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Harder x Marozsán no duelo que pode definir a Champions

Neste domingo teremos mais uma final de Champions League na qual Lyon e Wolfsburg decidirão quem fica com o título. A partida será disputada as 15h do horário de Brasilia, no estádio Anoeta – onde a Real Sociedad manda seus jogos – no País Basco, região da Espanha. A Women’s Champions League é uma competição disputada desde 2001, e mais uma vez o francês Lyon decide o título com o alemão Wolfsburg, nas últimas 5 edições da competição será a 3º vez que os clubes se enfrentam na final. Nas outras duas oportunidades, em – 15/16 e 17/18 – as francesas se sagraram campeãs. A final desta temporada promete rivalidade e clima de revanche!

Um aspecto extremamente importante a fundamental a se destacar é que esta reedição de confronto na final é fruto de um seríssimo trabalho realizado por ambos os clubes. Tanto Lyon quanto o Wolfsburg disponibilizam a suas atletas e staff uma estrutura do mesmo nível que oferecem a suas equipes masculinas, ambos os projetos são geridos de forma paralela e com o mesmo profissionalismo e importância para os clubes. O Wolfsburg conta com o suporte da Federação Alemã que organiza o campeonato nacional de forma ininterrupta desde 1990, além de possuir outras diversas competições de base, dos 11 aos 17 anos. Já o Lyon investiu pesado na estrutura para a modalidade, possuindo inclusive sua própria academia de formação de jogadoras. Cases de sucesso a serem estudados e utilizados como referência.

Para esta final, trouxemos em destaque duas jogadoras, quem tem papel fundamental da criação de jogadas que resultam em gols para suas equipes, são elas Pernille Harder, meia dinamarquesa do Wolfsburg, e Dzsenifer Marozsán, meia húngara – que tem cidadania alemã – do Lyon.

Pernille é a vice-artilheira da competição com 9 gols e a 3º jogadora que mais finalizou a gol. Muito dinâmica, a jogadora busca a todo momento estar se desmarcando e criando linhas de passe, conduz a bola de maneira rápida e muito próxima do pé, facilitando seus dribles e conseguindo assim condições de finalizar ao gol. Pernille já foi premiada com o título de melhor jogadora da Europa em 2018, ela também aproveita a influência que conquistou através do esporte para dar apoio no combate ao preconceito contra pessoas da comunidade LGBTQI+.

Marozsán é uma multicampeã, tendo conquistado 4 Champions League, 1 Eurocopa, 1 ouro olímpico e 1 Mundial Sub-20, foi eleita por 3 anos consecutivos a melhor jogadora da Liga francesa e já esteve entre as finalistas do premio de melhor do mundo da FIFA. Nesta edição da Champions é a jogadora com maior número de assistências para gol. Uma jogadora com uma grande capacidade de leitura de jogo, sempre bem posicionada e atenta ao posicionamento das companheiras, que aliada a sua alta capacidade técnica lhe dá a condição de encontrar passes chaves na articulação de jogadas ofensivas.

Confira a seguir a área de atuação no campo e as análises quantitativa e qualitativa das duas jogdoras.

Infelizmente não teremos nenhuma representante brasileira jogando esta final. Porém, seria uma grande injustiça se não ressaltássemos aqui uma das principais jogadoras da história do futebol brasileiro e que há quatro temporadas defende as cores do PSG, semifinalista da competição. Miraildes Maciel Mota, a “Formiga”. Aos 42 anos de idade e há mais de 20 anos nossa meiocampista exibe seu dinamismo e classe nos gramados, infelizmente desta vez não conseguiu chegar a mais uma final em sua carreira, o que em nada diminui sua vitoriosa trajetória na modalidade, um grande exemplo de perseverança, profissionalismo e amor pelo esporte.

Um grande jogo nos aguarda neste domingo, e que a organização e investimento evidenciados
nesta final, sejam modelos a inspirar e seguir para o futebol feminino em nosso país.

Desfrutem do JOGO!

Sobre os autores

Danilo Benjamim é bacharel em treinamento esportivo, possui a Licença B pela CBF/FIFA e cursa atualmente as licenças A/B da ATFA. Tem passagens pelo Paulínia FC, Coritiba, Athletico Paranaense, Ferroviária e, recentemente, Guarani FC.

Acompanhe as redes sociais do Danilo Benjamim: InstagramFacebook

Aurélio Estanislau é graduado em Ciências do Esporte pela Unicamp e analista de desempenho do Sub17 do S.C. Corinthians Paulista.

Acompanhe as redes sociais do Aurélio Estanislau: InstagramTwitter.

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A pressa é inimiga da perfeição, inclusive no futebol

O imediatismo e o resultado a qualquer custo fazem parte do futebol brasileiro. Compõe o que chamamos de ‘nossa cultura’, é o nosso entendimento de futebol. Está no inconsciente coletivo de dirigentes, torcedores e também da imprensa. Algo que não se sabe muito bem explicar os pormenores. Vai mais na linha do ‘sempre foi assim’. Por exemplo, quando um time ganha um campeonato o técnico vencedor é um gênio. Não há um aprofundamento no contexto, circunstâncias, condições de trabalho, espírito do grupo de jogadores e etc. Do outro lado, vale a mesma análise rasa: em uma sequência de resultados ruins deve-se trocar o comandante. E a desculpa aqui já está pronta: é mais fácil trocar um técnico do que trinta jogadores, dizem alguns preguiçosos e ultrapassados dirigentes.

