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Radar

Finalmente, consegui ter acesso ao meu primeiro livro de Jorge Valdano.

O ex-jogador e, há alguns anos, executivo de futebol, conhecido como “o filósofo do futebol”, publicou algumas obras interessantes. Porém, ou se encontram esgotadas no país de origem, muito menos possuem edições no Brasil.

Um sebo virtual me salvou, depois de algumas tentativas anteriores para adquirir e começar a ler seus escritos.

“Liderazgo”, em tradução livre para o português, “Liderança”, foi planejado e escrito em conjunto com Juan Mateo, economista e financista espanhol. Inclui ótimas entrevistas com protagonistas dos negócios e do esporte em âmbito mundial.

Da experiência acumulada pelos dois e somada surgiu também a empresa Make a Team, especializada em pesquisa, formação e desenvolvimento de equipes.

No livro, a abordagem se inicia com a exaltação da visão que todo e qualquer líder de equipe deve ter, amparada sempre nos sonhos que as pessoas projetam para suas vidas.

Uma vez que o radar do líder detecte – ou crie – os sonhos, inicia-se o processo de transformação racional em visão, dentro do contexto institucional em que se encontra, e a visão passará a definir as metas para que a equipe persiga.

A importância da visão no processo é tamanha que, antes de exemplificar com o anedotário de saborosas histórias, vaticinam que “é no futuro que passaremos o resto dos nossos dias”.

Assim, a discussão que paira, no momento, acerca da falta de embasamento metodológico-filosófico na formação de jogadores no Brasil, em contraponto à bússola orientada pelo FC Barcelona, prioritariamente, deveria levar em conta qual é a visão dos líderes que comandam nosso futebol.

Qual é o alcance desse radar dos que estão à frente da gestão do futebol no país?

O alcance poderia ser proporcional ao sonho de transformar o futebol brasileiro na maior e, principalmente, melhor indústria do segmento em todo o mundo.

Os autores citam o vitorioso treinador da NBA, Pat Riley: “tudo o que somos capazes de sonhar, somos capazes de conseguir”.

Mencionam o famoso toureiro espanhol Joselito. Quando lhe perguntaram se imaginava algum dia chegar tão longe na carreira, nas aulas de tauromaquia, afirmou: “Tinha um professor chamado Jose de La Cal que me contava suas histórias maravilhosas e de outros toureiros. Contava tão bem que isso fazia me enxergar na arena, e esses sonhos me fizeram viver”.

A história mais curiosa evidenciada é a de Hugo Sanchez, contada pelo companheiro de Valdano quando jogaram no Real Madrid.

Traduzo livremente: “Hugo Sanchez recebeu uma bola, a carregou de perigo com essa convicção cheia de pólvora que tinha e disparou sem piedade: Gol!

O narrador disse que Hugo havia chutado sem pensar. Aquele comentário me pareceu o menos adequado, pois sabia que Hugo levava uma vida imaginando aquele gol e todos os gols possíveis. Antes de dormir, no sinal vermelho e, claro, nos treinos, o verdadeiro esportista repassa mentalmente as jogadas prováveis, até o ponto em que, no momento verdadeiro, são seus músculos que se lembram. Se isso chega a acontecer é porque se cansou de pensar no chute e não porque chutou sem pensar.

Na análise posterior, o comentarista insistiu: ‘Hugo não pensou duas vezes antes de chutar’. De minha poltrona, respondi: ‘Duas vezes não, dois milhões de vezes’.”

Dizem, ao fim e ao cabo, os autores, que o sonho é um detector de oportunidades preparado para caçar qualquer possibilidade que entre na órbita das aspirações.

Em tempo: ainda está no meu radar o gol mais bonito do Hugo Sanchez, o “Hugol”, que gravei desde muito jovem no meu painel de sonhos:

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br
 

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Alguns mitos do nosso futebol

Nos últimos meses, foram levantadas muitas discussões e reflexões sobre o futebol brasileiro. Algumas conclusões foram tiradas em relação à nossa metodologia de treino, sobre a capacitação dos profissionais, a falta de renovação de treinadores, a diminuição do mercado externo para nossos profissionais, e por aí vai…

Por isso, resolvi compartilhar com vocês alguns mitos que estão presentes no cotidiano de treino e contribuem bastante para estarmos onde estamos!

O primeiro grande mito que escuto desde o dia em que iniciei meu trabalho de campo na universidade foi: “essas metodologias novas só servem na Europa”

Por que?

Qual é a diferença?

Para explicar um mito, surge outro: “os jogadores de lá são os melhores do mundo. Quero ver se funciona com jogador cabeça de bagre”

Como???

Será?

Nossos jogadores são cabeça de bagre? Não acredito nisso!

Sou adepto de que todos temos um potencial enorme de desenvolvimento e em muito lugares nossos atletas não chegam nem perto de alcançá-lo, pois submetemos os mesmos a treinos que só dão informações pouco relevantes.

Além disso, hoje o Brasil modificou sua característica exportadora de atletas – temos muitos jogadores voltando e alguns desenvolvendo suas careiras aqui.

Mas voltemos às metodologias…

Não estou defendendo que devemos copiar o que é feito nesse ou naquele país, mas sim discutir, analisar, criticar, elogiar e transformar o que é feito de melhor em qualquer parte do mundo em algo condizente com nossa cultura e alinhada com os objetivos do nosso futebol.

Isso é feito em qualquer outro ramo de nossa economia!

Por que no futebol não pode ser feito?

