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Além das Quatro Linhas: O Brasil, as Commodities e a Nova Economia da Formação no Futebol

Uma reflexão inspirada no texto de Ana Teresa Ratti (Máquina do Esporte)

Por: Tiago Corradine

O debate recente das “novas moedas de valor” no futebol global, brilhantemente proposto por Ana Teresa Ratti em sua análise na Máquina do Esporte, nos obriga a encarar uma ferida histórica e estrutural do nosso esporte. Quando o mercado internacional contrata um atleta hoje, ele não busca apenas o drible vistoso, a velocidade pura ou o índice físico isolado. Em um cenário hiperconectado, onde softwares de scouting e inteligência artificial nivelam o acesso aos dados de desempenho, a vantagem competitiva muda de figura. O que se compra, cada vez mais, é a capacidade de adaptação, a inteligência emocional, a comunicação multilíngue, a resiliência cognitiva e a construção de um capital humano integral.
Contudo, ao olharmos para o espelho do futebol brasileiro, a reflexão ganha contornos dramáticos e nos empurra a uma comparação macroeconômica inevitável.

O Futebol Brasileiro e a Armadilha das Commodities

Historicamente, a matriz econômica do Brasil consolidou-se sob a lógica de um grande exportador de commodities: fornecemos matéria-prima de altíssima qualidade bruta (minério, soja, celulose, terras raras…) para que centros industriais externos realizem o refino, agreguem valor tecnológico e intelectual, e capturem a fatia mais robusta da cadeia de valor.

No futebol, o espelhamento desse modelo é quase cirúrgico. O Brasil continua sendo um celeiro inesgotável de talento natural, técnica instintiva e criatividade. Produzimos a “matéria-prima” em estado bruto. No entanto, o ecossistema nacional, pressionado por urgências financeiras crônicas e por um imediatismo sufocante, opera sob a lógica do extrativismo de curto prazo.

Nossos jovens talentos são “mercantilizados e exportados” precocemente, antes mesmo de terem sua maturação cognitiva, emocional e educacional consolidada. Chegam aos grandes centros europeus, como “diamantes brutos”. Lá, encontram ambientes sistêmicos capazes de “lapidar” não apenas o atleta dos 90 minutos, mas o indivíduo: desenvolve-se a cognição tática avançada, o domínio de idiomas, a gestão da imagem pública e a capacidade de tomada de decisão sob alta pressão. O resultado? A Europa “refina” o nosso talento, multiplica seu valor de mercado por cifras bilionárias e nos devolve o produto pronto apenas como espectadores do sucesso financeiro e simbólico que geramos na base.

Ecossistemas de Formação: Brasil versus Europa

Quando um clube brasileiro vende uma promessa precoce para pagar a folha salarial do mês seguinte, ele está, metaforicamente, queimando a safra do ano para comprar sementes que talvez nunca germinem. O foco exclusivo no resultado esportivo imediato e na vitrine de curto prazo negligencia dimensões fundamentais do desenvolvimento humano: identidade, autoconhecimento, inteligência emocional e instrução formal.

Como bem pontua a trajetória de jovens revelações destacadas internacionalmente, atletas que combinam excelência em campo com multilinguismo, pensamento crítico e até formações acadêmicas avançadas, o futebol de elite exige pessoas preparadas para lidar com a complexidade. Estudar, comunicar-se e compreender o próprio papel no ecossistema global não enfraquecem o atleta; pelo contrário! Potencializam exponencialmente o seu rendimento dentro das quatro linhas.

A Provocação Incontornável
Diante desse cenário, a pergunta que fica para gestores, formadores e acadêmicos do esporte é incômoda, mas incontornável:

Será possível alterar a cultura do futebol brasileiro enquanto estivermos ancorados em uma sociedade e em uma indústria estruturadas sob a lógica de commodities?

A resposta exige uma ruptura dolorosa, porém urgente. Mudar essa cultura significa abandonar o extrativismo predatório e transformar os centros de formação brasileiros em verdadeiros pólos de desenvolvimento intelectual, tecnológico e humano. Significa entender que investir em educação financeira, no ensino de idiomas, na comunicação e no suporte psicológico dos jovens não é um luxo opcional, mas a própria garantia de sustentabilidade da nossa principal indústria esportiva e cultural.

