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O BIRG, o CORF e a explicação da indústria do futebol brasileiro

Quando você vai a um estádio de futebol, você provavelmente sabe dizer por que você está indo. Agora, você sabe dizer por que os outros milhares de torcedores também estão lá?

Cada um tem lá sua razão específica pra torcer para um clube. Pode ser por influência familiar, por aversão ao time do vizinho, por causa de um atleta específico, por morar do lado do estádio e por outras tantas coisas mais. E todas essas coisas foram estudadas e identificadas.

Existem inúmeras razões pela quais uma pessoa escolhe torcer por um time. E existem outras mais que fortalecem ou enfraquecem o laço entre o torcedor e o seu clube. A mais comum delas foi denominada por alguns pesquisadores de Basking In Reflected Glory (BIRG), que significa algo como “orgulhar-se com a glória refletida”, que é o fenômeno que ocorre quando um time ganha um jogo e o torcedor diz (e sente) que “nós ganhamos a partida”. Com o BIRG, quanto mais um time ganha, mais orgulho ele gera e mais pessoas se apropriam do status de vencedor gerado pelas vitórias.

O BIRG é, evidentemente, o principal laço da relação entre clubes e torcida no Brasil. Isso acontece muito por conta da impossibilidade ambiental de desenvolver outras relações, principalmente dos laços mais profundos com a comunidade local de cada torcedor, já que as comunidades locais do Brasil são ainda muito recentes e carecem de maiores vínculos com os seus habitantes. Com isso, há pouco vínculo social entre clube e torcida, deixando que o BIRG se apodere da intermediação do processo.

Por conta do BIRG, quando o time está ganhando, a torcida se torna fanática, lota estádios e compra produtos. O grande problema é que o BIRG traz em sua essência outro processo psicológico oposto, que foi denominado de Cutting Off Reflected Failure (CORF), que significa algo como “romper com o fracasso refletido”, que ocorre quando o time perde e o torcedor diz (e sente) que “eles perderam a partida”. Com o CORF, quanto mais um time perde, mais torcedores se afastam do time para evitar absorver o status de fracasso. Ou seja, quando um time perde uma partida ou um campeonato, os torcedores param de consumir produtos e de ir aos estádios como forma de evitar parecer que eles também são perdedores. Com o BIRG, “nós ganhamos”. Com o CORF, “eles perderam”.

Como esses dois fenômenos são predominantes na relação entre times e torcedores no Brasil, os clubes ficam excessivamente reagentes ao sucesso em campo. Afinal, a derrota significa não apenas o fato esportivo em si, mas cria também um grande impacto nas receitas e na administração do ambiente político do clube. Com isso, exerce-se uma enorme pressão por sucessos imediatos e constantes, onde vitórias devem ser obtidas a qualquer custo e derrotas são suficientes para motivar mudanças completas na estrutura do clube. Isso acaba gerando uma situação em que é impossível desenvolver o mínimo controle financeiro e torna o fluxo de receitas e despesas algo absurdamente instável, impossibilitando qualquer manutenção de parâmetros de gestão de longo prazo.

O BIRG e o CORF explicam muito sobre como funciona a indústria do futebol brasileiro e por que o buraco financeiro vai ficando cada vez maior. A boa notícia é que existem métodos para tentar minimizar o impacto que esses fenômenos causam nos clubes. A má notícia é que aqueles que tem poder para aplicar esses métodos de controle são justamente aqueles que mais se deixam influenciar por eles.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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A criatividade

Há algum tempo me recomendaram um livro que falava sobre o “Cirque Du Soleil” (Bacon, J. U. Cirque Du Soleil: a reinvenção do espetáculo. 8. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006) como uma ótima leitura para entender e discutir um pouco mais as questões de marketing e gestão de uma forma prática, a partir de um estudo de caso.

O fiz na semana passada e, de forma natural, vim refletindo os seus ensinamentos para a sua reprodução no ambiente do futebol. Dentro de todo o contexto de espetáculo, característico do circo e que também faz parte da indústria do futebol, duas coisas me chamaram a atenção.

Primeiro foi o fato de este circo ter conseguido apresentar uma linguagem e expressão totalmente diferente dos demais circos. Fiz, inclusive, um exercício em sala de aula e os alunos remeteram palavras como “pipoca”, “elefante”, “palhaço”, “ciganos” para o circo comum, enquanto que “excelência”, “beleza”, “espetáculo”, “rico” vieram à cabeça deles quando falado no nome “Cirque Du Soleil”.