Alguns então vão lançar mão de outro mito: “tudo bem, então essas metodologias podem ser utilizadas em clubes grandes que têm bons jogadores e uma boa estrutura”

Pergunto novamente, será?

Eu iniciei meu trabalho como a maior parte de nós, com três bolas (quando não sumia uma ou duas no treino, pois o campo não tinha redes e nem alambrado), com meia dúzia de cones e sem coletes, onde se jogava com camisa e sem camisa (para fazer coringa, colocava metade da camisa ou a amarava na cabeça).

Mesmo assim, implantei a metodologia dita “diferente” e conseguimos bons resultados culminando até com um título inédito.

Vejo que esse mito é mais uma coisa de nossa cabeça do que uma realidade, pois nos clubes menores, nas escolas de futebol ou até mesmo em equipes universitárias, a pressão é menor e geralmente a resistência a novas metodologias por parte dos jogadores e da diretoria é menor também (E para você se destacar é preciso fazer algo novo!).

Outro mito: “esses jogos no treinamento só servem para descontrair o grupo. Treinamento tem que ser duro e chato”!

A melhor forma de treinar o jogar é jogando!

Claro que se o jogo não for bem orientado pode ser descaracterizado e virar uma brincadeira sem objetivo, mas quando o mesmo faz parte de um processo e os jogadores sabem muito bem o porquê e quais objetivos estão sendo desenvolvidos, é impossível que o mesmo vire uma brincadeira.

Além do mais, todos os jogadores querem se desenvolver, querem evoluir e é preciso criar um ambiente saudável para isso e ele não precisa ser chato e entediante, mas sim desafiador.

O ambiente também pode ser chato, e muitas vezes é, mas a chatice do treino não pode ser uma ferramenta de análise do treino.

Existem muito outros mitos que gostaria de compartilhar, mas não caberia em uma coluna…

E conto com a ajuda de vocês para enfrentar cada um deles!

Até a próxima!

Para interagir com o autor: bruno@universidadedofutebol.com.br

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O futebol “invisível”

Alguns jogos precisam ser guardados para serem revistos ao longo do tempo. Ver uma partida diversas vezes, podendo pará-la, estudá-la, analisá-la, enfim, ser crítico sobre as inúmeras ações que ocorreram no confronto e que permitiram que uma equipe levasse vantagem sobre a outra, é tarefa necessária para quem pretende aperfeiçoar a sua leitura do jogo de futebol.

E, para aperfeiçoar a sua leitura do jogo, “enxergar” o futebol aparentemente “invisível” será determinante na composição de uma opinião sistêmica da modalidade.

O trecho abaixo, retirado do penúltimo clássico Real Madrid x Barcelona, válido pelo 1º turno do Campeonato Espanhol e que a equipe catalã venceu por 3 a 1, é parte de um destes jogos que devem ser vistos repetidas vezes. De acordo com o tema da semana, a preocupação da edição das imagens deu-se exclusivamente com o referido futebol “invisível”, mais especificamente com um único jogador:
 


 

Grande parcela da mídia, dos torcedores e até dos próprios treinadores, tende a analisar um jogo e/ou um jogador exageradamente pela “qualidade técnica”. Atributos como passe, cabeceio, finalização, desarme, são as características observadas para a definição do nível do atleta.

Porém, quem é leitor assíduo da Universidade do Futebol, seguramente, já observou que ter simplesmente as informações técnicas de determinado jogo ou jogador, desconectadas do Modelo de Jogo da equipe, dirá muito pouco desta equipe e do próprio jogador.

No jogo identificado acima, o atleta analisado realizou nove passes horizontais, seis passes verticais no sentido da própria meta, 12 passes verticais no sentido da meta adversária, errou dois passes, fez sete interceptações completas, oito interceptações incompletas, dois desarmes completos e perdeu a posse de bola uma vez, totalizando 47 ações.

Esta análise pode ser feita por um software quantitativo de análise de jogo, ou então, manualmente (o meu caso) para quem não dispõe deste recurso tecnológico. Estas 47 ações, facilmente visíveis, são somente uma pequena parte dos 90 minutos do jogo de futebol que, no plano individual, é jogado a maioria do tempo sem a bola.

(Em tempos de Copa-SP e exacerbação de comentários sobre bons jogadores de futebol, respeito a importância da análise técnica de um atleta, porém, é incompreensível que uma análise se reduza a esta vertente).

Após um parêntese necessário, retornemos ao vídeo e ao futebol invisível que, jogado sem bola durante quase todo o jogo, infelizmente, poucos enxergam.

Para cada lance, o que poucos enxergam:

1-A velocidade (de decisão) em abrir linha de passe;
2-A diagonal para evitar a penetração;
3-A recomposição para evitar a penetração;
4-O posicionamento com nítida atenção às referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);
5-O atraso da ação adversária com nítida atenção às referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);
6-A cobertura defensiva e a proteção do alvo;
7-O posicionamento com nítida atenção às referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);
8-A ampliação do campo efetivo de jogo com a equipe em posse de bola;
9-A recomposição e o posicionamento para cortar um possível cruzamento;
10-O atraso da ação adversária para posicionamento dos companheiros;
11-A rápida recomposição mesmo quando é ultrapassado;
12-O atraso da ação adversária para posicionamento dos companheiros;
13-A velocidade (de decisão) em abrir linha de passe mesmo que não receba a bola;
14-A rápida diagonal para posicionar-se entre bola e alvo;
15-A diagonal para evitar a penetração;
16-O equilíbrio defensivo, a eficiente diagonal e o foco na trajetória da bola, e não no corpo do adversário;
17-O bom posicionamento defensivo quando distante da bola;
18-A rápida recomposição mesmo quando é ultrapassado;

A partida só não foi perfeita para este jogador, pois em duas situações do jogo errou a decisão (e a ação), como pode ser observado no pequeno trecho abaixo:
 


 

Na primeira imagem, opta pelo combate em detrimento à recomposição e cobertura, permitindo o passe adversário para um setor desprotegido. Na sequência, passa da bola e não prevê o corte para dentro; quando resolve voltar, é tarde demais.