Sem essa virada de chave, continuaremos presos ao ciclo vicioso de exportar o “talento bruto” em troca de migalhas financeiras, assistindo passivamente os principais centros do esporte global “comprarem”, por bilhões, o valor que nós mesmos deixamos de agregar em casa.

O futuro do futebol brasileiro não depende apenas de novos métodos de treinamento físico ou tático; depende da coragem de reescrever o valor do ser humano que veste a camisa.

Referência
Ana Teresa Ratti. As novas moedas de valor do futebol: o que o mercado realmente compra quando contrata um atleta. Máquina do Esporte. Disponível em: https://maquinadoesporte.com.br/analise/as-novas-moedas-de-valor-do-futebol-o-que-o-mercado-realmente-compra-quando-contrata-um-atleta/. Acesso em: ago. 2026.

Tiago Corradine é Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884

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A geração Z chegou ao futebol. A nossa forma de lidar e com o individuo mudou?

Por: Nicolau Trevisani

Os atletas que chegam hoje às categorias de base e ao futebol profissional cresceram em um contexto bastante diferente daquele vivido pelas gerações anteriores. São jovens acostumados ao acesso rápido à informação, à exposição nas redes sociais e a relações menos sustentadas apenas pela hierarquia. De maneira geral, querem compreender os motivos das decisões, receber respostas com maior frequência e enxergar com clareza o caminho do próprio desenvolvimento.

Isso não significa que a geração Z seja melhor, pior ou mais frágil. Também seria um erro utilizar o conceito de geração como explicação para todos os comportamentos individuais. O que existe é um novo contexto social, que influencia a maneira como esses atletas lidam com autoridade, frustração, reconhecimento e expectativa.

Durante muito tempo, o futebol valorizou um modelo no qual o treinador determinava e o jogador executava. Questionar poderia ser entendido como falta de respeito, enquanto suportar cobranças em silêncio era frequentemente associado à força mental. Parte dessa cultura ainda permanece, mas sua capacidade de produzir comprometimento parece cada vez mais limitada.

O atleta atual tende a se envolver mais quando compreende o sentido daquilo que está fazendo. Explicar uma decisão não significa enfraquecer a autoridade do treinador ou negociar todas as escolhas. Significa demonstrar coerência entre aquilo que se pede, o que se treina e a maneira como o jogador será avaliado. A autoridade deixa de depender exclusivamente do cargo e passa a ser sustentada também pela clareza das relações.

Essa geração também cresceu cercada por respostas rápidas. No ambiente digital, a informação, a aprovação e a comparação são praticamente imediatas. No futebol, porém, o desenvolvimento continua exigindo tempo. Um jogador pode precisar de meses para se adaptar a uma função, amadurecer uma capacidade ou conquistar espaço. Quando não consegue perceber evolução, pode interpretar a espera como falta de valorização e aumentar a ansiedade sobre o próprio futuro.

Por isso, o feedback assume uma importância ainda maior. O atleta precisa compreender onde está, o que já desenvolveu e quais comportamentos concretos precisa transformar. Dizer que alguém deve “amadurecer”, “competir mais” ou “melhorar a atitude” costuma ser insuficiente. Uma devolutiva útil traduz essas avaliações em ações observáveis e oferece referências para que o jogador reconheça a própria evolução.

Compreender esse novo perfil, entretanto, não significa retirar responsabilidades ou proteger o atleta de qualquer desconforto. A alta performance exige disciplina, capacidade de suportar frustrações e disposição para responder às cobranças. O que precisa mudar não é necessariamente o nível de exigência, mas a qualidade da comunicação e dos recursos oferecidos para que o jogador consiga enfrentá-la.

Nesse cenário, a terapia pode ocupar um espaço importante. O atleta decide sob pressão, exposição, incerteza e avaliação permanente. Sua tomada de decisão não depende somente da compreensão tática ou da capacidade técnica. Ansiedade, confiança, medo de errar, expectativas familiares e relação com o ambiente também interferem na maneira como ele percebe as situações e responde a elas.

O trabalho terapêutico não deve aparecer apenas quando existe uma crise. Ele pode ajudar o atleta a reconhecer padrões de comportamento, compreender suas reações, lidar melhor com a pressão e desenvolver maior autonomia. Não se trata de eliminar o desconforto da competição, mas de ampliar os recursos psicológicos disponíveis para enfrentá-lo.

