Categorias
Sem categoria

Visão sistêmica

Na parte tática do futebol, o português José Mourinho foi um dos primeiros a falar de forma mais embasada sobre os modelos de jogo, a partir de uma percepção sobre o todo em detrimento à soma das partes. Sua base de conhecimento estava alicerçada, principalmente, na filosofia do esporte, do também português Manuel Sergio, que foi seu grande inspirador. Anteriormente, outros treinadores já haviam aplicado princípios similares, incluindo Telê Santana. Pep Guardiola, por sua vez, tem aperfeiçoado ainda mais este conceito e vem trabalhando há algum tempo sob uma perspectiva inovadora do treinamento.

Mas não vou me dedicar à análise tática do futebol, até porque estou como muitos técnicos brasileiros: faz tempo que não a estudo com maior profundidade. Me arrisquei nos comentários do primeiro parágrafo apenas para introduzir a lógica de raciocínio que alguns destes treinadores chamados modernos possuem a partir de uma visão holística sobre as suas atividades de treinamento com equipes de alto rendimento. E, apesar da ironia inicial com os treinadores brasileiros, sabe-se que temos muitos já com pensamentos e perspectivas de utilização deste conhecimento na prática. Só não encontram amparo para o aplicar em sua plenitude em boa parte dos clubes brasileiros.

E é aí que começa o enredo desta coluna. Cada vez mais estou convencido de que os campos de conhecimento dentro de um clube de futebol não podem ser tratados como células. Certamente não sou o único! O fato é que está cada vez mais difícil separar e discernir as atividades de marketing da agenda de treinamento da equipe ou da gestão em termos de política e aspectos financeiros da questão psicológica e médica dos atletas.

Enfim, o clube como um todo é um sistema complexo. Ainda mais os clubes no Brasil, pois aí entra o componente político, que é um elemento fundamental para a nossa existência, tanto para o bem quanto para o mal. Não compreender que cada detalhe dentro do clube, desde o bom dia do porteiro até o gol do centroavante, pode afetar o desempenho organizacional tem sido o maior erro de avaliação das nossas entidades. O São Paulo FC, junto com Juan Carlos Osorio, foram as vítimas desta semana, impactados especialmente por uma visão míope dos negócios do futebol a partir do ambiente político.

Tudo tem seus porquês e pode ser melhor trabalhado e controlado, desde que se tenha consciência sobre o fenômeno e se saiba aplicar as melhorias necessárias. A vida e a carreira de treinadores dependem essencialmente disso. A vida de milhares (para não dizer milhões) de crianças e adolescentes que sonham em desenvolver habilidades no futebol dependem disso.

A irresponsabilidade na gestão e a falta de uma visão técnica e sistêmica sobre os clubes enquanto organização pode e deve ser revertida, para o bem do futebol brasileiro. E que seja feita de maneira mais veloz do que o que se tem aplicado atualmente, sob pena de termos um Maracanã lotado em 2017… para ver Real Madrid x Barcelona em campo!

Categorias
Sem categoria

Osorio, o personagem de Jorge Amado

Lançado em 1959 e adaptado ao cinema em 2010, “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água” é um dos romances mais conhecidos do escritor brasileiro Jorge Amado. A obra conta a história de um homem devoto de festas e vadiagem e de como os amigos se recusam a assimilar a morte dele. O futebol brasileiro também tem atualmente um personagem que está morto, mas segue vivo: Juan Carlos Osorio, colombiano que treina o São Paulo.

A história de Osorio no São Paulo é uma sucessão de erros desde o início. Oriundo do Atlético Nacional (Colômbia), o treinador foi apresentado no início de junho de 2015 – Milton Cruz vinha ocupando interinamente o cargo na equipe paulista desde a saída de Muricy Ramalho. Osorio foi escolhido por causa do perfil (tem formação na Uefa, já trabalhou na Inglaterra, estuda tática e tem uma visão de futebol que chamou atenção da diretoria tricolor), mas não foi a primeira opção. Quando foi contratado, a cúpula do clube chegou a mentir sobre viagens à Colômbia e o andamento da negociação.

No São Paulo, Osorio mostrou desde a chegada uma preocupação com a adaptação. O colombiano sempre se esforçou para falar português e transferiu a família para o Brasil, por exemplo. Foram vários os sinais de que ele estava interessado em conhecer mais do novo país.