Quanto mais pessoas enxergarem o futebol sem bola, mais rapidamente acontecerão as urgentes transformações do futebol brasileiro. Na perspectiva administrativa, contratações mais assertivas poderão ser realizadas; na perspectiva técnica, principalmente em relação à metodologia de treinamento, será compreendido que cada ação de um jogador no jogo, como bem diz o Dr. Alcides Scaglia, é pautada por uma intenção, portanto, carregada de significado. E este significado (indispensavelmente correlacionado ao futebol) deve ser buscado em cada sessão de treinamento.

Já num plano comercial, se mídia e torcedores brasileiros um dia enxergarem o futebol “invisível”, serão mais críticos na análise do que deveria ser um espetáculo.

Sem dúvida, ganhariam todos! Hoje, quem mais ganha é o futebol europeu! Representado na coluna por Carles Puyol que, ao contrário de muitos defensores brasileiros com mais de 30 anos de idade, sobe o bloco quando sua equipe tem a posse de bola, pressiona constantemente em espaço e tempo seus adversários, sai jogando predominantemente com passes curtos, além dos comportamentos que puderam ser observados no vídeo. Tudo isso com uma altura (1,80m), para muitos, inapropriada para zagueiros.

Uns dizem que os jogadores do Barcelona se entregam ao jogo, outros que treinam muito passe, outros ainda que tudo que aconteceu foi obra do acaso: “você junta os jogadores e as coisas acontecem naturalmente”.

Prefiro dizer que eles dominam o futebol invisível. Visto nesta coluna no plano individual e que deve ser feito no jogo, por todos, no plano coletivo.

Para interagir com o autor: eduardo@149.28.100.147
 

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O futebol "invisível"

Alguns jogos precisam ser guardados para serem revistos ao longo do tempo. Ver uma partida diversas vezes, podendo pará-la, estudá-la, analisá-la, enfim, ser crítico sobre as inúmeras ações que ocorreram no confronto e que permitiram que uma equipe levasse vantagem sobre a outra, é tarefa necessária para quem pretende aperfeiçoar a sua leitura do jogo de futebol.

E, para aperfeiçoar a sua leitura do jogo, “enxergar” o futebol aparentemente “invisível” será determinante na composição de uma opinião sistêmica da modalidade.

O trecho abaixo, retirado do penúltimo clássico Real Madrid x Barcelona, válido pelo 1º turno do Campeonato Espanhol e que a equipe catalã venceu por 3 a 1, é parte de um destes jogos que devem ser vistos repetidas vezes. De acordo com o tema da semana, a preocupação da edição das imagens deu-se exclusivamente com o referido futebol “invisível”, mais especificamente com um único jogador:
 


 

Grande parcela da mídia, dos torcedores e até dos próprios treinadores, tende a analisar um jogo e/ou um jogador exageradamente pela “qualidade técnica”. Atributos como passe, cabeceio, finalização, desarme, são as características observadas para a definição do nível do atleta.

Porém, quem é leitor assíduo da Universidade do Futebol, seguramente, já observou que ter simplesmente as informações técnicas de determinado jogo ou jogador, desconectadas do Modelo de Jogo da equipe, dirá muito pouco desta equipe e do próprio jogador.

No jogo identificado acima, o atleta analisado realizou nove passes horizontais, seis passes verticais no sentido da própria meta, 12 passes verticais no sentido da meta adversária, errou dois passes, fez sete interceptações completas, oito interceptações incompletas, dois desarmes completos e perdeu a posse de bola uma vez, totalizando 47 ações.

Esta análise pode ser feita por um software quantitativo de análise de jogo, ou então, manualmente (o meu caso) para quem não dispõe deste recurso tecnológico. Estas 47 ações, facilmente visíveis, são somente uma pequena parte dos 90 minutos do jogo de futebol que, no plano individual, é jogado a maioria do tempo sem a bola.

(Em tempos de Copa-SP e exacerbação de comentários sobre bons jogadores de futebol, respeito a importância da análise técnica de um atleta, porém, é incompreensível que uma análise se reduza a esta vertente).

Após um parêntese necessário, retornemos ao vídeo e ao futebol invisível que, jogado sem bola durante quase todo o jogo, infelizmente, poucos enxergam.