É nessa relação entre psicologia, tomada de decisão e alta performance que tenho concentrado minha forma de entender o jogo, o jogador e meu direcionamento na forma de entender quem é e como devo enxergar a pessoa na minha atuação profissional. Antes de procurar corrigir uma ação isolada, é necessário compreender a pessoa que decide e o contexto no qual essa decisão acontece. Em um ambiente cada vez mais rápido, exposto e exigente, desenvolver o atleta também significa ajudá-lo a compreender a si mesmo.

A geração Z já chegou ao futebol. O desafio agora não é tentar encaixá-la integralmente nos modelos anteriores, nem adaptar todo o ambiente às suas vontades. É construir uma liderança capaz de combinar limites e escuta, cobrança e clareza, responsabilidade e desenvolvimento. O futebol não precisa exigir menos desses jovens. Precisa compreender melhor como ajudá-los a responder às exigências da alta performance.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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A ESTRANGEIRIZAÇÃO DA BASE: UM CAMINHO A REPENSAR PARA O FUTEBOL BRASILEIRO

Artigo opinativo sobre a identidade e a gestão técnica na formação de atletas

Por: Douglas Bazolli

Resumo

Este texto discute um tema que mexe com diretores, treinadores e estudiosos do futebol brasileiro: a contratação cada vez maior de profissionais estrangeiros para trabalhar na base do país. Defendo aqui que essa prática, além de desnecessária, é prejudicial. O verdadeiro problema da formação brasileira não é a falta de gente boa, mas a falta de qualificação constante de quem manda e o desperdício de profissionais excelentes que temos aos montes dentro do nosso país. Além disso, as categorias de base formam não só jogadores, mas também treinadores. Ter estrangeiros nesses cargos quebra a rede natural de passagem de conhecimento profissional dentro de casa.

1. A IDEIA E O MAL-ENTENDIDO

Se o objetivo é recuperar o futebol brasileiro, tenho a certeza, construída em vinte anos de trabalho passando por base, profissional e coordenação, de que trazer gestores, coordenadores e treinadores de fora para a base não é o caminho. Uma coisa é a globalização no futebol profissional, onde se ajusta a tática em times já prontos. Outra coisa, completamente diferente, é entregar a formação dos nossos jovens a profissionais que não conhecem a cultura do Brasil.

O argumento de que “precisamos aprender com a Europa” parte de uma ideia que a prova derruba: a de que o Brasil não tem formadores. Isso não é verdade. O que falta não é qualidade, é colocar as pessoas nos lugares certos.

2. O BRASIL NÃO É UM PAÍS SEM FORMADORES

O Brasil é, segundo o Observatório do Futebol, o maior exportador de jogadores do mundo. Em 2025, foram 2.326 transferências internacionais de brasileiros. Mais de 1.440 brasileiros jogavam no exterior em 135 ligas. A venda de atletas rendeu US$ 553,7 milhões, cerca de R$ 2,86 bilhões. Nos últimos seis anos, mandamos para fora 6.648 jogadores.

Esses números trazem uma conclusão que costuma ser ignorada: se o Brasil forma jogadores que o mundo inteiro compra, é porque tem formadores competentes. Jogador craque não surge do nada. Existe uma rede de observadores, treinadores de crianças, coordenadores e professores que mantém esse movimento. O problema não é a falta desses profissionais. O problema é onde eles estão e quem ocupa as vagas que deveriam ser deles.

3. A PROVOCAÇÃO NECESSÁRIA: 213 MILHÕES DE PESSOAS E NÃO TEMOS FORMADORES?

Aqui, faço uma provocação direta baseada na minha experiência de vinte anos no futebol. Segundo o IBGE em 2025, o Brasil tem 213.421.037 habitantes. Somos o quinto país mais populoso e o que tem a cultura de futebol mais forte. É o lugar com a maior quantidade de pessoas jogando no mundo.

E pergunto: em um país com tanta gente, não conseguimos ter bons formadores e gestores? A resposta é desconfortável: conseguimos, sim. O problema não é a quantidade de gente, é como eles são escolhidos. É a falta de valorização de quem é bom. É a estrutura da gestão. E os números que provam isso são fortes.

  • Uma nação que estuda muito o futebol

O Brasil tem, segundo o CONFEF, mais de 668 mil profissionais registrados. Não são amadores. São pessoas autorizadas por lei a trabalhar com esporte. Temos centenas de faculdades de Educação Física formando milhares de profissionais todos os anos.

