em nosso jogo, menor ofensividade, movimento, beleza, arte, alegria, ginga e criatividade. Afinal, para que estes elementos estejam presentes, um ambiente favorável precisa ser criado. E será que existe alguma maneira de (re)criarmos, mesmo com tantos desafios e pressões, tal ambiente? 

O estímulo à qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro passa, necessariamente, pela adoção de abordagens de ensino-aprendizagem-treinamento, em todos os níveis da modalidade (da Iniciação ao futebol Profissional), que tenham no Jogo, em sua essência, a principal ferramenta para o desenvolvimento dos jogadores. Além disso, é indispensável que o foco da abordagem seja dado a cada indivíduo em sua totalidade, num processo humanizado que explora as potencialidades e virtudes, permitindo que o talento de cada indivíduo tenha espaço para se manifestar.

Destacados especialistas da Pedagogia do Esporte no Brasil, como João Batista Freire, Alcides Scaglia e Wilton Santana, dentre outros, apontam que o Jogo é o melhor meio para a educação integral, logo esportiva, das nossas crianças e jovens que sonham em se tornar atletas profissionais de futebol. Logo, o jogo configura-se como elemento central do treino para que se promova a adaptação dos jogadores às diversas situações, de modo que percebam autonomamente as situações e “problemas do jogo”, adquiram propriedades para tomada de decisões e respondam às ações de companheiros e adversários (e suas interações).

Mais do que isso, como vemos destacando, é preciso, também, que a metodologia de treino adotada por treinadores dê conta de lidar com a imprevisibilidade, aleatoriedade e o ambiente caótico inerentes ao futebol, por conta da sua grande complexidade. É a prática cotidiana sob essas condições (de treino) que garantirá aos jogadores maiores possibilidades de desenvolverem e expressarem sua criatividade, a beleza dos seus gestos e dribles/fintas, sua ginga e um estilo ofensivo de jogo, algo que, por décadas, caracterizou o estilo/essência do futebol brasileiro.       

Com o avanço dos estudos no campo da pedagogia do esporte, muitas abordagens metodológicas foram propostas. Além dos professores supracitados (João Batista Freire, Alcides Scaglia e Wilton Santana), há tantos outros (Roberto Paes, Larissa Galatti, Julio Garganta, Claude Bayer e Pablo Greco, por exemplo) que, mesmo considerando as especificidades de suas proposições e teorias, corroboram a necessidade de ruptura com abordagens pedagógicas que fragmentam o jogo e que desconsideram a interferência de fatores complexos  no desenvolvimento da capacidade dos praticantes em compreender os fenômenos do jogo e intervir de modo inteligente nas situações que ele impõe aos praticantes.

Nesse sentido, gostaríamos de destacar uma destas abordagens que, no nosso entendimento, pode trazer grandes contribuições para que o futebol brasileiro resgate e manifeste, em maior proporção, elementos do nosso jogo que sempre nos identificaram futebolisticamente: a pedagogia da rua.

Desenvolvida por João Batista Freire e “alimentada” por tantos outros professores e treinadores, a pedagogia da rua é apresentada por Freire (2022) no seu mais novo livro “O jogo de bola na escola: introdução à pedagogia da rua”, como a teorização de uma prática realizada no ambiente da rua, entendendo-o como um espaço que extrapola os limites das calçadas. Rua, neste caso, é, também, os campinhos de várzea, as praias, as praças etc. Ou seja, não se trata de realizar uma transposição mecânica do futebol jogado na rua para as escolas de futebol e clubes, mas, ao pedagogizar essa prática, dotá-la de um método que qualifique e dê novo significado ao que se aprende e como se aprende a jogar futebol. Nesse sentido, “a pedagogia da rua não é a educação da rua” (FREIRE, 2022. p.40). Da mesma forma, não podemos tratar o futebol de rua ou o jogo de bola na rua como um sinônimo da pedagogia da rua. Mas a rua, como uma pequena sociedade lúdica, na qual inúmeros jogadores de futebol se formaram, sendo o principal espaço de aprendizagem de tantos craques brasileiros, produz conhecimentos e nos apresenta um processo de aprendizagem que podem ser levados às categorias de base dos clubes de futebol.           

O essencial é que essa pedagogia se baseie no jogo e na brincadeira, ou seja, no lúdico. A partir da expressão do lúdico e pelo resgate do prazer na prática do futebol (nada parecido com as filas intermináveis e repetitivas para realizar uma finalização, um passe ou driblar um cone), podemos formar atletas conscientes da sua prática e das suas ações durante o jogo, capazes de resolverem os problemas (do jogo) de modo inteligente, autônomo e criativo.

Se o ambiente da rua deve estar presente nos clubes de futebol brasileiros e, mais especificamente, em suas categorias de base, o que esperar das sessões de treinamento para as nossas crianças e jovens? O que nos vem à mente quando pensamos, quer tenhamos praticado ou não, o futebol de rua? Como levar a pedagogia da rua, na prática, para o clube?

Os treinamentos que buscam recriar o ambiente da rua precisam oferecer aos jogadores diversas características; e a liberdade, seguramente, é a principal delas. Mas como estimular a liberdade nas categorias de base? Estimulá-la, em hipótese alguma deve ser resumida à permissão para os jogadores de ataque poderem driblar quando invadirem ou estiverem no último terço do campo. Em contrapartida, não limitar ou, ao menos, ampliar a área de atuação de cada um dos jogadores é um importante passo, bem como permitir que o drible e outras jogadas de maior risco estejam presentes em todos os setores do campo. Um zagueiro deve, em seu processo de formação, passar por várias posições da modalidade. Nas sessões de treino, precisa ser estimulado a cumprir funções de lateral, de volante, de meio-campista e, inclusive, de atacante. Durante as atividades propostas pelo seu treinador, mesmo que inicie um determinado exercício como zagueiro, deve ter liberdade para tocar e passar, para jogar do lado direito e esquerdo, para atuar fora de sua posição e realmente jogar (e viver e sentir) o jogo em todas as suas possibilidades. Se estiver no campo de defesa e o drible for uma boa solução, precisa arriscá-lo. Se está sob pressão, mas tem um companheiro que abriu linha de passe na tentativa de sair jogando, deve tentar a ação, mesmo que erre. Imagine um zagueiro que receba o estímulo de poder driblar ou passar sob pressão, todos os dias, por 10 anos de categorias de base, do sub-11 ao sub-20. Compare com um zagueiro habituado apenas a buscar soluções simples e de baixo risco. A diferença de recursos entre um jogador e outro será significativa.

A liberdade é a chave para a autonomia, inteligência e criatividade! Quem se sente livre para jogar, desenvolve a tomada de decisão. A exposição à prática autônoma é o caminho para jogar bem e melhor, logo, de forma inteligente. E, parafraseando o criador da Pedagogia da Rua, João Batista Freire, como o jogo é o paraíso da imprevisibilidade (2024), pode ser também o paraíso da criatividade, ou das novidades que podem emergir como soluções para os problemas que o jogo impõe ao praticante que, por sua vez, tem liberdade para decidir e agir.

É importante deixar claro que o exemplo dado sobre os zagueiros se aplica a todas as posições, até mesmo ao goleiro. Já pensou se os goleiros, ao longo do processo de formação, treinassem sistematicamente (não todos os dias, claro) em diferentes posições na linha? Um goleiro que recebe ou precisa executar um passe ao longo do jogo e tem diferentes soluções como resposta aumenta o nível de jogo da sua equipe em comparação àquele que só tem o chutão como recurso? Treinar como jogador de linha auxiliaria o goleiro a desenvolver competências e habilidades que podem ser transferidas para a sua posição formal? Vale uma boa reflexão sobre esta questão…

Diferentemente do ambiente da rua, cujas relações, combinados e decisões são tomadas de modo diferente e pelas próprias crianças e jovens, os clubes de futebol contam com a atuação não só do treinador, mas de toda a comissão técnica, com mais ou menos integrantes, de acordo com a estrutura, tamanho e recursos de cada um. Pedagogizar o conhecimento produzido na, e pela, rua, e levar essa pedagogia às escolas de esporte e categorias de base dos clubes, além de servir à propósitos diferentes, significa atribuir ao adulto (o professor, treinador, dentre outros) papel protagônico na construção de um ambiente de treino que permita a liberdade (e não só) como forma de expressão da criatividade e de tomadas de decisão autônomas. Este adulto, no âmbito dos clubes de futebol, em especial nas categorias de base, pode ser qualquer profissional que faça parte da comissão técnica, mas centralizaremos, neste texto, na figura do treinador, por entendê-lo como principal líder de uma equipe esportiva.   

Nesse sentido, é fundamental que o treinador oportunize aos atletas a maior quantidade e mais diversas experiências possíveis, preferencialmente com bola, que se aproximem ao máximo das condições de jogo com as quais o jogador tem que lidar. Além de planejar tais situações de aprendizagens, como temos destacado, cabe também ao treinador incentivar e encorajar o drible, o improviso, a antecipação de uma jogada, ou seja, dotar seus atletas de liberdade para serem eles mesmos e expressarem sua criatividade a partir do estabelecimento de uma cultura de aceitação e compreensão do erro. Afinal, o erro é elemento indissociável do processo de aprendizagem.

Diante de todas estas responsabilidades do treinador, entendemos que este profissional precisa estar muito bem preparado para liderar um grupo de crianças ou jovens, praticantes de futebol. Será possível desenvolver jogadores e equipes criativas, ofensivas, móveis, versáteis, corajosas se o treinador não reunir e aprimorar estas características? Destacamos a necessidade de os treinadores terem a capacidade de (re)criar o ambiente da rua, com aquilo de bom que ela tem a nos oferecer pedagogicamente, em suas sessões de treinamento, no entanto, será que, via de regra, ofertamos um ambiente institucional favorável para o desenvolvimento dos treinadores alinhados ao estilo e essência do futebol brasileiro?

