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O treino do jogador de futebol na "caixa de areia"

Hoje, vou me intrometer onde não fui chamado. Dia desses, estava vendo TV, ou melhor, zapeando canais, quando uma fervorosa discussão em um programa esportivo me chamou a atenção.

Dois especialistas da mesma área – preparação física – divergiam sobre benefícios, malefícios e a necessidade real de treinos em "caixa de areia" para jogadores de futebol.

Um deles dizia ser o treino em "caixa de areia" essencial para melhorar a velocidade de deslocamento dos jogadores em campo e que, portanto, esse meio de treinamento deveria ser usado em qualquer etapa da preparação. O outro concordava que o trabalho em "caixa de areia" era benéfico para a melhora da velocidade de deslocamento, mas que esse tipo de trabalho só deveria ser empregado em determinadas etapas do processo de treinamento.

Oh, não, senhores!

Primeiro, pelos motivos que já tantas vezes apresentei, proponho que pensemos em treinos para jogadores de futebol numa outra perspectiva – integrada, complexa, imprevisível, etc, etc, etc. Mas tudo bem; se preferem não mudar, paciência – a verdade, na verdade, não é uma verdadeira verdade.

O caso é que o problema na discussão que assisti é muito anterior a questões que envolvem modelos ou construtos inovadores nas tendências do treino desportivo do futebolista.

A velocidade de deslocamento do jogador de futebol, a constante mudança de direção e as alternâncias permanentes de ritmo de corrida estão, entre outras coisas, associadas também ao tempo de aplicação e manifestação da força muscular por parte desses jogadores. Esse tempo, para favorecer contrações bastante rápidas, precisa ser mínimo.

Para se deslocar em alta velocidade, um jogador necessita que o tempo de aplicação de força no solo (no gramado onde joga) seja muito pequeno, mas que promova movimentos muito rápidos, de maneira que a aplicação da força pelo pé do atleta no campo e a reação do campo sobre o pé se expressem de maneira extremamente reativa e explosiva.

O tempo de contato a cada movimento entre pé (chuteira) e solo (gramado) deve ser mínimo, e nele (no tempo mínimo) a expressão da força (que garanta a ação rápida) deve ser relativamente máxima e suficiente para a necessidade da própria ação.

E isso, é justamente o contrário do que a "caixa de areia" propicia.

Quando um atleta tenta fazer corridas rápidas na areia tem dificuldades, pois o tempo de contato entre o seu pé e o solo, a cada movimento, é maior do que quando realizado na grama, ou outra superfície mais dura. Isso quer dizer, que a frequência de movimentos que acaba sendo capaz de fazer na areia é menor do que no gramado e que, portanto, a exigência neuromuscular para a ação não se configura como sobrecarga que estimule respostas adaptativas no sentido do aumento da velocidade.

Trabalhos científicos têm, faz muito tempo (muito mesmo!), mostrado que os efeitos de curto e médio prazo de treinos na caixa de areia não contribuem para o aumento da velocidade de deslocamento ou da força explosiva; pelo contrário, muitos relatos apontam perda de desempenho nesses índices com treinos que a utilizam como meio.

Então, diria aos nossos especialistas (os que assisti discutindo) que, sob o ponto de vista da complexidade, essa discussão nem faria sentido. Mas que ainda assim, mesmo não me pautando nela (na complexidade), o treino na "caixa de areia" para melhora do desempenho na velocidade de deslocamento dos jogadores de futebol ou da sua força explosiva não faria sentido algum em etapa alguma da preparação atlética do futebolista.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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O triste fim do caso da Máfia do Apito

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Chegou ao fim o impasse que pairava sobre os desdobramentos do caso daquilo que ficou conhecido como Máfia do Apito.

Para quem não se lembra, no Campeonato Brasileiro de 2005 foi descoberto um esquema envolvendo apostadores e juízes de futebol, que manipulavam (ou tentavam manipular) jogos para favorecer apostas anteriomente feitas por integrantes do grupo.

Antes de qualquer comentário, é sempre importante ressaltar quão prejudicial ao esporte tal prática representa. A manipulação de resultados altera a verdade desportiva e pode acarretar, em última análise, na descredibilidade total do jogo, afastando torcedores, investidores, mídia, etc.

As autoridades desportivas agiram com firmeza nesse caso, ao afastarem em definitivo dois árbitros responsáveis. Porém, na justiça comum, o resultado não foi nada satisfatório.

