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Improvisar (e) (ou) Formar!

Os problemas do futebol brasileiro se repetem. Em muitos casos, parece que ao invés de buscarmos as melhores soluções para os evidentes elementos que apontam a decadência do nosso espetáculo, preferimos a reprodução fundamentada no conhecimento empírico e que tem contribuído para o reconhecido ciclo vicioso dos processos relativos à modalidade.

Um tema que sempre proporciona grandes debates (o que não significa que ocasionam perceptíveis transformações) é a Categoria de Base e suas responsabilidades num processo de formação.

Na coluna desta semana, o debate proposto diz respeito à definição da posição dos atletas durante o período de formação que, sabidamente, deve proporcionar um rico ambiente de ensino-aprendizagem-treinamento.

Tempos atrás, neste espaço, numa coluna de certa forma voltada às questões mais imediatas na composição do elenco, foi proposto um questionamento quanto à preferência do treinador por jogadores especialistas numa posição, ou então, por jogadores versáteis. Caso tenha interesse de retomar a leitura, clique aqui.

Na ocasião, por não ser este o objetivo, pouco se mencionou sobre a influência das Categorias de Base no resultado final do desempenho global de jogo de um atleta de futebol, o que pode torná-lo tanto especialista como multifuncional.

Nas inúmeras discussões que envolvem este tema, existe uma corrente de profissionais que se posiciona contrariamente quanto à vivência (em treinos, amistosos e jogos) do atleta em diferentes posições ao longo do processo. Para estes profissionais, variar a posição do jogador significa improvisá-lo e, consequentemente, gerar prejuízos imediatos e de longo prazo ao atleta. Sob este viés, um volante em formação, por exemplo na categoria sub-15, com bom 1vs1 defensivo, bom cabeceio, boa antecipação e recuperação, que são algumas das competências necessárias para exercer a função de zagueiro, não poderia desempenhá-la sob pena de limitação atual e futura em sua posição de origem.

Além disso, o discurso adotado por esta corrente diz que a preocupação com o coletivo não deve ser maior que a preocupação individual com o desenvolvimento do jogador. O contrassenso observado é que a aparente preocupação predominante com o desenvolvimento individual vem acompanhada da pressão pelo resultado e seu alcance a qualquer custo (mas isso é tema para outra coluna). Além disso, muitos afirmam que o improviso só deve ser feito na categoria Profissional.

A demanda do futebol moderno tem solicitado jogadores inteligentes, capazes de resolver (em cada vez menor tempo e espaço) os inúmeros problemas que o jogo lhes impõe. Sair jogando mesmo com o adversário em pressão-alta, gerar superioridade numérica em setores perigosos ao adversário, escolher a maneira que vai bater na bola para realizar um passe longo e decidir qual movimentação fazer após a cobrança de uma falta lateral do adversário são apensas alguns dos exemplos das situações-problema que o todo (equipe) e partes (jogadores) devem lidar ao longo de uma partida.

Atletas que sabem “pisar” em diferentes locais do terreno de jogo (que exigem soluções técnico-tática-física-mental diferentes), por possuírem maior inteligência de jogo, tendem a apresentar um significativo leque de possíveis, que são as respostas contextualizadas de cada jogador. E como o jogo de futebol é um confronto de sistemas caótico e dinâmico, por várias vezes em uma partida um atleta é exigido a realizar uma ação distinta daquela predominante em sua posição. Para exemplificar, na última quinta-feira, o Cruzeiro, líder do Campeonato Brasileiro, venceu o Grêmio com o gol originado numa jogada de transição ofensiva feita por Dedé, que recuperou a posse de bola, participou de uma tabela, realizou uma condução e terminou com um cruzamento preciso. Resumindo, um zagueiro que cumpriu de maneira eficaz as regras de ação de um lateral.

E qual o melhor momento para o atleta aprender a desempenhar variadas regras de ação?

Sem dúvida, ao longo do processo de formação.

É consenso que o objetivo das Categorias de Base é formar (bem) integralmente o atleta. Possibilitar que o mesmo vivencie diferentes regras de ação (ofensivas, defensivas e de transição) é o primeiro passo para as experiências futuras em distintas posições. Em fase sensível de aprendizagem, ao contrário do que defende a corrente dos que são contra aos “improvisos”, entender o jogo coletivo e saber desempenhá-lo nos mais diferentes setores do campo permitirá que as experiências vividas e acomodadas se estendam ao longo de toda a carreira. Assim o fazem profissionais como Pirlo, Lahm, Di Maria, Mascherano, Oscar e Rooney.

Os problemas do futebol brasileiro se repetem. Improvisar e formar são excludentes quando deveriam ser complementares.

Qual a sua opinião? 

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A punição de Petros foi justa?

O atleta Petros, do Corinthians foi punido pelo STJD com a suspensão por 180 dias em virtude de agressão ao árbitro Raphael Claus na vitória sobre o Santos por 1 a 0, no dia 10 de agosto, na Vila Belmiro. A decisão se deu por 3 votos a 2 dos auditores da Primeira Comissão Disciplinar. A tendência é que o clube alvinegro apresente recurso ao Pleno. Sendo mantida, Petros não jogará mais na atual temporada.