Como a prática do futebol está sendo realizada de forma supervisionada e orientada desde a infância, não será possível alimentarmos a qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro se não houver um investimento significativo em nossos formadores. Eles são os guias, ou mediadores, para o surgimento, em maior escala, de melhores jogadores e melhor nível de jogo nas categorias de base.

O planejamento de atividades, as conversas iniciais e finais de cada treino, a disputa de competições, a construção da equipe, a gestão do grupo, as abordagens individuais, a condução dos exercícios, a gestão da comissão técnica, o cuidado, a atenção e o olhar para a formação integral dependem de uma liderança que tenha ampliado conhecimento sobre tudo que envolve o desenvolvimento humano e, também, das equipes de futebol.    

 Idealmente, um bom treinador não só tem ampliado conhecimento como busca aperfeiçoá-lo continuamente, atento às melhores práticas (pedagógicas, técnicas, de gestão, de comunicação, de liderança, de treino) aplicadas ao seu grupo de jogadores. Um bom treinador e sua equipe de trabalho irão colher informações-chave sobre cada jovem, como sua história de vida, sua educação formal, sua condição social e vão se valer dessas informações para balizar suas ações.

É neste contexto complexo e holístico, como a vida, que as novas bases para a (re)criação de um novo futebol brasileiro precisa estar fundada. É urgente a implantação de Modelos de Jogo que tenham como princípios a liberdade estrutural, a multifuncionalidade, o refino técnico, o jogo ofensivo, a ginga, a coragem e não só a permissão, mas o estímulo sistematizado da criatividade, individual e coletiva. Uma vez que o jogo é coletivo e é consensual a existência de equipes cada vez mais organizadas, compactas e sólidas defensivamente, não podemos resumir a criatividade às jogadas de efeito, de característica individual, como um drible ou uma finalização inesperados, que tem a possibilidade de definir uma partida truncada, mas também o direcionamento (se recorda que classificamos o treinador como um guia?) das ocupações do espaço pela equipe de modo que através dos passes, o meio técnico-tático mais utilizado no jogo de futebol, emerjam jogadas coletivas com potencial para desestruturarem as melhores defesas.  

E como cada equipe é constituída de seres únicos, treinadores e jogadores, seguramente estaríamos diante de Modelos de Jogo também singulares, autorais, dotados da beleza de não serem uma cópia ou adaptação de qualquer outro. Parece utópico? Sim! Mas é possível…

Vale destacar que há grandes equipes e treinadores que podem servir de referência para a implantação dos Modelos de Jogo em toda a realidade das categorias de base. Inclusive, quando abordamos a retomada da qualidade, estilo e essência do futebol brasileiro, reconhecemos que existem exemplos históricos que nos direcionam para um caminho que tem a cara do nosso povo, da nossa cultura e da nossa identidade. Que estes grandes exemplos, do passado ou atuais, sejam inspirações para os nossos formadores, da iniciação esportiva à porta de entrada para o alto rendimento.  

Sobre os autores:

*Eduardo Barros – Atual auxiliar técnico do Fluminense, já atuou na equipe principal da Seleção Brasileira e tem experiência tanto em categorias de base como no profissional em outros clubes: Athletico Paranaense, Coritiba, Juventude, Grêmio Novorizontino, Audax-SP e Oeste. Possui a Licença PRO de treinador da CBF Academy, sendo bacharel em Educação Física (Unicamp) e pós-graduado em Administração de Empresas pela FGV. Ele também é consultor pedagógico na Universidade do Futebol.

**Rafael Castellani – Atualmente é professor da CBF Academy, líder do grupo técnico pedagógico da Universidade do Futebol e Pesquisador Colaborador do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia de Estudos do Futebol Brasileiro. Possui licenciatura em Educação Física (Unesp), mestrado em Educação Física & Psicologia do Esporte (Unicamp) e doutorado em Psicologia Social & Psicologia do Esporte (Usp).

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Os desafios de um clube fénix: reconstrução institucional e desportiva após ruir no futebol

Por: André Encarnação

O futebol contemporâneo constitui um fenómeno social, cultural e económico de  grande relevância em diversas sociedades europeias. Os clubes de futebol  assumem frequentemente um papel central na identidade coletiva das  comunidades onde se inserem, funcionando como símbolos de pertença,  representação territorial e memória histórica. Para muitos adeptos, o clube local  não representa apenas uma organização desportiva, mas uma instituição com  significado emocional e cultural profundo que transita de geração em geração. 

Diversos clubes com presença histórica em campeonatos profissionais  enfrentaram dificuldades financeiras graves que culminaram em processos de  insolvência, dissolução administrativa ou desaparecimento jurídico. A crescente  profissionalização do futebol, associada à intensificação das exigências  económicas da competição, contribuiu para aumentar os riscos de instabilidade  financeira em várias organizações desportivas. Quando um clube desaparece, a  comunidade de adeptos enfrenta uma perda que ultrapassa o plano competitivo. A  extinção de uma instituição com décadas de história representa frequentemente  uma rutura simbólica com o passado. Como reação a estas perdas, surgem  frequentemente iniciativas destinadas a preservar a herança desportiva e  identitária do clube original, sendo que uma dessas respostas consiste na criação  de um novo clube, habitualmente designado por “clube fénix”. 

O conceito de clube fénix refere-se a uma organização fundada após o  colapso de um clube anterior, procurando recuperar a sua identidade histórica, os  seus símbolos e a ligação com os adeptos. Tal processo implica um percurso  complexo de reconstrução institucional, marcado por desafios económicos,  sociais, desportivos e organizacionais. O presente artigo analisa os principais  desafios enfrentados pelos clubes fénix no contexto do futebol europeu,  recorrendo igualmente a alguns exemplos concretos que ilustram diferentes  trajetórias de reconstrução institucional. 

Contexto de Colapso Institucional 

A falência dos clubes de futebol resulta frequentemente de processos prolongados  de fragilidade económica e de modelos de gestão insustentáveis. O aumento das despesas associadas à atividade profissional, especialmente em salários de  jogadores, infraestruturas e encargos operacionais, tem colocado diversas organizações perante pressões financeiras significativas. Em muitos casos, a  tentativa de alcançar sucesso desportivo imediato conduz a investimentos que  ultrapassam a capacidade financeira real dos clubes. A dependência de  investidores externos, a acumulação de dívidas fiscais e a falta de mecanismos de  controlo financeiro contribuem para agravar situações de desequilíbrio  orçamental. Quando as dificuldades atingem níveis críticos, os clubes podem  entrar em processos de insolvência que culminam na perda da personalidade jurídica ou na dissolução administrativa.  

O desaparecimento de um clube provoca frequentemente uma reação  mobilizadora por parte dos adeptos e das comunidades locais. A criação de um clube fénix surge como tentativa de preservar a continuidade simbólica da instituição desaparecida, ainda que juridicamente se trate de uma nova entidade  completamente distinta. 

Sustentabilidade Económica e Reconstrução Financeira 

A sustentabilidade financeira constitui um dos maiores desafios enfrentados por clubes fénix, sendo que inicia a sua atividade sem grande parte dos recursos materiais e financeiros que sustentavam o clube anterior. Infraestruturas, contratos  comerciais e património podem ter sido alienados ou perdidos durante o processo  de insolvência. A participação nas divisões inferiores do sistema competitivo  implica receitas muito reduzidas ou muitas vezes inexistentes. Os direitos  televisivos tornam-se inexistentes, existe uma menor visibilidade mediática e  reduzida capacidade de atração comercial que por sua vez limitam as fontes de financiamento disponíveis. Perante esta realidade, muitos clubes adotam modelos  de financiamento baseados numa forte participação dos sócios e adeptos do  anterior clube insolvente. Através de campanhas de adesão associativa, iniciativas  comunitárias e parcerias com pequenas empresas locais e de anteriores  sócios/adeptos, que se tornam elementos fundamentais para assegurar a  sustentabilidade financeira inicial. 

A experiência do colapso institucional anterior tende a influenciar  profundamente a cultura organizacional destes clubes. A prudência financeira e o equilíbrio e rigor orçamental passam a assumir prioridade estratégica. A  construção de um modelo económico sustentável baseia-se frequentemente em  princípios de transparência, responsabilidade financeira e controlo rigoroso das  despesas. A componente social desempenha um papel determinante na  consolidação de um clube fénix, dado que a ligação emocional entre clube e  adeptos constitui frequentemente o principal motor do processo de reconstrução  institucional. Os adeptos não são apenas consumidores de um espetáculo  desportivo, pois representam uma comunidade de pertença que se identifica com 

os valores, símbolos e história do clube. O desaparecimento de uma instituição  desportiva provoca, por isso, um impacto significativo na identidade coletiva de  muitas comunidades. 

O clube fénix surge como um projeto de reconstrução social que procura  preservar essa identidade. A participação ativa dos adeptos no processo  fundacional contribui para reforçar a legitimidade do novo clube. Em diversos casos  europeus, os adeptos desempenharam um papel central na criação ou  recuperação destas organizações. Um exemplo particularmente relevante pode ser  observado em Inglaterra com a fundação do AFC Wimbledon. Após a transferência  do antigo Wimbledon FC para a cidade de Milton Keynes em 2002, um grupo de  adeptos decidiu criar um clube que preservasse a identidade histórica da  instituição original. O projeto iniciou-se nos escalões inferiores do futebol inglês e,  ao longo dos anos, conseguiu alcançar as divisões profissionais, tornando-se um  dos exemplos mais emblemáticos de reconstrução baseada na mobilização dos  adeptos. 

