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FUTEBOL NÃO É ÔNIBUS LOTADO


		Pessoas em ônibus lotado com celular

Ao contrário do ditado popular que compara várias situações com um ônibus lotado dizendo “quem está fora quer entrar e quem está dentro quer sair”, no futebol, quem está fora quer entrar e quem está dentro quer ficar. E são várias razões para esse fenômeno. Para mim, a frase que mais explica é: “Futebol, uma indústria de paixões e milhões.”

Na maioria dos casos, o interesse em trabalhar no futebol é diferente de todas as outras indústrias onde já trabalhei. O cenário que vejo no futebol reúne desde torcedores fanáticos, que querem ajudar e influenciar nas decisões do seu clube, a pessoas que veem nesse esporte um trampolim para cargos políticos ou de visibilidade e reconhecimento na sociedade. Há ainda os profissionais que sonham com oportunidades de altos e rápidos ganhos financeiros, e até uma parcela crescente de quem gosta de desafios e vê no futebol muitas oportunidades de carreira e impacto social.

Em todos estes casos, seja você um dirigente, executivo, gestor, médico, profissional de marketing, árbitro, supervisor, psicólogo, advogado ou tantas outras profissões, é hora de investir na capacitação e no desenvolvimento, pois o futebol está em plena transformação no Brasil e no mundo.

Essa indústria ficou anos “protegida” por estruturas e legislações arcaicas, como a lei do passe e a permissividade de governos que renegociavam dívidas infinitamente, privilegiando dirigentes e gestores incompetentes ou mal-intencionados. Além disso, o futebol sempre foi usado como plataforma política, o que fez com que até hoje os clubes e organizações estejam cheios de pessoas indicadas para perpetuação de poder e não, necessariamente, de pessoas com habilidades e competências para ajudar no seu crescimento rentável e sustentável.

A boa notícia é que, nos últimos anos, começamos a perceber avanços significativos em diversas áreas, que são consequência de fatores como a implantação da Lei Pelé desde 1998, do engajamento maior de outros atores do ecossistema do futebol, como os patrocinadores que passaram a exigir mais transparência e prestação de contas (Pacto pelo Esporte). Exemplos também de clubes que fizeram turnaround e clubes que desenvolvem e implementam estratégias diferenciadas com excelência e austeridade na gestão.

Soma-se a isso o aprendizado e consequências com a chegada das SAFs, as discussões sobre FairPlay financeiro, a introdução de diversas tecnologias e a adoção de mais governança e conformidade.

Porém, mesmo com tudo isto acontecendo, somente por meio de pessoas e profissionais que estejam preparados, trazendo habilidades e competências para liderar a modernização da gestão do futebol, teremos uma indústria mais ética, inclusiva, sustentável e competitiva. E, com certeza, investir em educação e formação será o grande diferencial para que elas conquistem seu lugar nesse ônibus tão disputado.

Texto por: Heloisa Rios

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O FUTEBOL E A PARALISIA METODOLÓGICA

Este fim de semana fui presenteado pelo meu pai com um documento histórico acerca da educação física, mais especificamente sobre o ensino e treinamento do futebol. Para quem não sabe, meu pai também é professor de educação física e não é qualquer professor. Para meu orgulho e admiração, meu pai, Lino Castellani Filho, é uma das grandes referências da Educação Física brasileira e latino-americana. Professor aposentado da Unicamp, ex presidente do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte e ex Secretário Nacional de Esportes, meu companheiro (nos tratamos carinhosamente assim), presenteou-me não com uma produção dos seus tempos de Unicamp, CBCE ou Ministério do Esporte, mas com uma das suas produções dos tempos em que trabalhava na Secretaria de Esportes e lazer do Maranhão, em 1980. Ainda que suas produções de destaque sejam do campo da história da Educação Física, das políticas públicas e educação física escolar, esta produção aborda outra temática: o Futebol!    

Vale destacar, novamente, o ano desta publicação: 1980. Eu sequer havia nascido quando o professor Lino produziu este material!

Nesse momento pode estar se perguntando… “e daí?”.

Entremos então no tema central deste texto.

Nesta produção de pouco mais de 50 páginas, o professor Lino destaca a evolução histórica, evolução tática, regras e exercícios para aprimoramento técnico de alguns fundamentos do futebol. Se compararmos com qualquer publicação sobre futebol dos tempos atuais, certamente o teor seria significativamente diferente. Entretanto, o que causou certa surpresa e suscitou em mim a vontade de trazer esse tema para nossa reflexão e debate foi o fato de grande parte das escolas de esporte (mais conhecidas como escolinhas de futebol) e clubes ainda repetirem as mesmas estratégias de ensino elencadas em 1980 pelo professor Lino. Isso mesmo… mais de 40 anos depois desta produção, apesar dos significativos avanços no âmbito da produção teórica/acadêmica, com a proposição de inúmeras novas abordagens na pedagogia do esporte e, portanto, para o ensino e treinamento do futebol, as aulas e treinos continuam praticamente idênticas, como se tivéssemos enfrentando no campo da intervenção pedagógica, no decorrer destas 4 décadas, uma síndrome que nos paralisa no tempo. Uma síndrome que faz com que permanecêssemos em 1980, reproduzindo metodologias de ensino que, ao menos no campo teórico, já foram totalmente superadas.   

Há um número considerável de professores e treinadores que, mesmo com as críticas realizadas em diferentes e mais atuais estudos situados no campo da pedagogia do esporte, ainda elaboram suas ações pedagógicas pautadas no método analítico,  sustentando suas aulas e treinos na identificação de necessidades associadas ao gesto motor, à técnica dos fundamentos (domínio, passe, drible, chute etc) sem a preocupação com tomadas de decisões exigidas durante o jogo e com as questões táticas inerentes ao próprio jogo.

E tudo bem se o professor Lino propõe aulas e treinos pautados no método analítico. Afinal, em 1980, provavelmente, essa era a teoria que representava o que havia de mais avançado àquela época. Nem tudo o que é antigo, é velho ou ultrapassado. Há muita coisa ainda que os estudos contemporâneos não deram conta de superar. Mas este não é o caso dos estudos relacionados ao ensino e aprendizagem do futebol, afinal, a área da pedagogia do esporte avançou e a produção teórica nesta área se diversificou e se qualificou muito.    

Entretanto, 43 anos depois, é possível notarmos que esses avanços teóricos ainda não se manifestam nitidamente em muitas aulas e/ou treinos de futebol, evidenciando uma grande dificuldade se fazer chegar essa produção ao conhecimento de treinadores e professores e, também, deles traduzirem em suas intervenções pedagógicas (aulas e treinos) o que está preconizado pelo conhecimento científico contemporâneo. É justamente essa dificuldade, ou resistência, que faz com que aquilo escrito há 43 anos atrás ainda carregue consigo traços de atualidade.   

Se estamos pensando no processo de ensino-aprendizagem-treinamento do futebol para crianças e jovens, seja no âmbito escolar, clubes ou escolas de esporte, a iniciação esportiva deve se dar de modo que o futebol se adapte às características e necessidades das instituições de ensino/treinamento e, principalmente, dos praticantes. Ou seja, é preciso adaptar o esporte à criança e não a criança ao esporte. É preciso, como nos diz o professor João Batista Freire, tratar as crianças como crianças e devolver o jogo a elas.  

Dessa forma, ao entendermos que o principal estímulo das crianças à prática do futebol está relacionado ao prazer que sentem quando jogam, é importante que nossos planos e estratégias de ensino sejam elaborados didaticamente respeitando suas necessidades e dando grande destaque aos jogos e brincadeiras para que vivenciem o lúdico. 

