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Registro de atletas: hora de mudar

Novamente o tapetão entrou em campo e alterou o resultado desportivo e retirou 21 pontos do América mineiro na Série B, em virtude de inclusão de atleta em súmula em desacordo com o Regulamento Geral das Competições.

Infelizmente, situações como esta tem se repetido no futebol brasileiro e a tabelas tem se recheado de asteriscos. Inclusive, no ano passado, a determinação do clube rebaixado na Série A do Brasileiro se deu por decisão da Justiça Desportiva.

Diante dessas reiteradas situações, imprescindível repensar a forma de controle das condições de jogo do jogador de futebol. A CBF, responsável pela organização do futebol no Brasil, precisa perceber que suas funções vão além da gestão da Seleção Brasileira e da confecção de tabelas e deve criar meios efetivos para que o resultado desportivo seja preservado.

Ora, deve prevalecer o princípio pro competicione e a CBF deve se esmerar para que o resultado desportivo prevaleça sobre o tabetão. Vale destacar que bastaria um software para indicar se o atleta está ou não apto para a partida, o que evitaria uma série de embates na Justiça Desportiva.

Diante do exposto, percebe-se a necessidade de mudança de paradigmas para que, ao invés do clube, seja a organizadora do evento responsável pelo registro e regularidade dos atletas. Tal medida impediria a interferência da Justiça Desportiva no resultado. 

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Sete a um

Esbaforido, o morceguinho-correio guinchou :

– É ele, eu vi, é ele, tenho certeza.

Alertados pela guincharia do pequeno quiróptero, os amigos aguardavam impacientes, desde a chegada do bichinho no começo da noite: Aurora empoleirada no mais alto galho da Aroeira, Oto de cabeça para baixo na entrada da caverna, sem nunca perder Aurora de vista, Arnaldo, dando cabriolas de contentamento no lago escuro.

O morceguinho-correio errou nos cálculos e os amigos passaram a noite em vigília. O sol lançava seus primeiros raios quando Bernardo chegou. Aurora saudou-o, Oto pendia de sono.

– Que bons ventos o trazem meu amigo? Quanto tempo! Até achei que não voltaria mais!

– Ah minha amiga, nem te conto! Foi uma verdadeira tragédia!

Conhecendo seu gosto pelo futebol Aurora arriscou:

– Os sete a um?

– Que sete a um?

– Não conta, não conta – sussurrou Oto -, ele pode não aguentar.

Bernardo não lembrava, não sabia que tinha sido sete a um. Sim, ele assistira ao jogo, mas não todo. Só lembrava de três gols, um em seguida ao outro, da Alemanha. Depois disso apagou, como se tivesse dormido. Só voltou a perceber as coisas quando já estava há poucos quilômetros da caverna.

– É melhor contar de uma vez – sussurrou, de sua parte, Aurora para Oto -, ele vai saber de qualquer jeito.

– Prepare-se meu amigo – disse Aurora cautelosa, desta vez para Bernardo –, não foi três a zero, foi sete… a um.

– Mas nós fizemos um, fizemos um, o de honra, o mais bonito – gritou do lago Arnaldo, o bagre.

Bernardo, ouvindo aquilo, perdeu novamente os sentidos, desta vez, acompanhado de perda dos movimentos também. Caiu como se estivesse morto. Oto e Aurora esqueceram as rivalidades e correram ao lago buscar água. Molharam o rosto do eremita, abanaram-no com as asas, até que a cor voltou à pele e o pobre homem se mexeu.

– O que foi sete a um? – perguntou Bernardo

– Depois a gente fala disso – respondeu Aurora.

– Não, eu quero saber agora, quero saber de tudo.

– Conta Oto – falou Aurora, virando o rosto -, eu não vou fazer isso.

E Oto contou, com detalhes. Contou como os alemães foram para cima das fileiras do time brasileiro, como panzers, passando por cima de tudo. E enfiaram, quatro, cinco, seis, sete gols nas redes brasileiras. E só não fizeram mais porque ficaram com pena.

