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Heróis e vilões no futebol

Crédito imagem: Valquir Aureliano/Portal Bem Paraná

Semana triste com casos de violência no futebol brasileiro. Absurdos que nem registrarei com pormenores para não dar ainda mais visibilidade aos agressores. O que quero, sim, é jogar luz em alguns elementos nocivos no enxergar o jogo de futebol que estão transformando os necessários apaixonados em alguns bandidos invasores, delinquentes que cometem atentado contra trabalhadores.

Claro que temos que colocar que o futebol está inserido na sociedade, que é um sistema maior. E quanto mais esse sistema for disfuncional mais seus elementos sofrerão. Já falamos que nossa sociedade tem suas violências e impunidades. Porém isso está se somando aos ingredientes impaciência e intolerância dos dias atuais, fazendo com a panela de pressão exploda mais rápido e mais forte! Hoje tudo tem que ser pra ontem. Ou no máximo para agora. Precisamos ter verdades absolutas em fração de segundos. A internet julga e cancela. Mesmo que em muitos casos não tenha solidez e embasamento para esses tais vereditos.  No futebol isso é transferido aos personagens. Técnicos, jogadores e até dirigentes são individualmente valorizados e ridicularizados na mesma proporção em função de alguns poucos resultados. Ignoramos contexto, processo e todo o ecossistema que sustenta, positiva e negativamente, o resultado. Ganhou é gênio. Perdeu não presta. 

Nada justifica a violência. Nada! E futebol não é um mundo à parte. O que é da esfera policial transcende as quatro linhas. Contudo nós do futebol podemos ter uma visão mais ampla, entendendo que dentro de um clube, por exemplo, é mais importante a criação sistêmica de uma cultura ou do sucesso ou do fracasso que permeia todo o processo. O impacto de um jogador e de um treinador é pequeno frente ao que o clube produz como um todo. Vou continuar propagando essas ideias, mesmo tendo muito pessimismo sobre a real assimilação disso da parte de quem pratica um atentado com bomba contra quem está exercendo um ofício…

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As redes sociais e a saúde emocional dos atletas

Crédito imagem: Reprodução/Instagram/José Mourinho

A “era da informação” é um termo utilizado para se referir a todo aparato de tecnologia digital responsável pela mediação das relações humanas e das interações entre máquinas, que são cada vez mais autônomas. O futebol recebeu grande influência dessa evolução tecnológica, tanto na questão técnica e preparação física de atletas quanto na mercadológica, passando a constituir um evento midiático de grande interesse econômico por parte dos seus agentes e patrocinadores.

A partir da década de 1980, um grande fluxo de atletas brasileiros passou a se dirigir à Europa, pois esse mercado era (e continua sendo) atrativo pela possibilidade de altos salários e pela qualidade de vida que oferece aos seus cidadãos. Quando isso acontecia, geralmente o atleta caia no esquecimento do torcedor local, salvo quando demonstrava um rendimento acima da média em seus clubes estrangeiros e acabava convocado para servir à Seleção Brasileira. Atualmente, porém, muitos atletas fazem questão de expor suas vidas privadas nas redes e, mesmo os mais discretos, podem ser expostos por veículos midiáticos especializados em “fofocas em troca de cliques”.

Além de toda a pressão emocional a que estão sujeitos para o alcance do alto rendimento esportivo, atletas também começam desde muito jovens a construir a necessidade de trabalhar a sua imagem pública por meio das redes sociais, buscando alcançar o maior número de seguidores possível. No geral, quanto mais populares, maiores as chances de obter ganhos com investimentos de marketing e patrocínio de marcas, o que pode, inclusive, facilitar a sua contratação pelos clubes. Mas, não é só isso: muitos atletas passaram a depender emocionalmente das redes e da aceitação social que seus seguidores lhes proporcionam. Essa realidade tem produzido nos últimos anos uma verdadeira epidemia de depressão e outros transtornos psíquicos e emocionais em um grande espectro de pessoas que utilizam a internet para a autopromoção, como youtubers, influencers, atores, cantores, atletas, entre outros.