O Campeonato Brasileiro mal começou e já temos heróis e vilões. Conclusões precipitadíssimas surgem única e exclusivamente pelo resultado. É claro que não desprezo o resultado. Nem posso. Até porque se trata de uma competição, de um esporte, em que o resultado é o que impera. Mas no alto rendimento não se pode avaliar e reduzir nada e nem ninguém apenas ao placar final dos jogos. Se não caímos na vala comum de quem ganhou é bom e quem perdeu é ruim. E não é assim que as coisas funcionam! Quem se dispõe a alta performance tem que, para começo de conversa, entender os porquês das vitórias e os porquês das derrotas. Qualquer projeção de cenário futuro tem que ser baseada em análise quali e quantitativa do trabalho que está sendo desenvolvido no presente.

Não consigo apontar o Vasco da Gama do técnico Ramón Menezes como favorito ao título brasileiro apenas pelos bons resultados iniciais. O clube está pronto para ser campeão? Todos os departamentos estão em plena sintonia para que após longas trinta e oito rodadas seja possível ser o melhor entre os vinte times da elite? Ou do lado oposto da tabela, Eduardo Barroca era mesmo o culpado pelo início ruim do Coritiba? Ele merecia a demissão? E no Goiás, o problema era o também demitido Ney Franco?

Só um detalhe: não sou contra demitir treinador. Mas o ponto de todo esse texto é pararmos para refletir mais profundamente o que de fato acontece no nosso futebol. Chega de rotular profissionais. Estamos tratando de um jogo aleatório, imprevisível e caótico, porém com elementos possíveis de se trabalhar, estudar e interferir para padronizar. Não consigo imaginar o Vasco sendo campeão e nem o Coritiba e o Goiás brigando por qualquer coisa diferente da permanência na divisão, independentemente dos treinadores que tenham. E isso não são os jogos iniciais dessas equipes que me farão mudar esse conceito. O futebol é o esporte mais propício a zebras. Sei disso. Mas são exceções e não regras. Torcedor pode e deve se empolgar. Ele se alimenta disso. Mas quem é profissional do ramo tem que ir além do que um pensa um apaixonado.

Sobre o autor 

Marcel Capretz é jornalista, apresentador da rádio 105 FM e do SBT Futebol Esporte Show. Busca entender e explicar o jogo através do conhecimento.

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Reflexões e possibilidades de utilização da saída em 3

O Futebol está em constante evolução, sempre com novas ideias ou até mesmo outras que retornam do passado para solucionar problemas do presente. Algo que podemos dizer que “está na moda”, principalmente no futebol europeu é jogar com 3 zagueiros(as). Há muitas equipes se utilizando de estruturas táticas onde a base defensiva é com 3 zagueiros(as), alguns exemplos são Atalanta, Wolverhampthon, Internazionale, Borussia Dortmund.

Esse tipo de estrutura é geralmente reconhecida como uma formação que prioriza a solidez defensiva, mas pensando nos exemplos citados e no modelo jogo dessas equipes, reflita. Atuar com 3 zagueiros(as) pode trazer vantagens apenas defensivamente?

Como tais equipes se utilizam dessa formação para potencializar o seu jogo no momento ofensivo?

Atualmente, jogar com 3 zagueiros(as) não é uma opção utilizada apenas para o aumento da consistência defensiva, mas também uma estratégia que pode ser utilizada para criar vantagens e desequilíbrios no adversário já na primeira fase de construção do jogo. Para que essa estrutura seja formada, a equipe não precisa, necessariamente, atuar com três zagueiros(as), uma outra possibilidade é utilizar outros jogadores para formar a saída em 3 no momento da construção das jogadas de ataque. Uma das maneiras mais utilizadas para essa construção é a entrada de um(a) volante entre os(as) zagueiros(as), conhecida como saída “saída lavolpiana”.

Aqui, convidamos você leitor para as seguinte reflexões

Quais as vantagens que essa saída pode nos trazer?

Você utiliza a saída em 3 na sua equipe?

Esse mecanismo é utilizado para se criar vantagem de fato ou apenas porque “está na moda”?

As vantagens que a saída em 3 podem oferecer dependem de uma série de fatores, entre elas as características da própria equipe e a maneira como o adversário(a) faz a pressão. A seguir, apresentamos alguns questionamentos que podem ajudar você a enxergar de maneira mais clara algumas dessas variáveis e em que casos as possibilidades de explorar as vantagens criadas com a saída de 3 podem ser maiores, levando em consideração os diferentes momentos do jogo.

Sobre a sua própria equipe, tente responder às seguintes questões:

Sua estrutura tática já tem 3 jogadores(as) na base para construção? Se não, como você pretende executá-la?

Com o(a) volante/meia entrando no centro ou na lateral? (foto)Imagem: Reprodução/Aurélio Estanislau

Com um(a) lateral base para a saída? (foto)Imagem: Reprodução/Aurélio Estanislau

Com o(a) goleiro(a)? (foto)Imagem: Reprodução/Aurélio Estanislau

Em qual momento o 3º jogador(a) vai entrar? E porque?

Quais serão os critérios para fazer a saída em 3?

Já sobre o adversário:

Com quantos(as) jogadores(as) o(a) adversário(a) faz a primeira pressão? É preciso ter 3 jogadores(as) na base?

3×1 Imagem: Reprodução/Aurélio Estanislau

3×2 (foto)Imagem: Reprodução/Aurélio Estanislau

3×3 (foto)Imagem: Reprodução/Aurélio Estanislau

O que podemos explorar em cada um destes confrontos?

