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Formação de Atletas no Futebol Brasileiro: entre vulnerabilidades sociais, lacunas educacionais e desafios estruturais

Por: Fernando Martilis

O futebol brasileiro consolidou-se historicamente como referência mundial na produção de talentos, sobretudo pela qualidade técnica de seus atletas. Entretanto, as transformações do futebol contemporâneo ampliaram significativamente as exigências relacionadas à formação. Além dos componentes técnicos e físicos, o jogo demanda cada vez mais inteligência tática, capacidade de leitura, tomada de decisão, disciplina, autonomia e competências cognitivas, emocionais e sociais.

Esses aspectos relacionados ao comportamento do atleta em campo estão também associados ao seu processo de desenvolvimento fora dele. Nesse sentido, defende-se uma perspectiva de formação integral, compreendida como o desenvolvimento do jovem não apenas em suas capacidades técnicas e físicas, mas também em seus aspectos cognitivos, emocionais, sociais e educacionais.

A efetivação dessa perspectiva ainda encontra importantes obstáculos no contexto brasileiro. O modelo de formação permanece atravessado por concepções historicamente consolidadas que, embora naturalizadas no cotidiano do futebol, precisam ser problematizadas diante das transformações contemporâneas do esporte.

Nesse contexto, três perspectivas recorrentes são discutidas como problemáticas: a associação entre vulnerabilidade social e maior predisposição ao sucesso esportivo; a concepção da educação formal como plano secundário na trajetória do atleta; e a valorização dos resultados imediatos nas categorias de base em detrimento dos processos formativos de longo prazo.

1. A vulnerabilidade social como suposta vantagem para o sucesso

Uma ideia historicamente presente no imaginário do futebol brasileiro associa pobreza, dificuldade econômica e vulnerabilidade social a maior motivação para alcançar o sucesso esportivo. Nessa perspectiva, o atleta oriundo de contextos mais vulneráveis possuiria maior “fome de vencer”, enquanto jovens provenientes de famílias com melhores condições socioeconômicas teriam menos disposição para enfrentar as dificuldades inerentes à formação.

Essa interpretação desloca condições sociais estruturais — como desigualdade, pobreza e ausência de direitos — para o núcleo de características individuais relacionadas à motivação, determinação e capacidade esportiva. 

Há, nessa concepção, uma primeira contradição: condições como boa educação, estrutura familiar, alimentação adequada, moradia e perspectivas profissionais para além do futebol correspondem a direitos que deveriam ser assegurados a todas as crianças e adolescentes. A vulnerabilidade não deveria, portanto, ser compreendida como atributo positivo ou condição necessária para a produção de grandes atletas.

A associação entre pobreza e sucesso esportivo também produz uma segunda fragilidade. Quando a principal motivação construída durante o processo formativo é a transformação da realidade financeira familiar, o próprio sucesso profissional pode retirar do atleta aquilo que funcionava como principal elemento motivador.

Ao alcançar a profissionalização e melhorar as condições socioeconômicas de sua família, o jovem necessita de novos objetivos capazes de orientar sua trajetória. Caso dimensões como educação, autonomia, projeto de vida, gestão da carreira e desenvolvimento emocional tenham sido negligenciadas, o atleta pode encontrar dificuldades para ressignificar seus objetivos e sustentar uma carreira de alto rendimento.

A responsabilidade depositada sobre crianças e adolescentes também merece atenção. Em muitas famílias, a expectativa de profissionalização reorganiza projetos familiares inteiros, com mudanças de cidade, abandono de empregos e concentração de recursos na trajetória esportiva do jovem. O atleta passa, assim, a carregar precocemente a responsabilidade de transformar as condições econômicas de sua família.

O futebol possui inegável potencial de mobilidade social, especialmente em comunidades e territórios vulneráveis. O problema surge quando a vulnerabilidade deixa de ser uma condição que precisa ser enfrentada e passa a ser interpretada como vantagem competitiva ou combustível necessário à formação.

2. A educação como “plano B”

Outra perspectiva recorrente consiste em compreender a educação formal como alternativa para o caso de fracasso na carreira esportiva. Nessa lógica, estudar seria importante principalmente porque a maioria dos jovens das categorias de base não chegará ao futebol profissional.

Embora aparentemente valorize a educação, essa compreensão a posiciona de maneira secundária no processo formativo.

No cotidiano das categorias de base, a relação entre escola e futebol é frequentemente marcada por conflitos. Treinos, jogos e viagens competem com horários escolares, enquanto competições realizadas durante a semana podem provocar vários dias consecutivos de ausência. A expansão do Ensino Médio em Tempo Integral acrescenta novos desafios à compatibilização entre formação esportiva e escolar.