Longe de querer encerrar o assunto e tirar conclusões precipitadas sobre esse cenário, é importante compreendermos que estamos diante de um fato econômico, social e cultural, com importantes desdobramentos na forma como vivemos em sociedade.  A vida moderna passa a ser estruturada em torno de objetivos provisórios, superficiais que são confundidos com os fins. O indivíduo vive pressionado, tenso, esperando algo que nunca parece chegar e, suas finalidades últimas se perdem no horizonte.

O dinheiro e uma noção ilógica de poder se colocam entre o homem e o que ele quer, como se fossem facilitadores, criando a ilusão de que tudo pode ser alcançado através deles. O consumo desenfreado estimula a ansiedade, reproduzindo a ilusão que aquilo que vai lhe dar trégua pode ser obtido facilmente na posse de uma determinada quantia ou posição social. As propagandas são exemplos que parecem ser bem apropriados: elas exploram o universo simbólico dos consumidores sempre de forma hiperbólica, pois talvez do contrário, sem este estímulo adicional, não obtivessem o resultado desejado. Nesse momento de concretização do que o escritor Guy Debord ainda no séc. XX chamou de “sociedade do espetáculo” e em que vários clubes adotam o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), mais do que nunca, as relações de trabalho com os atletas serão mediadas a partir de índices e métricas de “investimento x lucratividade”. Por isso, os clubes formadores e a sociedade como um todo deverão estar muito atentos à educação emocional dos nossos jovens atletas, para que possam desenvolver uma base sólida capaz de equilibrar o rendimento esportivo e a satisfação perante a vida.

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Rótulos e modismos no futebol brasileiro

Crédito imagem: Divulgação/Al-Duhail

Dezembro de 2016. O Corinthians ainda sentia a ausência do técnico Tite, que alguns meses antes havia saído do clube para assumir a seleção brasileira. Sem treinador, o Corinthians não sabia muito bem que rumo tomar. Tentou alguns nomes, cada um com um perfil, ouviu alguns nãos, e de repente, muito de repente mesmo, sem qualquer tipo de convicção, com a temporada 2017 prestes a começar, pinçou o então auxiliar Fábio Carille. Uma solução barata, acessível e que faria os dirigentes ganharem tempo na busca por um nome de mais peso. 

Mas Carille tinha qualidade. Passou muito tempo aprendendo com Tite e Mano Menezes. A solidez defensiva que marcou a década vitoriosa do clube tinha o dedo de todos e Carille soube transportá-la ao seu trabalho autoral. Pelo tempo de casa, ele conhecia muito bem o clube, o ambiente interno e a torcida. E os resultados positivos passaram a acontecer. De quarta força a campeão Paulista e Brasileiro. 

Vendo o Corinthians vitorioso com essa “fórmula” os outros times passaram a copiá-la. Oras, se deu certo lá pode dar certo aqui, pensaram vários dirigentes pelo país. A moda então passou a ser apostar em técnicos jovens. Vindos da base ou auxiliares permanentes… só que pouca gente entendeu que o contexto vitorioso de Carille no Corinthians era extremamente único. Como todo contexto é: não dá para desprezar as relações internas e externas, a identidade, a história, as finanças, enfim, cada cenário é de uma forma e pede uma intervenção única. 

Como não se tratou de apenas uma temporada, em 2018 o campeão brasileiro foi o Palmeiras com o experiente Luis Felipe Scolari no comando. Adivinha qual foi a tendência? Exato, técnicos medalhões. Com vivência. Que conseguiam dominar o vestiário, coisa que os mais jovens não sabiam… veja que aí o exemplo de Carille em 2017 já não valia…

Nesta linha do tempo, está mais do que claro porque todo mundo quer em 2022 um técnico português… isso mesmo, porque as últimas três Libertadores foram vencidas por Abel Ferreira e Jorge Jesus. 

