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Quando o sonho de vencer começa a destruir quem sonha

Por: Tiago Corradine

Há uma pergunta que precisamos fazer com mais coragem: o que estamos fazendo com as crianças e os jovens em nome do esporte?

Os dois conteúdos que motivam esta reflexão expõem faces diferentes de um mesmo problema. De um lado, adultos que, nas arquibancadas, insultam, ameaçam, pressionam e transformam uma partida de futebol infantil em uma espécie de arena de sobrevivência emocional. De outro, treinadores e responsáveis que confundem autoridade com humilhação, disciplina com violência verbal e exigência com constrangimento.

Em ambos os casos, há uma criança ou um adolescente no centro, justamente quem deveria estar sendo protegido.

É preciso dizer o óbvio, embora o óbvio pareça cada vez mais esquecido: um treinador pode cobrar. Pode corrigir. Pode exigir compromisso, respeito, disciplina e concentração. Mas nenhum adulto, em hipótese alguma, tem o direito de humilhar uma criança para produzir desempenho. Gritos, xingamentos, ameaças e constrangimentos não são métodos de formação. São abusos de poder frequentemente disfarçados de “jeito de treinar”, “preparação para a vida” ou “necessidade de formar atletas fortes”.

Também não é aceitável que pais e outros adultos se comportem como se o resultado de uma partida justificasse qualquer atitude. Quando um responsável agride verbalmente um árbitro, hostiliza um adversário, ofende um treinador ou transforma o próprio filho em instrumento de sua frustração, não demonstra amor e respeito ao próximo, muito menos pelo esporte. Está ensinando que vencer, a qualquer custo, vale mais do que os processos de formação e aprendizados da vida.

E, quando ninguém intervém, o silêncio passa a funcionar como autorização.

A discussão sobre um cartão preto para afastar pais violentos pode ser importante por colocar o tema em evidência. Mas talvez o problema seja maior do que a cor de um cartão. Precisamos discutir quem educa, quem fiscaliza, quem denuncia e quem assume a responsabilidade de interromper comportamentos inadequados. Também precisamos compreender que a proteção das crianças não pode depender apenas da coragem ocasional de alguém. Ela deve fazer parte da cultura, das regras e das práticas de cada clube, escola, competição e família.

O esporte de formação não é uma versão reduzida do esporte profissional. Não é um mercado em miniatura. Não é uma vitrine para que adultos realizem seus sonhos interrompidos, conquistem prestígio ou obtenham retorno financeiro por meio do talento e do esforço de uma criança, ainda em processo de formação.

Ainda assim, muitas vezes é exatamente isso que acontece. A criança deixa de ser vista como criança e passa a ser tratada como promessa, ativo, investimento ou oportunidade. Seu corpo é controlado, sua rotina é ocupada, seus erros são expostos e suas emoções são ignoradas. Tudo em nome da performance e da rentabilidade que ela poderá proporcionar, se um dia chegar a ser um “jogador de futebol de sucesso”.

Mas o que é sucesso?

É chegar ao futebol profissional? É assinar um contrato? É ganhar dinheiro, títulos e visibilidade? É ser reconhecido por empresários, agentes, clubes e torcedores? Essas conquistas podem fazer parte de uma trajetória bem-sucedida, mas não deveriam ser o seu único critério.

Sucesso também deveria significar crescer com saúde, aprender a lidar com a frustração, construir autonomia, desenvolver responsabilidade, conviver com as diferenças e preservar a capacidade de sonhar sem ser destruído pela cobrança. Deveria significar tornar-se um adulto inteiro e não apenas um atleta rentável.

Porque pode haver uma carreira vitoriosa construída sobre uma infância adoecida. Pode haver um jogador tecnicamente excelente, mas emocionalmente fragilizado. Pode haver medalhas, contratos e troféus onde deveriam existir respeito, segurança e vínculos de confiança.

Nenhuma carreira esportiva compensa a perda da dignidade.

Nenhum resultado justifica o medo permanente de errar. Nenhuma promessa de futuro autoriza a violência no presente. E nenhum talento transforma uma criança em propriedade de quem a acompanha, treina, agencia ou sustenta.