Para cada lance, o que poucos enxergam:

1-A velocidade (de decisão) em abrir linha de passe;
2-A diagonal para evitar a penetração;
3-A recomposição para evitar a penetração;
4-O posicionamento com nítida atenção às referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);
5-O atraso da ação adversária com nítida atenção às referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);
6-A cobertura defensiva e a proteção do alvo;
7-O posicionamento com nítida atenção às referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);
8-A ampliação do campo efetivo de jogo com a equipe em posse de bola;
9-A recomposição e o posicionamento para cortar um possível cruzamento;
10-O atraso da ação adversária para posicionamento dos companheiros;
11-A rápida recomposição mesmo quando é ultrapassado;
12-O atraso da ação adversária para posicionamento dos companheiros;
13-A velocidade (de decisão) em abrir linha de passe mesmo que não receba a bola;
14-A rápida diagonal para posicionar-se entre bola e alvo;
15-A diagonal para evitar a penetração;
16-O equilíbrio defensivo, a eficiente diagonal e o foco na trajetória da bola, e não no corpo do adversário;
17-O bom posicionamento defensivo quando distante da bola;
18-A rápida recomposição mesmo quando é ultrapassado;

A partida só não foi perfeita para este jogador, pois em duas situações do jogo errou a decisão (e a ação), como pode ser observado no pequeno trecho abaixo:
 


 

Na primeira imagem, opta pelo combate em detrimento à recomposição e cobertura, permitindo o passe adversário para um setor desprotegido. Na sequência, passa da bola e não prevê o corte para dentro; quando resolve voltar, é tarde demais.

Quanto mais pessoas enxergarem o futebol sem bola, mais rapidamente acontecerão as urgentes transformações do futebol brasileiro. Na perspectiva administrativa, contratações mais assertivas poderão ser realizadas; na perspectiva técnica, principalmente em relação à metodologia de treinamento, será compreendido que cada ação de um jogador no jogo, como bem diz o Dr. Alcides Scaglia, é pautada por uma intenção, portanto, carregada de significado. E este significado (indispensavelmente correlacionado ao futebol) deve ser buscado em cada sessão de treinamento.

Já num plano comercial, se mídia e torcedores brasileiros um dia enxergarem o futebol “invisível”, serão mais críticos na análise do que deveria ser um espetáculo.

Sem dúvida, ganhariam todos! Hoje, quem mais ganha é o futebol europeu! Representado na coluna por Carles Puyol que, ao contrário de muitos defensores brasileiros com mais de 30 anos de idade, sobe o bloco quando sua equipe tem a posse de bola, pressiona constantemente em espaço e tempo seus adversários, sai jogando predominantemente com passes curtos, além dos comportamentos que puderam ser observados no vídeo. Tudo isso com uma altura (1,80m), para muitos, inapropriada para zagueiros.

Uns dizem que os jogadores do Barcelona se entregam ao jogo, outros que treinam muito passe, outros ainda que tudo que aconteceu foi obra do acaso: “você junta os jogadores e as coisas acontecem naturalmente”.

Prefiro dizer que eles dominam o futebol invisível. Visto nesta coluna no plano individual e que deve ser feito no jogo, por todos, no plano coletivo.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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O ABC do UFC: aspectos jurídicos

O mundo tem presenciado um estrondoso crescimento do UFC. NO Brasil não é diferente. Após transmissão em TV aberta pela RedeTV, a Rede Globo de Televisão adquiriu os direitos e está transmitindo o evento com seu primeiro time de esportes, inclusive, com narração do polêmico Galvão Bueno que imediatamente criou o bordão “gladiadores do terceiro milênio” para definir os atletas.

O interesse da Globo não foi sem motivos: a transmissão do UFC 134 pela RedeTV em agosto de 2011 rendeu à emissora um inédito primeiro lugar no IBOPE.

O UFC remete à sigla “Ultimate Fighting Championchip” e corresponde a uma espécie de liga de lutadores de várias artes marciais, o que corresponde a uma especialidade da modalidade arte marcial denominada MMA (Artes Marciais Mistas), tal como o futebol de salão é uma especialidade da modalidade futebol.

Esta liga surgiu no início dos anos 1990 quando o brasileiro Rorion Gracie, no intuito de divulgar a arte marcial, o “brazilian jiu-jitsu”, inventada pelo seu pai, Hélio Gracie, convidava amigos para assistir às suas lutas para provar que era imbatível.

A competição começou a tomar corpo quando o publicitário Art Davie, aluno de Rorion Gracie, juntamente com o diretor de cinema John Milius (de Apocalipse Now) associaram-se ao lutador e colocaram anúncios em periódicos convocando atletas das mais variadas modalidades de artes marciais. Assim, com oito participantes, em 12 de novembro de 1993, nascia em Denver o UFC.

O que era para se ater a uma edição passou a contar com outras que, no começo, ocorriam sem muitas regras (combates sem luvas, por exemplo). Diante disso, alguns Estados americanos passaram a proibir o evento, o que quase extinguiu o UFC; até que em 2001, o empresário Dana White, juntamente com dois investidores, comprou a marca e reinventou esta liga de MMA.

Atualmente, o UFC é uma das marcas esportivas mais valiosas do mundo. Tanto que, em 2011, um xeque árabe comprou 10% dos direitos por 200 milhões de dólares, preço pago pela integralidade do evento em 2001. Transmitido para 150 países e território e em 22 línguas, o UFC possui uma audiência de cerca de 597 milhões de famílias.

Apesar de chamado de “vale-tudo”, atualmente o UFC possui regras gerais, quais sejam: obrigatoriedade do uso de luvas de dedo aberto, de coquilha (protetor genital) e protetor bucal e possibilidade de se usar sapatilhas, protetores para os joelhos e cotovelos e bandagem para tornozelos e punhos.

Além disso, houve divisão em sete categorias de acordo com o peso e há uma série de proibições, como dar cabeçada, puxar os cabelos, colocar o dedo nos olhos ou ter conduta antiesportiva que cause dano ao oponente.