Além disso, o talento esportivo pode produzir diferentes níveis de tolerância institucional em relação ao desempenho acadêmico. Quanto maior a expectativa esportiva depositada sobre determinado atleta, maior pode ser a tendência de relativizar suas dificuldades educacionais.

Entretanto, as lacunas da formação escolar não afetam apenas aqueles que deixarão o futebol.

O futebol contemporâneo tornou-se progressivamente mais complexo. O desenvolvimento tático exige capacidade de interpretar espaços, compreender funções, antecipar comportamentos e tomar decisões rapidamente. Fora de campo, o atleta precisa lidar com alimentação, sono, contratos, recursos financeiros, comunicação, redes sociais, planejamento de carreira e, em muitos casos, adaptação a outras culturas e idiomas.

A excelência técnica isoladamente já não garante a capacidade de responder a todas essas exigências.

Nesse sentido, educação e formação esportiva não deveriam ser compreendidas como trajetórias concorrentes. A educação não constitui apenas uma preparação para uma eventual carreira fora do futebol, mas dimensão relevante para o próprio desenvolvimento do atleta de alto rendimento.

Experiências internacionais demonstram diferentes possibilidades de integração. Alemanha, Espanha e França desenvolveram modelos que, embora distintos, articulam em diferentes níveis formação esportiva, educação formal, desenvolvimento cognitivo e acompanhamento psicossocial. Na Alemanha, por exemplo, a reformulação realizada após os resultados insatisfatórios do início dos anos 2000 envolveu centros regionais de desenvolvimento e escolas de futebol de elite integradas à formação educacional.

Não se trata de reproduzir modelos estrangeiros de forma acrítica. A cultura futebolística brasileira possui características próprias e historicamente relevantes, como criatividade, improvisação e qualidade técnica. Entretanto, preservar essa identidade não significa permanecer preso a processos que já não respondem plenamente às exigências do futebol contemporâneo.

3. O resultado imediato como medida do sucesso da formação

A terceira perspectiva problemática refere-se à valorização excessiva dos resultados competitivos nas categorias de base.

A competição constitui parte importante da formação esportiva. O problema ocorre quando vencer campeonatos passa a orientar decisões que deveriam priorizar o desenvolvimento dos atletas no médio e longo prazo.

Nesse contexto, as categorias de base acabam reproduzindo algumas das pressões características do futebol profissional sem possuir necessariamente a mesma estrutura de suporte. A necessidade de resultados imediatos favorece substituições constantes de atletas, liberações, contratações de jogadores considerados mais prontos e redução do tempo disponível para adaptação e desenvolvimento.

Como não existem períodos específicos para admissão e liberação de atletas nas categorias de base, mudanças podem ocorrer em diferentes momentos da temporada. Para crianças e adolescentes, essas decisões podem significar retorno à cidade de origem, nova mudança de domicílio, interrupções escolares, ruptura de vínculos e posterior ingresso em outro clube.

Assim, processos institucionais aparentemente simples podem produzir impactos significativos na trajetória dos jovens.

A lógica do resultado também interfere nas transições entre categorias, sobretudo nas etapas próximas ao futebol profissional. Em vez de respeitar processos individuais de maturação e adaptação, clubes podem optar por atletas mais preparados para responder imediatamente às necessidades competitivas.

Entretanto, estabelecer processos capazes de preparar jogadores para chegar ao futebol profissional nas melhores condições possíveis deveria constituir o principal objetivo das categorias de base. Nessa perspectiva, a quantidade e a qualidade dos atletas desenvolvidos, sua capacidade de adaptação ao alto rendimento e a sustentabilidade de suas trajetórias são indicadores tão ou mais relevantes que a conquista de competições durante o processo formativo.

A transição para o profissional também exige atenção especial. O sucesso pode produzir mudanças abruptas na vida de um jovem: aumento expressivo de renda, exposição pública, crescimento nas redes sociais, assédio de diferentes agentes e novas responsabilidades. Um atleta que não tenha desenvolvido recursos emocionais, sociais, educacionais e comportamentais suficientes pode enfrentar dificuldades justamente no momento em que alcança aquilo para o qual foi esportivamente preparado.

Repensando o modelo de formação

As três perspectivas analisadas convergem para uma mesma questão: o modelo brasileiro ainda apresenta dificuldades para compreender a formação esportiva como processo multidimensional e de longo prazo.