O caminho para formar um jogador de futebol de sucesso não passa pela permissividade, mas tampouco passa pelo abuso. Passa por ambientes seguros, profissionais preparados, limites claros, comunicação respeitosa, acompanhamento psicológico, participação responsável da família e uma compreensão adequada do desenvolvimento infantil e juvenil. Passa, sobretudo, pela capacidade de reconhecer que cada fase da vida tem seu tempo e que acelerar a infância em nome de uma carreira pode significar comprometer justamente o futuro que se pretende alcançar.

É necessário proteger as crianças também daqueles que dizem agir “pelo bem delas”. Muitas violências chegam acompanhadas de boas intenções. O pai que afirma estar apenas cobrando. O treinador que diz estar preparando o jovem para o mundo. O empresário que justifica a pressão como parte do negócio. O dirigente que prefere não criar problemas. O espectador que vê, ouve e permanece calado.

A responsabilidade é coletiva, mas não é abstrata. Cada adulto precisa perguntar qual é o seu papel quando uma criança é ofendida, exposta ou submetida a uma pressão desproporcional. Quem presencia e não reage ajuda a normalizar. Quem normaliza ajuda a perpetuar. E quem perpetua participa da construção do ambiente em que essas crianças estão crescendo.

Que sociedade estamos construindo para as próximas gerações?

Uma sociedade em que a competência vale mais do que o caráter? Em que o resultado absolve a violência? Em que crianças são estimuladas a suportar tudo para provar que merecem uma oportunidade? Em que o fracasso é tratado como vergonha e o adulto se sente autorizado a ferir porque acredita estar investindo?

Ou uma sociedade capaz de compreender que formar pessoas é mais importante do que fabricar vencedores?

O esporte tem uma força educativa extraordinária. Pode ensinar disciplina, cooperação, persistência, respeito e responsabilidade. Pode ajudar uma criança a conhecer seus limites, superar dificuldades e descobrir possibilidades. Mas isso só acontece quando os adultos entendem que o principal objetivo não é controlar o sonho da criança e sim cuidar para que ela possa vivê-lo com liberdade, segurança e dignidade.

Antes de perguntar quantos gols um jovem marcou, deveríamos perguntar como ele está sendo tratado. Antes de avaliar seu potencial de mercado, deveríamos saber se ele está feliz, protegido e aprendendo. Antes de celebrar o atleta que ele pode se tornar, deveríamos nos comprometer com o ser humano que ele já é.

No fim, talvez a medida mais importante do sucesso não esteja no número de contratos assinados, mas na pessoa que permanece quando as luzes se apagam, os jogos terminam e os aplausos cessam.

Que ela seja capaz de olhar para a própria história sem precisar justificar as feridas como preço da vitória.

Porque formar um jogador pode ser uma conquista. Formar um ser humano, entretanto, é uma responsabilidade muito maior.

E nenhuma sociedade deveria aceitar que uma criança precise perder a infância para provar que merece vencer.

O JOGO É OUTRO!

Fontes que motivaram essa reflexão:

– Reel do perfil @vamoq.vamo no Instagram: https://www.instagram.com/reel/DdMzMdgTWA9/

– “Cartão preto para os pais? Talvez. Mas não é por aí que passa a solução”, de Vitor Santos  “Educar o sonho”: https://lnkd.in/p/dYzGwf6M

Tiago Corradine é Graduado em educação física pela UNICAMP, enxerga o futebol como ferramenta de transformação social e atua como nexialista — construindo pontes entre performance e formação humana. Com passagens por EUA, Espanha e Coreia do Sul, é especialista em desenvolvimento de atletas antifrágeis, gestão de escolas de futebol e consultoria para o Certificado de Clube Formador (FPF).
Linkedin: https://br.linkedin.com/in/tiago-corradine-3b19a884

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O Serviço Social na formação de atletas: o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) como instrumento de formação integral no futebol de base

Por: Fernando Martillis

O futebol ocupa lugar significativo na sociedade brasileira, constituindo-se não apenas como prática esportiva, mas também como espaço de construção de identidades, pertencimento e expectativas de mobilidade social. Para milhares de crianças e adolescentes, a possibilidade de ingresso nas categorias de base de um clube representa a concretização de um projeto que envolve sonhos individuais e, frequentemente, expectativas de suas famílias.