Portanto, independente do objetivo das nossas aulas/treinos, é importante que pautemos nossas atividades no caráter lúdico, pois, principalmente em estágios iniciais de prática, e se tratando de crianças e jovens, o lúdico vivenciado em jogos e brincadeiras se constitui como elemento chave no processo de ensino-aprendizagem-treinamento. Vale destacar, no entanto, que não se tratam de quaisquer jogos ou brincadeiras, mas sim jogos e brincadeiras que oportunizem situações nas quais os jogadores não fiquem excessivamente com ou sem a posse da bola, que assumam diferentes níveis de complexidade, que, seja por situações reduzidas ou por adaptações nas regras, estimulem a tomada de decisão e a resolução de conflitos/problemas que se manifestam no jogo.

Neste aspecto, há inúmeras teorias que, guardadas suas especificidades, têm mostrado sua eficácia por pautarem-se no ensino do futebol tal como ele é jogado “na realidade”. Seu caráter coletivo, criativo, imprevisível, dentre outros, se expressa nestes jogos/brincadeiras fazendo com que os jogadores compreendam e apreendam a lógica do jogo e tomem decisões críticas e contextualizadas ao jogo, tendo como referência o ensino dos meios técnicos-táticos, defensivos e ofensivos (GALATTI, PAES, 2007; SANTANA, 2005).  

Passadas quatro décadas, não podemos mais elaborar e desenvolver nossos treinos e aulas tendo como referência o conceito de fragmentação do jogo, tal como preconiza o método analítico-sintético, no qual o ensino da modalidade esportiva se dá a partir da soma das partes que compõem o jogo, ou seus fundamentos. Este método apresenta como problema e elemento central, de acordo com Gallati e Paes (2007), a execução dos fundamentos de forma isolada, com ênfase na repetição de gestos motores para o aprimoramento técnico, sem o qual, de acordo com tais autores, a prática do jogo formal fica prejudicada. Não garante, assim, dentre outras necessidades impostas no e pelo jogo, a resolução de problemas de ordem tática.

Os treinos/aulas de futebol orientadas pelo método analítico partem do pressuposto de que o atleta/aluno ainda não sabe executar determinado gesto ou ação e só irá aprende-los de modo linear, indo do simples para o complexo, a partir da demonstração, imitação e repetição. Ao centrar-se na técnica, o professor/treinador busca que seu aluno reproduza modelos (drible como o Neymar, passe a bola como o Arrascaeta, conduza a bola como Messi etc) repetindo movimentos até torná-los automáticos.

Talvez o exemplo mais clássico deste método de ensino seja posicionar os alunos/atletas em filas para driblar cones dispostos simetricamente em linha reta. Diante destas circunstâncias, como já explanado por mim e pelo professor João Batista Freire em texto publicado na Universidade do Futebol (A diferença entre driblar ou fintar um cone e uma pessoa), “não há risco, não há mobilidade nos cones, não há ameaças, não há um tempo imprevisível para realizar o drible, não há tensão, não há diversão, não há prazer, não há jogo. O cone simplesmente fica ali, inerte, no lugar em que o colocaram, dócil, não mais que uma referência para repetições mecânicas de gestos previamente determinados. Sua função é simular a presença de uma pessoa, algo que nem de longe consegue”.

Talvez a qualidade da imagem abaixo retirada desta produção do professor Lino prejudique nosso olhar às filas para execução do passe. O tempo da publicação é significativo. Mas preocupante mesmo é pensar que tanto depois, grande parte das aulas e treinos de futebol permaneçam idênticas!  

De que forma, dispor nossos alunos e atletas em filas para fazer passes um de frente para outro garante a imprevisibilidade, aleatoriedade e o ambiente caótico inerentes ao futebol?

Vemos cada vez mais jogadores pouco criativos, preferindo o passe burocrático ao drible, perdendo a capacidade de resolver ou desequilibrar uma partida. Aqueles poucos que ainda se destacam pela sua criatividade e pela capacidade de improvisar no ambiente de jogo, à exceção de Neymar, Vini Jr. e mais alguns poucos, têm sua criatividade e capacidade de solucionar os problemas do jogo também cerceadas, tanto pelos treinos atuais, quanto pela conduta dos treinadores.

Ao estimularmos os praticantes de futebol a vivenciarem o jogo com base nos métodos de ensino apontados pelas pesquisas como mais eficazes, estaremos proporcionando a eles que compreendam a lógica do jogo e tomem suas decisões, de modo autônomo, inteligente e criativo, a partir das relações que eles estabelecem com os demais jogadores, sejam adversários ou companheiros de equipe, e também com a própria bola e o gol. 

É preciso, de uma vez por todas, rompermos essa paralisia que nos aprisionou em décadas passadas e darmos conta de fazer refletir em nossas aulas e treinos, como muitos já o fazem tão bem, o conhecimento científico contemporâneo produzido pela área da pedagogia do esporte. As perspectivas apontadas pelas pesquisas recentes são inúmeras e, apesar de distintas, partilham da mesma premissa de que colocar nossos alunos em filas intermináveis, driblar cones, realizar passes de frente para o companheiro etc, não é o melhor caminho para promover uma aprendizagem significativa, contextualizada e eficaz.

Texto por Rafael Castellani e, necessariamente, não reflete a opinião da Universidade do Futebol

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Ofício: Treinador. Competências da profissão na realidade brasileira | Tópico 2.5 – Perceber e reagir ao entorno

Pelo fato de encararem julgamentos públicos e internos com alta frequência, os treinadores do futebol brasileiro devem tomar cuidado ao observar as operações que rodeiam a sua prática profissional, demonstrando cautela para perceber e reagir ao entorno, pois “ainda existem muitas demandas amadoras no futebol”. Conforme afirmou um dos profissionais, “os clubes de futebol no Brasil ainda mantêm uma estrutura política em que os seus presidentes dependem de votos para serem eleitos e, portanto, eles são influenciados por resultados o tempo inteiro”. Ainda nesse raciocínio, outro entrevistado reforçou que os clubes são “administrados pela gestão política, que por sua vez se baseia no que pensa a oposição, a mídia, as áreas externas, sem uma estrutura para avaliar o trabalho do treinador”. Preocupados com a pressão externa e alheia ao treinamento e ao desenvolvimento coletivo, os profissionais revelaram como os seus pensamentos expandem o âmbito esportivo no exercício da profissão de treinador no Brasil. Para perceber e reagir ao entorno, os treinadores devem fortalecer a sua habilidade política e as suas relações públicas

“Há o cenário externo da torcida junto ao cenário político interno de quem está contra a atual administração. Na verdade, as relações e as decisões sobre o trabalho do treinador giram em torno desse cenário. Há uma crise constante, mesmo quando se tem resultados. Por exemplo, influência de empresários ou algum jogador reserva de um empresário que é alinhado com a diretoria, então você começa a ser questionado. Por não existir uma estrutura profissional, há coisas que circulam o clube e que acabam influenciando decisões internas.” 

Em termos de sua habilidade política, os treinadores devem procurar demonstrar um senso de juízo, ainda que discreto, em torno dos movimentos políticos que imperam dentro do clube, “mantendo um bom diálogo com os dirigentes e presidentes, coexistindo bem com eles”. Tal capacidade não necessariamente se volta a um envolvimento direto com ações internas, mas sim pelo benefício do equilíbrio que pode ser proporcionado ao cargo de treinador e ao trabalho da comissão técnica mediante uma consciência política sobre o que acontece internamente e no extra-campo. Contudo, um dos profissionais reconheceu que “a situação mais estranha que existe é saber medir e lidar com a política no clube”. Ao considerar que os assuntos políticos aparentam ditar a norma e afetar decisões sobre o trabalho dos treinadores em clubes brasileiros, dois entrevistados compartilharam uma revolta compreensível: 

“Isso é muito contraditório aqui porque o futebol brasileiro está submetido a uma série de ingerências de pessoas que não são exatamente as mais habilitadas para comandarem o nosso futebol. A gente sabe que o dirigente comanda muitas vezes pela paixão e por outros interesses também. Da minha maneira de ser é difícil conviver com essa turma. Isso acaba interferindo na fidedignidade da concepção do que é um bom treinador no Brasil, o que um treinador precisa ter para ser bom aqui no país, para ele ter longevidade, para ele conseguir desenvolver o trabalho dele. Essa instabilidade da administração dos clubes põe em cheque a capacidade de muitos treinadores. Do meu ponto de vista é difícil você reunir somente a competência técnica do treinador. Ele deve, acima de tudo, saber lidar com a administração do clube, porque senão ele não vai conseguir dar continuidade ao trabalho dele.” 