A formação integral pressupõe oferecer condições para que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam suas capacidades esportivas sem negligenciar dimensões educacionais, sociais, emocionais e familiares. Isso exige estruturas adequadas de moradia e alimentação, acompanhamento escolar, suporte médico, psicológico e social, educação financeira e cidadã, planejamento de carreira e fortalecimento dos vínculos familiares.

Também exige equipes multiprofissionais integradas à rotina das categorias de base. Assistentes sociais, psicólogos e pedagogos não devem atuar exclusivamente na resolução de situações emergenciais de natureza comportamental, disciplinar ou sociofamiliar. Sua participação deve alcançar o planejamento e as decisões estratégicas relacionadas ao processo formativo.

Em fevereiro de 2026, a Confederação Brasileira de Futebol instituiu, por meio da Portaria PRE nº 02/2026, um Grupo de Trabalho destinado a avaliar e propor melhorias no modelo de formação das categorias de base. Entre seus objetivos estão a reorganização de calendários e faixas etárias, integração entre desenvolvimento esportivo e educação, definição de critérios mínimos de infraestrutura e qualificação e construção de mecanismos de acompanhamento e proteção dos atletas.

A iniciativa demonstra que a necessidade de revisão do modelo já alcançou a agenda institucional do futebol brasileiro. Entretanto, mudanças efetivas demandam participação qualificada das diferentes áreas relacionadas à formação integral e capacidade de ultrapassar uma perspectiva centrada predominantemente nas dimensões esportiva e competitiva.

Nesse sentido, iniciativas locais também podem indicar possibilidades. No Estado do Ceará, encontra-se em desenvolvimento uma articulação entre o Ceará Sporting Club e a Secretaria da Educação do Estado para o reconhecimento da formação em futebol como formação técnico-profissional no âmbito do Ensino Médio. A proposta busca aproximar a formação esportiva da carga horária escolar, facilitando a compatibilização com o ensino em tempo integral e ampliando as responsabilidades formativas dos clubes.

A construção de alternativas dessa natureza reforça a necessidade de compreender escola e futebol não como instituições concorrentes, mas como espaços que podem compartilhar responsabilidades na formação dos jovens.

Considerações finais

O futebol brasileiro permanece capaz de produzir atletas de elevada qualidade técnica. Entretanto, as transformações contemporâneas do esporte demonstram que o talento técnico, isoladamente, não responde a todas as exigências do alto rendimento.

Repensar a formação exige romper com perspectivas historicamente naturalizadas. A vulnerabilidade social não deve ser utilizada como combustível motivacional; a educação não pode ser reduzida à condição de alternativa para aqueles que não alcançarem a profissionalização; e os resultados competitivos das categorias de base não devem se sobrepor aos processos de desenvolvimento de longo prazo.

A formação integral requer a articulação entre desenvolvimento técnico, tático, cognitivo, educacional, emocional e social. Isso implica ampliar a responsabilidade dos clubes, fortalecer a integração com famílias e instituições de ensino e inserir profissionais das áreas psicossocial e educacional não apenas no atendimento de demandas emergenciais, mas também na dimensão estratégica da formação.

Autoridades públicas e entidades reguladoras possuem igualmente responsabilidade nesse processo. Além de estabelecer normas, é necessário construir mecanismos permanentes de acompanhamento e fiscalização que assegurem condições adequadas de educação, proteção psicossocial e desenvolvimento humano.

O desafio, portanto, não consiste em abandonar características historicamente associadas ao futebol brasileiro, mas em criar condições para que criatividade, habilidade e talento possam se desenvolver em um modelo compatível com as exigências do esporte contemporâneo.

A formação de atletas precisa ser compreendida como investimento estrutural e de longo prazo. Mais do que preparar jogadores para vencer competições nas categorias de base, é necessário formar sujeitos capazes de chegar ao futebol profissional em melhores condições para sustentar suas carreiras e, igualmente, oferecer condições de desenvolvimento àqueles que seguirão outros caminhos.

Superar essas fragilidades exige reconhecer que o desenvolvimento do futebol brasileiro e o desenvolvimento humano de seus atletas não constituem objetivos concorrentes. São partes de um mesmo processo formativo.

Leia o artigo na integra aqui: https://docs.google.com/document/d/1FY9jSqoGKwBANzB1FG_3620yLQRCznlc/edit?usp=sharing&ouid=115013131826141164964&rtpof=true&sd=true

Fernando Martillis Assistente Social no Ceará Sporting Club. Mestre em Serviço Social (UECE). Pós-graduado em Didática do Ensino Superior e em Juventude no Mundo Contemporâneo. Graduado em Serviço Social pela UECE.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/fernandomartilis/

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Moral hazard e Fair Play Financeiro da CBF: Flexibilizar o passado sem enfraquecer o futuro

Por: Davi Figueiredo

Um dos argumentos mais relevantes quando se discute flexibilização regulatória é o chamado moral hazard, ou risco moral, que ocorre quando um agente, acreditando que poderá ser protegido das consequências de suas decisões, passa a assumir riscos maiores do que assumiria se tivesse de suportar integralmente seus efeitos.