Desafios Desportivos e Progressão Competitiva 

A dimensão desportiva representa uma das faces mais visíveis da reconstrução de  um clube fénix., sendo que a maioria destas organizações inicia a sua atividade nas  divisões inferiores dos campeonatos nacionais, independentemente do historial  competitivo do clube anterior. Implica um percurso de progressão gradual, que  pode prolongar-se durante vários anos ou mesmo décadas. A construção de  equipas competitivas com recursos financeiros extremamente limitados exige uma  estratégia desportiva muito bem estruturada. 

A aposta na formação de jogadores jovens constitui uma das abordagens  mais frequentes, com vista à valorização de atletas locais que por sua vez permite  reduzir custos e reforçar simultaneamente a ligação entre a equipa e a comunidade. A estabilidade técnica desempenha igualmente um papel importante, a continuidade das equipas técnicas facilita a consolidação de modelos de jogo e de  processos de desenvolvimento desportivo. 

Um exemplo relevante de reconstrução desportiva ocorreu em Itália com o  caso da Fiorentina, que após a falência do clube histórico em 2002, foi criada uma  entidade denominada inicialmente Florentia Viola, posteriormente renomeada  como ACF Fiorentina. O novo clube iniciou a sua atividade nas divisões inferiores  do futebol italiano e conseguiu regressar rapidamente aos escalões profissionais,  recuperando a presença na Serie A e reafirmando o seu papel no futebol italiano. Na Escócia, o Rangers FC, o histórico clube de Glasgow, enfrentou em 2012 um  processo de liquidação após graves problemas financeiros e fiscais. Uma nova entidade empresarial adquiriu os ativos desportivos do clube e permitiu a  continuidade da atividade competitiva. O Rangers foi reintegrado no sistema  competitivo escocês nos escalões inferiores e iniciou um processo de recuperação  progressiva, regressando posteriormente à principal divisão do futebol escocês. O  caso do Parma Calcio 1913 constitui também um exemplo significativo de  reconstrução desportiva. Após a falência do histórico Parma FC em 2015, um novo  clube foi criado e iniciou atividade na Serie D, o quarto escalão do futebol italiano.  Através de uma estratégia de crescimento gradual e de forte mobilização dos  adeptos, o clube conseguiu regressar às divisões profissionais em poucos anos. 

A criação de um clube fénix oferece também uma oportunidade para  reformular os modelos de governação institucional, pois muitos dos clubes que  entraram em colapso apresentavam fragilidades significativas em termos de gestão  administrativa e controlo financeiro. A nova organização pode adotar estruturas de  governação mais transparentes e participativas. Estatutos claros, mecanismos de  fiscalização financeira e participação ativa dos sócios contribuem para reforçar a  legitimidade institucional. 

A profissionalização gradual da gestão torna-se igualmente necessária à  medida que o clube cresce, adicionando funções relacionadas com administração  financeira, marketing, comunicação e planeamento desportivo exigem  competências técnicas especializadas. O acesso extremamente limitado a  infraestruturas adequadas constitui um dos principais desafios. Muitos clubes fénix  não dispõem inicialmente de estádio próprio ou centros de treino permanentes. A  utilização de instalações municipais ou a partilha de infraestruturas com outras  entidades desportivas representa uma solução comum nas fases iniciais, que por  sua vez atrasam o desenvolvimento desportivo dos clubes. 

O Caso do União da Madeira e o Surgimento do União da Bola Futebol Clube 

O contexto português oferece também exemplos relevantes de processos de  reconstrução institucional associados ao desaparecimento de clubes históricos.  Um caso particularmente significativo ocorreu na Região Autónoma da Madeira  com o declínio do histórico Clube de Futebol União da Madeira. Fundado em 1913,  o União da Madeira construiu ao longo de várias décadas uma presença relevante  no futebol português, incluindo participações na Primeira Liga. O clube  desempenhou um papel importante na vida desportiva da cidade do Funchal e na  formação de gerações de adeptos. As dificuldades financeiras acumuladas ao  longo dos anos conduziram gradualmente a uma situação de declínio institucional  que acabou por resultar na interrupção da atividade competitiva. A perda de  capacidade organizativa e os problemas económicos impediram a continuidade do  projeto desportivo nos moldes anteriormente existentes.

Perante esta realidade, surgiu em 2022 um novo projeto destinado a  preservar o espírito e a identidade associada ao universo unionista. Foi então fundado o União da Bola Futebol Clube, inspirado na herança histórica do União da Madeira. O novo clube iniciou a sua atividade nas competições organizadas pela  Associação de Futebol da Madeira, começando nos escalões inferiores do futebol  regional. O percurso competitivo inicial demonstrou uma evolução gradual. Na  época desportiva de 2024/25, o clube alcançou a subida da Primeira Divisão  Regional para a Divisão de Honra da Associação de Futebol da Madeira, escalão em  que atualmente compete. 

O caso do União da Bola Futebol Clube evidencia vários dos desafios  característicos dos clubes fénix, sendo que a reconstrução institucional exige  dedicação da estrutura existente, rigor e sacrifício, mobilização de adeptos, criação  de estruturas organizativas estáveis e consolidação de um projeto desportivo capaz  de crescer progressivamente no contexto competitivo regional. A preservação da  memória histórica do União da Madeira continua a desempenhar um papel  relevante na identidade simbólica do novo clube. A ligação emocional dos adeptos  à história unionista contribui para sustentar o projeto e reforçar o sentimento de  continuidade entre passado e presente. 

Conclusão 

Os clubes fénix representam um fenómeno significativo no panorama do futebol  contemporâneo, poisa sua emergência evidencia simultaneamente as fragilidades  estruturais de algumas organizações desportivas e a capacidade de mobilização  das comunidades que procuram preservar as suas instituições simbólicas. 

A reconstrução de um clube após um processo de colapso envolve desafios  complexos que abrangem múltiplas dimensões da vida organizacional, desde a sustentabilidade económica, a reconstrução da ligação social com os adeptos, o desenvolvimento de estruturas de governação transparentes e a consolidação da  competitividade desportiva constituem elementos fundamentais deste processo. Vários clubes demonstram que trajetórias de renascimento institucional são  possíveis quando existe uma base social mobilizada e uma estratégia de  desenvolvimento sustentável. O exemplo do União da Bola Futebol Clube na  Madeira evidencia igualmente a presença deste fenómeno no contexto português,  ilustrando o esforço de reconstrução associado à herança do União da Madeira. 

O percurso de um clube fénix raramente é imediato ou linear. A reconstrução  exige tempo, estabilidade organizacional, dedicação, empenho, muito rigor e forte  envolvimento comunitário. A persistência das direções, estruturas, dos adeptos e  a capacidade de desenvolvimento institucional podem transformar um episódio de 

colapso numa oportunidade de renovação estrutural, permitindo que o clube  renasça e recupere gradualmente o seu lugar no panorama desportivo.

André Encarnação atua como Diretor Desportivo do União da Bola Futebol Clube. Também já atuou como professor, treinador e coordenador de futebol, além ser um pesquisador ativo nos temas de turismo esportivo e sustentabilidade.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/randreencarnacao/

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O Planejamento no Futebol Brasileiro

Por: Luis Filipe Chateaubriand

É comumente difundida a ideia de que administrar uma Organização é algo composto de planejamento, organização, direção e controle. Dos quatro conceitos mencionados, o planejamento é o principal, o mais importante, o que deve nortear todos os outros.

Planejar consiste em estabelecer objetivos de curto, médio e longo prazo, assim como os meios de obtê-los. Sucede que, no Brasil, o conceito de planejamento não é devidamente valorizado.

Há razões históricas para isso, pois a colonização portuguesa foi baseada na extração de minerais preciosos, os mancebos vinham para cá para conseguir riqueza e voltar à metrópole portuguesa. Uma visão, claramente, de curto prazo, quando o planejamento deve contemplar o longo prazo.

Portanto, organizações brasileiras, em geral, têm falhas no planejamento… e não seria diferente no futebol.

No futebol, o planejamento significa organizar toda a temporada antes dela começar, considerando vários fatores, tais como montagem do elenco, definição do treinador e da comissão técnica, calendário de competições, controle financeiro. desenvolvimento das categorias de base, estratégia de contratações e vendas de jogadores.

Clubes que planejam bem evitam decisões impulsivas, como demitir técnicos a cada derrota ou contratar jogadores apenas pela pressão da torcida. Clubes que planejam mal ficam presos ao imediatismo, ao empirismo, ao paternalismo.

A troca de treinadores é um dos aspectos marcantes do mau planejamento, trocar de técnico muitas vezes prejudica a implantação de uma filosofia de jogo.

Decisões emocionais são tomadas com base em pressão da torcida, da imprensa ou de resultados imediatos, o que também denota mau planejamento.

Mais um indício de mau planejamento são os dirigentes amadores, que não tem formação em Gestão e que não são oficialmente remunerados.

E mau planejamento também é detectado em clubes que têm dívidas exorbitantes, não há orçamento, ou este é mau concebido ou não cumprido. Um problema recorrente, em termos de planejamento, não diz respeito a um clube específico, mas sim ao conjunto de clubes: o calendário imperfeito, irracional, anacrônico, do futebol brasileiro.

Este escriba é especialista no assunto.

Há exemplos de clubes que melhoraram seu desempenho a partir do planejamento.

O Flamengo, de 2013 em diante, a partir do planejamento, resgatou dívidas colossais, aumentou receitas e ganhou muitos títulos.

O Palmeiras, a partir de um presidente que emprestou dinheiro para pagar dívidas e de uma patrocinadora poderosa, que ditaram caminhos, conseguiu se reerguer. 