Em campo, contrapartida, Osorio tentou implantar seu estilo. O colombiano inseriu questões como rodízio de atletas, jogadores usados em posições diferentes e alterações drásticas durante as partidas, estratégias pouco usuais no futebol brasileiro. O estranhamento começou aí.

A impressão que se tem de fora é que não houve uma preparação do elenco do São Paulo a Osorio. Tampouco houve um briefing adequado ao treinador sobre o que ele encontraria no clube. Oito jogadores deixaram a equipe durante o Campeonato Brasileiro (Rafael Tolói, Denilson, Souza, Jonathan Cafu, Paulo Miranda, Boschilia, Ewandro e Dória), e a crise política interferiu sobremaneira no trabalho do colombiano.

Os erros de comunicação na escolha, na negociação, na gestão do elenco e na relação com o profissional já seriam suficientes para fazer do episódio Osorio um caso de estudo no futebol brasileiro. Contudo, a situação ficou ainda mais insólita quando o treinador recebeu uma sondagem da seleção mexicana de futebol.

Desde que o nome de Osorio começou a circular na imprensa mexicana, não houve um dia em que esse assunto tenha sido ignorado no dia a dia do São Paulo. A decisão do treinador, o pensamento da diretoria sobre isso, os planos B e C da equipe, os motivos do colombiano…. Tudo virou assunto mais relevante do que o desempenho da equipe que está nas semifinais da Copa do Brasil e ainda briga por vaga na Copa Bridgestone Libertadores do ano que vem.

Como acontece em negociações arrastadas de jogadores, chama atenção no caso Osorio a falta de transparência de todos os lados. Também é acentuado o vazamento de informações que só contribuem para que o assunto seja abordado constantemente e de forma rasa.

Com muita gente falando sobre e muitas informações desencontradas, o caso Osorio tornou-se um reflexo do atual momento político do São Paulo, um clube esfacelado por problemas internos. É difícil medir o quanto isso afeta o trabalho em campo, mas é claro que um ambiente assim não é o ideal para nenhum tipo de profissional.

Um jogador do São Paulo não sabe hoje, por exemplo, se o treinador dele terá vida longa – ou se terminará o ano no clube, pelo menos. Não sabe, tampouco, se é possível confiar nos conceitos de futebol que o colombiano apresentou – a diretoria escolheu o profissional por causa de uma ideia de futebol, e a saída de Osorio representaria também a saída dessa ideia.

O momento político do São Paulo tem a ver com a saída de uma série de jogadores e com o desgaste na relação de Osorio, profissional que hoje não mantém bom diálogo com praticamente ninguém na cúpula do clube. Mas se existe um aspecto em que a crise do clube paulista se manifesta de forma mais clara, esse aspecto é a comunicação.

Categorias
Sem categoria

A composição do elenco

A composição do elenco é tarefa permanente na carreira de um treinador tanto nas categorias de base como em equipes profissionais.

Com maior ou menor autonomia e influenciado por elementos não controláveis (atletas sem projeção com tempo de contrato longo), o fato é que a composição de um grupo sempre passa pela comissão técnica, mais precisamente pela figura do treinador.

Por exemplo, ao se aproximar o término de uma temporada em uma equipe de categoria de base, o treinador deve ter ciência (com ferramentas e critérios de avaliação bem definidos), de quais são os jogadores remanescentes para a próxima temporada, quais serão os promovidos da categoria inferior e quais são as carências que precisam ser supridas.

Já no contexto do futebol profissional, é comum observarmos a participação dos treinadores ao promover jovens talentos das categorias de base, ao validar a contratação de jogadores prospectados pela diretoria executiva, ao solicitar a permanência de atletas da temporada anterior, ou até na indicação de jogadores de “confiança”, com quem já trabalharam em oportunidades anteriores.

O fato é que, seja na base ou no profissional, o objetivo na composição do elenco é sempre o mesmo: a aproximação do time ideal.

Na coluna desta semana serão propostas algumas reflexões/questionamentos sobre o elenco ideal para que em outra oportunidade, após sua participação, seja realizada uma discussão.

Deixo, então, a sequência de questionamentos:

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos goleiros da sua equipe ideal?

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos laterais da sua equipe ideal?

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos zagueiros da sua equipe ideal?

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos volantes da sua equipe ideal?

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos meio-campistas da sua equipe ideal?

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos meia-atacantes/extremos da sua equipe ideal?

Qual o perfil de jogo (físico-técnico-tático-psicológico) dos atacantes/centroavantes da sua equipe ideal?