“É preciso ter o conhecimento de como funcionam os clubes no Brasil. Não adianta chegar ao clube e apresentar metodologias de treinamento, treinos com qualidade, propor mudanças na estrutura do clube. Os clubes brasileiros têm uma estrutura totalmente política. Um presidente para ser eleito depende dos votos e depois há a participação dessas pessoas que o colocaram na presidência. Sabendo que as pessoas que avaliam o trabalho no dia-dia na realidade não têm o conhecimento técnico ou tático do seu trabalho, não adianta chegar e querer fazer reunião com o presidente e até com o diretor de futebol explicando como você joga. Conhecer esse sistema e se adaptar a ele às vezes vale muito mais do que o seu conhecimento técnico, a sua preparação. É uma coisa muito do lado emocional.” 

Tal cenário desafiador se assemelha a depoimentos coletados junto a treinadores da Escócia, cujo contexto laboral também demonstrou uma nítida dependência à política interna dos clubes empregadores, enquanto os profissionais alegaram não estar necessariamente preparados ou equipados para tratar de assuntos fora do âmbito esportivo com os seus dirigentes. Inevitavelmente, o rendimento esportivo de uma equipe profissional também está relacionado a uma complexa rede de agentes que cedem à paixão emocional mesmo em posições de liderança na instituição. Como consequência dessa realidade, a natureza do treinamento passa a ser contestada no momento em que implicam-se relações micropolíticas nas tarefas do treinador, que pode se ver forçado a manipular impressões a fim de adquirir apoio, espaço e tempo de trabalho. 

Levando em consideração como os treinadores de futebol profissional atraem uma atenção significativa da opinião pública mediante as suas ações, espera-se que eles também saibam enaltecer as suas relações públicas, conectando-se bem com os canais de comunicação e com a mídia em geral, a fim de transportarem uma imagem institucional positiva aos seus clubes. Para ser valorizado como competente, “um treinador precisa se fazer entender através da mídia sobre como ele pensa o jogo, compartilhando suas ideias e estratégias para a competição”. Cientes de que “atualmente a internet amplifica e prolonga debates que afetam o processo diário do treinamento”, os treinadores devem cultivar um bom “relacionamento com a imprensa e com os torcedores”. Um dos profissionais inclusive admitiu o porquê das relações públicas terem se tornado uma competência de alta relevância ao treinador no país: 

“O relacionamento com a mídia é importante porque ela é uma formadora de opinião e tem um peso enorme no Brasil até pela falta de critério de quem gere o processo. A imprensa é uma forte condutora e indutora dos nomes, sugerindo e alavancando treinadores. Eu acho que é importante você conseguir se relacionar bem, saber atender bem, responder bem, ‘jogar o jogo’, porque muitas vezes você é colocado contra a parede e tem que saber responder de forma inteligente, sem criar atrito, sem divergência, mas conseguindo colocar as suas ideias.”

Ao estudar a evolução do ofício, o treinador de futebol profissional realmente se tornou o protagonista de uma incômoda cultura de celebridades cujo nível de visibilidade sob intensos questionamentos ajudou a transformar o futebol em uma novela masculina que prioriza manchetes sensacionalistas, opiniões superficiais e constante especulação. Coincidentemente, os entrevistados reconheceram que “o futebol parece ter virado um reality show onde o treinador carece de autonomia” enquanto “os dirigentes são torcedores misturados com a paixão”. Sobretudo devido a novos meios de comunicação e plataformas online disponíveis à opinião pública, o grau de fiscalização midiática se elevou de forma exponencial, consequentemente exigindo dos treinadores um maior cuidado em termos de suas exposições públicas. 

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Ofício: Treinador. Competências da profissão na realidade brasileira | Tópico 2.4 – Conduzir treinamentos e preparar para competir

Possivelmente situada entre as competências mais previsíveis, a capacidade de conduzir treinamentos e preparar para competir atende aos requisitos e expectativas básicas à profissão de treinador de futebol. Segundo os entrevistados, “um treinador deve saber conduzir a sua equipe taticamente e tecnicamente”, pois os jogadores têm exigido treinadores que consigam “ler as alternativas oferecidas pelo jogo”. Com base no raciocínio dos argumentos expostos neste estudo, duas condições foram enfatizadas: a filosofia de trabalho e a metodologia de treinos.
Para aplicar uma autêntica filosofia de trabalho, os profissionais que operam no território brasileiro sinalizaram que os treinadores devem incorporar as suas próprias ideias e crenças quando abordarem o âmbito esportivo do jogo, cultivando “uma base sólida de conhecimento” para poderem navegar entre as dimensões que contribuem ao rendimento dos atletas na modalidade. Visto que “não há mais espaço para ex-jogadores que apenas repetem aquilo que foi feito com eles”, “os jogadores percebem rapidamente quando um treinador está seguro sobre o seu conhecimento”. A fim de exemplificar, dois dos entrevistados compartilharam suas opiniões:
“A pessoa precisa ter confiança e convicção no que faz, na maneira que vê o futebol. É muito claro que o treinador precisa se fazer entender para o jogador. Eu acho que o treinador se perdeu um pouco nessa maneira de conduzir o trabalho. É claro que ele deve entender e estar atento ao que acontece no futebol mundial, não precisa se fechar a conhecimentos ou maneiras de trabalhar, mas sempre definindo o que você acha importante ou não em vez de virar uma ‘moda’. Eu vejo que hoje em dia há muitos ‘modismos’.
O novo é legal, alguns termos são legais de falar, mas o treinador precisa entender como ele vai passar as convicções dele, a maneira como ele próprio enxerga o futebol, quais são as suas estratégias e o seu
modelo de jogo. Isso é fundamental para que ele tenha sucesso.”
“Para ter rendimento é preciso dar continuidade ao processo de aprendizagem e desenvolvimento. É evidente que eu quero ganhar títulos, mas se eu puder evoluir o meu atleta tanto como profissional e como pessoa, isso vai reverter em performance e título. Eu quero pensar no processo. Para mim o processo é mais importante do que o fim.”

Além de compreender o futebol de uma forma própria e individualizada, espera-se que os treinadores também sejam capazes de transferir a sua filosofia à metodologia de treinos. Com uma perspectiva pessoal que possa vir a distinguí-los em termos práticos, o treinador profissional deve saber acomodar as demandas da modalidade e do jogo por meio de sua capacidade em desenvolver a equipe no treinamento. Isto é, incutir o seu “conhecimento, expertise e conteúdo em sessões de treinamento” com um “bom repertório de treinos, entendendo o modelo tático e os procedimentos de treino”. Ao prescrever as sessões, o treinador deve, sobretudo, “criar soluções dentro do treinamento para resolver um problema, que às vezes pode ser um comportamento setorial, intersetorial, individual ou coletivo” de modo que a equipe possa “aprender a jogar em diferentes situações”. Um dos treinadores entrevistados explicou a mudança de paradigma transportada ao jogo no Brasil:
“Para se diferenciar hoje no Brasil é preciso jogar com conceitos, princípios, ideias. Há algumas décadas nós tinhamos o jogo com espaço e confrontos individuais, onde tinhamos mais poder pela individualidade. A partir do momento em que os espaços diminuíram e as questões de habilidade e técnica se contextualizaram numa visão mais coletiva, o campo foi diminuindo e a questão tática foi aflorando. Agora para chegar ao gol adversário você precisa ter posicionamento em cada metro que a bola anda em campo, nas ações, tomadas de decisões com e sem a bola. O nosso treinador desenvolveu o perfil de liderança para falar da família, a necessidade de subir de vida, o motivacional. Hoje ele precisa mudar esse discurso para um perfil mais tático, sinalizando as formações e ações específicas. Nós temos um jogo mais solto, no qual precisamos controlar um pouco mais. Robotizar, dar tática, melhorar os conceitos.”