Enquanto não houver qualificação profissional, convicção, visão de médio e longo prazo e embasamento técnico em quem tem a caneta nas mãos, o futebol brasileiro seguirá refém de rótulos e modismos.

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O palmeirense pode não comemorar. Mas o futebol sulamericano sim!

Crédito imagem: Fabio Menotti/Palmeiras

Sei que é demais pedir para o palmeirense comemorar a atuação contra o Chelsea na final do Mundial de Clubes. E está ok o torcedor ficar triste pelo segundo lugar. Torcedor torce! É passional. Tem que ser assim mesmo! Mas o desempenho do Palmeiras foi gigante. Imponente. Brigou sim de igual para igual com o poderoso campeão da Champions. Excelente alento para todo o futebol sulamericano.

A diferença econômica existe, é um indicador importantíssimo, mas não pode nunca ser um confortável limitador. Maior poderio financeiro e mais recursos para investir claro que trarão melhores jogadores. O elenco do Chelsea vale vinte vezes mais do que o do Palmeiras. Porém, insisto, que mais qualidade individual de um lado não deve significar para o outro pobreza de ideias, fraco jogo coletivo e um espírito derrotista e resignado. E foi possível enxergar nitidamente no Palmeiras de Abel Ferreira um bom plano de jogo, um comprometimento absurdo dos jogadores com e sem a bola e uma crença inquebrantável de que a vitória era possível.

Não podemos comparar cenários por conta de um jogo. Sim, a Premier League é infinitamente melhor do que o Brasileirão. A Champions League dá um banho em absolutamente tudo na Libertadores. Dentro e fora de campo. Mas essa final do Mundial de Clubes mostrou que os times sulamericanos não precisam ser tão diferentes dos europeus. Mesmo com muito menos dinheiro. No futebol globalizado de hoje, arrecadar menos não pode significar conceitos defasados, intensidade rasa e mentalidade de baixa performance. Parabéns Palmeiras! Você mostrou que o futebol da América do Sul sobrevive e compete!

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Sylvinho e a cultura…

Crédito imagem: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

A demissão do técnico Sylvinho no Corinthians escancarou problemas crônicos do nosso futebol. Claro que saídas de profissionais são legítimas e acontecem no mundo todo – muito mais no Brasil do que em outros lugares, mas tudo bem. E você, corintiano, pode estar neste momento enumerando erros de escalação, formação e substituições que Sylvinho cometeu nesses oito meses de trabalho… porém um olhar global para essa demissão mostra que estamos na contramão do que pede o sucesso.

Em primeiro lugar, o futebol brasileiro superdimensiona o papel do técnico. Quando ganha ele leva méritos que não são dele. E quando perde é crucificado e apontado como o grande vilão sem também merecer. O jogo é do jogador! Quem executa, quem toma decisão é o atleta! O treinador tem um papel fundamental, entretanto o protagonista é sempre aquele que entra em campo. 

E no caso do Corinthians o elenco é mal formado. Há excesso de jogadores que já passaram da idade de alta performance e também lacunas importantes, como a ausência de um centroavante e de um primeiro volante. Quando a atuação no mercado prioriza desejos de patrocinadores e não aspectos técnicos fica difícil criar um elenco homogêneo…

Reconheço que a comunicação de Sylvinho não foi das mais assertivas. No discurso e na linguagem não verbal faltou se adaptar ao “público-alvo”, que é o corintiano. Ele foi demitido por causa disso. E isso é muito grave! Foi avaliada a embalagem e não o conteúdo! A partir do momento que o personagem Sylvinho caiu em desgraça o campo passou a não importar. Nada que ele fizesse iria agradar a opinião pública. Nenhuma fala de jogador atestando a qualidade do trabalho convenceria o torcedor e por consequência o dirigente. 