No contexto do Fair Play Financeiro da CBF, a preocupação é legítima.

Afinal, se um clube puder assumir obrigações financeiras acima de sua capacidade e, depois, contar com alguma forma de flexibilização, o sistema pode perder força justamente onde deveria produzir disciplina.

Ocorre que flexibilizar uma regra de transição não significa necessariamente enfraquecer o sistema. Algumas vezes, pode ser justamente o que preserva sua racionalidade.

Com efeito, em determinadas circunstâncias, conceder mais tempo para que um clube se ajuste pode proteger melhor a sustentabilidade financeira do que puni-lo por não conseguir absorver imediatamente um impacto que não provocou.

Não se trata de anistia, mas do reconhecimento que preservar a disciplina financeira pode exigir, excepcionalmente, a adequação dos meios e prazos para alcançá-la.

É justamente aqui que começa o verdadeiro teste de maturidade do sistema, uma vez que sustentabilidade financeira não significa insensibilidade à realidade econômica.

Vale lembrar que o Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (RSSF), mais conhecido como Fair Play Financeiro da CBF, entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026, inaugurando um novo marco regulatório para a gestão financeira dos clubes, com requisitos de solvência, sustentabilidade, controle de custos com elenco e endividamento de curto prazo, além de um sistema próprio de monitoramento e sanções.

Para a discussão em questão, merece destaque o requisito de solvência, que exige dos clubes a inexistência de dívidas em aberto perante outros clubes, atletas e demais profissionais (staff), bem como perante o Poder Público, especialmente quanto a tributos e obrigações sociais.

Os efeitos decorrentes do descumprimento desse requisito são distintos conforme as obrigações tenham sido constituídas antes ou depois da entrada em vigor do RSSF, aspecto central para o debate sobre a flexibilização do período de transição.

  • As obrigações contraídas antes de janeiro de 2026 pertencem a um ambiente anterior à entrada em vigor do regulamento. São passivos constituídos sob outra realidade regulatória, muitas vezes acumulados ao longo de anos, herdados de administrações anteriores e inseridos em ecossistema marcado por elevada interdependência financeira entre os clubes. Para esse estoque anterior, foi estabelecido um período de transição até 30 de novembro de 2026, durante o qual o descumprimento do requisito de solvência, isto é, a existência de dívidas vencidas e não regularizadas, fica sujeito, em regra, apenas à sanção de advertência pública. Encerrada essa transição, porém, as mesmas obrigações históricas passam a estar expostas ao regime sancionatório completo, que pode envolver multas, retenção de receitas, transfer ban, dedução de pontos, exclusão de competições e, no limite, rebaixamento.;
  • Já as obrigações assumidas a partir de janeiro de 2026 foram contraídas sob o novo regime. A partir daí, as regras estão postas, os critérios de solvência estão claros e os clubes conhecem previamente as consequências do inadimplemento. Para essas “dívidas novas”, a aplicação plena das sanções desde o início parece não apenas legítima, mas necessária para conferir credibilidade ao Fair Play Financeiro.

É nesse ponto que o moral hazard encontra seu limite: não há razão para proteger decisões financeiras tomadas quando as novas regras já estavam claramente na mesa.

O debate sobre flexibilização deve, portanto, permanecer concentrado no estoque anterior a 2026. Não para eliminar sua obrigação de pagamento, nem para criar uma anistia, mas para evitar que passivos formados sob um regime anterior saltem, em apenas onze meses contados a partir da vigência do novel regulamento (janeiro/26), de um período de adaptação para sanções capazes de atingir diretamente a atividade esportiva do clube.

Uma coisa é administrar a transição do passado. Outra, muito diferente, é tolerar novas infrações depois que as regras já passaram a valer em sua plenitude.

É justamente a preocupação dessa passagem abrupta, de uma proteção transitória para todo o arsenal sancionatório, que merece ser debatida quando se trata de dívidas constituídas antes da existência do novo sistema.

Já estender a mesma flexibilização às dívidas novas, assumidas sob regras conhecidas, seria outra coisa, pois poderia transmitir ao mercado a mensagem de que as consequências regulatórias são negociáveis mesmo quando o risco foi assumido conscientemente.