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A DITADURA DA TÁTICA NO FUTEBOL

Reflexões sobre as mudanças paradigmáticas no futebol brasileiro e mundial

“Tanto jogando, como assistindo, o povo brasileiro potencialmente ainda conserva a sua paixão pelo jogo bonito, criativo, alegre e eficiente, que fez do futebol brasileiro uma marca reconhecida mundialmente. Aprendemos a gostar deste “jogo com bola, jogado com os pés”, de forma natural e espontânea. Desde a época das peladas e do “futebol de rua” que essa cultura de jogo nos envolve. Se faz necessário um esforço coletivo para resgatá-la, preservá-la e retroalimentá-la, porém com novos ingredientes que o futebol e a sociedade contemporânea exigem.”

(João Paulo Medina)

O futebol, enquanto expressivo fenômeno sociocultural e esportivo de alcance mundial, vem sofrendo diversas influências e transformações, conforme seu percurso ao longo da história.

Não é nosso objetivo, neste ensaio, fazer uma análise histórica mais aprofundada sobre as origens e a evolução desta modalidade esportiva, mas, apenas, contextualizar algumas reflexões críticas sobre o atual estágio do futebol no Brasil e no mundo. Nesta perspectiva, vamos tomar como referência histórica o período entre a realização da primeira Copa do Mundo, realizada em 1930 no Uruguai, até os tempos atuais. 

As Copas do Mundo, sendo repetidas de 4 em 4 anos (com apenas duas interrupções em 1942 e 1946 devido à Segunda Grande Guerra Mundial), costumam servir de termômetro – achemos adequado ou não – para se avaliar o estágio de desenvolvimento do futebol globalmente.

Neste período de quase 100 anos (1930-2023), pudemos constatar diferentes estágios de desenvolvimento no jogo de futebol. Mas até a década de 1950, o que se praticava era um jogo, onde a habilidade técnica individual dos jogadores era o fator decisivo, fazendo toda a diferença. Cabia ao treinador “enxergar” o potencial técnico de seus comandados e oferecer certa organização em campo aos jogadores para que pudessem expressar sua arte e obter bons resultados. 

Em seguida, em um período que podemos situar entre as décadas de 1960/70, com a evolução das ciências do esporte, iniciou-se a etapa de ênfase à preparação física, onde só as qualidades técnicas já não eram suficientes para as demandas do alto rendimento. Lembro-me, nesta época, aqui no Brasil, das críticas que sofriam os preparadores físicos (que começavam a surgir nos clubes mais estruturados), por parte de muitos que personificavam neles o retrocesso do futebol-arte, como “marca registrada” do futebol brasileiro. Com o passar do tempo, foi se conseguindo certo equilíbrio entre as exigências físico-fisiológicas dos jogadores e as suas habilidades técnicas necessárias à prática do “bom jogo”.   

Até que veio uma “terceira onda” no processo de evolução do futebol, cuja ênfase é dada à preparação físico-técnico-tática, na qual o componente tático começa a ter muito protagonismo.   

É claro, que não se pode distinguir, de forma mecânica, linear ou cartesiana, estas 3 grandes etapas. Na verdade, estes processos de mudança, ocorrem das mais diversas formas e, muitas vezes, sutilmente, com avanços e retrocessos.

O fato é que mais acentuadamente nestas últimas décadas, o jogo de futebol de alto rendimento, mudou bastante em vários sentidos. Mas vamos nos ater aqui, prioritariamente, à evolução de sua dimensão tática.  

Sem desconsiderar treinadores mais antigos, alguns excepcionais e inovadores, como Bill Shankly, Bob Paisley, Helenio Herrera, Ernst Happel, Rinus Michels, Zagalo, Johan Cruyff,entre outros, queremos destacar Arrigo Sacchi que no final dos anos 1980 e início da década de 1990, revolucionou o futebol mundial, inaugurando definitivamente uma era de predominância dos aspectos táticos no jogo de futebol que podemos afirmar que dura até nossos dias. Sacchi foi quem, com suas inovações táticas, deu grande ênfase ao jogo coletivo, colocando em outro patamar a necessidade de se ter um espírito de trabalho em equipe em seu mais alto grau de exigência até aquele momento.

Simultaneamente a ele, e depois dele, se destacaram outros grandes treinadores, desde Carlos A. Parreira, José Mourinho, Telê Santana, Luiz F. Scolari, Alex Ferguson, Van Gaal, Carlos Ancelotti, Tite, Luciano Spalletti, Lionel Scaloni, Abel Ferreira, entre muitos outros, até chegarmos nos icônicos Jürgen Klopp e Pep Guardiola.

Klopp e Guardiola se notabilizaram mais recentemente por suas inovações táticas (e não só), com resultados expressivos que, agora, segundo alguns analistas, começam a dar sinais que podem representar o encerramento de uma era, iniciada por Arrigo Sacchi. 

 A simplista e tradicional nomenclatura dos “sistemas táticos”, como o 4-2-4, o 4-3-3, o 4-2-3-1, o 4-1-4-1, o 3-5-2 etc., como interpretação das dinâmicas que ocorrem durante um jogo de futebol, parecem estar com seus dias contados.  Muitos treinadores, inclusive, já não os consideram como referência aos seus modelos de jogo. Mas não só esta nomenclatura está sendo questionada cada vez mais, como também os próprios sistemas táticos atuais em si mesmos, começam a mostrar suas fragilidades, independentemente dos números que os possam classificar ou identificar.

Neste sentido, um interessantíssimo artigo, publicado recentemente por Rory Smith, respeitado jornalista esportivo inglês e correspondente do influente jornal norte-americano, The New York Times, faz críticas aos “sistemas táticos” atuais, procurando dar luz a esta inflexão que pode desembocar em uma ruptura ou mudança de paradigma no jeito de jogar futebol, mundo afora. 

Rory afirma “A história do futebol é um processo de estímulo e resposta, de ação e reação. Uma (determinada) inovação domina por um tempo – o processo acontece cada vez mais rapidamente – antes que a concorrência a decodifique e a neutralize ou a adote.”

E continua o autor do instigante texto: “E há, agora, os primeiros vislumbres do que se pode seguir no horizonte (do futebol). Em toda a Europa, as ‘equipes de sistema’ estão começando a vacilar (geralmente, com muitos altos e baixos). O caso mais evidente é o Liverpool, de Jürgen Klopp, lutando não apenas com um cansaço físico e mental, mas também (com questões) de filosofia. Seus rivais e colegas, agora, estão inoculados para seus perigos. (…) Até o Manchester City (de Pep Guardiola, com o seu badalado “Jogo de Posição”), onde o sofrimento é sempre relativo, parece menos soberano do que antes.” Em relação ao Real Madrid, clube que tem conseguido manter bons desempenhos e resultados nos últimos tempos, ele justifica: “O Real Madrid, é claro, sempre teve esta abordagem, optando por controlar momentos específicos dos jogos, em vez do jogo em si. Mas o fez com uma vantagem significativa de possuir muitos dos melhores jogadores do mundo.”

Após essas considerações preliminares, Rory Smith afirma algo que queremos aqui destacar, por concordar amplamente com o que diz: “O futuro, ao contrário, parece pertencer às equipes e treinadores que estão dispostos a ser um pouco mais flexíveis e veem seu papel como uma plataforma na qual seus jogadores podem improvisar.” 

Na sequência, para sustentar seus argumentos, ele cita os trabalhos de Luciano Spalletti, do Napoli e de Fernando Diniz, do Fluminense, como novidades e bons exemplos de inovação no futebol. E é este o ponto que queremos destacar nestas reflexões. 