Você prefere dois jogadores da mesma posição com características diferentes ou iguais (por exemplo, um lateral direito mais ofensivo/”agudo” e um lateral direito mais defensivo/marcador)?

Você prefere jogadores mais jovens ou jogadores mais experientes?

Do elenco que você trabalha hoje, quantos você considera que compõem o seu elenco ideal?

Você acredita em elenco ideal? No contexto que você trabalha, de quanto tempo precisa para formá-lo?

Você conhece algum elenco ideal? Qual?

Conto com a participação de vocês. Abraços e até a próxima!
 

Categorias
Sem categoria

A arma e as repercussões jurídicas

Correu o Brasil a imagem de um árbitro puxando o revólver em uma partida de futebol na cidade de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte. A partida era válida pela Liga de Futebol Amador da cidade.

A confusão se deu após os jogadores do banco de reservas e do treinador da equipe do Arantes invadirem o campo exigindo a expulsão de um atleta do time adversário. Sentindo-se ameaçado, o árbitro foi até o vestiário e voltou com a arma.

A Federação Mineira de Futebol (FMG) entendeu que o homem do apito teria agido em legítima defesa e não aplicará sanções.

Não obstante isso, nada impede que o árbitro sofra sanções disciplinares eis que suas condutas submetem-se ao Código Brasileiro de Justiça Desportiva com penalidades previstas entre os artigos 259 e 273.

No caso em questão, o árbitro estaria incurso no artigo 273, pois atuou com abuso de autoridade e a sua pena pode variar entre quinze e cento e oitenta dias cumulado ou não com multa de cem a mil reais. Caso a Justiça Desportiva entenda ser questão de pequena gravidade, a pena pode ser substituída por advertência.

Para o árbitro ser punido, sua conduta deve ser objeto de denúncia da Procuradoria Geral de Justiça Desportiva à Comissão Disciplinar do TJD da Federação Mineira de Futebol.

Se por um lado a conduta do árbitro foi extremamente ousada e até mesmo absurda, por outro demonstra a situação dos juízes que apitam partidas de ligas amadoras ou divisões menores pelo Brasil afora. Campos sem policiamento, torcida e atletas hostis acabam por acuar os árbitros, de modo que eles sintam sua integridade física ameaçada.

Para que uma partida de futebol seja conduzida dentro da lisura e imparcialidade necessárias, o quarteto de arbitragem precisa de condições mínimas de trabalho e a atitude do árbitro em sacar uma arma demonstra o nível da tensão que eles passam.

Alguma punição deve ser aplicada até mesmo pelo caráter pedagógico de se evitar que vire regra a utilização de armas pela arbitragem, mas há de se refletir sobre as reais condições de segurança e trabalho da arbitragem, especialmente em competições de menor visibilidade. 

Categorias
Sem categoria

Aposentado, eu?

Já comentei aqui sobre a carreira esportiva, suas fases e suas respectivas transições. Porém, hoje quero focar numa das transições mais complicadas na carreira de um atleta profissional de alto rendimento: da fase de excelência para a aposentadoria.

Relembrando rapidamente, a fase de excelência corresponde a etapa na qual o atleta assume a carreira esportiva como atividade profissional e com isso passa a ter seu estilo de vida dedicado totalmente à performance esportiva. Já a aposentadoria reflete a etapa na qual o jogador vivencia a diminuição da prática esportiva profissional até deixar por completo essa atividade.

Toda vez que vejo atletas com idade mais avançada para a prática do futebol atuando no mercado, me pergunto se eles estão encarando de maneira adequada as transições de sua carreira, principalmente a transição da atividade profissional para a fase de aposentadoria. Esta transição reflete um momento de transição muito delicado e que requer um planejamento adequado para o fim da carreira como atleta.

Quando um jogador se aproxima do final de sua trajetória como profissional, ele tem dois caminhos a seguir. Um deles é acreditar que ainda pode continuar realizando seu papel em campo com desempenho em alto nível; o outro caminho é contar com o apoio necessário para planejar essa transição de maneira estruturada e consciente.

O que vemos de maneira mais abrangente são atletas que caem num círculo vicioso de insistir em manter-se ativo como atleta profissional, mas sem conseguir desempenhar seu papel em campo com a performance costumeira nos tempos do auge da fase de excelência.