A gestão não profissional gera isso. A arquibancada deve ser ouvida, mas não pode ser determinante na condução do processo. Nunca que três jogos de início de temporada podem culminar na saída de um treinador. Agrade o torcedor e jogue a pré-temporada no lixo! Qualidade do jogo nesse contexto incoerente? Esquece…

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Palmeiras e o investimento na base

Crédito imagem: Reprodução/Palmeiras

O sucesso nunca é fundamentado em um único elemento. É a junção de algumas variáveis que compõe um sistema vencedor. No futebol isso é colocado à prova toda hora, pois trata-se de um jogo que é aleatório, imprevisível e caótico. Pode-se fazer tudo certo e mesmo assim o resultado positivo não aparecer. Sobretudo no curto prazo. A tendência natural, porém, é que no médio e longo prazo boas convicções, trabalho duro e foco no processo tragam vitórias convincentes.

O Palmeiras atual é um exemplo disso. Dentro desta reconstrução, o objetivo nunca foi ganhar a Libertadores novamente. Nas categorias de base, a meta não era ganhar a Copa São Paulo. No mercado, o foco não está em contratar os jogadores mais famosos e badalados do mundo. O olhar esteve, sim, sempre em criar uma cultura vencedora. Um sistema de processos e ações que paulatinamente aproximasse o clube do sucesso.

Meta de ser campeão todo time tem. A diferença está no modelo planejado e executado para chegar lá!

Sabe porque o Palmeiras nunca tinha vencido a Copinha? Porque nunca havia sido criada uma metodologia de trabalho na formação e o departamento de base nunca tinha recebido a atenção e os investimentos necessários. Para ir além da conquista de um campeonato, basta ver a quantidade de jogadores que o clube revela hoje e a quantidade que revelou em toda a história…

Ter um plano, acreditar nele, possuir humildade e sabedoria para em tempo real mensurar resultados e ir aparando arestas, mas sem sair da rota, não é para todo mundo. Todos querem ganhar não só no futebol, mas também na vida. Entretanto, poucos conseguem criar com paciência e persistência um meio consistente para atingir os fins. Tenha metas muito claras. Mas trabalhe arduamente para ser integrante ativo de um contexto que o aproxime de fato do sucesso.

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O vestiário como espaço de intimidade grupal

Crédito imagem: Ivan Storti/Santos FC

O futebol tem sido, cada vez mais, estudado multidisciplinarmente: há inúmeras pesquisas na área da biomecânica, fisiologia, treinamento físico, pedagogia, sistemas táticos, análise de desempenho, psicologia esportiva, dentre outras. Esta última, apesar de também mais frequente nos últimos anos, continua ocupando espaço de menor importância neste contexto.

Se à psicologia do esporte ainda é atribuído um papel secundário no âmbito do futebol profissional, dentro dela, me surpreende que os estudos sobre os processos de grupo tenham recebido pouca atenção ou manifestado tão pouco interesse. Em minha tese de doutorado, defendida em 2017, busquei justamente abordar os processos grupais em equipes do futebol profissional e um dos focos que pude dar em meu estudo se refere ao conhecimento, compreensão e análise da importância do ambiente de vestiário na configuração da tarefa grupal.

A ausência de compreensão ou da capacidade de reflexão crítica sobre o que acontece neste ambiente, do ponto de vista psicológico, parece pouco ter importado os dirigentes e integrantes de comissão técnica, sobretudo os treinadores que, na condição de líderes, tem que lidar diariamente com as situações e conflitos que emergem deste ambiente. Fortunas são gastas para contratar “grandes estrelas” e, cada vez mais, “grandes comandantes”, mas pouco se faz para que se relacionem bem e costumeiramente, como se diz dentre os “boleiros”, o “grupo racha”, “uma laranja podre contamina o grupo” ou o “treinador perde o grupo”. Vetores importantes da tarefa grupal como a comunicação, a afiliação/pertença, aprendizagem, cooperação, pertinência, por exemplo, quase nunca são problematizados. Assim como o conceito de papel e de vínculo.   