Acabamos de ter a notícia de que os desembargadores responsáveis pelo julgamento da ação penal proposta contra os envolvidos decidiram por trancar o processo, isentando-os de qualquer pena na esfera criminal.

Aparentemente, apesar de reconhecerem que de fato houve manipulação de resultados, os desembargadores entenderam que não há como caracterizar tal fato como criminoso com base na nossa legislação criminal.

Em outras palavras, podemos abstrair dessa decisão que a manipulação de resultados desportivos, ainda que para a finalidade de se auferir lucro com apostas irregulares, não caracteriza crime.

Não queremos entrar no mérito se a decisão foi acertada ou não. Mas precisamos dizer que ela é bastante prejudicial, não só para o futebol, como também para o esporte em geral em nosso país.

Temos que unir esforços, tanto das autoridades do futebol, como das autoridades públicas, para se alterar com urgência a legislação criminal pátria. É preciso que se reconheça de uma vez por todas a existência de uma especificidade do esporte e que, desta forma, sejam criadas uma série de artigos legais que visem coibir atitudes indesejáveis no mundo do esporte.

Lembre-se que o esporte é hoje um ramo de atividade comercial, mas que possui um caráter social de proporções indescritíveis. Não se pode aceitar que certas práticas continuem a ser impunes, e que aproveitadores continuem a tentar desvirtuar os seus princípios fundamentais em busca de proveitos financeiros.

Não tenho nenhuma dúvida que a manipulação de resultados desportivos, assim como outras condutas não condizentes com os princípios do esporte, deveriam ser punidas como um crime como outro qualquer.

Precisamos de uma reforma legislativa já. De uma reforma séria, sensata, e não política. Para a punição dos responsáveis e da busca pela tão sonhada credibilidade do nosso esporte.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br

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Fermento

Você não vai gostar do que vai ler. Provavelmente, irá reclamar.Quiçá me enviará um e-mail. Mas alguém tem que dizer. O futebol não é um negócio tão grande quanto você imagina. Não é. Nunca foi. Provavelmente, nunca será.

Alguém, em algum lugar, criou o mito. Provavelmente foi o William MacGregor, um escocês que era dono do Aston Villa e fundou a Football League na metade do século XIX. Ele, em seu livro ‘The book of Football’, escreveu: ‘football is a big business’. A ideia pegou, e todo mundo passou a reproduzir.

Você pode estar pensando que eu sou idiota, o que é justo. Afinal, todo mundo diz que o negócio do futebol é enorme, só que mal explorado.Mas a verdade, infelizmente, é que o futebol é um negócio extremamente supervalorizado. Ele gera mais exposição do que dinheiro. E, talvez por isso, todo mundo ache que vale muito, mas muito dinheiro.

Você conhece a Usina Itaiquara de Açúcar e Álcool S.A.? É provável que não. A não ser que você trabalhe no setor de cana-de-açúcar, ou que compre produtos de panificação, ou que more em Tapiratiba, São Paulo, ou que torça para a Portuguesa, o que eu imagino não serem características do perfil dos poucos que leem essa coluna.

De qualquer maneira, a Itaiquara produz energia, produtos pra confeitaria e produtos pra uso doméstico, como açúcar, mistura pra bolo, mistura pra pão de queijo e fermento, que minha mãe sempre disse também ser energia.

Incrivelmente, ou não, a Itaiquara patrocina a Portuguesa, além da Pizza na Roça, supostamente a melhor pizzaria do Brasil, localizada em Caconde, São Paulo. Incrivelmente, também, é que a Itaiquara não está sendo citada aqui por nada disso. A Itaiquara está sendo usada de exemplo porque ela foi a milésima empresa em vendas do Brasil no ano de 2008, de acordo com o índice “Melhores e Maiores” da Exame. A Itaiquara faturou no ano passado 133,9 milhões de dólares, o que dá cerca de 320 milhões de reais de acordo com a cotação usada pela revista. A milésima empresa do Brasil. Isso quer dizer que outras 999 empresas faturaram mais.

E sabe quanto o São Paulo Futebol Clube, tradicionalmente o clube com maior receita do país, faturou no ano passado? 158 milhões de reais, menos da metade do faturamento da Itaiquara, a milésima empresa do Brasil, que vende produtos de panificação e patrocina a Portuguesa, o que – colocando nessa ordem – até faz sentido. Menos da metade. O maior clube do Brasil.