Esse processo, entretanto, é atravessado por importantes contradições. Embora as categorias de base tenham como finalidade a formação de atletas, seus processos institucionais permanecem fortemente orientados pela lógica do alto rendimento. Jovens jogadores convivem desde cedo com avaliações constantes, competitividade, cobranças por desempenho e incertezas quanto à permanência nos clubes e à possibilidade de profissionalização.

Ao mesmo tempo, chegam às instituições trazendo consigo trajetórias sociais diversas. Dificuldades financeiras, fragilização de vínculos familiares, afastamento precoce da família, defasagem escolar, situações de violência, condições precárias de moradia e demandas relacionadas à saúde mental são alguns dos elementos que podem atravessar a experiência de formação esportiva.

Compreender essas dimensões significa reconhecer que a formação de um atleta não ocorre exclusivamente dentro do campo. Desenvolvimento esportivo e desenvolvimento humano constituem processos relacionados, tornando necessária uma concepção de formação que considere adolescentes e jovens atletas como sujeitos de direitos e pessoas em processo de desenvolvimento. É nesse contexto que se insere a atuação do Serviço Social nas categorias de base.

Serviço Social e formação integral no futebol

O Serviço Social enquanto profissão possui como campo de intervenção as diferentes expressões da questão social e, no ambiente esportivo, pode contribuir para identificar e acompanhar situações que ultrapassam a dimensão estritamente esportiva. A atuação envolve a aproximação com atletas e famílias, acompanhamento educacional e social, fortalecimento de vínculos, articulação com redes de proteção e participação em processos interdisciplinares.

Essa perspectiva encontra respaldo no princípio da proteção integral de crianças e adolescentes estabelecido pela legislação brasileira e nas próprias transformações recentes relacionadas à formação esportiva. A Lei Geral do Esporte e as exigências destinadas aos clubes formadores reforçam que a formação de atletas deve contemplar condições adequadas de desenvolvimento educacional, social, físico e psicológico.

Nesse sentido, a presença de diferentes áreas profissionais nas categorias de base não deve representar apenas uma ampliação quantitativa das equipes. A interdisciplinaridade pressupõe capacidade de produzir leituras complementares sobre o processo de desenvolvimento do atleta e de construir estratégias integradas de acompanhamento.

No âmbito das categorias de base do Ceará Sporting Club, esse processo ganhou maior estruturação a partir de 2019. Em 2021, houve o fortalecimento das áreas de Serviço Social e Psicologia com a incorporação de novos profissionais e, em 2025, a inclusão de profissional da Pedagogia. Essa configuração ampliou as possibilidades de acompanhamento dos atletas e contribuiu para consolidar uma perspectiva de formação que busca articular desempenho esportivo, proteção social e desenvolvimento humano.

Foi a partir dessa experiência profissional e das demandas identificadas no cotidiano institucional que surgiu o Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva (IVS).

A construção do IVS

A atuação cotidiana do Serviço Social permite reunir uma quantidade significativa de informações sobre a trajetória dos atletas. Entrevistas, atendimentos, contato com familiares, acompanhamento escolar e articulação com outros profissionais possibilitam identificar situações que podem representar riscos ou fatores de proteção durante o processo de formação.

O desafio estava em sistematizar essas informações.

No ambiente do futebol, caracterizado por grande circulação de informações e necessidade constante de tomada de decisões, registros fragmentados podem dificultar tanto o acompanhamento longitudinal dos atletas quanto a comunicação interdisciplinar.

O IVS foi desenvolvido como um instrumento técnico-metodológico destinado a auxiliar essa sistematização. Sua finalidade é identificar fatores de risco e proteção presentes na trajetória dos atletas, permitindo ao Serviço Social organizar informações, estabelecer prioridades de acompanhamento e construir estratégias de intervenção.

Sua utilização não substitui o estudo social, a entrevista ou a análise profissional. Pelo contrário, o índice é construído a partir desses procedimentos e somente adquire sentido quando interpretado dentro da realidade concreta de cada atleta.