Neste aspecto, dois fatos explicitados pela mídia esportiva dias atrás me chamaram a atenção: as novas regras de convivência implementadas pelo recém contratado treinador do Flamengo e a notícia de que o vestiário do Manchester United estaria rachado em dois grupos, um deles pelos atletas que falam português (grupo esse comandado pela maior estrela da equipe, o “astro” Cristiano Ronaldo) e o outro pelos demais jogadores. Ambas situações têm estreita relação com o assunto que trouxe para discussão neste texto: o vestiário como espaço de intimidade grupal e determinante nas configurações vinculares do grupo.  

Inicialmente, é preciso destacar que um dos maiores empecilhos para ter as portas dos clubes abertas para que eu pudesse realizar a pesquisa de campo durante o doutorado foi justamente a necessidade metodológica de acompanhar o grupo em todos os espaços e situações em que atletas e comissão técnica se relacionavam e, dentre eles, o vestiário. Foram inúmeras negativas até que, após muita insistência, recebesse a autorização de três clubes (um de série A, outro de série B e outro de série C) para realizar minhas observações e entrevistas. Ainda assim, em um dos clubes houve a troca de treinador no decorrer de minha investigação e o recém-chegado treinador impediu minha presença no vestiário com a justificativa de que o vestiário era dele, ou seja, somente ele os atletas tinham acesso. Afinal, porque tanta resistência em permitir ao pesquisador o acesso ao vestiário?    

Via de regra, nos três clubes investigados o ambiente de vestiário era bastante tranquilo. Principalmente em dias de treinos. Os atletas permaneciam conversando com os companheiros próximos, ouvindo música ou em pequenos grupos brincando de algum jogo (futevôlei ou futmesa). Foram raros os momentos de tensão, preocupação e discussão. Tais comportamentos, por sua vez, foram mais presenciados em dias de jogos, quando os sorrisos eram substituídos por semblantes sérios, o relaxamento pela concentração, as falas/gritos e brincadeiras descontraídas pelo silêncio e conversas paralelas.

Se explicitamente o ambiente se mostrava “inofensivo” e pouco importante do ponto de vista dos processos de grupo, implicitamente se mostrou um ambiente de fundamental importância no futebol profissional já que o consideramos como o espaço de maior intimidade do grupo. Nele, local de exposição dos corpos – nus quando vestem os uniformes de treino e/ou jogo ou quando tomam o banho pós treino/jogo – e das conversas particulares e frequentemente das reuniões, discussões, desavenças e “lavagem de roupa de suja”, atletas passam grande parte do tempo da sua rotina profissional. Portanto, da mesma forma que acontecem momentos de descontração, brincadeiras, conversas informais e casuais, ocorrem também as ocasiões de muita seriedade como a discussão/resolução de conflitos grupais.

Em um dos clubes que pude investigar, a função de delimitar o armário de cada atleta era do roupeiro. Este afirmou que procurava colocar os jogadores que já são amigos e possuem afinidades com armários próximos. A partir desta distribuição de armários, os contatos e afinidades passam a ser maiores entre os jogadores que possuem armários vizinhos. O que deve ser analisado é que nos demais ambientes (campo, sala de musculação, refeitório etc.), as rodas de conversa são formadas segundo estes subgrupos. Ou seja, é no vestiário que começam a ser fortalecidas as relações vinculares e organizadas, como se diz no senso comum, as “panelas”.

Algumas frases interessantes foram ditas a mim, dentre as quais destaco duas: vestiário é “lugar sagrado para os jogadores“ e “no meu vestiário, nem diretor entra”. Proteger o ambiente que dá ao treinador e ao grupo que lidera uma certa segurança e que garante sua intimidade ao ponto de considerá-lo sagrado explicita a importância que o vestiário exerce na dinâmica grupal em equipes de futebol. Certamente não podemos desvincular também sua relação com o processo de coesão de grupo e com o desempenho da equipe. Ou seja, as manifestações comportamentais e vinculares que se processam no vestiário possuem relação direta com os resultados obtidos nas partidas.    