Em que altura e distância estarão os(as) jogadores(as) nessa saída?

Será necessário fazer a saída em 3 em todos os momentos ou apenas em situações específicas do jogo?

Por exemplo: É necessário criarmos um 3×1 na primeira fase de construção ou o 2×1 já é suficiente para a progressão? Ou irei fazer o 3×1 fazendo com que 1 dos 3 progrida e ande com bola, deixando 2×1 como cobertura no balanço defensivo?

Todos os movimentos pensados para o jogo devem ser realizados em busca da criação de vantagens na construção, nesse sentido é importante termos em mente as respostas para as seguintes perguntas: vou criar vantagem para a próxima fase do jogo? Como, quando e por quê?

Sobre o autor

Aurélio Estanislau é graduado em Ciências do Esporte pela Unicamp e analista de desempenho do Sub17 do S.C. Corinthians Paulista.

Acompanhe as redes sociais do Aurélio Estanislau: InstagramTwitter.

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Quem treina o treinador de futebol no Brasil? – O treinador autodidata

Salve, salve amantes do futebol! Na coluna anterior falamos sobre a importância do treinador conhecer e dominar os diferentes contextos de atuação, a fim de que tenha uma prática eficaz. Nesta, falaremos sobre os perigos do “autodidatismo” dos treinadores brasileiros e como podemos contribuir para recalcular essa rota.

A trajetória de um treinador esportivo não é linear, sendo cheia de altos e baixos. Em algumas fases da carreira, é possível sentir o desenvolvimento e o crescimento profissional, já quando chegam as derrotas, demissões, “rebaixamento” de cargos, o treinador precisa ter paciência e clareza para compreender que todos passam por isso e que momentos como esses são essenciais para sua aprendizagem. Porém, quem vai dizer isso a ele? Quem pode treiná-lo para refletir e digerir essas situações da melhor forma?

Treinadores brasileiros mais experientes, ao refletirem sobre suas trajetórias, talvez estejam pensando que aprenderam a passar por isso sozinhos e que, por isso, todos também devem passar. Será? Será que ser autodidata durante toda sua carreira é o melhor, ou o único, caminho para o desenvolvimento do treinador? Por outro lado, será que ser guiado e mediado durante toda carreira também pode trazer como consequência um perfil de treinador limitado e pouco preparado para a dureza da profissão?

O fato é que os dois extremos são perigosos. Um processo de desenvolvimento do treinador demasiadamente mediado e formal pode tirar a sua autonomia e podar o seu talento. Em contrapartida, um treinador exclusivamente autodidata (situação mais frequente na construção da carreira da maioria dos treinadores de futebol no Brasil), terá uma defasagem na sua formação, principalmente no início de sua carreira, momento em que mais necessita de mediação e formação. Mas afinal, como fazer para “recalcular essa rota”, já que a maioria experiente já é autodidata e muitos que estão iniciando uma trajetória?

Diante de um cenário tão heterogêneo em que alguns são graduados em educação física e outros não, alguns são autodidatas e outros não, alguns são ex-atletas e outros não, podemos entregar as seguintes sugestões:

a) Pesquisar sobre toda a aprendizagem que os mais experientes (autodidatas) vivenciaram durante suas trajetórias e sistematizar esse conhecimento para transmitir em cursos formais para iniciantes

b) Esboçar um currículo de formação para uma escola de treinadores na qual exige-se que, no início da trajetória, o treinador aprenda a aprender e aprenda a refletir, para que quando mais experiente desenvolva a capacidade de extrair aprendizagem de forma autônoma (fase na qual ser “autodidata” se torna mais salutar)

c) Identificar lacunas de aprendizagem em treinadores intermediários e colocar nas ementas de cursos de formação

d) Conscientizar treinadores que ser um autodidata supercompetente é exceção e não regra, e que o caminho pode ser encurtado, ao se aprender com erros já cometidos pelos mais experientes

e) Conscientizar treinadores mais experientes a buscarem suportes de aprendizagens com MENTORIAS de profissionais que sejam referência para estes mais experientes.

Fez sentido? E você, em que fase está e como procura se desenvolver? Traga mais sugestões! Continuaremos na semana que vem com mais uma coluna sobre treinar o treinador. Grande abraço e até lá!

Sobre o autor

Gabriel Bussinger é treinador e instrutor da CBF academy. Mestre em Educação Física pela UFSC, com 3 pós graduações na área. Já atuou em categorias de base e profissional, no Brasil e Dinamarca. Possui as licenças C e B da CBF e é parceiro de conteúdo da Universidade do Futebol.

Acompanhe as redes sociais do Gabriel Bussinger: YouTube Telegram; Podcast – Diário do treinador; Instagram

Referências

JARVIS, P. Democracy, lifelong learning and the learning society: Active citizenship in a late modern age. Abingdon: Routledge, 2008.

http://149.28.100.147/udof_migrate/especial-a-importancia-de-um-curriculo-do-treinador-de-futebol-parte-final/

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O futebol feminino brasileiro: desafios e perspectivas

A história do futebol feminino no Brasil foi revestida com os mais diversos desafios ao longo dos anos, e a prática do esporte no país carrega muita luta, perseverança, garra e, principalmente, vontade – vontade de crescer e de ter seu tão merecido reconhecimento, pois até pouco tempo atrás era dominado por homens.