Lógico que você vai dizer que o São Paulo explora mal as receitas e que ele poderia crescer muito mais se o futebol fosse mais organizado. Certo. Não há dúvidas que ele poderia arrecadar mais. Mas quanto mais? O grosso da grana, quase 40%, vem da venda de jogadores e direitos de televisão, valores que dificilmente podem ser elevados. Adicionando o patrocínio, que está num valor bastante significativo e que dificilmente tem espaço para crescimento, o percentual sobe para quase 50%. Esse valor é de certa forma consolidado e tem pouco espaço para crescimento, por mais bem organizado que o clube seja.

De resto, tem valor de ingresso, sócios, premiações, enfim, uma diversidade de coisas. Que até poderiam apresentar também um crescimento, mas nada capaz de fazer dobrar o faturamento do clube para que ele, dessa forma, chegasse próximo à milésima empresa do país.

Na Europa, acredite, também não é diferente. Os clubes de futebol não figuram na lista das maiores empresas de qualquer país. Apesar de ter uma exposição enorme, o negócio do futebol, volto a dizer, não é tão grande assim.

Diminuir as expectativas de geração de receita provenientes do futebol, em especial do Brasil, talvez seja um passo importante para se melhorar as condições atuais. Por isso, por mais decepcionante que possa parecer, é imprescindível que se analise a realidade do jeito que ela é.

E se você é de Itaiquara ou trabalha em um canavial, ou é torcedor da Portuguesa, por favor, me envie um e-mail. Ficaria bastante contente em conhecer as razões pelas quais você lê o que eu escrevo.

Em tempo: caso o São Paulo tivesse enviado o seu balanço para a Exame, ele ficaria na honrosa milésima centésima nonagésima quinta posição, empatado com a Ponte de Pedra, uma hidrelétrica localizada em Itiquira, Mato Grosso, que tem seis funcionários. Se você é de Itiquira, também pode me mandar um e-mail. Se você for um desses seis funcionários, por favor, não mande nada. Seria assustador demais.

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Informação é o nosso esporte

Há alguns meses, havia escrito minha coluna defendendo a dedicação dos clubes do futebol brasileiro a programas de pesquisa e desenvolvimento de produtos e serviços, tal qual é feito no mercado corporativo.

Dizia também, que a pesquisa vem antes do desenvolvimento, não só na própria expressão consagrada, mas na prática dos negócios.

Na semana passada, o Flamengo lançou um projeto vanguardista, chamado “Cidadão Rubro-Negro” (www.cidadaorubronegro.com.br) que visa atrair toda a massa de torcedores do clube para uma plataforma da internet, criando um ambiente de relacionamento social interativo e a partir do qual uma série de promoções e benefícios serão oferecidos pelo clube.

O “cidadão” virtual deve fornecer vários dados e preferências pessoais para criar seu perfil no site e isso, por si só, já lhe outorga pontos para acumular e trocar pelos benefícios e interagir em comunidades, compartilhando experiências e contatos com os membros da “nação”.

Não é um simples programa de sócio-torcedor. Existem categorias pagas e uma delas não-paga.

E, por que não-paga? Porque o maior valor do programa não está nessa receita direta de associações, mas sim, nas informações do perfil dos cidadãos, como o próprio site explicita.

“No Cidadão Rubro-Negro a torcida não financia o clube. Ao contrário, o grande valor para o Flamengo transcende um plano de mensalidade. Conhecer a torcida e construir uma imensa base de dados produzirá inteligência de mercado e trará mais receitas para o clube do que qualquer contribuição financeira individualizada dos torcedores”.

A informação é a grande sacada. Principalmente a informação filtrada, depurada, qualificada e vinculada a uma paixão que lhe adiciona muito mais valor.

Os torcedores querem usufruir de um senso de pertinência à realidade do clube e se relacionar com tudo aquilo que lhe diz respeito no dia-a-dia da instituição. Por isso, essa iniciativa possui grande potencial para ser reproduzida por outros clubes, independentemente do tamanho de sua nação – pois a paixão e o interesse, no futebol, não se medem, essencialmente, por isso.

Ademais, os clubes terão acesso a um meio de não só quantificar sua torcida – uma vez que as principais pesquisas realizadas até hoje careciam de maior precisão metodológica e amostragem – mas qualificar: cada torcedor terá um RG completo e detalhado sobre o seu envolvimento com o clube.