A própria CBF Academy já treinou milhares de técnicos em seus cursos obrigatórios. Só a Licença PRO, o nível mais alto, formou cerca de 4.989 profissionais. Até 2026, esse número passou dos cinco mil. Mas o estudo no Brasil vai muito além da CBF. Existe uma rede forte de ensino que inclui:

  • Faculdades com foco em futebol, como Estácio, PUCRS e outras.
    
    • A Universidade Federal de Viçosa (UFV), com seu centro de pesquisa (NUPEF) e curso de especialização.
    • Pós-graduações de especialização em treino de futebol oferecidas por várias instituições globais.
    • Mestrados e doutorados em universidades como USP, Unicamp, UFMG e UFRJ.
    • Plataformas como a Universidade do Futebol (UdoF), que é referência em pesquisa no país.
    • Canais e comunidades como Diário do Treinador, Ciência da Bola e outros que ajudam na formação constante.
    • Eventos acadêmicos e científicos como o SIBRAFF (Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal), organizado pelo NUPEDEFF (Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Esportes, Futebol e Futsal) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já vai para sua 4ª edição em 2026, reunindo pesquisadores, treinadores e preparadores físicos de todo o país para discutir os avanços e desafios da modalidade.

Além desses, existem outros eventos que mostram como o Brasil é sério na formação de profissionais: o Simpósio Internacional de Futebol da própria UFV, o Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol do Museu do Futebol (realizado desde 2010 em São Paulo), o CONBRACE/CONICE (Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) e os diversos encontros regionais organizados por universidades e conselhos regionais de Educação Física. Todos esses espaços são frequentados por milhares de treinadores que buscam se atualizar e trocar experiências. Isso não é um país que falta formação, é um país que transborda formação.

“Nunca o treinador brasileiro estudou tanto. Nunca tivemos uma rede de ensino tão grande e acessível. Existe uma geração inteira que une a prática com a base de estudos, algo que poucos países no mundo têm.”

  • A base forma formadores — e estrangeiros quebram essa rede

Um ponto que quase ninguém vê é que as categorias de base não formam apenas jogadores. Elas formam treinadores. O coordenador de hoje é o diretor de amanhã. O treinador do sub-13 é o futuro técnico do profissional.

A base é a escola do treinador. Quando damos essas vagas para estrangeiros, cortamos a passagem de uma tradição profissional dentro de casa. Trazer gente de fora para a base não é só trocar um profissional por outro. É fechar a escola onde nossos brasileiros deveriam aprender. É destruir o caminho de carreira de milhares de pessoas que estão estudando em faculdades e cursos.

  • O problema da estrutura: bons profissionais fora, amadores dentro

Entre 2021 e 2025, o Brasileirão teve uma média de 21 demissões de técnicos por ano. Isso mostra a instabilidade do cargo e quanta gente boa fica rodando sem projeto. Sites como UOL e Goal.com mostram listas enormes de técnicos brasileiros de alto nível sem emprego — gente com licença máxima e títulos continentais. Ao mesmo tempo, vemos pessoas sem qualificação em cargos de chefia na base de clubes grandes. Em 2021, o portal Novo Momento avisou que 20% dos cargos técnicos na Série A eram de estrangeiros.

“Fica a pergunta: em um país com 213 milhões de pessoas e milhares de técnicos certificados, por que dizem que faltam formadores brasileiros?”

4.  O PONTO CRÍTICO: QUALIFICADOS FORA E SEM QUALIFICAÇÃO NO COMANDO

Este é o ponto mais importante. Falo isso por ter passado por todos os setores da base ao profissional. O Brasil tem formadores de elite. Gente que entende de ensino, psicologia e treino. Mas muitos estão em funções menores, enquanto as chefias são ocupadas por pessoas que não têm o preparo necessário. Estudos recentes confirmam isso.

Barros e Elias (2023) mostram que os clubes brasileiros ainda enfrentam problemas clássicos de gestão mesmo depois de tantos anos da Lei Pelé.

Citação Direta: “A pesquisa descreve os problemas clássicos de gestão de clubes de futebol e os desdobramentos financeiros e estratégicos das decisões e dos planos das diretorias dos clubes na expectativa de revelar como poderiam ser contornadas pautas como dívidas, departamentos, aportes financeiros e administrativos mediante a aplicação da Lei Pelé.” (p. 142)

Monteiro (2021) reforça que as administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos.