Não conheço muito o trabalho de Spalletti, a não ser a sua crença de que os jogadores “não podem ser tratados como marionetes, encorajando-os a pensar e interpretar o jogo por si mesmos.”  Mas acompanho com muita atenção, há tempos – desde seu período de Audax-SP – os movimentos e a evolução do treinador Fernando Diniz. 

Diniz, sempre questionou muito os posicionamentos tradicionais, engessados pelos sistemas táticos de jogo, quaisquer que fossem eles (mesmo os mais atuais e vencedores). Se insurge também àqueles que priorizam a tática descontextualizada, em detrimento dos relacionamentos humanos mais profundos. Dificilmente veremos o treinador do Fluminense travando um debate sobre tática ou modelo de jogo, por exemplo, sem antes contextualizar suas reflexões às situações concretas (de vida, inclusive) de seus jogadores.  Para ele, uma sociedade que exclui injustamente, que só valoriza quem vence e que simplesmente destrói jogadores (com potencial), mas que – por circunstâncias muitas vezes desconhecidas – não conseguem ser bem-sucedidos, é uma sociedade doente e que precisa ser superada.

Fernando Diniz, embora esteja atento à evolução científica no esporte, que traz inovações às metodologias de preparação dos futebolistas, não se deixa levar facilmente pelos modismos que, muitas vezes, tomam conta do ecossistema do futebol, de forma acrítica, criando-se verdadeiras “camisas de força” ou “ditaduras”, venham eles de onde vierem; das estatísticas, da fisiologia, da tática, ou de qualquer outra área específica do conhecimento.  Não se rende, enfim, às interpretações puramente especialistas (muitas vezes, vistas de forma estática, mecânica ou linear) sobre um jogo que entende ser complexo, dinâmico, caótico e imprevisível, em sua essência. Talvez, por isso, que seu “jogo aposicional”, que tanta controvérsia provoca, seja a marca indelével de seu estilo.

É fato que as equipes (todas) vão ganhar e perder no futebol de diferentes formas e circunstâncias, sejam quais forem as suas propostas, mas é fundamental que percebamos como os sistemas (posicionais ou “aposicionais”) podem ter influência no desenvolvimento dos jogadores e do futebol brasileiro e mundial.

E para finalizar com uma síntese do pensamento de Fernando Diniz, ele acredita firmemente que tudo aquilo que o jogador faz em campo é muito menos fruto de suas habilidades físico-técnicas e táticas, em si mesmas, e muito mais fruto de sua predisposição para seguir seus propósitos, ter coragem, desenvolver seu espírito de solidariedade, sua inteligência (individual e coletiva), seguindo um roteiro pré-determinado pelo treinador, porém com suficiente liberdade de movimentos e autonomia para poder improvisar e criar, mantendo aceso o genuíno prazer e alegria de jogar futebol. E não seria isso, o resgate da essência do futebol brasileiro, em tempos contemporâneos? 

João Paulo S. Medina

Fundador da Universidade do Futebol

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Não existe clube bom com gente ruim!

As empresas são feitas de pessoas e os clubes também. Clubes são feitos de pessoas que jogam o jogo dentro das quatro linhas e de pessoas que jogam o jogo fora das quatro linhas. Então, faço aqui uma afirmação: todos deveriam estar capacitados e engajados para jogar um único e grande jogo.

E por quê? Porque a bola não entra por acaso. Porque por trás de um grito de gol, da transferência de um atleta, da atração de investidores, de novos patrocínios, da paixão de torcedores, da transformação da vida de atletas e famílias, da classificação para um grande campeonato… tem pessoas. Tem pessoas que, se inspiradas por uma estratégia clara, cultura e liderança fortes e recursos adequados, fazem o sucesso ou o fracasso de um clube ao longo de sua história.

São inúmeras perspectivas e reflexões sobre pessoas, que não cabem em um único artigo. Escolho então começar a refletir sobre alguns. De que adianta um sistema completo de scouting e investimentos milionários para compra de atletas se a liderança não estiver preparada para capitalizar no melhor de cada indivíduo e em favor do bem maior que é o time? De que adianta talentos individuais sem a força do coletivo? De que adianta atletas com capacidade técnica-desportiva excepcional se não forem pessoas com outras habilidades e competências, inclusive de relacionamento? Quais os limites de um atleta competente dentro do campo sem inteligência sócio-emocional?

Se refletimos o jogo fora do campo, vale também questionar o quanto as pessoas são talentos individuais e não são estimuladas a trabalharem na direção de um objetivo maior que suas próprias áreas e responsabilidades. O quanto essas pessoas estão, ou não, nos lugares adequados dos clubes onde possam inovar e gerar os melhores resultados baseadas nos seus propósitos, interesses, habilidades e competências. O quanto cada um entende seu papel e suas contribuições e investe no seu auto-desenvolvimento.

Mas, ainda mais relevante que refletir sobre as características e responsabilidades dos indivíduos, cabe destacar que tudo começa na alta liderança. É imprescindível a existência de líderes que tenham vontade política para gerir um clube de futebol de maneira profissional, humanizada e acima de interesses individuais ou de um único grupo.

Difícil começar? A desculpa continua sendo o resultado do jogo de domingo e a falta de recursos financeiros? Lembre-se que futebol realmente não se faz sem dinheiro, mas futebol também não se faz só com dinheiro. Comece com visão de longo prazo e engajando os melhores. Demita aqueles que não estiverem alinhados com a transformação. Ouça as pessoas de dentro e de fora do seu clube, invista neste coletivo, pactue, engaje, comunique com todos os públicos de interesse e veja a potência de contar com pessoas jogando o mesmo jogo dentro e fora das quatro linhas.

Texto por: Heloisa Rios

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Ofício: Treinador. Competências da profissão na realidade brasileira | Tópico 2.3 – Construir relações

Em retrospectiva, os entrevistados destacaram acentuadamente a capacidade de construir relações como uma competência primordial ao sucesso dos treinadores no futebol profissional brasileiro. Especialmente quando “o calendário não permite que as equipes treinem muito”, torna-se fundamental ao treinador saber “gerir e se relacionar bem com as pessoas, sobretudo ao tratar com os jogadores, membros de comissões técnicas e dirigentes do clube”. Considerando a sua rotina de cooperação com os jogadores e funcionários do clube em um ritmo diário, os treinadores se comprometem ao aspecto humano do treinamento, cuja essência se sustenta em um sistema de interações sociais. A fim de estimular a competência em construir relações, os treinadores podem se atentar à disposição para trabalhar em equipe e aprimorar sua habilidade social

Desde que o treinador esteja disposto a contribuir com a promoção de uma mentalidade coletiva, trabalhar em equipe pode alicerçar o caminho para que o líder técnico intensifique suas ações em “confiar e delegar tarefas”, “valorizando os profissionais que possuem conhecimento científico para ajudar a integrar as áreas de trabalho” e “apoiar o treinador com sua expertise dentro do clube”. 

“O emponderamento dos profissionais na comissão técnica é fundamental para que o ambiente se torne mais tranquilo e produtivo, sem que eles fiquem com receio ou preocupação para seguir aquilo que já estavam fazendo. De forma resumida, tentar trazer esses profissionais para perto dando liberdade, empoderando-os para que eles continuem fazendo o seu trabalho, cada um no seu setor, e devagar ir vivendo o ambiente do clube para fazer com que isso se transfira para dentro do campo. Eu entendo que apesar de hoje o treinador ser um profissional que precise entender um pouco de cada área de funcionamento do clube, de cada setor, ele não vai dar conta se quiser cuidar de tudo. Portanto, empoderar esses profissionais, ter pessoas de confiança, pessoas leais, acho que é a maneira mais correta.” 