Com isso, a própria informação e o seu consequente uso adquirem mais valor de maneira a potencializar receitas de patrocínios e promoções.

Se informação não valesse tanto num mercado cuja conectividade e interatividade digitais imperam, o Google não seria uma das marcas mais valiosas, atualmente, em todo o mundo. E o que ele vende são serviços variados de informação.

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Marcos e o penalty do Youtube: avanço ou falta dele

Olá amigos,

Na última semana, o goleiro Marcos, do Palmeiras, voltou a ser notícia de destaque, após pegar um pênalti contra o Atlético-MG, e, principalmente, pelo que disse após defender a cobrança.

Marcos disse: “Estudamos o que cada um faz. Quando a paradinha era novidade, tudo bem. Era bom para os atacantes, mas hoje em dia não é. Hoje existe internet, YouTube e nós podemos observar os batedores”.

Pode-se dizer que não é um fato extremamente novo no futebol. É curioso e, talvez, inédito no Brasil, mas existem outros exemplos de goleiros que se utilizam de recursos tecnológicos para mapear os estilos e cobranças de seus adversários.

No fim do ano passado, o goleiro Marco Amelia, do Palermo, da Itália, após defender uma penalidade de Ronaldinho Gaucho, afirmou que, no momento da cobrança, o atleta brasileiro executou movimentos muitos similares aos de um jogo de videogame.

“Foi como se estivesse jogando contra Ronaldinho no Playstation. Ele fez o mesmo movimento, a mesma corrida para a bola, muito estranho. No último instante, vi que ele havia mudado o canto e, então, mudei também o movimento, indo na bola e fazendo a defesa. Olhei nos olhos dele e pensei que ele iria bater no outro canto, mas quando o vi mudando a posição do pé, percebi que ele decidira mudar a batida”. Amelia quase defendeu outro pênalti, no mesmo jogo, também cobrado por Ronaldinho.

No começo deste ano, na final da Copa da Liga Inglesa, o goleiro Foster, do Manchester United, disse ter utilizado vídeos, desta vez por meio de um Ipod, para identificar o estilo dos batedores.

“Tentamos descobrir tudo sobre o adversário. E pouco antes do início das penalidades, eu olhei vídeos em um iPod com Eric Steele, treinador de goleiros. Acompanhei algumas cobranças de jogadores do Tottenham, inclusive, de O’Hara”.

Devemos espetacularizar a iniciativa de Marcos, e desses outros goleiros?

Por um lado podemos dizer que sim, que mostra o quão envolvidos os atletas estão com o jogo, estudando os adversários, se preparando com vídeos, colhendo informações e o que for possível sobre determinado jogador. Isso ressalta a qualidade e justifica o porque de um goleiro como Marcos ter o sucesso que tem, para além do carisma, sustentado por resultados.

E, porque eu acredito que, por outro lado não deva ser encarado como um aspecto positivo? Única e exclusivamente por se restringir a profissionais e craques de futebol que fazem de sua dedicação o diferencial.

Seria riquíssimo se todos os atletas agissem como Marcos, mas muito mais do que isso, que os clubes tivessem uma estrutura e os profissionais que gerenciam, planejam e desenvolvem os trabalhos nas equipes dessem valor a questões como essa que, conforme defendemos em outros textos, fazem parta de uma Central de Inteligência de Jogo (CIJ).

A CIJ deveria ser uma estrutura do clube, assim como os aparelhos de musculação. Uma estrutura que permitisse coletar, armazenar e interpretar as informações de jogo, sejam elas vídeos, estatísticas, scout, relatórios, depoimentos, ou o que quer que possa ser transformado em estratégia. Talvez seja a falta de um profissional com a qualidade de observar fatos e transformá-los em informações, mas enfim, investir em capacitação profissional é também investir na estrutura do clube.

Algumas agremiações, que justiça seja feita, já possuem um Data Center, ou uma central de vídeos. Mas, mais do que isso, é importante que essa estrutura seja realmente aplicada, que faça parte da “filosofia de jogo” das comissões técnicas.

Ouvi, certa vez, o professor João Batista Freire (não me recordo os atores referenciados à época), falando sobre pedagogia do movimento, explicar que uma empresa ou um adulto podem construir um belo e dinâmico brinquedo, mas que esse só vai se tornar realmente um se a criança utilizá-lo e transformá-lo em objeto de sua brincadeira. É ela que vai fazer o uso, que quase sempre difere daquela ideia bruta e inicial de quem o desenvolveu.

