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Jogar futebol por Riquelme e Fàbregas

Juan Román Riquelme e Cesc Fàbregas em entrevistas ao treinador argentino Angel Cappa para o livro “Hagan Juego” de 2009, explanaram de forma madura suas visões de futebol. Jogadores de grande nível, inteligentes, de refinamento técnico, mostraram discernimento apurado para a tendência e filosofia de futebol que mais se identificavam.

Juan Román Riquelme

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Juan Román Riquelme |Crédito: Alejandro Pagni/AFP

“Eu não posso falar do futebol de 40 anos atrás, mas é verdade que hoje os jogadores correm mais. Hoje em dia escutamos muito que a culpa é dos preparadores físicos, que se corre mais por que os jogadores estão mais bem preparados. Quando eu tinha 16/17 anos, e não tinha ainda debutado na primeira divisão, já jogava três horas com a bola e não me cansava. Ia para casa, comia, jogava mais três horas e não me cansava. E eu fazia isso todos os dias. Às vezes dizem que só podemos jogar um jogo de futebol por semana, e eu penso que é por que corremos mal e não por que um jogador é melhor ou pior preparado para jogar futebol. Claro, é necessário o preparador físico para que estejamos melhores, mas a verdade é que se joga mal.

A primeira vez que estive na Europa, a pré-temporada parecia rara, pois foi leve. Usamos o campo inteiro e com bola. Havia circuitos, freávamos, saltávamos, acelerávamos e finalizávamos para o gol. E, como jogadores, confundimos as coisas, por que acreditamos que correndo até acima da montanha e descendo, vamos driblar melhor. Não é assim. Eu penso que estamos dando pouca importância para a bola, e estamos tratando cada vez pior a bola. Já não nos divertimos tanto. Vamos ao gramado e lá vejo caras de preocupação mais que de alegria. Para mim, de segunda a sábado trabalho com um sentido, em um bom sentido, mas no domingo já não, é o dia mais lindo que eu desfruto.

Agora não se fala mais de jogar, quase ninguém fala em jogar uma partida de futebol, mas sim quem vai ganhar: a equipe que está mais concentrada, que cometa menos erros, essas coisas, que são esses pequenos detalhes que vão ganhar uma partida. Para mim, vai ganhar a equipe que joga melhor.

Há equipes que quando estão perdendo de 1×0 custa sair do planejado por que não estão preparadas para atacar. E atacam mal. O tema passa por não confiar na criação e preferir a especulação. E, eu não sei se o problema de jogar mal ofensivamente é apenas relativo ao entendimento de espaço. Para mim há um problema mais grave que é que não sabemos passar a bola. É difícil encontrar três passes seguidos. Eu vejo as vezes que o defensor não gosta de ter a bola. Temos medo de arriscar”.

Cesc Fàbregas

Cesc Fàbregas | Crédito: Hamish Blair/Getty Images
Cesc Fàbregas | Crédito: Hamish Blair/Getty Images

“No Barcelona, desde pequeno, trabalhamos a técnica. Os treinamentos eram todos com bola: controle, movimentos. Era muito divertido. Desfrutava muito. De trabalho físico, nada de nada. E essa é a cultura no Barcelona. E, quando vou para a seleção, aprendo muito com Xavi e Iniesta. São médios que tocam, que se movem, que buscam os espaços, e noto que gostam de futebol, por que nas concentrações assistem e conversam muito sobre futebol.
Aqui no Arsenal, é parecido, e desfruto desse futebol por poder tocar tanto na bola. Todos os jogadores são importantes, todos tocam na bola, trocamos ela de lado, realizamos paredes, combinações. Sinto-me identificado, por que é um jogo que todos da equipe gostam. E, muitas coisas saem naturalmente na nossa equipe por que temos pouco tempo para treinar. Jogamos a cada três dias, e um dia de descanso, outro de recuperação e na prévia se prepara a partida.
Aqui tenho liberdade, posso baixar e receber, ir para cima, posso arriscar dez passes e ninguém tira a minha liberdade. Gosto de arriscar. Minha forma de entender o futebol é arriscar. Se eu dou para o lateral e ele me devolve, arrisco e cruzo o campo com um passe. Também tenho a obrigação de defender, e isso está me obrigando a subir e descer, ir de área em área. Para o meu futuro é muito bom.
Como jogadores o melhor que podemos fazer é desfrutar em campo. Há treinadores que falam que o único que vale é ganhar, e eu respeito. Mas eu não me sinto muito identificado com isso. Ganhar é importante, mas não o único. Sentir-se bem também é importante. Deve-se ter amor pelo jogo. Eu vim para o Arsenal por que tem um treinador que acredita em mim para demonstrar meu valor. O dinheiro vem depois, se você merecer. Eu, ao menos, quando jogo mal, fico muito preocupado”.
Abraços a todos e até a próxima quarta!