Citação Direta: “As mudanças na legislação do futebol brasileiro, mais especificamente no que diz respeito à Lei Pelé, elevaram o futebol brasileiro ao patamar de profissionalização de gestão, isso porque antes o futebol era movido pela simples paixão de seus diretores, torcedores e até jogadores. A gestão dos clubes não exigia a complexidade atual do acompanhamento fiscal, trabalhista e gestão de contratos. As administrações amadoras levavam os clubes a grandes endividamentos, sentidos até os dias atuais.” (p. 103)

Uma pesquisa da USP (2026), feita por Rocoo Júnior e Moraes, foi clara ao apontar a falta de transparência nos clubes brasileiros.

Citações Direta

1: “Apesar da importância econômica e cultural da modalidade, falhas de governança e transparência ainda permeiam a gestão dos clubes e geram consequências financeiras e esportivas.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

2: “Muitas equipes da Série D sequer possuem site oficial ou canais de contato.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

3: A política interna é apontada como um dos principais entraves à modernização da gestão dos clubes brasileiros.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

4: “Grande parte dos problemas organizacionais identificados no estudo está relacionada às disputas políticas, especialmente nos clubes associativos, onde diferentes grupos disputam o poder e as frequentes mudanças de gestão dificultam a continuidade dos projetos.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)

5: “É comum que integrantes do próprio clube atuem contra a administração em exercício, comprometendo decisões estratégicas e atrasando processos de profissionalização.” (ROCOO JÚNIOR; MORAES, 2026, s/p – artigo web do Jornal da USP)


A tese de Silva (2026) descreve uma gestão que se parece com um sistema feudal, onde o conhecimento é retido como fonte de poder. Há ainda o problema da valorização financeira que empurra o treinador a pular etapas: o salário baixo no sub-13 faz com que o técnico queira subir rápido para o sub-17 ou profissional antes de estar pronto, deixando a base menor sem especialistas.

Citações Direta

1: “Os clubes operam majoritariamente em níveis iniciais de maturidade, concentrados nos estágios de informação e conhecimento, ainda desconectados de uma estratégia institucional mais ampla.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

2: “O estudo identificou barreiras culturais severas, descritas por gestores como uma ‘gestão feudal’, na qual o conhecimento é retido como fonte de poder e o diálogo é evitado para não expor problemas internos.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

3: “Na arquitetura organizacional, detectou-se a ausência generalizada de planos de cargos, carreiras e remuneração e de critérios de sucessão. Essa fragilidade torna as agremiações vulneráveis a perdas cognitivas massivas sempre que ocorre uma troca de comissão técnica.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

4: “Os relatórios publicados pelos clubes são majoritariamente protocolares e não servem como ativos estratégicos de decisão.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

5: “A principal conclusão é que os clubes brasileiros não utilizam a gestão do conhecimento de maneira estruturada para gerar vantagem competitiva. E isso importa porque, em um futebol cada vez mais complexo e profissionalizado, vencer também depende da capacidade de aprender e preservar conhecimento para decidir melhor.” (SILVA, 2026, s/p (artigo web do Jornal da USP)

“O problema não é a falta de gente boa. É que a gente boa não está onde deveria estar.”

5.  O PAPEL DO COORDENADOR E A DEFORMAÇÃO NA PRÁTICA

O coordenador técnico é quem une a ideia do clube com o treino no campo. Ele garante que o menino de 12 anos siga um caminho que faça sentido até os 20 anos, sem que o treino mude toda hora do jeito que cada treinador quer.

Quando esse chefe não é qualificado, o resultado é destruído: o plano de ensino vira apenas um papel com promessas e cada um faz o que quer. Pior ainda quando é um estrangeiro que não conhece nossa cultura: o jovem acaba sendo formado em uma lógica que não tem nada a ver com a sua identidade e com o futebol que ele vive.

6.  A CULTURA: A GINGA NÃO SE APRENDE EM CURSO

Estrangeiros, por melhores que sejam, não entendem que o futebol brasileiro é uma forma de cultura antes de ser um sistema tático. O drible no Brasil nasceu como forma de resistência. É algo que vem de dentro.