– Com pena! – exclamou Bernardo. – Mas somos o time brasileiro, pentacampeões do mundo, os melhores em todos os tempos. Está certo que decaímos um pouco, mas nunca para perder de goleada… de ninguém.

Oto descreveu os lances, falou de como os alemães perderam de propósito outros gols. E que, dias depois, os holandeses fizeram três no nosso time, e também se desinteressaram por fazer mais.

– E alguém foi preso? – perguntou Bernardo.

– Ninguém – respondeu Aurora.

A coruja perguntou se ele veio para ficar e ele disse que sim, que já estava mesmo saturado das coisas da cidade, com vontade de voltar para a caverna, não aguentava o trânsito, o barulho, a violência, o mau-humor das pessoas, a correria, e que quando os alemães fizeram os três primeiros gols, foi a gota d´água, o ponto de saturação, e ele perdeu a noção do tempo, das coisas, e só não perdeu a noção do espaço, pois, de alguma maneira, conseguiu se orientar até ali.

– Pois então prepare-se, pois tenho mais uma notícia ruim para lhe dar – disse a coruja.

– E tem mais? O que pode ser ruim depois dos sete a um?

– Dunga é o novo técnico da seleção – anunciou a ave.

– A TV ainda pega aquele canal Z33? – perguntou Bernardo.

O eremita referia-se a um canal misterioso que eles sintonizavam no velho aparelho de televisão presenteado pelo jovem João Paulo anos antes, e que tinha o poder de mudar a realidade, transmitindo só as coisas que os telespectadores queriam ver.

– Pega sim – respondeu Aurora.

O sol ardia no meio do céu e os quatro amigos ainda vibravam na frente da TV, no salão da caverna, gritando como loucos a cada novo gol do Brasil contra a Alemanha. Já estava oito a um para nossa seleção e agora os jogadores do nosso time, com pena do adversário, apenas trocavam passes, aguardando o apito final.

*Bernardo, o eremita, é um ex-torcedor fanático que vive isolado em uma caverna. Ele é um personagem fictício de João Batista Freire.

Para interagir com o autor: bernardo@universidadedofutebol.com.br

Leia todas as colunas anteriores de Bernardo clicando aqui.

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Persistência para o sucesso

Todos os grandes atletas de sucesso possuem em sua vida profissional e pessoal uma caraterística muito importante que contribui para o desempenho elevado: a persistência! Como dizia Samuel Johnson, pensador e escritor inglês “poucas coisas são impossíveis para a diligência e a aptidão; as grandes obras não são realizadas pela força, mas pela persistência”.

Podemos compreender então que a persistência é a marca do sucesso de todo atleta, pois todos caracterizam-se pela força de vontade ímpar e pela inabalável persistência em suas carreiras, com o objetivo de perseguirem os seus melhores resultados. Talvez, fazer da persistência o seu maior bem seja a alavanca que o fará performar melhor do que qualquer outro atleta de sua posição numa equipe de futebol.

Apesar disso, nem sempre persistir é uma tarefa fácil para todo atleta e nem para as demais pessoas em suas respectivas áreas de atuação, pois apesar de todos darem o melhor dos seus esforços, as decepções e as adversidades estarão presentes uma vez que são partes naturais da vida de todos nós. É muito difícil evoluirmos em nossas vidas e carreiras, consequentemente crescermos e podermos desenvolver o nosso potencial por completo se não enfrentarmos a adversidade que nos possibilitará aprender com elas; por isso é importante reconhecermos que a maioria das grandes lições da vida são resultado de reveses e de derrotas temporárias pelas quais passamos.

As adversidades nos testam e precisamos reagir às decepções, pois é fato que muitas vezes o sucesso sempre chega um passo além do fracasso de cada um de nós!

Então amigo leitor, para podermos persistir sempre e conseguir atingir nossos objetivos eu compartilho dicas valiosas de Brian Tracy, que servirão para todos nós mas principalmente aos atletas de alta performance.