O Athletico Paranaense é frequentemente citado como exemplo de gestão moderna, com forte planejamento de infraestrutura e formação de jogadores, apesar dos altos e baixos dos últimos anos.

Uma mudança recente no futebol brasileiro foi a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que permite clubes se tornarem empresas, como Botafogo, Cruzeiro, Bahia. A ideia é trazer investimento privado e gestão profissional, facilitando o planejamento de longo prazo.

Em relação ao planejamento da forma de jogar do time, isto envolve modelo de jogo definido, perfil de contratações compatível com o treinador, integração entre base e profissional, uso de análise de dados e scouting.

Portanto, em termos de planejamento, o futebol brasileiro se equilibra entre a modernidade europeia e os métodos arcaicos históricos nativos.

(Texto Escrito com a Ajuda do Chatgpt)

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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Decisões em Alta Velocidade: o que a neurociência revela sobre o futebol moderno

Por: Roberto Torrecilhas |

Velocidade está além dos quilômetros por hora. Assim como os rápidos carros de Formula 1 necessitam de uma mente que os dá a vida, com os atletas do mais alto rendimento não é diferente, possuem corpos que são verdadeiras máquinas, mas que não vivem só de seu físico, também necessitam de um habilidoso piloto!

Entre Bellingham, Wirtz, Estêvão e a próxima geração que joga alguns frames à frente do jogo

Quando a gente fala que o futebol está mais rápido, não é só o GPS que está dizendo isso. Não é só o sprint, o HMLD ou o número de metros em alta intensidade.

O que realmente mudou é a velocidade da decisão. O tempo entre ver, interpretar e agir ficou menor. Quem demora um frame a mais, perde o espaço. Quem lê tarde, chega atrasado.

A neurociência ajuda a colocar nome naquilo que, no campo, a gente já sente há muito tempo: o jogo é jogado na cabeça antes de ser jogado com o pé.

1. O cérebro joga antes da bola chegar

Um jogador de alto nível não “reage” à jogada. Ele se posiciona como se já soubesse o que vem depois. A neurociência chama isso de controle feedforward: o cérebro antecipa o que vai acontecer e prepara o corpo antes do estímulo final.

Pensa no Jude Bellingham entrando na área pelo corredor central, atacando o espaço entre zagueiro e lateral, chegando sempre um meio passo antes do marcador. Não é só físico. É leitura + antecipação + decisão.

As valências de Bellingnham, o jogador que vem revolucionando a profissão “volante”no futebol mundial:

Quando ele começa a correr, a bola ainda nem saiu do pé do companheiro. Mas o cérebro já “montou o cenário”: quem pode receber, quem pode errar, quem está desajustado. A decisão que a gente vê como “intuição” é, na verdade, processamento antecipado de informação.

2. Varredura visual: ver antes para decidir melhor

A ciência fala em visual search. No campo, a gente chama de: preparar o corpo e a cabeça antes da bola chegar.

Observa o Florian Wirtz jogando: antes de receber, a cabeça gira o tempo todo. Ele olha por cima do ombro, varre o ambiente, identifica quem está livre, quem ameaça, qual espaço está abrindo. Quando a bola chega, ele já tem o “mapa” feito. Por isso, parece ter mais tempo.

Exemplo em vídeo — Wirtz escaneando o contexto e encontrando soluções sob pressão:

A neurociência mostra que jogadores de elite usam estratégias de busca visual mais eficientes: olham para menos lugares, mas olham para os lugares certos, no momento certo. O resultado é simples: menos ruído, mais informação útil.

3. Estêvão e a nova geração: driblar é decidir

Se a gente vem para a nova geração e olha para o Estêvão, por exemplo, não é só o drible que chama atenção. É quando ele dribla. Ele não tenta o 1×1 o tempo todo — ele escolhe o momento em que o defensor está mal equilibrado, em que a cobertura está longe, ou em que o campo “abre” para a aceleração.

A arte de driblar: Apresentada por Estevão:

A neurociência fala em percepção–ação acoplada: o jogador não pensa primeiro e executa depois; ele percebe e age como parte de um mesmo fluxo. Nos melhores lances de Estêvão, Bellingham ou Wirtz, o que impressiona não é só o gesto técnico, mas a qualidade da leitura que vem antes do gesto.

4. Pensar menos durante a ação, pensar mais antes

Jogador lento, muitas vezes, não é lento de perna. É lento de decisão. Ele precisa “pensar durante”, e isso custa tempo.

Jogadores de elite fazem o contrário: pensam antes. A ciência chama isso de chunking — o cérebro agrupa padrões parecidos, guarda “pacotes” de soluções e acessa isso quase como um atalho.

Quanto mais rica a experiência (jogos, vídeo, treino bem planejado), mais esses padrões ficam disponíveis. É por isso que alguns jogadores parecem “resolver jogadas de olhos fechados”. Eles já viram aquela situação muitas vezes, de muitos ângulos, em muitos contextos.

5. Emoção, calma e decisão em contextos de caos

Neurociência e psicologia do esporte convergem em um ponto: não existe tomada de decisão sem emoção. Jogador que não lida bem com o contexto emocional:

  • lê pior a pressão;
  • força jogadas que não existem;
  • se desorganiza quando o jogo fica “pesado”;
  • perde a capacidade de manter o plano tático.

Já o jogador que aprende a regular a própria emoção consegue manter uma coisa que, no alto nível, vale ouro: tempo interno. O jogo pode estar acelerado por fora, mas por dentro ele continua vendo tudo em câmera lenta.

6. O que tudo isso muda no treino?

Não adianta falar de decisão em alta velocidade e treinar em baixa complexidade. Se o treino não desafia a percepção, a atenção e a leitura, o jogador não constrói os “atalhos” mentais que precisa no jogo.

Pesquisas com treino baseado em vídeo mostram que expor jogadores a situações específicas, com pausa, repetição, perguntas e feedback, melhora o tempo de resposta e a qualidade da decisão em cenários reais de jogo. Revisões mais recentes apontam que a tomada de decisão vem sendo estudada justamente a partir dessa integração entre capacidades perceptivo–cognitivas e comportamentos tático–técnicos em contextos representativos.

Em termos práticos, isso significa:

  • usar vídeo não só para “mostrar erro”, mas para treinar leitura;
  • criar jogos condicionados que exigem varredura visual e mudanças rápidas de solução;
  • variar ritmo, espaço e número de jogadores para mudar a densidade de informação;
  • conectar sempre o estímulo (o que o jogador vê) ao princípio tático que você quer reforçar.

7. O jogo é velocidade. A vantagem é leitura. A diferença é decisão.

Quando a gente olha para Bellingham, Wirtz, Estêvão e tantos outros, não está vendo só “talento”. Está vendo cérebro treinado em contexto.

O futebol moderno é, cada vez mais, uma disputa de quem enxerga primeiro e melhor. Quem consegue transformar informação em ação sem perder o plano de jogo.

A neurociência não vem para engessar o campo. Vem para reforçar algo simples: se queremos jogadores que decidam melhor, precisamos oferecer treinos, feedbacks e ambientes que alimentem o cérebro deles com as referências certas.

O jogo corre cada vez mais rápido. Mas quem realmente domina é quem consegue, por dentro, desacelerar — e escolher com clareza o que vai fazer no próximo toque.

Aos interessados em aprofundamento no assunto, o vídeo abaixo vai dar caminhos importantes e com certeza, deixar ainda mais dúvidas e desejo na busca pelo aprofundamento neste incrível tema que é a neurociência!

Resumo em vídeo do artigo:

Por Roberto Torrecilhas | Beyond The Lines

*Artigo originalmente publicado e cedido pelo autor, através do site: https://coachesminds.com/

Roberto Torrecilhas é analista de desempenho da equipe princial da S.E. Palmeiras, possui Licença PRO de Treinadores da CBF, e é professor em várias escolas como Univerisdade do Futebol, CBF Academy e Connmembol
LinkedIN: https://www.linkedin.com/in/roberto-torrecilhas-1a0272103/?locale=pt_BR

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Estudo de caso: o que os(as) jogadores(as) consideram um bom treino?

Por: Nicolau Trevisani

Grande parte das discussões sobre metodologia de treino no futebol costuma partir da visão de treinadores, pesquisadores ou modelos teóricos de treinamento. Entretanto, uma pergunta relativamente simples raramente aparece com a mesma frequência: o que os próprios jogadores consideram um bom treino?

Com o objetivo de explorar essa perspectiva, foi realizada uma pequena investigação qualitativa com 51 atletas de futebol, homens e mulheres, com diferentes trajetórias dentro do esporte. Entre os participantes há atletas profissionais de diferentes níveis competitivos, ex-atletas e jogadores em formação, incluindo atletas com experiência internacional e passagens por seleções nacionais.

Como critério metodológico, foram considerados apenas participantes a partir de 15 anos de idade, garantindo que todos possuíssem pelo menos experiência em categorias de base estruturadas ou trajetória competitiva formal no esporte.

A pergunta central foi direta:
O que é um bom treino para você? Quais elementos precisam estar presentes para que um treino seja considerado bom?”

A partir das respostas coletadas, foi possível identificar padrões recorrentes na percepção dos atletas. Esses padrões foram organizados como pilares do treino, ou seja, elementos que apareceram de forma consistente nas respostas dos jogadores e jogadoras.

Mais do que substituir princípios metodológicos ou modelos teóricos de treinamento, esses pilares ajudam a lembrar algo fundamental: o treino existe para o jogador. Entender o que gera sentido para quem vive o jogo diariamente pode ser uma das formas mais eficazes de aumentar o engajamento da equipe, fortalecer vínculos dentro do grupo e tornar o processo de treino mais significativo na prática.