Isso gera uma série de impactos em sua vida, pois com a performance baixa sua confiança e autoestima se reduzem drasticamente e ele se vê agarrado ao passado recente e tenta vender a credibilidade de seu histórico anterior para conseguir novas oportunidades no mercado. Mas no fundo, ele pode eventualmente estar se iludindo que ainda está ativo, quando na verdade ele já se encontra aposentado e não consegue encarar essa dura realidade.

Por isso, os atletas em geral necessitam de um bom trabalho de coaching para uma efetiva e adequada transição de carreira para a fase de aposentadoria, para aí sim, uma vez aposentado da carreira de atleta profissional ele possa tranquilamente realizar sua última transição, só que dessa vez para uma nova história, seja ela dentro ou fora do esporte.

Categorias
Sem categoria

Um dia a conta chega

Em março deste ano escrevi um texto aqui, na Universidade do Futebol, para abordar a questão da estratégia nos clubes do futebol brasileiro. O título era: “por que tantos problemas?”. No breve estudo, havia uma comparação dos cargos e funções de clubes de futebol comparado com uma empresa de entretenimento.

Meses depois, vemos, seguidamente, processos e tomadas de decisão de boa parte dos clubes sendo feitas sem o mínimo de análise. Não se está aqui cobrando algo robusto e refinado, como, na verdade, deveria se fazer. Mas sim, fazer o mínimo. O último caso é o da relação-relâmpago entre Fluminense e Ronaldinho Gaúcho.

Este é o típico caso, comum ainda em muitos clubes, da falta de visão holística sobre o negócio a qual estão inseridos. Olhar, de forma reduzida, para a entrada e saída de um jogador em um curto período de tempo como o único “problema” é ter-se uma visão míope do todo. Achar que o problema foi simplesmente técnico ou comportamental, impactando apenas na performance da equipe (ou nem isso), é seguir olhando para um clube de futebol apenas como uma célula esportiva e não uma instituição.

A visão estratégica nas organizações esportivas serve não apenas para olhar balanços, receitas e despesas, projetos de patrocínio ou fazer análise do mercado. Serve para tomar decisões criteriosas desde a atividade-fim, que é o futebol, em que se precisa explicar os porquês das escolhas de treinadores, comissão técnica, equipe multidisciplinar e elenco, até se chegar no relacionamento com torcedores, patrocinadores e mídia.

Tudo tem um “porque”! Tudo isso é combinado e deve pertencer ao todo. Para a conta não vir salgada em poucos meses ou anos, é fundamental virarmos urgentemente essa chave. Não se pode mais admitir, com tudo o que já se sabe e as inúmeras possibilidades de acesso à informação, que células de uma organização tomem decisões isoladas que impactam negativamente o todo. Precisamos evoluir para, no mínimo, errarmos erros novos…

Categorias
Sem categoria

O cabelo de Neymar

Sexta-feira, 25 de setembro: a Procuradoria da Fazenda Nacional conseguiu na Justiça o bloqueio de R$ 188,8 milhões de Neymar, da família dele e de empresas ligadas ao atacante. Sábado, 26 de setembro: o Barcelona, que vinha de uma derrota por 3 a 0 para o Celta, jogou contra o Las Palmas no Campeonato Espanhol. Lionel Messi saiu machucado logo aos 3min do primeiro tempo, e Luis Suárez foi decisivo na vitória por 2 a 1. Neymar não teve uma finalização perigosa sequer, perdeu um pênalti e chamou mais atenção pelo novo estilo de cabelo (raspado, sem os fios alisados que marcaram quase toda a trajetória dele no futebol profissional).

A história de Neymar nos dois dias citados é um bom exemplo do quanto os componentes não podem ser isolados. Temos uma tendência a compartimentar e enxergar atributos como se fossem universos no futebol – discutimos tática, físico, psicológico e comunicação como se fossem coisas que se sustentassem sozinhas, sem influência no todo. Esquecemos muitas vezes que o esporte, como a vida, é feito sempre de ligações complexas e interdependentes.

Neymar pode ter tido outras tantas razões para cortar o cabelo, mas é nítida a tentativa de desviar um pouco o foco. O atacante sempre chamou atenção pelo visual, e raspar a cabeça antes de um jogo era uma forma de criar uma agenda positiva, desviando um foco que poderia ser totalmente direcionado aos problemas judiciais decorrentes da transferência do Santos para o Barcelona em 2013.