1. Identifique seu maior desafio ou problema que possui atualmente na direção da realização de sua meta mais importante. Sempre que encará-lo de frente você deve decidir nunca desistir de sua meta e enfrentar o problema;

2. Revise sua vida e identifique situações em que sua decisão de persistir foi a chave para um resultado bem sucedido. Lembre-se dessas experiências e de suas sensações sempre que enfrentar qualquer tipo de dificuldade ou eventuais desânimos;

3. Procure encontrar em cada problema, dificuldade, obstáculo ou revés, a semente de um benefício ou oportunidade de proporção igual ou ainda maior do que a sua dificuldade. Esteja consciente de que você sempre encontrará algo capaz de ajudá-lo a seguir adiante;

4. Em todas a situações que passar, decida se orientar pela ação e para as soluções que possui. Pense sempre sobre o que é capaz de fazer agora, neste momento, para resolver seus problemas ou atingir suas metas e comece a agir imediatamente. Nunca desista!

Caro leitor, persistir pode levar qualquer atleta ao topo da excelência profissional e pessoal, além de ser uma grande alavanca de realizações na vida de todos nós.

Até a próxima. 

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Fracionar ou agregar?

Existe muita crítica e, por vezes, até lendas urbanas, em torno da maior rede de televisão do país, a Globo. Algumas mais perversas, outras com algum indício para se iniciar um bom debate… O que é certo é que a capacidade que o grupo de mídia adquiriu ao longo dos anos no aspecto comercial é de se analisar, estudar e pensar em formas de adaptação para outros negócios.

Remeto desta vez a notícia que diz que a “Globo vende futebol por R$ 1,3 bi e fatura mais que Record em um ano” (http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/mercado/globo-vende-futebol-por-r-1-3-bi-e-fatura-mais-que-record-em-um-ano-4842), em reportagem que mostra que a emissora conseguiu fechar o pacote comercial do futebol para 2015 com um aumento de 21% de seu valor em relação a 2014.

Sim, em um ano em que o futebol brasileiro foi colocado em cheque, os clubes não vêm conseguindo fazer bons acordos comerciais com empresas privadas (para patrocínio direto) e a economia não está das melhores, além das audiências na televisão, a Globo conseguiu ampliar os investimentos corporativos de maneira significativa.

A explicação deste “fenômeno”, aparentemente, está no título desta coluna: vejam que, pela referida reportagem, a Globo não vende as “partes” de maneira separada, ou seja, não vende para cada empresa as competições de forma dissociada uma da outra. Vende sim a “Plataforma Futebol”.

Ao agregar tudo o que há de comunicação ligada ao futebol a um seleto grupo de empresas, naturalmente que o público irá melhor identificar as marcas e, consequentemente, estas marcas estarão mais dispostas a fazer maiores investimentos.

Esta premissa faz todo sentido. É lógico que não podemos olhar para a questão de maneira simplista. Existem tantas outras variáveis que devem ser analisadas. Mas é um ponto de inflexão importante: a tendência de fracionamento de visibilidade é a de pulverização e consequente redução dos investimentos.

Vale muito para a estruturação dos Planos Comerciais que as entidades esportivas estão planejando para serem realizados em 2015. Ainda há tempo para construir algo bem mais consistente!!!

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Casillas não caiu

Aos 18 anos, Iker virou titular do clube do coração.

Desde aquele ano, 1999, é o terceiro atleta que mais atuou pelo decacampeão europeu – os últimos três títulos com ele no elenco, e com atuação colossal na conquista de 2002.

Campeão do mundo pela Espanha em 2010. Bi europeu em 2008 e 2012.

Tudo de ótimo que se pode esperar em um goleiro. Tudo de maravilhoso que o torcedor quer ver em alguém que veste a sua camisa como se fosse nem a segunda ou a primeira pele.

Mas a única.

Tão bom é que, mesmo falhando na decisão da Liga dos Campeões de 2014, a equipe ainda buscou o empate no final que, depois, virou goleada contra o bravo Atlético de Madrid.

Tão regular é que, mesmo tendo atuado mal na temporada que passou, ainda merece o respeito dos rivais, da bola, e da história.