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Os donos da bola

Como em outras searas, a inclusão de novos termos no vocabulário do futebol é consequência direta da popularização. O número de pessoas aptas a conversar sobre as diferenças entre 4-4-2 e 4-2-3-1 é diretamente proporcional ao contingente de interessados pelos princípios táticos do jogo, por exemplo. O mesmo vale para outras camadas: é possível entender o que acontece em campo sem teorizar, mas o domínio de fundamentos técnicos, físicos e emocionais, em contrapartida, demonstra apreço por uma narrativa que vá além do conteúdo raso. Todo esse contexto é fundamental para debater uma das questões mais recorrentes no futebol brasileiro em 2017: a posse de bola.

O assunto aparece em qualquer discussão sobre o Corinthians, líder do Campeonato Brasileiro. O time comandado por Fabio Carille somou 40 pontos em 16 rodadas (12 vitórias e quatro empates) e abriu confortável vantagem no topo da tabela. O início já igualou a maior arrancada invicta no certame nacional disputado por pontos corridos – o Flamengo havia ficado 16 partidas sem perder em 2011 –, e o aproveitamento dos paulistas supera o de gigantes europeus – na temporada passada, por exemplo, Bayern de Munique, Juventus e Real Madrid não haviam atingido essa pontuação após 16 compromissos. Uma das bases do bom desempenho do time alvinegro, que perdeu apenas duas vezes no ano – a última em 19 de março – é justamente a capacidade de se defender bem nos dias em que o rival controla mais a bola.

Foi assim no último domingo (23), por exemplo. Jogando no Maracanã, o Fluminense foi mais propositivo e teve domínio da bola na maioria da partida. Ainda assim, o repertório da equipe carioca ficou limitado a chutes de fora e cruzamentos – com exceção dos minutos finais, quando os mandantes conseguiram concentrar a partida em seu campo de ataque e tiveram oportunidades de frente para o goleiro Cássio.

No entanto, não é que o Corinthians tenha aberto mão de ficar com a bola. Quando teve chance, o time alvinegro trocou passes e mostrou muita competência na movimentação e nas triangulações. “Se deixássemos, eles tocariam a bola por 90 minutos”, admitiu Abel Braga, técnico do Fluminense, em entrevista coletiva.

O cenário remete ao que havia acontecido em outros jogos “grandes” do Corinthians no ano. O clássico contra o Palmeiras no mesmo Campeonato Brasileiro, por exemplo: o time alviverde, que jogava em casa, teve mais controle da bola, mas cruzou quase 50 vezes e não construiu nenhuma chance concreta de furar a melhor defesa do certame – a equipe alvinegra foi vazada apenas sete vezes. Em contrapartida, os comandados de Fabio Carille, que finalizaram apenas três vezes, construíram uma vitória por 2 a 0.

O desempenho nesses jogos transformou o Corinthians em exemplo de futebol reativo. Há outros casos, inclusive no sentido oposto. O São Paulo de Rogério Ceni teve rendimento claudicante nos primeiros meses do ano, a despeito de ter registrado altos índices de posse de bola e finalizações. Construiu, atacou, mas sofreu. O Atlético-MG de Roger Machado, outro treinador que já foi demitido em função de resultados, também virou case num futebol em que defender passou a ser a melhor arma.

Todas essas análises, contudo, ignoram fatores que vão além da casca. O Corinthians de Carille, por exemplo: não é um time reativo, apenas. É uma equipe que sabe intercalar momentos de pressão e marcação recuada, que consegue se defender sem gerar sofrimento e que não se desfaz da bola apenas por uma determinação para marcar.