A discussão ganha ainda mais relevância diante de uma mudança profunda no ambiente econômico do futebol brasileiro e que tem sido objeto de inúmeras manchetes recentemente: a ruptura da estrutura de receitas associada às bets.

Publicada no último dia 25 de setembro, a MP nº 1.394/2026 proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil e determinou o encerramento das autorizações existentes. Na prática, isso atinge também receitas de patrocínio que já integravam o planejamento econômico e orçamento de diversos clubes.

E a questão é maior do que as bets, pois o impacto não se limita ao patrocinador máster no uniforme.

Os impactos da repetina proibição podem se espalhar por toda a cadeia econômica do futebol, incluindo propriedades comerciais em placas de estádio, contratos operados por empresas de mídia e marketing, title rights de competições, premiações, ativações comerciais, direitos de transmissão e operações financeiras estruturadas sobre contratos de patrocínio.

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Quando uma fonte relevante de receita desaparece ou é severamente reduzida, o efeito não para no contrato original. Há um efeito cascata sobre todo ecossistema.

Um clube que deixa de receber pode atrasar o pagamento a outro. Uma competição com menor receita comercial pode reduzir sua capacidade de distribuir premiações. A perda de anunciantes relevantes pode pressionar o valor de propriedades comerciais e, por consequência, o valor econômico do próprio produto futebol.

Além disso, clubes que anteciparam recebíveis de contratos de patrocínio podem ter que renegociar operações financeiras construídas sobre fluxos que deixaram de existir nas condições originalmente previstas. Isso pode significar novos encargos, reforço de garantias, encurtamento de prazos e aumento do custo da dívida.

Em outras palavras, não se trata apenas de perda de receita. Pode haver também uma deterioração das próprias condições de financiamento.

Neste contexto, vale destacar que 86% dos clubes analisados nos trabalhos preparatórios do Fair Play Financeiro possuíam dívidas vencidas entre si, enquanto que no segundo ciclo de reporte de solvência ao respectivo órgão regulador do sistema [ANRESF], mais da metade dos 40 clubes das Séries A e B declarou débitos em aberto perante clubes, atletas ou poder público.

Há, portanto, um componente sistêmico que não pode ser ignorado. Quando clubes são simultaneamente credores e devedores uns dos outros, a solvência deixa de ser apenas uma fotografia individual e passa também a refletir a liquidez de uma cadeia econômica interdependente.

E ainda emerge uma questão de coerência regulatória. O próprio RSSF adotou transições graduais para seus demais pilares: o requisito de sustentabilidade caminha para aplicação plena apenas sobre dados de 2027 (com base em demonstrações financeiras a serem apresentadas em 2028); o controle de custos com elenco reduz progressivamente seu limite até 2028; e o requisito de endividamento de curto prazo percorre uma trajetória de adaptação até 2029.

Por que, então, o estoque de obrigações anteriores a 2026 deveria enfrentar uma transição substancialmente mais curta?

Logo, somada a este notório desafio estrutural dos clubes equacionarem dívidas de legado histórico, a Medida Provisória talvez represente o primeiro verdadeiro teste de estresse institucional do Sistema de Sustentabilidade Financeira do futebol brasileiro.

O problema regulatório que surge é sofisticado e traz consigo inevitáveis questionamentos:

  1. Como um sistema de Fair Play Financeiro deve tratar um clube que deixa de cumprir seus indicadores não exclusivamente por decisões de gestão, mas também em razão de choque regulatório superveniente?
  2. É razoável exigir que clubes cumpram exatamente o mesmo cronograma de transição concebido sob determinada estrutura de receitas quando o próprio Estado, durante essa transição, elimina abruptamente uma fonte relevante dessas receitas?

Esse raciocínio não é incompatível com o espírito do Fair Play Financeiro. Ao contrário.

A própria experiência internacional sugere que considerar esse tipo de circunstância, de externalidade negativa, não é incompatível com a disciplina financeira.

O regulamento de sustentabilidade financeira da UEFA, que aliás serviu junto com outros modelos de ligas europeias como benchmark para o modelo brasileiro, permite expressamente considerar eventos extraordinários fora do controle dos clubes, situações de força maior e mudanças relevantes e imprevisíveis no ambiente econômico, compatibilizando a preservação da obrigação material e, ao mesmo tempo, recalibrando o tempo regulatório.

Em outras palavras, a experiência da UEFA mostra que flexibilidade regulatória e disciplina financeira não são conceitos incompatíveis. A experiência europeia sugere que um sistema de Fair Play Financeiro maduro não é aquele que aplica regras de forma indiferente ao contexto, mas aquele que consegue preservar a disciplina financeira mesmo quando precisa adaptar temporalmente sua aplicação.