A estratégia usada por Neymar repete o que foi feito pelo brasileiro Ronaldo na Copa do Mundo de 2002. Antes da semifinal contra a Turquia, o camisa 9 tinha uma lesão e alguma chance de sequer entrar em campo. Para que isso não fosse assunto, raspou o cabelo de uma forma inusitada, criando um visual eternizado como “cascão”. Ninguém mais falou sobre o problema físico.

As pessoas podem até ter falado mais do cabelo do que dos problemas judiciais, mas Neymar não estava totalmente concentrado. O desempenho irregular do atacante do Barcelona na partida contra o Las Palmas é reflexo direto de algo que provém do fora do campo. É impossível dissociar a cabeça e o corpo de um atleta.

No altíssimo rendimento, qualquer fator tem enorme peso. Um filho doente, uma dívida não paga, uma dor de dente ou um futuro incerto podem influenciar diretamente no desempenho de um atleta de qualquer modalidade. A situação é mais clara em esportes com valências únicas – os segundos que determinam destinos no atletismo ou na natação, por exemplo –, mas interfere em qualquer realidade.

Entender essa relação sistêmica de causa é fundamental para evitar injustiças. Jogadores de futebol podem jogar partidas seguidas ou entrar em campo em momentos difíceis para eles, mas não falamos aqui sobre “conseguir fazer”; falamos sobre “ser submetido a um nível extremo de cobrança interna e externa”.

Atletas não são máquinas, ainda que cobremos deles um desempenho próximo a isso. São seres humanos, e seres humanos são influenciados por uma série tão grande de fatores que é praticamente impossível controlar.

Na comunicação ou na análise de desempenho, a cobrança precisa ser para minimizar erros. E minimizar erros quase sempre é um processo mais eficiente quando feito de forma coletiva, sem pensar apenas em vilões ou culpados.

Nesse caso, mais uma vez, o Barcelona de sábado serve como exemplo. Neymar estava em jornada ruim por causa de problemas pessoais e Messi saiu machucado, mas o Barcelona tinha alternativas e conseguiu vencer. É uma metáfora perfeita de gestão de projetos (preparar seus pontos fortes, avaliar seus adversários, colocar força máxima e ter alternativas para o caso de algumas dessas virtudes não funcionarem).

Precisamos entender que futebol não é tática, técnica, físico, psicológico ou outros aspectos. Futebol é tudo isso junto, em conexão, com relações que fogem do controle ou da compreensão.

Entretanto, nós ainda vivemos numa realidade em que as coisas são analisadas de forma separada no futebol. Vivemos num período em que todas as mídias vivem de estatísticas, telões com imagens paradas e fotografias de lances. São coisas isoladas, que podem ter diferentes pesos de acordo com o contexto. Vivemos num período em que o contexto interfere bem menos do que deveria.

O caso do pênalti da Série D

Palmas-TO e Remo-PA fizeram no sábado (26) uma partida válida pelas oitavas de final da Série D do Campeonato Brasileiro. Jogando em Palmas, o confronto estava empatado sem gols até os 45min do segundo tempo, quando Whashington invadiu a área pela direita e se atirou no gramado. O árbitro Avelar Rodrigo da Silva anotou pênalti, e Dan deu a vitória aos donos da casa em Tocantins.

O lance foi absolutamente bizarro. Whashington não tinha rivais sequer próximos de seu corpo, e o árbitro Avelar Rodrigo da Silva cometeu um erro que pode interferir no futuro da competição.

Contudo, o maior erro foi o do jogador do Palmas. Num ambiente em que todo fator tem enorme peso e pode interferir no todo, uma tentativa tão deliberada de ludibriar e tirar vantagem é uma ofensa a todo mundo que trabalhou para obter o alto rendimento.

Criar agenda positiva é um dos desafios mais concretos que a comunicação tem no esporte atualmente. Criar agenda positiva num cenário em que os protagonistas são tão dúbios e cometem ações de falta de caráter é ainda mais difícil.

Categorias
Sem categoria

Entenda o mecanismo de solidariedade por formação de atleta

Com o objetivo de incentivar o surgimento de futuros jogadores, a Lei Pelé e os regulamentos da Fifa asseguram ao clube formador o direito de obter resultado financeiro pela formação do atleta.