A punição se deu nos termos do artigo 254-A, parágrafo 3º, do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), que trata sobre agressão física a um membro da arbitragem.

Art. 254-A. Praticar agressão física durante a partida, prova ou equivalente. (Incluído pela Resolução CNE nº29 de 2009).
PENA: suspensão de quatro a doze partidas, provas ou equivalentes, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de trinta a cento e oitenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código. (Incluído pela Resolução CNE nº 29 de 2009).§ 1º Constituem exemplos da infração prevista neste artigo, sem prejuízo de outros:

§ 3º Se a ação for praticada contra árbitros, assistentes ou demais membros de equipe de arbitragem, a pena mínima será de suspensão por cento e oitenta dias. (Incluído pela Resolução CNE nº 29 de 2009)

Na tese defensiva, o Corinthians tentou desqualificar a agressão, sob o argumento de que o tribunal estaria transformado o ocorrido em um ato mais grave.

Segundo a defesa, teria havido mero ato hostil e deveria ser apicado o artigo 250, do CBJD, cujo a pena é mais branda:

Art. 250. Praticar ato desleal ou hostil durante a partida, prova ou equivalente.

PENA: suspensão de uma a três partidas, provas ou equivalentes, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de quinze a sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código.

Segundo o § 1º, II, do artigo 250, empurrar acintosamente o companheiro ou adversário, fora da disputa da jogada seria um dos exemplos de ato hostil e, segundo a defesa, teria sido esta a ação de Petros.

Outra possibilidade seria a desclassificação para artigo 258 que também possui penas menores:

Art. 258. Assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras deste Código. (Redação dada pela Resolução CNE nº29 de 2009).

PENA: suspensão de uma a seis partidas, provas ou equivalentes, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de quinze a cento e oitenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código.

É bastante controversa a interpretação do ato de indisciplina de Petros, mas analisando-se a cena percebe-se que o atleta desvia-se de sua trajetória para agredir o árbitro, o que o enquadraria no artigo 254-A.

Doutro giro, a pena insculpida no artigo 254-A é bastante rigorosa, eis que o atleta ficará praticamente seis meses sem poder exercer sua atividade laboral, o que pode corresponder a 1/20 de sua carreira, considerando-se uma vida útil de 10 anos. Além disso, após seis meses, o atleta necessitará de ainda mais tempo para recuperar condição de jogo.

Nesse sentido, uma interpretação mais benévola do lance, ainda que não seja perfeita, viabilizará um dos princípios norteadores do CBJD, a proporcionalidade, que está disposta no art. 2º, VIII, eis que a punição mínima prevista no artigo 254-A mostra-se extremamente desproporcional ao ato do atleta.

Vale destacar que a atitude do atleta foi tão sutil que ele sequer foi punido durante a partida e nem na súmula, eis que o ato de indisciplina foi incluído em um aditivo que é permitido, nos termos da legislação.

Portanto, o STJD deve avaliar a questão sob o contexto principiológico a fim de assegurar a aplicação proporcional da pena. 

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Gerenciando crises no esporte

No mundo do futebol, aonde a pressão por resultados é constante estamos acostumados a ver cenários de crise se instalar nos clubes de uma semana para a outra. Basta que aconteçam duas derrotas seguidas com baixo desempenho de uma equipe que a famosa crise se instala e atualmente se faz extremamente necessário que os técnicos e gestores, enquanto líderes saibam como agir para buscar solucionar as crises quando elas se materializam.

Uma crise sempre exigirá uma tomada de decisão rápida e confiante por parte do líder e o desafio dos técnicos é sobre como tomar uma boa decisão num cenário aonde os eventos se desenvolvem muito rapidamente, as coisas ficam muito confusas e torna-se difícil identificar o que é realmente importante?

Uma saída é conseguir gerenciar as emoções nestes momentos e Normam Augustine em seu livro “Como lidar com as crises”, fornece interessantes informações para solucionarmos situações críticas.

Para começar, numa crise devemos saber que três emoções podem se combinar e gerar estresse nos envolvidos:

• O medo de um desastre ou um novo fracasso;
• A expectativa de um resultado potencialmente positivo;
• E o desejo de que a crise termine.

No futebol, quando sob o estresse gerado numa situação de crise, o técnico sente toda a pressão por necessitar tomar uma determinada decisão e esta pressão excessiva pode certamente levá-lo a um estado de pânico, em que ele apenas toma alguma decisão para passar a mensagem de que algo foi feito ou para sinalizar que ele agiu. Quando na verdade, ao tomar decisão desta forma ele estará apenas desperdiçando energia e seus recursos disponíveis.