Cabe ressaltar que nenhum deles assistiu “ao vivo” sequer uma vez a apresentação do circo, apenas de acompanhar pela TV em reportagens ou mídias do gênero. Isso nos remete a pensar a forma que comunicamos nossos negócios e a percepção que queremos oferecer para os consumidores/clientes sobre nossos produtos e serviços.

O segundo aspecto tem a ver diretamente com a questão dos recursos humanos e ligação com o título desta coluna: “a criatividade”. Ali esteve descrito ao longo de todo o livro como é trabalhado o estímulo para que os artistas tenham liberdade para criar e inovar.

Neste contexto, o ambiente, as pessoas e os desafios foram os elementos-chave de estímulo à criatividade apontados ao longo do livro. Remetendo ao futebol, o ambiente seria o local de trabalho (centro de treinamento), em que o atleta se preocupe unicamente em praticar a modalidade, discutir com os companheiros as melhores jogadas; em que o treinador e sua comissão possam se concentrar e criar as principais jogadas para neutralizar o adversário – sem querer saber se o ônibus vai quebrar no meio do caminho ou se haverá campo para treinar ao longo da semana.

Sobre as pessoas, nos referimos ao estímulo do trabalho em equipe, percebendo que cada setor do clube funciona como o “dente de uma engrenagem” e todos devem estar engajados em um único fim, proporcionando tranquilidade para aqueles que devem criar. E os desafios, cujo contexto tem relação com a natureza humana, no qual somos movidos para a busca de coisas novas e, nesta busca, devemos criar como uma ferramenta de superação aos próprios anseios.

Em síntese é isso. Vivenciamos um mundo de constantes mudanças em que as empresas que dominam o mercado têm como característica-chave a inovação. Para que a inovação chegue ao ambiente de trabalho, é preciso estimulá-la e tal premissa não pode ser diferente no contexto do futebol.

Em alguma medida, tais elementos explicam porque alguns clubes são enormes, ou crescem vertiginosamente no mercado do futebol. E outros, que o negligenciam, perdem espaço, valor de marca e qualidade de trabalho, como um processo natural de competitividade mercadológica.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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Minha casa, minha vida

O Corinthians anunciou, em meio aos festejos do Centenário, o (novo) estádio do clube, cuja localização será na zona leste da cidade de São Paulo, em Itaquera.

Até o Presidente Lula compareceu no principal evento destas comemorações, e desponta como lobista do seu clube do coração, articulando nos bastidores a aproximação entre CBF, Fifa, Ministério dos Esportes e empreiteiras.

A obra tem a previsão de conclusão ao final de 2012, e o clube, no projeto original, não demonstra pretender ser sede do jogo de abertura da Copa 2014, a despeito da exclusão do Morumbi e de não haver oficialmente alternativa para tanto até o momento.

Mesmo porque essa alteração, de 49 mil lugares para 65 mil lugares, custa alguns milhões de reais.

E, para evitar o estouro orçamentário, tido como natural – ao que parece, só no Brasil – em grandes obras de infra-estrutura e edificações, o Corinthians irá contratar uma empresa gestora de recursos, além de bonificar a empreiteira principal com a redução nos custos finais.

Mas um aspecto interessante do plano arquitetônico chama a atenção: a intenção do envolvimento dos espectadores numa atmosfera esportiva cuja experiência sensorial será privilegiada.

Por isso, todo o estádio deverá contemplar a aproximação do público ao terreno de jogo, além de camarotes, áreas especiais e espaços de convívio preparados para deslumbrar. Como costuma acontecer em estádios de ponta do futebol europeu e, principalmente, nas praças esportivas das ligas nos EUA.

O matchday é fonte de receita importante para qualquer clube, mas dela não deve depender. O que vale a pena, sim, é explorar a sazonalidade da demanda em paralelo à ocupação pelos sócios.

Fora casas de shows e alguns teatros, no Brasil, o melhor exemplo dessa tentativa de valorizar a experiência, em se tratando de esporte, é o estádio da Arena da Baixada, do Atlético Paranaense – em fase de finalização também, visando à Copa 2014.

Como bem disse o arquiteto do estádio corintiano, a concorrência do clube para atrair seus torcedores ao estádio é com o conforto dos seus lares, vendo pela TV aberta ou por pay-per-view.