Cada evento do UFC tem cerca de 10 lutas, sendo uma delas que pode valer um cinturão, a principal. Cada luta tem três rounds de cinco minutos com um de intervalo, exceto a luta principal que pode ter cinco rounds.

Há quem entenda se tratar de um esporte muito violento, porém, sob o ponto de vista jurídico, a violência corresponde a exercício regular de direito, eis que as regras da competição não são vedadas em lei e os participantes anuem a elas, ou seja, exponham-se aos riscos.

Portanto, o Código Penal Brasileiro prevê o exercício regular de um direito como excludente da ilicitude, tendo em vista que se uma conduta é admitida por outro ramo do Direito, não pode ser objeto de punição pela legislação criminal.

Destarte, a doutrina entende que lesões são componentes naturais de determinados esportes, não havendo, em princípio, responsabilidade criminal, uma vez que se trata de ter sido praticado no exercício regular de um direito. Assim se manifesta, majoritariamente, a doutrina, senão vejamos:
 

“Em certos tipos de esportes regulamentados (futebol, boxe, judô, etc.) podem resultar lesões nos contendores. Estarão elas compreendidas nesta causa de exclusão, desde que obedecidas as regras próprias do esporte que disputavam”.( Código Penal Comentado / Celso Delmanto – 7 ed. – Rio de Janeiro: Renovar, 2007.)

Deve-se considerar que a Constituição da República determina ser dever do Estado incentivar as práticas desportivas (Art. 217, caput), assim, a imputação de responsabilidade criminal teria o condão de neutralizar a intenção do legislador constitucional, conforme ressalta o renomado penalista Julio Fabbrini Mirabete.
 

“Há esportes que podem provocar danos à integridade corporal ou à vida (boxe, luta livre, futebol, etc.). Havendo lesões ou morte, não ocorrerá crime por ter o agente atuado em exercício regular de direito. O Estado autoriza, regularmente, e até incentiva a prática de esportes, socialmente úteis, não podendo punir aqueles que, exercitando um direito, causam dano”.( Manual de direito penal, volume 1: parte gral, arts. 1° a 120 do CP / Julio Fabbrini Mirabete, Renato N. Fabbrini. – 24. ed. Rev. e atual. até 31 de dezembro de 2006. – São Paulo: Atlas, 2007)

Para deslinde, cita-se o professor Álvaro Melo Filho:
 

Cumpre, aqui, saber se os golpes e lesões causadas decorreram, ou não, do exercício regular de determinado desporto e se houve, ou não, observância de suas regras de jogo para que se possa aferir responsabilidade jurídica. Induvidosamente o risco é inerente à práxis desportiva. (…). Em suma, a fronteira entre a impunidade e a punibilidade na práxis desportiva decorre da observância das regras de jogo que se colocam como limite para haver, ou não, a punibilidade, sendo apenáveis as condutas que causem lesão em face do menosprezo ou desrespeito às regras da respectiva modalidade desportiva (FILHO, Álvaro Melo. Artigo científico: CBJD 2010: reequilíbrio do jogo jus-desportivo. Disponível em: . Acesso em: 25 mar 2011) (…)

Assim, a prática do esporte, no caso, do MMA no UFC, nos estritos termos da disciplina que o regulamenta, não constitui crime, bem como deve ser protegida pelo Estado, nos termos da Constituição Brasileira de 1988.

Ante o exposto, sob o ponto de vista jurídico, conclui-se que o UFC constitui uma Liga da Modalidade de Arte Marcial, especialidade MMA, ou seja, Artes Marciais Mistas, e os golpes dos atletas realizados de acordo com o regulamento da modalidade e da competição são considerados exercício regular do direito, e não crimes.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br 

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Obrigado e até breve!

Caros leitores,

para alegria de alguns e tristeza de outros venho anunciar meu afastamento temporário como colunista semanal.

Por razões profissionais, as quais passaram a exigir muito do meu tempo, antes que eu pudesse comprometer a qualidade das colunas e acabar atrapalhando o fluxo da equipe do portal, preferi sair.

Quero agradecer a cada um que em algum momento da vida investiu seu precioso tempo para ler uma das minhas colunas e agradecer mais ainda aqueles que além de lerem, escreveram, tiraram dúvidas, deram ideias, criticaram e me fizeram crescer muito.

Cresci não somente como profissional, mas também como pessoa. Podem ter certeza disso!

Quero agradecer especialmente a toda equipe da Universidade do Futebol pela oportunidade de fazer parte desta maravilhosa família durante um pouco mais de um ano. Nesse período procurei discutir assuntos que julgava relevante, principalmente sobre os aspectos físicos relacionados ao futebol.

Foi um grande desafio exercitar a criatividade e fazer um novo texto a cada semana.

Apesar das minhas limitações, espero ter dado minha contribuição durante esse período e torço para que, de alguma forma, pelo menos uma de minhas colunas tenha ajudado de alguma forma a você pensar melhor o futebol.

Não sei se atingi meus objetivos. Deixo o julgamento para vocês. O que sei é que a cada semana dei o meu melhor e tive um enorme prazer em confeccionar cada um dos textos que agora ficam aí para apreciação de todos que se interessarem.

Não quero que este afastamento seja permanente e sempre que possível continuarei colaborando com textos para a sessão de “artigos”.

De qualquer forma, nosso canal de comunicação permanece o mesmo e desejo a todos muitas realizações e sucesso!

Então, a todos vocês, o meu obrigado e até breve!