Entretanto, para ter direito ao “mecanismo de solidariedade”, o clube precisa atender de forma concomitante aos seguintes requisitos:

• Fornecer programa de treinamento nas categorias de base;

• Fornecer complementação educacional;

• Estar com o atleta em formação inscrito por pelo menos um ano;

• Comprovar que utilizou o atleta em competições oficiais;

• Garantir assistência educacional, psicológica, médica, odontológica, bem como alimentação, transporte e convivência familiar;

• Manter alojamento e instalações desportivas em condições adequadas;

• Manter corpo de profissionais especializados;

• Ajustar o tempo destinado a efetiva formação (nunca superior a quatro horas diárias) ao horário escolar, exigindo do atleta presença e satisfatório aproveitamento;

• Ser a formação gratuita para o atleta, ou seja, às expensas do clube;

• Comprovar que participa, anualmente, em pelo menos duas categorias de campeonatos oficiais.

O clube que atender a todos os requisitos terá o direito a 5% do valor de cada transferência do jogador.

Na hipótese de haver mais de um clube formador, o valor da indenização é partilhado: 1% para cada ano de formação do atleta, dos 14 aos 17 anos; 0,5% para cada ano de formação do atleta, dos 18 aos 19 anos.

Com o objetivo de agilizar o burocrático processo de comprovação dos requisitos, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) tem certificado os clubes que os comprovarem como Entidade de Prática Desportiva Formadora.

Dessa forma, no momento da transferência, basta o clube formador apresentar o “certificado” e a comprovação de que aquele atleta foi formado por ele.

O direito ao recebimento do “mecanismo de solidariedade” pode ser realizado mediante acordo diretamente com os clubes que transacionaram os direitos do atleta, ou, em caso de inadimplência, pleitear junto à entidade máxima do futebol.

Interessante observar que a Lei Pelé tem redação bastante similar ao que estabelecem as normativas da Fifa, o que viabilizam as indenizações por transferências nacionais e internacionais.

Urge destacar que, recentemente, a Fifa determinou que os pedidos de valores oriundos do “mecanismo de solidariedade” passem a tramitar de forma eletrônica pelo seu sistema TMS, o que trará uma rapidez ainda maior.

Categorias
Sem categoria

Emoções à flor da pele

Ao entrarmos no último terço do Campeonato Brasileiro, com equipes que estão mais distantes da melhor performance esportiva e consequentemente das vitórias, um tema sempre vem à tona: as condições emocionais do grupo em momentos de crise e recuperação.

Já comentei anteriormente em outras colunas assuntos sobre o sequestro emocional, o estresse e os benefícios do gerenciamento das emoções por parte dos atletas e de todos os envolvidos na prática esportiva.

Existem formas de desenvolvermos um melhor controle de nossas emoções, como também existem formas para desenvolvermos uma eficiente prevenção do sequestro emocional. É igualmente possível gerenciar os níveis de estresse dos atletas e do elenco. Existem exemplos de aplicação prática desses assuntos e aqui não vou me concentrar nesse aspecto.

A reflexão de hoje está apoiada sobre o momento no qual deve-se recorrer a alguma forma de desenvolvimento humano para que os atletas possam se preparar para os momentos de crise e falta de bons resultados dentro de campo, bem como se prepararem para os momentos de decisão na parte de cima da tabela dos campeonatos ou nas fases finais de Copas que disputam.

Todo trabalho emocional pode ser mais assertivo quando feito de maneira prévia a estes momentos, com isso torna-se mais valioso e sustentável e duradouro para aqueles que recebem este tipo de trabalho de desenvolvimento. Porém, muitos atletas e equipes de futebol também conseguem responder muito bem aos trabalhos feitos em momentos difíceis, muitas técnicas e ferramentas são utilizadas para que se busque fortalecimento mental, aumento dos níveis de consciência e aumento da confiança.

Neste aspecto, talvez seja por este motivo, que mesmo de forma reativa, os clubes atualmente estejam cada vez mais contratando coaches com objetivo de realizar um trabalho sério de coaching para contribuir com busca por melhores desempenhos esportivos. Relembrando a definição de coaching, este é um processo eficaz que alavanca as mudanças, despertando o máximo potencial e colaborando para que os atletas, equipes e instituições alcancem suas metas e objetivos.

Com isso, aqueles clubes que ainda não experimentaram a aplicação deste valioso processo de desenvolvimento humano, e estão passando por momentos delicados nas competições que disputam, podem lançar mão desta disciplina dentro do esporte para somar com os esforços das demais disciplinas técnicas, táticas, fisiológicas e psicológicas para promover um adequado desenvolvimento dos seus atletas de futebol. Afinal de contas, ainda faltam muitos jogos a disputar e com certeza muita água ainda vai passar debaixo desta ponte.

