Por: João Batista Freire
Ninguém joga futebol só pelo salário. E se alguém o faz, já não é um jogador, é um tarefeiro, nada lhes resta a fazer em campo a não ser aguardar melancolicamente o final de carreira. Não é pelo salário que, após os gols, os jogadores se abraçam, beijam-se, rolam pelo gramado, choram, dão cambalhotas, numa explosão louca de alegria. Nenhum trabalho obrigatório provoca tanta alegria. Não se vê funcionários de empresas chorando, rolando pelo chão da sala, se abraçando ou se beijando ao final de uma tarefa, embora até possam comemorar suas boas realizações; só nos gramados e nas quadras, só no universo encantado do esporte isso acontece. Jogar futebol – eu poderia falar também de outros esportes – é um privilégio, uma maneira de viver intensamente a vida, um jeito de viver em estado de graça, de ser como o menino Jesus que Fernando Pessoa, o grande poeta português, descreveu no poema O Guardador de Rebanhos:
“Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.”
Dentro de cada jogador ainda vive esse menino Jesus, como vive em todos nós. Muitos de nós tivemos a graça de ser esse Jesus que roubava a fruta dos pomares, que se divertia jogando bola nas ruas, nos campinhos de terra, ralando os joelhos, rindo ao conduzir a bola e chorando quando os pés sangravam. E se ele vive, pode reviver. Talvez isso exija mais coragem que a habitual, mas é possível. Lembram como era divertido dar chapéus, meter a bola no meio das pernas do adversário, fazer gols de letra? Lembram como era gostoso inventar jogadas diferentes, realizar um passe perfeito, o gol da vitória? Era só uma brincadeira, um lindo sonho acordado, do qual não se acorda nunca quando a coragem não termina. Tudo isso não morreu, continua vivo dentro de cada jogador, talvez um pouco adormecido pelas regras, pelas proibições, pelos esquemas, pelo medo de errar. Mas esse menino Jesus dentro de cada jogador sempre pode acordar, a depender do que gritem os torcedores nas arquibancadas, a depender do que diz o professor durante os treinamentos e nos vestiários, a depender da conversa do jogador consigo mesmo. O jogo chama para brincar; não deveríamos resistir ao seu chamado.
Antes de contar as histórias dos homens ao seu menino Jesus, o poeta brincava com ele, e o menino fazia da brincadeira a coisa mais importante do mundo. Era assim:
“Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.”
E é assim que deve ser cada vez que o jogador entra em campo para jogar seu jogo de bola. Que ele jogue bola como o Jesus de Fernando Pessoa jogava as cinco pedrinhas. Porque esse Jesus não é aquele pregado na cruz, triste, cheio de sangue. É o jogador menino do poeta Fernando Pessoa, alegre e brincalhão, que se diverte enganando o adversário, nos campinhos de terra e nos mais importantes estádios.
Quando entrarem em campo, que os jogadores sejam as crianças que tanto souberam se divertir com uma bola entre seus pés descalços. Que tanto surpreenderam o adversário, deixando-os de olhos arregalados de susto. Quem se diverte jogando não tem medo de errar, não tem medo de fazer coisas diferentes. Não tem medo de ser feliz. E, se porventura, errar, terá valido a pena tentar!

*João Batista Freire é educador, pesquisador e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), livre-docente em Pedagogia do Movimento e atua como consultor do Instituto Esporte Educação (IEE), além de ser consultor educacional da Universidade do Futebol. É referência na área de Educação Física escolar, jogo e pedagogia do esporte, com diversas e renomadas publicações sobre ludicidade, prática corporal e pedagogia do futebol.
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