Como costuma dizer o colunista Tostão, do jornal “Folha de S.Paulo”, o Corinthians é um bom exemplo de equilíbrio: sabe alternar a intensidade da marcação e escolher os locais mais adequados para tomar a bola. Sabe usar os chutões quando necessário, mas não deixa de procurar triangulações, tabelas e movimentações sem a bola. “O que mais chama atenção é que nenhum jogador deles toca e fica torcendo para o lance ter sequência. Todo mundo está sempre buscando uma linha de passe ou tentando ser opção para receber de volta”, completou Abel Braga.

Não é errado dizer que o Corinthians é reativo, mas essa é apenas uma parte da história.

O mesmo vale para exemplos como Atlético-MG e São Paulo. Os projetos malfadados de Roger Machado e Rogério Ceni tiveram posse de bola estéril, sim, mas reduzir o fracasso a isso seria ignorar erros muito maiores em aspectos como construção de elenco e conceitos de jogo.

O colunista Carlos Eduardo Mansur, do jornal “O Globo”, ponderou que a renúncia à bola tem sido tendência no futebol brasileiro de 2017. Que destruir é mais fácil do que construir e que o conceito reativo é um reflexo da falta de ideias consistentes. Se treinadores e elencos são tão suscetíveis e sofrem com qualquer sequência de resultados ruins, é mais fácil se proteger.

Entretanto, reagir nem sempre é sinônimo de repertório pobre. O Barcelona de Pep Guardiola era reativo em grande parte dos jogos, mas isso acontecia porque o time sabia pressionar seus rivais e muitas vezes tomava a bola nos setores do campo em que o caminho para o gol era mais curto, diante de uma defesa menos estruturada.

A dificuldade de construir no futebol brasileiro não é necessariamente o contrário de ser reativo. É preciso discutir os problemas de criatividade das equipes nacionais, sim, mas em um contexto muito mais amplo do que “tal time só se defende” ou “tal time ataca muito, mas não acerta as finalizações”.

Tomemos como exemplo o Atlético-MG: um elenco rico, com opções que propiciam diferentes formas de jogar. Roger Machado tinha várias formas de construir a equipe, mas nenhuma seria capaz de solucionar problemas básicos: os volantes podem até se movimentar, por exemplo, mas nenhum tem perfil de construção; Robinho e Cazares, dois dos mais criativos homens do setor ofensivo, gostam de atuar na mesma faixa do campo quando estão com a bola e são igualmente inócuos quando estão sem ela. E esses são apenas dois aspectos de um elenco que precisa ser dissecado e analisado com profundidade para entender a campanha de 2017.

Pensar no futebol que queremos ver também tem a ver com quem domina a bola, é claro. Mas o maniqueísmo de “quem tem mais posse é melhor e quem tem menos posse é pior” só serve para quem enxerga o jogo sem querer ir além da camada superficial.

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Mudando na carreira, na prática

Muito tenho escrito sobre a questão das mudanças de fases e transições da carreira esportiva, sejam elas dentro da própria carreira ou ao final desta, visando uma segunda carreira profissional. Mas hoje, vou abordar especificamente uma forma ou método para que essas mudanças sejam as mais bem-sucedidas possíveis, para os atletas. Continue a leitura e tire suas conclusões.

Então vamos lá, este método que idealizei, foi fruto de experiência própria, do resultado de muitas pesquisas sobre o tema nos trabalhos desenvolvidos por outros profissionais publicados em literatura específica e do uso destas técnicas publicadas nestas literaturas específicas sobre psicologia esportiva e desenvolvimento humano em geral. Ele versa sobre as nuances do autoconhecimento, da autocorreção, dos ciclos de evolução do desempenho e das metas como forma de balizamento das carreiras esportivas.

O desejo abaixo representa o método de forma gráfica, para podermos compreender ainda melhor a sua forma de execução.

Imagem1

Aqui, esclareço brevemente as intenções de cada etapa do método, para que possamos juntos reconhecer a contribuição de cada uma delas no processo evolutivo da carreira dos atletas.

O método, resumidamente, se inicia com uma etapa na qual o atleta se reconhece em termos de perfil comportamental, sequenciando uma etapa de ratificação de quem é realmente, com base no seu estado atual de vida e das percepções do seu autoconhecimento. Após estas duas etapas, o atleta elabora uma lista de desejos para a carreira, que serão acompanhadas de metas para serem alcançadas. Na 4ª etapa, o atleta elabora um planejamento de ações e tarefas que o possibilitarão atingir suas metas estabelecidas. Na próxima e 5ª etapa, ele executa seu planejamento e mede os avanços. Na última etapa, o atleta avalia todos os resultados obtidos e o quanto de metas concretizou para, então, iniciar um novo ciclo de desenvolvimento dentro da carreira ou rumo a nova carreira, a partir da 2ª etapa do método.