Mas não de todos os torcedores merengues, que o vaiaram impiedosamente depois de mais uma falha decisiva – como também fez péssima Copa do Mundo, como toda a Espanha. No primeiro gol da vitória do Atlético, no Santiago Bernabéu, pela terceira rodada do Espanhol, Casillas não cortou a bola que chegou à cabeça do colchonero Tiago. Mais um gol defensável tomado por um ícone como Iker.

Mas as vaias a ele foram indefensáveis.

O torcedor que agora quer arrancar as guantes (“luvas”) dele da meta madridista não se aguentou e pegou pesado com a lenda da meta merengue.

Fosse Casillas mais um, e não apenas um dos melhores camisas um de todos os tempos e de todos os clubes, o goleiro do Real Madrid abusaria do primeiro verbete do Manual de Sobrevivência de Craques & Bagres do Futebol:

– Eu não preciso provar nada para ninguém.

E não precisaria provar e dizer o goleiro campeão da Copa do Rei por duas vezes, campeão da Espanha por cinco vezes, três vezes da Europa e uma do mundo com a camisa do colosso madrileno.

Mas Casillas é dos poucos que têm a humildade de fazer em vez de falar.

Sabe que o torcedor pode ser ingrato. Injusto. Esquecido. Tudo.

Casillas não se perde pela boca:

– O público é soberano. Se acham que devem vaiar, é preciso respeitar, enfrentar o problema e seguir trabalhando. O torcedor está no direito dele. Eu tenho de responder jogando o meu futebol.

É isso.

Que outros sejam como Casillas jogando. E também pensando, falando. Ou ficando quietos.

Respondendo pela bola, não pela boca. 

 

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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O novo mundo de Ronaldinho Gaúcho

Pensar no futuro é sempre um desafio, e esse desafio é ainda maior se o tal futuro em questão envolver um cenário em que você está inserido. São poucas as pessoas que conseguem projetar com acuidade a evolução de suas realidades, e esse é um dos motivos para as decisões que envolvem futuro profissional serem tão complicadas. Deixar a empresa em que você trabalha pode ser uma decisão simples, mas abre uma infinidade de caminhos. Escolher entre eles é também escolher para onde levar a própria vida.

O trabalho, afinal, não é a vida de ninguém. No entanto, a vida profissional é uma seara fundamental para qualquer um – seja por ambição, criação de laços com outras pessoas ou apenas por desenvolvimento pessoal – e exerce influência direta em outros âmbitos.

Tenha em mente os dois conceitos tratados nos parágrafos acima (a dificuldade para projetar o futuro e a relevância da vida profissional) e pense: o que você busca na carreira? Você trabalha apenas para acumular dinheiro, prioriza experiências ou quer aprimorar seu talento, por exemplo? Nenhuma das respostas é errada.

Agora tente transportar essa lógica para a carreira de um jogador de futebol. É justo condenar alguém que prefere ganhar dinheiro? É certo rotular ou diminuir um atleta que abre mão de desafios em nome de experiências pessoais?

Toda essa discussão precisa ser considerada antes de qualquer análise sobre Ronaldinho Gaúcho. Principalmente porque há poucas informações concretas sobre as motivações profissionais do meia-atacante – talvez por preservação da imagem ou talvez até por falta de percepção dele sobre o que está acontecendo.

Ronaldinho Gaúcho foi eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo em 2004 e 2005. Viveu um período incontestável – no primeiro semestre de 2006, não era raro encontrar quem dissesse que ele estava a uma Copa do Mundo de entrar no panteão de Pelé e Garrincha. E depois, o que aconteceu com a carreira dele?

Num primeiro momento, Ronaldinho Gaúcho fracassou na Copa de 2006. O jogador do Barcelona era um dos ícones daquela seleção de quem se esperava encantamento, mas as marcas indeléveis do time foram a falta de compromisso, o sobrepeso e a bagunça na concentração em Weggis (Suíça) antes do Mundial.

Depois, Ronaldinho simbolizou também uma derrocada no Barcelona. O time catalão caiu a ponto de romper com o modelo vigente e abrir mão de nomes badalados como Deco, Eto’o e o próprio brasileiro. A criação do time que encantou o mundo nos anos seguintes passou por essas saídas.