Fazendo uma breve retrospectiva, a luta pelo respeito e reconhecimento sempre foi árdua: apenas na década de 20 houve os primeiros registros de partidas de futebol disputadas por mulheres, ainda que de maneira tímida e discreta. Por sinal, o futebol feminino era por vezes tratado como uma atração de circo, um show, e não algo a ser levado a sério.

Até a década de 40, o futebol feminino ainda estava longe de ser tratado com seriedade. A modalidade era considerada mais adequada para homens por ser considerada violenta e truculenta. Em 1941, a prática chegou a ser proibida pelo recém-criado Conselho Nacional de Desportos – CND.

Apenas na década de 70 foi revogada a proibição da prática do futebol por mulheres, mas a luta pela igualdade no esporte tinha novos desafios pela frente, a exemplo da falta de patrocínios e estímulos por parte dos clubes e das federações, o que mantinha a prática no amadorismo. Em 1983 o futebol feminino foi devidamente regulamentado, permitindo a criação de calendários esportivos, a realização de competições e a utilização dos estádios, que até então eram de uso apenas dos homens. No ano de 1988, a Fifa realizou, em caráter experimental, o primeiro campeonato mundial feminino, chamado Women’s Invitational Tournament e ocorrido na China.

As jogadoras brasileiras ainda enfrentavam muitos desafios. Para ilustrar, não havia uniforme especial para mulheres, que tiveram de jogar com as sobras das roupas do time masculino. Ao todo, 12 seleções participaram dessa edição, e, apesar das dificuldades, a seleção brasileira alcançou o impressionante 3º lugar.

A resposta a tantas adversidades e obstáculos era sempre vista dentro do campo: em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta as atletas conquistaram o 4º lugar; e, em 1999, veio a conquista da primeira medalha em Copa do Mundo, na edição dos EUA, quando a seleção feminina brasileira conquistou o 3º lugar, em um time composto por veteranas
e novas atletas que começavam a se formar.

A seleção brasileira conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004 na Grécia, com as jogadoras Pretinha, Marta, Formiga e Cristiane no elenco. Em 2006, mais uma conquista histórica para o futebol feminino brasileiro: Marta Vieira da Silva ganhou o prêmio de melhor do mundo, ao lado de Fabio Cannavaro na seleção italiana.

Em 2007, a seleção brasileira foi campeã dos jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, e em setembro do mesmo ano, as meninas se tornaram vice-campeãs da Copa do Mundo da China.

Com tantas conquistas, crescia a esperança no desenvolvimento do esporte, que até o momento não possuía competições nacionais organizadas. Isso mudou em 2013, quando a CBF, em parceria com a Caixa Econômica Federal, organizou a primeira edição do Campeonato Brasileiro feminino, com a participação das 20 melhores equipes nacionais. A fórmula da competição foi alterada em 2017, tendo reduzido a 1ª divisão para 16 times e foi criada a Série A2, também com 16 equipes.

O ano de 2019 foi um marco importante para o futebol feminino brasileiro, pois a CBF definiu a obrigatoriedade de todos os clubes da série A do Campeonato Brasileiro masculino a terem uma equipe feminina adulta e uma de base.

A medida faz parte do Licenciamento de Clubes, documento que regula a temporada de competições profissionais no país, e segue a orientação da Conmebol. Dessa forma, o clube que não atendesse a essa exigência estaria sujeito a ficar de fora das competições que exigem licença, como é o caso da Série A do Campeonato Brasileiro,
da Copa Sul-Americana e da Libertadores.

Neste contexto, vale ressaltar que o futebol feminino é uma das principais preocupações da FIFA, pois, conforme apontado pela Secretaria Geral, Fatma Samoura, “o jogo das mulheres é uma prioridade para a FIFA e, através da nossa nova estratégia, trabalharemos lado a lado com nossas 211 federações em todo o mundo para aumentar
a participação popular, aumentar o valor comercial do futebol feminino e fortalecer as estruturas da modalidade para garantir que tudo o que fazemos é sustentável e tem resultados fortes.”

De fato, é de extrema importância se atentar para a força do futebol feminino, sendo cristalino o potencial a ser explorado na prática do esporte, seja em relação à descoberta de novos talentos e valorização de atletas excepcionais, seja de resultados financeiros decorrentes de patrocínios, marketing, comercialização de produtos oficiais e afins.

Neste sentido, a FIFA afirmou que manterá o investimento de 1 bilhão de dólares no futebol feminino. Esse dinheiro vem do fundo de investimento da modalidade, que já tinha como objetivo o investimento em programas de capacitação, competições, governança e liderança dos times femininos e profissionalização das jogadoras.

No dia 17/07/2020, a CBF apresentou o calendário revisado para a temporada 2020/2021 das competições femininas, paralisadas desde março em virtude da pandemia do COVID-19. A Série A1 do Campeonato Brasileiro será reiniciada na próxima semana, no dia 26/08/2020, com três jogos, dentre eles o repeteco da final do

Campeonato Brasileiro de 2019 entre Corinthians e o atual campeão nacional, o Ferroviária.

Com a retomada dos campeonatos, torcemos para que esse movimento de incentivo à prática do futebol feminino no Brasil seja resgatado com força total. Nossas atletas merecem o reconhecimento recebido após tantos anos de luta e de dedicação das primeiras mulheres que, por amor ao esporte, ousaram enfrentar e vencer tantos preconceitos.