Pilares identificados pelos atletas

Competitividade — 70,6%
A competitividade foi o elemento mais citado pelos atletas. Para muitos jogadores, um bom treino precisa ter desafio real, disputa e estímulo competitivo, aproximando o ambiente de treino das emoções presentes na partida.

Relação direta com o jogo — 36,7%
Outro ponto recorrente foi a importância de que os exercícios se aproximem da realidade do jogo. Muitos atletas destacaram que treinamentos mais conectados com situações reais de partida tornam o treino mais significativo e facilitam a transferência para o jogo.

Intensidade e ritmo — 30,6%
Diversos jogadores apontaram que um bom treino é aquele que mantém ritmo elevado e poucas pausas, permitindo maior envolvimento físico e mental durante as atividades.

Aprendizado e tomada de decisão — 30,6%
Outro elemento bastante citado foi a presença de atividades que estimulem o raciocínio e a tomada de decisão. Os atletas valorizam exercícios que os coloquem diante de problemas de jogo e os obriguem a pensar e reagir rapidamente.

Participação ativa — 26,5%
A sensação de estar constantemente envolvido no treino, participando das ações e tocando na bola com frequência, também apareceu como um fator importante para que o treino seja considerado produtivo.

Clareza na comunicação do treinador — 26,5%
Por fim, muitos atletas ressaltaram a importância de explicações claras e objetivos bem definidos dentro do treino. Quando os jogadores compreendem o propósito das atividades, tendem a se envolver mais com o processo.

Algumas tendências observadas nas respostas

Embora esses pilares apareçam de maneira bastante transversal entre atletas em formação e atletas profissionais, algumas tendências interessantes foram observadas nas respostas.

Entre atletas com experiência profissional, apareceu com maior frequência uma preocupação relacionada à clareza estratégica do treinamento, especialmente na conexão entre os exercícios realizados e o modelo de jogo do treinador ou o plano de jogo da equipe.

Para esses jogadores, um bom treino tende a ser aquele em que as atividades fazem sentido dentro da organização coletiva da equipe, permitindo compreender como aquilo que está sendo treinado será aplicado na partida.

Já entre atletas em formação, embora esses aspectos também apareçam, observou-se maior ênfase em elementos ligados ao processo de aprendizagem individual, como evolução técnica, repetição de ações, participação nas atividades e compreensão das tarefas propostas.

Esse resultado não deve ser interpretado como oposição entre os grupos, mas possivelmente como reflexo das diferentes fases de desenvolvimento do atleta. À medida que o jogador acumula experiência competitiva, sua percepção sobre o treino tende a incorporar cada vez mais dimensões estratégicas e coletivas do jogo.

Síntese dos pilares identificados

Competitividade — 70,6%
Relação com o jogo — 36,7%
Intensidade — 30,6%
Aprendizado / tomada de decisão — 30,6%
Participação ativa — 26,5%
Clareza do treinador — 26,5%

Considerações finais

Os resultados sugerem que compreender o ponto de vista dos atletas pode ser uma ferramenta extremamente valiosa para o desenho de processos de treino mais eficazes.

Isso não significa abandonar modelos metodológicos ou princípios teóricos de treinamento. Pelo contrário: significa reconhecer que tão importante quanto qualquer princípio metodológico é compreender o que gera sentido para quem está dentro do campo.

Quando o treino consegue alinhar lógica metodológica, desafio competitivo e significado prático para o jogador, cria-se um ambiente mais favorável para o desenvolvimento técnico, tático e humano dentro do futebol. Em última análise, o treino existe para o jogador. E escutar quem vive o jogo diariamente pode ser um dos caminhos mais poderosos para tornar o processo de treino mais engajador, mais significativo e potencialmente mais eficaz.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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Saiba contratar e saiba demitir

Por: Marcel Capretz

Que fique bem claro: não sou contra demitir treinador de futebol. O politicamente correto que diz que todo técnico deve ter tempo de trabalho é fantasioso e contraproducente.

O mundo corporativo deixa claro e o futebol, mesmo com suas especificidades, deveria abraçar: demore para contratar e seja rápido para demitir! Se essa ordem não for respeitada e não houver critérios para a admissão, se não for feita uma pesquisa minuciosa prévia e a escolha for equivocada não faz sentido perder tempo e insistir com um trabalho que não tende a evoluir.

A convicção e o conhecimento de quem contrata é o mais importante. Esse recrutamento e seleção para trazer um treinador, que será o líder do processo, não pode ser feito de qualquer jeito, na base do ‘esse me agrada, esse não’, apenas por opiniões subjetivas. Porque é esse profissionalismo que vai ser fundamental para avaliar corretamente o trabalho que está sendo desenvolvido e se há margem de evolução ou não.

Há trabalhos que mesmo em sequência de derrotas merecem ser mantidos porque está sendo sedimentado algo para um sucesso futuro. Há outros, porém, que mesmo em momentos positivos estão no limítrofe tático e na gestão do ambiente e que a tendência é só cair.

Saber avaliar isso é para poucos. Conhecimento e sensibilidade que falta muitas vezes no futebol brasileiro.

Poderia enumerar aqui todas as demissões que já tivemos neste ano em clubes da Serie A, como Osório no Remo, Fernando Diniz no Vasco, Crespo no São Paulo, Tite no Cruzeiro e Filipe Luiz no Flamengo… invariavelmente em todas elas vemos o erro na expectativa da contratação e o erro na avaliação e no timing da demissão….

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NOVOS CAMPEÕES: Preparação mental inserida nos microciclos de treinamento

Por: Maurício Rech

No futebol real — aquele que acontece em alta velocidade, sob pressão e com decisões em frações de segundo — não existe atleta “dividido”. O corpo não joga separado da mente; a técnica não aparece sem emoção; a tática não se sustenta sem energia, vínculo e clareza. Por isso, olhar o jogador a partir de um pensamento sistêmico e holístico é mais do que uma visão bonita, é uma exigência prática do alto rendimento. O atleta é um sistema vivo, influenciado por sono, rotina, relações, contexto familiar, ambiente do clube, estilo de liderança, calendário, viagens e expectativas externas. Tudo isso entra em campo — mesmo que ninguém sequer veja ou comente.

É justamente nessa perspectiva que a preparação cognitiva e emocional ganha relevância, não como um “módulo à parte”, mas como um componente integrado ao treino, capaz de potencializar o físico, sustentar a tomada de decisão e dar estabilidade ao comportamento em jogo. Quando um atleta regula melhor suas emoções, ele não melhora apenas seu bem-estar — ele melhora sua capacidade de executar movimentos com precisão sob estresse, manter o plano tático com lucidez e se recuperar mais rápido após erros, choques e frustrações. A ciência tem sido cada vez mais clara com resultados de pesquisas que afirmam que o desempenho é um fenômeno psicofisiológico, no qual atenção, percepção, controle inibitório, memória de trabalho e leitura de jogo dialogam com fadiga, excitação, confiança e medo em tempo real.

Na prática, estratégias como visualização/imaginário, rotinas preparatórias, mindfulness, treino de habilidades psicológicas e intervenções estruturadas ajudam a criar um estado interno mais estável para que o atleta acesse o que já treina no campo. Em vez de “controlar” emoções, o objetivo é desenvolver autorregulação funcional. Como? Percebendo sinais do próprio corpo, nomeando o que está acontecendo, ajustando respiração e foco, e voltando ao jogo com presença! Isso reduz os efeitos da ansiedade e da ruminação, melhora a comunicação com colegas e aumenta a consistência comportamental, exatamente o que define, em muitos momentos, o “nível” de um jogador.

A força dessa abordagem cresce quando ela é inserida dentro dos microciclos de treinamento, porque deixa de ser um recurso eventual e passa a fazer parte do cotidiano, com adaptações conforme carga física, densidade de jogos e contexto competitivo. Nesse formato, torna-se possível treinar foco, flexibilidade cognitiva e estratégias de enfrentamento emocional da mesma forma que se treina uma pressão coordenada ou um padrão ofensivo: com repetição, feedback e progressão. Evidências recentes sugerem, inclusive, que o treinamento combinado de resistência física e cognitiva (brain endurance training) pode gerar ganhos superiores ao treino físico isolado em variáveis relevantes ao futebol, como multitarefa, tomada de decisão e agilidade específica — competências que, no jogo moderno, valem tanto quanto metros percorridos.

Além disso, intervenções psicoeducativas relativamente curtas, bem desenhadas e consistentes — combinando visualização, mindfulness e elementos de coesão — mostram potencial para reduzir ansiedade e elevar motivação intrínseca e confiança, com efeitos observáveis em diferentes faixas etárias e níveis competitivos. Isso reforça uma mensagem importante para clubes e comissões técnicas, na medida que não é preciso “parar tudo” para treinar o mental. Quando a preparação cognitiva e emocional é tratada como parte do processo de desempenho, ela encaixa no calendário e vira um multiplicador silencioso do treino técnico-tático-físico.

Em resumo, a preparação cognitiva e emocional, integrada aos microciclos, é uma ferramenta de alta performance porque atua no sistema inteiro, melhora presença, regula estresse, protege relações e sustenta decisões sob pressão. Ela não substitui o treino, ela completa a rotina de treinamentos! E, no futebol, um atleta inteiro não joga apenas melhor, ele aprende mais, recupera-se melhor e constrói uma carreira mais estável.