O clube estuda, também, destinar a ocupação do estádio quase na totalidade para os sócios, assegurando receita ao longo do ano de forma antecipada.

Se o Corinthians, mandando jogos no Pacaembu, mantém médias históricas de público das mais altas – e a renda corresponde a 15% de todos os clubes no campeonato de 2010 – imagino quando as chaves da “casa própria” forem entregues.

Padrinho forte não falta.  

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Riscos defensivos e o número de jogadores atrás da linha da bola

Existe uma ideia, quase um consenso, de que quando uma equipe de futebol está atacando, o número de jogadores que ela mantém atrás da linha da bola, pode definir o sucesso ou o fracasso de suas transições defensivas.

Em linhas gerais, o pensamento central é de que, mantendo um número maior de jogadores atrás da linha da bola, é possível, ao perder sua posse (da bola), correr menos riscos defensivos em um contra-ataque rápido, e até, recuperá-la mais rapidamente.

Ter mais jogadores na retaguarda da bola, porém, faz com que, necessariamente, menos jogadores estejam participando efetivamente do ataque da equipe.

A questão aqui é que com menos jogadores participando efetivamente do processo ofensivo, tanto o número de apoios absolutos, quanto as possibilidades de ação para retirar a bola de zonas de pressão (sem regredir no campo de jogo) diminuem.

Isso pode não ser um problema, se a dinâmica e movimentação criada pelo reduzido número de apoios absolutos compensar relativamente a menor quantidade de jogadores, aumentando o número de possibilidades de jogo, tanto na ocupação dos espaços (ou na indução do adversário a erros), quanto na vantagem nos confrontos 1vs1.

Há de se pensar, porém, se não seria vantajoso ter um grande número de jogadores à frente da bola, se esses forem capazes de aumentar exponencialmente o número de possibilidades de jogo dentro do processo ofensivo (sem perder minimamente os apoios de retaguarda).

Apesar de um quase consenso, de que aumentar o número de jogadores participando efetivamente dos ataques não significa aumentar as chances de que as sequências ofensivas de uma equipe resultem em finalização, proponho que relativizemos a questão.

Sob os óculos das teorias sistêmicas, ter mais, ou ter menos jogadores atrás, ou à frente da linha da bola, é apenas uma variável do problema; variável que, quando manipulada, traz a necessidade de compensações (que geram novos problemas, novas manipulações e, por fim, mais e novas compensações).

Quando o “risco” defensivo que se quer correr é o principal norteador do sistema, as decisões e os ajustes caminharão em certa direção. Se a orientação sistêmica for outra, outras também serão as decisões e os ajustes.

O fato é que o aumento ou a diminuição de riscos será sempre dependente das características dos jogadores e do tipo de jogo que pode ser construído a partir dessas características.

Posto isso, a capacidade de uma equipe em controlar o jogo sem que necessite de muitas compensações pode determinar a magnitude de seus riscos nas transições defensivas e definir as necessidades numéricas de jogadores atrás e à frente da linha da bola.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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Sobre Naming Rights

Existe uma mística curiosa em torno da ideia do “naming rights” no Brasil. Por alguma razão, clubes tendem a acreditar que a venda dos direitos do nome de um estádio pode ser a plataforma principal de financiamento na obra. Não é. Nunca foi. Jamais será.

O conceito básico do “naming rights” é simples: um clube é popular e frequentemente aparece em diversos veículos midiáticos; como o clube manda seus jogos em um estádio, seu estádio também acaba aparecendo em muitos veículos; como uma empresa não pode normalmente comprar o nome de um clube, ela compra o nome do estádio, sendo que toda vez que o estádio aparecer na mídia, será o nome da empresa que estará sendo mencionado. Dessa forma, a empresa compra, na verdade, o direito de ter seu nome citado por incontáveis vezes em um determinado período de tempo.

Com estádios novos e mais modernos, porém, uma empresa pode acabar inserindo outros direitos na parceria, que vão além da simples troca de nomes. Ela normalmente vira dona de um dos principais camarotes do estádio, ganha uma quantidade razoável de ingressos para distribuir por jogo e pode usar as instalações do estádio para fins corporativos diversos, de simples reuniões a grandes convenções.

Tudo isso é muito bacana do ponto de vista mercadológico, uma vez que a parceria concilia interesses mútuos a partir do uso de uma boa quantidade de criatividade e inteligência. O problema é que para tudo isso dar certo, a coisa mais básica do processo tem que acontecer: os veículos midiáticos (e consequentemente o público que acompanha o esporte) precisam falar o nome da empresa.