Ronaldinho passou anos no Milan e um período conturbado no Flamengo após ter deixado a Catalunha. Só foi reencontrar o protagonismo no Atlético-MG, time em que foi um dos artífices da campanha vitoriosa na Copa Libertadores de 2013.

No Atlético-MG, contudo, o período de bonança de Ronaldinho também não foi longevo. O segundo semestre de 2013 já não foi tão eficiente quanto o primeiro, e a temporada 2014 começou mal. O período do meia-atacante no clube acabou de forma melancólica – desentendimento com o técnico Levir Culpi e rescisão de contrato em julho.

Em 2006, Ronaldinho estava a alguns passos da imortalidade. O que motivou a mudança de desempenho dele nos anos seguintes? Foi apenas uma queda técnica ou houve uma decisão profissional? Ele escolheu novos caminhos porque ficou sem espaço nos clubes anteriores ou ficou sem espaço nos clubes anteriores por ter escolhido novos caminhos?

A questão é que a saída do Atlético-MG abriu novamente o mercado para Ronaldinho. O brasileiro podia ter usado diferentes argumentos para escolher um novo caminho, e o rumo que ele escolheu foi assinar um contrato com o Gallos Blancos de Querétaro, time que está longe de ser uma das potências no México.

E por que essa transferência, em meio a tantas outras, merece uma discussão um pouco mais aprofundada? Ronaldinho pode ter tido diferentes motivos para escolher o Querétaro. Pode ter feito isso por dinheiro, por vontade de viver no México ou por ter gostado do plano do clube para os próximos meses.

A questão é que as motivações profissionais podem ter origem pessoal, mas não podem desconsiderar que todo profissional é um produto. Ao decidir assinar contrato com o Querétaro, Ronaldinho criou efeitos imediatos para o valor de mercado que ele possui.

Toda decisão profissional precisa considerar isso também. Qual é o potencial do mercado mexicano? Ele tem abertura para um personagem como Ronaldinho Gaúcho? O Querétaro é a melhor forma de um jogador como ele ganhar espaço no país?

Ronaldinho pode ter tido excelentes razões para escolher o Querétaro. O ponto é: era esse o melhor caminho para a carreira dele? A decisão fez bem ou mal para o valor de marca do brasileiro?

Toda a condução da negociação deixa isso no ar. Ronaldinho pode ganhar muito dinheiro jogando no México, mas ganhar muito dinheiro nem sempre é a resposta para uma decisão profissional.

E quem tem um trabalho de gestão de carreira no futebol brasileiro? Que jogador toma decisões absolutamente baseadas em efeitos de mercado e imagem?

Se fosse assim, será que teríamos tantos jogadores no futebol ucraniano ou no futebol russo? Teríamos tantos jogadores em times grandes da Europa?

Pensar na carreira de um atleta é um desafio complicado, e nem sempre os parâmetros são simples. Muitas vezes, a vontade de um atleta pode não ser o desempenho esportivo. Ronaldinho Gaúcho abriu um mundo novo ao escolher defender o Querétaro. Mas era esse o mundo que ele queria? 

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Redução na pena de Petros: sinal amarelo

Nesta quinta-feira, o Pleno do STJD da CBF julgou recurso aviado pelo Corinthians contra decisão da Comissão Disciplinar que havia condenado o atleta Petros a suspensão por 180 dias em virtude de agressão ao árbitro e reduziu a pena para três jogos.

Segundo o STJD, a pena prevista no Código Brasileiro de Justiça Desportiva é demasiadamente pesada para o caso em comento, especialmente se considerando que a manutenção da decisão da Comissão Disciplinar impediria o atleta de exercer sua atividade laboral. Além ressaltou-se que o espírito da norma seria punir agressão com vias de fato e não situações de jogo.

Realmente, a punição prevista pelo CBJD parte de uma pena mínima de 180 dias para qualquer agressão,o que, em casos como o do meia Petros há exagerado rigor.