Para interagir com o autor: cavinato@universidadedofutebol.com.br

 

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Novamente a especialidade

Novamente o tema em voga está respaldado pela Copa São Paulo de Futebol Junior. E desta feita guarda relação com a especialidade e o conhecimento de causa a respeito do processo de formação de atletas e os resultados esportivos precoces.

O fato: um grande clube do futebol brasileiro foi eliminado precocemente da “Copinha” e seu presidente veio a público afirmar que “alguém pagará por isso”.

Lembro de ter feito uma pesquisa científica neste clube no passado e de ter conversado informalmente com algumas pessoas, estudiosas estas da gestão e das necessidades que um atleta possui para crescer e se desenvolver, por etapas, ao longo da sua formação.

Os mesmos explicaram que não gostavam de participar de torneios de curta duração ao longo de determinadas etapas de formação dos atletas, pois, entendiam eles, que a elevada intensidade proporcionada por estas competições poderia prejudicar o desenvolvimento físico e muscular dos adolescentes.

Neste sentido, os torneios eram escolhidos por questões mercadológicas, e eram muito bem avaliados e selecionados antes de efetivamente decidir-se por sua participação ou não.

Assim, naturalmente, a Copa São Paulo se enquadrava no calendário pela visibilidade proporcionada pela mesma, mas não era o divisor de águas para decidir quem seria ou não atleta profissional.

Em suma, o que se quer dizer é que, em um trabalho consistente e coerente de formação de jogadores para o futebol nem sempre o título é sinônimo de revelação de bons atletas. Tal premissa já foi analisada em muitas ocasiões aqui mesmo no site Universidade do Futebol, por especialistas no assunto.

Desta maneira, é novamente incompreensível a intromissão de dirigentes amadores, sem conhecimento de causa, a tumultuar um ambiente de um clube revelador de grandes talentos.

A insistência em atravessar um campo em que não possui competência acaba se tornando um vício e pode atrapalhar anos de organização e sistematização de processos, construídos com muito estudo a partir de ciclos de aprendizagem.

Enquanto nossos dirigentes permanecerem com o pensamento teimoso de se intrometer em todos os departamentos, mesmo sem reunir saberes sobre os mesmos, os clubes administrados por eles devem simplesmente parar no tempo… ou galgar caminhos nas profundezas pelo alfabeto nas Séries B… C… D…

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

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Copa São Paulo de Futebol Júnior: bom jogador surge do nada?

Olá, amigos!

No fim do ano passado o mundo (além daqueles que trabalham seriamente e que já tinham noção) se assombrou e discutiu a formação de atletas no próprio clube vendo o sucesso do Barcelona, time sensação e referência global que tem colhido frutos de um sistema de formação eficiente e que contou, além da competência, com a sorte de uma geração brilhante que hoje faz parte do elenco principal.

Muitos colegas e eu inclusive já discutimos alguns pontos sobre o processo de detecção de talento, acompanhamento, sistema de formação e também sobre o funcionamento das categorias de base do time catalão

Pois bem, estamos chegando nesta semana nos jogos decisivos da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Muitos esperam seu término para ver quais serão os destaques e a futura geração do futebol brasileiro.

O que preocupa é que dentre esses muitos, encontramos os profissionais do futebol, representado muitas vezes por dirigentes e técnicos que se manifestam com palavras e imagens se vangloriando de estar atentos à “Copinha”, esperando o surgimento de um ou dois atletas para compor o elenco profissional dependendo do desempenho na competição.

Está certo isso?

Muitas vezes numa competição o atleta pode ter seu momento de destaque e acaba se consolidando para integrar as equipes principais de qualquer time do país. Mas aceitar que um clube, principalmente os ditos grandes, esperem que dois ou três jogadores “brotem” do nada é o mesmo que certificar-se e evidenciar a incompetência na gestão das categorias de base do futebol brasileiro.

Hoje temos estrutura e tecnologia suficientes para conseguirmos acompanhar os atletas do próprio clube e mesmo os de outros através de gerenciamento de dados e informações das competições das diversas categorias, para mapear e investigar destaques e evolução dos atletas de diferentes gerações. Assim, um clube deveria se programar para subir dois ou três atletas com base num acervo de dados compilados durante um período de tempo maior, trabalhando as carências da equipe principal junto às comissões técnicas das demais categorias – aliás, essas comissões deveriam fazer parte da principal, como complemento de funções.

Mas o que acontece é que o clube muitas vezes quer ganhar o sub-13, conquista o título, e sem se importar que o atleta com 15 anos mantenha-se em alto nível dentre os pares da mesma geração: o importante muitas vezes para o técnico da categoria é conseguir no ano seguinte ser bicampeão do sub-13, e no outro ser tricampeão.

O titulo dá respaldo, sim, mas aí que temos a diferença: quantos atletas do sub-13 têm chegado ao principal dali cinco a oito anos? O número não vai ser alto, justificariam alguns, mas não precisa ser insignificante.

E mesmo que não seja um aproveitamento gigante, tal como os nove titulares do Barcelona que compõe o time base, podemos ter um resultado melhor.