Sendo assim, como é possível lidar com as incertezas destes momentos e os medos decorrentes da crise? Nestas situações o técnico deve procurar adaptar suas reações, inclusive conforme o tipo de crise que pode ser repentina ou duradoura. No caso do futebol, as crises são muito mais repentinas, pois com jogos muitas vezes realizados no meio e no final de semana, basta uma semana ruim para que ela se instale na equipe. E o que o técnico pode fazer nestes casos? As dicas abaixo são valiosas:

• Pare: Quando o técnico sentir o primeiro sintoma de ansiedade ele deve parar e optar por enfrentar a crise, mas para isso ele precisará ter a mente clara e menos perturbada possível pela ansiedade;

• Respire: O técnico deve procurar respirar fundo, pois tal qual a palavra “Pare” bloqueia os pensamentos negativos em sua mente, a ação de respirar supera a tendência de prender a própria respiração causada pelo estresse, o que aumenta ainda mais a ansiedade e impede que eleve a consciência sobre a real situação;

• Reflita: Quando se consegue interromper o padrão do estresse através da respiração, o técnico obtém energia e pode passar a se concentrar no problema real ou seja a crise que está enfrentando. Com isso ele poderá ver a situação prática de forma mais calma e realista, diferenciando as distorções causadas pelos pensamentos influenciados pela ansiedade.

• Escolha: Com a atenção concentrada na situação prática, o técnico pode buscar as melhores soluções para os problemas, conseguirá manter o foco em seguir o plano para reagir a crise, construído em conjunto com as pessoas da equipe, e atender às necessidades de todos a quem lidera.

Para finalizar, o técnico ou qualquer outro profissional do esporte que lidere pessoas quando estiver enfrentando uma crise precisará:

• Enfrentar a crise, transformando o medo em ação positiva;

• Estar vigilante, permanecendo atento aos novos acontecimentos e reconhecendo a importância de novas informações;

• Manter o foco nas prioridades, zelando para que todos os envolvidos estejam seguros e que as necessidades mais críticas tenham sido bem avaliadas pelo grupo.

Bem, acredito que você caro leitor já tenha passado por momentos de crise em sua vida profissional certo? Imagine então os técnicos de futebol como se sentem e por isso penso ser muito pertinente a capacidade de se conseguir gerir muito bem uma crise numa equipe de futebol, afinal de contas na próxima semana sempre existirão outros jogos e novas oportunidades de recomeço.

Até a próxima! 

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Futebol na frigideira

Esta copa do mundo, uma taça a transbordar de fel para as gentes de todo um país sufocado pelo desgosto, teve o condão de expor, com imprevista crueza e despudor, o sortilégio paradoxal de características que compõem o fascinante – e fascinatório – fenômeno do futebol.

Desde logo, isso mesmo – o ser fenômeno. Como sintomaticamente o fora (e, de algum modo, continua sendo) o Ronaldo, agora convertido em rubicundo comentador da TV Globo. E, como sabemos, uma coisa certa há que indefectivelmente determina o fenômeno, qualquer que ele seja: a sua efemeridade, a sua evanescência.

Também o futebol se exprime como uma cascata de emoções contraditórias: num ápice, desce-se da umbreira da glória aos fundos irrespiráveis da humilhação, como o atesta o inaudito abalo sofrido pela torcida do Bayern de Munique quando, naquela dramática final da Champions League e quando celebrava em êxtase a mais que certa vitória, viu o adversário, o Manchester United, marcar dois golos nos últimos instantes do tempo de compensação. Sim, quem duvida, o jogo faz-se constitutivamente da correlatividade entre a vitória e a derrota – nunca se ganha definitivamente, porque nos espreita indefectivelmente o absinto amargo da derrota. E, nessa medida, podemos bem dizê-lo: o futebol é a metáfora em sangue da própria vida!

O futebol é flagrantemente do estrito domínio da paixão, sendo da sua natureza sacudir-nos com a impiedosa oscilação entre os extremos e exaurir-nos, por isso, a alma nesse interminável jogo dos contrários.

Entre a embriaguez da vitória e a depressão pastosa da derrota há muitas vezes um quase-nada a separá-las – e quase sempre algo que se não entende nem aceita, algo que nos parece ser do puro domínio do capricho: e isso derreia-nos ainda mais, porque nos verga, nos vence, quase sempre sem uma razão que nos convença. Talvez nisto, e em algumas coisas mais, possamos encontrar razão suficiente para a reação destrutiva de muitos na sequência do terrível vendaval do Mineirão. É que a paixão desmandada do futebol é, não raro, potenciadora de uma violência comandada pelo desespero.

Um outro par de contrários e cada vez mais perigosamente inconciliáveis é o da ludicidade e o lucro: é bom ganhar, mas é inaceitável que se ganhe a qualquer preço! Uma coisa é o natural desejo de ganhar, outra, bem diferente, é fazer desse desejo um absoluto – a ganância envenena e mata!

De um lado, a abertura grácil e graciosa à experiência fascinada do mundo, atitude que se manifesta criativamente através do jogo, neste caso o futebol, nessa interação prazenteira, quase erótica, com as coisas e, de modo muito especial com a bola, de outro, essa obsessão obnubilante pelo ganho, pelo dinheiro que, subvertendo, tudo julga poder comprar. De um lado, o quente e encantado prazer de jogar e entreter-se, do outro, o frio cálculo de apenas ter. E já se sabe o que espera quem apenas quer ter – perde(se)! E, sem dúvida que, por força deste excesso de mercantilismo, o futebol corre o sério risco de se perder: alguém que lhe acuda!

