Por: Nicolau Trevisani
Uma das características mais fascinantes do futebol é sua capacidade de produzir respostas para os próprios problemas que cria. Quando determinada forma de jogar passa a gerar vantagem de maneira consistente, o jogo tende a construir mecanismos para neutralizá-la. É justamente desse processo que surgem alguns dos principais movimentos de evolução tática observados ao longo da história.
Ao longo dos últimos anos, o futebol viveu um período de enorme valorização do jogo posicional. A ocupação racional dos espaços, a busca por superioridades e a organização estrutural das equipes trouxeram contribuições importantes para a evolução ofensiva do jogo.
A partir desses princípios, muitas equipes passaram a encontrar vantagens contra sistemas defensivos organizados predominantemente através da marcação por zona. Mas, como frequentemente acontece na evolução do futebol, o próprio jogo produziu respostas.
Uma das principais foi o crescimento dos encaixes individuais, das perseguições e das referências homem a homem em diferentes setores do campo. Ao reduzir tempo e espaço para a circulação, essas estruturas passaram a dificultar parte das vantagens tradicionalmente associadas ao jogo posicional.
E talvez seja justamente nesse ponto que a Copa do Mundo de 2026 esteja reforçando uma tendência interessante.
Mais do que uma oposição entre jogo posicional e jogo direto, o torneio parece evidenciar uma crescente valorização da profundidade, dos duelos e da capacidade de gerar vantagem em campo aberto.
Se as formas de defender mudam, as formas de gerar vantagem também mudam.
Nesse contexto, três formas de vantagem parecem ganhar importância: a vantagem cinética, a vantagem socioafetiva e a vantagem qualitativa.
A vantagem cinética está relacionada à capacidade de gerar superioridade através do movimento. A vantagem socioafetiva refere-se à capacidade que dois ou mais jogadores possuem de construir relações funcionais dentro do jogo. Já a vantagem qualitativa refere-se à capacidade de um atleta superar diretamente seu oponente através de sua qualidade técnica, física, cognitiva ou decisional.
Talvez essa seja uma das mensagens mais interessantes que a Copa do Mundo de 2026 esteja reforçando.
Ao longo dos últimos anos, o jogo posicional produziu enormes avanços na forma como as equipes ocupam espaços, constroem ataques e criam superioridades. Como resposta, observamos um crescimento progressivo das marcações individuais, dos encaixes e das perseguições como forma de reduzir parte dessas vantagens.
E toda mudança na forma de defender acaba produzindo mudanças na forma de atacar.
Nesse contexto, a exploração da profundidade, dos espaços amplos e das situações de campo aberto parece ganhar cada vez mais importância.
Quando a circulação encontra menos tempo e espaço para acontecer, passa a ser ainda mais valioso possuir jogadores capazes de acelerar ações, atacar espaços, produzir desequilíbrios e vencer confrontos diretos.
Sob essa perspectiva, a Copa do Mundo de 2026 parece reforçar uma tendência já observada em diferentes contextos competitivos: a geração de vantagem volta a depender, com maior frequência, da capacidade de explorar profundidade, acelerar relações, vencer confrontos individuais e transformar campo aberto em oportunidade.
Isso não significa que o jogo posicional tenha perdido validade ou deixado de ser uma ferramenta fundamental para a construção ofensiva das equipes. Muito pelo contrário.
O futebol parece viver mais um de seus movimentos de adaptação. Assim como o jogo posicional surgiu como uma resposta eficiente a determinados comportamentos defensivos, o crescimento dos encaixes individuais e das perseguições parece estar valorizando novamente mecanismos capazes de gerar vantagem em contextos de maior velocidade, maior exposição espacial e maior frequência de duelos.
Talvez não estejamos observando o abandono de uma forma de jogar, mas sim uma nova resposta tática dentro da evolução natural do jogo.
Mais do que discutir qual modelo é melhor, talvez o desafio seja compreender como o jogo continua produzindo respostas para os problemas que ele próprio cria.
Porque, no fim, a evolução do futebol talvez não aconteça pela substituição de ideias, mas pela constante adaptação entre formas de atacar, formas de defender e formas de gerar vantagem.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/