Ter um “bom vestiário”, no sentido de relacionamento interpessoal, significa possuir um grupo unido, coeso, “fechado”, blindado de questões exteriores ao contexto de treino e jogo que possam interferir negativamente no relacionamento entre eles e/ou rendimento nas partidas. O vestiário assume simbolicamente tudo o que compõe a rotina profissional de atletas e comissão técnica e, dessa forma, muito desse significado e do que acontece no vestiário se relaciona com o processo de formação de grupo. O vestiário se apresenta, portanto, como um ambiente em que se preservam os segredos circunscritos aos pequenos grupos e um espaço de intimidade intermediário entre o público e o privado. Privado na medida em que se refere às relações intimas e afetivas dos jogadores e público porque é de onde estes partem para ambientes de exposição.

Como procurei apresentar, o ambiente de vestiário deve ser melhor compreendido e levado mais a sério por todos que fazem parte da rotina profissional em clubes e equipes de futebol. Sobretudo aqueles que mais tempo passam nesse ambiente como, por exemplo, determinados dirigentes, integrantes da comissão técnica e um funcionário muito pouco citado neste contexto e o qual gostaria de destacar: o roupeiro. Afinal, são eles, este último em especial, que podem atuar como apoiadores ou sabotadores da constituição dos subgrupos e garantir a segurança socioemocional que este espaço de intimidade grupal representa para atletas e comissão técnica.      

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O jogo de futebol é tudo ao mesmo tempo

Crédito imagem: Franck Fife/AFP

Com a (curta) pré-temporada se encerrando e o começo das competições oficiais em mais um espremido calendário – desta vez por conta da Copa do Mundo – não serão raras as projeções para um ano todo com base em alguns poucos jogos deste início de ano. Pelo menos com bola rolando fica menos subjetivo do que o famigerado ‘time no papel’ – ah ‘no papel’ esse time é melhor do que aquele…como assim no papel?!

A graça do futebol está na complexidade! Na globalidade! 

Pouco a pouco, superamos a divisão do jogo para treiná-lo: antes, para melhorar finalização, o centroavante ficava chutando vinte, trinta bolas no gol, sem um defensor para marcá-lo, tendo recebido um passe perfeito, muitas vezes até feito com a mão do treinador ou de um auxiliar, ficando cara a cara com o goleiro. Oras, no jogo é assim que acontece?! Ou em praticamente todos os lances, o passe não virá muito redondo e haverá pelo menos um marcador e quem sabe até um segundo fazendo cobertura?! Ou o clássico treino coletivo para melhorar o jogo onze contra onze. Nada mais aleatório e improdutivo… para aprimorar uma equipe, deve-se saber o que melhorar. Saída de bola? Transição defensiva? Infiltração dos meias na área? A partir de um foco específico se cria atividades, com muitas repetições do que se quer melhorar.

Exploro tudo porque o jogo de futebol reúne um mundo de variáveis! Ele é técnico, tático, físico, mental e, podemos ir longe dizendo que é também, social, espiritual, ecológico, antropológico e por aí vai…

Não é querer inventar a roda e nem trazer termos rebuscados. É só constatar o que de fato acontece nas quatro linhas. Todo mundo que joga, que assiste, vive isso. Talvez só não saiba declarar…

O futebol evoluiu muito nos últimos anos. Muito mesmo. Mas a essência é a mesma do início do século passado! Um jogador pode ter a técnica mais apurada, mas sem confiança ela não irá aparecer. Ou a melhor tática, a mais bem estudada, pode ser rompida pela genialidade de um drible improvisado de um atacante atrevido.

Um time com os melhores jogadores pode ser derrotado por um outro inferior tecnicamente, porém com as funções tão bem sincronizadas que ao invés de onze, a impressão que se tem é que eles estão com quinze em campo!