Sobre a autora 

Ana Beatriz Rausse de Almeida é advogada (consultora tributária), graduada em Direito pela Faculdade Milton Campos, graduanda em Ciências Contábeis pela Universidade FUMEC, e cursa MBA em Gestão Tributária na USP/ESALQ.

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Di Maria ou Lewandowski – Quem leva mais um caneco na Champions?

A tão esperada final da Champions está definida! Bayer e PSG disputam, no domingo, um dos títulos mais cobiçados do futebol europeu e do mundo! A equipe alemã busca sua sexta conquista, enquanto os franceses perseguem seu primeiro título da Liga. Dois renomados e multi-campeões jogadores buscam trazer o título a seus clubes: Ángel Di Maria para o PSG e Robert Lewandowski para o Bayer.Di Maria iniciou a carreira de poderio financeiro modesto, mas tradicional, o Club Atlético Rosário Central, da cidade de Rosário na Argentina. Filho de pai minerador de carvão, ofício que Di Maria também exerceu até os 15 anos, tinha dificuldade para pagar a passagem para ir aos treinos; ainda assim, fez sua estreia na equipe principal com apenas 17 anos. Chegou até o estrelato na Europa, onde atuou ao lado de jogadores como Cristiano Ronaldo e passou por grandes clubes como Manchester e Real Madrid. Di Maria acumulou títulos e, hoje, aos 32 anos, vive sua 5o temporada pelo PSG buscando sua segunda Champions League.

Nesta edição do torneio, o argentino é o 4º jogador a realizar mais passes para o terço final do campo, o líder em número de assistências e em criação de chances reais de gol, dados que, se mantidos e ampliados para esta final, irão aumentar muito as chances de título da equipe francesa.

Lewandowski é polonês e filho de atletas profissionais, o pai foi judoca e a mãe jogadora de vôlei. Além disso, sua esposa é carateca e formada em Educação Física, assim como ele que se graduou na Escola Superior de Educação em Esportes da Universidade de Varsóvia em 2017. Lewandowski tem a marca de ter sido campeão e artilheiro da 3º, 2º e 1º divisão na Polônia, nesta ordem. Estreou aos 18 anos no Znicz Pruszków já sendo artilheiro e campeão da terceira divisão polonesa. Desde então, não parou de fazer gols por onde passou, o que, inclusive, já lhe rendeu a entrada para o livro dos recordes. O artilheiro tem as marcas de: hat trick mais rápido da história; marcar quatro
gols mais rápido na história; marcar cinco gols mais rápido na história; e mais gols anotados por um reserva. Tudo isso ocorreu na épica virada sobre o Wolfsburg em 2015, onde saiu do banco de suplentes e anotou 5 gols em 9 minutos.

Na Champions de 19/20, Lewandowski ainda busca superar a marca de Cristiano Ronaldo, de 17 gols anotados numa mesma edição. O polonês já marcou 15. Na atual temporada da competição, Lewandowski é o líder em número de finalizações (tendo uma média de 4,6 por jogo) e vice-líder em número de assistências, realizou 5 (uma a menos que Di Maria).

Confira abaixo a análise dos dois jogadores.

Ambos os jogadores tem sido fundamentais para a efetividade ofensiva de suas equipes, no domingo eles conseguiram assumir esse protagonismo demonstrado durante toda a competição? Quem conseguirá ser mais decisivo e levar sua equipe ao título?

Desfrutem do JOGO!

Sobre os autores

Danilo Benjamim é bacharel em treinamento esportivo, possui a Licença B pela CBF/FIFA e cursa atualmente as licenças A/B da ATFA. Tem passagens pelo Paulínia FC, Coritiba, Athletico Paranaense, Ferroviária e, recentemente, Guarani FC.

Acompanhe as redes sociais do Danilo Benjamim: InstagramFacebook

Aurélio Estanislau é graduado em Ciências do Esporte pela Unicamp e analista de desempenho do Sub15 do S.C. Corinthians Paulista.

Acompanhe as redes sociais do Aurélio Estanislau: InstagramTwitter.

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A neurociência e o futebol

O futebol é marcado pela razão que ordena o que se espera dele e pelas emoções nascidas das surpresas que nos entusiasmam ou decepcionam. Perder ou ganhar, enfim, é o mundo imprevisível deste jogo que se parece com uma ‘matrix’ esportiva, pois algo que está a ser descoberto organiza o que ainda não se entende dele.

Como funcionam internamente atletas, treinadores, dirigentes, árbitros e tantos profissionais de distintas áreas, além da torcida, diante do mundo imprevisível e aleatório do futebol e seu campo de jogo?

A Neurociência investiga o sistema nervoso central em relação a diversos aspectos comportamentais e fisiológicos de seres humanos, e dá suporte a várias disciplinas esportivas como Psicologia, Medicina, Fisioterapia, e também à Metodologia do Treinamento.  Como um ramo da Biologia, a Neurociência vem buscando estabelecer a relação entre o cérebro, mente e o comportamento humano através de diferentes conceitos e princípios, e quando aplicada à prática esportiva, otimiza o desenvolvimento de procedimentos pedagógicos na construção de exercícios, dinâmicas e tarefas para o ensino e aprendizagem, além do treinamento no futebol, aumentando o potencial de desempenho de atletas futebolistas no processo de treinamento, execução de exercícios e participação em jogos.