Sensível a esta questão da carreira esportiva, sempre me permiti buscar e testar técnicas e ferramentas que pudessem de alguma forma colaborar com o atleta em sua trajetória profissional. Agora, amigo leitor, se o método funciona na prática, só aqueles que o colocarem em execução poderão comprovar e tirar suas próprias conclusões. Mas eu posso lhes dizer que, este método tem grandes chances de elevar a efetividade e contribuir com o sucesso nas mudanças de carreira dos atletas profissionais.

Até a próxima!

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Que caminhos estamos trilhando?

Olá, caro leitor. Vamos iniciar esta coluna fazendo um exercício:

– Lhe convido a trazer da memória três jogadores que você julgue serem os melhores que já viu jogar. Independente se ainda estão em atividade ou não. Não precisa se apressar muito, pense bem.

– Lhe convido agora a relembrar algum momento marcante de seu time de coração, algum acontecimento do seu time que lhe cause alegria, nostalgia, saudades em recordar.

Pronto? Conseguiu pensar em três jogadores? Relembrar algum momento do seu time de coração? Ok! Agora, peço que faça uma análise de tudo isso, quais jogadas destes jogadores lhe vieram a mente? Em que situação se encontravam? E o seu time, em que fase do jogo estava? O que a equipe estava executando?

Sem medo de errar, acredito que a grande maioria dos jogadores lembrados, são de posições prioritariamente ofensivas, e que os lances recordados, foram em momentos que estes detinham a bola, que realizaram alguma ação com a bola, dribles, passes, assistências, finalizações, etc. Assim como o número dos momentos que vieram a memória do seu time de coração, foram muito mais ofensivos do que defensivos, situações em que sua equipe marcou um belo gol sobre o arquirrival, a conquista de um título vindo daquele gol marcado no último minuto, ou aquele gol antológico anotado fora de casa, que calou toda a torcida adversária.

Claro que existirão exceções, que alguns irão se recordar de um Puyol, um Taffarel, um Cannavaro, que se notabilizaram pela capacidade defensiva. E, são tão dignos de lembrança quanto qualquer outro. Vocês acham que a grande maioria dos torcedores “são-paulinos” se recordam mais das defesas que Rogério Ceni fez (que talvez tenham sido maior em número, pelo tempo que jogou no São Paulo, mas semelhantes em importância e/ou dificuldade as que Zetti também realizou) ou dos gols de falta e pênalti que ele marcou?

Reforço a opinião, de que a grande maioria pensou em jogadores de ataque, ou até os que se lembraram de jogadores com características prioritariamente defensivas, lembraram de ações em que os jogadores detinham a posse da bola, assim como de seus times de coração.

Busquei te levar a estas recordações e análises, para refletirmos sobre algo maior e mais complexo, os rumos que nosso futebol têm tomado nos últimos tempos.

É notório e possível se comprovar através dos dados coletados por empresas como a Footstats, que a maioria das equipes que têm vencido os jogos, não necessariamente tem tido maiores índices de posse de bola e finalização, cada vez mais nossas equipes têm abdicado de deter a posse de bola, de buscar propor o jogo, por uma estratégia mais defensiva, visando os contra-ataques rápidos. Isso pode se dar por diversos fatores, buscar manutenção no cargo, “falta” (seria falta de jogadores ou de coragem? Competência para buscar construir outro tipo de jogo?) de jogadores com características de se propor o jogo, falta de tempo para treinamentos, constantes mudanças no elenco, enfim, poderia levantar muitos outros motivos, mas a questão é, será que não estamos usando estes argumentos somente como muletas? Sobretudo nas divisões de base, aonde é cada vez mais comum ver equipes formadas somente para se defender.

É obvio e digno que cada um irá jogar da forma como acredita, como lhe convém, e é bom que hajam ideias divergentes! Afinal, ninguém passa os 90 minutos do jogo só atacando, portanto é necessário saber defender bem também!