Metodologicamente, sua construção decorreu da experiência profissional desenvolvida nas categorias de base do Ceará Sporting Club, da observação sistemática das demandas recorrentes e do acompanhamento das dimensões sociais, familiares, emocionais e educacionais presentes na trajetória dos jovens atletas.

A aplicação ocorre após estudo social realizado por meio de entrevista individual conduzida pelo assistente social. Nesse momento, são levantadas informações sobre a trajetória do atleta, suas relações familiares, condições socioeconômicas, experiência educacional, condições de moradia, histórico esportivo e outras questões relacionadas ao processo de formação.

As informações são posteriormente inseridas em formulário eletrônico e sistematizadas em planilha, permitindo a composição do índice e o acompanhamento das situações identificadas.

As sete dimensões do IVS

O Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva está organizado em sete eixos:

  1. condição inicial de alojamento;
  2. estudo e escolaridade;
  3. situação financeira familiar;
  4. participação e vínculos familiares;
  5. saúde e saúde mental;
  6. condições de moradia;
  7. formação de base.

Cada eixo reúne indicadores relacionados a situações específicas da trajetória do atleta.

Na condição de alojamento, são observados aspectos relacionados ao afastamento familiar, adaptação institucional e integração social. No campo educacional, consideram-se frequência, desempenho, possíveis defasagens e relação do jovem com sua trajetória escolar.

A situação financeira permite compreender aspectos socioeconômicos que podem afetar o atleta e sua família, enquanto o eixo referente aos vínculos familiares considera presença, acompanhamento e qualidade das relações estabelecidas.

Saúde e saúde mental abrangem elementos relacionados ao bem-estar emocional, possíveis situações de sofrimento psicológico e aspectos comportamentais identificados durante o acompanhamento. As condições de moradia permitem observar características estruturais e territoriais, incluindo situações de vulnerabilidade e exposição à violência.

Por fim, a formação de base considera a trajetória esportiva anterior, experiências em outros clubes e aspectos relacionados à adaptação e ao desenvolvimento esportivo.

Os indicadores recebem pontuações de acordo com fatores de risco e proteção identificados. Enquanto determinadas situações aumentam o índice de vulnerabilidade, fatores protetivos podem reduzi-lo. O resultado permite classificar a situação acompanhada em quatro níveis: sem risco, risco leve, risco moderado e risco grave.

Essa classificação não pretende rotular o atleta ou produzir qualquer avaliação sobre seu potencial esportivo. Sua finalidade é exclusivamente subsidiar o acompanhamento social, contribuindo para estabelecer prioridades e identificar situações que necessitam de maior atenção.

Da identificação à intervenção

A principal contribuição do IVS não está na produção de uma pontuação, mas na possibilidade de transformar informações sociais em estratégias de acompanhamento.

A identificação precoce de vulnerabilidades permite que determinadas situações sejam abordadas antes de seu agravamento. Dependendo das necessidades identificadas, podem ser construídas estratégias envolvendo aproximação com familiares, acompanhamento escolar, encaminhamentos para serviços, fortalecimento de vínculos ou articulação com outros profissionais da instituição.

O instrumento também favorece a comunicação interdisciplinar. Serviço Social, Psicologia, Pedagogia, departamento médico, comissão técnica e gestão observam o atleta a partir de lugares profissionais distintos. A sistematização das informações sociais pode contribuir para que essas diferentes leituras dialoguem, respeitando os limites éticos e o sigilo das informações profissionais.

Outro aspecto relevante é a possibilidade de acompanhamento longitudinal. As condições sociais não são estáticas. Um atleta pode apresentar alterações importantes em sua realidade familiar, econômica, educacional ou emocional ao longo de sua permanência no clube. Por isso, o IVS não deve ser compreendido como fotografia definitiva da situação social, mas como instrumento inserido em um processo contínuo de acompanhamento.

Formação esportiva e desenvolvimento humano

A experiência de construção e aplicação do IVS reforça uma questão central: as condições de desenvolvimento esportivo não podem ser completamente dissociadas das condições sociais, familiares, educacionais e emocionais vivenciadas pelos atletas.

Um adolescente que deixa sua família para morar em um alojamento, por exemplo, não vivencia apenas uma mudança relacionada ao futebol. Ele passa por um processo de reorganização de vínculos, adaptação a uma nova rotina, construção de autonomia e convivência com expectativas sobre seu futuro.

