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Além das Quatro Linhas: O Brasil, as Commodities e a Nova Economia da Formação no Futebol

Uma reflexão inspirada no texto de Ana Teresa Ratti (Máquina do Esporte)

Por: Tiago Corradine

O debate recente das “novas moedas de valor” no futebol global, brilhantemente proposto por Ana Teresa Ratti em sua análise na Máquina do Esporte, nos obriga a encarar uma ferida histórica e estrutural do nosso esporte. Quando o mercado internacional contrata um atleta hoje, ele não busca apenas o drible vistoso, a velocidade pura ou o índice físico isolado. Em um cenário hiperconectado, onde softwares de scouting e inteligência artificial nivelam o acesso aos dados de desempenho, a vantagem competitiva muda de figura. O que se compra, cada vez mais, é a capacidade de adaptação, a inteligência emocional, a comunicação multilíngue, a resiliência cognitiva e a construção de um capital humano integral.
Contudo, ao olharmos para o espelho do futebol brasileiro, a reflexão ganha contornos dramáticos e nos empurra a uma comparação macroeconômica inevitável.

O Futebol Brasileiro e a Armadilha das Commodities

Historicamente, a matriz econômica do Brasil consolidou-se sob a lógica de um grande exportador de commodities: fornecemos matéria-prima de altíssima qualidade bruta (minério, soja, celulose, terras raras…) para que centros industriais externos realizem o refino, agreguem valor tecnológico e intelectual, e capturem a fatia mais robusta da cadeia de valor.

No futebol, o espelhamento desse modelo é quase cirúrgico. O Brasil continua sendo um celeiro inesgotável de talento natural, técnica instintiva e criatividade. Produzimos a “matéria-prima” em estado bruto. No entanto, o ecossistema nacional, pressionado por urgências financeiras crônicas e por um imediatismo sufocante, opera sob a lógica do extrativismo de curto prazo.

Nossos jovens talentos são “mercantilizados e exportados” precocemente, antes mesmo de terem sua maturação cognitiva, emocional e educacional consolidada. Chegam aos grandes centros europeus, como “diamantes brutos”. Lá, encontram ambientes sistêmicos capazes de “lapidar” não apenas o atleta dos 90 minutos, mas o indivíduo: desenvolve-se a cognição tática avançada, o domínio de idiomas, a gestão da imagem pública e a capacidade de tomada de decisão sob alta pressão. O resultado? A Europa “refina” o nosso talento, multiplica seu valor de mercado por cifras bilionárias e nos devolve o produto pronto apenas como espectadores do sucesso financeiro e simbólico que geramos na base.

Ecossistemas de Formação: Brasil versus Europa

Quando um clube brasileiro vende uma promessa precoce para pagar a folha salarial do mês seguinte, ele está, metaforicamente, queimando a safra do ano para comprar sementes que talvez nunca germinem. O foco exclusivo no resultado esportivo imediato e na vitrine de curto prazo negligencia dimensões fundamentais do desenvolvimento humano: identidade, autoconhecimento, inteligência emocional e instrução formal.

Como bem pontua a trajetória de jovens revelações destacadas internacionalmente, atletas que combinam excelência em campo com multilinguismo, pensamento crítico e até formações acadêmicas avançadas, o futebol de elite exige pessoas preparadas para lidar com a complexidade. Estudar, comunicar-se e compreender o próprio papel no ecossistema global não enfraquecem o atleta; pelo contrário! Potencializam exponencialmente o seu rendimento dentro das quatro linhas.

A Provocação Incontornável
Diante desse cenário, a pergunta que fica para gestores, formadores e acadêmicos do esporte é incômoda, mas incontornável:

Será possível alterar a cultura do futebol brasileiro enquanto estivermos ancorados em uma sociedade e em uma indústria estruturadas sob a lógica de commodities?

A resposta exige uma ruptura dolorosa, porém urgente. Mudar essa cultura significa abandonar o extrativismo predatório e transformar os centros de formação brasileiros em verdadeiros pólos de desenvolvimento intelectual, tecnológico e humano. Significa entender que investir em educação financeira, no ensino de idiomas, na comunicação e no suporte psicológico dos jovens não é um luxo opcional, mas a própria garantia de sustentabilidade da nossa principal indústria esportiva e cultural.

