Por: Gabriel Bussinger
Num país onde impera a crença “de que o talento brota”???, por que faz sentido investir em professores e/ou treinadores??? Pagamos salários absurdos para jogadores tecnicamente forjados pelo improviso, mas “analfabetos funcionais” de vida pelo improviso do “all in” na carreira. Largando estudo, formação ética e moral. Fechamos os olhos para uma educação integral. Sucateando carreiras improvisadas de treinadores/professores.
O jogador brasileiro sempre foi sinônimo de improviso. O mesmo improviso que potencializou o jogador brasileiro dentro de campo, é o mesmo improviso que enfraquece nossa cultura e formação de atletas, treinadores, gestores e executivos fora dele.
Nossa identidade nasceu da rua, do campo de terra, das quadras de futsal, da várzea, da solução criada no instante em que o problema aparece. É sobrevivência. Ginga, criatividade, malandragem, malemolência e o improviso sempre foi arte no pé do brasileiro.
O PARADOXO: o improviso que nos tornou geniais dentro das quatro linhas, nos tornou amadores fora delas. Transferimos para os nossos “escritórios” a lógica do drible de última hora. Gerimos o futebol como quem resolve a jogada no susto. Sem plano, sem processo, sem paciência, sem avaliar, sem refletir e sem estratégia. E o que encanta no atacante, envergonha no dirigente. O improviso!
BREVE EXEMPLO PARA VIZUALIZAÇÃO: O clube (da várzea à serie A) improvisa dinheiro (arruma dívidas) para pagar um alto salário para o 27º jogador de um elenco que ao final da temporada joga menos de 90min. Mas não investe em pessoas que qualificarão a formação dos jogadores. E por que isso acontece?
SOMOS A PREMIER LEAGUE DA AMÉRICA DO SUL: E há uma vítima silenciosa nessa lógica: a formação de atletas. Em 2025, mais de mil jogadores brasileiros foram negociados para o exterior (recorde histórico). Enquanto a Série A de 2026 registra o maior número de estrangeiros de sua história. Exportamos atletas ainda em desenvolvimento para pagar caro em estrangeiros de nível próximo. Nossos garotos partem aos 17, 18 anos, antes de completarem o próprio desenvolvimento.
O problema não é vender. É vender antes de formar. O clube brasileiro, sufocado por dívidas, transformou a base em caixa de emergência. O(a) menino(a) vira ativo financeiro antes de virar atleta. Não há projeto de formação integral que sobreviva quando a pressa do balanço patrimonial atropela o tempo de desenvolvimento humano. Formamos pés habilidosos e biografias incompletas.
É preciso ter clareza que o improviso não é o vilão. Ele é patrimônio cultural. É a assinatura do futebol brasileiro, e deve ser protegido NO CAMPO. O que precisa morrer é o improviso como modelo de gestão: o calendário remendado, o técnico da vez, o presidente da crise, a base tratada como vitrine de leilão. Criatividade sem estrutura é desperdício; estrutura sem criatividade é tédio. Precisamos das duas.
INICIAÇÃO ESPORTIVA (dos 5 aos 10 anos): precisamos URGENTE (sem improviso) criar diretrizes claras para a fase da iniciação. Se sabemos que não há mais rua, terra, ambientes para improvisos, como estamos formando, desenvolvendo e potencializando nossos talentos nessa faixa etária? Hoje infelizmente improvisamos qualquer treino ou torneio para ver se “brota alguém”.
REVOLUÇÃO DIGITAL: No mundo VUCA/BANI vivemos a ERA DA INFORMAÇÃO. Por isso estamos vendo um nivelamento das seleções. O que Guardiola e Klopp faziam, em menos de 1 ano já estavam nos cadernos de cursos pelo mundo todo. É preciso investir na EDUCAÇÃO FORMAL de profissionais para que possam ser capazes de absorver licenças da CBF e Conmebol. Do contrário, continuarão com canudos e carteiras, mas improvisando treinos e jogos.
Talvez a lição de 2026 seja essa: o drible pertence ao pé, não à caneta. Enquanto planejarmos como quem improvisa e improvisarmos como quem desiste de planejar, seguiremos colecionando gênios individuais e fracassos coletivos. O “novo drible” do futebol brasileiro precisa acontecer nas salas de reunião com planejamentos de curto, médio e longo prazo.
O hexa não será conquistado por improvisos fora das 4 linhas. Mas pela nossa cultura/identidade de improvisar dentro delas.

Gabriel Bussinger Coordenador Técnico Geral no Vasco da Gama SAF | Instrutor Conmebol | Instrutor CBF | Mentor de Profissionais do Futebol | Idealizador do Podcast Diário do Treinador
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