Da mesma forma, dificuldades financeiras, defasagens educacionais, fragilidade dos vínculos familiares, exposição à violência ou sofrimento emocional não desaparecem quando o atleta entra em campo.

Reconhecer essas questões não significa estabelecer uma relação automática entre vulnerabilidade social e desempenho esportivo. Significa compreender que o atleta é um sujeito constituído por múltiplas dimensões e que um projeto de formação comprometido com o desenvolvimento humano precisa considerá-las.

É justamente nesse ponto que o Serviço Social pode oferecer uma contribuição específica ao futebol. Sua atuação permite inserir no processo institucional elementos relacionados às condições concretas de vida dos atletas, aos seus vínculos, à garantia de direitos e às redes sociais que os cercam.

O IVS constitui uma tentativa de transformar essa perspectiva em instrumento de trabalho.

Considerações finais

A formação de atletas no futebol brasileiro exige uma compreensão que ultrapasse a dimensão técnico-esportiva. Crianças, adolescentes e jovens inseridos nas categorias de base vivenciam simultaneamente processos esportivos, educacionais, familiares, sociais e emocionais que interferem em suas trajetórias.

Nesse contexto, o Serviço Social pode contribuir para a construção de práticas institucionais orientadas pela proteção social, fortalecimento de vínculos, promoção de direitos e acompanhamento das diferentes vulnerabilidades presentes no processo de formação.

A experiência de desenvolvimento do Índice de Vulnerabilidade Social para a formação esportiva demonstra a possibilidade de construir instrumentos específicos para a realidade do futebol, capazes de sistematizar informações, identificar precocemente situações de risco e subsidiar estratégias individualizadas de acompanhamento.

O IVS não deve ser compreendido como instrumento acabado. Trata-se de uma experiência construída em um contexto institucional específico, que necessita de avaliação contínua, aperfeiçoamento e futuras possibilidades de aplicação e validação em outras realidades esportivas.

Mais do que propor uma forma de mensurar vulnerabilidades, sua construção reafirma uma determinada concepção de formação.

Se o futebol dispõe atualmente de inúmeros instrumentos para avaliar o desenvolvimento físico, técnico, tático e esportivo de seus atletas, ampliar a capacidade de compreender suas condições sociais e humanas também deve fazer parte do processo formativo.

Uma formação esportiva comprometida com proteção integral e desenvolvimento humano demanda práticas institucionais interdisciplinares capazes de reconhecer adolescentes e jovens atletas como sujeitos de direitos em processo de formação social, educacional e humana.

Leia o artigo na integra aqui: https://docs.google.com/document/d/1TmZjcFGH16g-zZchJJlEC3s-OZiiBt1b/edit?usp=sharing&ouid=115013131826141164964&rtpof=true&sd=true

Fernando Martillis Assistente Social no Ceará Sporting Club. Mestre em Serviço Social (UECE). Pós-graduado em Didática do Ensino Superior e em Juventude no Mundo Contemporâneo. Graduado em Serviço Social pela UECE.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/fernandomartilis/

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O mapa do futebol está mudando

Por: Marcel Capretz

O mapa do futebol brasileiro está mudando. O que se consolidou na década de 60 com o que chegamos até aqui com os ‘doze’ clubes grandes do Brasil está se alterando na década atual.

Relembre que foi nos anos 60, por exemplo, que o Santos de Pelé se juntou ao trio de ferro da capital de São Paulo; que o Cruzeiro desbancou o América-MG e se consolidou como o grande rival do Atlético… Porém depois de quase setenta anos, com globalização, SAFs, mult-clubes e afins essa divisão ficou defasada.

Surgem outras variáveis que impactam muito mais no resultado final do que simplesmente o ‘peso’ da camisa, o histórico de títulos e até o número de torcedores. Como exemplo concreto: Bahia e Bragantino com seus modelos de gestão se consolidam como times de primeira divisão e que sempre brigam por vagas em competições internacionais.