Agora, enquanto os clubes não investirem em tecnologia, conhecimento, e estrutura para realmente formar atletas, e não só com o único e exclusivo objetivo de vendê-los antes de chegar ao profissional (que se tem tornado comum), com certeza novos softwares, novos recursos e novos profissionais irão se encontrar no meio; e, sobretudo, novos e mais atletas não dependerão de uma grande explosão na Copa São Paulo de Futebol Júnior para tentar a chance da vida.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br
 

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Categoria de base no Brasil – parte I

Hoje o Corinthians gasta cerca de 15 milhões de reais por ano para manter oito equipes, do Dente de Leite ao Juniores. Se considerarmos que existam 30 atletas por categoria, teremos 240 crianças e jovens utilizando a estrutura (alimentação, saúde, alojamento, treinadores, etc…) do clube para chegar à sonhada equipe principal.

A cada transição de categoria, jogadores ficam pelo caminho enquanto novos atletas surgem para ocupar o lugar daqueles que não conseguiram prosseguir. Ao final do processo, quantos meninos, de fato, chegarão ao time de cima? Quantos serão profissionais em outros clubes?

Antes de responder, é preciso entender que o cenário atual é completamente diferente daquele vivido nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Nessa época, jovens eram promovidos à equipe principal por terem uma qualidade excepcional ou porque os clubes brasileiros, em desgraça financeira, não tinham condições de contratar atletas renomados.

Com isso, eram obrigados a preencher seus elencos com garotos que, apesar de despreparados, poderiam em um ou dois jogos encantar olheiros europeus e receber uma bolada de dinheiro pela transferência. Essa era a única forma de sobreviver e sanar parte dos problemas financeiros do clube.

Hoje, com a acentuada melhora econômica do país, o aumento da arrecadaçao e dos direitos de TV pagos aos grandes clubes tornou-se possível manter bons jogadores no elenco, duelar financeiramente contra times pequenos e médios da Europa e oferecer uma estrutura de trabalho que convença muitos atletas a permanecerem por aqui. Além disso, a possibilidade e a necessidade de contratar bons jogadores para preencher as carências da equipe, e fazê-la conquistar títulos, tem feito com que seja cada dia mais difícil acreditar que um jovem de 18 anos terá espaço no time de cima.

Abaixar a idade limite de 20 para 18 anos no torneio mais tradicional de base do Brasil é algo intragável. Fazer isso e ainda manter as competições estaduais sub-17 e sub-20 é confuso e irracional. Nínguém mais sabe qual competição priorizar ou o que fazer com os meninos de 19 e 20 anos que não podem disputar a Taça São Paulo mas que ainda não estão prontos para o profissional. Essa precocidade “forçada” desperdiça talentos e vidas dedicadas ao esporte simplesmente porque aqueles que comandam o futebol no país não se adaptaram à nova realidade. Assim, não há dinheiro ou fé que salvem as categorias de base e façam valer a pena o investimento.

Essa é a constatação prática de quem está há três anos em um grande clube e treinou, durante esse período, com inúmeros garotos credenciados a subir ao time principal. A maioria deles ficou conosco por três ou seis meses e em nenhum momento demonstraram condições de jogar ou mesmo de permanecer no elenco. Não porque não tinham potencial suficiente, mas porque ainda eram imaturos física e tecnicamente. Para falar a verdade, em alguns casos a diferença era tamanha que chegava a atrapalhar a qualidade dos treinos e prejudicar o ritmo dos demais jogadores.

Por isso os cartolas que alteraram a fórmula deveriam saber que, salvo casos excepcionais como Neymar, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e alguns outros gênios precoces, jovens de 18 anos ainda não atingiram nem a maturação física nem um nível técnico/tático aceitável para disputar posição com atletas da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Se entendessem que nessa idade os garotos ainda estão em plena formação e evolução e que é muito cedo para decidir se ele será ou não um bom jogador, talvez mudassem as “regras do jogo”. Principalmente porque “adiantar” em dois anos a decisão dos clubes/treinadores causa um efeito cascata com consequências nefastas aos cofres dos times que essas mesmas entidades/federações teriam por objetivo defender ou ajudar.

Vou usar meus companheiros de time como exemplo: Weldinho foi contratado junto ao Paulista de Jundiaí aos 20 anos. Leandro Castán foi revelado no Atlético-MG, teve que ir para a Suécia e voltar ao Barueri para depois chegar, mais maduro, ao Corinthians. Ralf rodou times pequenos e foi descoberto, aos 24 anos, depois de bela campanha no Grêmio Barueri. Paulinho formou-se no Pão de Açúcar, jogou no Bragantino e chegou ao Corinthians quase de graça. Bruno César fez a base em times grandes mas foi trazido depois de uma boa campanha no Santo André. Indo na contramão, Fagner (lateral do Vasco da Gama) se formou no Corinthians mas não teve espaço. Fabrício, lateral esquerdo (hoje no Inter) também. Posso citar muitos outros exemplos para mostrar que, no modelo atual, os clubes formadores e empresários são forçados a ceder ou emprestar jovens atletas a equipes menores com o intuito de fazê-los adquirir experiência e tempo de jogo suficientes para, quem sabe um dia, voltarem preparados ao clube grande.

Mas então por que o desespero de assinar contratos profissionais com garotos de 16 anos? E pior que isso, por que pagar-lhes suntuosos salários simplesmente para aumentar a multa de rescisão do contrato e evitar perdê-los aos clubes aliciadores que roubam atletas pela imposição do dinheiro? O gasto é elevado demais enquanto o retorno é insuficiente e incerto para fazer a máquina funcionar sozinha. Além disso, o risco de errar ao se assinar contratos profissionais a torto e a direito porque X ou Y fizeram jogos ou campanhas extraordinários no Infantil ou Juvenil é enorme pois sabemos que ser um grande artilheiro na base não é garantia de sucesso no profissional.