A questão que levanto é quanto a nossa cultura, quanto aquilo que mais permeia nossas mentes, aquilo que acelera nossos corações, aquilo que faz parte da nossa história. E historicamente, mundialmente, somos reconhecidos por nossas capacidades ofensivas, nossa habilidade com a bola, capacidade de criar novas jogadas, novas soluções para cada problema que o jogo e o adversário interpõe, nossos atacantes são pinçados cada vez mais cedo pelos grandes clubes europeus. Historicamente, nossas torcidas rejeitam e reprimem suas equipes quando estas não buscam tomar as rédeas do jogo, ou quando um treinador troca um atacante por um defensor. Em tempos onde cada vez mais se busca globalizar sem perder identidade, reforçar tradições, cultivar raízes, por que o nosso futebol tem caminhado no sentido contrário?

Fonte: download-wallpaper.net/content/uefa-champions-league-2012.html
Fonte: download-wallpaper.net/content/uefa-champions-league-2012.html

 
Fonte: globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2012/06/meu-jogo-inesquecivel-contra-turcos-e-todos-denilson-brilha-na-semifinal.html
Fonte: globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2012/06/meu-jogo-inesquecivel-contra-turcos-e-todos-denilson-brilha-na-semifinal.html

 

Talvez eu seja um dos “últimos românticos”, com toda certeza saudosista, o que não me faz ser nem um pouco menos moderno, ou avesso ao futuro, não. Mas, ainda acredito nas raízes, nas tradições, na cultura que viviam os que estiveram aqui antes de mim, acredito que para chegar em algum lugar, preciso saber de onde eu vim… E isso em qualquer aspecto da vida (que é sistêmica!), e sendo o futebol parte dela, quando olho de onde veio nossa cultura de futebol, como esse jogo me fascinou, e vejo os rumos que ele vem tomando, temo que estejamos perdendo nossa trilha, nosso caminho, e me assusta imaginar que no futuro, ao invés de ver o escudo do Chelsea ou da Turquia, eu veja o do Brasil nestas imagens. E você, o que acha? Até a próxima!

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Campanha do Cruzeiro ganha o mundo

Há muito tempo o futebol deixou de ser jogado somente dentro das quatro linhas, conforme bem destaca Marcos Guterman no livro “O Futebol Explica o Brasil: Uma história da maior expressão popular do país”: “ O futebol é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e também consegue dar significado aos desejos de potência da maioria absoluta dos brasileiros. Essa relação , de tão forte, é vista como parte da própria natureza do país (…)”. Por essa razão, os clubes e jogadores de futebol acabam por possui um papel e uma relevância muito além das quatro linhas.

O Cruzeiro marcou um verdadeiro gol de placa quando no Dia Internacional da Mulher, na partida contra o Murici-AL, pela Copa do Brasil, os jogadores do Cruzeiro entraram em campo levando mensagens com referências às mulheres estampadas na camisa.

A inciativa do clube mineiro levantou uma importante reflexão diante de estatísticas que mostram a violência contra as mulheres, tais como “A cada 2h uma é morta”, “A cada 10 jovens, 8 sofreram assédio”, “A cada 11 minutos, um estupro”, “Apenas 9 em cada 100 deputados”, “Salários 30% menores”.

As estatísticas apresentadas foram colhidas pela pela ONG Azminas (que luta pelo empoderamento feminino) e demonstram o sofrido cotidiano das mulheres no Brasil.

A campanha denominada #VamosMudarOsNúmeros foi premiada com o Leão de Ouro na  categoria “Meios de Comunicação” do 64º Cannes Lion, a maior e mais prestigiosa premiação para a publicidade mundial.

O gol de placa teve o apoio da Umbro (fornecedora de material esportivo do clube) foi marcado pelo Departamento de Marketing do Cruzeiro em parceria com a Ong AzMina e a Agência New360.

Para se ter uma ideia do feito da equipe mineira, pode-se compara-lo ao recebimento de uma bola de bronze da FIFA por atleta que atue no Brasil.

Parabéns ao Cruzeiro! Medidas como essa no futebol tão importante culturalmente (e muitas vezes tão machista) são imprescindíveis para a mudança dos paradigmas da sociedade brasileira em casos de preconceito e intolerância.