Do outro lado, um Vasco da Gama, com uma torcida incrível, gigante e fanática, lutando praticamente todo ano para não cair para a segunda divisão. E se pegarmos os exemplos de Grêmio e Internacional veremos que o buraco é muito mais embaixo. Não é por acaso que o último grande título de um deles foi a Libertadores de 2017 com o Grêmio. Quase dez anos atrás… além de não terem torcidas nacionais, de faturarem menos em todos os aspectos do que os times da região Sudeste, eles ainda tem uma logística complicadíssima, por estarem no extremo do sul de um país continental. Aquela falta de descanso por uma viagem mais longa representa aquele um ponto que falta pra ganhar um campeonato de pontos corridos ou até para evitar um rebaixamento.

Entender que o futebol é algo dentro da sociedade e que ela tem mudado de maneira muito rápida nos dá a humildade de reconhecer que o futuro ainda não é algo totalmente nítido. Mas já está claro que aquele mapa dos anos 60 envolvendo doze clubes grandes não cabe mais nos dias de hoje…

Marcel Capretz é radialista e jornalista formado pela Universidade Mackenzie e pós-graduado pela Fundação Cásper Líbero. Atualmente, é apresentador do programa Futebol Esporte Show do SBT Sorocaba e comentarista da Rádio 105 FM de São Paulo.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcel-capretz-16427ba7/

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A CRIANÇA NO SEU TERRIÓRIO

um ambiente possivel para a infancia

Por: Thiago Filla de Almeida e Danilo Augusto Ribeiro

Temos pensado muito sobre o lugar que a criança ocupa dentro do esporte. Quanto mais tempo passamos nesse ambiente, mais nos convencemos de que precisamos fazer algumas perguntas que parecem simples, mas que talvez tenhamos deixado de fazer: para quem estamos fazendo esporte? Quem é a criança que está na prática esportiva? A criança que faz esporte hoje carregará quais valores para sua vida em sociedade?

Estas perguntas ganharam ainda mais sentido recentemente, quando um pai de uma categoria menor (de sub 6 a 13) questiona sobre resultados. A pergunta, por si só, é legítima. Os pais têm o direito de conhecer o projeto, saber como seus filhos estão sendo cuidados, quais são os objetivos da equipe e como a competição faz parte daquele processo. Mas aquela conversa levou a reflexão sobre até onde vai o papel dos pais e onde começa a responsabilidade dos demais adultos envolvidos no desenvolvimento esportivo de uma criança. Como estamos lidando com as expectativas parentais? Como nós, enquanto profissionais responsáveis por conduzir o processo esportivo, estamos nos posicionando frente aos questionamentos?

Pais têm um papel fundamental. São, muitas vezes, a principal referência daquela criança. São quem leva, busca, acompanha, incentiva, consola e comemora. Mas justamente por serem tão importantes, precisamos ajudá-los a compreender que ser pai ou mãe no esporte não significa ser treinador, dirigente, árbitro ou avaliador do próprio filho. Talvez o papel mais importante seja estar presente para que a criança possa ganhar sem se sentir superior, perder sem se sentir fracassada, errar sem sentir que decepcionou e, principalmente, praticar esporte sabendo que continuará sendo amada independentemente do resultado. Estamos preparados e temos consciência dos impactos que nossa conduta pode causar nas crianças?

Temos observado famílias reorganizando suas vidas inteiras em função da prática esportiva dos filhos. Pais que dividem a família para levar um menino para treinar em outra cidade; filhos muitas vezes morando longe da família, com terceiros, em busca de uma carreira esportiva incerta; crianças com agendas tomadas por treinos, jogos, viagens, campeonatos e avaliações, acompanhadas de uma expectativa cada vez mais precoce: “vai que ele vira jogador”. A lei geral do esporte (2023) e o Fifa Guardians (2026) são documentos que esclarecerão diferentes pontos sobre estas questões.

Mas e se ele só quiser jogar?

Não há nada de errado em uma criança sonhar em ser atleta. O problema começa quando o sonho deixa de ser dela e passa a ser dos adultos. Quando cada treino vira avaliação, cada jogo vira julgamento e cada resultado passa a ser uma medida do seu valor. O esporte, que deveria ampliar suas experiências, começa a ocupar toda a infância.