Sem essa virada de chave, continuaremos presos ao ciclo vicioso de exportar o “talento bruto” em troca de migalhas financeiras, assistindo passivamente os principais centros do esporte global “comprarem”, por bilhões, o valor que nós mesmos deixamos de agregar em casa.

O futuro do futebol brasileiro não depende apenas de novos métodos de treinamento físico ou tático; depende da coragem de reescrever o valor do ser humano que veste a camisa.

Referência
Ana Teresa Ratti. As novas moedas de valor do futebol: o que o mercado realmente compra quando contrata um atleta. Máquina do Esporte. Disponível em: https://maquinadoesporte.com.br/analise/as-novas-moedas-de-valor-do-futebol-o-que-o-mercado-realmente-compra-quando-contrata-um-atleta/. Acesso em: ago. 2026.

Tiago Corradine é Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884

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A geração Z chegou ao futebol. A nossa forma de lidar e com o individuo mudou?

Por: Nicolau Trevisani

Os atletas que chegam hoje às categorias de base e ao futebol profissional cresceram em um contexto bastante diferente daquele vivido pelas gerações anteriores. São jovens acostumados ao acesso rápido à informação, à exposição nas redes sociais e a relações menos sustentadas apenas pela hierarquia. De maneira geral, querem compreender os motivos das decisões, receber respostas com maior frequência e enxergar com clareza o caminho do próprio desenvolvimento.

Isso não significa que a geração Z seja melhor, pior ou mais frágil. Também seria um erro utilizar o conceito de geração como explicação para todos os comportamentos individuais. O que existe é um novo contexto social, que influencia a maneira como esses atletas lidam com autoridade, frustração, reconhecimento e expectativa.

Durante muito tempo, o futebol valorizou um modelo no qual o treinador determinava e o jogador executava. Questionar poderia ser entendido como falta de respeito, enquanto suportar cobranças em silêncio era frequentemente associado à força mental. Parte dessa cultura ainda permanece, mas sua capacidade de produzir comprometimento parece cada vez mais limitada.

O atleta atual tende a se envolver mais quando compreende o sentido daquilo que está fazendo. Explicar uma decisão não significa enfraquecer a autoridade do treinador ou negociar todas as escolhas. Significa demonstrar coerência entre aquilo que se pede, o que se treina e a maneira como o jogador será avaliado. A autoridade deixa de depender exclusivamente do cargo e passa a ser sustentada também pela clareza das relações.

Essa geração também cresceu cercada por respostas rápidas. No ambiente digital, a informação, a aprovação e a comparação são praticamente imediatas. No futebol, porém, o desenvolvimento continua exigindo tempo. Um jogador pode precisar de meses para se adaptar a uma função, amadurecer uma capacidade ou conquistar espaço. Quando não consegue perceber evolução, pode interpretar a espera como falta de valorização e aumentar a ansiedade sobre o próprio futuro.

Por isso, o feedback assume uma importância ainda maior. O atleta precisa compreender onde está, o que já desenvolveu e quais comportamentos concretos precisa transformar. Dizer que alguém deve “amadurecer”, “competir mais” ou “melhorar a atitude” costuma ser insuficiente. Uma devolutiva útil traduz essas avaliações em ações observáveis e oferece referências para que o jogador reconheça a própria evolução.

Compreender esse novo perfil, entretanto, não significa retirar responsabilidades ou proteger o atleta de qualquer desconforto. A alta performance exige disciplina, capacidade de suportar frustrações e disposição para responder às cobranças. O que precisa mudar não é necessariamente o nível de exigência, mas a qualidade da comunicação e dos recursos oferecidos para que o jogador consiga enfrentá-la.

Nesse cenário, a terapia pode ocupar um espaço importante. O atleta decide sob pressão, exposição, incerteza e avaliação permanente. Sua tomada de decisão não depende somente da compreensão tática ou da capacidade técnica. Ansiedade, confiança, medo de errar, expectativas familiares e relação com o ambiente também interferem na maneira como ele percebe as situações e responde a elas.

O trabalho terapêutico não deve aparecer apenas quando existe uma crise. Ele pode ajudar o atleta a reconhecer padrões de comportamento, compreender suas reações, lidar melhor com a pressão e desenvolver maior autonomia. Não se trata de eliminar o desconforto da competição, mas de ampliar os recursos psicológicos disponíveis para enfrentá-lo.