Os depoimentos acerca de como o esporte de alto rendimento demanda atenção ao trabalho em equipe reforçam a importância da comunicação interna entre treinadores e profissionais das áreas técnica e médica dentro de um clube de futebol, capturando a natureza híbrida do treinamento esportivo, cujas relações interpessoais devem ser diferenciadas dependendo do fluxo de diálogo e convivência entre os colaboradores da organização. Conforme ressaltado por um dos entrevistados, “hoje em dia há várias funções dentro de um clube e de suas comissões técnicas, por isso o treinador precisa gerir os atletas, as personalidades, os perfis diferentes, que envolve analistas de desempenho, fisioterapeutas, fisiologistas, auxiliares, preparadores físicos, nutricionistas, psicólogos, sendo que todas essas funções interferem em uma decisão”. 

Ao compartilhar o mesmo espaço interdisciplinar e multidimensional que fundamenta o seu processo de treinamento, o treinador também deve buscar alavancar a sua habilidade social de forma harmoniosa, demonstrando empatia, confiança e abertura a “um componente social que ainda não é bem descrito como uma função ao treinador no Brasil”. Simplificando, os treinadores devem se portar como “um gestor de pessoas em um ambiente onde os atletas possuem uma enorme autonomia”, reconfigurando possíveis conflitos a fim de “entender as necessidades dos jogadores, suas preferências e insatisfações”. Realçando como a interconexão entre treinadores e atletas se manifesta a favor da efetividade no processo de treinamento, um dos entrevistados defendeu que “um bom relacionamento faz toda a diferença, como é possível perceber até mesmo por meio de conversas informais com os jogadores”. Coincidentemente, dois profissionais apresentaram uma visão semelhante:

“Hoje é preciso se capacitar, se prestar habilitado, mas não adianta ter o conhecimento sem uma boa capacidade de gerir pessoas, porque para você fazer com que o ambiente esteja propício e favorável a receber os princípios de jogo, conceitos táticos e estratégicos que você deseja, você precisa gerir bem as pessoas, criar uma atmosfera que permita ao grupo absorver aquilo que você deseja. Nós temos vários exemplos de profissionais com bastante conhecimento, mas pela falta dessa gestão de pessoas eles não conseguem reproduzir aquilo que eles poderiam realizar com o conhecimento que têm. E também já vimos outros que não tinham tanto conhecimento, mas que pela capacidade de saber gerir bem o grupo e criar uma boa atmosfera eles tiveram sucesso. Portanto em qualquer situação, circunstância, momento, local, é fundamental você aliar o conhecimento à capacidade de gerir pessoas.” 

“Sendo bem informal, saindo dos livros e vindo à prática, eu divido os treinadores em dois grandes perfis: o treinador que é um bom gestor de pessoas e o treinador que entende muito de futebol. Na minha trajetória dificilmente eu vi treinadores que reuniram essas duas capacidades. Na minha opinião aqueles que se mantêm por muito tempo trabalhando e não somem do mercado são os melhores na gestão de pessoas. Às vezes eles nem entendem tanto de futebol, mas por serem bons gestores de pessoas eles conseguem se manter empregados e o mercado não os descarta tão rápido.”

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Ofício: Treinador. Competências da profissão na realidade brasileira | Tópico 2.2 – Adaptar-se ao ambiente

Parte 2 – A complexidade de um treinador no alto rendimento do Brasil

No território brasileiro, os treinadores profissionais também tendem a ser valorizados pela sua competência em adaptar-se ao ambiente. Segundo o que sugerem os entrevistados, “deve haver uma sabedoria para equilibrar e se adaptar”, “entendendo a realidade e as necessidades do clube de modo que seja possível conduzir o trabalho”, caso contrário o treinador pode se ver preso em meras repetições. Conforme defendido por um dos membros de comissões técnicas, “adaptar-se a diferentes cenários é algo inegociável, não necessariamente na competição mas em torno do clube, porque é muito comum encontrarmos treinadores que querem implementar as mesmas ideias, a mesma estratégia e se comportarem do mesmo jeito que fizeram em momentos de sucesso do passado”. Para demonstrar tal competência enquanto se ajustam ao seu respectivo ambiente profissional, duas condições foram identificadas entre as percepções dos entrevistados: compreender a região e compreender o clube

A capacidade para poder compreender a região se baseia nos aspectos socioculturais e geográficos que distinguem o vasto território da República Federativa do Brasil, cuja composição unifica o país em cinco regiões e 27 unidades federativas. Embora apenas uma parcela dos estados tenha representantes nas principais competições de futebol do país, os entrevistados deste estudo fizeram questão de esclarecer que os treinadores devem absorver as diferenças culturais e comportamentais em cada região onde venham a trabalhar, a fim de potencializarem o entendimento regional enquanto se adaptam ao ambiente onde o clube se situa. Afinal, como exemplificou um dos treinadores, “as dimensões continentais influenciam clubes com diferentes culturas no país”. Aliado ao raciocínio, outro entrevistado inclusive notou que eles devem constantemente “mudar segundo a cultura local, porque existem diferenças entre estados que forçam o treinador a saber lidar com distintos cenários”. Em face a tal diversidade regional no mesmo território, as experiências vividas pelos treinadores inevitavelmente tendem a variar: 

“Existe uma grande diferença comportamental entre uma região e outra e você tem que adequar o seu perfil a cada região em que for trabalhar. Um dos principais pontos que o treinador precisa apresentar para ter êxito no Brasil é o sentimento de que em cada região você deve trabalhar de uma forma diferente. Não me refiro só às relações com as pessoas, mas às características da região. Por exemplo, no Centro-Oeste você tem temperaturas muito altas ao longo do ano, inclusive com queimadas, poluição, fumaça. Os jogadores têm uma desidratação absurda, desgastando muito o aspecto físico. Você precisa ter uma sensibilidade muito grande não só na relação com o atleta pelo desgaste que ele tem, que traz uma queda de rendimento, mas principalmente na organização das cargas de treino, porque se você treinar muito o jogador vai chegar cansado para jogar. Por outro lado, já no Norte do país eu tive que ser flexível e mexer na estrutura do time devido às condições dos gramados onde nós jogávamos, mudando a minha visão e o meu modelo de jogo. Somente para pontuar exemplos de como cada local tem a sua peculiaridade.” 

Ainda de acordo com as percepções dos profissionais, os treinadores também devem fomentar, concomitantemente, a sua capacidade em poder compreender o clube, uma competência que estende o convite a “detectar a verdadeira identidade dentro do clube, assimilando a sua realidade”. Conscientes sobre a influência de aspectos internos e que são inerentes ao clube na condição de uma organização ampla, porém local, os treinadores devem buscar diagnosticar o clube onde trabalham a fim de se comportarem em consonância com a cultura organizacional identificada pelas pessoas já empregadas na instituição. Uma vez que o processo de treinamento se incorpora ao ambiente do clube, torna-se determinante “entender onde você está chegando, onde você vai trabalhar e como você se relaciona com as pessoas”, além de “tentar reunir o máximo de informações possíveis sobre o que o clube oferece, quem são as pessoas envolvidas e o que já está em funcionamento”. Tal reflexão em caráter antecipado convida os treinadores a demonstrarem maior flexibilidade profissional, ilustrando como o alto rendimento do futebol brasileiro requer um cuidadoso ajuste de atitudes, ideias e decisões dependendo de cada ambiente de trabalho em que a profissão do líder técnico é exercida. 

“Por mais que você tenha conteúdo e metodologia de treino, quando você é contratado no meio de um campeonato, qual é o método ou ideia de jogo que você consegue aplicar? É isso o que vai fazer a diferença? Ou é o seu processo de adaptabilidade em estar bem preparado para compensar e colocar as coisas mais simples e rápidas para que você reequilibre e dê resultado em curto prazo? Muitos profissionais têm conteúdo, mas sem nem conhecer os jogadores, as características, saber se os salários estão atrasados, o que está acontecendo no clube, se tem comida, não adianta entrar achando que é um mágico e vai resolver tudo porque tem bom conteúdo ou desenha um bom treino no papel. Não vai, não adianta. O treinador tem que estar aberto à adaptação ao processo. Se adaptar o mais rápido possível ao momento, à situação, às características dos jogadores. Depois, aos poucos, ele consegue inserir as suas ideias, a sua metodologia. É um processo de adaptabilidade para que se ganhe tempo sendo simples, direto, objetivo, se adaptando rápido ao clube. Não o contrário, esperando que o clube se adapte à sua ideia. Você não chega para curar a doença, apenas para dar um remédio. Portanto, simplicidade, objetividade e adaptação.” 