Também precisamos olhar para a agenda dessa criança. Ela realmente precisa de mais um treino? De personal? De academia? De atendimento individualizado? Precisa ocupar todos os espaços possíveis para não ficar “para trás”? Ou precisa de tempo para brincar, descansar, estar com a família, conviver com os amigos e simplesmente não fazer nada? Inúmeras pesquisas apontam diferentes fatores negativos quando se especializa precocemente uma criança. Para o professor Wilton Santana estamos num ponto de hiperespecialização precoce.

Fazer menos também pode fazer parte do processo de formação

Quando procuramos um engenheiro para construir uma obra, confiamos que ele sabe quanto de ferro, cimento e estrutura são necessários para que ela permaneça de pé. Quando vamos ao médico ou ao dentista, confiamos em sua formação e em seu conhecimento para orientar aquilo que precisa ser feito. Por que, quando colocamos nossos filhos em um projeto esportivo, tantas vezes temos dificuldade em confiar no profissional que estudou para trabalhar com movimento, esporte, aprendizagem e desenvolvimento?

É claro que os pais devem perguntar, acompanhar e participar. Mas precisamos recuperar uma relação que parece estar se perdendo: a confiança no conhecimento de quem conduz o processo. Perguntas aos gestores esportivos: como está sua relação com os pais/responsáveis pelas crianças que estão frequentando o seu projeto de Futebol/Futsal? Você faz reunião no início do semestre para apresentar as diretrizes metodológicas? Você promove encontros para apresentar e discutir o calendário e/ou possíveis competições a participar? O seu processo de desenvolvimento contempla encontros individuais com os pais que estão interessados em saber sobre o desenvolvimento do filho?

Se um professor permite que uma criança brinque, precisamos perguntar, antes de concluir que ele não está treinando. Se uma equipe perde uma partida, precisamos perguntar, antes de concluir que o trabalho está errado. Nem toda decisão pedagógica precisa coincidir com aquilo que o adulto gostaria. Estamos permitindo em nosso ambiente (interno e externo) que criança seja ela mesma?

É nesse ponto que precisamos falar do direito de brincar. João Batista Freire, Alcides Scaglia, Wilton Carlos de Santana e Carlos Rogério Thiengo, a partir de diferentes contribuições, nos ajudam a compreender o jogo como espaço de aprendizagem, criatividade, decisão, experimentação e autonomia.

Defender o lúdico não significa defender uma prática sem intenção pedagógica. Pelo contrário. Exige conhecimento, planejamento e uma concepção clara de infância. Brincar não é o oposto de aprender. Para a criança, jogar é perceber, decidir, errar, tentar novamente, criar e encontrar soluções. A criança vive plenamente o brincar, sem perceber o mundo à sua volta. Apenas sente e vive.

Recentemente, um aluno de licenciatura que participou de uma aula que estava participando de um curso relatou que estava tentando construir um ambiente mais lúdico, mas não conseguia sustentar essa posição dentro do projeto em que trabalhava. Isso me fez pensar: quando um professor decide defender a infância, quem sustenta esse professor? Qual é o seu propósito? Quais as referências que o guiam nessa caminho de “múltiplos” treinadores de futebol/futsal de arquibancada?

Não precisamos ser contra a competição. A competição também educa. Ensina a lidar com a vitória, a derrota, a frustração, as regras e as adversidades. Perder um jogo não é um erro pedagógico. O problema aparece quando a competição deixa de ser parte da experiência esportiva e passa a ser a finalidade da infância.

E precisamos falar sobre o erro. O jogador erra. O professor erra. O árbitro erra. Todos nós erramos. Como queremos formar jogadores criativos se não permitimos que experimentem? Como queremos ensinar autonomia se controlamos todas as decisões? E como queremos que uma criança aprenda a lidar com a frustração se os adultos não conseguem lidar com a frustração de vê-la errar? O ambiente criado pelo professor e pelo entorno esportivo deve encontrar as vontades da criança, e não afastá-las.

O recente episódio ocorrido em Santa Catarina, no qual um pai fez disparos contra o carro de árbitros, após discordar de uma decisão em uma partida de futsal infantil, nos obriga a parar. Não para transformar aquele caso em espetáculo, mas para perguntar: o que mais precisa acontecer para que decidamos agir? No carro dos árbitros poderiam estar seus filhos, também de 10 anos.