Se não houver uma mudança cultural e de reorganização do calendário, das competições, da formação das equipes de base pensando sempre no longo prazo e no futuro do futebol brasileiro, acredito que os clubes grandes deveriam mudar suas estratégias (assim como fazem Manchester, Real Madrid, etc…) e pensarem como empresa, diminuindo o risco e otimizando o lucro. Ou seja, na atual conjuntura, a melhor decisão, financeiramente falando, seria contratar cinco revelações por ano ao preço de 3 milhões de reais cada, ao invés de gastar 15 milhões de reais para manter 240 pessoas treinando. É mais seguro contratar cinco jovens talentos (de 21 ou 22 anos) de clubes pequenos/médios que comprovadamente atuaram em um bom nível profissional na última temporada do que tentar revelar um fenômeno ou cinco bons atletas por ano.

O que você acha disso?

Esse assunto será discutido nos três próximos posts. Nesta semana postarei o contra-argumento dessa tese. Espero o seu comentário e sua ideia para elevar a discussão.

*Nascido em 20 de agosto de 1983, Paulo André Cren Benini iniciou sua carreira como infantil do São Paulo Futebol Clube, em 1998, onde permaneceu até 2001, conquistando dois títulos paulistas de categoria de base (2000 e 2001). Em dezembro de 2001, foi transferido para o Centro Sportivo Alagoano, ficando por apenas três meses.

Em março de 2002, Paulo André voltou para o estado de São Paulo, desta vez para atuar no Águas de Lindóia Esporte Clube. Lá, foi campeão paulista de juniores da Série A-2 e teve sua primeira chance como profissional, ajudando o clube a subir da quinta para a quarta divisão estadual. Em janeiro de 2003, transferiu-se para os juniores do Guarani Futebol Clube, onde foi promovido aos profissionais. Em julho de 2004, sofreu com uma contusão no púbis, que o deixou afastado por seis meses.

Em junho de 2005, Paulo André foi transferido para o Clube Atlético Paranaense, onde foi consagrado como um dos cinco melhores zagueiros do Brasil, pela Revista Placar. Em 2006, recebeu o título de Melhor Zagueiro do Estado, pela Federação Paranaense de Futebol.

Aos 22 anos, em junho de 2006, o atleta firmou contrato de quatro anos com o Le Mans Football Club, onde participou por três anos dos campeonatos: Francês, Copa da França e Copa da Liga. Em julho de 2009, Paulo
André foi apresentado como nova contratação do Sport Club Corinthians Paulista, em um empréstimo que iria até agosto de 2010.

Mesmo atuando como reserva, o zagueiro destacou-se nas jogadas aéreas, marcou três gols, e teve seus direitos econômicos comprados pelo time paulista, firmando novo contrato que vai até julho de 2012.

O texto foi retirado na íntegra do blog mantido pelo jogador: http://pauloandre-13.blogspot.com/.


 

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Identidade

Dia desses, estive conversando com um grande amigo a respeito de coisas do futebol.

Mais especificamente, sobre o porquê de um determinado clube conhecido por ambos estar em grave crise administrativa.

Ele, com muita experiência profissional, no Brasil e fora, somando a lucidez de visão, respodera:

“O clube precisa resgatar sua identidade. Isso não existe há muito tempo.”

E, por ter feito parte de um período da instituição em que se forjara uma identidade forte, coesa e também vitoriosa, essa afirmação soava, para mim, como diagnóstico preciso.

Na Wikipédia, “Identidade é o conjunto de caracteres próprios e exclusivos com os quais se podem diferenciar pessoas, animais, plantas e objetos inanimados uns dos outros, quer diante do conjunto das diversidades, quer ante seus semelhantes”.

Ademais, antropologicamente, tem-se que a “Identidade consiste na soma nunca concluída de um aglomerado de signos, referências e influências que definem o entendimento relacional de determinada entidade, humana ou não-humana, percebida por contraste, ou seja, pela diferença ante as outras, por si ou por outrem. Portanto, Identidade está sempre relacionada a ideia de alteridade, ou seja, é necessário existir o outro e seus caracteres para definir por comparação e diferença com os caracteres pelos quais me identifico”.

Tentando aproximar os dois conceitos do futebol e do próprio tema trazido àquela conversa, entendo ser possível resumir e, ao mesmo tempo, traçar as devidas analogias.

Identidade, no clube de futebol, é o conjunto de atributos próprios e exclusivos, reunidos em torno de pessoas, ou por elas construídos, bem como os símbolos, as estruturas, as ideias e seus fatores históricos, que determinam a todos estes um sentimento de pertencer à instituição ou dela poder se apropriar de forma intangível.

O decantado Barcelona de hoje, dentre outros grandes clubes europeus, e alguns poucos do Brasil, conseguem construir e solidificar sua identidade em todos os aspectos que conformam a instituição.

Já havia mencionado em outra coluna que a política de gestão faz com que o clube não perca sua essência.

Com os dirigentes sabendo qual é a identidade da instituição e a incluindo no planejamento e execução no dia a dia da gestão, fica mais fácil montar equipes competitivas em todos os níveis e departamentos – não só dentro de campo e na equipe profissional.

Ao contrário, caso se faz uso de gestão política – agraciando empresários, torcida organizada, diretores e conselheiros sem competência técnica para ocupar funções executivas – o resultado pode ser a perda e distanciamento gradativo do DNA institucional que forja a história do clube.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br