Por outro lado, trata-se de norma que deve ser aplicada pelo STJD, ainda que os auditores entendam ser injusta. Ora, ao julgador não cabe analisar se a lei é justa, mas, aplicá-la ao caso concreto, portanto, se houve agressão, a pena aplicável é a do art. 254-A.

Outrossim, o “caso Petros” acende a luz amarela e explicita a necessidade de uma profunda revisão no Código Brasileiro de Justiça Desportiva, já que as pessoas e entidades jurisdicionadas por ele não se reconhecem na norma, o que reflete grave crise de legitimidade do texto legal.

Para tanto, o Conselho Nacional dos Esportes deve convocar representantes dos clubes, dos atletas, das federações, da arbitragem, da OAB, bem como estudiosos do Direito Desportivo a fim de que um amplo debate possa evitar que o julgador tenha que lançar mão de “saídas heróicas” para adequar a lei à realidade.

Assim, muito mais do que uma questão pontual sobre o atleta Petros, o caso em questão deve servir de mote para repensarmos os rumos da Justiça Desportica Brasileira. 

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Sem medo das mudanças

A mudança faz parte do universo do futebol! Não existem mais mares calmos e estáveis nos quais atletas podem navegar em paz sem passar por turbulências eventuais. Muitas vezes essas turbulências são nada mais do que processos de mudanças que permeiam a vida de todos os envolvidos no futebol e como sabemos que as mudanças muitas vezes causam medo, como o atleta pode lidar melhor com isso?

Se pensarmos a respeito, podemos compreender que viver, por si só, já é sinônimo de mudanças. Com os atletas, isso é mais do que comum do que imaginamos, pois são inúmeras as situações diferentes vivenciadas por eles. Muitas vezes essas mudanças podem acontecer por iniciativa do próprio atleta (conseguir jogar num grande clube do exterior por exemplo) ou por motivos externos (troca de treinador por exemplo).

Em ambos os casos, os atletas são impactados e eles precisam ser flexíveis e até mesmo buscar correções de rota!

Uma ferramenta valiosa para lidar com as mudanças é a “Matriz de Gestão de Mudança”, um exercício pertinente e eficaz para avaliarmos a necessidade de promover algumas mudanças de comportamento e com isso poder traçar uma estratégia eficiente para conseguir mudar. Aqui o processo de coaching se enquadra e foca-se plenamente na esfera concreta do "como fazer" a mudança.

Podemos exemplificar a utilização da ferramenta da seguinte forma:

Imagine o atleta com possuindo em sua mente uma META que deseja intensamente atingir, neste ponto ele faz reflexões e como resultado de algumas sessões de coaching ele consegue listar uma série de ações e comportamentos que o aproximam verdadeiramente de sua meta, as quais irá plotar na matriz juntamente com outras atividades que ele faz atualmente em sua vida cotidiana, conforme os seguintes critérios.

• No primeiro quadrante, tudo aquilo que ele FAZ e GOSTA, lhe dá prazer.

• No segundo quadrante, todas ações que ele FAZ mas NÃO GOSTA.

• No terceiro quadrante, tudo que ele NÃO FAZ mas que ele GOSTA.

• No quarto quadrante, finalmente, tudo aquilo que ele NÃO FAZ e NÃO GOSTA.

 Feito isso, acompanha-se o atleta para elaborar um plano de ação para endereçar as questões dos 4 quadrantes, conforme a seguir:

1. As ações do primeiro quadro são para manter estas atividades; elaborar planos de manutenção são muito importantes.

2. As ações do segundo quadro são para transformar ou eliminar essas atividades, de maneira que elas se tornem mais prazerosas ou eficientes.

3. As ações do terceiro quadro representam aquelas que ele necessita mas não faz. Neste ponto muitos atletas podem precisar de ajuda para realizar uma revisão sobre como administram seu tempo e rever as prioridades das ações do seu cotidiano.

4. Finalmente, no último quadro, verificar como algumas dessas atividades podem ser transformadas ou adaptadas para serem feitas também, de acordo com sua importância.

A utilização desta ferramenta é muito eficaz num processo de coaching e seus benefícios na prática são muito grandes para os atletas! Desta forma, podemos usar e abusar do uso da Matriz de Gestão de Mudança no meio do futebol.