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Respeitar a individualidade do jogador

Como treinador há 12 anos, cada vez mais, passo por experiências que fortalecem uma tese: nos 90 minutos, dentro do jogo, temos uma parcela mínima de atuação, ao mesmo tempo, podemos prejudicar e muito o andamento individual dos jogadores com demasiadas intervenções; também no processo semanal de treino, dependendo do que fazemos, podemos perder muitos talentos.

Claro, temos um papel decisivo nas escolhas globais e na forma como organizamos a equipe. O problema crucial é não se despir do ego de ser treinador, de realizar algumas intervenções marqueteiras e negligenciar que o jogo é dos jogadores na hora que a bola rola.

E isso tudo cria um paradigma que cada vez mais assola meus pensamentos: o que realizamos diariamente vêm diminuindo a capacidade individual do jogador?

A vida moderna do treinador, o acesso a muita informação vaga, os modismos, e especialmente a vaidade intrínseca a profissão, direcionou-me para essa pergunta acima, já que atualmente o protagonismo em cima do treinador está gigantesco, sobrenatural. O treinador tem se sentido onipotente. Mas poucos enxergam que isso arrasta algumas mazelas que afeta especialmente a dimensão individual do jogador.

E a dimensão individual nada mais é que a descoberta do jogador com seu próprio talento e a observação do treinador para desenvolver esse talento. Essa interação vai um pouco de encontro com as ideias de Ken Robinson em seu livro “O elemento”, onde afirma que “esse talento parte de uma cadeia de quatro elementos desenvolvidos de forma interdependente: capacidade natural, paixão, atitude e contexto”.

O jogador com sua capacidade natural, se primeiramente estiver inserido em um contexto adequado, cercado de pessoas pacienciosas, que querem desenvolver essa capacidade, com o passar dos dias vai reconhecendo sua potencialidade, o que tem de melhor, o que faz bem e com naturalidade. Essa identificação vai desenvolvendo cada dia seu talento de jogo. Isso criará também uma paixão pelo jogo e um compromisso com seu talento e automaticamente com a equipe. Também criará um espírito de atitude que o fará ter um compromisso individual para desenvolver outras capacidades. Ou seja, o jogador começa conhecer sem perceber cada vez mais sua individualidade.

Mas o problema atual, é que a capacidade individual de cada jogador, muitas vezes é suplantada pelo ego do treinador, em querer ganhar a qualquer custo, achar que o jogo se fabrica apenas por ele, por suas ideias ou por uma poção mágica de jogo.

A valorização excessiva da atuação do treinador, especialmente no sentido exacerbado de criar uma forma de jogar sem olhar para a capacidade natural dos jogadores, cria argumentos incongruentes e disparatados com a verdadeira atuação. Sobretudo na formação, devemos ter muito claro que precisamos ajudar os jogadores a ampliarem seus talentos.

Como treinadores, carregamos uma mochila de aprendizagem enxergando cada jogador com suas peculiaridades. Por isso, reforço que nosso papel não é tentar fazer os jogadores virarem reflexos do que pensamos ou ordenamos, mas sim que se desenvolvam individualmente e que lutem por sua autonomia.

Agora, se quisermos que os jogadores sejam fabricados como séries de produtos enlatados, convencidos que a uniformidade e o perfil único de atleta resolverão todos os problemas, acabamos tirando o brilho natural e o conteúdo individual que cada jogador arrasta consigo.

É conveniente que os treinadores saibam que qualquer tarefa feita, que qualquer atitude estranha, arrastará sequelas positivas ou negativas nesse desenvolvimento individual do jogador. Por isso, muitas ideias, muitas frases prontas que parecem modernas podem ser limitadoras e outras mais simples podem ser libertadoras.

O treinador da seleção argentina de voleibol, Julio Velasco, fala “que o prazer do treinador há de ser o prazer de um artesão, não o de um industrial. Somos artesãos do ensino e da formação do desportista. O treinador deve ser feliz com o progresso do esportista, não com o objetivo final que se consiga. Deve ser feliz pelo processo e não pela vitória. Isso deve encher de satisfação. O primeiro prazer é ver crescer os jogadores. E o segundo é a vitória que se obtém com esses jogadores”.

Abraços e até a próxima quarta!

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As milionárias pré-temporadas

Os clubes europeus já voltaram de férias. Como ocorre a cada novo ciclo, cada clube segue para alguma localidade em busca da melhor preparação para a desgastante temporada que terão pela frente. É o período onde o entrosamento entre comissão técnica e atleta ocorre, onde novas formações táticas são testadas e, como não poderia deixar de ser, também um período para trazer uma nova receita aos cofres do clube.