Até a próxima.

Categorias
Sem categoria

Criar, copiar ou adaptar?

 As movimentações políticas dos clubes nos últimos meses estão no sentido de recriar as ligas regionais. Ganhou força especialmente a partir da Copa Sul-Minas e a inusitada adesão de Flamengo e Fluminense a este processo. Do lado das federações e da Confederação, naturalmente, o movimento é contrário. E, assim, começa mais um (velho) novo imbróglio do futebol brasileiro.

O mais interessante de tudo isso é que um movimento destas proporções, em pleno Século XXI, poderia ter como cerne as questões de mercado, que precisam ser efetivamente melhor debatidas em todas as esferas. No entanto, trata-se de mais um debate movido, dominado e amparado por um jogo ainda extremamente politizado, o que é lamentável, à medida que a concorrência de clubes europeus e de outras plataformas de entretenimento têm ocupado um espaço deixado justamente pela ineficiência na visão sobre os negócios do nosso futebol.

Quando se tenta falar de negócios, os argumentos redundam para uma lógica que tenta copiar ora o modelo americano, ora o modelo europeu. E, muito por isso, tem dificuldade de se desenvolver e ganhar corpo por não combinar com a nossa cultura, tampouco com o sistema político das nossas organizações esportivas. Aqui, vale uma ressalva para não parecer redundância: o DEBATE sobre o modelo não deveria ser político mas, nem por isso, é preciso anular completamente a questão política para se constituir e propor um novo modelo. Eis uma sútil diferença, mas que muda completamente a lógica de raciocínio para se construir e se propor um formato realmente consistente e aplicável.

O grande erro tem sido no sentido de se pensar em ideias mirabolantes que desrespeitam os poderes previamente constituídos. Assim, ficamos em um jogo de empate sem gols, uma vez que aqueles que querem mudar ferem princípios básicos de respeito às instituições.

Pensando em tudo isso, recentemente, procurei fazer um desenho daquilo que acredito ser o modelo mais adequado para as estruturas do futebol brasileiro, buscando criar sinergias entre os modelos americano, europeu e brasileiro para se chegar em um formato adequado para a nossa realidade. Novamente, aqui tem mais uma sútil diferença: não pensei em pegar o formato de comercialização de direitos de transmissão de um e juntar com o calendário de outro. Não é assim que as coisas vão funcionar. Não é juntando as partes que chegaremos no todo.

A visão deve ser holística porque é preciso compreender cada modelo de negócio para se construir um próprio, incluindo-se a análise do nosso modelo dominante e das nossas características econômicas e sociais, que impactam diretamente na forma de gestão e financiamento da grande maioria dos clubes.

Lógico que, para ser completo, o passo ideal para a construção de um modelo é o de diálogo com todos os entes envolvidos (incluindo os que poderão vir no futuro a se relacionar com o negócio) e, a partir daí, propor algo que combine realmente com o que precisamos fazer e implementar em prol do nosso mercado.

Hoje, boa parte das propostas que aparecem não são aplicadas porque olham tão somente para um dos lados. Muitas vezes, o próprio umbigo. Logicamente, a reação contrária vem daqueles que não participaram do processo. A falta de alinhamento entre todas as partes é o que reforça a oposição à mudança.

A longa introdução serve para pautar a base de constituição de um modelo. E ele precisa necessariamente ser ousado por pretender quebrar paradigmas. Respeita, no entanto, as instituições esportivas e o poder emanado por elas, o que é fundamental para este processo.

Em síntese, propõe-se que o sistema como um todo funcione pautado em quatro ligas regionais, sendo que duas delas já existem (a Nordeste e a Verde) e as outras duas seriam recriadas (a Sul-Minas e a Rio-São Paulo). Elas seriam a base para se constituir uma hierarquia efetiva de competições em que uma competição alimenta a outra, até se chegar em um Campeonato Brasileiro. O acesso e o descenso também é hierárquico, ou seja, na base da pirâmide, e não na ponta, como ocorre hoje.