Até a próxima!

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Gestão dos clubes e suas peculiaridades

O texto de hoje é para destacar especialmente um outro texto. Publicado no Blog do Juca Kfouri e escrito com brilhantismo por José Francisco Manssur (http://blogdojuca.uol.com.br/2014/09/o-trabalho-remunerado-e-a-hipocrisia-dos-nossos-resistentes-clubes-associacoes/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter) com o título “O trabalho remunerado e a hipocrisia dos nossos resistentes clubes-associações”. Trata-se de um artigo que merece ser lido, relido e estudado por todos aqueles que desejam trabalhar com gestão do esporte ou mesmo para aqueles que já estão há algum tempo neste mercado.

Corrobora também com muitos dos argumentos já listados, de forma separada, em alguns artigos escritos por mim neste espaço da Universidade do Futebol. O que se vê é que a imprensa e a opinião pública de um modo geral não conseguem separar e discernir as dificuldades e os antagonismos da gestão dos clubes de futebol no Brasil.

A hipocrisia, que muito bem foi tratada por Manssur, é a síntese do que se tem hoje. E, como o termo “profissionalização” se tornou popular para qualquer pessoa que trabalha no meio, ele também vem carreado de uma série de problemas de origem, que tem feito com que as entidades esportivas caminhem para trás.

Não basta colocar uma pessoa remunerada e dizer que isso é profissionalização. A estrutura organizacional e os processos de tomadas de decisão precisam mudar sensivelmente.

O futebol brasileiro precisa debater melhor o seu modelo de governança. E não se trata aqui de propor soluções mirabolantes, sem levar em conta toda a cultura associativa que é característica desta indústria. A proposta encontrar pontos de sinergia que alinhe o modelo e a cadeia de negócios da modalidade com a tipologia destas organizações. Só assim conseguiremos sair da inércia… 

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O poder da palavra

Patrícia Moreira é torcedora do Grêmio. No dia 28 de agosto de 2014, foi ao estádio de seu time, em Porto Alegre, para acompanhar a derrota para o Santos por 2 a 0 em duelo válido pela Copa do Brasil. Foi flagrada pelo canal fechado “ESPN Brasil” chamando o goleiro santista Aranha, que é negro, de “macaco”. A partir disso, tudo que ela disse ou fez foi resumido a um rótulo: Patrícia Moreira virou “a torcedora racista”.

Em tempo: Patrícia Moreira cometeu ofensa racista, sim, e isso é crime. Crime grave. Ainda que ela tenha negado isso e que tenha dito que o intuito era apenas provocar Aranha, o fato é que ela usou a cor da pele do jogador do Santos para tentar diminui-lo. Isso é deplorável e inaceitável, e é bom deixar isso muito claro.

Logo depois do episódio, Patrícia foi afastada do trabalho no Centro Médico e Odontológico da Polícia Militar – ela era funcionária de uma empresa terceirizada e prestava serviços de auxiliar de odontologia. Além disso, a casa da família da torcedora chegou a ser apedrejada.

Aranha registrou boletim de ocorrência na 4ª Delegacia de Polícia. No dia 5 de setembro, acompanhada de um advogado, Patrícia concedeu entrevista coletiva para falar sobre o caso. Pediu desculpas ao goleiro e ao clube do coração.

“A Patrícia já sofreu ameaças. Só não vem sofrendo mais ameaças porque saiu de redes sociais e saiu de casa. Ela perdeu a vida que levava”, disse o advogado Alexandre Rossato.

Mais uma vez: as imagens são muito claras, e Patrícia cometeu um crime. O ponto em discussão não é esse, e tampouco a gravidade do fato. A questão aqui é que existe um inquérito, e a torcedora vai responder na Justiça por tudo que fez. Aranha falou sobre o caso no último sábado (06) e disse que perdoa a gremista. Então, por que ela precisa ser resumida a um rótulo (racista) e condenada por isso?