É imprescindível que os técnicos queiram brincar. Um dado, um fato, só se transforma em informação quando é utilizado por quem interfere no jogo, por quem brinca.

E para não assustar aqueles que ainda acham que o futebol corre o risco de ficar extremamente tecnológico e sem graça, lembramos que o papel que o Youtube ou o Ipod desempenharam para Marcos e Foster era muito bem desempenhado pelo preparador ou goleiro reserva que ficava atrás do gol com um papel com as anotações sobre os batedores. Só que hoje, além da informação, é mais fácil memorizar o estilo com a facilidade de armazenamento da imagem.

Sobre o Youtube existem ainda outras possibilidades já em uso, abordaremos num próximo texto.

[i]
Marcos revela que Youtube é sua arma para estudar cobranças de pênaltis

[ii]
 
https://seguro.lancenet.com.br/noticias/09-03-02/498406.stm

[iii]
http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/italiano/0,,MUL884541-9848,00-GOLEIRO+QUE+PAROU+RONALDINHO+USOU+VIDEOGAME+PARA+DEFENDER+O+PENALTI.html

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br

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O reflexo do Brasil

Nesta manhã de segunda-feira, em São Paulo, o Grupo Pão de Açúcar celebra a assinatura do contrato de patrocínio com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O acordo vai até a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no país, e renderá cerca de US$ 5 milhões ao ano para os cofres da CBF.

Para quem esteve, há menos de dez anos, ameaçado de perder o cargo e ir para a cadeia, a assinatura de mais um contrato de patrocínio deveria ser motivo de orgulho. Ricardo Teixeira, presidente da CBF, conseguiu uma das mais vitoriosas histórias no cenário empresarial brasileiro. Saiu do inferno para comandar o céu.

A Copa do Mundo de 2014 é hoje o pretexto para que a CBF e, consequentemente, Teixeira, tornem-se objeto do desejo de políticos e empresários. Decisões de quem pode ou não se beneficiar com a verba e o prestígio do Mundial tupiniquim cabem exclusivamente ao manda-chuva do futebol nacional.

E a celebração de mais um contrato de patrocínio para a CBF é um reflexo do que é o Brasil. Uma terra de absurdos contrastes, em que os mais ricos ficam ainda mais ricos e não se preocupam em dividir parte de sua riqueza com os mais necessitados.

Só em 2008, a CBF tinha quebrado o recorde de arrecadação na sua história. Com a Copa do Mundo confirmada no país, a entidade viu saltar o número de patrocínios e, também, aumentarem os valores pagos pelos patrocinadores que já estavam com ela. A consequência disso: a entidade teve um lucro recorde de R$ 32 milhões.

Com a sobra do dinheiro, o que fazer? Uma das medidas tomadas foi comprar um jato de US$ 10 milhões para a entidade. A justificativa é de que o avião facilitaria as viagens dos membros da Fifa que estarão por aqui para visitas das sedes da Copa. Só que as escolhas já estão feitas e, ao mesmo tempo, as viagens são cada vez mais raras.

Enquanto isso, os clubes que disputam as séries C e D do Campeonato Brasileiro sofrem para conseguir realizar suas viagens e disputar um campeonato que não seja deficitário. Isso sem falar no futebol feminino, que mal tem um torneio para disputar.

A CBF se comporta como um novo rico. Com muito dinheiro, em vez de ajudar o próximo, se preocupa em ostentar a riqueza. E a imprensa, quando denuncia a farra que é feita com esse dinheiro, é chamada de patrulheira.

Para interagir com o autor: erich@universidadedofutebol.com.br

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A "consciência tática" do jogador de futebol e a ação do treinador

(…) como diria um dos nossos bons treinadores, “treinador que tem que ficar gritando na beira do gramado durante o jogo é porque não trabalhou direito durante a semana”

Dia desses no Café dos Notáveis, um deles (dos notáveis) me chamou a atenção, apontando que, mais uma vez, em letras garrafais, um jornal fazia referência ao fato de que muitos treinadores brasileiros continuam a defender a tese de que os jogadores europeus e os argentinos têm “mais consciência tática” do que os brasileiros.

Sem entrar no mérito conceitual sobre o que seja a tal “consciência tática”, o fato é que essa “fala” de alguns treinadores é recorrente. Até alguns dos mais renomados, quando colocados na parede para justificar uma ou outra decisão tática, ou um ou outro comportamento da equipe, profere a frase pronta, comparando a consciência tática do jogador brasileiro com a do europeu.