A violência extrema talvez seja a face mais visível de algo que começa muito antes: no grito, na humilhação, na desqualificação do árbitro, na cobrança excessiva e na ideia de que uma criança precisa vencer para justificar o investimento dos adultos.

Por isso, esse manifesto é principalmente aos pais.

Sejam apenas pais!

Perguntem ao filho se gostou do treino. Perguntem o que aprendeu. Perguntem se está feliz. Ou não perguntem nada, deixem que eles falem, se quiserem falar, e qualquer outra coisa. Estejam presentes quando ganhar e, mas também quando perder. Não transformem o caminho para casa depois de um jogo em um outro jogo. Não comparem seu filho com outra criança. Não preencham toda a agenda porque outro menino está fazendo mais. Conheçam o projeto, conversem com o professor e confiem no processo.

Seu filho não precisa que Você, seja também o treinador.

Ele precisa que você seja seu pai.

Não precisa que você explique cada erro depois do jogo. Precisa saber que pode contar com você depois dele. Não precisa que você resolva todas as suas dificuldades. Precisa aprender a enfrentá-las. Não precisa ganhar para fazer você feliz. Precisa saber que continuará sendo motivo de orgulho mesmo quando perder. Seja um bom ouvinte.

Aos professores, cabe defender o brincar com conhecimento e coragem. Aos gestores, construir uma cultura em que formação não seja apenas sinônimo de resultado. Às federações e organizadores, pensar competições que respeitem as diferentes etapas da infância. À arbitragem, compreender que, em uma quadra de crianças, o erro também faz parte do processo educativo. De punitiva já basta uma sociedade contraditória, quando não, hipócrita. A arbitragem deverá ser sempre educativa.

Todos somos agentes socializadores. Todos educamos pelas nossas atitudes.

Talvez seja hora de mudarmos algumas perguntas. Em vez de perguntar apenas “quem ganhou?”, perguntar “o que essa experiência produziu naquela criança?”. Em vez de perguntar “ele joga bem?”, perguntar se “ele continua gostando de jogar?”. Em vez de perguntar “ele tem futuro?”, perguntar se “está vivendo bem o presente?”. E, antes de perguntarmos que atleta queremos formar, perguntar que criança estamos ajudando a formar?

É por isso que defendemos uma ideia que consideramos cada vez mais necessária:

O TERRITÓRIO DA CRIANÇA.

Uma criança que possa brincar, experimentar, competir, errar, aprender, descansar, criar, conviver e sonhar. Que possa querer ser atleta, mas que não precise deixar de ser criança para tentar chegar lá.

O esporte pode ser um lugar de excelência sem deixar de ser um lugar de infância. Pode ensinar disciplina sem produzir medo, competição sem transformar adversários em inimigos e formar atletas sem deixar de formar pessoas.

Não permitamos que a pressa dos adultos roube o tempo da infância.

Porque a criança não precisa de uma infância mais produtiva.

Precisa de uma infância mais plena.

E talvez a pergunta que devêssemos levar para dentro dos clubes, associações, federações, escolas, universidades e arquibancadas seja:

O que mais precisa acontecer para que nós, adultos, decidamos finalmente respeitar a infância?

Referências

FREIRE, João Batista. Pedagogia do Futebol.

SCAGLIA, Alcides José. Pedagogia do Jogo.

SANTANA, Wilton Carlos de. Pedagogia do Futsal: jogar para aprender.

THIENGO, Carlos Rogério. Estudos sobre formação e currículo no futebol.

RIBEIRO, Danilo Augusto. Estudos relacionados à pedagogia, formação e esporte.

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

Danillo Augusto Ribeiro é Profissional de Educação Física com mais de 15 anos de experiência no ensino-treino de Futsal para crianças e jovens. Foi professor universitário na Universidade Norte do Paraná e coordenador técnico-metodológico da iniciação esportiva no Club Athletico Paranaense e no Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua como Analista Esportivo no Instituto Futebol de Rua, além de prestar consultoria em estruturação e reestruturação de processos em clubes, escolas e associações de futebol e futsal.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/danilo-augusto-ribeiro-0410321a3/