A todos os que vivem da ganância há uma insidiosa doença comum a irmaná-los: nunca se dão por satisfeitos – facto que lhes amolece a consciência dos limites: nunca acham sensato parar e deter-se! E isto tanto se aplica ao grande capitalista como ao avarento rapa-tachos! Aplica-se ao Real Madrid, mas também ao Málaga; ao Benfica, mas também ao Salgueiros!

E, já agora, tão errado é o Real Madrid, por exemplo, comprar tudo e todos, supostamente os melhores, como fatal pode ser, por exemplo, para o Benfica organizar-se exclusivamente à volta do conceito de que só se pode sobreviver vendendo sempre: em ambos os casos mina-os o primado míope da imediatez do lucro. Ambos prestam um mau serviço, desde logo e ironicamente a si próprios e, em ultima instância, ao futebol: o Real Madrid porque se habitua viciosamente ao que nem sempre dura, o Benfica porque, além de contar com o que é incerto e ocasional, dá de si a frágil imagem de alguém sempre pronto a vender – e, já se sabe, quem vende sempre alguma vez acaba por vender-se! Como, a seu modo, parece ter acontecido com o cidadão britânico da empresa incumbida pela FIFA da distribuição/venda dos bilhetes deste campeonato do mundo.

E sem falar, já agora, da gritante contradição entre a opulência ostentatória da FIFA no Copacabana Palace e os garotos descalços e rotos, mas doidos de prazer atrás de uma bola de trapo na favela da Rocinha, paredes meias com os luxuosos apartamentos de São Conrado, ou em Xipamanine, nos arredores de Maputo. A FIFA, com esta sua conduta de ostentação e luxo, parece até exibir um particular e ínvio gozo em acentuar esta cruel divisão, dicotomia mesmo, veremos se insanável, entre ricos e pobres – e, neste aspecto, em vez de usar a força impressiva do futebol para fazer a pedagogia da equidade e da justiça, parece, bem pelo contrário, empenhada em avolumar as assimetrias, replicando e multiplicando as taras da sociedade contemporânea.

E esta rendição ao absoluto do lucro por parte das altas instâncias do futebol veio introduzir um desvio genético excessivo. Excessivo, claro, porque desvio era inevitável que ocorresse, uma vez que, sendo o jogo do futebol também e sobretudo um espetáculo, impossível seria certamente contê-lo confinado ao estrito espaço multitudinário do estádio. Porque a matriz originária deste jogo é sê-lo em apaixonada interação com o público in loco, à semelhança do teatro grego, na popular vivência, participativa e catártica, da tragédia encenada.

Mas, com a entrada em força do audiovisual na indústria em que se tornou este fantástico espetáculo, mais um lado da congênita duplicidade passional do futebol se revelou: a tensão entre a multidão presencial, vibrante, intensa e intencionalmente ritualizada, ora em delírio ora em fúria, e as massas, soltas de qualquer constrangimento de espaço e, às vezes até de tempo – embora unificadas pela emoção gerada pela disputa em campo. Foi a dinamitação do espaço público do jogo, amplificando-se este até aos confins do planeta.

Ora, o que se está a perder é justamente o equilíbrio entre os interesses da multidão que faz também o espetáculo e os interesses daqueles que apenas dele beneficiam e usufruem – já, de resto, há muito que esse desejável equilíbrio se perdeu: cada vez mais o jogo de futebol é um espetáculo servido ao domicílio. E, claro que o padeiro ou o leiteiro não vão incomodar os seus clientes, batendo à porta a horas impróprias!

É preciso servir o menu a horas decentes, nem que para isso o espetáculo tenha que realizar-se à torreira do sol: joga-se com o sol a pino e com elevados índices de umidade porque a tanto obrigam os compromissos da distribui&ccedil
;ão televisiva.

Não é, contudo, um qualquer prato, confeccionado na frigideira: são os próprios cozinheiros, os jogadores, que acabam fritados juntamente com o molho e o tempero. De tão impropria ser a hora, é mais que tudo de futebol na frigideira que se trata. Sim, mas servido à hora do chá em Londres ou ao serão dos EUA, ou à hora do pequeno-almoço na China. As massas impõem a sua lei – a da "massa"!

E os jogadores, os principais artífices do espetáculo, queixam-se e barafustam – que não é justo serem usados desta maneira, coisificados como se de uma vil mercadoria se tratasse. Justo claro que não é, nem eticamente aceitável. Mas também eles não podem querer ao mesmo tempo “sol na eira e chuva no nabal”: sem a cedência pressurosa e gentil da FIFA e demais instâncias dirigentes ao poder mágico do dinheiro, como poderiam eles, pelo menos alguns, auferir as astronômicas somas dos dias de hoje em salários a raiar a obscenidade, em prêmios por objetivo, em publicidade, direitos de imagem, etc.?

E eis-nos, uma vez mais, no centro do dédalo: como encontrar o “fio de ariadne”?