Chamo a atenção, então, para duas coisas.

Primeiro, ainda que meu objetivo não seja discutir conceitualmente o que é consciência tática, vejo ser necessário, sem dizer o que ela é (ou deveria ser), dizer ao menos, o que ela não é. Alguns treinadores (e não só eles) a confundem com os seus próprios desejos equivocados e precipitados de que os jogadores se comportem em campo como “robôs”, programados para receber ordens e realizar ações pré-determinadas, sem pensar, obedientes.

Nesse caso, a consciência tática acaba sendo tomada erroneamente como “obediência tática”. E aí já não poderíamos dizer que os jogadores europeus são mais obedientes, porque, na verdade, pelo contrário, são estimulados a pensar, interagir, tomar decisões e participar ativamente da construção da equipe. Então, não! Nem a consciência tática deve ser confundida com obediência tática, nem nessa perspectiva poderíamos dizer que os europeus ou argentinos são mais (obedientes), porque o que costumam mostrar é autonomia.

Em segundo, diria que se não tomarmos, então, a consciência tática como obediência (porque ela não é!), mas a aproximarmos da ideia de uma percepção e entendimento do jogo em suas circunstâncias, por parte dos jogadores, teremos que atestar que a falta dela (da” consciência tática”) é incompetência de quem gere, tanto o processo de formação de jogadores, quanto a construção e treinamento de uma equipe profissional.

Se os jogadores são estimulados, mecanicamente, a cumprir tarefas, aprenderão “roboticamente” a agir assim – “controlados remotamente”. A melhor percepção e entendimento do jogo é algo que se constroi, com a ação do treinador. Então, dizer que o jogador brasileiro tem “menos consciência tática” do que o europeu ou o argentino é o mesmo que concordar que a ação do gestor de campo no Brasil é pior do que a do gestor de campo na Europa ou Argentina.

Recentemente, como já escrevi nesse espaço, renomados jogadores brasileiros (campeões mundiais, inclusive), que por muito tempo estiveram jogando na Europa, afirmaram que nossos jogadores aprendem mesmo sobre tática quando vão jogar no Velho Continente.

Não vou entrar na essência dessa discussão. O fato é que, enquanto tratarmos nossos jogadores como inaptos, menos inteligentes ou “burros”, seremos incapazes de perceber e resolver o problema real – que está na maneira com que são estimulados na preparação para o jogar.

E para isso não há saída: ou mudamos a abordagem, ou continuaremos reforçando os mesmos jargões de sempre.

E aí, não tem jeito, porque enquanto treinadores (claro, que existem inúmeras exceções!) continuarem achando que os jogadores europeus têm “mais consciência tática” do que os jogadores brasileiros, continuarão também acreditando que os gritos (berros!) na beira do gramado sempre serão o melhor controle remoto – e que ter controle remoto é essencial.

Mas sempre há salvação. E como diria um dos nossos bons treinadores, “treinador que tem que ficar gritando na beira do gramado durante o jogo é porque não trabalhou direito durante a semana”.

É isso…

E viva a autonomia!

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Vai mudar?

Existem dois motivos que dão suporte à transição do calendário do Campeonato Brasileiro para o formato Europeu. O primeiro, e mais óbvio, é a adequação às janelas de transferências. Jogadores que hoje saem no meio do Brasileirão poderão sair no começo ou no fim, sem afetar a montagem do time. O segundo motivo é a possibilidade de clubes brasileiros começarem a disputar amistosos e torneios de pré-temporada, coisa que vem crescendo, apesar de tudo indicar que não deve durar muito, dada a ligeira insipidez dessas competições.

O primeiro movimento para essa mudança foi dado. A CBF acenou com a possibilidade. A imprensa comemorou.

Mas há motivo para preocupações.

Se dois motivos dão suporte à mudança, pelo menos, outros cinco sugerem que essa alteração do calendário pode gerar alguns efeitos negativos. Vamos a eles:

1) Motivação: ao que tudo indica, a ideia já existente da adequação do calendário só veio a acontecer mesmo por causa do pedido que o presidente Lula fez a Ricardo Teixeira, que prometeu estudar a sugestão. E Lula pediu isso porque viu seu time do coração, campeão da Copa do Brasil, e, até poucas semanas atrás, também candidato ao título brasileiro, vender alguns titulares e começar a jogar mal. Se isso tivesse acontecido com outro time, é possível que Lula não fizesse o pedido.