Flexibilizar o prazo não significa flexibilizar o objetivo. Não por outro motivo, parte dos clubes das Séries A e B apresentará ofício à CBF com um pedido formal de revisão do prazo de transição aplicável às obrigações anteriores a janeiro de 2026 (e somente destas obrigações).

O pleito não nasceu da atual ruptura no mercado de apostas. Ele já se apoiava em um problema estrutural, já ilustrados aqui, como o volume de passivos históricos, a inadimplência cruzada entre clubes e a assimetria entre o curto prazo de transição da solvência e os cronogramas mais longos previstos pelo próprio RSSF para outros pilares.

O que mudou agora é que esse problema estrutural passou a conviver também com um choque regulatório superveniente de grande impacto sobre as receitas do futebol.

A lógica do ofício é, portanto, bastante objetiva. Não se pede a exclusão das obrigações, nem o afastamento do regime de solvência, mas a extensão do período de transição do estoque anterior a 2026, para que sua regularização ocorra em horizonte temporal mais compatível com a realidade financeira do segmento.

Isso aproxima muito mais o pedido de uma lógica de phased compliance do que de waiver.

Portanto, o pedido busca preservar a responsabilidade financeira, mas evitar que passivos constituídos antes da existência do novo sistema sejam submetidos, em prazo extremamente curto, a todo o arsenal sancionatório do Fair Play Financeiro.

A mudança regulatória nas bets não cria esse argumento, mas o torna ainda mais relevante, porque afeta materialmente receitas, liquidez, capacidade de refinanciamento e o próprio processo de reorganização financeira dos clubes.

Exigir que todo esse estoque de dívidas históricas seja integralmente equacionado em um intervalo muito curto pode transformar uma regra de transição em um mecanismo de punição retrospectiva.

Esse recorte, na verdade, reduz o moral hazard em vez de aumentá-lo.

A título exemplificativo das potenciais consequências aos clubes brasileiros caso não seja acolhido o pedido de extensão temporal, vale trazer o caso do Málaga.

No início da década de 2010, o clube espanhol recebeu forte aporte de seu novo controlador, contratou jogadores como Van Nistelrooy, Isco e Júlio Baptista e construiu rapidamente um projeto esportivo capaz de levá-lo, pela primeira vez, à Champions League.

Na temporada 2012/13, chegou às quartas de final e esteve a minutos de eliminar o Borussia Dortmund.

Enquanto vivia seu auge dentro de campo, porém, a fonte de recursos secou. Vieram atrasos salariais, dívidas vencidas com outros clubes e obrigações fiscais.

Dentro desse cenário, há um detalhe regulatório especialmente relevante. Naquele momento, o requisito de equilíbrio financeiro da UEFA ainda estava em período de adaptação. Mas, a proibição de dívidas vencidas [solvência] já estava plenamente vigente.

E foi justamente por esse requisito de solvência que o Málaga acabou sancionado. A punição foi severa com a exclusão das próximas competições europeias para a qual se classificasse nas quatro temporadas subsequentes e multa de € 300 mil.

Privado das receitas e da exposição proporcionadas pelas competições europeias, o clube que acabara de chegar às quartas da Champions foi obrigado a vender seus principais jogadores, entrou em forte retração esportiva, caiu para a segunda divisão em 2018 e chegou à terceira divisão em 2023.

Agora transportemos essa experiência para o Brasil. Imagine um clube que conquiste dentro de campo uma vaga na Libertadores, mas seja impedido de disputá-la em razão de dívidas constituídas antes de janeiro de 2026, quando o novo Sistema de Sustentabilidade Financeira sequer estava em vigor.

A consequência poderia reproduzir a mesma dinâmica observada na Europa.

Além da perda esportiva, o clube deixaria de acessar premiações da CONMEBOL, receitas de bilheteria, direitos de transmissão, valorização de patrocínios, exposição internacional e outras receitas associadas à competição. Poderia ainda ser pressionado a vender jogadores ou reduzir investimentos para recompor seu caixa, tornando a própria sanção um novo fator de deterioração de sua capacidade financeira e, quiçá, desportiva com desdobramentos imprevisíveis.

Surge, então, um paradoxo que merece reflexão. Uma sanção concebida para proteger a sustentabilidade financeira pode, se aplicada abruptamente a passivos históricos, retirar do clube justamente os recursos que poderiam ajudá-lo a recuperar sua solvência.

Logo, a pergunta não é se a solvência deve ser levada a sério. Deve.

