Por: Nicolau Trevisani
Durante a Copa do Mundo, duas falas de Lionel Scaloni me chamaram atenção. Ao comentar sobre Lionel Messi, o treinador argentino afirmou que o camisa 10 possui liberdade para interpretar o jogo da forma que considerar mais adequada e que cabe à equipe adaptar-se aos seus movimentos. Em outro momento, ao falar sobre sua utilização, reforçou uma ideia semelhante: quando um jogador dessa capacidade está em campo, o mais importante é potencializar aquilo que ele faz de melhor.
Naturalmente, estamos falando de Messi. Mas aquelas declarações me fizeram pensar em uma questão que talvez vá muito além de um jogador específico.
Quem deve ocupar o centro do processo no futebol: o treinador ou os jogadores?
Nos últimos anos, evoluímos muito na forma de compreender o jogo. Nunca estudamos tanto futebol. Modelos de jogo, princípios táticos, análise de desempenho, tecnologia e metodologias de treinamento elevaram significativamente o nível das discussões e contribuíram para a evolução do esporte.
Ao mesmo tempo, talvez esse avanço tenha produzido um efeito colateral.
Em alguns momentos, parece que passamos a acreditar que o treinador é capaz de controlar praticamente tudo o que acontece dentro de campo. Como se todas as decisões pudessem ser previstas, organizadas e treinadas antes mesmo de a bola rolar.
Particularmente, penso diferente.
Não porque o treinador seja menos importante. Pelo contrário. Talvez sua função nunca tenha sido tão relevante.
Ao estudar Lev Vygotsky, encontramos uma ideia interessante. Para ele, o papel do mediador não é oferecer respostas prontas, mas criar condições para que o outro desenvolva sua capacidade de interpretar situações e resolver problemas. Talvez possamos olhar para o treinador da mesma forma.
O treinador não joga. Quem percebe os espaços, interpreta os adversários, toma decisões e resolve os problemas que surgem durante a partida são os jogadores.
Talvez, por isso, sua principal função não seja controlar todas as ações da equipe, mas construir um contexto onde essas decisões possam acontecer da melhor forma possível.
É isso que, provisoriamente, tenho chamado de jogadorcentrismo.
Não se trata de defender um futebol sem organização ou sem modelo de jogo. Muito pelo contrário. Quanto melhor for o modelo de jogo, mais condições ele deve criar para que os jogadores expressem suas qualidades individuais em benefício do coletivo.
Talvez a principal função do treinador seja justamente construir um contexto no qual a equipe estabeleça relações de confiança, cooperação e entendimento mútuo, permitindo que cada jogador manifeste o melhor das suas características. Relações que não são apenas emocionais, mas também técnico-táticas, construídas diariamente por meio dos treinamentos, dos princípios compartilhados e da forma como os jogadores aprendem a jogar juntos, mas com a liberdade de tomar decisões e não caminhos prontos que o tornem apenas reprodutores de uma idéia do treinador.
Nesse sentido, a organização tática deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um instrumento para fortalecer essas relações. Quanto mais o modelo de jogo favorece a interação entre os jogadores, menos ele precisa substituir sua inteligência, criatividade e naturalidade por um excesso de orientações que, muitas vezes, pode limitar a confiança e a capacidade de adaptação da equipe durante a partida.
Foi exatamente isso que pensei ao ouvir Scaloni falar sobre Messi.
Não me parece que ele abriu mão da liderança ou da organização da equipe. A impressão é justamente a oposta. Ele construiu um contexto tão sólido que consegue oferecer liberdade ao seu principal jogador sem que a identidade coletiva seja perdida.
Talvez esse seja um caminho interessante para refletirmos sobre o futebol.
Em vez de buscarmos modelos que substituam a inteligência dos jogadores, talvez devêssemos construir modelos que potencializem essa inteligência por meio de relações cada vez mais fortes entre os atletas e suas relações socioafetivas.
Porque, no final das contas, o treinador prepara, organiza e conduz o processo.
Mas quem produz o jogo continuam sendo os jogadores.
Talvez o grande desafio do futebol moderno não seja formar treinadores capazes de controlar melhor o jogo, mas treinadores capazes de construir contextos onde suas equipes consigam jogar cada vez melhor.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
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