Antigamente, os clubes realizavam as suas pré-temporadas em localizações relativamente próximas de suas cidades. Jogos e torneios amistosos eram realizados, inclusive com clubes brasileiros participando, como no caso do Ramón de Carranza e do Teresa Herrera, torneios históricos realizados na Espanha.

Esses mais tradicionais ainda continuam existindo, mas sem o mesmo apelo de antigamente. O foco agora é a realização de pré-temporadas ao redor do mundo. Muitos clubes aproveitam essa janela para divulgar a sua marca em mercados como China, Japão e, mais recentemente, Estados Unidos.

Nesse ano, um grande torneio terá todas as atenções voltadas a ele por envolver os maiores clubes. Como o nome de International Champions Cup, o evento é dividido em três sedes (Estados Unidos, China e Cingapura) e contará com 15 clubes do porte de Real Madrid, Barcelona, Juventus, Milan, Inter de Milão, Roma, Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Manchester United, Manchester City, Chelsea, PSG, entre outros clubes locais.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Além de trazer uma nova fonte de receita recheada aos clubes, também é um momento importante para popularizar o futebol nesses mercados. A promessa desses jogos, que serão disputados a partir de hoje até o dia 30, é de casa cheia com os torcedores equipados com as camisas e outros produtos de seus times globais.

Imagine o Brasil recebendo um torneio com alguns desses clubes globais e a participação de alguns nacionais? Apesar do futebol não precisar de divulgação por aqui, o impacto seria de grandes proporções.

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Decidindo sobre uma nova carreira

Tenho escrito algumas vezes sobre a importância da gestão da carreira dos atletas e como isso é um tema valioso para os nossos debates atuais. Um fato recente colocou em prova a necessidade desta discussão: a demissão do cargo de treinador do ídolo São Paulino, Rogério Ceni.

Será que um adequado planejamento para transição de carreira, demonstra-se estratégia importante frente aos desafios da uma nova carreira para os atletas profissionais dentro do futebol brasileiro?

Podemos começar essa reflexão reforçando um ponto importante para um bom e adequado planejamento visando uma efetiva transição de carreira: as decisões fora das quatro linhas. Elas podem ser tão ou mais delicadas, do que aquelas tomadas dentro de campo e esse cenário traz a necessidade de cada atleta conhecer brevemente as fases de uma carreira no esporte e os impactos de uma decisão infundada.

Existem formas de apoio para que um atleta possa tomar as decisões mais adequadas, para sua carreira, fora do campo. Vamos relembrar uma delas: A análise do campo de forças. Este é um modelo baseado no trabalho de Kurt Lewin’s – “Teoria dos Campos”, que descreve o campo de forças ou pressões agindo em um evento particular num determinado momento. Essencialmente, a teoria sugere que forças que agem para mudar uma situação são balanceadas com forças que agem para resistir a mudança.

Na prática funciona desta maneira: um coach avalia junto ao coachee (atleta) quais são as forças que impulsionam e as forças contrárias em relação a uma determinada situação, cenário ou objetivo desejado. Ou seja:

  • Define-se a situação atual da carreira do atleta;
  • Define-se o objetivo do atleta (resultado desejado);
  • Identifica-se todas as possíveis forças impulsionadoras;
  • Identifica-se todas as possíveis forças contrárias;
  • Realiza-se uma análise das forças concentrando-se em:
    • Redução das forças contrárias a resistência;
    • Fortalecimento ou adição de forças impulsionadoras e favoráveis ao processo.

Tendo em mãos estas reflexões o atleta tem maiores e melhores condições de perceber se o cenário avaliado é o que mais se adere aos seus objetivos de carreira e aos seus desejos pessoais. A partir deste cenário, deve-se elaborar um plano de ação para atender os itens que fortaleçam e impulsionem a realização do cenário escolhido.

E aqui então, temos um grande e importante ponto de atenção, muitas vezes o atleta ainda não tem realizada todas as etapas e ações que são sugeridas no referido plano, e nestes casos ele pode cair numa armadilha de uma rápida transição, através de um promissor convite ou de uma repercussão positiva que sua carreira anterior tem sobre alguma instituição esportiva.