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O futebol e a física quântica, ou de como o Brasil pode ter sido derrotado pelo bater das asas de uma borboleta.

Texto: Valter Bracht, Mestre em Ciência do Movimento Humano e não reflete, necessariamente, a opinião da Universidade do Futebol.

É bastante curioso, para dizer o mínimo, como após um determinado resultado de uma partida de futebol, milhões de analistas buscam argumentos e explicações para o sucesso ou o insucesso de determinada equipe, ou seja, buscam explicações para o resultado. Explicar o resultado significa identificar as causas que o determinaram. Na modernidade, as causas, diferentemente do pensamento mítico-religioso, são buscadas não em forças externas ao mundo concreto, ou seja, o mundo tem um funcionamento intrinsecamente lógico-racional. Assim, também o sucesso ou o insucesso num campeonato pode ser explicado buscando as causas dos mesmos. Poucos são os analistas que não partem (diga-se de passagem, na maioria das vezes de forma implícita) desses pressupostos. Um exemplo é Tostão, que tem falado em suas crônicas sobre o inexplicável e o imponderável presente no futebol, constituindo-se em exceção.

É também muito curioso ou mesmo paradoxal que sempre estejamos tentando “eliminar” a imprevisibilidade do (nosso) resultado em uma atividade cuja atração ou tensão prazerosa provém exatamente da sua imprevisibilidade. Como sabemos, essa é uma das características centrais do fenômeno do jogo. O que observamos, é um comportamento quase esquizofrênico ou ambíguo: me divirto com a tensão da imprevisibilidade do resultado, mas envido todos os esforços (racionais) para garantir um determinado resultado.

Olhando “de fora” o comportamento do torcedor de futebol é algo grotesco porque fica oscilando entre o apelo a todos os santos e divindades e ao mesmo tempo buscando causas/culpados. Aliás, ouve atentamente e julga os comentários dos “especialistas” e confere às causas identificadas por esses (e por suas próprias análises) credibilidade sem jamais, no entanto, atribuir à “forças ocultas” o resultado (apesar de, em caso de sucesso, agradecer aos “céus”). Embora possa parecer grotesco, esse comportamento também pode ser lido como uma espécie de resistência (não conscientemente assumida) à total racionalização do mundo vivido (mas esse é outro tema!).

Apesar de ambíguo, o nosso comportamento em relação à prática do futebol, ou de forma mais geral, em relação aos esportes competitivos (particularmente os de alto-rendimento) vem sofrendo cada vez mais a influência do afã racionalista moderno… mas… o acaso e o “sobrenatural” resistem!

Ao refletir sobre isso lembrei de um texto (talvez pouco conhecido ou citado) do filósofo brasileiro (falecido em 2002) Gerd Bornheim, intitulado “Racionalidade e acaso”.[1] Encontrei nele uma interessante análise do percurso da racionalidade no mundo moderno no seu afã de domar o acaso. Passo a resenhar suas reflexões.

Para o autor, já o pensamento filosófico inaugurado na Grécia antiga pretendia vencer a sujeição ao acaso, procurando estabelecer um comércio racional do homem com o seu meio-ambiente. Vale dizer, estabelecer uma relação de dominação para com a natureza. Esse passo, do acaso para a racionalidade, foi decisivo para a história do homem. O homem transforma o próprio planeta em objeto. A crítica que se fez a essa perspectiva não conseguiu prejudicar a crença na razão e seu sucesso fez surgir a ideia de que o todo da sociedade deveria ser reestruturado em conformidade com preceitos estritamente racionais. Para este pensamento a realidade é sistemática, ou seja, um composto de partes racionais.

Mas, “mil cabeças” se erguem contra a hegemonia do racional, seja pelo voluntarismo, ou pela vivência irracional, ou pelo inconsciente, ou pela história voltada ao particular, ou pela atenção ao homem enquanto singular concreto etc. No entanto, o “sistema” continuou exibindo uma impressionante força, em grande medida por causa da aliança entre o conhecimento e o poder: o sistema, que, lembremos, possui estrutura racional, tornou-se como que coextensivo à própria realidade social.

Nesse processo parece que o acaso simplesmente desaparece e não se percebe um lugar para ele. Ou sim? Mas onde? Para o autor no cerne do próprio sucesso do sistema volta a aparecer no século 20 a figura desconcertante do acaso impondo certo revés ao racionalismo, surgindo algo como uma “aurora do acaso” (p. 47). Cita a ironia de Pascal, que pergunta se a história não teria sido diferente se o “nariz de Cleópatra fosse mais curto”.

Várias foram as tentativas então de acomodar ou contemplar o acaso ainda ao pensamento racional, interpretando-o como algo que lhe escapa, ou seja, uma determinação às avessas. São explicações do acaso que não vão além de uma situação-limite da realidade de forma que “ainda” não é possível uma explicação racional.

Mas, também busca-se considerar “positivamente”, se assim podemos dizer, o acaso em algumas atividades humanas, ou, como diz o autor, tornar presente o acaso numa certa conjugação da previsibilidade com a imprevisibilidade, uma ambiguidade que está presente, por exemplo, no futebol. Vale aqui uma longa citação:

“…Um jogo é armado de maneira a garantir a máxima previsibilidade possível, sempre de olho firme nos resultados, e, em boa medida, de fato os sucessos são previsíveis. O técnico é um especialista que calcula todas as forças e os melhores efeitos. O corpo do atleta e suas resistências podem ser medidas, o tipo de talento ou aptidão de cada um deixa-se conduzir em função de estratégias calculáveis, os grupos também são organizados segundo táticas precisas, e por aí afora. Tudo se passa, portanto, como se o grau de racionalidade compatível com a organização de uma partida de futebol pudesse atingir um nível considerável – todo o afinco dos técnicos regula-se justamente por tal ideia. Essa racionalidade fortalece-se ainda mais dada a existência de regras convencionais, que devem ser obedecidas por todos. Na primeira metade do século, Brecht percebeu com muita argúcia uma certa dualidade que invade os espectadores de uma partida de boxe, o grande esporte de massa da época. O dramaturgo de Na selva das cidades chama a atenção para essa estranha espécie de contradição que determina o comportamento do espectador: de um lado, uma irracionalidade que chega à beira de um certo histerismo, e, de outro, a perfeita atenção ao cumprimento das regras do jogo, acusando a presença de um espírito crítico que não adormece jamais. Um espetáculo esportivo obedece, portanto, a diversas e exigentes formas de racionalidade. Contudo, parece que a própria vida do jogo decorre da exploração dos acasos, do imprevisível, a racionalidade tropeça em ardis que configuram precisamente as virtudes do acaso: nada mais enfadonho do que um jogo restrito a artifícios racionais.” (p. 48-9 – grifos meus)

Nos últimos anos acentuou-se no âmbito do futebol um processo que poderíamos chamar de “cientifização”, esforço destinado a “garantir um determinado resultado”, o que equivaleria a domar (ou eliminar) completamente o acaso. Para tanto, as equipes responsáveis pelo treinamento e performance dos times incluem cada vez mais profissionais de diferentes disciplinas: psicólogos, nutricionistas, fisiologistas, estatísticos etc. Aliás, as estatísticas talvez sejam a mais evidente tentativa de orientar “racionalmente” as decisões dos técnicos e também de identificar as “causas” dos resultados. Um dos primeiros comentaristas de futebol a se valer e dar ênfase às estatísticas foi o gaúcho Rui Carlos Osterman (Rádios Guaíba e Gaúcha), hoje seguido por Paulo Vinícius Coelho com sua “prancheta do PVC”. No último campeonato mundial, vimos na própria transmissão da FIFA novas estatísticas, como o tempo médio de recuperação da bola de uma equipe. Uma exceção é quando se fala e se considera o talento. Diz-se que o talento resolve onde a técnica comum e a tática não resolvem, mas quando isso não ocorre o diagnóstico é: não conseguiu mostrar o seu talento… e aí buscam-se novamente razões.