Em outras palavras, a ideia é que as Ligas Regionais se transformem no pilar básico para o sistema. O acesso às Ligas Regionais se daria pelos Campeonatos Estaduais, que funcionariam como a 2ª Divisão de cada Liga Regional, ou seja, cada Liga Regional poderá ter 2, 4, 10 ou até 11 “segundas divisões”. Para acessar a Liga Regional no ano seguinte, os clubes melhores classificados nos Campeonatos Estaduais precisariam disputar um “Torneio de Acesso” contra os clubes rebaixados na Liga Regional. Tudo isso ocorreria em um mesmo ano: os Estaduais e as Ligas Regionais acontecendo de forma simultânea; posteriormente, os Torneios de Acesso e os Campeonatos Brasileiros.

Para o Campeonato Brasileiro, a vaga deve ser conquistada todos os anos, a partir das Ligas Regionais. A quantidade de clubes classificados de cada Liga Regional respeita as tradições regionais e a força dos principais clubes – naturalmente, as Ligas Sul-Minas e Rio-São Paulo teriam, proporcionalmente, mais vagas no torneio principal do que as demais (a questão, aqui, é numérica e não emotiva!).

Este desenho foi pensado para preservar os grandes clubes e, ao mesmo tempo, gerar interesse deles sobre as Ligas Regionais associado com as expectativas dos clubes de médio e pequeno porte. Mal comparando, chega a ser uma adaptação do modelo americano, em que as franquias devem conquistar a vaga para os playoffs a partir de suas divisões todos os anos, independente do título conquistado no ano anterior. Podem, inclusive, ser campeãs das respectivas divisões tal e qual se propõe nas Ligas Regionais. Para este modelo, o conceito de playoffs é substituído pelo do Campeonato Brasileiro, mesmo que este último não seja jogado apenas em formato de mata-mata (é apenas o conceito). A grande diferença do sistema como um todo é que lá se trata de uma liga fechada e aqui seriam quatro ligas abertas, com princípios esportivos.

Assim, o famoso “Campeonato de Pontos Corridos” seria a Liga Regional. É ela que irá garantir o calendário para a grande maioria dos clubes. O Campeonato Brasileiro não seria diminuído por conta disso. Pelo contrário. Ele se transformaria na grande estrela do modelo de negócio. Essa é a grande quebra de paradigma. Não porque é um campeonato mais curto em tempo que é, por isso, menos importante. Temos potencial de torná-lo, neste formato, um produto tipo exportação, ampliando-se as oportunidades de desenvolvimento de novos negócios e competindo como um produto globalizado.

Neste desenho, a responsabilidade de realização dos Campeonatos Estaduais continuaria sendo das Federações, sendo jogado por todos os clubes, menos aqueles que disputam as Ligas Regionais; dos Torneios de Acesso e das Ligas Regionais seria gerido e operado por uma personalidade jurídica a ser constituída por uma hol
ding entre os respectivos clubes e as respectivas federações de cada Liga, em um modelo de governança previamente definido e padronizado entre todas elas; e o Campeonato Brasileiro continuaria sendo feito pela CBF.

Esta constituição, talvez, seja a mais polêmica. Os mais radicais não querem ouvir falar de federações e Confederação envolvidas na organização de competições locais. Em certa medida, estão certíssimos. Mas a realidade é outra. Querer mudar este status a qualquer custo tem sido o maior tiro no pé destes que defendem a mudança.

Importa lembrar, ainda, que sequer falei de Copa do Brasil ou das competições sul-americanas, que formam um capítulo à parte. Tampouco da construção de oportunidades para realização de jogos e torneios festivos em âmbito internacional. São capítulos complementares e importantes para a construção de todo o sistema, que prevê um mínimo de 6 meses de atividades para todos os clubes e um máximo de 9 para aqueles que fizerem todas as etapas finais da grande maioria das competições.

Enfim, tem muito mais detalhe técnico para a análise feita até aqui. Procuro explicar muitos porquês em todo este emaranhado de negócios que foi sinteticamente descrito em uma proposta à parte. Vou parar por aqui para não parecer mais uma série de divagações sem fundamentos. O breve relato está pautado em um desenho mais completo que fiz, estando igualmente defendido com números e informações que considero fidedignas e, portanto, qualificadas.

Para quem quiser aproveitar estas reflexões iniciais para aprofundar e ampliar o debate em torno de um novo modelo, bem como trocar algumas ideias já construídas, estou à disposição pelo geraldo@universidadedofutebol.com.br. Não ouso pretender virar o modelo de cabeça para baixo… Mas contribuir minimamente com algumas destas provocações para a mudança podem fazer sentido para o futuro do futebol brasileiro.