Por isso somos apaixonados pelo futebol! Pelo que acontece no campo! E não por ler uma escalação no papel.

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O jogador de futebol mercadorizado

Crédito imagem: Reprodução/Palmeiras

Finalizamos nosso último texto, sobre o futebol como negócio, levantando a bola para compreendermos o papel atribuído aos jogadores, e por vezes assumido por eles, de mercadorias, produtos, coisas. No momento atual do futebol brasileiro de abertura da “janela de transferências”, essa questão se torna mais evidente. Apesar de evidente, não está explícita e é pouco problematizada no contexto do futebol profissional. Por outro lado, recentemente, um atleta do Palmeiras, ao ser questionado se poderia jogar no rival, fez a seguinte declaração: “Sou uma mercadoria. Não sei o dia de amanhã.”

Há muitos anos, autores da Educação Física e das Ciências Humanas se dedicam à discussão do processo de coisificação do sujeito e, consequentemente, do atleta de futebol, o que o transforma numa máquina, numa coisa, num produto e mercadoria. Arlei Damo e José Florenzano são referências conhecidas por nós. Mas a psicóloga social Ana Quiroga e, principalmente, o precursor do termo, Perdigão Malheiro, já problematizavam, há décadas, sobre essa questão. Não se trata, evidentemente, de um fenômeno exclusivo do esporte. O tipo de sociedade que vivemos busca transformar todos nós em consumidores, clientes e em mercadorias. Vende-se, de ar a sonhos, nada escapa à ganância do lucro desenfreado. Porém, trata-se, neste ensaio, de colocar o fenômeno da mercadorização apenas no futebol.

No entanto, ainda que este termo tenha sido cunhado há anos e questionado e discutido desde então, ainda é muito comum a mídia esportiva, dirigentes, torcedores e até mesmo os próprios jogadores atribuírem aos atletas do futebol profissional a qualificação de mercadoria. Quantas vezes não se ouviu dizer, “fulano foi comprado”, “ciclano foi vendido”, “precisamos só trocar umas peças”, “tal jogador pertence e tal clube”, “quando não render mais, a gente vende ou descarta” etc. Tais falas explicitam o processo de transformar pessoas, seres humanos, em coisas. Afinal, como nos diz Florenzano, o futebol moderno está impregnado pelo discurso que associa o jogador a uma máquina, como uma peça de engrenagem, e que pode ser tranquilamente reposta/substituída quando vendida ou inutilizada.

Nenhuma outra expressão soa tão agressiva e impactante quanto “plantel”, expressão designada atualmente para nomear um grupo de profissionais, os jogadores principalmente, de um clube esportivo. Tal expressão remete aos tempos feudais para denominar um “conjunto de escravos de um senhor, uma província, uma região, um país” (GEIGER, 2016). Obviamente, não estamos querendo comparar jogadores de futebol aos escravos, mas ressalvadas suas particularidades, levantar similaridades quanto à negação de seus direitos, sentimentos e subjetividade.

O Brasil é farto na produção de talentos para o futebol. Afinal, foi nosso povo mais vitimado, mais marginalizado, que reinventou o futebol, transformando o jogo que nos chegou dos ingleses em uma espécie de brincadeira de bola, onde a beleza e a sutiliza do gesto, a diversão, a alegria, a criatividade, despontavam soberanas. Não se passa um ano sem que surja um menino ou menina de quem digam que será craque, embora ainda jovem, quase criança. Quando isso ocorre, acompanhamos com ansiedade seu desenvolvimento, mas não sem apreensão. Por vezes nos perguntamos quanto tempo se passará até que os mercadores do futebol o destruam.