Um dos fundamentos centrais é que cada pessoa tem sua maneira própria – subjetiva – de interpretar circunstâncias e organizar o funcionamento de seu sistema único e indissociável formado por mente e corpo. Se pensarmos assim no futebol, como seria a melhor maneira de olhar para jogadores e jogadoras em ação a partir de sua percepção única de compreender o jogo?

Muitos conceitos da Neurociência estão contribuindo para que as práticas de treinamento sejam arquitetadas com a finalidade de estimular individualmente potenciais até então tomados de forma generalista. A crença de que há um modo único de aprendizagem e que todos organizam as percepções da mesma maneira gera ainda treinamentos padronizados para grupos e não personalizados para as diferentes estratégias de soluções de problemas que cada atleta desenvolve ao longo de seu aprendizado e treinamento no futebol. A Neurociência contém o potencial para provocar uma produtiva mudança neste entendimento.

As ações dos neurocientistas, que incluem pesquisas mediante demandas e divulgação destes conhecimentos, resultam em afirmar que o desenvolvimento das pessoas se deve, em grande parte, à flexibilidade do sistema nervoso, que representa a capacidade de adaptação em suas experiências de vida.

Aqui olhamos para atletas na experiência de treinar e jogar futebol, que ao longo do tempo criam modelos mentais de compreensão do jogo, resumindo, generalizando e ampliando experiências que tornam possíveis sua expressão comportamental de executar as ações próprias do futebol, aliada ao rendimento em um jogo, especialmente as experiências criadas para o ambiente do treino e pela oposição das equipes adversárias.

A Neurociência contribui com o conhecimento avançado do funcionamento do sistema nervoso, e mais particularmente o cérebro, para que o treinador possa organizar e otimizar seus treinos mais assertivamente a partir das situações desafiadoras de jogo.

As ações de um jogo são constituídas por situações problema que equipes e atletas devem solucionar constantemente, tornando essa compreensão fundamental para o desempenho no jogo de futebol. É consenso que os atletas treinados em um ambiente construído para estimular a inteligência voltada para solucionar problemas ou criar novas possibilidades de ação terão mais opções à sua disposição para se adaptarem e responderem a situações esperadas ou surpreendentes do jogo. Nesta compreensão, o treino deve conter exigências do jogo.

A Neurociência, através de seus conhecimentos aplicados, poderá facilitar a atuação de profissionais do futebol para que compreendam com mais clareza o funcionamento do cérebro e suas ações, promovendo a melhoria no desempenho de jogadores e jogadoras. Sabendo disso, começaremos a entender com maior profundidade o momento de pressão vivido por Andrés Iniesta no jogo* contra o Chelsea, em que marcou um gol salvador para o Barcelona aos 48 minutos do segundo tempo, e que este grande jogador assim resumiu: “Não havia tempo para pensar, simplesmente chutei”**.

*Jogo entre Chelsea x Barcelona, realizado pela Champions League em 06 de maio de 2009.

**Referência utilizada: Percy, Allan. Pensar com os pés. Sextante, Rio de Janeiro, 20014. p-39.

Sobre os autores

Hermes Ferreira Balbino é educador físico e psicólogo, doutor em Ciências do Esporte. Experiência em diversos campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos. É autor de livros sobre Esporte e Pedagogia, professor universitário e consultor para desempenho esportivo.

Sérgio Ricardo de Abreu Camarda é educador físico e doutor pela Universidade Federal de São Paulo com pós-doutorado pela UNESP/Rio Claro. Possui experiência na área de Fisiologia do Exercício em grandes clubes do futebol brasileiro.

Juliana Mazepa Pereira é psicóloga com atuação no futebol desde 2007. Pós graduada em Gestão Estratégica de Pessoas pela PUC/PR, especialista em comunicação – programação neurolinguística e coach reconhecida pela Sociedade Brasileira de Coaching.

Tânia Leandra Bandeira é educadora física e psicóloga, doutora em Educação Física com estudos aplicados à Psicologia do Esporte. Tem experiência no trabalho com equipes esportivas de diversas modalidades assim como no futebol, incluindo o trabalho com equipes de arbitragem.

Júlio Neres é treinador de futebol com as licenças C e B pela CBF e nível 1 pela UEFA e analista de desempenho pela CBF. Graduando em Educação Física e coordenador técnico da PSG Academy – Salvador.

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Paciência no novo processo flamenguista

O resultado imediato e a qualquer custo no futebol é um dos grandes empecilhos para a evolução da qualidade do jogo. Em todo o mundo isso acontece. Também na Europa. Mas por aqui, no futebol brasileiro, isso se dá de uma maneira desmedida e quase que incontrolável.

O caso atual do Flamengo chama demais a atenção. Bastou um início irregular no Brasileirão para inúmeros questionamentos virem a tona. Se com Jorge Jesus no comando o papo era de uma hegemonia sulamericana, batendo de frente com os gigantes europeus, agora com Domenec Torrent que perdeu as duas primeiras partidas, tudo já é colocado em xeque. Ou oito ou oitenta. Ou água ou vinho.

Quando se muda o comando técnico toda a estrutura sente. Dentro e fora de campo. Até porque o resultado que se vê nas quatro linhas é produto de tudo o que o clube como um todo produz. E o treinador é uma figura central nisso. Não existe a possibilidade de “deixar no piloto automático” e simplesmente fazer o que vinha sendo feito. Domenec e nenhum outro ser humano do mundo conseguiria fazer isso justamente porque estamos tratando de pessoas. Uma nova comissão técnica traz diferentes relacionamentos, outros conceitos de jogo de metodologia de treinamento, uma nova linguagem, enfim, tudo muda. A tendência natural é um tempo normal de adaptação de todos que fazem parte desse ambiente.