Às vezes, isso fica um pouco complicado quando uma empresa compra os direitos sobre o nome de um estádio já existente, uma vez que é preciso um trabalho árduo para convencer as pessoas e as mídias a chamarem o estádio pelo novo nome. Para evitar isso, empresas tendem a buscar batizar estádios novos, que dessa forma não possuem outro nome qualquer.

Outras vezes, porém, alguns canais de mídia simplesmente se recusam a falar o nome da empresa, e chamam dão ao estádio um nome genérico. Isso acontece principalmente quando um determinado canal possui uma audiência dominante e pode se dar ao luxo de adotar essa postura sem se preocupar muito com eventuais retaliações dos donos do estádio. E esse, para o azar dos estádios, é o caso do mercado brasileiro, onde a Globo se dá ao luxo de cortar todas as asas possíveis da Red Bull, por exemplo.

Não existe uma explicação óbvia para imaginar que o “naming rights” é a salvação dos estádios brasileiros. Não existe sequer uma razão óbvia para acreditar que algum dos estádios novos do Brasil vai conseguir fechar um contrato de “naming rights” alto por um longo período de tempo.

Estudos sérios dão conta que empresas que pagam pelos “naming rights” dificilmente conseguem aumentar sua receita em um nível próximo ao investido na aquisição do nome. Isso nos EUA. No Brasil, em que ninguém vai falar o nome, imagine. Dos dez clubes mais ricos da Europa, só dois venderam o nome dos seus estádios. Na Copa do Mundo, a Fifa ignora o nome e manda tirar qualquer placa do estádio que não seja dos seus próprios patrocinadores.

Nesse cenário, não tem por que acreditar que o “naming rights” vai vingar no país. Tampouco que um estádio que usa ele como principal fonte de financiamento vai conseguir sair do papel.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  

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Balanço entre o esporte e o capital

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Recentemente o presidente da Fifa, Joseph Blatter, informou que a entidade máxima do futebol está estudando alterações nos regulamentos da Copa do Mundo para evitar excessivos empates nos jogos e a consequente monotonia e falta de gols para os espectadores.

Essa preocupação nos remete mais uma vez à discussão sobre a necessidade de os esportes, e no nosso caso do futebol, serem adequados para o seu melhor aproveitamento comercial e até que ponto essa adequação pode ser feita sem que os princípios fundamentais do esporte sejam colocados em um segundo plano.

Todos já sabemos que a Fifa sempre adotou uma postura conservadora com relação a eventuais mudanças no futebol. Sempre foi assim com relação à introdução de inovações tecnológicas na arbitragem, por exemplo. Nesse caso, para a Fifa, o erro humano da arbitragem faz parte da cultura do futebol, e, assim, não poderia deixar de existir.

Ocorre que, na última Copa do Mundo da África, erros capitais de arbitragem começam a prejudicar o espetáculo e a causar efetivos danos financeiros para diversas partes. É nessa medida que agora a Fifa já considera introduzir determinadas inovações de tecnologia para auxiliar e balizar a atividade dos árbitros.

No caso objeto desta coluna, inovações que visem aumentar a atratividade do jogo como ora divulgado pela Fifa, são, em nossa opinião, bem vindas. As constantes reduções na participação do goleiro no jogo são, por exemplo, algumas das iniciativas de sucesso para essa finalidade. No passado mais distante, a criação da disputa de pênaltis também veio nessa esteira, e também já faz parte integrante do espetáculo, sem que o futebol fosse radicalmente alterado.

O que não podemos aceitar é a pressão de patrocinadores e outras forças com grande poder financeiro no futebol para que algumas medidas que valorizem o espetáculo em termos financeiros altere as “cláusulas pétreas” do esporte.

Pequenos ajustes são sempre bem-vindos. Vivemos em uma sociedade dinâmica, e o esporte deve sim adequar-se para atender as demandas de cada época em que vivemos. E, ressalte-se, essa adequação é fundamental para que os investidores do futebol permaneçam interessados e continuem a garantir a viabilidade financeira do esporte.

Por outro lado, não podemos “vender” a integridade e a confiabilidade das competições de futebol, sem as quais o futebol não seria tão popular ao redor do mundo.