*Maurício Rech é Mestre em Psicologia e Saúde (UFCSPA), pós-graduado em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Ex-diretor executivo de futebol profissional e de base e advogado (PUCRS), possui extensões internacionais em Psicologia do Bem-Estar (Yale) e Ética (Harvard). Publicou estudos em Saúde Mental, Neurociência e Psicologia Positiva, atuando por meio de evidências científicas em práticas aplicadas para clubes, atletas e comissões técnicas.
Linkedin: linktr.ee/mauriciopsicoeduca

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Quando o mundo perde ornamentos, o futebol perde dribles

Por: Roberto Torrecilhas

Existe um incômodo silencioso atravessando a cultura contemporânea: a sensação de que o mundo tem ficando cada vez mais acinzentado e “liso”. Desapareceram os detalhes. Menos riscos, diferentes assinaturas e visões de mundo, contraste. Tudo muito padronizado. Na arquitetura, repetem-se formas globais; na arte, o gesto criativo oscila entre produto e performance; e, no futebol, cresce a impressão de um jogo cada vez mais eficiente, intenso e organizado, e ao mesmo tempo, em muitos contextos, mais previsível.

Este texto parte de uma hipótese que me parece cada vez mais evidente: o mesmo espírito cultural que empurra a sociedade para a padronização estética também pressiona o futebol a reduzir o improviso, a autoria e o desequilíbrio criativo.

Não tento apresentar uma nostalgia vazia ou um ataque simplista à tática, à ciência ou aos dados. O problema não é a evolução. O problema começa quando a busca por controle absoluto transforma a criação em risco proibido, e quando o “ornamento” deixa de ser identidade para virar “excesso”.

Antes de iniciarmos, observe estas imagens, o que elas te remetem?

O passado e o futuro, o que ganhamos e o que perdemos?

1. A morte do ornamento e a vitória da “Eficiência” (mas eficiente em qual ponto de vista?)

Parte do debate contemporâneo sobre arte e arquitetura gira em torno de um único sentido: o belo, o expressivo e o singular passaram a precisar justificar sua existência em termos de utilidade. O detalhe é suspeito, adorno é tratado como desperdício. A singularidade passa a ser lida como ineficiência.

Em um texto da Gazeta do Povo, o abandono dos ornamentos é tratado como um sintoma de empobrecimento cultural, argumentando que diferentes civilizações historicamente manifestaram identidade por meio de suas expressões ornamentais. A crítica central é forte: o desaparecimento do ornamento não seria apenas uma mudança estética, mas um sinal de um tipo de empobrecimento civilizacional.

Esse ponto é importante porque, quando o ornamento desaparece, o que se perde não é apenas algo superficial. O que se perde é a linguagem. O ornamento, entendido de forma séria, não é excesso. Está conectado com o contexto, cultura, origem e assinatura. Um detalhe que grita: “isso veio de algum lugar, foi produzido por alguém, carrega uma história”. E esse é o resultado de originalidade, que retrata a forte conexão do autor com a vida, traduzidos por sua extrema qualidade técnica.

O problema começa quando uma estética funcional deixa de ser escolha e vira dogma. E toda vez que um princípio vira dogma, ele para de organizar e começa a empobrecer. Deixa de ter conexão com a vida ao seu redor, perde a conexão com os seus integrantes e o resultado é algo que tem pouca ou nenhuma representação com a sua cultura.

Quando o detalhe deixa de ser linguagem e passa a ser tratado como ruído, a cultura começa a confundir simplificação com esvaziamento.

Trazendo alguns pensadores e discussões sobre o tema, apresento aqui pontos essenciais para esta discussão.

A arte tem se desconectado da humanidade? De um elemento de domínio do povo, passando a uma transição para o domínio de especialistas e classes específicas?

Este movimento te faz traçar alguma relação com a transformação com que o futebol vem passando? De representação cultural e de domínio público para algo muito complexo, representando “alguns e seus especialistas” e se distanciando da sua essência e origens?

Lembrando!!! Por aqui estamos abordando diferentes ideias, com equilibrio e boas discussões, para que todos cresçamos juntos!!!
Respeito todas as formas de arte e diferentes pensamentos.

2. O mundo liso: menos cor, menos contraste, menos surpresa

A padronização estética não atua apenas como tendência visual. Ela atua como regime perceptivo, moldando o olhar, reduzindo o seu impacto. Ela acostuma o sujeito a viver cercado por superfícies limpas, tons neutros, geometrias previsíveis e linguagens replicáveis. Vamos pensar os regimes estéticos, tudo passa por padrões pré estabelecidos: Vestimenta, pensar, agir, gosto musical, religião, comportamental. Será que todos concordam e se moldam como pensam e acreditam; ou são resultado de constantes cortes e repressão de um ambiente cada vez mais agressivo e padronizado?

Um artigo do ArchDaily Brasil, ao comentar uma pesquisa baseada em milhares de fotografias de objetos cotidianos, aponta uma tendência de predominância de tons mais neutros e formas mais regulares ao longo do tempo. A análise não é moralista, mas ela ajuda a enxergar algo importante: há uma convergência visual crescente em objetos e ambientes do cotidiano.

Isso não significa que o mundo ficou “objetivamente pior”. Mas significa, sim, que ele ficou mais homogêneo. E homogeneidade, quando excessiva, cobra um preço: o olhar perde estranhamento, a experiência perde textura e a cultura perde contraste.

Até mesmo em estudos populares sobre emoção e cor, aparece uma forte metáfora: reportagens da Veja e do Mega Curioso repercutiram pesquisas em que tons acinzentados aparecem associados a estados emocionais mais negativos ou a redução de contraste perceptivo. Não se trata aqui de transformar isso em causalidade simplista, mas a imagem é forte: um mundo mais cinza é também um mundo em que o contraste simbólico parece enfraquecido.

E o contraste é fundamental para qualquer forma de expressão.

3. O futebol como espelho da época

O futebol sempre foi mais do que um esporte. O futebol é um espaço de condensação cultural. É um lugar em que o corpo traduz aquilo que uma sociedade pensa, sente, reprime e celebra. E muitas das vezes um ponto de “desafogo” para uma sociedade que vive afundada em problemas dos mais diversos. tipos.

Um drible nunca foi apenas um gesto técnico. Um drible é uma micro-narrativa, o teatro do corpo. Um instante em que o jogador, por meio da sua relação com tempo, espaço, engano e coragem, produz algo que ultrapassa a mera utilidade e o resultado que gera para o espetáculo, além de mental sobre o adversário, atinge o emocional de milhares de pessoas que se veem representadas por aquele artista.

Por isso, quando o futebol começa a perder drible, perde-se mais do que “entretenimento”. Perde-se uma forma de linguagem, forma popular de autoria. Perde-se o modo de dizer “eu existo no jogo” sem depender apenas da obediência ao sistema robotizado e limitante.

O futebol contemporâneo vive um paradoxo fascinante: nunca tivemos tanta informação, tanta precisão, tanta capacidade de mapear o jogo. Tracking. GPS. Modelos de decisão. Mapas de calor. Métricas de pressão. Modelos probabilísticos. Tudo isso é valioso se bem utilizado, e que não venha a sobrepor os sentimentos, intuição e relações de quem vive e executa o jogo…

Mas, ao mesmo tempo, cresce a sensação de que muitos jogos se parecem. A organização aumenta. A singularidade diminui. Os padrões tomam conta do espetáculo. As assinaturas desaparecem.

É aqui que a analogia com o ornamento ganha sentido: o drible, o passe improvável, a pausa, a condução que quebra o script, a invenção sob pressão… tudo isso pode ser entendido como o ornamento do futebol.

Não como excesso inútil. Mas como o elemento que dá identidade ao sistema. E principalmente, o valor inestimável destes gestos artísticos e expressivos para o espetáculo como um todo.

4. Como a mecanização acontece: calendário, mercado, dados e medo

Chamar o futebol atual de “mecanizado” não significa negar sua evolução. O jogo ficou mais intenso, atlético. Se otimizou e deu sentido a muitas coisas no jogo coletivo. Mais sofisticado em muitos aspectos. O problema aparece quando a busca por controle total reduz a margem de autoria, e principalmente, a sensibilidade e repertório dos atletas para solucionarem os problemas que o jogo lhes apresenta.

E essa mecanização não é apenas tática. Ela é estrutural, ambiental e limitante ao ponto de vista psicológico.

4.1 Calendário e falta de tempo

E nem tudo isso é algo produzido apenas pela evolução tecnológica e moderna. Mas sim a crescente de jogos, valores astronômicos, cobranças desproporcionais e a cultura imediatista que vem tomando conta do esporte. Com pouco tempo para treinar, modelos mais replicáveis e comportamentos mais automatizáveis ganham prioridade. O treinador passa a privilegiar aquilo que consegue estabilizar rápido. O espaço para exploração, improviso e repertório tende a diminuir.

Veja o treinador Enderson Moreira falando sobre estes aspectos:

Algumas falas interessantes sobre este mesmo tema:

4.2 Mercado “plug and play”

O mercado valoriza cada vez mais perfis que encaixam rápido. O jogador funcional, obediente e adaptável tem enorme valor. Isso não é ruim em si. O problema é quando o sistema passa a premiar apenas isso, e começa a desconfiar de perfis mais autorais, mais caóticos, mais criativos.

4.3 Dados mal utilizados

O dado, quando bem utilizado, amplia percepção. O grande problema é quando vira manual de “não errar”, ele deixa de apoiar a criação e passa a censurá-la. Se toda métrica premia apenas retenção e baixo erro, o comportamento ótimo vira o passe lateral eterno.

4.4 O medo como cultura

O erro exposto em rede social virou julgamento moral. O atleta percebe isso rapidamente, e o sistema aprende a se proteger. Quando o ambiente pune o risco, o risco desaparece. E quando o risco desaparece, a criatividade vira exceção.

O futebol mecanizado não nasce apenas da tática. Ele nasce do medo coletivo de errar em público.