Culpar a cultura do futebol brasileiro por essa pressão parece simples, fácil, mas não eficaz para as coisas mudarem. A diretoria do Flamengo tem que estar mais do que nunca no controle da situação e dar todo o respaldo para Domenec implementar suas ideias. A tão rara convicção no trabalho proposto tem que imperar de dentro para fora no atual campeão brasileiro. Para não ser mais do mesmo. Para continuar ganhando. E não para que se diga que foi apenas pelo excelente trabalho de Jorge Jesus.

Sobre o autor 

Marcel Capretz é jornalista, apresentador da rádio 105 FM e do SBT Futebol Esporte Show. Busca entender e explicar o jogo através do conhecimento.

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Upamecano e Muller – craques silenciosos nas semis da Champions

Reta final da Champions League!

Neste semana, teremos os confrontos das semifinais e, no domingo, conheceremos o grande Campeão! PSG, RB Leipzig, Bayer de Munique e Lyon são as quatro equipes que chegaram a esta fase da competição e seguem disputando o título.

No texto de hoje, traremos dois jogadores “silenciosos”, que aparecem pouco na mídia, mas que tem sido fundamentais para o sucesso de suas equipes. Upamecano, do RB Leipzig e Muller, do Bayern.

Dayot Upamecano é um jovem zagueiro francês, nascido na região da Normandia (norte da França), mas de raízes africanas (sua família é de Guiné-Bissau, no noroeste africano). Ele se destacou bastante na atual temporada e tem tido o nome veiculado a grandes potências do futebol europeu. Um defensor dinâmico e versátil, que não se limita a atuar somente em sua zona originária do campo. Além da grande capacidade da utilização de passes de ruptura (80% de acerto nos passes em direção ao ataque), por vezes também rompe as linhas adversárias por meio de dribles e condução da bola. Outro aspecto a destacar é sua capacidade nos duelos individuais defensivos, o francês tem o melhor percentual (82,86%) de êxito da atual edição da Champions League. Destacamos também que a forte cultura do futebol de rua na França teve importante papel na formação de Dayot, ele é amigo de infância de outro jogador francês, Ousmane Dembele (Barcelona), os dois desenvolveram competências fundamentais do jogo nas ruas e quadras do bairro onde cresceram, a boa relação com a bola, coragem para o jogo e para executar ações não triviais (como um drible ou um passe de ruptura, em situações onde a maioria daria um passe de lado), e a capacidade de oferecer soluções rápidas e criativas aos problemas do jogo, são aspectos amplamente presentes e potencializados na cultura do futebol de rua.

Thomas Müller, o consagrado e multicampeão jogador alemão está no Bayern desde seus 11 anos. Fruto do conhecido e consagrado projeto de renovação do futebol germânico, não coincidentemente esteve presente em dois recentes fatos históricos do futebol mundial: Brasil 1 x 7 Alemanha (2014) e Barcelona 2 x 8 Bayer (2020). Müller é um meio-campista altamente versátil: com a mesma eficácia que ataca também contribui defensivamente. De movimentação constante e diferente do estereótipo normalmente valorizado no Brasil, Müller não é o jogador de alta plasticidade em suas ações, discreto, busca executar o que é necessário e da forma mais eficiente possível. Demonstra, assim, sua alta capacidade de leitura de jogo que potencializa a qualidade das decisões tomadas com e sem a bola. Dono de uma média de 3 finalizações e 3 assistências para finalização por jogo na Champions (uma das melhores entre os meias), e de 69% de êxito nas tentativas de roubadas de bola (uma das maiores entre os jogadores de ataque), Müller tem contribuído de maneira significativa para que o Bayern tenha chegado a mais uma semifinal do campeonato de clubes mais importante da Europa.

Confira nas imagens abaixo a análise dos dois jogadores.

 

Vale lembrar aqui que das 4 equipes que disputam as semifinais, 3 são treinadas por alemães (Hans-Dieter Flick – Bayer; Julian Nagelsmann – RB Leipzig; Thomas Tuchel – PSG). Nunca é demais ressaltar que não se acomodar em conquistas passadas e manter investimento em formação, avaliação e reflexão sobre suas práticas é conduta padrão daqueles que desejam seguir nos mais altos níveis de excelência.

Grandes partidas teremos nesta semana, muitas aspectos a se observar e avaliar. E um fato a constatar: pelo terceiro ano seguido, um treinador alemão disputará a final do principal campeonato de clubes do futebol europeu.

Desfrutem dos JOGOS!

Sobre os autores

Danilo Benjamim é bacharel em treinamento esportivo, possui a Licença B pela CBF/FIFA e cursa atualmente as licenças A/B da ATFA. Tem passagens pelo Paulínia FC, Coritiba, Athletico Paranaense, Ferroviária e, recentemente, Guarani FC.

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Aurélio Estanislau é graduado em Ciências do Esporte pela Unicamp e analista de desempenho do Sub15 do S.C. Corinthians Paulista.

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Os impactos jurídicos da pandemia no futebol brasileiro

É fato público e notório que o novo coronavírus atingiu toda a sociedade, notadamente sob os aspectos da saúde pública e econômicos. Por determinação do Poder Executivo, com a decretação do estado de calamidade pública, bem como o esforço conjunto de todos os atores sociais para a contenção da disseminação do novo coronavírus,
seguindo as orientações da OMS, inúmeras foram as atividades paralisadas e/ou reduzidas.