E é esta mesma indústria que se alimenta de “bestas esplêndidas”, de “puros sangues”, sugando-os até à última gota de talento e de força – e valem muito só enquanto rendem! – é esta mesma indústria, dizia, que esmifra uma imensa multidão de gente média, todo um exército de soldados rasos, a maioria dos atletas que não receberam o favoritismo dos deuses, explorando-os até ao limiar da baixeza e indignidade humanas.

Daí a inconsequência funcional da profissão do futebolista a que está naturalmente associada uma dramática volatilidade emocional que resulta, por sua vez, da inconsistência da respectiva imagem social: herói quando ganha, vilão quando perde – sempre o clarão fugaz de uma glória que num instante se dissipa.

Eis como tudo isto se enreda cada vez mais num novelo de contradições que, a continuar a atual visão, exclusivamente argentária e imediatista e, nessa medida, míope, ameaça garrotar até à asfixia o futebol do nosso encantamento.

Sugiro uma pausa técnica para respirar e refletir…

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Conhecemos o fã?

Em pesquisa recente da “Sport Business International” em parceria com a PERFORM e a Kantar Media Sport procurou identificar a relação de consumo dos fãs do esporte em relação às diferentes mídias em 16 diferentes mercados. O Brasil está entre estes mercados analisados.

O mais interessante é notar como o brasileiro consome esporte em meio digital de forma superior ou igual a muitos outros mercados mais maduros em termos de negócios. Por exemplo, o brasileiro permanece quase 80% mais tempo por semana em redes sociais consumindo conteúdo esportivo do que o público norte-americano (são 2,5 horas dos brasileiros contra 1,4 horas dos americanos).

Alguns números do Brasil que podem ser destacados:

– São aproximadamente 58 milhões de fãs do esporte;

– 90% dos fãs brasileiros acessam conteúdo esportivo online pelo menos uma vez por semana;

– 44% dos fãs brasileiros buscam notícias de esportistas locais;

– 45% dos fãs brasileiros assistem vídeos ou melhores momentos dos jogos pela internet;

– 46% dos fãs brasileiros compartilharam conteúdo de ídolos do esporte pelas redes sociais.

Enfim, elementos que nos levam a questão inicial: será que entendemos verdadeiramente o atual fã do esporte? Pergunto isso, pois, apenas a título de exemplo, continuo vendo que os projetos de comercialização de propriedades esportivas permanecem vendendo apenas as transmissões na TV como único ou maior ativo da propriedade – e, pior, as empresas comprando e ainda focando muito seu olhar sobre este tipo de retorno.

É redundante falar sobre a abrangência já consolidada da internet no país, que se soma a um potencial ainda enorme de crescimento. E o natural processo de segmentação, muito fáceis de se encontrar no esporte em virtude das diferentes características das modalidades.

Agora, é preciso estabelecer parâmetros mais coerentes no sentido de aproveitar todo esse potencial em favor dos negócios do esporte, passando a conhecer melhor o consumidor que está ali dentro e desenvolver melhores produtos para este público… 

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O árbitro de futebol e a arbitragem

Caros leitores!

Os estudos sobre futebol seja de formação ou de alto rendimento, a cada dia é mais estudado, e sabemos que o futebol arte, de rua, não é suficiente para o alto rendimento, e hoje, a qualificação de jogadores, sempre buscando o aprimoramento contínuo é obrigatória para um rendimento satisfatório. Mas como o futebol não é feito apenas de jogadores, temos que olhar também para a formação do árbitro de futebol, pois este é uma peça fundamental não só no futebol, mas para todos os esportes de competição, pois sabemos que sem a correta aplicação das regras do jogo, não há futebol, ou seja, é uma figura imprescindível.

A Universidade do Futebol irá levar aos seus leitores e alunos a temática da formação do árbitro de futebol. Teremos uma série de artigos que irá explorar o universo da arbitragem de futebol e nestes primeiros falaremos um pouco da formação do árbitro de futebol, que é basicamente: técnica, física e psicológica, mas estas variáveis são muito mais complexas quando nos aprofundamos em cada uma, pois o árbitro é um mediador e consequentemente um elemento do jogo, uso a palavra “mediador”, por que o árbitro jamais poderá ser arbitrário, e sim a figura que irá fazer cumprir as regras do jogo.

A responsabilidade do árbitro de fazer cumprir as regras do jogo e ao mesmo tempo não ter o poder discricionário para tal lhe faz um homem ímpar, visto que, estar revestido de uma linha muito tênue entre autoridade e autoritarismo. É este conjunto de regras que forma o árbitro de futebol, e como em todas as profissões, uns se destacam mais que os outros, como na vida em geral.

A formação técnica do árbitro de futebol, seja nacional ou internacional, é comum a todos, e no Brasil fica sob responsabilidade das federações estaduais, através de suas escolas de arbitragens. Esta primeira série de artigos, sobre a formação do árbitro de futebol ficarei no nível nacional, os níveis de arbitragens, suas funções e competências, as fases de iniciação, aperfeiçoamento e especialização serão assuntos tratados nestes artigos.