João Paulo Sampaio, gerente de base do Palmeiras abordando este tema, e o quanto se torna prejudicial ao ponto de vista de formação e desenvolvimento dos talentos:

5. O “jogo correto” e a estética corporativa do futebol moderno

Em muitos contextos, o futebol contemporâneo começa a se parecer com uma estética corporativa: decisões seguras, movimentos treinados, comportamentos previsíveis, baixa exposição, mínima variância.

A lógica é simples: se “funciona”, então serve. Se reduz risco, então é melhor. Se protege o emprego, então é preferível. Se evita crítica, então se consolida.

Só que o futebol nunca foi apenas um exercício de redução de erro. O futebol sempre foi, também, um espaço de produção de desequilíbrio. E desequilíbrio é o coração do jogo.

O drible, o passe que quebra linha, a pausa inesperada, a finta corporal, a recepção orientada fora do padrão, tudo isso não é perfumaria. Mas sim, é capacidade de deslocar a lógica do adversário.

Em outras palavras: o “ornamento” do futebol não é apenas beleza. É vantagem competitiva, confiança…

6. Resgatar a arte sem abandonar a competitividade

A resposta não é voltar ao caos, rejeitar ciência ou demonizar os dados. O caminho maduro é outro: usar processo e método para proteger a criação humana — e não para substituí-la.

6.1 Estrutura que protege o risco

Criatividade não nasce no vazio. Criatividade nasce com cobertura. Se a equipe possui mecanismos claros de compensação, o jogador arrisca com menos medo. A estrutura não é inimiga do drible. A estrutura é o guarda-corpo que o permite arriscar.

6.2 Treinar princípios, não coreografias

Princípios geram variação e coreografias geram cópia. Quanto mais o treino vira script, mais o jogo vira execução, e em um ambiente (in-vitro), tendo que acreditar piamente que aquele roteiro trabalhado seja reproduzido quase de forma impecável no jogo para as coisas acontecerem… Quanto mais o treino ensina intenção, relação e leitura, proporcionando recursos e repertório aos atletas, mais o jogo preserva a autoria.

6.3 Métricas que valorizem coragem

Se toda métrica premia apenas acerto, a coragem some. É possível medir criação de vantagem: rupturas, progressões, passes que quebram linha, conduções que arrastam bloco, ações que aumentam a probabilidade de finalização.

6.4 Cultura interna: erro criativo não é crime

O ambiente define o jogador. Quando o clube transforma o erro em humilhação, o atleta escolhe o seguro. É preciso diferenciar erro por displicência de erro por tentativa responsável.

6.5 Identidade como diferencial competitivo

O estilo universal pode ser eficiente. Mas identidade é imprevisível. E imprevisibilidade, no futebol, é uma vantagem competitiva com valor inestimável.

Clique aqui para assistir: https://www.youtube.com/watch?v=RfIvpCgIUU0

7. O desafio da nova geração de treinadores

O treinador moderno precisa lidar com uma tensão sofisticada: organizar sem esterilizar; estruturar sem engessar; medir sem reduzir; analisar sem retirar o poder de decisão do jogador.

O dado mostra muito. Como, onde, em quais formas… Muitas vezes, mostra até “com que frequência”. Mas a criação acontece no “como”. E o “como” ainda pertence ao corpo, à coragem, ao repertório, à sensibilidade e à relação humana.

O treinador do futuro não será o que mais controla. Será o que melhor constrói contextos para que a inteligência coletiva e a autoria individual coexistam.

Em um mundo cada vez mais liso, o futebol pode seguir sendo um dos últimos lugares de resistência do ser humano. Mas só será se deixarmos de punir o artista.

Leituras recomendadas:

https://coachesminds.com/o-tecnico-2-0-os-treinadores-do-futuro/: Quando o mundo perde ornamentos, o futebol perde dribleshttps://coachesminds.com/o-tecnico-2-0-parte-2/: Quando o mundo perde ornamentos, o futebol perde dribles


8. Conclusão: o futebol ainda pode ser arte

O futebol é um espelho da época. Se a sociedade se organiza para ser mais eficiente, mais mensurável e menos ambígua, o jogo também tende a caminhar para o controle.

O maior problema começa quando o controle vira censura. Onde a vida perde contraste, a identidade perde seus detalhe e essência. Quando o futebol perde o drible e as características individuais que torna cada ser único e reconhecido pelo o que ele é.

O desafio da nossa geração é bastante complexo: construir equipes organizadas sem matar a expressão; usar tecnologia como suporte, sem ficar refém dos painéis; entender que o dado mostra muito, mas não são apenas referências sozinho; compreender que o futebol continua sendo um sistema complexo, de relações e sentimentos em que o coletivo organiza o cenário, mas o detalhe humano ainda decide a resposta.

Se o mundo está ficando uniforme, o futebol ainda pode ser um dos últimos lugares de resistência dos seres vivos.

E talvez seja exatamente por isso que ainda valha tanto a pena defender o “ornamento” no jogo: não como excesso, mas como linguagem, identidade e com a assinatura de seus artistas.

Resumo do artigo em vídeo:

Por Roberto Torrecilhas | Beyond The Lines

*Artigo originalmente publicado e cedido pelo autor, através do site: https://coachesminds.com/

Roberto Torrecilhas é analista de desempenho da equipe princial da S.E. Palmeiras, possui Licença PRO de Treinadores da CBF, e é professor em várias escolas como Univerisdade do Futebol, CBF Academy e Connmembol
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Dimensão Emocional e Princípios da Periodização Tática: integração e proposta prática

Por: Nicolau Trevisani

Dentre os diversos modelos de treinamento existentes no futebol contemporâneo, talvez o mais conhecido e debatido seja o da Periodização Tática, concebida em Portugal pelo professor Vítor Frade. Trata-se de uma forma de organizar o treino a partir do princípio da especificidade: treina se o que se pretende jogar. Essa especificidade não é apenas estrutural ou posicional, mas essencialmente comportamental.

Seus princípios metodológicos — especificidade, propensão, progressão de complexidade e alternância horizontal — estruturam o microciclo de modo que o modelo de jogo seja experienciado diariamente sob diferentes níveis de exigência. A propensão aumenta a probabilidade de determinados comportamentos emergirem no treino. A progressão de complexidade eleva as exigências relacionais, perceptivas e decisórias ao longo da semana. A alternância horizontal regula a carga sem romper a identidade do jogar. Não se alternam conteúdos desconectados, mas níveis distintos de exigência do mesmo jogo.

Para aprofundar essa discussão, é fundamental compreender o que entendemos por jogo. Na perspectiva desenvolvida por Alcides Scaglia, o jogo é um sistema complexo de relações, imprevisibilidades e problemas emergentes. Ele não se resume à execução de padrões, mas consiste na interação constante entre adversários, companheiros, espaço, tempo e regras. O jogo produz tensão, cooperação, conflito e necessidade permanente de decisão em ambiente imprevisível.

Se partimos dessa concepção, torna-se claro que o modelo de jogo deve funcionar como um norte orientador, e não como um fim em si mesmo (assim como já pude aprofundar em outro texto publicado aqui, algum tempo atrás. No meu entendimento, o objetivo do treino não é simplesmente reproduzir um modelo idealizado, mas formar uma equipe capaz de jogar melhor — isto é, preparada para lidar com as diferentes demandas e imprevisibilidades da partida. A lógica maior do jogo permanece simples e incontornável: fazer mais gols que o adversário.

Nesse sentido, esta reflexão não busca se apropriar integralmente da Periodização Tática nem reproduzi-la como método fechado. Pelo contrário, dialoga com seus princípios metodológicos — reconhecendo sua relevância estrutural — para, a partir deles, propor uma ampliação do olhar. Trata-se de reconhecer o valor de uma matriz organizadora consistente e, simultaneamente, explorar como a dimensão emocional pode ser tratada não como algo paralelo, mas como componente intrínseco ao próprio jogar.

Quando o modelo passa a ser tratado como um fim fechado, corre-se o risco de reduzir a adaptabilidade coletiva. O modelo organiza referências, mas o jogo exige regulação contínua. É nesse ponto que a dimensão emocional deixa de ser algo externo ao campo e passa a ser compreendida como parte integrante do comportamento coletivo.

Ansiedade coletiva, confiança estrutural, agressividade regulada, resiliência após o erro, estabilidade sob pressão — tudo isso é comportamento. E comportamento se treina no contexto do jogo. Quando o treino respeita essa natureza relacional, ele cria um ambiente fértil para que os atletas desenvolvam não apenas coordenação tática, mas também estabilidade emocional integrada ao jogar.

O estado de Flow — entendido como um estado de engajamento pleno, clareza perceptiva e sensação de controle sob desafio equilibrado — não é objetivo direto do treino. Ele é consequência. Surge quando modelo, competência, desafio, segurança emocional e interações pedagógicas se alinham. E emerge também da qualidade dos feedbacks da comissão técnica: das palavras-chave utilizadas, do clima emocional criado no treino e da coerência entre exigência e suporte.

Treinar melhor, portanto, não é apenas organizar movimentos. É preparar a equipe para sustentar comportamentos eficazes sob pressão, instabilidade e desafio — mantendo o modelo como norte, mas colocando a lógica do jogo acima de qualquer idealização. A seguir, apresento uma aplicação prática de microciclo com jogo no domingo e foco da semana em organização ofensiva e transição defensiva. Trata-se de um exemplo que pode — e deve — ser ajustado de acordo com cada contexto competitivo, tanto nos conteúdos táticos quanto nos componentes emocionais a serem desenvolvidos.

O conhecimento da dimensão psicológica e emocional mostra-se um diferencial nesse processo, pois permite compreender que tipo de emoção cada exercício ou cada fase da semana tende a exigir, como essas emoções emergem no treino e de que forma podem ser moduladas em prol do desempenho coletivo.