Além do que, Lula pode até ser um grande torcedor e acompanhar bastante os jogos, mas está longe de ser um profundo conhecedor sobre a dinâmica da matéria.

A motivação, portanto, é fraca. O pensamento é extremamente superficial. E quando uma transformação com essa profundidade tem esse tipo de motivação, a tendência de dar problemas é grande.

2) Geografia: existe uma razão clara para que a temporada européia comece em agosto e termine em maio, e ela se chama verão. Não há futebol no mundo que possa competir com o verão e com as férias escolares. No verão, o público não sustenta o jogo. A praia ganha mais força, o sol fica até mais tarde e as pessoas tendem a assistir menos televisão. Muita gente faz viagens longas. Nessa época, o futebol perde valor tanto como evento físico, dentro do estádio, como produto de entretenimento, como a televisão. Em suma, no verão existe muito mais coisa pra fazer do que assistir uma partida de futebol. E no inverno, que não tem nada pra se fazer, também não vai ter futebol.

3) Público: com mais opções de lazer, viagens e afins, o futebol tende a perder o público casual, ficando relegado ao público mais ligado ao clube, ou seja, àqueles mesmos torcedores de sempre que já não têm mais produtos pra consumir. Isso é ruim. Pior é que nas férias de final de ano, ninguém quer gastar mais dinheiro que não seja em presentes e coisas do tipo.

Algumas empresas, possivelmente, perderão interesse em ter camarotes entre dezembro e o carnaval. A classe média vai para a praia, e para lá também vão os anunciantes e aqueles interessados em fazer ações promocionais. O futebol certamente perde valor corporativo.

4) Transferências: Jogadores continuarão a ir embora. Com a adequação do calendário de jogos à Europa, também ocorrerá a adequação do calendário de preparação física, o que pode incentivar clubes de fora a contratarem brasileiros no meio do campeonato sem ter receio em relação ao esgotamento físico dos jogadores.

Além do que, eles também podem focar na contratação do meio da temporada para poder haver tempo suficiente de adaptação ao país e à cultura antes do ano seguinte. Isso já aconteceu com o Pato e com o Thiago Silva. Pode vir a acontecer ainda mais.

5) Eleições: Não sei exatamente qual é a dificuldade em se mudar datas de eleições no estatuto de um clube, mas certamente que alguns clubes terão que alterá-las para não correrem o risco de trocar de presidente no meio do campeonato.

Existe, obviamente, muita coisa a mais. E os pontos aqui também merecem um debate mais aprofundado, com mais tempo e pontos-de-vista. Com exceção, é claro, do primeiro, que não é especulação, é fato. E esse é justamente o que mais preocupa, porque enquanto o futebol brasileiro continuar obedecendo a eventuais leviandades dos tomadores de decisão, nada vai melhorar. Nem se mudar o calendário.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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A melhor coisa que não aconteceu

Você já parou para se perguntar qual foi a melhor coisa que não lhe aconteceu?

Fomos educados e estamos acostumados a esperar positivamente pelas coisas.

Positivamente, entenda-se aqui, como algo que acontece em contraposição ao que deixa de acontecer.

Mas, será que os não-acontecimentos também não seriam valiosos para a evolução das pessoas e, na mesma esteira, de nossas instituições?

No Estado do Paraná, um episódio marcante pode ilustrar como esses não-acontecimentos podem provocar reações positivas.

Em 1995, o Atlético-PR sofreu uma humilhante goleada de 5 x 1 para o seu maior rival, o Coritiba, e ficou fora da disputa do título estadual.

Dirigentes do clube, liderados pelo já mítico Mario Celso Petraglia, reuniram-se para lançar as bases de uma revolução administrativa no clube, impulsionando-o para a organização, a infraestrutura e os títulos.

À parte dos resultados alcançados ao longo dos quase 10 anos seguintes, o que realmente interessa, é a postura transformadora adotada por esses dirigentes a partir de uma situação esportiva isolada, porém, representativa de uma gestão anterior que não funcionava ao longo dos anos.

Até hoje, os torcedores do Atlético-PR “agradecem” pela goleada sofrida frente ao maior rival.

Nem só com processos administrativos absolutamente planejados como nós queremos é que se move o mundo. Às vezes, são necessários saltos evolutivos e não-acontecimentos daquilo que esperávamos acontecer automaticamente.