Encontrar a justa medida é difícil, mas necessária. E deve ser revista, caso a caso, sempre que houver a necessidade. Vamos aguardar as propostas concretas para alteração dos regulamentos da Copa do Mundo e torcer para que, se aprovadas, elas de fato viabilizem uma maior quantidade de gols por partidas e mais emoção aos jogos, que é o verdadeiro combustível dessa modalidade.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Quem são os stakeholders do futebol?

Saber quem se interessa pelos seus negócios e é afetado, direta ou indiretamente, pelas ações relativas à atividade econômica de um empreendimento é um dos passos fundamentais para o implemento de um posicionamento estratégico voltado para o mercado.

Os stakeholders são compreendidos pelos clientes, empregados (ou colaboradores), fornecedores, comunidade, investidores e outros de natureza análoga. São todos os agentes que de alguma maneira influenciam ou são influenciados pelas decisões de uma organização.

E a dúvida é: os clubes de futebol sabem quem são seu stakeholders? Quais são os clubes que possuem uma cultura alinhada e voltada para fora? Quais são os clubes que colocam na balança todas as hipóteses que acarretarão em melhorias para a sociedade em detrimento de uma tomada de decisão em nível gerencial?

Os negócios são compreendidos pelo relacionamento entre esses diversos grupos. O ambiente corporativo tem entendido muito bem tal premissa e aplicado na prática uma visão de fora para dentro, procurando adotar melhores práticas em benefício do todo, por um alinhamento bem estreito com os conceitos de responsabilidade social corporativa.

No caso dos clubes de futebol, os clientes são a gama de torcedores que consomem os produtos oferecidos pelo clube, seja em espécie (compra de ingressos, produtos licenciados e outros) ou mesmo o simples fato de acompanhar noticiários sobre o dia-a-dia da equipe e seus ídolos. Alimentar a paixão dessas pessoas não deixa de ser um papel importante dos clubes em um ambiente social.

Daí discorremos para os colaboradores, que são diretamente afetados por decisões e rumos de qualquer organização, valorizando-se neste quesito o componente da ética nos negócios e o cumprimento de pressupostos legais.

Os fornecedores, que fazem parte de uma cadeia grande de consumo e precisam receber em dia, como um exemplo bem simples daquilo que poderíamos tratar como elemento-chave neste relacionamento – o ciclo vicioso de inadimplência tem reflexo indireto em vários níveis sociais e econômicos de pessoas e empresas.

Investidores, que estão traduzidos no futebol pelos patrocinadores e demais parceiros comerciais, podem ter sua imagem arranhada ou glorificada em detrimento de conquistas e/ou derrotas de um clube, sendo ela alcançada dentro ou fora do campo de jogo.

Ignorar todos esses agentes ou boa parte deles pode ser um primeiro passo para a falência nos negócios. Trabalhar sob uma plataforma voltada para fora, sem aquele olhar míope de cuidar somente de seus problemas, tem se mostrado a melhor solução para as organizações e perfeitamente passível de aplicação no ambiente de negócios do futebol.

O desafio é: quem são os stakeholders de seu clube? Enumere, defina e aponte o canal de relacionamento entre o seu clube e eles para perceber até que ponto a organização está sendo um bom agente social.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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São Paulo: sobre planejamento e troca de técnicos

Nas últimas semanas a discussão sobre a equipe do São Paulo foi intensa, muitos se perguntam o que teria acontecido com o clube mais planejador do país. A resposta mais simples que vi e que não deixa de ter sua verdade é que quando os resultados aparecem, o planejamento é bom, quando não, ainda que seja o mesmo, tudo foi por água abaixo, o planejamento não existiu.

O foco só no resultado absoluto de dois ou três jogos, ou mesmo de uma temporada única, não serve para avaliar um planejamento. Para aqueles que não concordam, basta olharmos os técnicos do Arsenal e do Manchester, as equipes não ganham todos os anos, e em alguns inclusive sofrem fortes decepções, inesperadas desclassificações em fases preliminares da copa dos campeões.

O São Paulo demitiu Muricy Ramalho, tricampeão brasileiro com o clube, com a justificativa das eliminações nas Libertadores de que disputou. Neste ano, Ricardo Gomes pagou pela eliminação na semifinal frente ao Internacional, que seria mais tarde campeão do torneio.

Enfim, se compararmos os últimos 5 anos das equipes mencionadas, acredito que possamos dar mais clareza a discussão.