No futebol, não foi diferente.

No entanto, questiona-se: quais são os principais impactos jurídicos causados pelo novo coronavírus no futebol? O primeiro deles é quanto à possibilidade de caracterização de doença ocupacional, caso algum atleta, membro da comissão técnicas, funcionário e/ou colaborador seja contaminado pela COVID-19. No período de março à meados de maio de 2020, os treinos e partidas de futebol estavam totalmente paralisados, a fim de impedir a contaminação.

A CBF, em junho de 2020, editou o “guia médico de sugestões protetivas para o retorno às atividades do futebol brasileiro”, no qual sugeriu a adoção de uma série de medidas protetivas para a retomada das atividades dos clubes, de forma a conter a disseminação da COVID-19 aos atletas, membros das comissões técnicas, funcionários e colaboradores.

Ainda, a CBF editou a “diretriz técnica operacional” referente ao retorno das competições, a qual, como o próprio nome indica, traça regras para a retomada dos torneios.

Após a fixação dos cuidados necessários e das diretrizes, os campeonatos estaduais, de forma gradual, foram retornando, com um formato totalmente atípico. Cita-se aqui o campeonato carioca, o qual retornou em 18/06/2020, sendo o primeiro no Brasil.

Em que pese as diretrizes e as orientações editadas pela CBF, poderá ser travada uma discussão judicial acerca da ocorrência de doença ocupacional, caso algum atleta, membro da comissão técnicas, funcionário e/ou colaborador, seja contaminado pela COVID-19, durante a jornada de trabalho, por exemplo, durante uma partida de futebol.

O novo coronavírus, ao contrário do que muitos pensam, é tratado como qualquer outra doença.

Ou seja, para que a COVID-19 seja declarada como doença ocupacional, deverão ser comprovados os requisitos para tal, devendo ser analisado caso a caso. Assim, será do empregado que alegar a COVID 19 como doença ocupacional, a “responsabilidade” de comprovar tal fato. Lado outro, tem-se que caberá ao clube demonstrar que adotou todas as medidas necessárias referente à saúde e segurança do trabalho, bem como seguiu as orientações das autoridades sobre a contenção do coronavírus, como por exemplo as diretrizes ditadas pela CBF.

O STJD, recentemente, deferiu o pedido de adiamento da partida de futebol realizado pelo Goiás E. C., o qual enfrentaria o São Paulo F. C.. Destaca-se que o pedido se embasou na verificação de que 10 atletas do Goiás E. C. testaram positivo para o novo coronavírus, o que colocaria em risco a saúde de outros atletas, comissão técnica, árbitros, auxiliares, repórteres e qualquer pessoa que tivesse contato com os mesmos, em razão da possibilidade de transmissão do vírus.

Nesse caso, por exemplo, caso a partida fosse realizada e algum jogador viesse a ser contaminado, haveria grandes chances de caracterização da doença ocupacional, em eventual reclamatória trabalhista.

Outro efeito jurídico é a possibilidade de não rebaixamento dos times que tiveram as piores colocações nos campeonatos, mantendo-os na sua atual divisão no ano de 2021. Como se sabe, a pandemia gerada pela COVID-19 criou uma situação excepcional no futebol mundial.

Ora, treinos foram paralisados e campeonatos foram suspensos. Os atletas profissionais são de alta performance, sendo certo que qualquer alteração em suas rotinas, influencia diretamente nos seus rendimentos em campo. Ademais, é inegável que vários clubes tiveram prejuízo financeiro e técnico, tendo inclusive que alterar o elenco após o retorno das competições.

Ante a paralisação das atividades, vários clubes perderam o entrosamento e qualidade, o que direta ou indiretamente influenciou nos resultados das partidas.

Ocorre que, a baixa no rendimento e, por conseguinte, a derrota nas partidas, pode ter sido ocasionada pelo novo coronavírus, o que caracterizaria um evento de força maior. A força maior trata-se de um fenômeno que até pode ser previsto, mas não impedido, sendo, no Direito Civil, uma hipótese de excludente de responsabilidade do devedor, a
qual pode ser plenamente aplicável ao futebol.

Assim, os clubes, podem alegar que a pandemia gerada pelo novo coronavírus causou inúmeros prejuízos, sendo um evento totalmente alheio à sua vontade, requerendo, por conseguinte, o afastamento da consequência jurídica do baixo desempenho e seguidas derrotas, qual seja, o temido rebaixamento.

Cumpre salientar que alguns clubes já realizaram tal pedido para o STJD, os quais tiveram liminar deferida, a fim de obstar o rebaixamento até a julgamento final do Tribunal Desportivo. A expectativa é que o STJD defira os pedidos, haja vista as inegáveis e nefastas consequências geradas pela COVID-19, que atingiram toda a
sociedade, inclusive os clubes de futebol.

Por fim, salienta-se que a pandemia gerada pela COVID-19 é muito dinâmica, sendo certo que a qualquer tempo pode alterar uma situação já consolidada, criando, assim, novos efeitos jurídicos, os quais serão tratados oportunamente.

Sobre a autora

Izabella Rosa dos Santos Vaz é advogada, cursando pós-graduação em Direito e Compliance trabalhista pelo IEPREV, MBA em Direito do Trabalho pela Fundação Getúlio Vargas, especialista em Direito Público pela Universidade Cândido Mendes, graduada em Direito pela PUC/MG.