Em uma segunda etapa, explorarei os aspectos psicológicos, como motivação, estresse, ansiedade, pressão dos jogos, atenção, concentração, autoconhecimento e podendo até chegar ao esgotamento mental.

Tratarei sobre a formação dos árbitros da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Fédération Internationale de Football Association, FIFA.

O futebol é um fenômeno social, e no Brasil os gestores estão se capacitando cada vez mais, e o entendimento sobre a formação dos árbitros de futebol lhe dará subsídios para a tomada de decisões no quesito de recursos humanos. 

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Como a linguiça é feita

Estamos às vésperas das eleições majoritárias no Brasil.
Iremos votar e escolher nosso presidente, governador, senador, deputados federais e estaduais.

Como consequência, os mandatários de cargos executivos irão montar suas equipes de trabalho, ocupando cargos de confiança com pessoas de confiança, além de contar com o corpo técnico de funcionários de carreira.

É certo que a corrida eleitoral, em todo o país, terá como sombra o triste episódio do falecimento do candidato Eduardo Campos, cuja tragédia, rapidamente, fez com que todos prestassem mais atenção às eleições do que de costume.

Pois bem. Utilizei os termos “corrida” e “tragédia” para reforçar a necessidade de reflexão que devemos ter em momentos de definir o futuro de nossas instituições, públicas ou privadas, no que tange aos processos eleitorais democráticos e ou participativos.

Como bem sabemos, no fim do ano, muitos clubes de futebol elegerão seus presidentes ou os reconduzirão para mais alguns anos de gestão.

A pressa ou desatenção (corrida) na escolha dos candidatos, somada a elementos dramáticos, como um rebaixamento ou desclassificação (tragédia), são os combustíveis preferidos da velha política, acostumada a vender o discurso de que “vamos mudar tudo, não mudando nada…”

Nesse viés negativista, não há espaço para discussões estratégicas, programáticas, objetivas e técnicas.

Prefere-se, apenas, o subjetivismo, a passionalidade, as relações pessoais, “de confiança”.

Governança corporativa, então, passa longe dos debates.

O passado costuma prevalecer sobre o presente e o olhar para o futuro.

Afinal, para alguns, “somos pentacampeões mundiais” e isso já nos bastaria.

Eu diria “fomos”. Mudar a conjugação verbal faz muita diferença para quem quer sempre buscar a evolução da sociedade.

Por outro lado, a representatividade política deve ser exercitada frequentemente por quem tem interesse nessa evolução.

Votar e ser votado. Acompanhar as realizações do seu candidato ao longo do mandato. Articular e participar de grupos, partidos e redes políticos.

Os sistemas sociais complexos exigem mudanças desde dentro. Não adianta, simplesmente, negar sua existência ou, simplesmente, tentar destruí-lo desde fora.

Mas, o primeiro passo é conhecer seu funcionamento.

Por isso, uma das ideias inspiradoras que, nesta semana, em tempos de eleição, conheci, é a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), movimento apartidário (www.raps.org.br)

Sua missão: Contribuir para a melhoria do processo político e da qualidade da democracia brasileira através da formação de líderes políticos comprometidos com os valores e princípios da ética, transparência e sustentabilidade.

O desinteresse do povo pela política vem, fundamentalmente, do desconhecimento sobre como ela funciona.

O futebol brasileiro está, há muito tempo, à mercê de oligarcas conservadores, que se acostumaram a comandá-lo sem boas práticas de gestão e à sombra.

Nos últimos anos, com a luz do sol incidindo no cenário, fica mais fácil entendermos “como a linguiça é feita” e seremos enganados apenas se quisermos.

Capacitação política e participação ativa são as chaves do progresso das instituições.  

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Administração esportiva: um estudo de caso sobre a gestão do Clube Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense antes e depois da construção de sua Arena

RESUMO

O presente trabalho aborda a temática da Administração Esportiva, sob a perspectiva da gestão do futebol. Nesse sentido, o estudo realiza-se a partir de um estudo de caso no clube Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, contemplando uma análise frente à construção de sua nova Arena sob uma abordagem temporal (antes e depois) e o impacto disso na gestão do clube. Sendo assim, o objetivo do trabalho consiste em caracterizar o modelo de gestão utilizado pelo Grêmio FBPA, identificando o seu planejamento antes e depois da construção da sua Arena.

Como método utilizou-se o estudo de caso, tendo como objeto de estudo o Grêmio e seu modelo de gestão, sob a perspectiva de três diferentes níveis de análise: i) Nível de Análise 1: No Estádio Olímpico; ii) Nível de Análise 2: O Projeto Arena; iii) Nível de Análise 3: Na Arena; e três unidades de análise: i) Estrutura Administrativa e Política; ii) Gestão; e iii) Financeiro.

A análise foi de natureza qualitativa e possibilitou o entendimento da relação entre os aspectos teóricos e a realidade praticada no clube. A partir da apresentação e análise dos dados do estudo de caso, foi possível concluir que o Grêmio apresenta uma situação evolutiva em sua gestão.

Sua estrutura organizacional é afetada pelo conflito histórico entre as frentes profissionais e políticas, porém a condição financeira apresentada e os novos métodos de gestão utilizados fornecem um interessante horizonte.