Pode-se aprender tática com um alemão ou um italiano. Mas não se aprende a formar um jogador brasileiro com quem não é daqui. Formar é passar uma tradição, e isso só acontece de quem conhece a nossa terra para quem vive nela.

7.  O DESABAFO DE QUEM VIVE O BRASIL

Muitos nomes de peso concordam com isso. Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho disseram em uma declaração conjunta:

“Eu não concordo e acho uma falta de respeito com os treinadores brasileiros que seja pensado a contratação de um treinador estrangeiro.”

Cuca e Rivaldo também já criticaram essa preferência, dizendo que é uma falta de consideração e de respeito com os profissionais do nosso país.

8.  APRENDER COM O MUNDO NÃO É SER SUBSTITUÍDO POR ELE

Aprender com outros países é importante e ajuda a crescer. Ver como os europeus trabalham é bom. O erro não é aprender, o erro é desistir de quem é daqui para colocar alguém de fora.

Aprender significa observar o que o outro faz e adaptar para o nosso jeito. Colocar um estrangeiro no lugar do brasileiro é desistir. É dizer, sem falar abertamente, que não confiamos na nossa capacidade de criar o nosso próprio caminho.

9.  UMA PROPOSTA QUE PROTEGE E POR QUE ELA FAZ SENTIDO

Proponho algo que pode parecer incômodo, mas que é sensato: a CBF deveria assumir o papel de guardiã da identidade do jogador brasileiro e exigir que qualquer profissional estrangeiro que queira atuar na nossa base passe pelas etapas de formação do sistema CBF.

Não se trata de fechar a porta. Trata-se de exigir o mesmo que outros países exigem de nós. Um treinador brasileiro que vai trabalhar na França precisa passar pelos ciclos de formação locais, adaptar-se à cultura, entender o contexto. Um brasileiro que vai para a Alemanha precisa cumprir as etapas da federação alemã. Por que seria diferente aqui?

O que proponho não é uma proibição agressiva. É uma exigência de equivalência: quem vem de fora precisa provar que entende o futebol brasileiro, que respeita a nossa cultura de formação, que passou pelos nossos ciclos de capacitação. A CBF Academy já tem estrutura para isso. Basta criar um caminho claro e obrigatório para o estrangeiro que quer atuar na base brasileira.

Isso não é xenofobia. É proteção da identidade. É o mesmo princípio que aplicam os países europeus com seus treinadores. Cada nação tem o direito e o dever de cuidar da formação dos seus jovens atletas como um patrimônio. E quando entregamos esse patrimônio a quem não passou pelo nosso processo, abrimos mão de algo que é nosso.

10. A IRONIA FINAL E O CHAMADO PARA AGIR

Existe uma ironia dura aqui. O Brasil é o maior celeiro de talentos do mundo. A Europa se alimenta do que produzimos. E nós vamos entregar a chave da nossa produção para os clientes?

A melhora do nosso futebol virá de dentro. Mas só se os brasileiros competentes tiverem espaço. Hoje, o profissional bom é deixado de lado e trocado por estrangeiros ou por pessoas com influência política.

O caminho é colocar os brasileiros certos nos lugares certos. Se continuarmos assim, teremos jogadores que parecem europeus, mas sem a nossa ousadia e alegria. Isso não é salvar o nosso futebol. É enterrá-lo com as nossas próprias mãos.

REFERÊNCIAS E FONTES

Falas de treinadores e jogadores:
  • Rogério Ceni, Fernando Diniz, Cuca e Renato Gaúcho — declaração contra estrangeiros (2023).
    • Cuca — sobre técnicos “ultrapassados” e aumento de estrangeiros (2019/2025).
    • Leão e Oswaldo de Oliveira — críticas em evento com Ancelotti (2025).
    • Rivaldo — crítica na ESPN (2022).
Dados de população e mercado:
  • IBGE — 213 milhões de habitantes (2025).
    • Observatório do Futebol — Brasil como maior exportador (2025-2026).
    • Banco Central — ganhos de R$ 2,86 bilhões com vendas (2025).
    • ResearchGate — 6.648 jogadores vendidos em 6 anos.
Educação e trabalho:
  • CONFEF — 668 mil profissionais registrados.
    • CBF Academy — quase 5.000 técnicos com Licença PRO.
    • UFV/NUPEF — estudos e especialização em futebol.
    • Universidade do Futebol (UdoF) — ensino continuado.
    • SIBRAFF — Simpósio Brasileiro de Futebol e Futsal, organizado pelo NUPEDEFF/UFSC (2026).
Estudos sobre gestão e cultura:
  • USP (EEFE) — estudo sobre amadorismo na gestão (2026).
    • Barros, M. M.; Elias, F. A. C. — “A gestão de clubes e a profissionalização do futebol no Brasil”. Revista Administração de Empresas — UNICURITIBA, 2023.
    • Monteiro — “As administrações amadoras e o endividamento dos clubes” (2021).
    • Rocoo Júnior; Moraes — Pesquisa sobre falta de transparência nos clubes brasileiros. EEFE-USP, 2026.