O amigo poderia questionar minha crítica ao planejamento observando que o São Paulo mesmo com as trocas efetuadas, mantém um cenário de destaque, porém, o que gostaria de discutir, sem ficar na especulação de onde poderia ter chegado se tivesse mantido um determinado treinador, é justamente o perfil da relação clube-treinador no Brasil.

Existem temporadas que são de transição, para um elenco que vem de um período em alto nível competitivo é inevitável que se faça essa transição com a reformulação do elenco. Será que os técnicos brasileiros não conseguem fazer isso, ou os projetos não duram mais do que três anos porque é o prazo máximo no Brasil?

Sabemos que existe uma saturação entre o relacionamento técnico-atleta, porém a renovação pode ser feita paulatinamente, como o próprio São Paulo foi fazendo na era Muricy, ora mantinha a defesa, ora o meio ou o ataque, mas aos poucos havia uma renovação natural no elenco. O Corinthians vem na mesma perspectiva, basta ver que a escalação da equipe na serie B 2007 em relação à atual. Mudou, porém, paulatinamente, e na cabeça do torcedor e da imprensa é um time com a espinha dorsal mantida.

No Brasil, felizmente, alguns clubes já vem alongando a vida do técnico independente de resultados específicos de alguns jogos ou uma temporada, o Adilson Batista, hoje no Corinthians, ilustra isso com sua passagem longa (para os padrões brasileiros) no Cruzeiro.

A questão é perceber que a renovação de elenco não precisa passar necessariamente pela troca de técnico. Uma eliminação numa fase semifinal ou mesmo na final de uma Libertadores deve ser considerada como um resultado de fracasso? Chegar sempre nas fases decisivas de uma dessas competições é fracasso? Mesmo a oscilação que resulta numa eliminação precoce pode ser entendida se estiver alinhada com uma política de renovação mais forte no plantel, uma política de reconstrução do plantel.
Basta observamos que o quadro de resultados do São Paulo é muito similar ao do Arsenal e do Manchester, talvez o erro possa estar na obsessão que o título da Libertadores trás aos dirigentes brasileiros, que acaba por avaliar um trabalho como insuficiente com base na falta do título do torneio intercontinental.

Que nossos dirigentes, que já vem percebendo aos poucos a importância da manutenção de elencos e treinadores, comecem a perceber melhor o papel de suas equipes nos cenários nacionais e internacionais para e, a partir disso, avaliarem os cursos e percursos do planejamento da equipe.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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O treinamento técnico: da técnica ao jogador ou do jogador à técnica?

 Até pouco tempo atrás, quando participava de fóruns de discussão para debater sobre as novas perspectivas da preparação do futebolista, da base ao alto nível competitivo, uma das “barreiras” iniciais para se avançar em discussões, digamos, mais adiantadas, tratava da dimensão física do desempenho do jogador de futebol.

Para os possuidores de raízes mais profundas em um paradigma sustentado pelo conhecimento da preparação desportiva emergente na década de 1960, as propostas atuais, pautadas no desenvolvimento integral e total do jogador de futebol (a partir de meios e métodos integrais e complexos), sempre trouxeram à tona uma desconfiança sobre sua competência e efetividade para o desenvolvimento de capacidades físicas tidas como importantes para o bem jogar futebol.

Tal desconfiança ganhou força especialmente pela distorção feita por alguns treinadores e por alguns pesquisadores das Ciências do Desporto, sobre aquilo que o treinador português José Mourinho e seu inseparável adjunto Rui Faria vinham e vêm fazendo em grandes equipes da Europa.

O fato é que, após muitas e muitas mesas redondas, muitos e muitos debates, muitas avaliações fisiológicas, muitos jogadores formados e muitas vitórias, tanto a comunidade científica, quanto as grandes equipes do futebol mundial, se deram conta, de que a grande dúvida sobre aquilo que propõem as novas reflexões para a preparação do jogador, em busca da excelência, (com relação a sua capacidade de “condicionar fisicamente” o futebolista) estava sanada.

Porém, os caminhos para a sustentação de um novo paradigma, devem, para o bem comum, ser submetidos a uma diversidade de olhares e questões, para testar e atestar, suas possibilidades de contribuição para resolver problemas emergentes (e outros nem tanto).

Então, após quase findado o debate sobre a dimensão física, ganhou evidência aquele que diz respeito a dimensão técnica da preparação do jogador de futebol.

Pois é.