É nessa relação entre psicologia, tomada de decisão e alta performance que tenho concentrado minha forma de entender o jogo, o jogador e meu direcionamento na forma de entender quem é e como devo enxergar a pessoa na minha atuação profissional. Antes de procurar corrigir uma ação isolada, é necessário compreender a pessoa que decide e o contexto no qual essa decisão acontece. Em um ambiente cada vez mais rápido, exposto e exigente, desenvolver o atleta também significa ajudá-lo a compreender a si mesmo.

A geração Z já chegou ao futebol. O desafio agora não é tentar encaixá-la integralmente nos modelos anteriores, nem adaptar todo o ambiente às suas vontades. É construir uma liderança capaz de combinar limites e escuta, cobrança e clareza, responsabilidade e desenvolvimento. O futebol não precisa exigir menos desses jovens. Precisa compreender melhor como ajudá-los a responder às exigências da alta performance.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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A carreira também é um projeto e uma forma de viver a vida

Por: Nicolau Trevisani

Existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos: que tipo de profissional o futebol precisará daqui a dez anos?

Durante muito tempo, a especialização foi o principal caminho para quem queria crescer no esporte. O treinador buscava ser um treinador melhor. O scout, um scout melhor. O psicólogo, um psicólogo melhor.

Esse movimento foi fundamental para a evolução do jogo.

Mas quanto mais estudava futebol, mais percebia que os grandes problemas da alta performance dificilmente pertenciam a uma única área do conhecimento.

Uma contratação envolve comportamento humano, leitura de contexto, análise de desempenho, projeção de potencial e estratégia organizacional.

O desenvolvimento de um atleta depende da interação entre aspectos técnicos, táticos, físicos, psicológicos, sociais e culturais.

Uma decisão tomada por uma comissão técnica nunca é apenas uma decisão tática. Ela também envolve liderança, comunicação, gestão de pessoas, cultura e risco.

O futebol é complexo porque a tomada de decisão é complexa.

Foi essa percepção que começou a transformar minha carreira.

Por volta de 2010, nas conversas e aulas do professor João Paulo Medina, fundador da Universidade do Futebol, fui provocado por uma ideia que nunca mais me deixou: talvez estudar futebol significasse, antes de tudo, aprender a questionar os paradigmas através dos quais enxergamos o próprio jogo.

Desde então, essa inquietação passou a orientar minhas escolhas.

A graduação em Psicologia nunca teve como objetivo formar apenas um psicólogo do esporte. A experiência como scout e Analise de desempenho  seja no FC Dallas (atual) ou nos diferentes contextos que encontrei nos meus 7 anos de São Paulo futebol clube nunca tiveram como único objetivo apenas identificar jogadores tecnicamente. A atuação em consultorias, na Seleção Brasileira de Rugby, os estudos sobre liderança, gestão e, mais recentemente, finanças corporativas, também nunca foram experiências desconectadas entre si.

Todas fizeram parte do mesmo projeto.

Hoje percebo que minha carreira não foi construída para me transformar em especialista de uma única disciplina.

Ela foi construída para compreender como pessoas, equipes e organizações tomam decisões em ambientes de alta performance e como construir contextos e escolher pessoas para que essas decisões sejam cada vez mais assertivas em diferentes áreas.

O futebol tornou-se o principal laboratório dessa investigação.

Talvez seja por isso que cada vez mais me interesso pelas conexões entre psicologia, liderança, scouting, ciência de dados, metodologia de treino, gestão e cultura organizacional.

Não porque eu acredite que um profissional precise dominar tudo.

Mas porque acredito que os maiores avanços acontecem justamente quando diferentes áreas começam a dialogar.

Esse é, inclusive, o exercício que procuro fazer ao escrever.

Não busco oferecer respostas definitivas.

Busco formular perguntas que talvez ainda não estejamos fazendo.

Se o futebol está em constante evolução, talvez nossa responsabilidade não seja apenas acompanhar essa evolução, mas tentar compreender quais serão os próximos paradigmas que transformarão a forma como pensamos o jogo.

É essa reflexão que procuro construir em cada artigo.

Porque acredito que o papel de quem estuda o futebol não é apenas explicar o presente.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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