Douglas Bazolli é Coordenador Técnico (Sub 15, sub 16 e sub17) e Metodológico das categorias de base do Santos FC. Graduado em Educação Física e com especialização em futebol, possui Licença A de treinador da CBF Academy. Tem experiência como treinador e coordenador em diferentes clubes do futebol brasileiro, atuando no desenvolvimento metodológico e na formação de atletas.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/douglas-bazolli-25206333/

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A carreira também é um projeto e uma forma de viver a vida

Por: Nicolau Trevisani

Existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos: que tipo de profissional o futebol precisará daqui a dez anos?

Durante muito tempo, a especialização foi o principal caminho para quem queria crescer no esporte. O treinador buscava ser um treinador melhor. O scout, um scout melhor. O psicólogo, um psicólogo melhor.

Esse movimento foi fundamental para a evolução do jogo.

Mas quanto mais estudava futebol, mais percebia que os grandes problemas da alta performance dificilmente pertenciam a uma única área do conhecimento.

Uma contratação envolve comportamento humano, leitura de contexto, análise de desempenho, projeção de potencial e estratégia organizacional.

O desenvolvimento de um atleta depende da interação entre aspectos técnicos, táticos, físicos, psicológicos, sociais e culturais.

Uma decisão tomada por uma comissão técnica nunca é apenas uma decisão tática. Ela também envolve liderança, comunicação, gestão de pessoas, cultura e risco.

O futebol é complexo porque a tomada de decisão é complexa.

Foi essa percepção que começou a transformar minha carreira.

Por volta de 2010, nas conversas e aulas do professor João Paulo Medina, fundador da Universidade do Futebol, fui provocado por uma ideia que nunca mais me deixou: talvez estudar futebol significasse, antes de tudo, aprender a questionar os paradigmas através dos quais enxergamos o próprio jogo.

Desde então, essa inquietação passou a orientar minhas escolhas.

A graduação em Psicologia nunca teve como objetivo formar apenas um psicólogo do esporte. A experiência como scout e Analise de desempenho  seja no FC Dallas (atual) ou nos diferentes contextos que encontrei nos meus 7 anos de São Paulo futebol clube nunca tiveram como único objetivo apenas identificar jogadores tecnicamente. A atuação em consultorias, na Seleção Brasileira de Rugby, os estudos sobre liderança, gestão e, mais recentemente, finanças corporativas, também nunca foram experiências desconectadas entre si.

Todas fizeram parte do mesmo projeto.

Hoje percebo que minha carreira não foi construída para me transformar em especialista de uma única disciplina.

Ela foi construída para compreender como pessoas, equipes e organizações tomam decisões em ambientes de alta performance e como construir contextos e escolher pessoas para que essas decisões sejam cada vez mais assertivas em diferentes áreas.

O futebol tornou-se o principal laboratório dessa investigação.

Talvez seja por isso que cada vez mais me interesso pelas conexões entre psicologia, liderança, scouting, ciência de dados, metodologia de treino, gestão e cultura organizacional.

Não porque eu acredite que um profissional precise dominar tudo.

Mas porque acredito que os maiores avanços acontecem justamente quando diferentes áreas começam a dialogar.

Esse é, inclusive, o exercício que procuro fazer ao escrever.

Não busco oferecer respostas definitivas.

Busco formular perguntas que talvez ainda não estejamos fazendo.

Se o futebol está em constante evolução, talvez nossa responsabilidade não seja apenas acompanhar essa evolução, mas tentar compreender quais serão os próximos paradigmas que transformarão a forma como pensamos o jogo.

É essa reflexão que procuro construir em cada artigo.

Porque acredito que o papel de quem estuda o futebol não é apenas explicar o presente.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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