Por fim, ressalto — inclusive pela minha formação em Psicologia e pela atuação ao longo de anos como analista de desempenho e scout em diferentes contextos — que esta proposta não invalida intervenções psicológicas em grupo ou atendimentos individuais. Pelo contrário, reconhece que tais intervenções podem desempenhar papel fundamental tanto na performance quanto na saúde emocional de cada indivíduo que compõe a equipe e o ambiente do clube.

Proposta de Microciclo Integrado


Domingo – Jogo
• Competição oficial.

Segunda-feira – Recuperação / Folga
• Atletas que atuaram: folga
• Não relacionados: trabalho regenerativo + técnico leve

Carga
Volume: baixo
Intensidade: baixo
Densidade: baixo

Objetivo emocional:
• Descompressão
• Regulação pós-competição

Palavras-chave:
“Recuperar”, “Respirar”, “Reorganizar”

🟢 Terça-feira (D-5) – Reativação de Princípios

Exercício principal:
7×7+ 2 coringas externos em meio campo, com metas laterais e finalização rápida após progressão.

Descrição:
• Jogo reduzido com estímulo à circulação ofensiva e reação imediata à perda.

Objetivo tático:
• Reativar princípios de organização ofensiva: Gerar linha de passe, circulação de bola
• Reação pós perda e pós ganho de bola

Objetivo emocional:
• Reconstrução da confiança coletiva
• Coragem para jogar e aparecer para o jogo
• Comunicação ativa
• Reengajamento competitivo

Carga:
Volume: médio
Intensidade: média
Densidade: média
Palavras-chave:
“Comunica”, “Reage”, “Confia”, “Juntos”

🔵 Quarta-feira (D-4) – Comportamentos ofensivos da própria equipe

Exercício principal:
10×10 (+goleiros) em 3⁄4 de campo
Manipulação de placares, numero de jogadores expulsos por um período, erros de arbitragem… (0x1, 1×0, empate com tempo reduzido). Manipulação de situações impostas pelo jogo

Regras:
Gol = 2
Gol após recuperação em até 5 segundos = +1


Descrição:
Jogo próximo ao jogo formal, buscando estimular princípios de jogo da nossa ideia de jogo ( Terceiro, homem, ataque as costas do oponente, mapear espaço, diferentes alturas de passe…)

Objetivo tático:
• Organização ofensiva sob pressão real, com conceitos da ideia de jogo
• Transição defensiva agressiva
Objetivo emocional:
• Treinar resiliência
• Coragem para jogar
• Regular ansiedade coletiva
• Sustentar comportamento após erro
• Agressividade coordenada

Carga
Volume: médio
Intensidade: alta
Densidade: alta

Palavras-chave:
“Sem pânico”, “Reage já”, “Continua”, “Pressiona juntos”

  • Dependendo do jogo, é possível colocar componentes estratégicos da próxima partida neste dia, e voltar-se menos para apenas comportamentos da própria equipe

🟢 Quinta-feira (D-3) – Consolidação Estratégica (Saída + Construção
Direcionada)- Pode variar dentro de cada jogo


Exercício principal:
11×11 campo reduzido de um gol a meia lua oposta
Início sempre em saída de bola
Simulação do padrão de pressão do adversário

Descrição:
Trabalho direcionado para a estratégia do próximo jogo, enfatizando construção organizada.

Objetivo tático:
• Estruturar saída
• Construção sob padrão específico
• Ajuste estratégico

Objetivo emocional:
• Segurança estrutural
• Coragem para jogar
• Confiança no plano
• Controle emocional pré-competitivo

Carga
Volume: alto
Intensidade: média
Densidade: média

Palavras-chave:
“Estrutura”, “Paciência ativa”, “Confia no plano”, “Organiza”

🟡 Sexta-feira (D-2) – Velocidade e acabamento rápido

Exercício principal:
8×8 em campo médio
Ataques com tempo limitado para finalizar (8 segundos)

Descrição:
Transições rápidas com foco em verticalidade e reação defensiva imediata.

Objetivo tático:
• Velocidade na organização ofensiva- conclusão das jogadas
• Compactação defensiva pós-perda

Objetivo emocional:
• Agressividade controlada;
• Ambição para fazer gol
• Coragem decisional
• Intensidade competitiva

Carga
Volume: médio
Intensidade: alta
Densidade: média
Palavras-chave:
“Rápido”, “Ataca”, “Recupera”, “Coragem”

🟤 Sábado (D-1) Bola Parada

Bola parada ofensiva
Trabalho específico de ataque à bola.

Descrição:
Baixa carga geral, foco em ativação e confiança coletiva.

Objetivo tático:
• Ajustes finos
• Organização final
• Coordenação de bola parada

Objetivo emocional:
• Agressividade no ataque à bola
• Confiança final
• Estabilidade emocional

Carga
Volume: baixo
Intensidade: Baixa
Densidade: baixa

Palavras-chave:
“Ataca a bola”, “Decide”, “Confiança”, “Prontos”

Concentração e foco na atividade são estimuladas o tempo inteiro em qualquer atividade.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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Desenvolvimento no futebol, a arte de conectar dribles, jogo e pessoas.

Por: Thiago Filla de Almeida

Desenvolver no futebol é ampliar a capacidade de conexão com a bola, com o jogo, com o outro e com a vida de quem joga.

Futebol, assim como a VIDA é um jogo de CONEXÔES. Essa ideia ficou ainda mais clara para mim em uma conversa com meu filho sobre a escola e o modo de superar o desafio das avalições. Ele é goleiro, Sub- 14, e gosta muito do que faz. Raramente comento algo sobre partidas ou treinos; deixo que ele fique à vontade e me procure quando quiser dialogar sobre o tema.

Falei a ele:

“Para ir bem em uma disciplina na escola ou nas avaliações, você precisa criar vantagem numérica. Chame o estudo para jogar ao seu lado. Traga a atenção nas aulas para te ajudar nas avaliações. É diferente de ficar apenas você contra o conteúdo, contra a prova, contra o tempo, enfim.”

Conectando com a nossa área, somos professores ou agentes socializadores preparados para interagir com essas teorias e para trazer vantagens numéricas de recursos, de opiniões sobre os nossos afazeres?

O cenário e o contexto do futebol atual nos mostram pouca capacidade dessas relações. A repetição, as replicações e a dificuldade de criar conexões enfraquecem o ambiente de formação. Desde as relações dentro de uma comissão técnica até as conexões entre os próprios jogadores, vemos um jogo diferente, que sequer podemos comparar com outros tempos e não avaliar se é bom ou ruim, pois entraríamos em uma outra discussão.

Talvez desenvolver seja exatamente isso: ampliar conexões e sustentar
relações que potencializam o jogo. No campo ou na vida, criar vantagem numérica é chamar o outro para jogar junto, é aproximar. Quando reduzimos as relações, empobrecemos os vínculos e o jogo também se empobrece nas diversas situações.

No fim, não se trata de ações isoladas, mas de redes que se constroem e se conectam em múltiplas possibilidades. O futebol, em todos os seus níveis, é sobretudo educacional. Desenvolver no futebol não é formar jogadores mais fortes, mais rápidos ou mais técnicos, mas pessoas mais conectadas ao jogo, ao outro e a si mesmas, porque o jogo que realmente importa é o das relações.

Inspirações e Referências:
João Batista Freire
Wilton Carlos de Santana
Danilo Augusto Ribeiro

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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As proezas de Abel Ferreira

Por: Marcel Capretz

O título do Paulistão 2026 encerra o maior jejum de Abel Ferreira no Palmeiras. Na cultura brasileira, onde impera o famigerado “o segundo é o primeiro dos últimos” , urgia um caneco após os vices da Libertadores, do Brasileiro e do próprio Paulista de 2025.

O português é agora o treinador com mais títulos na história do clube: onze! E faz parte receber críticas, é do jogo. Mas falta o devido reconhecimento a Abel. Por parte até de uma boa parcela dos palmeirenses.

Memória curta é outro elemento presente no futebol brasileiro. A vitória de ontem não garante o respaldo de hoje. Porém deve-se olhar o todo. São quase cinco anos e meio do mesmo treinador no mesmo clube. E sempre chegando entre os primeiros. Mais difícil do que chegar no topo é se manter nele.

E o Palmeiras de Abel tem conseguido isso. É claro que o 2025 palmeirense foi marcado por algumas imperícias. Várias do próprio português. Abandonar publicamente o Brasileirão antes da hora, não ter uma estratégia eficaz para a grande final da Libertadores, o tempo além do normal para achar um time e um jeito de jogar, foram algumas delas. A própria milionária contratação de Paulinho junto ao Atlético-MG entra na conta porque ele praticamente não jogou.

Expectativa e realidade não caminharam juntos nesse caso e isso afetou sim a temporada do clube. E que fique claro: não me agrada o comportamento bélico de Abel Ferreira nas coletivas de imprensa.

Entretanto até nisso vejo uma intencionalidade clara para vencer. O confronto sempre alimentou bons personagens e grandes conquistas do futebol mundial. As fúrias públicas propositais de Muricy Ramalho, Felipão, Luxemburgo, Zagallo  e do próprio português José Mourinho alimentavam esse fogo interno e externo para vencer.

Sei que Abel Ferreira vai ter sossego curto. Após a próxima sequência ruim (que vai acontecer, com certeza) vão voltar a falar que ele perdeu o grupo, que não consegue extrair mais nada de ninguém no clube, que a forma de jogar não evolui, que o discurso já ficou batido e etc. Eu prefiro olhar para os onze troféus que ele ganhou. São essas conquistas que dizem quem ele de fato é.

foto: Léo Barrilari

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/?originalSubdomain=br