A pergunta é outra: a partir de quando é legítimo aplicar toda a potência das sanções de um novo regime sobre um estoque de obrigações que nasceu antes dele?

É esse equilíbrio, levando ainda em conta os significativos impactos nas receitas dos clubes, que pode permitir ao Fair Play Financeiro brasileiro combinar realismo na implementação com rigor para as novas decisões financeiras.

Sem o receio da repetição. Para dívidas assumidas depois de janeiro de 2026, a resposta deve ser clara: as regras estavam na mesa. O clube conhecia o sistema, conhecia suas obrigações e conhecia as consequências. Aqui, o rigor deve ser pleno.

Para o passivo anterior, entretanto, uma transição mais longa não representa leniência. Representa reconhecer que não é razoável tratar da mesma forma quem herdou uma obrigação de um regime anterior, transformando passivos históricos em sanções esportivas potencialmente irreversíveis, e quem contrai uma nova dívida sabendo exatamente quais serão suas consequências regulatórias.

O desafio está justamente em evitar que passivos históricos, formados antes do novo sistema, sejam convertidos em sanções esportivas potencialmente irreversíveis sem uma transição adequadamente calibrada.

Se a CBF for sensível ao pleito dos clubes e seguir o caminho sugerido, o episódio poderá produzir algo maior do que uma simples prorrogação de prazo. Poderá estabelecer a primeira doutrina brasileira sobre como o Fair Play Financeiro deve reagir a passivos históricos, choques regulatórios e mudanças extraordinárias do ambiente econômico sem perder sua força disciplinadora.

Porque um sistema regulatório maduro não é aquele que nunca flexibiliza. É aquele que sabe exatamente o que pode flexibilizar, por quanto tempo e, sobretudo, o que não pode flexibilizar.

Está lançado o verdadeiro teste de maturidade do Fair Play Financeiro brasileiro.

*David Figueiredo é Compliance Officer do Santos Futebol Clube, responsável pela coordenação do programa de compliance e fortalecimento de práticas de ética, integridade e transparência na gestão esportiva. Com experiência jurídica e foco em conformidade no futebol, atua também em iniciativas de fair play financeiro e governança institucional..
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O futebol das relações: a vantagem socioafetiva em um jogo cada vez mais móvel

Por: Nicolau Trevisani

Nos últimos anos, o debate sobre o jogo passou a utilizar com cada vez mais frequência o conceito de vantagem. Busca-se criar superioridade numérica, posicionar melhor os jogadores, encontrar vantagens qualitativas, explorar vantagens cinéticas e organizar espaços de maneira que a equipe possa progredir e controlar o adversário. Esse avanço na compreensão do futebol é importante. Quanto mais conseguimos nomear e interpretar aquilo que acontece no campo, mais ferramentas oferecemos ao treinador e aos próprios jogadores.

Entretanto, entre tantas formas de vantagem discutidas, existe uma que talvez seja menos visível no quadro tático e, justamente por isso, por vezes subestimada: a vantagem socioafetiva.

Ela nasce da relação. Do jogador que conhece o tempo do companheiro. Do atacante que inicia um movimento porque reconhece, antes mesmo do passe, a intenção de quem conduz a bola. Do meio-campista que ocupa determinado espaço sabendo que outro jogador interpretará sua movimentação. Da cobertura realizada não apenas porque aquele comportamento estava previsto pelo modelo, mas porque existe uma compreensão compartilhada sobre como aquele grupo joga.

É o futebol construído também a partir da familiaridade.

Em um momento em que se discute muito a ocupação racional dos espaços e a criação de vantagens posicionais, talvez seja necessário recordar que o jogo não acontece entre peças. Acontece entre pessoas. E pessoas constroem relações, reconhecem padrões umas nas outras, desenvolvem confiança e acumulam experiências compartilhadas.

Isso não significa diminuir a importância da estrutura. Tampouco significa estabelecer uma oposição simplista entre um futebol posicional e um futebol relacional. A estrutura continua sendo fundamental para oferecer referências, organizar comportamentos e aumentar a probabilidade de determinadas situações aparecerem. O ponto é outro: nenhuma estrutura consegue antecipar todas as respostas exigidas por um jogo essencialmente imprevisível.

É justamente nesse espaço entre aquilo que foi organizado pelo treinador e aquilo que precisa ser resolvido pelos jogadores que a vantagem socioafetiva ganha força.

Dois atletas que acumularam experiências juntos desenvolvem uma espécie de repertório compartilhado. Reconhecem velocidades, preferências, intenções e até pequenos sinais corporais. Sabem quando determinado companheiro prefere receber no pé ou atacar a profundidade; quando uma condução provavelmente terminará em passe; quando uma aproximação significa apoio ou quando significa arrastar um adversário para liberar outro espaço.