Mas além do futebol, o nosso autor também cita o exemplo de algumas ciências (física, biologia), como da psicanálise, da literatura e mais amplamente da filosofia. Embora todas sejam interessantes e importantes, destaco aqui particularmente o caso da física contemporânea.

A física clássica foi o grande modelo da ciência moderna com seu rigor e seu determinismo racionalista onde o acaso não possuía lugar. Mas, a famosa frase de Einstein, “Deus não joga dados”, com a qual se contrapunha aos colegas que falavam em “indeterminação”, talvez seja o último eco da física clássica. Para a física quântica no plano do infinitamente pequeno e do infinitamente grande o acaso passou a adquirir uma dimensão cósmica.

Por um bom tempo acompanhei as reflexões de um físico quântico que foi aluno de Werner Heisenberg (considerado um dos pais da física quântica) chamado Hans-Peter Dürr (falecido em 2014), particularmente suas palestras. Uma das mais famosas era intitulada Wir erleben mehr als wir begreifen (Nós vivenciamos mais do que apreendemos). Ele fazia um esforço de “traduzir” conceitos importantes da física quântica para nós os leigos e também discutia suas consequências para nossa cosmovisão e mesmo nossa forma de compreender e estar no mundo.

Pois bem, em suas palestras costumava usar como ilustração um pêndulo (pode ser encontrado na internet no Youtube – Hans-Peter Dürr Pendel). Ele colocava o pêndulo na posição vertical, mas invertida (o peso para cima) e buscava colocá-lo exatamente no eixo vertical. Perguntava, então, se era possível saber para qual dos lados que ele iria cair? Em princípio, se o colocássemos exatamente na vertical ele hesitaria um pouco, mas, por alguma influência ambiental ele acabaria se movendo para um dos lados. Bem, mas se incluíssemos no cálculo todos os fatores ambientais e os controlássemos (por exemplo, o vento, o calor dos corpos circundantes e todas as forças infinitamente pequenas) seria possível prever seu comportamento? Teríamos que incluir no cálculo todo o “cosmos”, já que, em última instância, o bater das asas de uma borboleta no outro lado do mundo poderia determinar para que lado o pêndulo iria cair. A conclusão do físico é a de que sistemas instáveis são extremamente sensíveis e que se considerarmos o cosmos como algo vivo, o pêndulo parece dizer em determinado momento “eu sou livre”.[2]

A diferença de performance entre duas equipes permite, dentro de determinados limites, “prever” o resultado, mas o imponderável, o acaso está sempre à espreita – vide o sucesso da “loteria esportiva”. Ora, um sistema instável, como lembra nosso físico, é extremamente sensível. Se a capacidade de performance é muito desigual isso permite certo nível de previsão para qual lado o “pêndulo” vai tender, mas… um lance fortuito pode tornar o sistema novamente muito instável; a possibilidade disso acontecer nos mantém excitados – nada mais chato do que saber o resultado de um jogo que vou assistir em vídeo-tape. Quanto mais equilibradas as performances mais imprevisível e mais susceptível ao acaso será o resultado.

Quando o Brasil sofreu um gol quase no final do jogo contra a Croácia no último mundial, decisivo para sua derrota, novamente os analistas começaram a buscar as razões ou causas daquela derrota: decisões equivocadas do técnico, dos jogadores, problemas táticos, a convocação equivocada do Daniel Alves etc. (um analista chegou a fazer uma lista: dez razões que explicam porque o Brasil foi derrotado pela Croácia). Voltando às estatísticas: nesse jogo todas as estatísticas eram favoráveis ao time brasileiro, mas parece que elas foram derrotadas pelo acaso.

Mas, se observarmos o gol da Croácia veremos que o chute do atacante vai na direção do jogador Marquinhos, resvala nele e muda sua trajetória e com isso dificulta a defesa do goleiro brasileiro. Se considerarmos essa cena, podemos dizer que temos aí um exemplo de um sistema muito instável e extremamente sensível. Basta lembrar quantos chutes endereçados ao gol durante os jogos da Copa desviaram em defensores e ao invés de adentraram ao gol saíram pela linha de fundo. O que determinou que o desvio da bola, no caso do gol croata, tivesse o destino que teve e não outro? A contingência, o acaso ou o bater de asas de uma borboleta do outro lado do mundo? Quem sabe?


[1] BORNHEIM, Gerd. Racionalidade e acaso. In: NOVAES, A. (Org.). Rede imaginária: televisão e democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

[2] Ele depois complexifica a análise ao interligar vários pêndulos que ele vai chamar de pêndulo-caos. Lembro aqui novamente de Borheim que fazendo referência a Nietzsche, diz que “o caos é como a acumulação do acaso” (p. 52)

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O futebol feminino é estratégico?

Sim. Quero responder essa pergunta com um longo e sonoro simmm…. Mas por quê?

Pelo lado das oportunidades: crescimento exponencial de novos expectadores, novos consumidores, patrocinadores, oportunidade de expansão das marcas de clubes fortes ou fortalecimento e visibilidade de clubes que não são tão expressivos no cenário nacional. Incremento de vendas de diversos setores como, por exemplo, o de artigos esportivos.

Além disso, o futebol feminino é estratégico pois significa responsabilidade social, diversidade e inclusão tanto para clubes quanto para marcas que investem na modalidade e na formação das atletas. A modalidade tem um número crescente de competições nacionais e internacionais, com um aumento explosivo de audiência e visibilidade das marcas. O futebol feminino ainda leva nossa marca Brasil para diversas competições, incluindo Olimpíada e Copa do Mundo.

Mas o futebol feminino também é estratégico pelo lado dos riscos… Explico-me. Que tal ver seu time do coração tomando uma goleada de um time rival ou de um time de “camisa menor”? Que tal essa goleada ser assistida por milhares de expectadores e, cada vez mais, sendo transmitida pela TV e principais canais de streaming? Que tal continuar deixando o time de futebol feminino treinar em “qualquer lugar” e com “qualquer suporte” e depois disputar os jogos com a camisa oficial do clube? Que tal todos os riscos de simplesmente delegar para um gestor desqualificado a responsabilidade de juntar um número de atletas sem estrutura adequada, sem apoio e sem investimento na formação técnica e humana das atletas para simplesmente cumprir os regulamentos? E, depois, como arcar com todas as consequências civis, de reputação e perdas financeiras?

Fazendo um resgate histórico, de esporte proibido para mulheres até a visão estratégica da FIFA ao regulamentar o futebol feminino por reconhecer sua importância para a continuidade do crescimento do futebol, foram muitas lutas. A modalidade foi regulamentada no mundo e também no Brasil com esta visão de inúmeras oportunidades que podem ser ilustradas, por exemplo, pelo público recorde de mais de 1 bilhão de telespectadores que assistiram à Copa do Mundo feminina da França em 2019.

Além disso, a FIFA criou, em 2018, a Estratégia Global para desenvolvimento do futebol feminino baseada em cinco pilares: desenvolver e crescer dentro e fora do campo, melhorar as competições, comunicar e comercializar, igualdade de gênero em papéis de liderança e educar e empoderar.

E você? Com tantos resultados sociais, econômicos e culturais em curso e com o crescente engajamento de diversos stakeholders para o impulsionamento da modalidade e da agenda EESG (Economic, Environment, Social and Governance), que tal assumir uma estratégia mais robusta e consistente para o futebol feminino?

Texto por: Heloisa Rios

Imagem: Sam Robles/CBF