Isto posto, temos a possibilidade de analisar, frente ao acontecido com o ídolo São Paulino, se realmente as técnicas para um bom planejamento visando a transição de carreira são ou serão realmente efetivas, tendo em vista o contexto imediatista do nosso futebol, no que se refere ao cenário de uma carreira técnica dentro do esporte.

Até a próxima!

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Mas você é mulher

“Mas você é mulher!” – Quantas vezes nós, mulheres, já ouvimos essa frase? Quantas vezes você, leitor e leitora, proferiram esta frase? E nós, mulheres que gostamos de futebol, podemos multiplicar por vinte a quantidade de vezes em que a ouvimos.

Quando queremos ir ao estádio ou ao bar sozinha assistir ao jogo do time do coração, quando pensamos em profissões relacionadas à futebol… Ah, e se chegamos lá e cometemos algum deslize a frase muda um pouquinho para a clássica “mas tinha que ser mulher!”, mas continua ali, limitando, tachando e impondo regras que não existem ou, ao menos, não deveriam existir.

Certa vez fui ao bar sozinha assistir a um jogo do Palmeiras. Era final de campeonato, verdão brigando pelo título, domingo de sol típico para um barzinho… e eu não passei vontade, fui! A única mulher com camisa de time, a única mulher sentada sozinha em uma mesa, a única mulher que, aparentemente, estava acompanhando o jogo que passava em todos as televisões de todos os estabelecimentos. Essa deveria ser uma cena normal, mas não parecia ser! O que parecia era ser um convite para alguém sentar ao meu lado, parecia que eu esperava por algum convite, parecia que cada um queria dar a sua opinião e que todo o mundo parecia olhar – surpreendido.

“Mas ela é uma mulher sozinha em um bar, assistindo futebol”! Sim, uma mulher, em um bar, assistindo futebol, sozinha, torcendo, vibrando, roendo as unhas, tomando cerveja e que levanta, sozinha, paga a conta e vai embora.

Parece simples, parece intimidador, parece afronta, parecem tantas coisas, mas no fundo é apenas uma mulher fazendo o que quer.

“Mas você é mulher!”

“Sim, graças a Deus!”

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O risco de rebaixamento para o torcedor

A história se repete sem que vejamos mudanças concretas serem discutidas. O clássico entre Vasco e Flamengo foi mais um capítulo da triste história que vivemos há décadas nos estádios espalhados pelo país, com uma confusão generalizada ocorrida após o apito final.

O que é necessário acontecer para que o cenário mude? Virou rotina ver no noticiário a briga entre torcidas a cada rodada. E o que de fato acontece com esses criminosos?

De um lado, temos os clubes, que alegam não ter responsabilidade e que o problema é da polícia militar. De outro, temos a polícia, muitas vezes despreparada e que também corre grande risco por sempre estar em menor número. Temos também o poder público, incapaz de criar normas que efetivamente punam os responsáveis que se infiltram nas torcidas em busca de confusão. E, por um último, temos o torcedor.

Esse é quem mais perde e o único que não tem culpa. Cada vez mais afastado ou extremamente corajoso em arriscar a sua vida e de seus familiares para aproveitar 90 minutos da paixão que nutre pelo seu clube e pelo futebol.

Vasco confusão

A tendência, como de costume, é que o estádio de São Januário seja interditado por um número razoável de jogos. O clube merece uma punição? Sem dúvida que sim, porém não pode pagar o preço sozinho ou, ao menos, ver que a punição não mudará em absolutamente em nada a cultura enraizada.

Jogos com portões fechados, clássicos com torcida única, barreiras enormes para dividir as torcidas adversárias. Não chegaremos a nenhum lugar com essas medidas paliativas e sem sentido. E as brigas continuam, dentro do estádio ou bem distante deles.

E o torcedor? Esse só perde. Melhor assistir pela TV mesmo, carregando a tristeza ao ver um estádio vazio pela tela e segurando a vontade de estar lá vibrando, comemorando, se divertindo. Perde também o clube, salvo raras exceções, com receitas pífias de bilheteria. Perde o vendedor de pipoca, de bebida, o ambulante do churrasquinho. Perde o patrocinador, que não vê motivo para realizar ativações de matchday.

São tantas perdas que o caminho não pode ser outro do que a queda de divisão. Se é que ainda há formas de o torcedor ser mais rebaixado!