Essa informação não aparece necessariamente no desenho tático, mas interfere diretamente na velocidade e na qualidade das decisões.

E talvez essa dimensão esteja ganhando ainda mais importância porque o futebol contemporâneo parece caminhar para estruturas cada vez mais móveis. Trocas de posição, perseguições individuais, rotações, conduções que rompem linhas, ataques constantes ao espaço e referências defensivas menos estáticas fazem com que o cenário mude em poucos segundos.

Quanto menos estática é a ocupação dos espaços, maior é a necessidade de os jogadores compreenderem não apenas onde deveriam estar, mas também o que os outros provavelmente farão.

Nesse contexto, conhecer o companheiro passa a ser uma vantagem competitiva.

O passe já não depende somente de enxergar um espaço. Depende, muitas vezes, de acreditar que o companheiro também o enxergou. Uma ruptura pode acontecer não porque alguém recebeu uma instrução específica para realizá-la naquele instante, mas porque dois jogadores reconheceram simultaneamente uma possibilidade. A ação coletiva nasce, então, de uma leitura compartilhada.

É por isso que, em determinados momentos, o entrosamento consegue compensar até mesmo uma aparente desvantagem estrutural. Uma equipe pode não ocupar determinado espaço da maneira considerada ideal e ainda assim encontrar uma solução porque seus jogadores conseguem reorganizar a situação por meio das relações. Da mesma forma, uma equipe pode estar perfeitamente distribuída no campo e encontrar dificuldades se os atletas ocuparem posições corretas, mas não conseguirem jogar uns com os outros.

Talvez exista aqui uma distinção importante: o posicionamento organiza possibilidades; a relação transforma possibilidades em ações.

Isso também ajuda a explicar por que algumas associações entre jogadores parecem sobreviver a mudanças de sistema, treinador ou posição. Existem duplas, trios e pequenos núcleos de jogadores que encontram soluções com uma naturalidade difícil de reproduzir apenas por meio da prescrição. Não se trata de algo místico. Trata-se de informação acumulada pela convivência dentro do próprio jogo.

Para o treinador, essa discussão traz um desafio interessante. Se a vantagem socioafetiva nasce do conhecimento entre os indivíduos, como desenvolver relações sem transformar essas relações em movimentos previamente determinados?

Talvez a resposta esteja menos em ensinar sequências e mais em criar contextos. Colocar jogadores diante de problemas que precisem resolver juntos. Permitir que determinadas associações acumulem experiências. Organizar tarefas que preservem liberdade de decisão e, ao mesmo tempo, aproximem atletas cujas características possam se potencializar mutuamente.

Nesse sentido, treinar uma equipe não é somente distribuir funções. É também favorecer conexões.

Isso tem implicações inclusive na montagem de elenco. Nem sempre reunir individualmente os melhores jogadores disponíveis produz a melhor equipe possível. Características precisam conversar. Tempos precisam se encontrar. Jogadores precisam reconhecer no comportamento do outro possibilidades para manifestar as próprias virtudes.

A vantagem socioafetiva, portanto, não deve ser entendida como substituta das vantagens numérica, posicional, qualitativa ou cinética. Elas podem coexistir e se potencializar. Uma boa estrutura pode aproximar jogadores que se entendem; uma relação consolidada pode permitir que uma vantagem posicional seja percebida e explorada mais rapidamente; uma superioridade qualitativa pode se tornar ainda mais relevante quando o jogador que recebe a bola sabe antecipadamente como seu companheiro reagirá à jogada.

O erro talvez esteja em acreditar que organizar melhor o espaço torna menos importante organizar – ou permitir que se organizem – as relações.

Em um futebol cada vez mais móvel, no qual posições são frequentemente pontos de partida e não destinos permanentes, o conhecimento mútuo tende a adquirir ainda mais valor. Quando o cenário muda constantemente, a equipe precisa de referências. E algumas das referências mais poderosas podem estar justamente nos próprios companheiros.

O modelo de jogo continua tendo enorme importância. Os princípios continuam funcionando como uma linguagem comum. A organização posicional continua oferecendo referências fundamentais. Mas nenhuma dessas ferramentas deveria retirar do futebol aquilo que talvez seja uma de suas características mais fascinantes: são pessoas tentando resolver problemas junto com outras pessoas.

E, em um jogo cada vez mais móvel, talvez conhecer profundamente quem joga ao seu lado seja uma vantagem cada vez mais difícil de neutralizar.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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