O caso mais recente é o do menino Endrick, jovem talento das categorias de base do Palmeiras, quinze anos de idade, pouco mais que uma criança. Notamos a cautela no trato com esse menino por parte do técnico da equipe palmeirense que disputa a Copa São Paulo, versão 2022, deixando-o no banco para participar somente da segunda etapa (até quando ele conseguirá manter essa cautela?). O menino é um artista da bola e o demonstra isso fartamente quando entra em campo. Porém, confrontando a cautela do técnico de Endrick, vemos os vídeos de suas melhores jogadas exibidos à exaustão na mídia, lemos os comentários feitos por alguns profissionais da imprensa, que fortalecem a ganância dos mercadores; notamos a ansiedade de dirigentes pelo que representa Endrick como mercadoria, valores absurdos em dólares e euros são colados à imagem do menino. Clubes e imprensa da Europa falam do jogador palmeirense, monitorando-o para uma possível negociação. Quanto tempo dura a estrutura psíquica de um menino submetido a tal pressão? Que medidas cautelares contra essa mercadorização, além de seu técnico, o protegerão? Família? Amigos? Dirigentes? Endrick é só um menino. Ele poderá viver sua vida de menino? Endrick é criativo. Ele poderá seguir sendo criativo? Para Endrick, o futebol ainda é uma brincadeira de bola. Ele poderá seguir brincando de bola? Por quanto tempo? Endrick tem vestígios de artista. Ele poderá se tornar um artista da bola?

Todos os anos surgem “Endricks”, “Neymares”, “Zicos”, “Maradonas”, em todo o mundo. Quantos, depois de tornados mercadorias, sobrevivem à arrasadora sanha dos mercadores do futebol? Inevitavelmente caem nas garras desses mercadores, que olham para pessoas e só veem cifras, lucros, negócios. Todos somos cifras, lucros, negócios para os mercadores, mas jogadores de futebol são tudo isso potencializados. Nesse mundo balizado pelo modo de produção capitalista, poucas mercadorias produzem lucros tão astronômicos quanto jogadores de futebol

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Times campeões não precisam ter os melhores jogadores

Crédito imagem: Gilvan de Souza/Divulgação

Período sem jogos não quer dizer período sem futebol. Sobretudo com a euforia causada por simples especulações: saídas e principalmente chegadas de jogadores são comemoradas muitas vezes como um título! Mas qual a real eficácia de um reforço bombástico? A empolgação do torcedor deve ser parâmetro para o dirigente fechar ou não um negócio? Admitindo que toda contratação é um risco, como minimizá-lo através de uma análise prévia bem estruturada? Perguntas complexas para algo ainda mais complexo e subjetivo que é o futebol…

Primeiramente quero deixar bem claro que para mim o mais importante no futebol é o binômio: jogador-torcedor. É a qualidade do jogador que faz do futebol um espetáculo. É a paixão do torcedor que alimenta a indústria e faz a roda girar. Porém isso não quer dizer que uma equipe de sucesso, que conquiste títulos, seja calcada apenas na qualidade individual dos seus jogadores e no sentimento desmedido de quem está na arquibancada.

Não são poucos os casos de equipes recheadas de craques que nada ganharam. Ou então aquele time que no começo da temporada realizou duas ou até três contratações de impacto, criou uma expectativa gigantesca no torcedor, mas quando a bola rolou não houve o chamado encaixe. Apesar de sabermos que o futebol é coletivo-onze em campo e muitos outros profissionais nos mais diferentes departamentos- temos a tendência de individualizar o jogo. Pela nossa cultura. Pela nossa história. Pelos nossos inúmeros craques do passado e do presente. Fecho todo esse raciocínio com dois exemplos do futebol paulista: na última grande conquista do Corinthians, o Brasileirão de 2017, o time foi taxado como a quarta força ao ser confrontado “no papel (!)” com seus maiores rivais. A mais recente glória do Palmeiras, a Libertadores 2021, foi obtida mesmo com o clube tendo menos jogadores “decisivos (!)” do que os concorrentes Atlético-MG e Flamengo. Citações práticas de que no caos e na complexidade do futebol o todo, de fato, é maior do que a soma das partes.