Hoje, nos mesmos fóruns, em que o debate sempre girou em torno de questões, digamos “físicas”, ganham, cada vez mais espaço, discussões que colocam à prova, a capacidade de meios e métodos de treinamento orientados pela complexidade, de promover o bom e melhor desenvolvimento da dimensão técnica daqueles que jogam.

Ora, ainda que seja saudável a discussão a respeito do tema, eu pergunto: de que “dimensão técnica”, se está a falar?

Daquela que é orientada por um “estereótipo” de gesto “perfeito”, em que se estabelece biomecanicamente o que é bom e o que não é, e se tenta “imitar” ou copiar? Ou daquela que é a expressão da autonomia e criatividade do indivíduo, para resolver problemas do jogo quando ele está ou não de posse da bola?

Se estivermos falando da primeira, em que a partir de uma “técnica perfeita” é construído o movimento do jogador, não gastemos tempo com argumentos; não os temos.

A técnica perfeita, ainda que alguns de meus amigos acadêmicos esbravejem, não é um desenho acabado, cheio de detalhes e verdades! Não é algo para ser copiado.

A técnica perfeita é aquela que se expressa circunstancialmente, de acordo com o problema, resolvendo-o.

Ela é individual, não é única para todos. Ela é aberta, não é fechada. Ela se manifesta, não é remotamente controlada. Ela não é gesto por gesto, é ação com significado.

Então se estivermos falando da segunda, não sei como pode ser mais óbvio, que a solução para o desenvolvimento de “habilidades técnicas” de um jogador em jogo, seja sua requisição, manifestação e expressão, no próprio jogo.

A “habilidade técnica”, que se expressa no jogo, melhora e se desenvolve perfeitamente quando se treina de maneira integrada e complexa.

Então, que tal esquecermos, de uma vez por todas, a padronização de gestos. Vamos investir em autonomia, em criatividade, enfim, em liberdade!

Para terminar hoje, trago em seguida, um trecho de um texto, que para os desavisados, pode parecer não ter nada a ver com futebol. Mas se tem a ver com a vida, tem a ver com o futebol, então de tão belo e didático, mesmo para os desavisados, digo que vale muito a leitura.

É o trecho de um texto do professor João Batista Freire, publicado por ele em seu blog.

Transportá-lo ao ensino e aperfeiçoamento no futebol? Esse é um dos exercícios…

“Para mim, o que decide os destinos de um povo, é a educação, para o bem ou para o mal, e em todas as circunstâncias em que ela pode acontecer. Uma pessoa se educa sozinha, por exemplo, quando uma criança brinca desacompanhada, se educa em família, se educa no quartel, na igreja, na escola, em contato com a natureza, vendo televisão, assistindo filmes, etc. Creio que os principais veículos de educação são a família, os meios de comunicação e a escola. A escola é a que reúne o sistema mais formal de educação. E para que nos educamos tanto? É porque a maior parte do que precisamos saber para viver não nasce com a gente, é preciso ser aprendido. De modo que podemos dizer que nos educamos para a vida. Ou seja, não aprendemos História ou Geografia para saber História ou Geografia apenas, mas para ampliar nossas chances na vida. Em princípio, saber viver poderia significar, por exemplo, eliminar animais, árvores e pessoas; muita gente faz isso. Acontece que os humanos são animais fisicamente frágeis; precisam do outro e da natureza para se manter. Portanto, não vale tudo, não vale eliminar o outro, não vale eliminar a natureza. Ser solidário é uma condição de vida. Ser caridoso, ser social, são requisitos básicos para viver. Tudo isso remete para a ideia de que a educação deve ser focada no princípio de aprender a viver, mas a viver eticamente”.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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O futebol como Ciência ou o fenômeno Sporting

Na edição do jornal “A Bola”, do último dia 27 de Fevereiro, o jornalista e escritor Vítor Serpa levantava a interrogação seguinte: “Que ciência pode afinal vir explicar o último jogo europeu do Sporting?”. E continua: “Uma equipa aparentemente esfrangalhada, sem vestígios de autoestima, acossada por cães de fila sedentos de protagonismo (…), ressurge das cinzas, como fénix e explode numa festa de energia e de luminosidade exibicional, carregando com três festejados golos o peso de incredulidade inglesa”. Mas voltemos à questão que é a matriz deste oportuníssimo artigo: qual a ciência que pode explicar a exibição do Sporting, em Lisboa, diante do Everton?