O aleatório também está presente em nosso cotidiano – muito mais do que supomos, e também provoca e influencia reações em nossas atitudes ou omissões – queiramos ou não.

Na linguagem “boleira”, quando se está numa situação muito difícil, sem vitórias, sem títulos, costuma-se dizer que “se o time perder hoje, até a cozinheira e o roupeiro vão cair…”.

Nesse sentido, quem sabe, realmente exista um lado muito positivo de não-acontecimentos para o seu clube.

Portanto, na próxima vez em que for “secar” o treinador para não acontecer de ganhar determinada partida e ser demitido, pode valer a pena que você inclua nesses pensamentos os seus dirigentes.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Processo digestivo do impacto tecnológico: os receios não são exclusivos do futebol

Olá amigos.

Em janeiro deste ano, foi publicada uma lei (nº 11.900) que permite aos juízes (juízes mesmo, não os árbitros de futebol) optar por ouvir os depoimentos dos presos por meio de videoconferências.

A medida prevê uma análise dos riscos de segurança que o réu oferece, das condições de saúde do mesmo entre outros aspectos.

A adoção desta tecnologia vem causando grandes polêmicas e focos de discussão. Apesar de não tratar especificamente do futebol, ainda que desejemos que alguns envolvidos com o esporte bretão estivessem na condição de usuários dessa tecnologia enquanto presos (mas isso é outra história), o ambiente criado em torno dessas polêmicas nos mostra que não é exclusividade da modalidade gerar crises com a adoção ou não de recursos tecnológicos.

Retomamos a ideia do processo digestivo do impacto tecnológico, e das dificuldades de nós, seres humanos, em lidar com o novo, ou ainda, em aceitar que precisaremos nos atualizar profissionalmente para fazer algo que sempre fizemos.

Vejamos mais um pouco da repercussão sobre a lei em questão. Seus defensores apresentam números  sobre a liberação de 900 policiais que retornariam às ruas, mais as viaturas que estariam livres para ajudar no policiamento, a diminuição dos gastos com os deslocamentos para a realização das audiências entre presos, advogados e juízes, sem contar a diminuição do risco das eventuais tentativas de resgates por parte de grupos criminosos.

Seus críticos argumentam que isso tira a possibilidade do contato “olho no olho” entre juiz e preso, o que pode ajudar o juiz a interpretar a sinceridade do depoimento. Outro argumento levantado é sobre os prejuízos causados pelo o fato do advogado estar ao lado do juiz e não do preso durante a sessão, restringindo sua atuação mais próxima ao seu cliente. Em síntese, a restrição de uma análise “humana” como dizem alguns críticos.

Analisando o contexto em si, é possível identificar elementos comuns com a prática do futebol e, novamente, destacar que, cada vez mais, fica evidente e repetitivo que o profissional que se atentar a essas questões e antecipar-se ao movimento estará em destaque quando ficar inevitável a necessidade de pessoas que saibam lidar com os novos recursos. Esse saber lidar significa utilizar suas habilidades e competências tirando o máximo de proveito dos recursos, porque como já disse Dirk Wolter “nada funciona se não fizermos realmente funcionar”.

A adoção da tecnologia, dos processos de gestão, dos estudos aprofundados, da compreensão do que as ciências humanas podem dar ao futebol, enfim, a compreensão de que o futebol deve ser entendido como um todo e não apenas como fatores isolados, contribui para uma série de aspectos:

– diminuição de custos de viagem com análise de adversários e prospecção de jogadores;

– diminuição dos custos operacionais e administrativos por meio de instrumentos mais precisos e eficazes de gestão, controle e comunicação;

– diminuição do tempo gasto pelos profissionais para coletar informações de âmbito físico, técnico e tático, conseguintemente, aumentando o tempo do profissional para usar suas competências na analise em si dos dados e na elaboração de intervenção e estratégias, isto é, aumento do tempo destinado a intelectualidade da função, deixando o trabalho “braçal” de coleta de dados para recursos muito mais precisos e detalhistas que nós, seres humanos (lembrando que somos nós que dizemos o que o computador deve fazer).

Muitos outros aspectos podem ser citados, o que precisamos é não nos tornarmos presos de nossas próprias limitações, pois, se assim for, nem as videoconferências nos ajudariam.

¹ (fonte: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3438467-EI5030,00.html)

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br