Principalmente ao considerar o potencial de crescimento relacionado à sua nova Arena.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui!

Leia mais:
Fabio Ritter, gerente comercial do Grêmio

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Futebol de 5: o futebol para quem sabe jogar sem enxergar

História

A modalidade teria surgido por volta da década de 20, na Espanha, em escolas e institutos especializados. Existem relatos que no Brasil, na década de 50, cegos jogavam futebol com latas ou garrafas, mais tarde, com bolas envolvidas em sacolas plásticas, nas instituições de ensino e de apoio a estes indivíduos, como o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, Instituto Padre Chico, em São Paulo, Instituto São Rafael, em Belo Horizonte. Em 1978, nas Olimpíadas das APAEs, em Natal, aconteceu o primeiro campeonato de futebol com jogadores deficientes visuais no Brasil.

A primeira Copa Brasil foi em 1984, na capital paulista. Contudo, o IPC – Comitê Paralímpico Internacional reconhece como primeiro campeonato entre clubes, o acontecido na Espanha, em 1986. Na América do Sul, apesar da realização de alguns torneios anteriores, o primeiro reconhecido e organizado pela IBSA foi a Copa América de Assunção, em 1997, onde o Brasil foi o grande campeão. O primeiro mundial aconteceu no Brasil, em 1998, em Paulínia, São Paulo, o Brasil foi o primeiro campeão mundial, vencendo a Argentina na final.

A participação nos Jogos Paralímpicos aconteceu, pela primeira vez, em Atenas, 2004. Também, neste evento, o Brasil foi o campeão, ao superar, nos pênaltis, os argentinos por 3 a 2. Após este evento, a seleção brasileira de futebol de 5 se mantém invicta sendo campeã em todos os campeonatos oficiais até agora.

Como é praticado

Esta modalidade é exclusivamente praticada por atletas da classe B1 (cegos totais) que não têm nenhuma percepção luminosa em ambos os olhos; ou têm percepção de luz, mas com incapacidade de reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância ou direção, somente o goleiro tem visão total e auxilia os atletas conforme as regras do jogo.
As partidas normalmente são em uma quadra de futsal adaptada com uma banda lateral (barreira feita de placas de madeira que se prolonga de uma linha de fundo à outra, com um metro e meio de altura, em ambos os lados da quadra, evitando que a bola saia em lateral, a não ser que seja por cima desta), mas desde os Jogos Paralímpicos de Atenas também vem sendo praticado em campos de grama sintética, com as mesmas medidas e regras do futebol de salão.

Cada time é formado por cinco jogadores: um goleiro, que tem visão total e quatro na linha, totalmente cegos e que usam uma venda nos olhos para deixá-los todos em iguais condições, já que alguns atletas possuem um resíduo visual (vulto) que dão, nesta modalidade, alguma vantagem a estes. Há ainda um guia, o Chamador, que fica atrás do gol adversário orientando o ataque de seu time, dando a seus atletas a direção do gol, a quantidade de marcadores, a posição da defesa adversária, as possibilidades de jogada e demais informações úteis.

Eles recebem instruções de três membros da equipe, que ficam nos terços de orientação: no defensivo, a responsabilidade é do goleiro. No médio, do técnico, que fica no banco de reservas, e no ofensivo de outro integrante da comissão técnica, que fica atrás do gol adversário (vide Figura 1).

Figura1. Disposição dos jogadores e equipe técnica durante uma partida.

A modalidade, ao contrário do futebol convencional, deve ser praticada em um ambiente silencioso. A torcida, bastante desejada nesta modalidade, deve se manifestar somente quando a bola estiver fora do jogo: na hora do gol, em faltas, linha de fundo, lateral, tempo técnico ou qualquer outra paralização da partida.

A bola possui guizos, necessários para a orientação dos jogadores dentro de quadra. Daí a necessidade do silêncio durante o andamento da partida. Através do som emitido pelos guizos, os jogadores podem identificar onde ela está, de onde ela está vindo e podem conduzi-la.

Regras

De modo geral, são as mesmas utilizadas no futebol de salão convencional. Algumas daquelas que diferem são: dois tempos de 25 minutos e um intervalo de dez minutos; uma pequena área de onde o goleiro não pode sair para realizar defesa nem pegar na bola de 5 por 2 metros; após a terceira falta, é cobrado um tiro livre da linha de oito metros ou do local onde foi sofrida a falta.

Ao contrário do que se imagina, a modalidade tem muitas jogadas plásticas, com jogadas de efeito inclusive. Muitos toques e chutes a gol. Os jogadores são obrigados a falar a palavra espanhola "voy" ("vou" em português), sempre que se deslocarem em direção a bola, na tentativa de se evitar choques. Quando o juiz não ouvir, ele marca falta contra a equipe cujo jogador não disse o "voy".

No Brasil, a modalidade é administrada pela Confederação Brasileira de Deportos de Deficientes Visuais (CBDV).