Venho dizendo, há mais de trinta anos, que o desporto só como ciência social e humana se poderá entender e que portanto analisar a prática desportiva não se confunde com o determinismo e com as certezas do treino e da ciência, positivistas e tradicionais. No desporto (como no mais), o simples é aparência, o fundo do real é complexo. Com efeito, da termodinâmica à teoria da informação, da microfísica à biofísica, da informação à ciência das redes – a complexidade é o grande signo da nossa cultura e… a denúncia do logro que é o simples, a ordem, a lei, a certeza! Só a desordem, o acaso, o singular são processos genésicos, isto é, organizações nascituras.

Por isso, o treino há-de percepcionar-se como o uno em si mesmo múltiplo. Treinar não é só concretizar o que vem nos livros de técnica e táctica dos jogos desportivos (o simples), mas descobrir a dialéctica entre as chamadas “leis do treino” e a complexidade que é cada um dos jogadores que as interpretam. As leis surgem com uma exactidão deslumbrante. Ora, tudo o que é muito exacto não é humano e está errado.

O Vítor Serpa, um homem culto (eu tenho razões, para dizer do director deste jornal, isto e muito mais), percebeu, facilmente, que o problema dos “leões” não se resume a “um”, porque são “muitos” os problemas e é porque são “muitos” e em rede que o fenômeno Sporting é também desordem, caos, incerteza. Como escreve Lyotard, a ciência pós-moderna (actual, portanto) não passa do anti-modelo de uma ciência estável. Os “torcedores” (quem torce retorce e distorce), diante da desordem em que o futebol se manifesta e porque a desordem os confunde, descambam em atitudes demasiado emocionais, normalmente ao ritmo da mentira veemente, dos “slogans”, do oportunismo do instante de certas pessoas, com lugar de relevo na Comunicação Social.

O Marx tinha razão: “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”. Os treinadores sabem também que o futebol é desordem, no meio de toda a ordem inicial. Dutante um jogo, há por vezes a sensação que está por descobrir a ciência que o explica. Só que eles não desconhecem, como Aragon, que “a experiência nunca é transmissível; apenas o dogmatismo o é”. E dogmáticos só o podem ser alguns tontos cuja audiência está na razão directa da precariedade social, da perda de senso e de frustrações recalcadas. Por isso, as “massas associativas” os escutam, com tamanho deleite. O abrigo no irracional não exige muito esforço: basta não pensar!

Estou certo que, com José Eduardo Bettencourt, atual presidente do Sporting Clube de Portugal, pode desenhar-se, com nitidez, um novo Sporting e, portanto, com homens novos, capazes de aceitar, decifrar e dominar o incerto, ou seja, capazes de descobrir na desordem a necessidade de uma ordem nova.


 

Os cientistas de superior perfil, os mais notáveis dirigentes nunca o foram por obra exclusiva da razão, mas pela aventura da imaginação. Diria o mesmo dos treinadores mais conhecidos, como o sportinguista Mário Moniz Pereira, grande entre os grandes treinadores de atletismo que eu conheci.

Creio que foi o Francisco Varela a escrever que, antes da nossa consciência, está a inconsciência da nossa consciência. Que o mesmo é dizer, neste caso: antes da organização, está o sportinguismo; antes da causalidade, que se explica, está a “caosalidade”, que se compreende e donde brota a estrutura do sagrado e do numinoso. É verdade: nem tudo se explica. Só a morte é racionalidade total. Mas tudo se pode compreender, quando se tem o sentido do que se faz.

Qual o sentido último do Sporting Clube de Portugal? Que o digam os sportinguistas! E os “pseudocientíficos analistas da coisa da bola” não tentem explicar tudo. Porque não o podem fazer. Os golos, sim, esses é que explicam e justificam… tudo!


*Antigo professor do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) e um dos principais pensadores lusos, Manuel Sérgio é licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, Doutor e Professor Agregado, em Motricidade Humana, pela Universidade Técnica de Lisboa.

Notabilizou-se como ensaísta do fenômeno desportivo e filósofo da motricidade. É reitor do Instituto Superior de Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares do Instituto Piaget (Campus de Almada), e tem publicado inúmeros textos de reflexão filosófica e de poesia.

Esse texto foi mantido em seu formato original, escrito na língua portuguesa, de Portugal

Para interagir com o autor: manuelsergio@universidadedofutebol.com.br