Outro exemplo vem da política. A edição desta semana da revista “Veja” tem reportagem sobre Paulo Roberto Costa, ex-diretor de refino e abastecimento da Petrobras. Segundo a publicação, ele teria afirmado em depoimentos à Polícia Federal que três governadores, seis senadores, um ministro e pelo menos 25 deputados federais foram beneficiados por propinas oriundos de contratos da estatal.

Foi o suficiente para o caso ser tratado como “escândalo”. Em redes sociais – no Twitter, principalmente –, o caso foi chamado de “mensalão 2” e “marca indelével para a administração federal”. Principalmente porque atingiu a maior empresa estatal do país.

Parênteses, mais uma vez: se Paulo Roberto Costa tiver feito exatamente essa denúncia, trata-se de algo muito grave. E algo grave precisa ser investigado até virar de fato um escândalo, assim, de forma peremptória.

Até agora, contudo, o que existe é uma reportagem sobre uma denúncia. Ou uma denúncia composta por nomes e detalhes sobre esquema de fraude. Ainda que os indícios sejam consistentes, eles não provam nada.

O uso de rótulos e de reducionismos mostra o quanto nós precisamos amadurecer. Patrícia Moreira não “é racista”, ainda que tenha cometido uma ofensa racista. Ninguém “é ladrão”, ainda que tenha desviado dinheiro ou roubado algo. Rótulos não ajudam e não dão complexidade a nenhuma discussão.

Dizer que a torcedora “é racista” é extremamente restritivo. Trata-se de uma pessoa comum, que tem arroubos e que comete erros. Isso não é uma defesa de Patrícia Moreira, mas da complexidade. Se quisermos tirar algo de episódios como o que ela protagonizou, precisamos urgentemente ultrapassar conceitos tão definitivos e tão rasos.

O pior é que usamos esse raciocínio com muita frequência. Um jogador é volante ou é atacante, e a posição que consta na ficha cadastral é o que determina se um técnico é ousado ou conservador ao colocá-lo em campo. Um julgamento sobre o treinador parte de um julgamento sobre o atleta. O rótulo do rótulo.

O esporte é uma seara em que muitas pessoas têm acesso às informações. Dados circulam entre empresários, jogadores, dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, por exemplo. É relativamente fácil ouvir denúncias e histórias totalmente absurdas sobre qualquer assunto.

Pense em quantas teorias da conspiração surgiram desde 1998, quando Ronaldo passou mal antes da decisão da Copa do Mundo. Pense em quantas vezes você ouviu alguém dizer que um campeonato foi “armado”, “comprado” ou “arranjado”. Afinal, quantas dessas histórias se provaram?

Em contrapartida, informações têm grande valor. Ainda que não sejam comprovadas, denúncias sobre uma empresa afetam diretamente o valor de suas ações. Essa lógica é menos clara no esporte, mas exemplos mostram a capacidade que esse ambiente tem de impingir rótulos.

Já citei esse exemplo anteriormente, mas acho que nunca é demais: em 1994, a Escola Base, em São Paulo, foi fechada porque pais de alunos acusaram proprietários de abuso sexual de alunos que tinham quatro anos. A vida dessas pessoas foi destruída, e depois foi provado que a denúncia era falsa.

O caso da Escola Base é um dos mais emblemáticos da história do Brasil. Trata-se de algo que recebeu enorme cobertura da mídia, e os proprietários da instituição foram julgados pelo público muito antes de serem inocentados pela Justiça. É algo que eu sempre uso como exemplo e como aviso. Como jornalista, não quero que ninguém seja “a minha Escola Base”.

Muitas vezes não damos conta, mas a palavra tem enorme poder. Muitas vezes não damos conta, mas temos uma tendência ao julgamento. Isso vem desde os primórdios da humanidade, e é um ranço que ainda não conseguimos extirpar.

Para evoluirmos como sociedade – e como analistas de esporte, por consequência –, é necessário que deixemos para trás os rótulos. Precisamos superar as histórias esquematizadas de bandido e mocinho e entender que pessoas são complexas. Pessoas cometem erros – alguns mais graves, outros menos –, e nós não podemos classificá-las por isso. Ainda mais quando nem os erros são confirmados.