Referências:
http://www.cpb.org.br/modalidades/futebol-de-5/
http://www.rio2016.com/os-jogos/paralimpicos/esportes/futebol-de-5
http://www.cbdv.org.br/pagina/futebol-de-5

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A Globo acordou

Principal parceria do futebol nacional, a TV Globo está preocupada. A emissora carioca agendou reuniões com os maiores times do Brasil para pedir sugestões e discutir por que o esporte não funciona como produto. Nos últimos anos, as transmissões ludopédicas no canal tem perdido média de 10% de espectadores a cada temporada.

É sintomático que a Globo tenha decidido se mexer nessa direção. O futebol não é um problema comercial para a emissora, ainda que a operação tenha alto custo. No entanto, é flagrante a preocupação com a queda de audiência em horários cuja relação custo / benefício poderia ser mais simples com outras apostas.

A Globo paga muito para transmitir o futebol, mas tem menos resultado e mais custo com isso do que com outros produtos. Portanto, empurra a faixa esportiva para mais tarde, numa faixa em que anúncios são mais baratos e há menos concorrência por audiência.

Importante dizer que também há pesquisa nisso: as pessoas que veem futebol pela TV preferem jogos às 22h de quarta-feira. O horário é ruim para quem frequenta os estádios, mas o interesse da TV sempre vai ser sobreposto enquanto o esporte não tiver poder de barganha.

Atualmente, por exemplo, a Globo responde por quase um terço da arrecadação do Corinthians, time que mais fatura no Brasil. Se o time não desenvolve outras fontes de receita e tem grande dependência desse dinheiro, perde influxo. E se o time não tem influxo, qualquer negociação penderá para o lado da TV.

Entender essa relação de causa e efeito é fundamental como preâmbulo para discutir o que significa a ação da Globo. A emissora está preocupada com o produto futebol no Brasil a despeito de o produto ser moldado em muitos aspectos pelos interesses da TV.

Jogos são realizados às 22h de quarta-feira porque esse é o horário preferido pela TV. (Também) por causa disso, estádios ficam vazios. Com estádios vazios, clubes têm menos receita de bilheteria e exploração da arena. Além disso, se aproximam menos dos torcedores / consumidores. No médio e no longo prazo, esse público menos vinculado às equipes é o que vai deixar de acompanhar as partidas na TV. E sem eles, a audiência vai cair e obrigar a televisão a fazer jogos ainda mais tarde. É um ciclo de morte para o futebol brasileiro.

É claro que esse é um raciocínio extremamente simplista, que ignora outros pontos como gestão (de clubes e do “produto” futebol) e fontes diferentes de receita. Mas o modelo de venda de patrocínio no Brasil também é extremamente vinculado à exposição, por exemplo – mais uma vez, portanto, a receita dos clubes depende de eles estarem na TV.

A TV é diretamente responsável pelo atual momento do futebol brasileiro. Clubes e federações também – até por criarem modelos que se apoiam demais na receita oriunda da televisão. Por isso, as reuniões da Globo com as equipes são um marco.

Ao mostrar preocupação com a queda de desempenho do futebol, a emissora joga na cara dos clubes a existência do tal ciclo. Agora, depende de ação conjunta uma mudança nesse cenário.

A primeira reunião foi realizada no dia 12 de agosto, no Rio de Janeiro, com representantes de Atlético-MG, Cruzeiro, Flamengo e Fluminense. Mais do que apresentar dados ou falar sobre números, os executivos da Globo quiseram ouvir.

A primeira resposta de Alexandre Kalil, presidente do Atlético-MG, foi uma crítica à programação da Globo, que não tem transmissões específicas para todas as praças – normalmente, o sinal da emissora é dividido entre São Paulo e rede.

A crítica de Kalil tem a ver com discussão que ganha corpo entre os clubes. As equipes brasileiras estão preocupadas com a falta de exposição em TV aberta, o que dificulta a venda de contratos e aumenta a distância de faturamento estabelecida pelas negociações com a televisão.

Também é sintomático que clubes questionem agora os contratos com a televisão – divisão de cotas e exposição em TV aberta. A Globo tem contrato assinado com 18 dessas equipes até 2018. Muitas já até começaram a receber cotas dos próximos anos.

Agora, com o mercado de patrocínios em baixa e atrasos de contas se avolumando, clubes perceberam que é necessário rever a comercialização de direitos de mídia. A TV é cerne de qualquer discussão sobre o futebol brasileiro, sim. O problema é fazer isso em plena vigência de contratos tão longevos.

Ao avaliar desempenho, fazer cobranças e pedir sugestões, a Globo mostrou preocupação com o futuro do futebol brasileiro. A emissora falou até sobre estrutura de categorias de base e mecanismos para manter jogadores por mais tempo no país – a lógica é que mais ídolos aumentariam o vínculo do público com as equipes e diminuiriam a queda de audiência.

Ao questionar contratos vigentes e tão longos, os clubes mostraram preocupação com o presente. Ninguém está realmente preocupado com os efeitos que esses negócios terão no futuro das equipes. O interesse é apenas pagar as contas do mês.

A Globo pode estar ligada a muitos problemas do futebol brasileiro. Nesse caso, porém, tem postura muito mais lúcida do que a maioria dos clubes.